A
CASA
TORTA
—
Quando
digo
que
Brenda
provavelmente
o
matou,
estou
consciente
de
que
isso
não
passa
de
um
desejo.
Tenho
que
saber
a
verdade.
Preciso
saber.
Preciso
saber
em
benefício
de
minha
própria
paz
de
espírito.
Mas
o
fato
é
que
tenho
medo...
medo...
muito
medo!
COLEÇÃO
AGATHA
CHRISTE.
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
AGATHA
CHRISTIE
A
CASA
TORTA
Tradução
de
CARMEN
BALLOT
9ª
edição
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
Título
do
original
em
inglês
CROOKED
HOUSE
©
1948,
1949
by
Agatha
Christie
Mallowan
Capa
ROLF
GUNTHER
BRAUN
Revisão
A.
TAVARES
Direitos
adquiridos
para
a
língua
portuguesa
pela
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
S.A.
Rua
Maria
Angélica,
168
—
Lagoa
—
CEP
22461
—
Tel.
286-7822
Endereço
Telegráfico:
NEOFRONT
Rio
de
Janeiro
—
RJ
Proibida
a
exportação
para
Portugal
e
países
africanos
de
língua
portuguesa
LISTA
DOS
PERSONAGENS
Charles
Hayward
Seu
amor
por
Sophia
levou-o
a
tentar
desvendar
o
mistério
que
pairava
sobre
a
Casa
Torta.
Sophia
Leonides
Neta
do
velho
Aristide
—
apesar
do
medo
era
uma
moça
decidida.
Sir
Arthur
Hayward
Pai
de
Charles,
Comissário-Assistente
da
Scotland
Yard.
Ele
acha
que
a
melhor
maneira
de
conseguir
informações
é
ficar
à
escuta...
Inspetor-Chefe
Taverner
O
braço
direito
de
Sir
Arthur.
Acredita
que
remexer
o
assunto
é
sempre
útil.
Edith
de
Haviland
Não
havia
dúvidas
de
que
ela
odiava
o
velho
Aristide,
seu
cunhado,
mas
talvez
ela
também
o
amasse...
Philip
Leonides
Pai
de
Sophia,
frio
como
aço,
por
fora,
mas
por
dentro
cheio
de
paixões
que
bem
podiam
ser
homicidas.
Magda
Leonides
Mãe
de
Sophia,
uma
atriz
que
sabia
representar
diversos
papéis.
Roger
Leonides
O
filho
mais
velho
de
Aristide,
um
homem
de
temperamento
violento.
Clemency
Leonides
A
esposa
de
Roger,
uma
cientista.
Era
impossível
saber
onde
a
levaria
o
amor
pelo
marido.
Brenda
Leonides
A
jovem
segunda
esposa
de
Aristide.
Talvez
ela
quisesse
ser
viúva...
Laurence
Brown
Ele
achava
Brenda
extremamente
gentil...
e
talvez,
ele
também
quisesse
que
ela
fosse
viúva.
Eustace
Leonides
Irmão
de
Sophia,
um
rapaz
que
tinha
um
caráter
tão
torto
como
a
Casa
Torta.
Josephine
Leonides
Irmã
de
Sophia,
a
mais
nova
do
clã
dos
Leonides
—
e
um
detetive
em
potencial.
Capítulo
1
EU
CONHECI
Sophia
Leonides
no
Egito,
lá
para
o
fim
da
guerra.
Ela
ocupava
um
cargo
de
muita
responsabilidade
num
dos
departamentos
do
Ministério
do
Exterior
ali
sediados.
Eu
a
vi
pela
primeira
vez
em
missão
oficial
e
reparei
logo
na
eficiência
que
a
elevara
à
posição
que
ocupava,
apesar
de
sua
juventude
(ela
estava,
naquela
época,
com
apenas
vinte
e
dois
anos).
Além
de
ser
uma
mulher
muito
bonita,
tinha
um
espírito
muito
vivo
e
um
senso
de
humor
perfeito
que
eu
achei
deliciosos.
Tornamo-
nos
amigos.
Eu
gostava
de
conversar
com
ela
e
nos
divertíamos
muito
quando
saíamos
juntos
para
jantar
e
dançar.
Disso
tudo
eu
sabia
—
mas
somente
ao
ser
transferido
para
o
Oriente,
no
final
da
guerra
na
Europa,
foi
que
me
ocorreu
outra
coisa:
que
eu
amava
Sophia
e
queria
casar-me
com
ela.
Jantávamos
no
Shepheard's
quando
fiz
essa
descoberta.
Não
foi
bem
uma
surpresa,
e
sim,
o
reconhecimento
de
um
fato
com
que
já
me
familiarizara.
Olhei-a
com
novos
olhos
—
mas
percebi
que
já
sabia
disso
há
muito
tempo.
Gostei
do
que
vi.
Os
cabelos
escuros
anelados
que
brotavam
orgulhosamente
do
alto
da
testa,
os
olhos
azuis
muito
vivos,
o
queixinho
quadrado
e
agressivo,
o
nariz
reto.
Gostei
do
costume
cinza-claro,
bem
talhado,
e
da
blusa
branca,
pregueada.
Ela
parecia
inglesa
da
cabeça
aos
pés
e
isto
ainda
mais
me
atraiu,
depois
de
três
anos
longe
da
terra
natal.
Ninguém,
pensei,
poderia
ser
mais
britânico
do
que
Sophia
—
e
ao
mesmo
tempo
em
que
pensava
nisso,
indaguei
comigo
mesmo
se,
de
fato,
ela
era,
ou
melhor,
poderia
ser
tão
inglesa
quanto
aparentava.
As
coisas
reais
teriam
acaso
a
mesma
perfeição
de
um
desempenho
no
palco?
Fiquei
pensando
nisso
enquanto
conversávamos,
debatendo
idéias,
nossas
preferências
e
desagrados,
o
futuro,
os
amigos
próximos
e
os
conhecidos.
Sophia
jamais
mencionara
seu
lar
ou
sua
família.
Sabia
tudo
a
meu
respeito
(era,
como
eu
já
disse,
uma
boa
ouvinte),
mas
sobre
ela
eu
nada
Sabia
Acreditava
que
ela
tivesse
uma
família
de
Talvez
não
voltemos
a
nos
ver
por
uns
dois
anos
falei.
classe,
mas
até
então
eu
jamais
percebera
a
omissão.
Sophia
perguntou
em
que
eu
estava
pensando.
—Em
você
—
respondi
com
franqueza.
—Eu
percebo
—
disse
ela.
E
deu-me
a
impressão
de
haver
percebido
mesmo.
—
—
—
Não
sei
quando
voltarei
à
Inglaterra,
mas
assim
que
voltar,
a
primeira
coisa
que
farei
será
telefonar-lhe,
vê-la
e
pedi-la
em
casamento.
Ela
aceitou
isso
sem
um
piscar
de
olhos.
Sentada
ao
meu
lado,
continuou
fumando,
sem
me
olhar.
Por
um
ou
dois
minutos
temi
que
não
me
houvesse
compreendido.
—Ouça
—
falei,
—
só
há
uma
coisa
que
eu
estou
determinado
a
fazer:
é
não
pedir
a
você
que
se
case
comigo
agora.
Seria
um
gesto
precipitado.
Primeiro
porque
você
poderia
recusar
e
eu,
me
sentindo
infeliz,
provavelmente
seria
vítima
de
alguma
mulher
horrorosa
só
para
curar
a
minha
vaidade
ferida.
E
se
você
não
disser
não,
que
poderíamos
fazer?
Casar
e
nos
separarmos
logo
depois?
Noivar
e,
longe
um
do
outro,
esperar
tanto
tempo?
Não
desejaria
amarrá-la
a
um
compromisso
desses.
Você
talvez
encontrasse
outro
e
se
sentisse
obrigada
a
ser
"fiel".
Estamos
envolvidos
numa
atmosfera
febril,
do
tipo
"resolva
logo
hoje
porque
amanhã
pode
ser
tarde
demais".
Casamentos
e
amores
surgem
e
se
desfazem
à
nossa
volta.
Preferia
sentir
que
você
há
de
voltar
para
casa,
livre
e
independente,
e
que,
adaptada
ao
novo
mundo
de
após-guerra,
decidiria
então
o
que
fazer
de
sua
vida.
O
que
existe
entre
nós,
Sophia,
tem
de
ser
permanente.
Assim
é
que
eu
encaro
o
casamento.
—E
eu
também
—
disse
Sophia.
—Por
outro
lado
—
continuei
—
acho-me
no
direito
de
comunicar
a
você
como
eu...
bem...
quais
são
os
meus
sentimentos.
—Mas
sem
uma
declaração
romântica?
—
murmurou
Sophia.
—Querida...
não
está
entendendo?
Esforcei-me
para
não
dizer
que
a
amo...
Ela
me
interrompeu.
—Entendo
sim,
Charles.
E
eu
gosto
da
sua
maneira
engraçada
de
fazer
as
coisas.
Você
pode
procurar-me
quando
voltar
—
se
ainda
quiser
me
ver...
Foi
a
minha
vez
de
interromper:
—Quanto
a
isto
não
há
dúvida.
—Existe
sempre
uma
dúvida
acerca
de
tudo
neste
mundo,
Charles.
Pode
sempre
surgir
um
fator
imprevisível
que
transtorne
nossos
planos.
A
propósito,
você
não
sabe
muita
coisa
a
meu
respeito,
não
é?
—Nem
mesmo
sei
onde
você
vive
na
Inglaterra.
—Vivo
em
Swinly
Dean.
Acenei
a
cabeça
à
menção
do
bem
conhecido
subúrbio
de
Londres,
que
se
orgulha
dos
três
excelentes
campos
de
golfe
para
os
financistas
da
cidade.
Sophia
acrescentou
suavemente,
em
voz
divertida:
"Numa
casinha
torta..."
Devo
ter
demonstrado
alguma
surpresa,
pois
ela
riu
e
explicou-se
com
a
citação:
"E
viveram
todos
juntos
numa
casinha
torta."
Somos
nós.
Não
que
a
casa
seja
pequena,
mas
é
definitivamente
torta...
o
telhado
descendo
para
os
oitões
e
as
vigas
visíveis
entre
os
tijolos!
—Você
faz
parte
de
uma
família
grande?
Tem
irmãos
e
irmãs?
—Um
irmão,
uma
irmã,
mãe,
pai,
um
tio,
uma
tia
por
casamento,
um
avô,
uma
tia-avó
e
uma
madrasta-avó!
—Deus
do
Céu!
—
exclamei
um
tanto
surpreso.
Ela
riu.
—Claro
que
normalmente
não
vivemos
todos
juntos.
A
guerra
e
os
bombardeios
em
massa
nos
reuniram...
mas
não
sei
bem...
—
ela
franziu
a
testa,
pensativa
—
talvez
espiritual
mente
a
família
sempre
tenha
morado
junta...
sob
a
vigilância
e
a
proteção
de
meu
avô.
É
uma
personalidade,
o
meu
avô.
Tem
mais
de
oitenta
anos,
cerca
de
um
metro
e
meio,
mas
todo
mundo
parece
apagar-se
a
seu
lado.
—Ele
parece
interessante
—
eu
disse.
—E
é
mesmo.
É
um
grego
de
Smyrna.
Aristide
Leonides
—
e
ela
acrescentou
com
um
piscar
de
olhos:
—
Extremamente
rico.
—Alguém
ainda
conseguirá
ser
rico,
depois
que
esta
guerra
acabar?
—Meu
avô,
sim
—
disse
Sophia
com
segurança;
—
essas
táticas
do
gênero
"vamos
explorar
os
ricaços"
não
têm
efeito
algum
sobre
ele.
Acaba
explorando
os
exploradores.
E
acrescentou:
—Eu
me
pergunto
se
você
gostará
dele.
—Você
gosta?
—
eu
perguntei.
—Mais
do
que
qualquer
outra
pessoa
no
mundo
—
disse
Sophia.
Capítulo
2
ISTO
SE
PASSOU
uns
dois
anos
antes
de
eu
retornar
à
Inglaterra.
Não
foram
anos
fáceis.
Escrevi
a
Sophia
e
tive
notícias
dela
com
muita
freqüência.
Suas
cartas,
tal
como
as
minhas,
não
eram
cartas
de
amor.
Eram
cartas
escritas
por
amigos
íntimos,
expunham
idéias
e
pensamentos
e
traziam
comentários
sobre
o
curso
diário
da
vida.
Entretanto,
eu
sabia
que,
no
que
me
tocava,
e
acreditava
também
que
em
relação
a
Sophia
—
nosso
sentimento
mútuo
crescia
e
se
estreitava.
Voltei
à
Inglaterra
num
suave
dia
cinzento
de
setembro.
As
folhas
das
árvores
estavam
douradas
à
luz
do
crepúsculo.
O
vento
soprava
em
remoinhos
brincalhões.
Ao
descer
no
aeroporto
enviei
um
telegrama
para
Sophia.
"Acabo
de
chegar.
Espero-a
para
jantar
Mario's
às
nove.
Charles."
Umas
duas
horas
depois
eu
estava
sentado
lendo
o
Times.
E
percorrendo
a
coluna
de
Nascimentos,
Casamentos
e
Óbitos,
dei
com
o
nome
Leonides:
A
19
de
setembro,
em
Três
Oitões,
Swinly
Dean,
Aristide
Leonides,
idolatrado
esposo
de
Brenda
Leonides,
aos
oitenta
e
cinco
anos.
Profundos
pêsames.
Havia
outro
anúncio
imediatamente
depois:
Leonides.
De
repente,
em
sua
residência
os
Três
Oitões,
Swinly
Dean,
Aristide
Leonides.
Seus
filhos
e
netos
estão
profundamente
consternados.
Flores
para
a
igreja
de
St.
Eldred,
Swinly
Dean.
Achei
os
dois
anúncios
curiosos.
Parecia
que
a
falta
de
providências
em
comum
resultara
numa
dualidade.
Mas
minha
principal
preocupação
era
Sophia.
Apressei-me
em
enviar-lhe
um
segundo
telegrama:
"Acabo
ver
notícias
morte
seu
avô.
Lamento
muito.
Informe
quando
poderei
vê-la.
Charles"
Um
telegrama
de
Sophia
chegou
às
seis
em
ponto
à
casa
de
meu
pai.
Dizia:
"Estarei
Mario's
às
nove.
Sophia."
O
pensamento
de
reencontrar
Sophia
deixou-me
nervoso
e
excitado.
Nos
ponteiros
do
relógio
o
tempo
passava
com
uma
lentidão
de
enlouquecer.
Cheguei
ao
Mario's
vinte
minutos
adiantado.
Sophia
só
chegou
cinco
minutos
depois
do
combinado.
É
sempre
um
choque
encontrar
de
novo
uma
pessoa
a
quem
não
se
vê
há
muito
tempo,
mas
que
permaneceu
viva
em
nossa
lembrança
durante
esse
período.
Quando
finalmente
Sophia
apareceu
na
porta
giratória,
nosso
encontro
parecia
completamente
irreal.
Ela
vestia-se
de
preto,
o
que,
de
uma
maneira
curiosa,
me
surpreendeu:
grande
número
de
mulheres
estava
também
de
preto,
mas
eu
pusera
na
cabeça
que
o
preto
era
definitivamente
um
sinal
de
luto
—
e
surpreendeu-me
que
Sophia
fosse
o
tipo
de
pessoa
que
usasse
luto
—
mesmo
por
um
parente
próximo.
Bebemos
uns
coquetéis
e
fomos,
em
seguida,
para
uma
mesa.
Falávamos
depressa
e
febrilmente
—
pedindo
notícias
dos
velhos
amigos
dos
dias
no
Cairo.
Era
uma
conversa
artificial,
mas
nos
fazia
vencer
o
embaraço
inicial.
Expressei
meu
pesar
pela
morte
de
seu
avô
e
Sophia
disse
baixinho
que
a
morte
fora
"muito
súbita".
Depois
retornamos
às
reminiscências.
Comecei
a
sentir,
inquieto,
que
algo
não
se
ajustava
bem
algo
quero
dizer,
além
do
primeiro
embaraço
natural
do
reencontro.
Havia
alguma
coisa
errada,
definitivamente
errada,
com
a
própria
Sophia.
Iria
ela
dizer-me,
por
acaso,
que
encon-
trara
outro
homem
de
quem
gostara
mais?
Que
o
seu
sentimento
por
mim
fora
"um
erro"?
Não
sei
por
que,
mas
não
acreditei
nessa
possibilidade,
embora
eu
ainda
não
soubesse
o
que
havia.
Continuamos
com
a
nossa
conversa
artificial.
Então,
de
repente,
enquanto
o
garçom
punha
o
café
na
mesa
e
se
retirava
com
uma
reverência,
tudo
começou
a
entrar
em
foco.
Ali
estavam
Sophia
e
eu,
sentados
juntos,
como
acontecera
tantas
vezes
diante
de
uma
mesinha
num
restaurante
qualquer.
Os
anos
de
nossa
separação
não
haviam
transcorrido
jamais.
—Sophia
—
eu
disse.
E
imediatamente
ela
respondeu:
—Charles.
Soltei
um
profundo
suspiro
de
alívio.
—Graças
a
Deus
acabou
tudo
—
falei.
—
O
que
houve
conosco?
—Provavelmente
culpa
minha.
Fui
uma
tola.
—Mas
agora
está
tudo
bem?
—Sim,
está
tudo
bem
agora.
Sorrimos
um
para
o
outro.
—Querida!
—
disse.
E
depois:
—
Quando
você
se
casará
comigo?
O
sorriso
dela
morreu.
Aquilo,
fosse
o
que
fosse,
voltara.
—Não
sei
—
disse.
—
Não
estou
certa,
Charles,
de
que
eu
possa
casar-me
com
você.
—Mas
Sophia!
Por
que
não?
Você
acha
que
não
me
conhece
direito?
Precisa
de
tempo
para
se
habituar
outra
vez
à
minha
presença?
Ou
existe
algo
mais?
Não...
—
suspendi
a
frase.
—
Sou
um
tolo.
Não
é
nenhuma
dessas
coisas.
—Não,
não
é
—
sacudiu
a
cabeça.
Aguardei.
Ela
disse
em
voz
baixa:
—É
a
morte
de
meu
avô.
—A
morte
de
seu
avô?
Mas
por
quê?
Meu
Deus,
que
diferença
isto
pode
fazer?
Você
não
quer
dizer...
certamente
não
imagina...
que
haja
uma
questão
de
dinheiro?
Ele
não
lhe
deixou
nada?
Olhe
aqui,
querida...
—Não
é
dinheiro
—
mostrou
um
sorriso
fugaz.
—
Creio
que
você
me
aceitaria
"com
a
roupa
do
corpo"
como
diz
o
velho
ditado.
E
meu
avô
nunca
perdeu
dinheiro
na
vida.
—Então
de
que
se
trata?
—É
apenas
a
sua
morte...
sabe,
Charles?
eu
creio
que
ele
não
tenha
apenas...
morrido.
Creio
que
talvez
tenha
sido
assassinado...
Olhei-a
fixamente.
—Mas...
que
idéia
fantástica!
O
que
a
levou
a
pensar
assim?
—Não
fui
eu
quem
pensou.
Foi
o
médico
que
começou.
Não
quis
assinar
a
certidão
de
óbito.
Vão
fazer
uma
autópsia.
Ficou
claro
que
suspeitam
de
alguma
coisa
errada.
Não
argumentei
com
Sophia.
Ela
tinha
boa
organização
mental
e
podia-se
confiar
em
quaisquer
conclusões
a
que
houvesse
chegado.
Ao
invés
de
contradizê-la,
apressei-me
a
dizer:
—As
suspeitas
podem
ser
injustificadas.
Mas
pondo
isto
de
lado,
supondo
que
sejam
válidas,
como
isto
afetaria
a
nós
dois?
—Pode
afetar
sob
certas
circunstâncias.
Você
está
no
serviço
diplomático.
Eles
são
muito
rigorosos
a
respeito
das
esposas.
Não...
por
favor,
não
vá
dizer
as
coisas
que
está
prestes
a
dizer.
Seu
impulso
é
dizê-las
e
eu
acredito
realmente
na
sua
sinceridade.
Teoricamente,
concordo
com
elas.
Mas
sou
um
bocado
orgulhosa...
sabe?
Muito
orgulhosa.
Quero
que
o
nosso
casamento
seja
uma
boa
coisa
para
todos
dois...
não
quero
representar
a
metade
de
um
sacrifício
a
bem
do
amor!
E,
como
eu
falei,
talvez
não
haja
motivos
para
preocupações...
—Quer
dizer
que
o
médico...
talvez
tenha
cometido
um
engano?
—Mesmo
se
não
houver,
pouco
importa...
se
foi
a
pessoa
certa
que
matou
meu
avô.
—Que
pretende
dizer,
Sophia?
—Sei
que
isto
é
rude
mas,
acima
de
tudo,
devemos
ser
francos.
Ela
antecipou-se
às
minhas
palavras.
—Não,
Charles,
não
direi
mais
nada.
Provavelmente
já
falei
demais.
Mas
eu
estava
determinada
a
vir
encontrar-me
com
você
esta
noite...
a
vê-lo
pessoalmente
e
fazê-lo
compreender.
Não
podemos
combinar
coisa
alguma
até
que
esse
assunto
se
esclareça.
—Pelo
menos
conte-me
alguma
coisa.
Ela
abanou
a
cabeça.
—Não
quero.
—Mas
Sophia...
—Não,
Charles.
Não
quero
que
você
nos
veja
segundo
o
meu
ângulo.
Quero
que
nos
conheça
imparcialmente,
de
um
ponto
de
vista
externo.
—E
como
poderei
fazer
tal
coisa?
Ela
olhou-me,
um
brilho
estranho
nos
claros
olhos
azuis.
—Você
o
conseguirá
através
de
seu
pai.
Eu
contara
a
Sophia,
no
Cairo,
que
meu
pai
era
Comissário-
Assistente
da
Scotland
Yard.
Ainda
desempenhava
o
cargo.
Ao
ouvir
isto
senti
um
arrepio.
—É
tão
grave
assim?
—Eu
acho.
Está
vendo
aquele
homem
sentado
à
mesa,
sozinho,
perto
da
porta...
aquele
de
tipo
simpático
e
pacato
de
ex-
soldado?
—Sim.
—Ele
estava
na
plataforma
de
Swinly
Dean,
esta
tarde,
quando
entrei
no
trem.
—Quer
dizer
que
ele
a
seguiu
até
aqui?
—Sim.
Acho
que
estamos
todos...
como
é
que
se
diz
mesmo?...
Sob
suspeita.
Insinuaram
que
seria
melhor
não
sair
mos
de
casa.
Mas
eu
estava
decidida
a
ver
você
—
o
queixinho
quadrado
de
Sophia
avançou,
agressivo.
—
Saí
pela
janela
do
banheiro
e
escorreguei
pelo
cano
d'água.
—Querida!
—Mas
a
polícia
é
muito
eficiente.
E,
naturalmente,
havia
o
telegrama
que
eu
enviei
a
você.
Bem...
não
importa...
estamos
aqui
juntos...
Mas
doravante,
temos
de
agir
separados.
Fez
uma
pausa
e
em
seguida
acrescentou:
—Infelizmente...
não
há
dúvida...
acerca
do
amor
que
sentimos
um
pelo
outro.
—Dúvida
alguma
—
disse
eu;
—
e
não
diga
"infelizmente".
Você
e
eu
sobrevivemos
a
uma
guerra
mundial,
escapamos
muitas
vezes
da
morte
iminente...
e
não
vejo
por
que
a
morte
repentina
de
um
ancião...
que
idade
ele
tinha,
a
propósito?
—Oitenta
e
cinco.
—Claro.
Saiu
no
Times.
Se
quer
saber
a
minha
opinião,
ele
morreu
apenas
de
velhice
e
qualquer
clínico
geral
que
se
preze
aceitaria
o
fato.
—Se
você
conhecesse
meu
avô
—
disse
Sophia,
—
ficaria
surpreso
de
que
ele
morresse
de
alguma
coisa!
Capítulo
3
EU
SEMPRE
demonstrara
um
certo
interesse
pelas
atividades
policiais
de
meu
pai,
mas
não
estava
preparado
para
a
possibilidade
de
um
interesse
direto
e
pessoal
nelas.
Ainda
não
vira
o
Velho.
Não
estava
em
casa
quando
cheguei,
e
depois
de
um
banho,
de
fazer
a
barba
e
trocar
de
roupa,
eu
saíra
para
me
encontrar
com
Sophia.
Quando
voltei,
Glover
me
disse
que
ele
estava
em
seu
gabinete.
Estava
sentado
à
escrivaninha,
a
testa
franzida
sobre
um
monte
de
papéis.
Pôs-se
imediatamente
de
pé
quando
entrei.
—Charles!
Sim
senhor!
Sim
senhor!
Faz
tanto
tempo!
Nosso
encontro,
após
cinco
anos
de
guerra,
teria
desapontado
a
um
francês.
Mas
na
verdade,
toda
a
emoção
do
reencontro
fora
acentuada.
O
Velho
e
eu
nos
queríamos
bem
e
nos
compreendíamos
perfeitamente.
—Tenho
uísque
—
disse
ele.
—
Peça
quando
quiser.
Desculpe
eu
estar
ausente
quando
você
chegou
aqui.
Encontro-me
enterrado
até
as
orelhas
em
trabalho.
O
diabo
de
um
caso
que
mal
começou
ainda.
Recostei-me
na
cadeira
e
acendi
um
cigarro.
—Aristide
Leonides?
—
perguntei.
As
sobrancelhas
dele
baixaram
sobre
os
olhos.
Atirou-me
um
olhar
rápido,
avaliador.
Sua
voz
era
polida
e
dura
como
o
aço.
—O
que
o
faz
pensar
assim,
Charles?
—Estou
certo,
então?
—Como
veio
a
saber?
—Informações
recebidas.
O
Velho
esperou.
—Minhas
informações
—
eu
disse
—
vieram
da
própria
casa.
—Vamos,
Charles,
desembuche.
—Você
pode
não
gostar.
Conheci
Sophia
Leonides
no
Cairo.
Apaixonei-me
por
ela.
Vou
casar-me
com
ela.
Encontrei-a
esta
noite
e
jantamos
juntos.
—Jantou
com
ela?
Em
Londres?
Eu
só
queria
saber
como
conseguiu.
A
família
teve
ordens...
polidamente,
é
claro,
de
não
sair.
—Isso
mesmo.
Ela
escorregou
pelo
cano
da
janela
do
banheiro.
Os
lábios
do
Velho
contraíram-se
por
um
instante
num
sorriso.
—Ela
parece
ser
uma
jovem
de
certos
recursos.
—Mas
a
sua
força
policial
é
bem
eficiente
—
eu
disse.
—
Um
tipo
simpático,
com
ar
de
recruta,
seguiu-a
ao
Mario's.
Devo
constar
dos
relatórios
que
você
recebeu.
Um
metro
e
setenta
e
oito,
cabelos
castanhos,
olhos
castanhos,
terno
azul
escuro
de
listrinhas
etc...
O
Velho
olhou-me
com
dureza.
—Isto
é...
sério?
—Sim.
É
sério,
papai.
Houve
um
momento
de
silêncio.
—Você
se
importa?
—
perguntei.
—Não
me
teria
importado...
uma
semana
atrás.
A
família
é
bem
estabelecida...
a
moça
terá
dinheiro...
e
eu
conheço
você.
Sei
que
não
perde
a
cabeça
facilmente.
De
qualquer
modo...
—Sim,
papai?
—Pode
dar
tudo
certo,
se...
—Se
o
quê?
Se
a
pessoa
certa
o
matou.
Era
a
segunda
vez
naquela
noite
que
eu
ouvia
aquela
frase.
Comecei
a
me
interessar.
—Mas
quem
é
a
pessoa
certa?
Ele
me
dirigiu
um
olhar
penetrante.
—O
que
é
que
você
sabe
do
caso?
—Nada.
—Nada?
—
pareceu
surpreso.
—
A
moça
não
contou?
—Não.
Ela
disse
que
era
melhor
eu
ver
tudo...
de
um
ponto
de
vista
próprio.
—Eu
gostaria
de
saber
a
razão
disto.
—Não
é
óbvio?
—Não,
Charles.
Não
creio
que
seja.
Andou
pela
sala,
a
testa
franzida.
Acendera
um
charuto
e
o
charuto
se
apagara.
Isso
mostrava
como
ele
estava
inquieto.
—O
que
sabe
você
da
família?
—
perguntou
de
supetão.
—Bolas!
Sei
que
havia
o
velho
e
uma
porção
de
filhos
e
netos
e
cunhados.
As
ramificações
não
ficaram
claras
na
minha
cabeça
—
fiz
uma
pausa
e
depois
disse:
—
Seria
melhor
você
me
dar
uma
idéia,
papai.
—Sim
—
disse
e
sentou-se.
—
Muito
bem,
então...
começarei
do
princípio...
com
Aristide
Leonides.
Ele
chegou
à
Inglaterra
quando
tinha
vinte
e
quatro
anos.
—Um
grego
de
Smyrna.
—Também
sabia
disto?
—Sim,
mas
é
tudo
quanto
sei.
A
porta
abriu-se
e
Glover
entrou
para
dizer
que
o
Inspetor-
Chefe
Taverner
estava
ali.
—Ele
está
encarregado
do
caso
—
disse
meu
pai.
—
Convém
mandá-lo
entrar.
Andou
investigando
a
família.
Sabe
mais
a
respeito
do
que
eu.
Perguntei
se
a
polícia
local
convocara
a
Scotland
Yard.
—A
jurisdição
é
nossa.
Swinly
Dean
está
na
Grande
Londres.
Fiz
um
aceno
quando
o
Inspetor-Chefe
Taverner
entrou
na
sala.
Conhecia
Taverner
de
muitos
anos
atrás.
Ele
me
cumprimentou
com
cordialidade
e
congratulou-se
com
a
minha
volta.
—Estou
pondo
Charles
dentro
do
quadro
—
disse
o
Velho.
—
Corrija-me
se
eu
errar,
Taverner.
Leonides
chegou
a
Londres
em
1884.
Instalou
um
pequeno
restaurante
no
Soho.
Deu
certo.
Ele
partiu
para
outro.
Em
breve
possuía
sete
ou
oito.
Todos
rendiam
dinheiro
imediatamente.
—Jamais
cometeu
um
erro
em
tudo
quanto
se
meteu
—
disse
o
Inspetor
Taverner.
—Tinha
um
instinto
natural
—
disse
meu
pai.
—
Por
fim,
estava
por
trás
de
quase
todos
os
famosos
restaurantes
de
Londres.
Entrou
então
no
negócio
de
fornecimento
para
clubes
e
hotéis,
em
grande
escala.
—Também
andou
metido
em
muitos
outros
negócios
—
disse
Taverner.
—
Comércio
de
roupas
usadas,
lojas
de
jóias
baratas,
um
monte
de
coisas.
Naturalmente
—
acrescentou,
pensativo
—
ele
sempre
foi
um
espertalhão.
—Quer
dizer
que
era
desonesto?
Taverner
sacudiu
negativamente
a
cabeça.
—Não,
não
chego
a
tanto.
Esperto,
sim...
mas
não
trapaceiro.
Nunca
fez
nada
fora
da
lei.
Mas
era
o
tipo
de
sujeito
que
pensava
em
todas
as
formas
de
tangenciar
a
lei.
Embolsou
uma
fortuna
dessa
maneira
na
última
guerra,
embora
fosse
um
velho.
Nada
do
que
fez
era
ilegal,
mas
sempre
que
se
envolvia
numa
coisa,
precisava-se
regularizar
uma
lei
a
respeito,
se
entende
o
que
eu
quero
dizer.
E
quando
a
lei
chegava,
ele
já
havia
passado
a
outra
atividade.
—Não
parece
um
caráter
dos
mais
atraentes
—
comentei.
—É
engraçado,
mas
ele
era
simpático.
Tinha
personalidade.
Sentia-se
a
personalidade
do
homem.
Afora
isso,
nada
mais
possuía
digno
de
nota.
Um
gnomo...
um
Sujeitinho
horroroso
mas
magnético.
As
mulheres
sempre
caíram
por
ele.
—Fez
um
casamento
surpreendente
—
disse
meu
pai.
—
Desposou
a
filha
de
um
nobre
rural,
um
M.F.H.1
1
Master
of
Foxhounds
—
Mestre
de
Caça
à
Raposa
(N.
do
T.).
Ergui
as
sobrancelhas.
—Dinheiro?
O
Velho
abanou
a
cabeça.
—Não,
foi
um
caso
de
amor.
Ela
o
conheceu
durante
as
compras
para
o
banquete
do
casamento
de
uma
amiga
e
se
apaixonou.
Seus
pais
deram
o
contra
mas
ela
estava
determinada
a
tê-lo.
Já
disse,
o
homem
tinha
mesmo
charme...
algo
exótico
e
dinâmico
que
a
atraiu.
E
ela
andava
entediada
com
os
cavalheiros
de
sua
própria
classe.
—E
o
casamento
foi
feliz?
—Muito
feliz,
por
estranho
que
pareça.
Naturalmente
seus
respectivos
amigos
não
se
misturaram
(naquela
época
o
dinheiro
não
sobrepujava
ainda
as
distinções
de
classes),
mas
isto
não
impediu
de
serem
felizes
nem
pareceu
aborrecê-los.
Viviam
sem
amigos.
Ele
construiu
uma
casa
suntuosa
em
Swinly
Dean,
moraram
ali
e
tiveram
oito
filhos.
—Na
verdade,
uma
autêntica
crônica
familiar.
—O
velho
Leonides
foi
muito
esperto
ao
escolher
Swinly
Dean.
O
lugar
mal
começava
a
entrar
na
moda.
O
segundo
e
o
terceiro
campos
de
golfe
ainda
não
tinham
sido
construídos.
Havia
por
lá
uma
mistura
de
Velhos
Habitantes
Tradicionais,
apaixonados
pelos
seus
jardins,
de
que
muito
se
orgulhavam
e
que
simpatizaram
com
a
Sra.
Leonides,
e
os
ricaços
da
cidade
que
desejavam
entrar
em
contato
com
Leonides;
assim,
o
casal
pôde
escolher
seus
amigos.
Foram
perfeitamente
felizes,
acredito,
até
que
ela
morreu
de
pneumonia
em
1905.
—Deixando-o
com
oito
filhos?
—Um
morreu
na
infância.
Dois
foram
mortos
na
Primeira
Guerra.
Uma
filha
casou-se
e
foi
viver
na
Austrália,
onde
faleceu.
Uma
filha
solteira
morreu
num
acidente
de
automóvel.
Outra,
faleceu
há
um
ou
dois
anos.
Ainda
há
dois
vivos
—
o
filho
mais
velho,
Roger,
que
é
casado
mas
não
tem
descendência,
e
Philip,
que
desposou
uma
atriz
famosa
e
tem
três
filhos
—
sua
Sophia,
Eustace
e
Josephine.
—E
vivem
todos
nessa...
como
é
mesmo?...
Três
Oitões?
—Sim.
A
casa
de
Roger
Leonides
foi
bombardeada
no
começo
da
guerra.
Philip
e
sua
família
passaram
a
morar
lá
em
1938.
E
há
uma
tia
mais
idosa,
Miss
de
Haviland,
irmã
da
primeira
Sra.
Leonides.
Ela
aparentemente
sempre
detestou
o
cunhado,
mas
quando
a
irmã
morreu
julgou
do
seu
dever
aceitar
o
convite
para
morar
com
ele
e
cuidar
das
crianças.
—É
uma
pessoa
que
cumpre
à
risca
seus
deveres
—
disse
o
Inspetor
Taverner.
—
Mas
não
costuma
mudar
de
opinião
acerca
dos
outros.
Sempre
desaprovou
Leonides
e
seus
métodos...
—Bem
—
disse
eu,
—
a
casa
parece
bem
movimentada.
Na
sua
opinião,
quem
o
assassinou?
Taverner
sacudiu
a
cabeça.
—É
cedo
—
disse,
—
muito
cedo
para
se
saber.
—Vamos
Taverner
—
animei-o.
—
Aposto
como
você
já
sabe
quem
foi.
Não
estamos
no
tribunal,
homem!
—Não
—
disse
Taverner,
abatido.
—
E
talvez
lá
não
cheguemos.
—Quer
dizer
que
talvez
ele
não
tenha
sido
assassinado?
—Não
é
isto.
Ele
foi
assassinado,
sim.
Envenenado.
Mas
você
sabe
como
são
esses
casos
de
envenenamento.
Muito
difícil
recolher
a
prova.
Coisa
muito
complicada.
Todas
as
possibilidades
parecem
apontar
numa
direção...
—É
isto
que
eu
tentava
dizer.
Você
já
tem
tudo
arrumado
na
cabeça,
não
tem?
—Trata-se
de
uma
probabilidade
muito
forte.
Uma
dessas
coisas
óbvias.
O
palco
perfeito.
Mas
eu
não
sei
ainda,
creia.
É
complicado.
Olhei
esperançoso
para
o
Velho.
Ele
disse
devagar:
—Em
casos
de
homicídio,
como
você
sabe,
Charles,
o
óbvio
é
geralmente
a
solução
correta.
O
velho
Leonides
casou-se
outra
vez,
há
dez
anos.
—Aos
setenta
e
cinco?
—Sim,
com
uma
moça
de
vinte
e
quatro
anos.
Assobiei.
—Que
espécie
de
moça?
—Uma
moça
empregada
numa
casa
de
chá.
Respeitável,
em
todos
os
sentidos...
de
boa
aparência,
com
um
jeitinho
anêmico,
apático.
—E
ela
é
a
possibilidade
forte?
—É
o
que
eu
digo
—
falou
Taverner.
—
Ela
tem
apenas
trinta
e
quatro
anos,
agora...
uma
idade
perigosa.
Gosta
de
vida
fácil.
E
há
um
rapaz
na
casa.
Professor
dos
netos.
Não
esteve
na
guerra.
Caso
de
coração
fraco,
ou
coisa
que
o
valha.
São
íntimos,
unha-e-carne.
Olhei-o
pensativamente.
Tratava-se
sem
dúvida
de
um
velho
quadro
familiar.
A
mistura
de
sempre.
E
a
segunda
Sra.
Leonides
era,
conforme
meu
pai
acentuara,
muito
respeitável.
Em
nome
da
respeitabilidade
muitos
crimes
tinham
sido
cometidos.
—Com
que
foi?
—
perguntei.
—
Arsênico?
—Não.
Ainda
não
recebemos
o
laudo
do
perito
mas
o
médico
acha
que
é
eserina.
—Um
pouco
incomum,
não
é?
Deve
ser
fácil
descobrir
o
comprador.
—Não
neste
caso.
Pertencia
à
vítima.
Um
colírio.
—Leonides
sofria
de
diabete
—
disse
meu
pai.
—
Tomava
injeções
regulares
de
insulina.
A
insulina
vem
em
frasquinhos
com
tampa
de
borracha.
Uma
agulha
hipodérmica
é
enfiada
no
tampão
de
borracha
e
a
injeção
preparada.
Adivinhei
o
que
se
seguiria.
—E
não
havia
insulina
no
frasco,
e
sim
eserina?
—Exato.
—E
quem
lhe
aplicou
a
injeção?
—
perguntei.
—A
esposa.
Compreendi
então
o
que
Sophia
quisera
dizer
ao
mencionar
a
"pessoa
certa".
Perguntei:
—A
família
dá-se
bem
com
a
segunda
Sra.
Leonides?
—Não.
Ao
contrário,
acho
que
mal
se
falam.
Tudo
parecia
mais
claro,
cada
vez
mais
claro.
Todavia
o
Inspetor
Taverner
também
dava
mostras
claras
de
insatisfação.
—Por
que
não
está
satisfeito?
—
perguntei-lhe.
—Se
ela
cometeu
o
crime,
Sr.
Charles,
teria
sido
muito
fácil
pôr
no
lugar
depois
um
frasco
autêntico
de
insulina.
De
fato,
se
é
a
culpada,
não
posso
imaginar
por
que
cargas
d'água
não
agiu
assim.
—Sim,
parece
lógico.
Havia
muita
insulina
ao
alcance?
—Ah,
uma
porção
de
frascos
cheios
e
vazios.
E
se
ela
houvesse
recorrido
à
insulina,
haveria
uma
possibilidade
em
dez
de
o
médico
identificar
o
veneno.
Sabe-se
muito
pouco
das
aparências
post-mortem
de
um
envenenamento
por
eserina.
Mas
como
veio
a
se
examinar
a
insulina
(para
o
caso
de
ter
sido
administrada
uma
dose
errada,
ou
algo
no
gênero),
não
se
tardou
a
constatar
que
não
era
insulina.
—Neste
caso,
parece
—
disse
eu,
pensativamente,
—
que
a
Sra.
Leonides
ou
foi
muito
estúpida...
ou
talvez
muito
esperta.
—Quer
dizer...
—Que
ela
pode
ter
contado
com
a
sua
conclusão
de
que
ninguém
poderia
ser
tão
estúpido
a
este
ponto...
como
ela
parece
ter
sido.
Quais
são
as
alternativas?
Há
outros...
suspeitos?
O
Velho
respondeu
calmamente:
—Praticamente
qualquer
pessoa
da
casa
poderia
ter
cometido
o
crime.
Havia
sempre
um
bom
estoque
de
insulina...
pelo
menos,
para
uns
quinze
dias.
Um
dos
vidros
podia
ter
sido
falsificado
e
devolvido
ao
lugar,
na
certeza
de
que
viria
a
ser
usado
no
devido
tempo.
—E
alguém
tinha,
mais
ou
menos,
acesso
aos
frascos?
—Não
estavam
trancados.
Eram
guardados
numa
prateleira
especial
do
armário
de
remédios,
no
banheiro
do
Sr.
Leonides.
Todos
da
casa
entravam
e
saíam
dali
livremente.
—Qualquer
motivo
em
especial?
Meu
pai
suspirou.
—Meu
caro
Charles,
Aristide
Leonides
era
fabulosamente
rico!
Gastava
muito
dinheiro
com
a
família,
é
verdade,
mas
talvez
alguém
tenha
querido
mais.
—Mas
quem
deveria
querer
mais
seria
a
atual
viúva.
O
admirador
dela
tem
dinheiro?
—Não.
É
pobre
como
um
rato
de
igreja.
Alguma
coisa
estalou
na
minha
cabeça.
Lembrei-me
da
citação
de
Sophia.
De
repente
recordei
o
verso
inteiro
da
canção
de
ninar:
Era
uma
vez
um
homem
torto
que
andou
por
uma
estrada
torta
E
achou
uma
moeda
torta
junto
a
uma
porteira
torta
Ele
tinha
um
gato
torto
que
caçou
um
rato
torto
E
viveram
todos
juntos
numa
casinha
torta.
Eu
disse
para
Taverner:
—Qual
a
impressão
que
ela
causa...
a
Sra.
Leonides?
Que
pensa
dela?
Ele
respondeu
vagarosamente:
—Difícil
dizer...
muito
difícil
mesmo.
Ela
não
é
fácil.
Muito
quieta...
de
modo
que
não
se
sabe
em
que
pensa.
Mas
gosta
de
vida
mansa,
isso
eu
chegaria
a
jurar.
Faz-me
lembrar
um
gato,
um
grande
gato
preguiçoso,
ronronando...
Não
que
eu
tenha
alguma
coisa
contra
os
gatos.
Gatos
são
gatos...
Suspirou.
—
O
que
queremos
—
disse
—
são
provas.
Sim,
pensei,
todos
nós
queremos
provas
de
que
a
Sra.
Leonides
envenenou
o
marido.
Sophia
quer,
eu
quero,
e
o
Inspetor-Chefe
Taverner
também
quer.
Então,
tudo
seria
formidável!
Mas
Sophia
não
tinha
certeza,
eu
não
tinha
certeza
e
creio
que
o
Inspetor-Chefe
Taverner
tampouco
tinha
certeza...
Capítulo
4
NO
DIA
SEGUINTE
fui
a
Três
Oitões
com
Taverner.
Minha
posição
era
das
mais
curiosas.
Melhor
dizendo,
muito
pouco
ortodoxa.
Mas
o
Velho
nunca
primou
em
ser
ortodoxo.
De
certo
modo
eu
tinha
uma
qualificação.
Trabalhara
com
a
Divisão
de
Espionagem
da
Yard,
durante
os
primeiros
dias
da
guerra.
Naturalmente
isto
agora
era
bastante
diferente
—
mas
minhas
atuações
anteriores
conferiam-me,
de
certa
forma,
uma
posição
oficial.
Meu
pai
dissera:
—Se
quisermos
mesmo
resolver
este
caso,
temos
de
introduzir
um
amador.
Precisamos
saber
tudo
a
respeito
do
pessoal
da
casa.
Temos
de
conhecê-los
por
dentro...
não
por
fora.
Você
é
o
homem
capaz
de
encarregar-se
disto.
Não
gostei.
Atirei
a
ponta
de
cigarro
na
lareira
enquanto
dizia:
—Sou
um
espião
da
polícia?
É
isso?
Tenho
de
extrair
informações
confidenciais
de
Sophia,
a
quem
amo
e
que
também
me
ama
e
confia
em
mim,
segundo
creio?
O
Velho
tornou-se
irritado.
Respondeu
com
voz
cortante:
—Pelo
amor
de
Deus,
não
veja
as
coisas
por
este
prisma!
Para
começar,
você
não
acredita
que
sua
moça
assassinou
o
avô,
acredita?
—Claro
que
não.
A
idéia
é
inteiramente
absurda!
—Muito
bem...
também
não
pensamos
nisto.
Ela
esteve
ausente
alguns
anos,
sempre
manteve
boas
relações
com
ele.
Recebe
uma
pensão
generosa
e
ele
ficaria
encantado,
eu
diria,
se
chegasse
a
saber
do
compromisso
de
vocês.
Sem
dúvida
da
ria
uma
linda
festa
de
casamento.
Não
suspeitamos
dela.
Por
que
iríamos
suspeitar?
Mas
fique
certo
de
uma
coisa:
se
o
crime
não
se
esclarecer,
a
moça
não
vai
querer
casar-se
com
você.
A
julgar
pelo
que
me
disse,
eu
tenho
certeza
disto.
E
veja
bem,
que
este
é
o
tipo
de
crime
que
talvez
não
se
esclareça
nunca.
Estamos
propensos
a
crer
que
a
esposa
e
o
jovem
admirador
agiram
de
parceria
—
mas
provar
isto
são
outros
quinhentos.
Nem
sequer
existe
um
caso
para
se
levar
avante
uma
investigação.
E
a
menos
que
obtenhamos
provas
evidentes
contra
ela,
sempre
perdurará
uma
dúvida
vexatória.
Você
percebe,
não
é?
Sim,
eu
percebia.
O
Velho
prosseguiu
calmamente:
—Por
que
não
dizer-lhe,
então?
—Quer
dizer...
perguntar
a
Sophia
se
eu...
—
parei.
—Sim,
sim...
—
o
Velho
acenava
vigorosamente
a
cabeça.
—
Não
lhe
estou
pedindo
para
entrar
sub-repticiamente,
sem
contar
à
moça
o
que
pretende.
Veja
o
que
ela
tem
a
dizer
a
respeito.
E
assim,
lá
fui
eu
no
dia
seguinte,
com
o
Inspetor
Taverner
e
o
detetive
Sargento
Lamb
para
Swinly
Dean.
Um
pouco
depois
dos
campos
de
golfe,
viramos
em
uma
entrada
onde
eu
imaginei
que
antes
da
guerra
deveria
ter
havido
um
imponente
portão
duplo.
Patriotismo
ou
uma
requisição
forçada
haviam
levado
as
grades
dos
portões.
Subimos
uma
longa
alameda
em
curva,
cercada
de
rododendros
e
chegamos
a
um
pátio
encascalhado,
em
frente
da
casa.
Era
incrível!
Imaginei
por
que
teriam
chamado
a
casa
de
Três
Oitões.
Onze
Oitões
seria
mais
apropriado!
E
coisa
curiosa,
a
casa
dava
a
impressão
estranha
de
ser
mesmo
torta
e
eu
imaginei
o
porquê.
Tinha
o
tipo
mesmo
de
um
chalé,
mas
era
um
chalé
de
proporções
desmedidas.
Como
se
olhássemos
para
uma
casa
de
campo
através
de
uma
lente
de
aumento.
As
vigas
oblíquas,
os
oitões,
os
frontões...
tratava-se
de
uma
casinha
torta
que
crescera
como
cogumelo
em
uma
noite!
Entretanto
eu
percebi
a
intenção.
Era
a
idéia
que
um
grego
—
gerente
de
restaurante
—
fazia
da
Inglaterra.
Destinava-se
a
ser
uma
residência
típica
inglesa,
mas
fora
construída
com
as
proporções
de
um
castelo.
Fiquei
pensando
o
que
a
primeira
Sra.
Leonides
achara
da
casa.
Sem
dúvida
ela
não
fora
consultada
nem
vira
a
planta.
Provavelmente
a
casa
fora
uma
pequena
surpresa
de
seu
exótico
marido.
Imaginei
se
ela
dera
de
ombros
ou
sorrira.
Aparentemente
ela
vivera
ali
muito
feliz.
—Um
tanto
apavorante,
não
é?
—
disse
o
Inspetor
Taverner.
—
Naturalmente
o
velho
empenhou-se
a
fundo.
Transformou-a
em
três
casas
distintas
a
bem
dizer,
com
cozinhas
e
tudo
o
mais.
Dentro,
tudo
é
da
melhor
categoria,
mobiliada
como
um
hotel
de
luxo.
Sophia
apareceu
à
porta
da
frente.
Estava
sem
chapéu
e
usava
uma
blusa
verde
e
uma
saia
de
tweed.
Quase
caiu
para
trás
quando
me
viu.
—Você!
—
exclamou.
—Sophia
—
disse
eu,
—
preciso
falar
com
você.
Onde
podemos
ir?
Por
um
instante
ela
hesitou
mas
depois
voltou-se
e
disse:
—Venha.
Passamos
pelo
gramado.
Tinha-se
uma
bela
vista
do
primeiro
campo
de
golfe
de
Swinly
Dean,
que
se
distanciava
até
um
bosque
de
pinheiros
numa
colina,
e
além
dele,
até
perder-se
no
campo
enevoado.
Sophia
conduziu-me
a
um
jardim
com
canteiros
de
pedras,
um
pouco
abandonado,
onde
havia
um
banco
de
madeira
rústico,
bastante
desconfortável,
e
ali
nos
sentamos.
—E
então?
—
perguntou.
A
voz
não
era
encorajadora.
Falei
da
missão
que
me
fora
atribuída
—
contei
tudo.
Ela
ouviu
muito
atenta.
Seu
rosto
não
deixou
transparecer
o
que
estava
pensando,
mas
quando
parei
afinal,
suspirou.
Foi
um
suspiro
profundo.
—Seu
pai
—
disse
—
é
um
homem
esperto.
—O
Velho
tem
suas
opiniões.
Eu
acho
que
é
uma
idéia
detestável,
mas...
Ela
me
interrompeu.
—
Não,
nada
disso.
A
idéia
está
longe
de
ser
detestável.
É
a
única
coisa
que
pode
dar
certo.
Seu
pai,
Charles,
sabe
exatamente
o
que
se
passa
na
minha
cabeça.
Muito
melhor
do
que
você.
Com
uma
veemência
súbita
e
quase
desesperadora,
entrelaçou
uma
mão
na
outra.
—Tenho
de
saber
a
verdade.
Preciso
saber.
—Por
nossa
causa?
Mas,
querida...
—Não
apenas
por
nossa
causa,
Charles.
Preciso
saber
em
benefício
de
minha
própria
paz
de
espírito.
Olhe,
Charles,
não
lhe
disse
ontem
à
noite...
mas
a
verdade
é
que...
eu
estou
com
medo.
—Medo?
—Sim.
Medo...
medo...
medo.
A
polícia
pensa,
seu
pai
pensa,
todo
mundo
pensa
que
foi
Brenda.
—As
probabilidades...
—Sim,
é
claro
que
as
probabilidades
são
inúmeras.
É
possível.
Mas
quando
eu
digo
"Brenda
provavelmente
o
matou"
torno-
me
consciente
de
que
isso
não
passa
de
um
desejo.
Porque
eu
realmente
não
acredito.
—Não
acredita?
—
perguntei
devagar.
—Não
sei.
Você
tomou
conhecimento
do
caso
lá
fora,
como
eu
queria.
Agora,
eu
o
mostrarei
de
dentro
para
fora.
Eu
simplesmente
não
creio
que
Brenda
seja
a
espécie
de
pessoa...
o
tipo
de
pessoa
capaz
de
fazer
algo
que
lhe
traga
qualquer
perigo.
Ela
é
muito
cuidadosa
consigo
mesma.
—E
que
me
diz
do
rapaz?
Laurence
Brown.
—Laurence
é
um
coelho
assustado.
Não
tem
tutano.
—Nunca
se
sabe.
—Sim,
realmente
nunca
se
sabe
ao
certo,
não
é
mesmo?
As
pessoas
são
capazes
de
surpresas
terríveis.
Forma-se
uma
impressão
acerca
de
alguém
e
ela
às
vezes
resulta
totalmente
errada.
Nem
sempre...
mas
às
vezes,
acontece.
De
qualquer
modo,
Brenda
—
ela
sacudiu
a
cabeça
—
sempre
agiu
com
tanta
uniformidade!
E
o
que
chamaria
o
tipo
indicado
para
um
harém.
Gosta
de
ficar
sentada,
comer
balas,
usar
roupas
e
jóias
bonitas,
ler
novelas
baratas
e
ir
ao
cinema.
Sei
que
é
esquisito
o
que
vou
dizer,
levando-se
em
conta
que
ele
tinha
oitenta
e
cinco
anos,
mas
creio
que
realmente
o
Avô
a
impressionava.
Ele
tinha
força,
sabe?
Acho
que
podia
fazer
com
que
uma
mulher
se
sentisse...
bem,
como
uma
rainha...
a
favorita
do
sultão!
Penso...
aliás
sempre
pensei...
que
ele
fez
Brenda
sentir-se
uma
pessoa
muito
romântica.
Sempre
foi
um
sábio
com
as
mulheres.
Trata-se
de
uma
espécie
de
arte...
e
não
se
perde
o
jeito
para
isto,
apesar
da
idade.
Deixei
o
problema
de
Brenda
por
um
instante
e
aferrei-me
a
uma
frase
de
Sophia
que
me
preocupara.
—Por
que
você
disse
que
tinha
medo?
Sophia
estremeceu
ligeiramente
e
apertou
as
mãos.
—Porque
é
a
verdade
—
respondeu
em
voz
baixa.
—
E
muito
importante,
Charles,
que
eu
o
faça
compreender
isto.
Olhe,
somos
uma
família
muito
estranha...
Há
muita
crueldade
em
nós...
várias
formas
de
crueldade.
Isso
é
o
que
mais
me
aflige.
As
diversas
formas
de
crueldade.
Ela
deve
ter
percebido
a
incompreensão
em
meu
rosto.
Prosseguiu
falando
com
empenho:
—Vou
tentar
ser
clara.
O
Avô,
por
exemplo.
Uma
vez,
quando
nos
falava
de
sua
meninice
em
Smyrna,
mencionou,
de
modo
casual,
que
apunhalara
dois
homens.
Houve
alguma
rixa,
motivada
sem
dúvida
por
um
insulto
imperdoável...
não
sei
bem...
mas
a
coisa
aconteceu
com
tanta
naturalidade.
Ele
esquecera
praticamente
o
incidente.
Mas
era
uma
coisa
tão
estranha
para
ser
contada
mesmo
casualmente
na
Inglaterra!
Concordei
com
um
aceno
de
cabeça.
—Este
é
um
dos
tipos
de
crueldade
a
que
me
referi
—
continuou
Sophia.
—
Agora,
minha
avó.
Mal
me
lembro
dela,
mas
ouvi
muita
coisa
a
seu
respeito.
Creio
que
ela
possuía
a
impiedade
que
deriva
da
total
falta
de
imaginação.
Todos
esses
ancestrais
caçadores
de
raposas...
e
os
velhos
generais
do
tipo
"só
matando!".
Cheios
de
retidão
e
arrogância,
sem
um
pingo
de
medo
em
assumir
responsabilidades
em
questões
de
vida
e
de
morte.
—Isso
não
parece
um
tanto
forçado?
—Sim,
acho
que
sim...
mas
senti
um
pouco
de
medo
dessas
coisas.
Das
pessoas
cheias
de
retidão,
porém
cruéis
ao
mesmo
tempo.
Depois,
temos
a
minha
mãe...
uma
atriz.
Uma
pessoa
adorável,
mas
despida
de
qualquer
senso
de
proporções.
Uma
dessas
egoístas
inconscientes
que
só
conseguem
enxergar
os
problemas
na
medida
em
que
estes
as
afetam.
Às
vezes
é
de
assustar,
sabe?
Temos
Clemency,
a
mulher
do
tio
Roger.
Ela
é
cientista...
vive
empenhada
em
qualquer
descoberta
muito
importante.
Também
é
uma
pessoa
impiedosa,
de
uma
forma
impessoal,
a
sangue-frio.
O
oposto
do
tio
Roger.
Este
é
a
pessoa
mais
bondosa
e
amável
do
mundo
mas
possui
um
temperamento
terrível.
Quando
o
sangue
lhe
ferve,
não
sabe
o
que
faz.
E
há
ainda
meu
pai...
Ela
fez
uma
longa
pausa.
—Meu
pai
—
disse
lentamente
—
é
quase
excessivamente
bem
controlado.
Nunca
se
sabe
em
que
pensa.
Jamais
demonstra
uma
emoção.
Provavelmente
trata-se
de
uma
auto
defesa
inconsciente
contra
as
orgias
emotivas
de
minha
mãe,
mas
às
vezes
isto
também
me
preocupa
um
pouco.
—Minha
querida
—
disse
eu,
—
você
está-se
preocupando
sem
necessidade.
Acabará
por
concluir
que
todos,
talvez,
sejam
capazes
de
cometer
um
assassinato.
—Creio
que
isto
é
exato.
Até
eu.
—Você
não!
—Sim,
Charles,
não
me
transforme
em
exceção.
Acho
que
eu
poderia
matar
alguém...
—
ficou
calada
um
momento
e
depois
acrescentou:
—
Mas
se
o
fizesse,
teria
de
ser
por
um
motivo
que
realmente
valesse
a
pena!
Ri.
Não
pude
evitá-lo.
E
Sophia
também
riu.
—Talvez
eu
seja
uma
tola
—
confessou
—
mas
temos
de
descobrir
a
verdade
sobre
a
morte
do
Avô.
É
absolutamente
necessário.
Se
ao
menos
fosse
Brenda...
Senti,
de
súbito,
uma
certa
pena
de
Brenda
Leonides.
Capítulo
5
NA
ALAMEDA
surgiu
em
nossa
direção
uma
figura
alta,
caminhando
com
vivacidade.
Trazia
um
gasto
chapéu
de
feltro,
uma
saia
informe
e
um
suéter
pesadão.
—A
tia
Edith
—
disse
Sophia.
A
figura
parou
uma
ou
duas
vezes,
inclinando-se
para
as
flores,
depois
avançou
para
nós.
Levantei-me.
—Este
é
Charles
Hayward,
tia
Edith.
Minha
tia,
Srta.
de
Haviland.
Edith
de
Haviland
era
uma
mulher
de
cerca
de
setenta
anos.
Tinha
uma
cabeleira
grisalha
e
revolta,
o
rosto
enrugado
e
um
olhar
agudo
e
penetrante.
—
Como
vai?
Já
ouvi
falar
a
seu
respeito.
Voltou
do
Oriente.
E
seu
pai,
como
vai?
Um
tanto
surpreso,
eu
respondi
que
ele
ia
bem.
—Eu
o
conheci
quando
era
ainda
garoto
—
disse
Edith
de
Haviland.
—
Conheci
também
sua
mãe.
Você
se
parece
muito
com
ela.
Veio
para
nos
ajudar...
ou
tem
outro
motivo?
—Eu
espero
ser
de
alguma
ajuda
—
disse
meio
encabulado.
Ela
fez
que
sim
com
a
cabeça.
—
Nós
estamos
mesmo
precisando
de
ajuda.
A
casa
está
enxameando
de
policiais.
Aparecem
quando
menos
se
espera.
Não
fui
com
a
cara
de
alguns.
Um
rapaz
que
freqüentou
uma
escola
decente
não
devia
entrar
para
a
polícia.
Outro
dia
vi
o
filho
de
Moyra
Kinoul
dirigindo
o
trânsito
lá
em
Marble
Arch.
A
gente
fica
sem
saber
onde
está.
Virou-se
para
Sophia:
—Nannie
está
chamando
você,
Sophia.
Peixe.
—Ora!
—
disse
Sophia.
—
Eu
vou
telefonar
para
resolver.
Dirigiu-se
rapidamente
para
a
casa.
Edith
de
Haviland
voltou
se
e
seguiu-a
lentamente.
Eu
a
acompanhei.
—Não
sei
o
que
nós
faríamos
sem
as
Nannies
—
disse
ela.
—
Quase
todos
têm
uma
velha
Nannie
em
casa.
Elas
sempre
voltam,
lavam,
passam,
cozinham
e
arrumam
a
casa.
São
fiéis.
Esta
nossa
fui
eu
mesma
quem
escolheu...
há
muitos
anos.
Ela
se
abaixou
e
arrancou
com
raiva
um
matinho
no
meio
de
um
canteiro.
—É
detestável
esta
jitirana!
A
pior
das
pragas.
Abafa
e
se
enrola
nas
plantas
e
não
se
pode
arrancá-la
direito.
Espalha-se
por
todos
os
lados!
Com
o
calcanhar
ela
esmoeu
violentamente
no
chão
o
raminho
verde.
—Este
negócio
está
cheirando
mal,
Charles
Hayward
—
disse
e
olhou
na
direção
da
casa.
—
O
que
a
polícia
está
pensando
do
caso?
Acho
que
eu
não
devia
perguntar
isto.
Parece
tão
estranho
pensar
que
Aristide
foi
envenenado.
Parece
estranho
até
pensar
que
ele
morreu.
Eu
não
gostava
dele...
—
nem
um
pingo!
Mas
não
consigo
acostumar-me
com
a
sua
morte...
Faz
a
casa
parecer
tão...
vazia.
Eu
não
disse
nada.
Durante
a
sua
breve
fala,
Edith
de
Haviland
parecia
recordar
o
passado.
—
Estive
pensando
hoje
de
manhã...
eu
moro
aqui
há
tanto
tempo.
Mais
de
quarenta
anos.
Vim
para
cá
quando
minha
irmã
morreu.
Ele
pediu.
Sete
crianças...
e
a
mais
nova
apenas
com
um
ano
de
idade...
Não
podia
deixar
que
elas
fossem
educadas
por
um
gringo
ordinário,
podia?
Foi
um
casamento
inadmissível,
é
claro.
Eu
sempre
imaginei
que
Márcia
tivesse
sido
enfeitiçada.
Um
Sujeitinho
vulgar
e
horroroso!
Ele
me
deu
carta
branca...
isto
eu
tenho
de
reconhecer.
Enfermeiras,
governantas,
escolas.
E
uma
alimentação
sadia
e
simples
para
as
crianças...
não
aqueles
pratos
apimentados
de
arroz
que
ele
costumava
comer.
—E
desde
então
a
senhora
está
aqui?
—Sim.
É
estranho
de
certa
forma...
Eu
creio
que
podia
ter
ido
embora
depois
que
as
crianças
cresceram
e
se
casaram...
Acho
que
na
verdade
eu
me
deixei
interessar
pelo
jardim.
E
depois
foi
Philip.
Se
um
homem
se
casa
com
uma
atriz
não
deve
esperar
uma
vida
caseira.
Não
sei
por
que
as
atrizes
têm
filhos.
Assim
que
os
bebês
nascem
elas
saem
correndo
para
representar
em
Edimburgo
ou
em
outro
lugar
ainda
mais
distante.
Philip
fez
a
coisa
mais
sensata
que
pôde:
mudou-se
para
cá
com
seus
livros.
—O
que
é
que
Philip
Leonides
faz?
—Escreve
livros.
Nunca
soube
por
quê.
Ninguém
quer
saber
de
lê-los.
São
todos
sobre
obscuros
detalhes
históricos.
Você
nunca
ouviu
falar
sobre
eles,
ouviu?
Eu
tive
que
admitir
que
não.
—Dinheiro
demais,
é
isto
o
que
ele
tem
—
continuou
ela.
—
A
maior
parte
das
pessoas
devia
deixar
de
ser
excêntrica
e
trabalhar
para
ganhar
a
vida.
—Ele
recebe
dinheiro
pelos
livros?
—É
claro
que
não.
Parece
que
é
uma
grande
autoridade
em
certos
períodos
históricos
e
tudo
o
mais.
Mas
não
tem
necessidade
de
vender
seus
livros.
Aristide
garantiu-lhe
uma
renda
de
cem
mil
libras...
algo
assim
louco!
Para
evitar
os
impostos
de
herança
Aristide
tornou-os
todos
independentes
financeiramente.
Roger
dirige
a
Associação
dos
Fornecedores.
Sophia
tem
uma
belíssima
renda.
O
dinheiro
das
crianças
está
depositado
em
nome
delas.
—Então
nenhum
deles
tinha
um
interesse
direto
em
sua
morte?
Ela
me
lançou
um
olhar
estranho.
—E
lógico
que
todos
tinham.
Todos
ganharão
mais
dinheiro.
Mas
teriam
conseguido
mais
dinheiro
se
quisessem.
Bastava
pedir.
—A
senhora
tem
idéia
de
quem
o
teria
envenenado,
Srta.
de
Haviland?
Ela
respondeu
categórica:
—Não,
eu
não
tenho
idéia.
E
isto
me
aborrece
muito!
É
desagradável
pensar
que
temos
um
Borgia
solto
pela
casa.
Eu
suponho
que
a
polícia
vai
jogar
a
culpa
em
cima
da
pobre
Brenda.
—A
senhora
acha
que
eles
estarão
certos
se
fizerem
isto?
—Também
não
posso
dizer
nada.
Ela
sempre
me
pareceu
uma
moça
tola
e
vulgar...
muito
convencional.
Não
seria
a
minha
idéia
de
uma
envenenadora.
Entretanto,
é
uma
mulher
jovem,
de
vinte
e
quatro
anos
que
se
casa
com
um
velho
de
quase
oitenta
—
está
na
cara
que
ela
fez
isto
por
dinheiro.
Se
as
coisas
corressem
normalmente
ela
esperava
tornar-se
uma
viúva
rica
muito
em
breve.
Mas
Aristide
era
um
velho
excepcionalmente
forte.
A
diabete
dele
não
estava
piorando.
Pelo
jeito,
ele
ia
viver
cem
anos.
Vai
ver
que
ela
cansou
de
esperar.
—Neste
caso...
—
eu
comecei
mas
calei-me.
—Neste
caso
—
disse
ela
vivamente,
—
tudo
está
mais
ou
menos
certo.
Uma
publicidade
desagradável,
é
claro.
Mas
afinal
de
contas
ela
não
faz
parte
da
família.
—A
senhora
não
tem
outras
idéias?
—Que
outras
idéias
eu
poderia
ter?
Eu
fiquei
pensando.
Calculava
que
por
baixo
daquele
chapéu
de
feltro
surrado
havia
mais
do
que
eu
imaginava.
Por
trás
daquele
discurso
feito
aos
arrancos,
havia
—
calculei
eu
—
um
cérebro
muito
vivo
trabalhando.
Por
um
breve
instante
eu
cheguei
mesmo
a
imaginar
se
não
fora
a
própria
Edith
de
Haviland
quem
envenenara
Aristide
Leonides...
Não
me
pareceu
uma
idéia
assim
tão
absurda;
No
fundo
de
meus
pensamentos
eu
ainda
via
a
maneira
vingativa
como
ela
esmagara
o
raminho
de
jitirana
no
chão
com
o
calcanhar.
Lembrei-me
da
palavra
que
Sophia
empregara.
Crueldade.
Dei
uma
olhada
de
esguelha
para
Edith
de
Haviland.
Se
houvesse
uma
razão
que
valesse
a
pena!...
Mas
no
parecer
de
Edith
de
Haviland
qual
seria
a
razão
que
valeria
a
pena?
Para
saber
disso
eu
precisava
conhecê-la
melhor.
Capítulo
6
A
PORTA
DA
FRENTE
estava
aberta.
Entramos
em
um
vestíbulo
surpreendentemente
espaçoso,
mobiliado
de
forma
discreta
—
móveis
bem
cuidados
de
carvalho
escuro
e
metais
reluzentes.
Na
parte
dos
fundos,
onde
normalmente
deveria
haver
uma
escadaria,
havia
uma
parede
branca
com
uma
porta.
—É
a
parte
da
casa
que
meu
cunhado
ocupava
—
disse
Edith
de
Haviland.
—
O
andar
térreo
é
de
Philip
e
Magda.
Passamos
por
uma
porta
à
esquerda
que
dava
para
uma
ampla
sala
de
estar.
As
paredes
tinham
lambris
azul
claro,
os
móveis
eram
estofados
com
brocados
pesados
e
em
cada
mesa
e
em
todas
as
paredes
estavam
pendurados
retratos
e
fotografias
de
atores,
bailarinas,
peças
de
teatro
e
cenários.
Um
quadro
de
Degas
mostrando
dançarinas
de
balé
estava
pendurado
sobre
a
lareira.
Uma
profusão
de
flores,
crisântemos
dourados
e
enormes
vasos
de
cravos.
—Calculo
—
disse
a
Srta.
de
Haviland,
—
que
queira
conhecer
Philip.
Será
que
eu
queria
mesmo
conhecer
Philip?
Não
tinha
idéia.
A
única
coisa
que
eu
queria
fazer
era
ver
Sophia,
e
isto
eu
já
conseguira.
Ela
dera
o
seu
enfático
apoio
ao
plano
do
Velho
—
mas
depois
saíra
de
cena
e
provavelmente,
agora,
estaria
em
outro
lugar
qualquer
telefonando
a
respeito
de
um
peixe
—
sem
ter
dado
nenhuma
indicação
de
como
eu
deveria
agir.
Será
que
eu
devia
apresentar-me
a
Philip
Leonides
como
um
rapaz
para
casar
com
sua
filha,
como
um
amigo
casual
que
viera
fazer
uma
visita
(decerto
não
era
o
momento
indicado!)
ou
como
um
auxiliar
da
polícia?
Edith
de
Haviland
não
me
deu
tempo
de
pensar.
De
fato,
ela
não
estava
formulando
uma
pergunta
e
sim
fazendo
uma
afirmação.
—Vamos
à
biblioteca
—
disse
ela.
Conduziu-me
por
um
corredor
até
uma
outra
porta.
Era
uma
sala
grande,
cheia
de
livros.
Os
livros
não
estavam
apenas
nas
prateleiras
que
subiam
até
o
teto.
Estavam
em
cadeiras
e
mesas
e
mesmo
pelo
chão.
E,
mesmo
assim,
não
havia
um
ar
de
desordem
muito
grande.
A
sala
era
fria.
E
havia
no
ar
a
falta
de
um
cheiro
que
eu
esperava
sentir
—
cheirava
a
mofo
de
livros
velhos
e
a
um
ligeiro
perfume
de
cera
de
abelha.
Em
poucos
segundos
percebi
o
que
estava
faltando:
era
o
cheiro
de
fumo.
Philip
Leonides
não
era
um
fumante.
Ele
se
ergueu
da
mesa
onde
estava
quando
nós
entramos
—
era
um
homem
alto,
de
cerca
de
uns
cinqüenta
anos,
estranhamente
bonito.
Todos
tinham
enfatizado
tanto
a
feiúra
de
Aristide
Leonides,
que
eu
não
sei
por
qual
razão
esperava
que
seu
filho
também
fosse
feio.
O
que
eu
não
estava
preparado
para
encontrar
era
esta
tal
perfeição
de
traços
—
o
nariz
reto,
a
linha
perfeita
do
queixo,
os
cabelos
louros
já
um
pouco
grisalhos,
jogados
para
trás,
e
a
testa
bem
proporcionada.
—Este
é
Charles
Hayward,
Philip
—
disse
Edith
de
Haviland.
—Ah,
como
tem
passado?
Eu
não
tinha
idéia
se
ele
já
ouvira
falar
de
mim.
A
mão
que
me
estendeu
era
fria.
A
expressão
indiferente.
Isto
me
fez
ficar
mais
nervoso.
Ele
continuou
de
pé,
paciente
e
desinteressado.
—Onde
andam
todos
esses
policiais
horrorosos?
—
perguntou
Miss
de
Haviland.
—
Já
estiveram
aqui?
—Eu
creio
que
o
Inspetor-Chefe...
(ele
deu
uma
olhada
num
cartão
em
sua
mesa)
ahn...
Taverner,
virá
falar
comigo
daqui
a
pouco.
—Onde
ele
está
agora?
—
Não
tenho
idéia,
tia
Edith.
Lá
em
cima,
eu
acho.
—Com
Brenda?
—Não
sei
mesmo.
Olhando-se
para
Philip
Leonides
parecia
impossível
se
imaginar
que
um
crime
acabasse
de
ser
cometido
em
suas
proximidades.
—Magda
já
está
de
pé?
—Não
sei.
Geralmente
ela
não
se
levanta
antes
das
onze.
—É,
isto
é
muito
dela
—
resmungou
Edith
de
Haviland.
O
que
era
mesmo
de
Magda
Leonides,
foi
a
voz
aguda,
falando
muito
depressa
e
que
se
aproximava
rapidamente.
A
porta
às
minhas
costas
abriu-se
num
arranco
e
uma
mulher
entrou.
Eu
não
sei
como
ela
conseguia
dar
a
impressão
de
serem
três
mulheres
entrando
na
sala
ao
invés
de
uma
só.
Estava
fumando
um
cigarro
numa
piteira
comprida
e
usava
um
robe
de
cetim
cor-de-pêssego
que
segurava
com
uma
das
mãos.
Uma
massa
enorme
de
cabelos
louro-Titiano
caía
em
cachos
sobre
os
seus
ombros.
O
rosto
impressionava
pela
nudez
que
as
mulheres
de
hoje
em
dia
têm
quando
não
estão
pintadas.
Os
olhos
eram
azuis
e
imensos
e
ela
falava
depressa,
com
voz
rouca
e
atraente,
e
uma
dicção
muito
clara.
—Querido,
eu
não
agüento
mais...
eu
não
agüento
mais
isto...
imagine
só
o
noticiário...
ainda
não
está
nos
jornais,
mas
é
claro
que
breve
estará...
e
eu
ainda
não
pensei
como
vou
apresentar-me
no
inquérito:
devo
parecer
muito
abatida?
Mas
eu
acho
que
de
preto
não,
talvez
roxo
escuro...
e
não
me
sobrou
nenhum
talão
de
racionamento...
e
eu
perdi
o
endereço
daquele
homem
horroroso
que
me
vendia
talões...
você
se
lembra?
Aquela
garagem
perto
da
Avenida
Shaftesbury...
e
se
eu
for
lá
de
automóvel
a
polícia
vai-me
seguir...
e
podem
fazer
perguntas
desagradáveis,
não
podem?
Sei
lá...
o
que
é
que
eu
vou
dizer?
Puxa,
como
você
está
calmo,
Philip!
Como
é
que
você
pode
ser
assim
tão
calmo?
Não
sabe
que
a
gente
já
pode
sair
desta
casa
horrível
agora?
Liberdade!...
Liberdade!...
Oh!
que
indelicadeza...
o
pobre
velho
queridinho!
É
claro
que
nós
não
poderíamos
deixar
de
morar
aqui
enquanto
ele
fosse
vivo.
Ele
nos
adorava,
não
é?
Apesar
das
intrigas
que
aquela
mulher
lá
de
cima
procurava
fazer
entre
nós.
Eu
tenho
certeza
de
que
se
nós
nos
tivéssemos
mudado
e
os
deixado
sozinhos,
ele
nos
teria
deserdado.
Criatura
horrível!
Imagine
que
o
pobre
coitadinho
já
estava
perto
dos
noventa...
nem
todos
os
senti-
mentos
da
família
podiam
lutar
contra
aquela
mulher
pavorosa.
Sabe,
Philip?
Eu
acho
que
é
uma
oportunidade
maravilhosa
para
representarmos
a
peça
de
Edith
Thompson.
Este
crime
vai-nos
dar
um
bocado
de
publicidade
gratuita.
Bildenstein
disse
que
ele
podia
arranjar
a
dramaticidade...
e
é
uma
peça
tremenda
em
verso
sobre
aqueles
mineiros
e
está
quase
pronta...
é
um
papel
maravilhoso!...
maravilhoso!
Eu
sei
que
dizem
que
eu
devo
fazer
apenas
comédia,
por
causa
do
meu
nariz,
mas
você
sabe
que
se
pode
arranjar
um
toque
de
comédia
no
papel
de
Edith
Thompson...
eu
acho
que
nem
o
autor
teve
esta
idéia...
mas
a
comédia
aumenta
o
suspense.
Eu
sei
exatamente
como
interpretar
o
papel...
bem
lugar-comum,
bem
tola,
uma
aparência
fingida
até
o
último
momento
e
então...
Ela
estendeu
o
braço
num
gesto
violento
—
o
cigarro
voou
da
piteira
para
cima
da
mesa
de
mogno
encerado
de
Philip
e
começou
a
queimar
a
madeira.
Impassível
ele
o
apanhou
e
colocou
dentro
da
cesta
de
papéis
usados.
—E
então...
—
suspirou
Magda
Leonides,
os
olhos
de
repente
arregalados,
o
rosto
contraído
—
...
apenas
o
terror...
A
rígida
expressão
de
terror
ficou
em
seu
rosto
por
uns
vinte
segundos,
depois
descontraiu-se,
tornou
a
se
crispar
—
desta
vez
como
uma
criança
espantada
prestes
a
chorar
e
desmanchar-se
em
lágrimas.
De
repente
todas
as
emoções
desapareceram
como
apagadas
por
uma
esponja
e,
voltando-se
para
mim,
ela
perguntou
em
um
tom
muito
profissional:
—Não
acha
que
é
assim
que
se
deve
desempenhar
o
papel
de
Edith
Thompson?
Eu
disse
que
achava
que
era
exatamente
assim
que
se
devia
representar
o
papel
de
Edith
Thompson.
No
momento
eu
mal
me
lembrava
quem
era
Edith
Thompson
mas
estava
ansioso
em
causar
boa
impressão
na
mãe
de
Sophia.
—Quase
igual
a
Brenda,
realmente,
não
acha?
—
disse
Magda.
—
Sabe?
Eu
ainda
não
tinha
pensado
nisto.
É
muito
interessante.
Será
que
eu
devo
lembrar
ao
Inspetor?
O
homem
por
trás
da
mesa
franziu
ligeiramente
a
testa.
—Não
há
nenhuma
necessidade,
Magda
—
disse
ele,
—
de
você
falar
com
ele.
Eu
direi
tudo
o
que
for
necessário.
—Não
falar
com
ele?
—
ela
levantou
a
voz.
—
Mas
é
claro
que
eu
preciso
falar
com
ele!
Querido,
querido,
você
não
tem
imaginação
nenhuma!
Não
imagina
a
importância
dos
de
talhes.
Ele
precisa
saber
exatamente
como
foi
e
quando
foi
que
tudo
aconteceu
e
as
coisinhas
pequenas
que
a
gente
nota
na
hora
e
não
dá
a
importância
devida...
—Mamãe
—
disse
Sophia,
entrando
pela
porta
aberta,
—
a
senhora
não
vai
contar
uma
porção
de
mentiras
para
o
Inspetor.
—Sophia...
querida...
—Eu
sei,
mamãe
querida,
que
a
senhora
já
tem
tudo
decorado
na
cabeça
e
está
pronta
para
desempenhar
um
papel
maravilhoso.
Mas
acontece
que
decorou
tudo
errado.
Completamente
errado.
—Tolice.
Você
não
sabe...
—Sei,
sim.
Precisa
representar
de
uma
maneira
diferente,
querida.
Humilde...
falando
pouco...
escondendo
alguma
coisa...
para
sua
proteção...
para
a
proteção
da
família.
O
rosto
de
Magda
Leonides
espelhou
a
ingênua
perplexidade
de
uma
criança.
—Meu
amor...
—
começou
ela
—
você
pensa
mesmo...
—Claro
que
sim.
Esqueça
o
resto.
O
papel
é
este.
Sophia
continuou
a
falar
e
um
sorriso
satisfeito
foi
aparecendo
aos
poucos
no
rosto
de
sua
mãe.
—Eu
preparei
um
chocolate
para
a
senhora.
Está
na
sala
de
estar.
—Oh,
que
ótimo!
Estou
morrendo
de
fome...
Ela
parou
ao
chegar
à
porta:
—Você
não
faz
idéia
—
disse
ela,
e
as
palavras
parece
que
foram
dirigidas
para
mim
ou
para
a
estante
que
estava
às
minhas
costas
—
como
é
adorável
ter-se
uma
filha!
Com
esta
deixa
de
saída,
ela
foi-se
embora.
—Só
Deus
sabe
—
disse
Edith
de
Haviland
—
o
que
é
que
ela
vai
contar
para
a
polícia!
—Ela
vai
falar
tudo
certo
—
garantiu
Sophia.
—Ela
pode
dizer
qualquer
coisa.
—Não
se
preocupe
—
disse
Sophia.
—
Ela
vai
representar
da
maneira
que
o
diretor
de
cena
mandar.
E
o
diretor
sou
eu!
Ela
saiu
atrás
de
sua
mãe,
mas
logo
deu
meia
volta
e
anunciou:
—O
Inspetor
Taverner
está
aqui
para
vê-lo,
papai.
O
senhor
não
se
importa
que
Charles
assista
à
entrevista,
não
é?
Pensei
ver
um
ligeiro
ar
de
espanto
passar
pelo
rosto
de
Philip
Leonides.
É
bem
possível.
Mas
o
seu
hábito
de
desatenção
desta
vez
me
foi
útil.
Ele
murmurou:
—Oh,
claro
que
não...
claro
que
não...
—
numa
voz
um
tanto
vaga.
O
Inspetor
Taverner
entrou,
seguro
de
si,
digno
de
confiança,
com
um
ar
de
desembaraço
profissional
que
era
de
certa
forma
tranqüilizante.
Mais
um
ligeiro
aborrecimento
—
era
o
que
ele
deu
a
impressão
de
dizer
—
e
então
nós
sairemos
desta
casa
de
uma
vez.
Ninguém
vai
ficar
mais
satisfeito
do
que
eu.
Nós
não
gostamos
de
forçar
nossa
presença,
eu
lhe
garanto...
Eu
não
sei
como
ele
conseguia
dar
esta
impressão
sem
dizer
uma
só
palavra,
apenas
no
gesto
de
arrastar
uma
cadeira
para
perto
da
mesa
—
eu
só
sei
que
funcionava.
Sentei-me
discretamente
num
canto
da
sala.
—Sim,
Inspetor?
—
disse
Philip.
Edith
de
Haviland
interrompeu
bruscamente:
—O
senhor
não
vai
precisar
de
mim,
não
é,
Inspetor?
—Por
enquanto,
não,
Srta.
de
Haviland.
Mais
tarde,
se
eu
pudesse,
gostaria
de
trocar
umas
palavras
com
a
senhora...
—É
claro.
Eu
estarei
lá
em
cima.
Ela
saiu,
fechando
a
porta
ao
passar.
—Muito
bem,
Inspetor?
—
repetiu
Philip.
—Eu
sei
que
o
senhor
é
um
homem
muito
ocupado
e
não
tomarei
o
seu
tempo.
Mas
precisava
comunicar-lhe
que
as
nossas
suspeitas
se
confirmaram.
Seu
pai
não
morreu
de
morte
natural.
A
morte
foi
em
resultado
de
uma
dose
muito
elevada
de
fisostigmina...
mais
conhecida
como
eserina.
Philip
fez
que
sim
com
a
cabeça.
Não
demonstrou
nenhuma
emoção
em
especial.
—Eu
não
sei
se
isto
lhe
sugere
algo
—
continuou
Taverner.
—O
que
poderia
sugerir?
Meu
ponto
de
vista
pessoal
é
que
meu
pai
deve
ter
tomado
o
veneno
por
acidente.
—O
senhor
pensa
realmente
assim,
Sr.
Leonides?
—Sim,
isso
me
parece
perfeitamente
cabível.
Lembre-se
de
que
ele
estava
perto
dos
noventa
anos
e
via
muito
pouco.
—Então
ele
esvaziou
o
conteúdo
de
seu
vidro
de
colírio
dentro
de
um
frasco
de
insulina.
Será
que
isto
lhe
parece
uma
sugestão
viável,
Sr.
Leonides?
Philip
não
respondeu.
Sua
expressão
tornou-se
ainda
mais
inexpressiva.
Taverner
continuou:
—Nós
encontramos
o
vidro
de
colírio...
vazio...
na
lata
de
lixo
e
sem
nenhuma
impressão
digital.
Por
si
só
isto
já
é
um
fato
curioso.
Normalmente
deveria
haver
impressões.
Com
certeza
seu
pai,
sua
madrasta
ou
possivelmente
o
criado...
Philip
Leonides
levantou
a
cabeça.
—O
que
é
que
há
com
o
criado?
—
perguntou.
—
O
que
há
com
Johnson?
—O
senhor
sugere
que
seja
Johnson
o
provável
criminoso?
Com
certeza
ele
teve
oportunidade...
Mas
quando
leva
mos
em
consideração
o
motivo
é
muito
diferente
Era
costume
de
seu
pai
pagar-lhe
todos
os
anos
uma
gratificação...
e
a
cada
ano
a
gratificação
aumentava.
Seu
pai
lhe
dissera
que
isto
era
uma
recompensa
em
lugar
de
lhe
deixar
alguma
coisa
no
testamento.
Esta
gratificação,
depois
de
sete
anos
de
serviço,
alcançara
uma
soma
considerável
e
continuava
aumentando.
É
óbvio
que,
para
o
interesse
de
Johnson,
seu
pai
deveria
viver
o
máximo
possível.
Além
disto,
eles
estavam
em
excelentes
termos
e
o
levantamento
da
vida
passada
de
Johnson
foi
irrepreensível.
Ele
é
muito
fiel
e
competente
como
criado
de
quarto
—
fez
uma
pausa.
—
Nós
não
suspeitamos
de
Johnson.
Philip
respondeu
vagamente:
—Compreendo.
—Agora,
Sr.
Leonides,
talvez
o
senhor
pudesse
fazer-nos
um
relato
detalhado
de
seus
próprios
atos
durante
o
dia
da
morte
de
seu
pai?
—Certamente,
Inspetor.
Eu
estive
nesta
sala
o
dia
inteiro...
com
exceção
das
refeições,
é
claro.
—Não
viu
seu
pai
durante
o
dia?
—Eu
lhe
dei
bom-dia
depois
do
café
como
era
meu
hábito.
—Esteve
sozinho
com
ele
neste
momento?
—Minha...
ahn...
madrasta
estava
no
quarto.
—Ele
lhe
pareceu
normal?
Com
um
leve
toque
de
ironia,
Philip
replicou:
—Ele
não
demonstrou
nenhum
conhecimento
prévio
de
que
iria
ser
assassinado
naquele
dia.
—A
parte
da
casa
que
seu
pai
ocupava
é
completamente
separada
desta?
—Sim,
a
única
comunicação
é
através
da
porta
que
fica
na
sala
da
entrada.
—A
porta
é
trancada?
—Não.
—Nunca?
—Que
eu
saiba
não.
—Qualquer
pessoa
podia
circular
livremente
entre
esta
ou
aquela
parte
da
casa?
—Claro.
Eram
apenas
separadas
por
motivos
de
conveniências
domésticas.
—Como
foi
que
tomou
conhecimento
da
morte
de
seu
pai?
—Meu
irmão
Roger,
que
ocupa
a
ala
esquerda
do
andar
de
cima,
desceu
correndo
para
me
dizer
que
meu
pai
tivera
um
ataque
repentino.
Tinha
dificuldade
em
respirar
e
parecia
muito
mal.
—O
que
foi
que
o
senhor
fez?
—Telefonei
para
o
médico,
coisa
que
ninguém
ainda
pensara
em
fazer.
O
médico
tinha
saído...
e
eu
deixei
um
recado
para
que
ele
viesse
para
cá
o
mais
depressa
possível.
Então
eu
subi.
—E
então?
—Meu
pai
estava
obviamente
muito
mal.
Morreu
antes
de
o
médico
chegar.
Não
havia
nenhuma
emoção
na
voz
de
Philip.
Estava
apenas
enunciando
um
fato
consumado.
—Onde
estava
o
resto
da
família?
—Minha
mulher
estava
em
Londres.
Ela
chegou
logo
depois.
Sophia
também
não
estava,
eu
creio.
Os
dois
mais
novos,
Eustace
e
Josephine,
estavam
em
casa.
—Eu
peço
que
o
senhor
não
me
compreenda
mal,
Sr.,
Leonides,
se
eu
lhe
perguntar
exatamente
em
como
a
morte
de
seu
pai
lhe
afetará
sua
posição
financeira.
—Eu
aprecio
muito
os
seus
esforços
em
saber
todos
os
fatos.
Meu
pai
tornou-nos
financeiramente
independentes
há
muitos
anos.
Meu
irmão
é
presidente
e
o
principal
acionista
da
Associação
de
Fornecedores,
a
maior
companhia
de
meu
pai,
e
é
o
único
responsável
por
ela.
Ele
me
deu
uma
soma
em
dinheiro
equivalente...
posso
dizer-
lhe
que
foi
cerca
de
cento
e
cinqüenta
mil
libras
em
letras
e
ações...
para
que
eu
usasse
meu
capital
como
bem
entendesse.
Deu
também
somas
consideráveis
para
minhas
duas
irmãs
que
já
faleceram.
—Mas
apesar
disto
ele
ainda
guardou
uma
fortuna
considerável
para
si,
não?
—Não,
na
verdade
ele
ficou
apenas
com
uma
pequena
parcela
de
sua
fortuna.
Disse
que
isto
lhe
daria
mais
interesse
na
vida.
Desde
então
—
pela
primeira
vez
um
leve
sorriso
delineou-se
no
rosto
de
Philip,
—
ele
se
tornou,
devido
a
diversos
empreendimentos,
um
homem
ainda
mais
rico
do
que
era.
—Seu
irmão
e
o
senhor
vieram
morar
aqui.
Isto
foi
devido
a
dificuldades...
financeiras?
—É
lógico
que
não.
Foi
apenas
uma
questão
de
conveniência.
Meu
pai
sempre
nos
dizia
que
seríamos
bem-vindos
aqui.
Por
diversas
razões
domésticas
isto
se
tornou
conveniente
para
mim.
E
também
—
acrescentou
Philip
deliberadamente
—
eu
gostava
imensamente
de
meu
pai.
Vim
para
cá
com
minha
família
em
1937.
Não
pago
aluguel
e
sim
uma
porcentagem
das
despesas.
—E
seu
irmão?
—Meu
irmão
veio
para
cá
depois
que
a
casa
dele
em
Londres
foi
bombardeada
em
1943
na
blitz.
—Agora,
Sr.
Leonides,
o
senhor
tem
alguma
idéia
sobre
as
disposições
testamentárias
de
seu
pai?
—Eu
creio
que
sim.
Ele
refez
seu
testamento
logo
depois
que
a
paz
foi
assinada
em
1945.
Meu
pai
não
era
homem
de
guardar
segredos.
Fez
uma
reunião
familiar
na
qual
o
seu
advogado
também
estava
presente
e,
a
seu
pedido,
nos
tornou
cientes
dos
termos
de
seu
testamento.
Eu
imagino
que
o
senhor
já
conheça
esses
termos.
O
Sr.
Gaitskill
sem
dúvida
já
deve
ter-lhe
informado.
Aproximadamente
uma
soma
de
cem
mil
libras
livres
de
impostos
para
minha
madrasta,
além
de
sua
já
generosa
pensão
fixada
na
ocasião
do
casamento.
O
total
líquido
de
sua
herança
foi
dividido
em
três
partes,
uma
para
mim,
uma
para
meu
irmão
e
a
terceira
depositada
em
nome
de
seus
três
netos.
A
herança
é
muito
grande,
mas
os
impostos
mortuários,
é
claro,
serão
bem
pesados.
—Alguma
doação
para
empregados
ou
para
caridade?
—Nenhuma
doação
de
espécie
alguma.
Os
salários
pagos
aos
empregados
eram
aumentados
anualmente
se
eles
permanecessem
em
serviço.
—O
senhor
não
está...
perdoe
a
pergunta...
precisando
de
dinheiro
no
momento,
Sr.
Leonides?
—O
imposto
de
renda
é
bastante
pesado,
Inspetor...
mas
minhas
rendas
me
bastam
amplamente...
e
também
para
minha
esposa.
Além
disto,
meu
pai
sempre
nos
fazia
presentes
generosos,
e
se
surgisse
alguma
emergência,
imediatamente
ele
vinha
em
nosso
auxílio.
Philip
acrescentou
de
maneira
fria
e
insofismável:
—Eu
lhe
garanto,
Inspetor,
que
não
possuía
nenhuma
razão
financeira
para
desejar
a
morte
de
meu
pai.
—Eu
sinto
muito,
Sr.
Leonides,
se
pensou
que
eu
estava
sugerindo
isto.
Mas
nós
precisamos
reunir
todos
os
fatos.
Eu
peço
que
me
desculpe
mas
preciso
ainda
fazer-lhe
algumas
perguntas
muito
delicadas.
A
respeito
das
relações
entre
seu
pai
e
sua
madrasta.
Eles
eram
felizes
juntos?
—Que
eu
saiba,
perfeitamente
felizes.
—Nenhuma
briga?
—Creio
que
não.
—Havia...
uma
grande
diferença
de
idade?
—Havia.
—O
senhor...
perdoe...
aprovou
o
segundo
casamento
de
seu
pai?
—Não
me
pediram
a
aprovação.
—Isto
não
é
resposta,
Sr.
Leonides.
—Já
que
o
senhor
me
pediu
a
opinião,
eu
diria
que
considerei
este
casamento
como...
insensato.
—O
senhor
censurou
seu
pai
pelo
fato?
—Quando
eu
soube,
já
era
um
fato
consumado.
—Foi
um
grande
choque
para
o
senhor,
não?
Philip
não
respondeu.
—Houve
algum
mal-entendido
sobre
o
assunto?
—Meu
pai
era
livre
para
fazer
o
que
bem
entendesse.
—Suas
relações
com
a
segunda
Sra.
Leonides
eram
amigáveis?
—Perfeitamente.
—O
senhor
mantinha
laços
de
amizade
com
ela?
—Nós
nos
víamos
raramente.
O
Inspetor
Taverner
mexeu-se
na
cadeira.
—O
senhor
pode
dizer-me
algo
a
respeito
do
Sr.
Laurence
Brown?
—Sinto
muito,
mas
não
posso.
Ele
foi
contratado
por
meu
pai.
—Mas
foi
contratado
para
ensinar
seus
filhos,
Sr.
Leonides.
—É
verdade.
Meu
filho
sofreu
de
paralisia
infantil...
felizmente
um
caso
leve...
mas
consideramos
que
não
seria
prudente
mandá-lo
para
uma
escola
pública.
Meu
pai
sugeriu
que
ele
e
minha
filha
mais
nova,
Josephine,
tivessem
um
professor
particular...
naquela
época
a
escolha
era
muito
reduzida...
uma
vez
que
o
professor
em
questão
teria
de
ser
inapto
para
o
serviço
militar.
As
credenciais
deste
rapaz
eram
satisfatórias
e
meu
pai
e
minha
tia
(que
sempre
zelou
pelo
bem-
estar
das
crianças)
se
deram
por
satisfeitos
e
eu
concordei.
Posso
acrescentar
que
nunca
encontrei
nenhum
defeito
em
seus
métodos
de
ensino,
que
sempre
foram
conscientes
e
adequados.
—Os
aposentos
dele
são
na
parte
da
casa
ocupada
por
seu
pai
ou
aqui?
—Lá
há
mais
espaço.
—O
senhor
notou
alguma
vez...
peço
que
me
desculpe
a
pergunta...
algum
sinal
de
intimidade
entre
Laurence
Brown
e
sua
madrasta?
—Eu
nunca
tive
oportunidade
de
observar
nada
neste
sentido.
—O
senhor
ouviu
alguma
vez
algum
boato
ou
mexe
rico
a
este
respeito?
—Eu
não
ouço
boatos
ou
mexericos,
Inspetor.
—Muito
louvável
de
sua
parte
—
disse
o
Inspetor
Taverner.
—
Então
o
senhor
não
viu
nada
de
mau,
não
ouviu
nada
de
mau
e
também
não
falará
nada
de
mau,
não
é?
—O
senhor
interpretará
como
quiser,
Inspetor.
O
Inspetor
Taverner
levantou-se.
—Bem
—
disse
ele,
—
muito
obrigado,
Sr.
Leonides.
Eu
o
segui
discretamente
quando
saiu
da
sala.
—Ufa!
—
disse
Taverner,
—
que
sujeito
duro
de
roer!
Capítulo
7
—E
AGORA
—
DISSE
Taverner
—
vamos
ter
uma
palavrinha
com
a
Sra.
Philip.
O
nome
dela
no
palco
é
Magda
West.
—Ela
tem
talento?
—
eu
perguntei.
—
Eu
a
conheço
de
nome
e
me
recordo
de
tê-la
visto
em
várias
peças
mas
não
consigo
me
lembrar
onde,
nem
quando.
—Ela
é
dessas
que
são
"quase
um
sucesso"
—
disse
Taverner.
—
Fez
sucesso
uma
ou
duas
vezes
no
West
End
e
um
certo
nome
no
Teatro
do
Repertório;
geralmente
trabalha
nestes
teatros
esnobes
e
nos
clubes
mais
fechados.
Eu
acredito
que,
no
duro
mesmo,
ela
nunca
teve
foi
motivação
e
isto
a
prejudicou.
Ela
sempre
pôde
escolher,
sempre
foi
aonde
quis
e
de
vez
em
quando
entra
com
dinheiro
para
financiar
uma
peça
onde
tem
vontade
de
representar
um
determinado
papel...
geralmente
o
último
que
deveria
representar...
O
resultado
é
que
ela
é
considerada
mais
como
amadora
que
como
uma
verdadeira
profissional.
Trabalha
muito
bem,
apesar
de
tudo,
especialmente
em
comédias,
mas
os
diretores
não
gostam
muito
dela...
dizem
que
é
muito
independente
e
cria
muita
confusão,
arranja
brigas
e
depois
se
diverte
com
as
travessuras.
Eu
não
sei
se
é
verdade
mas
ela
também
não
goza
de
muita
popularidade
entre
os
companheiros
de
trabalho.
Sophia
veio
da
sala
de
estar
e
disse:
—Mamãe
está
lá,
Inspetor.
Eu
segui
Taverner
até
a
grande
sala
de
estar.
No
primeiro
momento
quase
não
reconheci
a
mulher
que
estava
sentada
no
sofá
de
brocado.
Os
cabelos
louros
estavam
presos
no
alto
da
cabeça
num
penteado
de
estilo
e
ela
vestia
um
bem
talhado
costume
cinza-escuro
e
uma
blusa
lilás
muito
clara,
delicadamente
pregueada,
com
um
decote
alto
fechado
por
um
pequeno
camafeu.
Pela
primeira
vez
eu
reparei
na
delicadeza
de
seu
nariz
arrebitado.
Lembrei-me
vagamente
de
Athene
Seyler
—
e
me
pareceu
impossível
imaginar
que
fosse
a
mesma
criatura
tempestuosa
do
robe
cor-de-pêssego.
—Inspetor
Taverner?
—
disse
ela.
—
Entre,
por
favor,
e
sente-
se.
Quer
fumar?
Este
assunto
é
muito
desagradável.
Ainda
não
posso
acreditar
no
que
aconteceu.
Sua
voz
era
baixa
e
inexpressiva,
a
voz
de
uma
pessoa
determinada
a
demonstrar
a
todo
o
custo
o
seu
autodomínio.
Ela
continuou:
—Por
favor,
diga-me
em
que
lhe
posso
ser
útil.
—Obrigado,
Sra.
Leonides.
Onde
a
senhora
estava
no
momento
da
tragédia?
—Eu
creio
que
estava
voltando
de
Londres.
Almocei
lá
naquele
dia
no
Ivy,
com
uma
amiga.
Depois
nós
fomos
a
um
desfile
de
modas.
Estivemos
no
Berkeley
tomando
um
drinque
com
outros
amigos.
De
lá
vim
para
casa.
Quando
cheguei
aqui
tudo
estava
em
tumulto.
Parece
que
meu
sogro
tivera
um
ataque
repentino.
Ele
estava...
morto
—
a
voz
dela
estremeceu
ligeiramente.
—A
senhora
gostava
de
seu
sogro?
—Eu
adorava...
A
voz
subiu
de
tom.
Sophia
endireitou,
imperceptivelmente,
a
posição
do
quadro
de
Degas.
A
voz
de
Magda
voltou
ao
tom
anterior.
—Eu
gostava
muito
dele
—
disse
com
muita
calma.
—
Todos
nós.
Ele
era...
muito
bom
para
nós.
—A
senhora
se
dava
bem
com
a
Sra.
Leonides?
—Nós
quase
não
víamos
Brenda.
—Por
quê?
—Bem,
nós
não
tínhamos
muita
coisa
em
comum.
Pobre
Brenda.
A
vida
deve
ter
sido
dura
para
ela
algumas
vezes.
Novamente
Sophia
ajeitou
o
Degas.
—É
mesmo?
Em
que
sentido?
—Oh,
eu
não
sei
—
Magda
balançou
a
cabeça,
com
um
pequeno
sorriso
triste.
—A
Sra.
Leonides
era
feliz
com
o
marido?
—Oh,
eu
creio
que
sim.
—Não
brigavam?
Outra
vez
o
leve
aceno
negativo
de
cabeça
e
o
mesmo
sorriso.
—Na
verdade,
eu
não
sei
dizer,
Inspetor.
A
parte
da
casa
onde
eles
moravam
é
separada
desta.
—Ela
e
o
Sr.
Laurence
Brown
eram
muito
amigos,
não
eram?
Eu
não
creio
disse
ela
com
dignidade
que
o
senhor
deva
Magda
Leonides
endireitou-se.
Seus
olhos
muito
abertos
olharam
recriminadoramente
para
o
Inspetor.
—
—
—
fazer-me
perguntas
como
esta.
Brenda
é
muito
amável
com
todas
as
pessoas.
Ela
sempre
foi
uma
criatura
muito
gentil.
—A
senhora
gosta
do
Sr.
Laurence
Brown?
—Ele
é
muito
tranqüilo.
Bastante
simpático,
quase
não
se
nota
sua
presença.
Eu
quase
não
o
vejo.
—O
seu
ensino
é
satisfatório?
—Eu
creio
que
sim.
Na
verdade,
eu
não
lhe
sei
dizer.
Philip
parece
estar
satisfeito.
Taverner
tentou
uma
tática
de
choque.
—Eu
sinto
ter
de
fazer-lhe
esta
pergunta,
mas
em
sua
opinião
havia
alguma
coisa...
assim
no
gênero
de
um
caso
de
amor...
entre
o
Sr.
Brown
e
a
Sra.
Brenda
Leonides?
Magda
levantou-se.
Ela
tinha
o
ar
de
uma
grande
dama.
—Eu
nunca
vi
nada
que
evidenciasse
algo
deste
gênero
—
disse
ela.
—
E
eu
não
creio,
Inspetor,
que
esta
seja
uma
pergunta
a
me
fazer.
Ela
era
a
esposa
de
meu
sogro
Eu
quase
bati
palmas.
O
Inspetor
também
se
levantou.
—Seria
mais
uma
pergunta
para
fazer
aos
criados?
—
sugeriu
ele.
Magda
não
respondeu.
—Muito
obrigado,
Sra.
Leonides
—
disse
o
Inspetor
e
saiu.
—A
senhora
esteve
maravilhosa,
mamãe
—
disse
Sophia
calorosamente
para
sua
mãe.
Magda
enrolou
um
cacho
de
cabelo
atrás
da
orelha
direita,
olhando-se
meditativamente
no
espelho.
—S-sim
—
disse
ela
—
eu
creio
que
foi
a
maneira
correta
de
interpretar
esse
papel.
Sophia
olhou
para
mim.
—Você
não
devia
—
perguntou
ela
—
ir
junto
com
o
Inspetor?
—Olhe
aqui,
Sophia,
o
que
é
que
eu
devo
fazer?...
Parei.
Eu
não
podia
perguntar
ali
em
frente
à
mãe
de
Sophia
qual
era
exatamente
o
papel
que
eu
deveria
assumir.
Magda
Leonides
já
demonstrara
suficientemente
não
ter
o
mínimo
interesse
na
minha
presença,
exceto
como
um
espectador
útil
para
apreciar
as
suas
deixas
finais
sobre
filhas.
Eu
podia
ser
um
repórter,
o
noivo
de
sua
filha,
um
obscuro
funcionário
da
polícia
ou
mesmo
um
papa-defuntos
—
para
Magda
Leonides
todos
seriam
apenas
rotulados
de
audiência
comum.
Olhando
para
os
pés,
a
Sra.
Leonides
disse
aborrecida:
—Estes
sapatos
não
estavam
bem.
São
frívolos.
Obedecendo
ao
imperativo
aceno
de
cabeça
de
Sophia,
eu
saí
correndo
atrás
de
Taverner.
Alcancei-o
na
sala
da
entrada,
no
momento
em
que
ia
entrar
pela
porta
que
dava
para
a
escadaria.
—Ia
subir
para
ver
o
irmão
mais
velho
—
explicou
ele.
—Com
ele
eu
posso
falar
com
menos
cerimônia.
—Olhe
aqui,
Taverner,
quem
é
que
eu
devo
ser?
Ele
pareceu
surpreso.
—Quem
é
que
você
deve
ser?
—Sim,
o
que
é
que
eu
estou
fazendo
nesta
casa?
Se
alguém
me
perguntar,
o
que
é
que
eu
digo?
—Ahn...
sei...
—
pensou
um
momento.
Depois
sorriu.
—Alguém
já
perguntou?
—Bem...
não.
—Então,
por
que
não
deixa
como
está?
Não
explique
nada.
É
um
bom
lema.
Especialmente
numa
casa
transtornada
como
esta.
Cada
qual
está
tão
assoberbado
com
seus
próprios
problemas
e
temores
que
ninguém
está
em
estado
de
fazer
perguntas.
Eles
confiarão
em
você
enquanto
parecer
seguro
de
si.
É
um
grande
erro
falar
quando
não
há
necessidade.
Hum...
vamos
subir
as
escadas.
A
porta
não
está
trancada.
E
claro
que
você
já
percebeu,
eu
calculo,
que
estas
perguntas
que
eu
estou
fazendo
não
servem
para
nada.
Não
tem
o
menor
sentido
saber
quem
estava
ou
não
em
casa,
ou
onde
estavam
todos
naquele
dia
particular...
—Então
por
quê...?
Ele
continuou:
—Porque
pelo
menos
me
dá
uma
oportunidade
de
dar
uma
olhada
neles
todos,
estudá-los
e
escutar
o
que
têm
a
dizer...
e
esperar
que...
Deus
sabe
por
que
sorte!...
alguém
pudesse
me
dar
uma
colher
de
chá
—
calou-se
durante
um
instante
e
murmurou:
—
Eu
aposto
que
a
Sra.
Magda
Leonides
poderia
contar
um
bocado
de
coisas
se
quisesse!
—Mas
você
teria
confiança
no
que
ela
dissesse?
—
perguntei.
—Oh,
é
claro
que
não
—
disse
Taverner;
—
eu
não
poderia
ter
confiança.
Mas
poderia
servir
para
o
início
de
uma
linha
de
investigações.
Cada
qual
nesta
maldita
casa
teve
os
meios
e
a
oportunidade.
Eu
só
estou
procurando
um
motivo.
No
alto
da
escadaria,
uma
porta
fechava
o
lado
direito
do
corredor.
Na
porta,
uma
argola
de
bronze
que
o
Inspetor
Taverner
fez
soar.
A
porta
abriu-se
tão
depressa,
que
parece
que
o
homem
estava
por
detrás
à
espera.
Era
um
homenzarrão
desajeitado,
de
ombros
muito
largos,
cabelos
escuros
desgrenhados
e
o
rosto
horrivelmente
feio
mas
ao
mesmo
tempo
muito
simpático.
Seus
olhos
se
fixaram
em
nós
e
logo
se
desviaram
daquela
maneira
encabulada
que
tantas
vezes
têm
as
pessoas
tímidas
mas
honestas.
—Oh,
é
o
senhor
—
disse
ele.
—
Entrem.
Por
favor.
Eu
ia
sair...
mas
não
tem
importância.
Venham
para
a
sala
de
visita.
Eu
vou
chamar
Clemency.
Oh...
você
está
aí,
que
rida.
É
o
Inspetor
Taverner.
Ele...
o
senhor
tem
cigarros?
Espere
um
instante.
O
senhor
me
dá
licença...
—
foi
de
encontro
a
um
biombo,
disse
"desculpe"
para
a
parede,
muito
atarantado
e
saiu
da
sala.
Parecia
a
saída
de
uma
abelha
barulhenta
e
deixou
um
grande
silêncio
atrás
de
si.
A
Sra.
Roger
Leonides
estava
de
pé
perto
da
janela.
Eu
fiquei
imediatamente
fascinado
pela
sua
personalidade
e
pela
atmosfera
da
peça
onde
me
encontrava.
Via-se
claramente
que
era
o
seu
quarto.
Disto
eu
não
tinha
a
menor
dúvida.
As
paredes
eram
pintadas
de
branco
—
branco
mesmo,
e
não
marfim
ou
creme
que
é
geralmente
o
que
se
usa,
quando
se
diz
"branco"
em
decoração.
Não
havia
quadros
nas
paredes
—
exceto
um
sobre
a
lareira
—
representando
uma
fantasia
geométrica
em
triângulos
cinza-escuro
e
azul-marinho.
Quase
não
havia
móveis
—
apenas
o
necessário,
três
ou
quatro
cadeiras,
uma
mesa
com
tampo
de
vidro,
uma
pequena
estante.
Não
havia
enfeites.
Havia
luz,
ar
e
espaço.
Era
tão
diferente
da
sala
cheia
de
brocados
e
flores
do
andar
de
baixo
como
a
água
do
vinho.
E
também
a
Sra.
Roger
Leonides
era
tão
diferente
da
Sra.
Philip
Leonides
como
uma
mulher
pode
ser
diferente
de
outra.
Sentia-se
que
Magda
Leonides
podia
ser,
e
com
freqüência
era,
pelo
menos
uma
meia
dúzia
de
mulheres
diferentes,
ao
passo
que
Clemency
Leonides
nunca
poderia
ser
mais
ninguém
a
não
ser
ela
mesma.
Era
uma
mulher
de
personalidade
marcante
e
bem
definida.
Teria
cerca
de
cinqüenta
anos,
eu
calculei,
o
cabelo
era
grisalho,
cortado
muito
curto,
quase
como
um
rapaz,
mas
assentava
tão
bem
em
sua
cabeça
pequena
e
bem
feita
que
não
tinha
nada
daquela
feiúra
que
eu
sempre
associara
às
mulheres
de
cabelo
curto.
A
expressão
do
rosto
era
inteligente
e
sensível,
com
olhos
cinza-claro
de
uma
intensidade
penetrante
e
característica.
Usava
um
vestido
simples
de
lã
vermelho-
escuro
que
acentuava
perfeitamente
o
seu
corpo
esguio.
Ela
era,
eu
percebi
logo,
uma
mulher
extremamente
perigosa...
Talvez
porque
imaginei
que
ela
não
se
guiava
pelos
preceitos
de
uma
mulher
comum.
Compreendi
logo
por
que
Sophia
usara
a
palavra
"crueldade"
em
relação
a
ela.
Seu
quarto
era
frio
e
eu
estremeci
ligeiramente.
Clemency
Leonides
falou
numa
voz
calma
e
bem
modulada:
—Por
favor,
sente-se,
Inspetor.
Há
algo
de
novo?
—A
morte
foi
provocada
por
eserina,
Sra.
Leonides.
Ela
disse
pensativa:
—Então
veio
mesmo
a
ser
um
crime.
Não
poderia
ser
um
acidente
ocasional,
poderia?
—Não,
Sra.
Leonides.
—Por
favor,
dê
a
notícia
com
muito
jeito
a
meu
marido,
Inspetor.
Isso
vai
fazê-lo
sofrer
muito.
Ele
adorava
o
pai
e
é
muito
sensível.
É
uma
pessoa
muito
emotiva.
—A
senhora
mantinha
boas
relações
com
seu
sogro,
Sra.
Leonides?
—Sim,
muito
boas
relações
—
ela
acrescentou
com
muita
calma:
—
Eu
não
gostava
muito
dele.
—Por
quê?
—Eu
discordava
de
seus
objetivos
na
vida...
e
dos
métodos
para
atingi-los.
—E
da
Sra.
Brenda
Leonides?
—Brenda?
Eu
sempre
a
vi
muito
pouco.
—A
senhora
acha
que
seria
possível
existir
alguma
coisa
entre
ela
e
o
Sr.
Laurence
Brown?
—O
senhor
quer
dizer...
um
caso
de
amor?
Eu
creio
que
não.
Mas
se
houvesse
eu
não
saberia
mesmo.
Sua
voz
era
completamente
indiferente.
Roger
Leonides
voltou,
aos
arrancos,
sempre
dando
a
mesma
impressão
de
uma
abelha
barulhenta.
—Chamaram-me
—
disse
ele.
—
Telefone.
Bem,
Inspetor?
Então?
Já
tem
alguma
notícia?
O
que
foi
que
causou
a
morte
de
meu
pai?
—A
morte
foi
provocada
por
um
envenenamento
por
eserina.
—Foi?
Meu
Deus!
Então
foi
aquela
mulher!
Ela
não
pôde
esperar!
Ele
a
tirou
da
sarjeta
e
este
foi
o
seu
prêmio.
Ela
o
matou
a
sangue-frio!
Deus,
o
meu
sangue
ferve
só
em
pensar
nisto!
—O
senhor
tem
alguma
razão
particular
para
pensar
assim?
—
perguntou
Taverner.
—Razão?
Quem
poderia
ser
então?
Eu
nunca
confiei
nela
—
jamais
gostei
dela!
Nenhum
de
nós
gostava
dela.
Philip
e
eu
ficamos
estarrecidos
quando
papai
chegou
em
casa
um
dia
e
nos
disse
o
que
havia
feito!
Na
idade
dele!
Era
loucura...
loucura!
Meu
pai
era
um
homem
estranho,
Inspetor.
Intelectualmente,
era
jovem
e
ativo
como
um
homem
de
uns
quarenta
anos.
Tudo
o
que
eu
tenho
no
mundo
devo
a
ele.
Fez
tudo
por
mim...
nunca
me
falhou.
Se
alguém
falhou
alguma
vez
fui
eu...
quando
eu
penso
nisso...
Deixou-se
cair
pesadamente
numa
cadeira.
Sua
mulher
veio
imediatamente
colocar-se
a
seu
lado.
—Vamos,
Roger,
já
chega.
Não
se
mortifique
mais.
—Eu
sei,
minha
querida...
eu
sei
—
ele
lhe
tomou
as
mãos.
—
Mas
como
eu
posso
ficar
calmo...
como
posso
manter
a
calma...
—Mas
todos
nós
precisamos
manter
a
calma,
Roger.
O
Inspetor
Taverner
precisa
da
nossa
ajuda.
—A
senhora
está
certa,
Sra.
Leonides.
Roger
gritou:
—Sabe
o
que
eu
gostaria
de
fazer?
Estrangular
aquela
mulher
com
minhas
próprias
mãos.
Roubando
àquele
pobre
velho
alguns
poucos
anos
a
mais
de
vida.
Se
eu
pusesse
as
mãos
nela...
—
deu
um
pulo.
Estava
trêmulo
de
ódio.
Estendeu
as
mãos
convulsas.
—
Sim,
eu
lhe
torceria
o
pescoço...
eu
lhe
torceria
o
pescoço...
—Roger!
—
disse
Clemency
com
voz
cortante.
Ele
olhou
para
ela,
confuso.
—Desculpe,
minha
querida
—
virou-se
para
nós:
—
Eu
peço
desculpas.
Meus
sentimentos
transbordaram.
Eu...
me
perdoem...
Ele
saiu
da
sala
outra
vez.
Clemency
Leonides
disse
com
um
sorriso
vago:
—Na
verdade,
o
senhor
sabe
que
ele
não
faria
mal
a
uma
mosca.
Taverner
aceitou
esta
observação
polidamente.
E
recomeçou
com
as
suas
pretensas
perguntas
de
rotina.
Clemency
Leonides
respondia
consciente
e
acuradamente.
Roger
Leonides
estivera
em
Londres
no
dia
da
morte
do
pai,
na
Box
House,
a
sede
da
Associação
de
Fornecedores.
Voltara
cedo
e
passara
bastante
tempo
com
o
pai
como
de
costume.
Ela
estivera
como
sempre
no
Instituto
Lambert,
na
Rua
Gower,
onde
trabalhava.
Voltara
para
casa
um
pouco
antes
das
seis
horas.
—Viu
o
seu
sogro?
—Não.
A
última
vez
que
o
vi
foi
no
dia
anterior.
Tomamos
café
juntos
depois
do
jantar.
—Não
o
viu
no
dia
de
sua
morte?
—Não.
Eu
estive
na
parte
da
casa
que
ele
ocupava
porque
Roger
pensou
que
tivesse
deixado
o
cachimbo
lá...
um
cachimbo
de
que
ele
gosta
muito...
mas
estava
mesmo
era
na
mesa
da
sala
da
entrada
e
então
eu
não
tive
necessidade
de
incomodar
meu
sogro.
Geralmente
ele
cochilava
lá
pelas
seis
horas.
—Quando
foi
informada
de
sua
doença?
—Brenda
veio
correndo.
Foi
um
ou
dois
minutos
de
pois
das
seis
e
meia.
Estas
perguntas,
como
eu
já
sabia,
não
tinham
importância,
mas
eu
estava
cônscio
da
maneira
que
o
Inspetor
Taverner
observava
com
perspicácia
a
mulher
que
as
respondia.
Ele
fez
algumas
perguntas
sobre
a
natureza
de
seu
trabalho
em
Londres.
Ela
respondeu
que
ele
era
relacionado
com
os
efeitos
das
radiações
da
desintegração
atômica.
—A
senhora
trabalha
então
para
a
bomba
atômica?
—Meu
trabalho
não
tem
nada
de
destrutivo.
O
Instituto
está
realizando
experiências
apenas
nos
efeitos
terapêuticos.
Quando
Taverner
levantou-se,
demonstrou
o
desejo
de
conhecer
aquela
parte
da
casa.
Ela
pareceu
um
pouco
surpresa
mas
mostrou-
nos
imediatamente
todo
o
resto.
O
quarto
de
dormir
com
camas
separadas
e
colchas
brancas
e
a
simplicidade
da
decoração
lembrou-
me
outra
vez
um
hospital
ou
uma
cela
de
mosteiro.
O
banheiro
também
era
severamente
simples,
sem
nenhum
luxo,
nem
mesmo
os
tão
comuns
potinhos
de
creme
e
pintura.
A
cozinha
era
nua,
impecavelmente
limpa
e
muito
bem
equipada
com
inúmeros
aparelhos
de
utilidade
doméstica.
Clemency
abriu
outra
porta,
dizendo:
—Este
é
o
quarto
particular
de
meu
marido.
—Entrem
—
disse
Roger,
—
entrem.
Eu
dei
um
suspiro
de
alívio.
Não
sei
por
que
mas
aquela
atmosfera
imaculada
lá
de
fora
estava-me
dando
nos
nervos.
Este
quarto
era
intensamente
pessoal.
Havia
uma
escrivaninha
grande
literalmente
coberta
de
cachimbos
velhos,
papéis
e
cinza.
Duas
enormes
poltronas
surradas.
Tapetes
persas
forravam
o
chão
todo.
Nas
paredes,
fotos
já
um
tanto
esmaecidas
de
grupos
de
pessoas:
grupos
de
colégio,
grupos
de
críquete,
grupos
de
soldados.
Aquarelas
de
desertos
e
minaretes,
barcos
a
vela,
cenas
de
mar
e
de
sol
poente.
Era,
de
fato,
um
quarto
agradável,
de
um
homem
cativante
e
sociável.
Roger,
desajeitado,
começou
a
servir
as
bebidas,
afastando
livros
e
papéis
de
uma
das
cadeiras.
—Isto
aqui
está
uma
bagunça,
eu
estava
pondo
tudo
para
fora,
vendo
a
papelada
que
não
presta.
Quanto
quer?
—
o
Inspetor
recusou
a
bebida;
eu
aceitei.
—
Eu
quero
pedir-lhe
desculpas
—
continuou
Roger.
Trouxe
o
meu
drinque
e,
virando
a
cabeça,
falou
com
Taverner:
—Eu
me
descontrolei.
Ele
olhou
em
torno
com
um
ar
de
culpa
mas
Clemency
Leonides
não
nos
acompanhara.
—Ela
é
maravilhosa
—
disse
ele.
—
Minha
mulher,
eu
quero
dizer.
Em
meio
a
tudo
isto,
ela
tem
sido
esplêndida...
esplêndida!
Eu
não
saberia
dizer
quanto
eu
admiro
aquela
mulher!
E
ela
já
sofreu
tanto...
já
passou
tão
mal!
Eu
vou-lhes
contar.
Foi
antes
de
nos
casarmos,
eu
quero
dizer.
O
seu
primeiro
marido
era
um
bom
sujeito...
um
tipo
inteligente...
mas
muito
franzino,
tuberculoso
para
falar
com
franqueza.
Estava
trabalhando
numa
pesquisa
muito
importante
sobre
cristalografia,
eu
acho.
Serviço
mal
pago
e
muito
exaustivo,
mas
ele
não
desistia.
Ela
trabalhava
como
uma
escrava
para
sustentá-lo,
sabendo
o
tempo
todo
que
ele
estava
à
morte.
E
nunca
se
queixou...
nunca
deixou
perceber
uma
fraqueza.
Sempre
dizendo
que
era
feliz.
Quando
ele
morreu,
ela
ficou
profundamente
magoada.
Muito
tempo
depois
concordou
em
casar-se
comigo.
Eu
fiquei
muito
feliz
em
poder
dar-lhe
um
pouco
de
descanso,
um
pouco
de
felicidade.
Fiz
tudo
para
que
ela
parasse
de
trabalhar
mas,
como
era
no
tempo
da
guerra,
ela
considerava
o
trabalho
como
um
dever
e
mesmo
agora
ainda
acha
que
deve
continuar.
Tem
sido
uma
esposa
maravilhosa...
a
melhor
esposa
que
um
homem
pode
desejar.
Deus,
como
eu
tive
sorte!
Faria
qualquer
coisa
por
ela.
Taverner
fez
o
comentário
adequado.
Depois
recomeçou
uma
vez
mais
com
as
suas
perguntas
rotineiras.
Quando
foi
que
soube
da
doença
de
seu
pai?
—Brenda
veio
correndo
chamar-me.
Meu
pai
estava
mal...
ela
disse
que
ele
tivera
uma
espécie
de
ataque.
—Eu
estivera
sentado
com
meu
velhinho
querido
há
uma
meia
hora
apenas.
Ele
estava
otimamente
bem.
Eu
corri
para
lá.
Ele
estava
com
o
rosto
azulado,
sufocando.
Desci
correndo
para
chamar
Philip.
Ele
telefonou
para
o
médico.
Eu...
nós
não
pudemos
fazer
nada.
É
claro
que
eu
não
sonhei
nem
por
um
instante
que
houvesse
algo
engraçado.
Engraçado?
Eu
disse
engraçado?
Meu
Deus,
que
palavra
que
eu
fui
empregar!
Com
uma
certa
dificuldade,
Taverner
e
eu
conseguimos
escapar
da
atmosfera
emocional
do
quarto
de
Roger
Leonides
e
finalmente
nos
encontramos
uma
vez
mais
no
alto
da
escadaria.
—
Puxa!
—
disse
Taverner
—
que
contraste
de
um
irmão
para
outro.
E
acrescentou,
um
tanto
sem
propósito:
—
Quartos
são
peças
curiosas.
Contam
muita
coisa
sobre
as
pessoas
que
vivem
nelas.
Eu
concordei
e
nós
fomos
em
frente.
_
É
estranho
como
as
pessoas
se
casam
umas
com
as
outras,
não
é?
Eu
não
tinha
certeza
se
ele
estava-se
referindo
a
Clemency
e
Roger,
ou
a
Philip
e
Magda.
Suas
palavras
se
aplicavam
igualmente
a
ambos.
Entretanto
eu
pensava
que
os
dois
casamentos
podiam
ser
considerados
como
uniões
felizes.
O
de
Roger
e
Clemency
certamente
era.
—
Eu
não
creio
que
ele
seja
um
envenenador,
e
você?
—
perguntou
Taverner
e
continuou:
—
Assim
de
cara
eu
diria
que
não.
É
lógico,
a
gente
nunca
sabe.
Ela
sim,
tem
mais
tipo...
Parece
uma
mulher
impiedosa.
É
capaz
até
que
seja
meio
doida.
Novamente
eu
concordei.
—Mas
não
acredito
—
disse
eu
—
que
ela
matasse
alguém
apenas
porque
não
aprovava
os
seus
objetivos
e
a
sua
maneira
de
viver.
Talvez,
se
ela
odiasse
realmente
o
velho...
mas
existem
crimes
cometidos
apenas
por
ódio
puro?
—Pouquíssimos
—
disse
Taverner.
—
Eu
mesmo
nunca
vi
nenhum.
Não,
eu
acho
melhor
ficarmos
com
a
Sra.
Brenda.
Mas
só
Deus
sabe
se
nós
vamos
conseguir
alguma
prova.
Capítulo
8
UMA
COPEIRA
abriu
a
porta
da
ala
oposta
do
corredor.
Parecia
amedrontada
mas
olhou
com
certo
desdém
para
Taverner.
—O
senhor
quer
ver
a
patroa?
—Sim,
por
favor.
Ela
nos
levou
até
uma
grande
sala
de
visitas
e
saiu.
Esta
sala
era
do
mesmo
tamanho
da
sala
do
andar
de
baixo.
Os
estofados
eram
de
cretones
estampados,
de
cores
muito
alegres,
e
as
cortinas
de
seda
listrada.
Sobre
a
lareira
havia
um
retrato
que
imediatamente
chamou
minha
atenção
—
não
apenas
por
admirar
a
mão
do
mestre
que
o
pintara
mas
também
pela
notável
expressão
do
modelo.
Era
o
retrato
de
um
homem
pequeno,
já
velho,
de
agudos
olhos
escuros.
Usava
um
gorro
de
veludo
negro
e
tinha
a
cabeça
enterrada
nos
ombros
—
mas
a
vitalidade
e
o
poder
daquele
homem
emanavam
da
tela.
Aqueles
olhos
faiscantes
pareciam
prender
os
meus.
—E
ele
—
disse
Taverner
simplesmente.
—
Pintado
por
Augustus
John.
Era
uma
figura,
não
era?
—
Sim
—
disse
eu,
mas
senti
que
o
monossílabo
era
inadequado.
Eu
entendia
agora
o
que
Edith
de
Haviland
quis
dizer
ao
afirmar
que
a
casa
parecia
vazia
sem
ele.
Era
o
Original
Homenzinho
Torto
que
construíra
a
Casinha
Torta
—
e
sem
ele,
a
Casa
Torta
havia
perdido
o
significado...
—Aquela
ali
era
a
primeira
mulher
dele,
pintada
por
Sargent
—
disse
Taverner.
Eu
examinei
o
quadro
entre
as
duas
janelas.
Tinha
aquela
certa
crueldade
de
muitos
dos
retratos
de
Sargent.
O
comprimento
do
rosto
era
exagerado,
eu
pensei
—
e
também
a
ligeira
sugestão
de
um
ar
cavalar
—
a
incontestável
seriedade.
Era
o
retrato
de
uma
típica
Senhora
Inglesa
da
Alta
Sociedade
Rural
(e
não
do
Café-Society).
Uma
estranha
esposa
para
o
pequeno
déspota
careteiro
de
cima
da
lareira.
A
porta
abriu-se
e
o
Sargento
Lamb
entrou.
—Eu
fiz
o
que
pude
com
os
empregados,
senhor
—
disse
ele.
—
Não
adiantou
nada.
Taverner
suspirou.
O
Sargento
Lamb
tirou
o
seu
caderninho
do
bolso
e
retirou-se
para
o
canto
mais
afastado
da
sala,
onde
se
sentou
discretamente.
A
porta
abriu-se
outra
vez
e
a
segunda
esposa
de
Aristide
Leonides
entrou
na
sala.
Ela
estava
de
luto
—
um
vestido
preto
muito
caro
—
mas
um
luto
meio
exagerado.
Estava
coberta
de
preto
do
pescoço
até
os
pulsos.
Ela
andava
de
maneira
despreocupada
e
indolente,
e
a
cor
preta
lhe
ia
muito
bem.
O
rosto
era
razoavelmente
bonito,
assim
como
os
cabelos
castanhos
penteados
de
forma
um
pouco
sofisticada.
Apesar
do
pó-de-
arroz,
do
batom
e
do
rouge
via-se
claramente
que
estivera
chorando.
Usava
um
colar
de
pérolas
muito
graúdas
e
tinha
em
uma
das
mãos
um
anel
com
uma
enorme
esmeralda
e
na
outra
um
imenso
rubi.
Outra
coisa
eu
ainda
notei:
ela
tinha
o
ar
assustado.
—Bom
dia,
Sra.
Leonides
—
disse
Taverner
tranqüilamente.
—
Eu
sinto
muito
tornar
a
incomodá-la.
Ela
falou
com
voz
abatida:
—Eu
creio
que
isto
não
pode
ser
evitado.
—A
senhora
sabe,
Sra.
Leonides,
que,
se
por
acaso
quiser
que
o
seu
advogado
esteja
presente,
será
perfeitamente
normal.
Eu
imaginei
se
ela
compreendeu
o
significado
destas
palavras.
Aparentemente
não.
Disse
apenas
um
tanto
mal-humorada:
—Eu
não
gosto
do
Sr.
Gaitskill.
Não
quero
saber
dele.
—A
senhora
pode
ter
o
seu
próprio
advogado,
Sra.
Leonides.
—Será
que
eu
preciso?
Não
gosto
de
advogados.
Eles
me
atrapalham.
—Cabe
exclusivamente
à
senhora
decidir
—
disse
Taverner,
mostrando
um
sorriso
automático.
—
Podemos
prosseguir,
então?
O
Sargento
Lamb
lambeu
a
ponta
do
lápis.
Brenda
Leonides
sentou-se
no
sofá
em
frente
a
Taverner.
—
O
senhor
descobriu
alguma
coisa?
Eu
reparei
que
seus
dedos
torciam
e
retorciam
uma
prega
da
fazenda
de
seu
vestido.
—Nós
podemos
afirmar
categoricamente
que
seu
marido
morreu
em
conseqüência
de
um
envenenamento
por
eserina.
—O
senhor
quer
dizer
que
foi
aquele
colírio
que
o
matou?
—Está
praticamente
fora
de
dúvida
que,
quando
a
senhora
aplicou
aquela
última
injeção
no
Sr.
Leonides,
foi
eserina
que
injetou
e
não
insulina.
—Mas
eu
não
sabia
disto.
Eu
não
tenho
nada
a
ver
com
isto.
Realmente,
Inspetor,
eu
não
sabia
de
nada.
—Então
alguém
deve
ter
substituído
deliberadamente
a
insulina
pelo
colírio.
—Que
coisa
perversa!
—Sim,
Sra.
Leonides.
—O
senhor
acha...
que
alguém
fez
isto
de
propósito?
Ou
foi
acidental?
Não
poderia
ter
sido...
uma
brincadeira?
Taverner
disse
com
muita
calma:
—Nós
não
cremos
que
tenha
sido
uma
brincadeira,
Sra.
Leonides.
—Deve
ter
sido
um
dos
empregados.
Taverner
não
respondeu.
—Só
pode
ser.
Eu
não
vejo
quem
pudesse
fazer
isto.
—A
senhora
tem
certeza?
Pense,
Sra.
Leonides...
Não
tem
nenhuma
idéia?
Não
havia
nenhum
sentimento
de
maldade?
Nenhuma
briga?
Nenhum
rancor?
Ela
continuava
a
encará-lo
com
olhos
arrogantes.
—Não
tenho
a
mínima
idéia
—
disse.
—A
senhora
tinha
ido
ao
cinema
naquela
tarde,
não
tinha?
—Sim,
eu
cheguei
às
seis
e
meia...
era
a
hora
da
insulina...
eu...
eu...
apliquei
a
injeção
como
de
costume
e
então
ele...
ele
ficou
logo
indisposto.
Eu
fiquei
apavorada...
corri
para
chamar
Roger...
eu
já
contei
isso
tudo
ao
senhor.
Preciso
recomeçar
outra
vez?
—
a
voz
dela
estava
num
tom
quase
histérico.
—Eu
sinto
muitíssimo,
Sra.
Leonides.
Eu
posso
falar
agora
com
o
Sr.
Brown?
—Com
Laurence?
Para
quê?
Ele
não
sabe
de
nada.
—Eu
gostaria
de
falar
com
ele
de
qualquer
forma.
Ela
olhou
para
ele
desconfiada.
—Eustace
está
estudando
latim
com
ele
na
sala
de
aula.
O
senhor
quer
que
ele
venha
aqui?
—Não,
nós
iremos
até
lá.
Taverner
saiu
rapidamente
da
sala.
Eu
e
o
Sargento
o
seguimos.
—O
senhor
deixou-a
com
a
pulga
atrás
da
orelha
—
disse
o
Sargento
Lamb.
Taverner
deu
um
resmungo
e
nos
conduziu
a
uma
pequena
escadaria
e
através
de
um
corredor
até
uma
sala
grande
que
dava
para
o
jardim.
Um
homem
ainda
moço,
louro,
de
uns
trinta
anos,
e
um
belo
rapaz
de
uns
dezesseis
anos
estavam
sentados
a
uma
mesa.
À
nossa
entrada
eles
levantaram
os
olhos.
Eustace,
o
irmão
de
Sophia,
olhou
para
mim.
Laurence
Brown
olhou
para
o
Inspetor
Taverner
com
ar
agoniado.
—Oh...
ahn...
bom
dia,
Inspetor.
—Bom
dia
—
Taverner
foi
lacônico.
—
Posso
ter
uma
conversa
com
o
senhor?
—Claro,
claro.
Com
o
maior
prazer.
Pelo
menos...
Eustace
levantou-se.
—O
senhor
quer
que
eu
saia,
Inspetor?
Sua
voz
era
satisfeita
e
tinha
uma
leve
entonação
de
arrogância.
—
Nós...
nós
podemos
continuar
os
estudos
depois
—
disse
o
professor.
Eustace
encaminhou-se
negligentemente
para
a
porta.
Ele
tinha
um
andar
desajeitado,
duro.
Ao
sair,
me
deu
uma
olhada
e,
fazendo
uma
careta,
passou
o
dedo
indicador
pela
garganta.
Saiu,
fechando
a
porta.
—Muito
bem,
Sr.
Brown
—
disse
Taverner.
—
A
análise
foi
positiva.
Foi
eserina
o
que
causou
a
morte
do
Sr.
Leonides.
—Eu...
o
senhor
quer
dizer...
que
o
Sr.
Leonides
foi
assassinado
mesmo?
Eu
estava
esperando...
—Ele
foi
envenenado
—
disse
Taverner
secamente.
—
Alguém
substituiu
a
insulina
pelo
colírio
de
eserina.
—Eu
não
posso
acreditar...
É
inacreditável.
—A
questão
é...
quem
tinha
um
motivo?
—Ninguém.
Absolutamente
ninguém!
—
a
voz
do
rapaz
elevou-se
excitada.
—O
senhor
não
quer
a
presença
de
seu
advogado,
quer?
—
perguntou
Taverner.
—Eu
não
tenho
advogado.
Eu
não
quero
advogado.
Eu
não
tenho
nada
a
esconder...
nada!
—E
o
senhor
está
sabendo
que
tudo
o
que
disser
será
anotado.
—Eu
sou
inocente...
eu
lhe
garanto,
eu
sou
inocente.
—Eu
não
sugeri
nada
—
Taverner
fez
uma
pausa.
—
A
Sra.
Leonides
era
muito
mais
moça
que
seu
marido,
não
era?
—Eu...
eu
creio
que
sim...
eu
quero
dizer,
era
sim.
—Ela
se
sentia
muito
solitária
de
vez
em
quando?
Laurence
Brown
não
respondeu.
Passou
a
língua
sobre
os
lábios
muito
secos.
—Ter
um
companheiro
mais
ou
menos
da
idade
dela
morando
aqui
deve
ter
sido
bastante
agradável
para
ela,
não?
—Eu...
não,
absolutamente...
eu
quero
dizer...
eu
não
sei.
—Parece-me
bastante
natural
que
uma
certa
afeição
deva
ter
surgido
entre
vocês
dois.
O
rapaz
protestou
violentamente.
—Não
era
não!
De
forma
nenhuma!
Nada
do
que
o
senhor
está
pensando!
Eu
sei
o
que
o
senhor
está
pensando
mas
não
era
não!
A
Sra.
Leonides
sempre
foi
muito
gentil
comigo
e
eu
tenho
um
grande...
o
maior
respeito
por
ela!
Não
havia
nada,
nada
mais
do
que
isto!
Eu
lhe
garanto.
É
monstruoso
sugerir
uma
coisa
destas!
Monstruoso!
Eu
não
seria
capaz
de
matar
ninguém!
Nem
de
substituir
os
vidros
ou
de
fazer
algo
errado.
Eu
sou
muito
sensível,
tenho
os
nervos
à
flor
da
pele.
Eu...
só
a
idéia
de
um
homicídio
já
é
um
pesadelo
para
mim...
eles
vão
compreender
isto
no
tribunal...
eu
tenho
objeções
religiosas
contra
o
crime.
Eu
já
trabalhei
num
hospital...
punha
carvão
nas
caldeiras...
era
um
trabalho
terrivelmente
pesado...
eu
não
pude
continuar...
então
me
deixaram
trabalhar
como
educador.
Eu
tenho
feito
o
melhor
que
posso
com
Eustace
e
com
Josephine,
uma
criança
muito
inteligente
mas
muito
difícil.
E
todos
têm
sido
muito
gentis
comigo...
o
Sr.
Leonides
e
a
Sra.
Leonides
e
a
Srta.
de
Haviland.
E
agora
acontece
esta
coisa
horrível...
E
o
senhor
pensa
que...
eu...
seja
um
criminoso!
O
Inspetor
Taverner
olhou
para
ele
como
se
o
avaliasse
com
interesse.
—Eu
não
disse
nada
disto
—
disse
ele.
—Mas
o
senhor
está
pensando!
Eu
sei
que
o
senhor
está
pensando!
Todos
eles
pensam
assim!
Eles
olham
para
mim.
Eu...
eu
não
posso
continuar.
Não
me
estou
sentindo
bem.
Ele
saiu
correndo
da
sala.
Taverner
voltou
a
cabeça
lentamente
para
mim.
—Muito
bem,
o
que
você
acha
dele?
—Ele
está
apavorado.
—Sim,
eu
sei,
mas
será
que
ele
é
um
assassino?
—Se
o
senhor
me
perguntasse
—
disse
o
Sargento
Lamb,
—
eu
diria
que
ele
não
tem
peito
para
isto.
—Ele
nunca
quebraria
a
cabeça
de
ninguém,
nem
daria
um
tiro
de
revólver
—
concordou
o
Inspetor.
—
Mas
neste
crime
particular
o
que
era
preciso
fazer?
Apenas
mexer
com
duas
garrafinhas...
Só
ajudar
um
velho
a
sair
deste
mundo
de
uma
maneira
praticamente
indolor...
—Praticamente
eutanásia
—
disse
o
Sargento.
—E
então,
talvez,
depois
de
um
intervalo
decente,
o
casamento
com
uma
mulher
que
herdou
cem
mil
libras
livres
de
imposto,
que
já
possui
mais
ou
menos
outro
tanto
pelo
casamento,
e
que
além
disso
ainda
tem
pérolas
e
rubis
e
esmeraldas
do
tamanho
de...
ovos!
—Muito
bem...
—
Taverner
suspirou.
—
Mas
tudo
são
teorias
e
conjeturas.
Eu
fiz
o
que
pude
para
assustá-lo
mas
isto
não
prova
nada.
Ele
é
do
tipo
que
se
apavoraria
mesmo
se
fosse
inocente.
E
de
qualquer
jeito,
eu
duvido
que
tenha
sido
mesmo
ele
quem
praticou
o
crime.
É
mais
provável
que
tenha
sido
a
mulher...
mas
por
que
cargas
d'água
ela
não
jogou
fora
o
vidro
de
insulina
ou
pelo
menos
lavou-o?
Ele
virou-se
para
o
Sargento
Lamb.
—Os
empregados
nunca
viram
nada
entre
eles?
—A
copeira
diz
que
eles
gostavam
um
do
outro.
—Até
que
ponto?
—A
maneira
como
eles
se
olhavam
quando
ela
lhes
servia
o
café.
—Que
beleza
para
contar
na
sala
do
tribunal!
Nunca
houve
nenhum
avanço?
—Não
que
alguém
visse.
—Eu
aposto
que
se
houvesse
algo
para
ver,
eles
teriam
visto.
Sabe?
Eu
estou
começando
a
acreditar
que
não
havia
mesmo
nada
entre
eles
—
olhou
para
mim:
—
Volte
e
vá
falar
com
ela.
Eu
gostaria
de
ter
a
sua
impressão
sobre
ela.
Eu
fui,
relutando
um
pouco,
mas
não
nego
que
estivesse
interessado.
Capítulo
9
ENCONTREI
BRENDA
Leonides
sentada
exatamente
onde
a
deixáramos.
Olhou
rapidamente
para
mim
quando
entrei.
—Onde
está
o
Inspetor
Taverner?
Ele
vai
voltar?
—Agora
não.
—Quem
é
você?
Finalmente
alguém
me
fez
a
pergunta
que
eu
estivera
esperando
durante
toda
a
manhã.
Respondi
de
forma
razoavelmente
verdadeira.
—Eu
sou
ligado
à
polícia
mas
sou
também
um
amigo
da
família.
—A
família!
Animais!
Eu
os
odeio
todos.
Ela
olhou
para
mim,
os
lábios
trêmulos.
Parecia
emburrada,
assustada
e
enraivecida.
—Eles
têm
sido
abomináveis
comigo...
sempre.
Desde
o
início.
Por
que
é
que
eu
não
me
podia
casar
com
o
seu
precioso
pai?
O
que
importava
para
eles?
Todos
tinham
montes
de
dinheiro.
Ele
o
deu
para
eles.
Nenhum
tinha
miolo
para
ganhar
dinheiro
por
conta
própria!
Ela
continuou:
—Por
que
é
que
um
homem
não
se
pode
casar
outra
vez
—
mesmo
se
já
está
um
pouco
velho?
E
ele
não
era
nada
velho...
no
seu
íntimo.
Eu
gostava
dele.
Eu
gostava
muito
dele.
Ela
olhou
para
mim
arrogantemente.
—Eu
estou
vendo
—
disse
eu.
—
Eu
estou
vendo.
—Eu
garanto
que
você
não
acredita...
mas
é
a
verdade.
Eu
estava
cansada
dos
homens.
Queria
ter
uma
casa...
queria
alguém
que
me
fizesse
festas
e
me
dissesse
coisas
agradáveis.
Aristide
me
dizia
sempre
coisas
adoráveis
e
ele
era
capaz
de
fazer
a
gente
rir
sempre...
e
era
muito
esperto.
Pensava
em
todas
as
espertezas
para
passar
para
trás
estas
regulamentações
tolas.
Ele
era
muito
vivo.
Eu
não
fiquei
contente
por
ele
ter
morrido.
Eu
fiquei
triste.
Ela
recostou-se
no
sofá.
Sua
boca
era
um
pouco
grande,
mas
curvava-se
para
cima
numa
espécie
de
sorriso
preguiçoso.
—
Eu
fui
feliz
aqui.
Eu
me
sentia
segura.
Fui
a
todos
esses
costureiros
famosos...
aqueles
sobre
os
quais
eu
lia
nos
jornais.
Eu
valia
tanto
quanto
qualquer
pessoa.
E
Aristide
me
dava
presentes
maravilhosos.
Ela
estendeu
a
mão
olhando
para
o
rubi.
Por
um
segundo
eu
vi
aquele
braço
e
aquela
mão
como
a
pata
espichada
de
um
gato
e
ouvi
a
sua
voz
como
um
ron-rom.
Ela
estava
sorrindo
consigo
mesma.
—O
que
havia
de
errado
nisto?
—
perguntou
ela.
—
Eu
era
boazinha
para
ele.
Eu
o
fiz
feliz
—
inclinou-se
para
a
frente.
—
Sabe
como
foi
que
o
conheci?
Ela
prosseguiu
sem
esperar
a
resposta.
—Foi
no
Trevo
Alegre.
Ele
pedira
ovos
mexidos
e
torradas
e
quando
eu
trouxe
a
comida
estava
chorando.
"Sente-se
aqui"
disse
ele
e
"me
conte
qual
é
o
seu
problema".
"Oh,
eu
não
posso"
falei
"eles
me
põem
na
rua
se
eu
fizer
uma
coisa
destas".
"Não
põem,
não"
disse
ele,
"o
dono
do
restaurante
sou
eu".
Foi
então
que
eu
olhei
para
ele.
Era
um
velhinho
tão
estranho,
eu
pensei
no
princípio...
mas
tinha
uma
espécie
de
poder.
Eu
disse
isto
para
ele...
Você
já
deve
ter
ouvido
o
que
todos
eles
dizem
de
mim,
eu
calculo...
Dizem
que
eu
era
uma
mulher
à-toa...
mas
não
é
verdade.
Eu
fui
educada
muito
bem.
Nós
tínhamos
uma
loja...
uma
loja
muito
distinta...
de
trabalhos
de
costura
e
bordados.
Eu
nunca
fui
deste
tipo
de
moças
que
têm
um
bando
de
namorados
e
se
torna
fácil.
Mas
Terry
era
diferente.
Ele
era
irlandês...
e
ia
emigrar
para
o
outro
lado
do
mundo...
Ele
nunca
escreveu
uma
linha,
nada...
eu
acho
que
era
uma
tola...
E
aconteceu
o
pior.
Eu
estava
grávida...
como
uma
empregadinha
qualquer...
A
voz
dela
era
desdenhosa
em
seu
esnobismo.
—Aristide
foi
maravilhoso.
Ele
disse
que
tudo
ia
acabar
bem.
Disse
que
se
sentia
muito
solitário.
Nós
nos
casaríamos
imediatamente,
ele
disse.
Foi
como
num
sonho...
E
só
depois
foi
que
eu
descobri
que
ele
era
o
grande
Sr.
Leonides.
Tinha
montes
de
restaurantes
e
bares
e
boates.
Foi
quase
como
um
conto
de
fadas,
não
foi?
—Um
verdadeiro
conto
de
fadas
—
disse
eu
secamente.
—Nós
nos
casamos
numa
igrejinha
no
centro
da
cidade
e
fomos
para
o
estrangeiro.
—E
a
criança?
Ela
me
olhou
com
olhos
que
pareciam
vir
de
muito
longe.
—Não
havia
criança
afinal
de
contas.
Eu
me
enganara.
Ela
sorriu,
o
mesmo
sorriso
meio
de
lado.
—
Eu
prometi
a
mim
mesma
que
seria
uma
boa
esposa
para
ele,
e
eu
fui.
Só
servia
as
comidas
de
que
ele
gostava,
usava
as
cores
que
ele
queria
e
fazia
tudo
o
que
podia
para
agradá-lo.
E
ele
era
feliz.
Mas
nunca
conseguimos
nos
livrar
da
família
dele.
Sempre
vindo
para
cá
como
parasitas,
vivendo
às
custas
dele.
A
velha
Srta.
de
Haviland...
eu
achava
que
ela
devia
ter
ido
embora
quando
nós
nos
casamos.
Eu
disse
isso.
Mas
Aristide
disse
que
"ela
já
estava
aqui
há
muito
tempo,
que
aqui
já
era
a
casa
dela".
A
verdade
é
que
ele
gostava
de
tê-los
todos
debaixo
dos
calcanhares.
Eles
eram
de
testáveis
para
mim,
mas
ele
nunca
pareceu
ter
notado
ou
se
preocupado
com
isto.
Roger
me
odeia...
você
já
viu
Roger?
Ele
sempre
me
odiou.
Ele
tinha
ciúmes.
E
Philip
é
tão
emproado
que
nunca
fala
comigo.
E
agora
eles
estão
pretendendo
que
fui
eu
que
o
assassinei...
e
não
fui
eu!
Não
fui
eu!
—
inclinou-se
para
mim.
—
Por
favor,
você
acredita
em
mim,
não
é?
Eu
a
achei
patética.
A
maneira
desdenhosa
como
a
família
Leonides
se
referia
a
ela,
a
ansiedade
que
tinham
em
acreditar
que
ela
cometera
o
crime
—
para
mim,
neste
exato
momento,
isto
parecia
uma
conduta
positivamente
desumana.
Ela
estava
sozinha,
sem
defesa,
acuada.
—E
se
não
fui
eu,
eles
pensam
que
foi
Laurence
—
ela
continuou.
—E
sobre
Laurence?
—
perguntei.
—Eu
sinto
muitíssimo
por
Laurence.
Ele
é
fraco
e
não
é
capaz
de
lutar.
Não
que
seja
um
covarde.
Ele
é
muito
nervoso.
Eu
sempre
tentei
animá-lo
e
fazê-lo
um
pouco
feliz.
Ele
tem
de
ensinar
àquelas
crianças
horríveis.
Eustace
está
sempre
fazendo
pouco
dele,
e
Josephine,
bem...
você
já
deve
ter
visto
Josephine.
Sabe
como
ela
é.
Eu
disse
que
ainda
não
conhecera
Josephine.
—Às
vezes
eu
penso
que
aquela
menina
não
é
muito
certa
da
cabeça.
Ela
faz
as
coisas
às
escondidas
e
tem
um
jeito
esquisito...
Às
vezes
ela
me
dá
arrepios...
Eu
não
queria
falar
sobre
Josephine.
Voltei
novamente
a
Laurence
Brown.
—
Quem
é
ele?
—
perguntei.
—
De
onde
veio?
Eu
fizera
uma
pergunta
meio
sem
jeito.
Ela
corou.
—Ele
não
é
ninguém.
É
assim
como
eu...
Que
chance
nós
podemos
ter
contra
todos
eles?
—Não
acha
que
está
sendo
um
pouco
histérica?
—Não
acho,
não.
Eles
querem
provar
que
foi
Laurence...
ou
então
que
fui
eu.
Estão
com
a
polícia
do
lado
deles.
Que
chance
eu
tenho?
—Não
se
preocupe
demais
—
disse
eu.
—Por
que
não
pode
ter
sido
um
deles
quem
o
matou?
Ou
alguém
de
fora?
Ou
um
dos
empregados?
—Há
uma
certa
falta
de
motivo.
—Oh,
motivo.
Que
motivo
eu
tinha?
Ou
Laurence?
Eu
me
senti
meio
encabulado
ao
dizer:
—Eles
podem
sugerir,
eu
presumo,
que
a
senhora
e...
ahn...
e
Laurence...
estão
apaixonados
um
pelo
outro...
e
que
queriam
casar-
se.
Ela
pôs-se
de
pé,
empertigada.
—Isto
é
uma
sugestão
maldosa!
E
não
é
verdade!
Nós
nunca
trocamos
uma
palavra
neste
sentido.
Eu
só
sentia
pena
dele
e
tentava
alegrá-lo.
Nós
éramos
amigos,
nada
mais.
Você
acredita
em
mim,
não
acredita?
Eu
acreditava
nela.
Isto
é,
eu
acreditava
que
ela
e
Laurence
eram
apenas,
como
ela
dizia,
amigos.
Mas
eu
também
acreditava
que,
possivelmente
sem
que
ela
mesma
soubesse,
estivesse
apaixonada
pelo
rapaz.
Foi
com
esta
idéia
na
cabeça
que
eu
desci
à
procura
de
Sophia.
Quando
eu
estava
entrando
na
sala
de
estar,
Sophia
enfiou
a
cabeça
por
uma
outra
porta
perto
do
corredor.
—Alô!
—
disse
ela.
—
Estou
ajudando
Nannie
com
o
almoço.
Eu
ia
entrar,
mas
ela
saiu
e,
puxando-me
pelo
braço,
levou-me
para
a
sala
de
estar,
que
estava
vazia.
—Bem
—
disse
ela.
—
Você
viu
Brenda?
O
que
achou
dela?
—Francamente
—
disse
eu,
—
eu
fiquei
com
pena
dela.
Sophia
pareceu
divertida.
—Estou
vendo
—
disse.
—
Então
ela
já
conquistou
você.
Eu
me
irritei.
—A
verdade
é
que
eu
posso
ver
o
ponto
de
vista
dela.
Aparentemente
você
não
pode.
—Qual
é
o
ponto
de
vista
dela?
—Honestamente,
Sophia,
algum
de
vocês
da
família
tentou
ser
amável
com
ela,
ou
mesmo
razoavelmente
tolerante,
desde
que
ela
veio
para
cá?
—Não,
nenhum
de
nós
tentou
ser
amável
com
ela.
Por
que
deveríamos
ser?
—Apenas
um
pouco
de
caridade
cristã,
nada
mais.
—Que
ar
emproado
de
moralista
você
está
tomando,
Charles.
Brenda
deve
ter
representado
muito
bem
para
você.
—Realmente
Sophia,
você
parece...
eu
não
sei
o
que
há
com
você.
—Eu
estou
sendo
apenas
honesta
e
não
estou
fingindo.
Você
diz
que
viu
o
lado
de
Brenda,
não
foi?
Agora,
dê
uma
olhada
no
meu
lado.
Eu
não
gosto
deste
tipo
de
mulher
moça
que
inventa
uma
história
triste
e
se
casa
com
um
velho
muito
rico
em
decorrência
desta
história.
Eu
tenho
todo
o
direito
de
não
gostar
deste
tipo
de
mulher,
e
não
há
nenhuma
razão
válida
que
me
faça
fingir
o
contrário.
E
se
os
fatos
fossem
escritos
friamente
num
papel,
você
também
não
gostaria
daquela
mulher.
—Era
uma
história
forjada?
—
perguntei.
—Sobre
a
criança?
Eu
não
sei.
Pessoalmente
acho
que
sim.
—E
você
se
ressente
pelo
fato
de
seu
avô
ter
sido
enganado?
—Oh,
não,
meu
avô
não
foi
enganado
—
Sophia
riu-se.
—
Meu
avô
nunca
foi
enganado
por
ninguém.
Ele
que
ria
Brenda.
Queria
bancar
o
santo
para
sua
pobre
Cinderela.
Ele
sabia
exatamente
o
que
estava
fazendo
e
tudo
correu
lindamente
como
ele
esperava.
Do
ponto
de
vista
de
meu
avô,
este
casamento
foi
um
sucesso
completo.
Como
todos
os
seus
outros
negócios.
—Contratar
Laurence
Brown
como
professor
foi
outro
dos
sucessos
de
seu
avô?
—
perguntei
ironicamente.
Sophia
franziu
a
testa.
—Sabe?
Eu
não
estou
tão
certa
que
não
tenha
sido...
Ele
queria
manter
Brenda
contente
e
satisfeita.
Talvez
tenha
pensado
que
jóias
e
roupas
não
fossem
o
suficiente.
Ele
deve
ter
pensado
que
um
ligeiro
romance
em
sua
vida
fosse
bom...
deve
ter
calculado
que
alguém
como
Laurence
Brown,
alguém
realmente
muito
dócil,
se
você
entende
o
que
quero
dizer,
funcionaria
bem.
Uma
linda
amizade
espiritual,
mesclada
com
melancolia,
impediria
Brenda
de
ter
um
caso
verdadeiro
com
qualquer
outro
de
fora.
Eu
não
me
espantaria
se
meu
avô
tivesse
arquitetado
um
plano
assim.
Ele
era
um
velho
diabólico,
você
sabe...
—Deve
ter
sido
mesmo
—
disse
eu.
—Ele
pode
não
ter,
é
claro,
visualizado
que
isto
resultaria
num
crime...
E
é
por
isto
—
disse
Sophia,
falando
de
repente
com
veemência
—
que
por
mais
que
eu
queira,
não
consigo
acreditar
realmente
que
foi
ela
quem
o
matou.
Se
ela
planejasse
assassiná-lo...
ou
se
ela
e
Laurence
tivessem
planejado
juntos...
meu
avô
teria
descoberto
tudo.
Eu
diria
que
foi
assim,
mas
isto
deve
parecer-lhe
um
tanto
forçado...
—Eu
confesso
que
parece.
—Mas
você
não
conhecia
o
meu
avô.
Ele
certamente
não
seria
conivente
de
seu
próprio
assassinato!
Então
onde
estamos?
Novamente
na
estaca
zero!
—Ela
está
apavorada,
Sophia
—
disse
eu.
—
Ela
está
completamente
apavorada.
O
Inspetor-Chefe
Taverner
e
seus
alegres
rapazes?
Sim,
eu
diria
que
eles
são
um
tanto
ou
quanto
alarmantes.
Eu
imagino
que
Laurence
esteja
histérico?
—
Praticamente.
A
meu
ver,
ele
deu
uma
exibição
repelente
dele
próprio.
Eu
não
entendo
como
uma
mulher
pode
cair
por
um
homem
daqueles.
—Não
sabe,
Charles?
Realmente
Laurence
é
um
bocado
atraente.
—Um
fracote
daqueles?
—
disse
eu
incrédulo.
—Por
que
os
homens
pensam
que
somente
o
tipo
homem-das-
cavernas
seja
necessariamente
o
único
tipo
atrativo
para
o
sexo
oposto?
Laurence
tem
atrativos
sim...
mas
eu
não
esperaria
mesmo
que
você
os
percebesse
—
olhou
para
mim.
—
Brenda
também
fisgou-o.
—Não
seja
absurda.
Ela
não
é
nem
mesmo
bonita.
E
certamente
não
tem...
—Não
demonstra
seus
encantos?
Não,
ela
fez
você
ficar
com
pena
dela.
Ela
não
é
mesmo
bonita,
não
é
muito
inteligente...
mas
possui
uma
característica
notável.
Ela
sempre
gera
problemas.
Já
criou
um
agora,
entre
você
e
eu.
—Sophia!
—
disse
eu
agastado.
Sophia
saiu
pela
porta.
—Esqueça,
Charles,
eu
preciso
ir
ajudar
com
o
almoço.
—Eu
irei
ajudá-la.
—Não,
fique
aqui.
Vai
embatucar
Nannie
ter
"um
cavalheiro
na
cozinha".
—Sophia!
—
eu
chamei
quando
ela
ia
saindo.
—O
que
é?
—Apenas
um
problema
de
empregados.
Por
que
vocês
não
têm
empregadas
de
uniforme
aqui
e
lá
em
cima
para
abrir
as
portas?
—Meu
avô
tinha
cozinheira,
copeira,
arrumadeira
e
um
criado
de
quarto.
Ele
gostava
de
ter
empregados.
Pagava-lhes
uma
fortuna,
é
claro,
e
tinha
o
que
queria.
Clemency
e
Roger
têm
somente
uma
mulher
que
vem
trabalhar
por
hora
e
que
faz
a
limpeza.
Eles
não
gostam
de
criadas...
ou
pelo
me
nos,
Clemency
não
gosta.
Se
Roger
não
fizesse
uma
refeição
decente
na
cidade
todos
os
dias,
ele
morreria
de
fome.
A
idéia
que
Clemency
faz
de
uma
refeição
é
alface,
tomates
e
cenoura
crua.
Às
vezes
nós
temos
empregadas,
mas
então
mamãe
tem
uma
crise
temperamental
e
elas
vão
embora,
e
nós
ficamos
com
alguém
por
dia
até
recomeçar
outra
vez.
Agora
estamos
no
período
das
diaristas.
Nannie
é
que
é
permanente
e
sempre
ajuda
nas
emergências.
Agora
você
já
sabe.
Sophia
saiu.
Eu
me
afundei
numa
das
enormes
poltronas
de
brocado
e
desisti
de
minhas
especulações.
No
andar
de
cima
eu
vira
o
lado
de
Brenda.
Aqui
eu
acabara
de
ver
o
lado
de
Sophia.
Calculei
a
justeza
do
ponto
de
vista
de
Sophia
—
que
poderia
ser
chamado
de
ponto
de
vista
da
família
Leonides.
Eles
se
indignavam
com
aquela
estrangeira
que
transpusera
os
portões
da
família
e
entrara
usando
meios
que
eles
consideravam
ignóbeis.
Eles
estavam
inteiramente
em
seus
direitos.
Como
Sophia
dissera:
no
papel
a
história
não
parecia
bem
contada...
Mas
havia
o
lado
humano
—
o
lado
que
eu
via
e
eles
não.
Eles
eram,
e
sempre
tinham
sido,
ricos
e
bem
estabelecidos.
Não
tinham
idéia
das
tentações
de
um
pobre-diabo.
Brenda
Leonides
quisera
ter
riqueza,
coisas
bonitas
e
segurança
—
um
lar.
Ela
clamava
que
em
troca
fizera
de
seu
velho
marido
um
homem
feliz.
Eu
simpatizara
com
ela.
Certamente,
enquanto
eu
falava
com
ela,
simpatizara
com
o
seu
problema...
Simpatizaria
ainda
agora?
Dois
lados
de
um
problema
—
ângulos
diferentes
de
visão
—
qual
seria
o
ângulo
verdadeiro...
o
ângulo
verdadeiro...
Eu
dormira
muito
pouco
na
noite
anterior.
Acordara
muito
cedo
para
acompanhar
Taverner.
Agora,
na
atmosfera
tépida
e
perfumada
da
sala
de
estar
de
Magda
Leonides,
meu
corpo
relaxou
entre
os
amplos
braços
acolchoados
da
enorme
poltrona
e
meus
olhos
se
fecharam...
Pensando
em
Brenda,
em
Sophia,
no
retrato
de
um
velho,
meus
pensamentos
misturaram-se
num
cochilo
agradável.
Eu
adormeci.
Capítulo
10
VOLTEI
À
CONSCIÊNCIA
tão
lentamente
que
não
percebi
logo
que
estivera
dormindo.
O
perfume
das
flores
me
envolvia.
À
minha
frente,
uma
mancha
branca
parecia
flutuar
no
espaço.
Foram
precisos
alguns
segundos
para
que
eu
percebesse
que
era
um
rosto
humano
aquilo
que
eu
estava
olhando
—
um
rosto
suspenso
no
ar
a
meio
metro
de
mim.
Quando
meus
sentidos
foram
voltando,
minha
visão
tornou-se
mais
precisa.
O
rosto
ainda
tinha
uma
certa
sugestão
de
duende
—
era
redondo,
com
as
sobrancelhas
salientes,
cabelos
penteados
para
trás
e
olhos
pequenos,
pretos
e
redondos
como
contas.
Mas
estava
definitivamente
preso
a
um
corpo
—
um
corpo
magro
e
pequeno.
E
me
olhava
com
muita
atenção.
—Alô
—
disse.
—Alô
—
respondi,
piscando
os
olhos.
—Eu
sou
Josephine.
Eu
já
deduzira
isto.
Josephine,
a
irmã
de
Sophia,
devia
ter
—
calculei
—
uns
onze
ou
doze
anos.
Era
uma
criança
fantasticamente
feia
e
se
parecia
muito
com
seu
avô.
Pareceu-me
que
ela
tivesse
herdado
igualmente
a
sua
inteligência.
—Você
é
o
rapaz
de
Sophia
—
disse
Josephine.
Eu
confirmei
a
verdade
desta
afirmação.
—Mas
você
veio
para
cá
com
o
Inspetor-Chefe
Taverner.
Por
que
foi
que
você
veio
para
cá
com
o
Inspetor-Chefe
Taverner?
—Porque
ele
é
meu
amigo.
—É
mesmo?
Não
gosto
dele.
Eu
não
contaria
coisas
para
ele.
—Que
tipo
de
coisas?
—As
coisas
que
eu
sei.
Sei
uma
porção
de
coisas.
Eu
gosto
de
saber
de
coisas.
Ela
se
sentou
no
braço
de
minha
cadeira
e
continuou
me
examinando
com
atenção.
Comecei
a
me
sentir
inconfortável.
—Vovô
foi
assassinado.
Você
sabia?
—Sim
—
disse
eu.
—
Eu
sabia.
—Ele
foi
envenenado.
Com
e-se-ri-na
—
pronunciou
a
palavra
cuidadosamente.
—
É
interessante,
não
é?
—Eu
creio
que
sim.
—Eustace
e
eu
estamos
muito
interessados.
Nós
gostamos
de
histórias
de
detetives.
Sempre
quis
ser
um
detetive.
Agora
estou
sendo
um.
Estou
recolhendo
indícios.
Eu
percebi
que
ela
era
uma
criança
um
tanto
vampiresca.
Voltou
à
carga.
—O
homem
que
veio
com
o
Inspetor
Taverner
é
um
detetive
também,
não
é?
Nos
livros
dizem
que
a
gente
sempre
reconhece
um
detetive
à
paisana
pelas
botas.
Mas
este
detetive
estava
usando
sapatos
de
camurça.
—Os
tempos
mudaram
—
disse
eu.
Josephine
interpretou
este
comentário
de
acordo
com
suas
próprias
idéias.
—Sim
—
disse
ela.
—
Haverá
muitas
mudanças
por
aqui,
eu
espero.
Nós
vamos
mudar-nos
e
morar
em
uma
casa
em
Londres,
perto
do
rio.
Há
muito
tempo
que
mamãe
queria.
Ela
vai
ficar
muito
alegre.
Eu
acho
que
papai
não
se
vai
importar
se
os
livros
dele
também
forem.
Antes
ele
não
podia
ir.
Perdeu
um
bocado
de
dinheiro
em
Jezebel.
—Jezebel?
—
perguntei.
—Você
não
foi
ver,
foi?
—Oh,
era
uma
peça.
Não,
eu
não
vi.
Eu
cheguei
de
fora.
—Não
ficou
em
cartaz
muito
tempo.
De
fato,
foi
o
maior
fiasco.
Eu
não
acho
que
mamãe
seja
realmente
o
tipo
para
interpretar
Jezebel,
você
acha?
Eu
examinei
minhas
impressões
sobre
Magda.
Nem
a
mulher
do
robe
cor
de
pêssego,
nem
a
do
costume
elegante
me
davam
a
mínima
sugestão
de
Jezebel,
mas
eu
acreditava
que
devia
haver
ainda
muitas
Magdas
que
eu
não
conhecia.
—Talvez
não
—
disse
eu
cauteloso.
—Vovô
sempre
disse
que
ia
ser
um
fracasso.
Ele
disse
que
não
poria
um
tostão
nestas
peças
históricas
sobre
religião.
Dizia
que
elas
nunca
deram
sucesso
de
bilheteria.
Mas
mamãe
estava
tremendamente
entusiástica.
Eu
mesmo
não
gostei.
E
não
estava
nem
um
pingo
parecida
com
a
história
da
Bíblia.
Eu
quero
dizer,
Jezebel
não
era
tão
malvada
como
ela
é
na
Bíblia.
Ela
era
muito
patriótica
e
mesmo
muito
simpática.
Assim
ficou
chato.
Afinal,
o
fim
foi
bom.
Eles
a
jogaram
pela
janela.
Mas
os
cachorros
não
vieram
comê-la.
Eu
achei
que
foi
uma
pena,
não
acha?
A
parte
que
eu
mais
gosto
é
onde
os
cachorros
vêm
comê-la.
Mamãe
disse
que
não
era
possível
ter
cachorros
no
palco,
mas
eu
não
vejo
por
quê.
Podiam
arranjar
cachorros
ensinados
—
recitou
a
passagem
com
alegria:
—
"E
eles
comeram-na
toda,
só
deixando
as
palmas
de
suas
mãos."
Por
que
é
que
eles
não
comeram
as
palmas
das
mãos?
—Realmente
eu
não
tenho
idéia
—
disse
eu.
—Você
acha
que
esses
cachorros
eram
assim
tão
especiais?
Os
nossos
não
são.
Eles
comem
de
tudo.
Josephine
ficou
meditando
sobre
este
mistério
bíblico
por
alguns
segundos.
—Eu
sinto
muito
que
a
peça
tenha
sido
um
fracasso
—
disse
eu.
—Sim.
Mamãe
ficou
horrivelmente
aborrecida.
As
críticas
eram
simplesmente
horrorosas.
Quando
ela
as
leu,
desmanchou-se
em
lágrimas
e
chorou
o
dia
inteiro.
Jogou
a
bandeja
do
café
em
cima
de
Gladys
e
Gladys
pediu
demissão.
Foi
muito
engraçado.
—Eu
já
vi
que
você
gosta
de
dramas,
Josephine.
—Eles
fizeram
uma
autópsia
em
vovô
—
disse
Josephine.
—
Para
saber
de
que
foi
que
ele
morreu.
Um
P.
M.
...
post
mortem...
eles
chamam
isso,
mas
eu
acho
que
faz
muita
confusão,
não
acha?
Porque
P.
M.
serve
também
para
Primeiro-Ministro.
E
para
as
horas
da
tarde1.
—
Ela
acrescentou
pensativa.
1
PM.—
Past
Meridian:
depois
do
meio-dia.
—Você
ficou
triste
porque
seu
avô
morreu?
—
perguntei.
—Não
muito.
Eu
não
gostava
muito
dele.
Não
me
deixou
ser
uma
bailarina.
—Você
queria
estudar
balé?
—Queria,
e
mamãe
também
queria
que
eu
aprendesse,
e
papai
não
se
importava,
mas
vovô
disse
que
eu
não
ia
prestar
para
o
balé.
Ela
escorregou
do
braço
da
poltrona,
chutou
para
o
ar
os
sapatos
e
esforçou-se
para
ficar
no
que
tecnicamente
chamam,
creio
eu,
de
pontas.
—Você
precisa
os
sapatos
adequados
—
explicou.
—
E
mesmo
assim
a
gente
fica
às
vezes
com
abscessos
horríveis
na
ponta
dos
dedos.
Ela
recuperou
os
sapatos
e
perguntou
com
casualidade:
—Você
gosta
desta
casa?
—Eu
ainda
não
tenho
certeza
—
respondi.
—Eu
acho
que
vai
ser
vendida
agora
A
menos
que
Brenda
continue
a
morar
aqui.
E
eu
acho
que
o
tio
Roger
e
tia
Clemency
não
vão
mais
viajar
para
o
exterior.
—Eles
iam
viajar?
—
perguntei
com
um
ligeiro
movimento
de
interesse.
—Sim.
Eles
iam
embora
terça-feira.
Para
o
estrangeiro,
um
lugar
qualquer.
Eles
iam
de
avião.
Tia
Clemency
comprou
uma
destas
valises
novas,
superleves.
—Eu
não
tinha
ouvido
dizer
que
eles
iam
viajar
—
disse
eu.
—Não
—
disse
Josephine.
—
Ninguém
sabia.
Era
um
segredo.
Eles
não
iam
contar
para
ninguém
até
terem
ido
embora.
Iam
deixar
um
bilhete
para
o
vovô.
Mas
não
ia
ficar
na
almofadinha
de
alfinetes.
Somente
em
livros
velhos
e
quando
as
mulheres
deixam
os
maridos.
Agora
ia
parecer
besteira,
porque
ninguém
mais
usa
almofadinhas
de
alfinetes.
—É
claro
que
não.
Josephine,
você
sabe
por
que
o
seu
tio
Roger
estava...
indo
embora?
Josephine
me
deu
uma
olhada
de
esguelha
muito
ladina.
—Eu
acho
que
sei.
Tinha
alguma
coisa
que
ver
com
o
escritório
de
tio
Roger
em
Londres.
Eu
até
acho...
mas
não
tenho
certeza...
que
ele
desviou
um
dinheiro.
—O
que
a
faz
pensar
assim?
Josephine
se
aproximou
respirando
pesadamente
sobre
meu
rosto.
—O
dia
em
que
vovô
foi
assassinado,
tio
Roger
ficou
trancado
com
ele
no
quarto
mais
tempo
do
que
de
costume.
Eles
falavam
e
falavam.
E
tio
Roger
estava
dizendo
que
ele
nunca
prestara
mesmo,
e
que
ele
deixara
o
vovô
na
mão...
e
que
não
era
tanto
o
dinheiro
que
importava...
era
o
sentimento
de
não
ter
correspondido
à
confiança.
Ele
estava
péssimo.
Eu
olhei
para
Josephine
com
sentimentos
confusos.
—Josephine
—
disse,
—
ninguém
nunca
lhe
disse
que
não
é
bonito
ficar
ouvindo
o
que
os
outros
falam
por
detrás
das
portas?
Josephine
fez
que
sim
vigorosamente
com
a
cabeça.
—É
claro
que
disseram.
Mas
se
você
quiser
descobrir
alguma
coisa,
tem
que
ficar
escutando
atrás
das
portas.
Eu
aposto
que
o
Inspetor
Taverner
faz
isso,
não
faz?
Eu
considerei
a
questão.
Josephine
continuou
com
veemência:
—E
de
todo
jeito,
se
ele
não
fizer
isto,
o
outro
deve
fazer,
aquele
de
sapatos
de
camurça.
E
eles
espionam
nas
escrivaninhas
das
pessoas
e
lêem
todas
as
cartas
e
descobrem
todos
os
segredos.
A
única
coisa
é
que
são
burros!
Não
sabem
onde
olhar!
Josephine
falou
com
fria
superioridade.
Eu
tinha
sido
por
demais
estúpido
ao
fazer
este
comentário.
A
desagradável
criança
continuou:
—Eustace
e
eu
sabemos
uma
porção
de
coisas...
mas
eu
ainda
sei
mais
que
Eustace.
E
não
vou
contar
pra
ele.
Ele
diz
que
as
mulheres
não
podem
nunca
ser
bons
detetives.
Mas
eu
digo
que
podem.
Vou
escrever
tudo
o
que
eu
sei
num
caderno
e
então,
quando
a
polícia
estiver
completamente
desconcertada,
eu
vou
dar
um
passo
à
frente
e
dizer:
"Eu
posso
dizer-lhes
quem
foi".
—Você
lê
muitas
histórias
de
detetives,
Josephine?
—Montes!
—Eu
calculo
que
você
pensa
que
sabe
quem
foi
que
matou
seu
avô?
—Bem,
eu
penso
que
sim...
mas
ainda
tenho
de
descobrir
mais
algumas
pistas
—
fez
uma
pausa
e
acrescentou:
—
O
Inspetor
Taverner
pensa
que
foi
Brenda,
não
é?
Ou
Brenda
e
Laurence
juntos
porque
eles
estão
apaixonados
um
pelo
outro.
—Você
não
devia
dizer
isto,
Josephine.
—Por
que
não?
Eles
estão
apaixonados
um
pelo
outro.
—Você
não
pode
julgar
isto.
—É
claro
que
eu
posso.
Eles
se
escrevem.
Cartas
de
amor.
—Josephine!
Como
é
que
você
sabe
disto?
—Porque
eu
li
as
cartas.
Cartas
horrivelmente
sentimentais.
Mas
Laurence
é
um
sentimental.
Ele
teve
tanto
medo
que
não
foi
lutar
na
guerra.
Ficou
pelos
porões
e
punha
carvão
nas
caldeiras.
Quando
as
bombas
voadoras
caíam
por
aqui,
ele
ia
ficando
verde...
verde
mesmo!
Eustace
e
eu
ríamos
um
bocado.
O
que
eu
deveria
dizer
agora
eu
não
sei,
pois
neste
instante
um
carro
parou
do
lado
de
fora.
Num
relâmpago
Josephine
estava
na
janela,
o
nariz
arrebitado
espremido
contra
o
vidro.
—Quem
é?
—
eu
perguntei.
—É
o
Sr.
Gaitskill,
o
advogado
de
vovô.
Eu
acho
que
ele
veio
por
causa
do
testamento.
Respirando
excitadamente,
saiu
correndo
da
sala,
certamente
para
continuar
seu
trabalho
de
investigação.
Magda
Leonides
entrou
na
sala
e
para
minha
surpresa
veio
até
onde
eu
estava
e
tomou
as
minhas
mãos
entre
as
suas.
—
Meu
caro
—
disse
ela,
—
graças
a
Deus
que
você
ainda
está
aqui.
É
tão
bom
ter
um
homem
perto!
Ela
deixou
cair
minhas
mãos,
dirigiu-se
a
uma
cadeira
de
encosto
alto,
mudou-a
ligeiramente
de
posição,
olhou-se
no
espelho,
e
pegando
uma
pequena
caixa
esmaltada
de
cima
de
uma
mesa,
pôs-se
pensativamente
a
abri-la
e
fechá-la.
Era
uma
pose
muito
atraente.
Sophia
enfiou
a
cabeça
pela
porta
e
disse
num
sussurro
repreensivo:
—Gaitskill!
—Eu
sei
—
disse
Magda.
Alguns
momentos
depois,
Sophia
entrou
na
sala
acompanhada
por
um
homenzinho
pequeno,
já
idoso,
e
Magda
deixou
de
lado
a
sua
caixa
esmaltada
e
levantou-se
para
cumprimentá-lo.
—Bom
dia,
Sra.
Philip.
Eu
estou
indo
lá
para
cima.
Parece
que
há
um
mal-entendido
sobre
o
testamento.
Seu
ma
rido
me
escreveu
dando
a
impressão
de
que
o
testamento
estava
em
meu
poder.
Eu
ouvi
do
próprio
Sr.
Leonides
que
o
testamento
estava
em
seu
cofre.
A
senhora
sabe
de
alguma
coisa?
—Sobre
o
testamento
do
pobrezinho?
—
Magda
arregalou
os
olhos.
—
Não,
é
claro
que
não.
Não
me
diga
que
aquela
malvada
daquela
mulher
lá
de
cima
destruiu-o?
—Vamos,
Sra.
Philip
—
ele
balançou
um
dedo
admoestador
para
ela.
—
Não
faça
conjeturas
irrefletidas.
É
apenas
uma
questão
de
saber
onde
o
seu
sogro
guardava
o
testamento.
—Mas
ele
o
mandou
para
o
senhor...
foi
o
que
ele
fez...
depois
de
assiná-lo.
Ele
mesmo
nos
disse
que
fez
isto.
—Eu
ouvi
dizer
que
a
polícia
já
examinou
os
papéis
particulares
do
Sr.
Leonides
—
disse
o
Sr.
Gaitskill.
—
Irei
falar
com
o
Inspetor
Taverner.
Ele
saiu
da
sala.
—Querida!
—
gritou
Magda.
—
Ela
o
destruiu.
Eu
sei
que
estou
certa.
—Tolice,
mamãe,
ela
não
faria
uma
estupidez
dessas.
—Não
seria
estupidez
nenhuma.
Se
não
houver
testamento
ela
fica
com
tudo.
—Pssiuu...
Gaitskill
está
voltando.
O
advogado
entrou
de
novo
na
sala.
O
Inspetor
Taverner
estava
com
ele,
e
atrás
de
Taverner
vinha
Philip.
—Eu
ouvi
do
Sr.
Leonides
—
Gaitskill
estava
dizendo
—
que
ele
deixaria
o
testamento
no
Banco
para
ficar
bem
guardado.
Taverner
balançou
negativamente
a
cabeça.
—Eu
já
me
comuniquei
com
o
Banco.
Eles
não
tinham
nenhum
papel
privado
do
Sr.
Leonides
a
não
ser
algumas
ações
de
que
cuidavam
para
ele.
Philip
disse:
—Eu
imagino
se
Roger...
ou
tia
Edith...
Sophia,
talvez
se
você
pudesse
chamá-los
aqui
um
instante?
Mas
Roger
Leonides,
convocado
assim
como
os
outros
para
o
conclave,
também
não
pôde
dar
nenhuma
ajuda.
—Mas
é
bobagem...
bobagem
absoluta
—
declarou
ele.
—
Papai
assinou
o
testamento
e
disse
claramente
que
ia
pô-lo
no
correio
para
o
Sr.
Gaitskill
no
dia
seguinte.
—Se
não
me
falha
a
memória
—
disse
o
Sr.
Gaitskill,
inclinando-se
para
trás
e
semicerrando
os
olhos,
—
foi
no
dia
24
de
novembro
do
ano
passado
que
eu
remeti
um
rascunho
feito
de
acordo
com
as
instruções
do
Sr.
Leonides.
Ele
aprovou
o
rascunho,
devolveu-o
para
mim
e
no
tempo
devido,
eu
lhe
enviei
o
testamento
para
a
sua
assinatura.
Depois
do
espaço
de
uma
semana,
eu
tomei
a
liberdade
de
lembrá-lo
que
ainda
não
recebera
o
testamento
devidamente
assinado
com
testemunhas
e
perguntei-lhe
se
havia
alguma
cláusula
que
quisesse
alterar.
Ele
respondeu
que
estava
perfeitamente
satisfeito
e
acrescentou
que
depois
de
assinado
tinha
enviado
o
testamento
para
o
Banco.
—Foi
assim
mesmo
—
disse
Roger
ansioso.
—
Foi
mais
ou
menos
no
fim
de
novembro
do
ano
passado...
você
se
lembra,
Philip?
Papai
nos
chamou
a
todos
lá
em
cima
uma
noite
e
leu
o
testamento
para
nós.
Taverner
voltou-se
para
Philip
Leonides.
—Isto
está
de
acordo
com
o
que
o
senhor
se
lembra,
Sr.
Leonides?
—Sim
—
disse
Philip.
—É
quase
como
a
Herança
de
Voysey
—
disse
Magda
e
suspirou
deliciada.
—
Eu
sempre
achei
que
havia
algo
dramático
sobre
os
testamentos.
—Srta.
Sophia?
—Sim
—
disse
Sophia,
—
eu
me
lembro
perfeitamente.
—E
quais
eram
os
termos
deste
testamento?
—
perguntou
Taverner.
Gaitskill
ia
responder
em
sua
maneira
precisa
mas
Roger
Leonides
adiantou-se:
—Era
um
testamento
muito
simples.
Electra
e
Joyce
já
tinham
morrido
e
a
parte
que
lhes
coubera
nos
outros
termos
retornara
a
meu
pai.
William,
o
filho
de
Joyce,
foi
morto
em
ação
na
Birmânia
e
o
dinheiro
dele
ficou
para
seu
pai.
Philip,
eu
e
as
crianças
éramos
os
únicos
parentes
que
lhe
restavam.
Papai
nos
explicou
isso.
Ele
deixava
cinqüenta
mil
libras
livres
de
impostos
para
tia
Edith,
cem
mil
libras
livres
de
impostos
para
Brenda,
esta
casa
ou
uma
outra
a
ser
comprada
em
Londres
para
Brenda...
o
que
ela
preferisse.
O
restante
seria
dividido
em
três
porções,
uma
para
mim,
uma
para
Philip
e
a
terceira
a
ser
dividida
entre
Sophia,
Eustace
e
Josephine,
sendo
que
a
parte
destes
dois
ficaria
depositada
em
juízo
até
que
eles
atingissem
a
maioridade.
Eu
creio
que
foi
assim,
não
foi,
Sr.
Gaitskill?
—Eram
estes,
aproximadamente,
os
termos
do
documento
que
eu
preparei
—
concordou
o
Sr.
Gaitskill,
demonstrando
um
certo
azedume
por
não
lhe
terem
permitido
falar
por
si
próprio.
—Papai
leu-o
para
nós
—
disse
Roger.
—
Ele
perguntou
se
havia
algum
comentário
que
nós
gostaríamos
de
fazer.
É
lógico
que
não
havia
nenhum.
—Brenda
fez
um
comentário
—
disse
Edith
de
Haviland.
—Sim
—
confirmou
Magda
com
picardia.
—
Ela
falou
que
não
agüentava
ouvir
o
seu
querido
Aristide
falar
sobre
a
morte.
"Me
dá
arrepios"
ela
disse.
E
que
depois
que
ele
morresse
ela
não
queria
saber
daquele
horrível
dinheiro!
—Este
—
disse
Edith
de
Haviland
—
era
o
protesto
convencional,
típico
da
classe
dela.
Era
um
comentário
cruel
e
maldoso.
Eu
percebi
de
repente
o
quanto
Edith
de
Haviland
detestava
Brenda.
—Uma
maneira
muito
justa
e
razoável
de
dispor
de
seus
bens
—
disse
Gaitskill.
—E
depois
de
ler
o
testamento,
o
que
aconteceu?
—
perguntou
o
Inspetor
Taverner.
—Depois
de
lê-lo
—
disse
Roger,
—
ele
o
assinou.
Taverner
inclinou-se
para
a
frente.
—Como
e
quando
ele
o
assinou?
Roger
olhou
para
o
lado
de
sua
esposa
como
pedindo
auxílio.
Clemency
falou
em
resposta
ao
olhar.
O
resto
da
família
parece
que
ficou
satisfeito
ao
vê-la
tomar
a
palavra.
—O
senhor
quer
saber
exatamente
como
foi
que
isto
se
passou?
—Por
favor,
Sra.
Roger.
—Meu
sogro
pôs
o
testamento
em
sua
mesa
e
pediu
a
um
de
nós...
creio
que
foi
a
Roger...
que
tocasse
a
campainha.
Roger
fez
o
que
ele
pediu.
Quando
Johnson
veio
em
resposta,
meu
sogro
pediu
que
ele
fosse
buscar
Janet
Woolmer,
a
copeira.
Quando
ambos
estavam
na
sala,
ele
assinou
o
testamento
e
pediu-lhes
que
assinassem
abaixo
de
seu
nome.
—O
procedimento
correto
—
disse
o
Sr.
Gaitskill.
—
Um
testamento
deve
ser
assinado
pelo
interessado
na
presença
de
duas
testemunhas
que
devem
assinar
ao
mesmo
tempo
e
no
mesmo
local.
—E
depois?
—
perguntou
Taverner.
—Meu
sogro
agradeceu-lhes
e
eles
saíram.
Meu
sogro
pegou
o
testamento,
colocou-o
num
envelope
e
mencionou
que
iria
enviá-lo
para
o
Sr.
Gaitskill
no
dia
seguinte.
—Vocês
todos
estão
de
acordo
—
disse
o
Inspetor
Taverner,
olhando
em
torno
—
que
este
relato
é
aproximadamente
o
que
se
passou?
Houve
uma
série
de
murmúrios
de
assentimento.
—O
testamento
estava
sobre
a
mesa,
dizem
vocês.
A
que
distância
da
mesa
vocês
estavam?
—Não
muito
perto.
Cinco
ou
seis
metros,
no
mínimo.
—Quando
o
Sr.
Leonides
leu
o
testamento,
ele
próprio
estava
sentado
à
mesa?
—Sim.
—Ele
se
levantou
ou
deixou
a
mesa,
depois
de
ler
o
testamento
e
antes
de
assiná-lo?
—Não.
—Os
empregados
puderam
ler
o
testamento
enquanto
assinavam
seus
nomes?
—Não.
Meu
sogro
colocou
uma
folha
de
papel
dobrada
sobre
a
parte
de
cima
do
documento
—
disse
Clemency.
Eu
estou
vendo...
disse
Taverner.
Pelo
menos...
mas
eu
—Muito
acertado
—
disse
Philip.
—
Os
termos
do
testamento
não
eram
da
conta
dos
empregados.
—
—
—
não
compreendo.
Com
um
movimento
rápido
ele
tirou
do
bolso
um
envelope
comprido
e
inclinou-se
para
entregá-lo
ao
advogado.
—Dê
uma
espiada
nisto
—
disse
ele.
—
E
diga-me
do
que
se
trata.
Gaitskill
tirou
um
documento
dobrado
de
dentro
do
envelope.
Olhou
para
ele
com
acentuado
espanto,
virando-o
diversas
vezes
entre
as
mãos.
—Isto
—
disse
ele
—
é
extremamente
surpreendente.
Eu
não
compreendo.
Onde
foi
que
o
senhor
o
encontrou?
—No
cofre.
Entre
os
outros
papéis
do
Sr.
Leonides.
—Mas
o
que
é
isto?
—
perguntou
Roger.
—
Por
que
todo
este
espanto?
—Este
é
o
testamento
que
eu
preparei
para
o
seu
pai
assinar,
Roger...
mas...
eu
não
entendo
que
depois
de
tudo
o
que
vocês
disseram...
ele
não
está
assinado.
—O
quê?
Bem,
eu
calculo
que
seja
apenas
um
rascunho.
—Não
—
disse
o
advogado.
—
O
Sr.
Leonides
me
mandou
de
volta
o
rascunho
original.
Foi
então
que
eu
preparei
o
testamento...
este
testamento
—
bateu
no
papel
com
os
dedos
—
e
enviei-o
para
que
ele
o
assinasse.
De
acordo
com
o
testemunho
de
todos
vocês
ele
assinou
este
testamento
em
frente
de
todos
e
também
das
duas
testemunhas
que
assinaram;
entretanto,
este
papel
não
está
assinado.
—Mas
isto
é
impossível!
—
exclamou
Philip
Leonides,
falando
no
tom
mais
animado
que
eu
já
escutara
dele.
Taverner
perguntou:
—Como
era
a
vista
de
seu
pai?
—Ele
sofria
de
glaucoma.
Usava
lentes
muito
fortes,
é
claro,
para
ler.
—Ele
estava
de
óculos
naquela
noite?
—Claro.
Ele
não
tirou
os
óculos
até
a
hora
de
assinar.
Vocês
concordam?
—Com
toda
a
certeza
—
disse
Clemency.
—E
ninguém...
vocês
estão
certos
disso?...
chegou
perto
da
mesa
dele
antes
que
ele
assinasse
o
testamento?
—Eu
estou
tentando
imaginar
—
disse
Magda,
apertando
os
olhos
—
se
nós
podemos
visualizar
tudo
outra
vez.
—Ninguém
esteve
perto
da
mesa
—
disse
Sophia.
—
E
vovô
ficou
sentado
o
tempo
inteiro.
—A
mesa
estava
na
mesma
posição
em
que
está
agora?
Não
estava
perto
de
uma
porta,
de
uma
janela
ou
de
alguma
cortina?
—Estava
no
mesmo
lugar
em
que
se
encontra
agora.
—Eu
estou
tentando
ver
se
alguma
substituição
pode
ter
sido
efetuada
—
disse
Taverner.
—
Deve
ter
havido
uma
substituição.
O
As
assinaturas
não
poderiam
ter
sido
apagadas?
perguntou
Sr.
Leonides
teve
a
impressão
de
que
estava
assinando
este
documento,
que
ele
acabara
de
ler
em
voz
alta.
—
—
Roger.
—Não,
Sr.
Leonides.
Elas
teriam
deixado
traços
no
papel.
Há
uma
outra
possibilidade.
Que
este
aqui
não
seja
o
documento
enviado
pelo
Sr.
Gaitskill
para
o
Sr.
Leonides
e
que
ele
assinou
na
presença
de
vocês.
—
Pelo
contrário
—
disse
Gaitskill.
—
Eu
posso
jurar
que
este
é
o
documento
original.
Havia
uma
pequena
mancha
no
papel...
no
alto
à
esquerda...
que
lembrava,
por
um
acaso
estranho,
um
avião.
Eu
reparei
nisto.
A
família
se
entreolhava
perplexa.
—Uma
circunstância
deveras
curiosa
—
disse
Gaitskill.
—
Absolutamente
sem
precedentes
na
minha
profissão.
—Tudo
isto
é
impossível
—
disse
Roger.
—
Nós
estávamos
todos
lá.
Simplesmente
não
pode
ter
acontecido
nada.
Edith
de
Haviland
pigarreou.
—
Não
adianta
vocês
ficarem
gastando
o
fôlego
a
dizer
que
uma
coisa
que
aconteceu
não
podia
ter
acontecido
—
disse
ela.
—
Em
que
ficamos
agora?
Isto
é
o
que
eu
gostaria
de
saber.
Imediatamente
Gaitskill
tornou-se
o
advogado
cauteloso.
—A
posição
precisará
ser
examinada
muito
cuidadosamente.
O
documento,
é
lógico,
revoga
todos
os
testamentos
e
documentos
anteriores
—
disse
ele.
—
Há
um
grande
número
de
testemunhas
que
viram
o
Sr.
Leonides
assinar
o
que
ele
em
sua
boa-fé
pensava
ser
este
testamento.
Hum...
Muito
interessante...
Um
probleminha
jurídico.
Taverner
deu
uma
espiada
no
relógio.
—Eu
sinto
muito
—
disse
ele
—
mas
acho
que
estou
atrasando
o
almoço
de
vocês.
—Não
quer
ficar
e
almoçar
conosco,
Inspetor?
—
perguntou
Philip.
—Obrigado,
Sr.
Leonides,
mas
eu
preciso
encontrar-me
com
o
Dr.
Gray
em
Swinly
Dean.
Philip
virou-se
para
o
advogado.
—Você
almoça
conosco,
Gaitskill?
—Muito
obrigado,
Philip.
Todos
ficaram
de
pé.
Eu
me
aproximei
discretamente
de
Sophia.
—Devo
ir
ou
ficar?
—
murmurei.
Parecia
ridículo
como
o
título
de
uma
canção
vitoriana.
—Ir,
eu
creio
—
disse
Sophia.
Eu
saí
de
manso
da
sala
para
alcançar
Taverner.
Josephine
estava-se
balançando
de
um
lado
para
outro
pendurada
na
porta
que
dava
para
os
fundos
da
casa.
Ela
parecia
estar
achando
alguma
coisa
muito
engraçada.
—A
polícia
é
estúpida
—
observou
ela.
Sophia
saiu
da
sala
de
visitas.
—O
que
é
que
você
estava
fazendo,
Josephine?
—Ajudando
Nannie.
—Eu
garanto
que
você
estava
atrás
da
porta
escondida
e
ouvindo
a
conversa.
Josephine
fez
uma
careta
para
ela
e
foi-se
embora.
—Esta
criança
—
disse
Sophia
—
é
um
problema.
Capítulo
11
QUANDO
EU
ENTREI
na
sala
do
Comissário
Assistente
da
Yard,
Taverner
estava
acabando
de
desfiar
o
resumo
de
um
rosário
de
lágrimas.
E
aqui
estamos
—
estava
dizendo
ele.
—
Eu
virei
uma
porção
deles
pelo
avesso...
e
que
foi
que
eu
consegui?...
absolutamente
nada!
Nenhum
motivo.
Nenhum
deles
precisando
de
dinheiro.
E
a
única
coisa
que
conseguimos
contra
a
mulher
e
seu
rapazinho
foi
que
ele
lhe
dava
olhares
melosos
quando
ela
servia
o
café!
—Vamos,
vamos,
Taverner
—
disse
eu
—
eu
acho
que
consegui
um
pouquinho
mais
do
que
você.
—Conseguiu
mesmo?
Muito
bem,
Sr.
Charles,
o
que
foi
que
descobriu?
Eu
me
sentei,
acendi
um
cigarro,
recostei-me
na
cadeira
e
observei
a
audiência.
—Roger
Leonides
e
a
mulher
estavam
planejando
uma
fuga
para
o
exterior
na
próxima
terça-feira.
Roger
e
o
pai
tiveram
uma
entrevista
tempestuosa
no
dia
da
morte
do
velho.
O
velho
Leonides
descobrira
algo
errado
e
Roger
estava
admitindo
a
culpabilidade.
Taverner
ficou
roxo.
—Em
que
diabos
você
conseguiu
isto?
—
perguntou
ele.
—
Se
foi
pelos
empregados...
—Não
foi
pelos
empregados.
Consegui
—
disse
eu
—
de
um
agente
particular.
—O
que
é
que
você
quer
dizer?
—Devo
admitir
que
de
acordo
com
as
regras
das
melhores
histórias
de
detetives,
ele,
ou
talvez
ela...
ou
seria
melhor
dizer,
aquilo...
passou
a
polícia
para
trás!
E
eu
penso
também
—
continuei
—
que
o
meu
detetive
particular
ainda
tem
uma
porção
de
coisas
escondidas
na
manga
dele,
dela
ou
daquilo...
Taverner
abriu
a
boca
e
fechou-a
novamente.
Ele
queria
fazer
tantas
perguntas
de
uma
vez
que
achou
difícil
saber
por
onde
começar.
—Roger!
—
disse
ele.
—
Então
Roger...
não
vale
nada,
hein?
Eu
senti
uma
certa
relutância
enquanto
contava
tudo.
Eu
gostara
de
Roger
Leonides.
Lembrava-me
de
seu
quarto
confortável
e
simpático,
de
seu
ar
amigável
e
me
desgostava
soltar
os
cães
da
polícia
atrás
dele.
Era
possível
também,
é
claro,
que
as
informações
de
Josephine
não
fossem
dignas
de
crédito
mas
eu
não
pensava
assim.
—Então
foi
a
menina
que
lhe
contou?
—
perguntou
Taverner.
—
Ela
parece
saber
de
tudo
o
que
se
passa
na
casa.
Esta
informação,
é
verdade,
alterava
toda
a
situação.
Se
Roger
tivesse,
como
Josephine
atrevidamente
sugerira,
"desviado"
os
fundos
da
Associação
de
Fornecedores
e
se
o
velho
houvesse
descoberto,
teria
sido
vital
silenciar
o
velho
Leonides
e
deixar
a
Inglaterra
antes
que
a
verdade
viesse
à
tona.
Possivelmente
Roger
tornara-se
passível
de
um
processo
criminal.
Concordamos
que
um
inquérito
deveria
ser
feito
sem
demora
nos
negócios
da
Associação
de
Fornecedores.
—Vai
ser
um
colapso
financeiro
monumental,
se
isto
acontecer
mesmo
—
disse
meu
pai.
—
É
uma
empresa
imensa.
Há
milhões
envolvidos.
—Se
ele
estiver
mesmo
em
apuros,
isto
nos
dará
o
que
queremos
—
disse
Taverner.
—
O
papai
chama
Roger.
Roger
perde
o
controle
e
confessa.
Brenda
Leonides
estava
no
cinema.
Roger
só
tem
de
sair
do
quarto
do
pai,
ir
até
o
banheiro,
esvaziar
um
vidro
de
insulina
e
substituí-lo
por
uma
solução
forte
de
eserina
e
cá
estamos!
Ou
talvez
sua
esposa
é
quem
tenha
feito
a
troca.
Ela
foi
até
a
outra
ala
da
casa
depois
que
chegou
naquele
dia...
alega
que
foi
procurar
um
cachimbo
que
Roger
deixara
lá.
Mas
ela
pode
ter
ido
até
lá
dentro
para
trocar
as
drogas
antes
que
Brenda
chegasse
em
casa
e
lhe
desse
a
injeção.
Ela
me
parece
bastante
fria
e
calculista
para
fazê-lo.
Eu
concordei
com
a
cabeça.
—Sim,
eu
sou
capaz
de
vê-la
como
o
autor
da
façanha.
Ela
me
parece
fria
o
bastante
para
fazer
qualquer
coisa!
Não
imagino
Roger
Leonides
pensando
em
veneno
como
um
meio...
este
truque
da
insulina
tem
algo
de
feminino!
—Há
uma
porção
de
envenenadores
homens
—
disse
meu
pai
secamente.
—Oh,
eu
sei,
sim
senhor
—
disse
Taverner.
—
Imagine
se
eu
não
soubesse!
—
acrescentou
meio
sentido.
—De
qualquer
forma,
eu
não
acho
que
Roger
seja
deste
tipo.
—Pritchard
—
lembrou-lhe
o
Velho
—
enganava
muito...
—Digamos
que
os
dois
agiram
juntos.
—Com
um
toque
de
Lady
Macbeth
—
disse
meu
pai,
quando
Taverner
saiu.
—
É
isto
o
que
o
intriga,
Charles?
Eu
visualizei
a
figura
graciosa
parada
em
frente
à
janela
naquele
quarto
austero.
—Não
é
bem
isso
—
eu
disse.
—
Lady
Macbeth
era
essencialmente
uma
mulher
gananciosa.
Eu
não
creio
que
Clemency
Leonides
o
seja.
Não
acredito
que
ela
deseja
ou
mesmo
faça
caso
de
riquezas.
—Mas
ela
desejaria,
desesperadamente,
a
segurança
de
seu
marido?
—Isto
sim.
E
ela
poderia
ser
certamente...
bem...
impiedosa.
"Diferentes
tipos
de
crueldade...":
fora
isto
o
que
Sophia
dissera.
Eu
levantei
os
olhos
e
vi
que
o
Velho
estava-me
observando.
—Em
que
é
que
você
está
pensando,
Charles?
Mas
eu
não
lhe
contei
nada.
Fui
chamado
no
dia
seguinte
e
encontrei
Taverner
e
meu
pai
juntos.
Taverner
parecia
satisfeito
consigo
mesmo
e
ligeiramente
excitado.
—A
Associação
de
Fornecedores
está
à
beira
da
falência
—
disse
meu
pai.
—Vai
por
água
abaixo
a
qualquer
momento
—
disse
Taverner.
—Eu
soube
que
houve
uma
queda
violenta
das
ações
a
noite
passada
—
disse
eu.
—
Mas
parece
que
eles
conseguiram
recuperar-se
hoje
de
manhã.
—Nós
investigamos
com
muita
cautela
—
disse
Taverner.
—
Nenhum
inquérito
direto.
Nada
que
pudesse
causar
pânico...
ou
que
deixasse
o
nosso
cavalheiro
fujão
com
a
pulga
atrás
da
orelha.
Mas
temos
fontes
particulares
de
informações
e
as
informações
foram
muito
definidas.
A
Associação
de
Fornecedores
está
à
beira
da
falência.
Não
pode
manter
de
maneira
alguma
os
seus
compromissos.
A
verdade
é
que
parece
que
está
sendo
mal
administrada
há
anos.
—Por
Roger
Leonides?
—Sim.
Ele
tem
o
poder
supremo,
você
sabe.
—E
ele
passou
a
mão
no
dinheiro...
—Não
—
disse
Taverner.
—
Nós
não
pensamos
assim.
Para
falar
com
franqueza,
ele
pode
ser
um
assassino
mas
não
cremos
que
seja
um
vigarista.
No
duro
mesmo,
ele
foi
apenas...
um
tolo.
Não
tem
nenhuma
capacidade
para
negócios.
Ele
soltava
o
que
devia
prender...
hesitava
na
hora
que
devia
jogar
tudo.
Delegava
poderes
às
últimas
pessoas
às
quais
devia
fazê-lo.
É
o
tipo
do
sujeito
confiante
e
confiava
nas
pessoas
erradas.
Cada
vez
e
em
cada
ocasião
ele
fazia
a
coisa
errada.
—Há
pessoas
assim
—
disse
meu
pai.
—
E
eles
não
são
realmente
estúpidos.
São
apenas
maus
juizes
da
natureza
humana.
E
se
entusiasmam
na
ocasião
errada.
—Um
homem
assim
não
devia
nunca
se
meter
em
negócios
—
disse
Taverner.
—Provavelmente
ele
não
se
meteria
nunca
—
disse
meu
pai,
—
exceto
pelo
acidente
de
ser
o
filho
de
Aristide
Leonides.
—O
negócio
estava
em
franca
alta
no
mercado
quando
o
velho
passou-o
às
mãos
dele.
Devia
ser
uma
mina
de
ouro!
A
gente
pensa
que
bastava
ele
ficar
sentado
e
deixar
o
barco
correr
sozinho.
—Não
—
meu
pai
balançou
a
cabeça.
—
Nenhum
barco
pode
correr
sozinho.
Há
sempre
decisões
a
tomar...
demitir
um
homem
aqui...
contratar
um
outro
lá...
pequenas
questões
de
política
interna.
E
com
Roger
Leonides
as
respostas
parecem
ter
sido
sempre
as
erradas...
—O
senhor
tem
razão
—
disse
Taverner.
—
Ele
é
um
sujeito
muito
leal.
Conserva
os
piores
elementos...
só
porque
gosta
deles...
ou
porque
já
estão
lá
há
muito
tempo.
E,
às
vezes,
ele
tinha
as
piores
idéias
ou
as
mais
absurdas
e
insistia
em
executá-las
apesar
das
enormes
despesas
que
envolviam.
—Mas
nada
criminoso?
—
insistiu
meu
pai.
—Não,
nada
criminoso.
—Então,
por
que
um
assassinato?
—
perguntei.
—Ele
pode
ter
sido
um
tolo
e
não
um
patife
—
disse
Taverner.
—
Mas
o
resultado
era
o
mesmo...
ou
quase
o
mesmo.
A
única
coisa
que
poderá
salvar
a
Associação
de
Fornecedores
de
uma
falência
seria
uma
colossal
soma
de
dinheiro,
o
mais
tardar
(ele
consultou
um
livrinho
de
notas)...
o
mais
tardar
até
quarta-feira
próxima
no
máximo.
—Uma
tal
soma
que
ele
herdaria...
ou
pensava
que
herdaria...
pelo
testamento
de
seu
pai?
—Exatamente.
—Mas
ele
não
conseguiria
arranjar
esta
tal
soma
em
dinheiro.
—Não.
Mas
conseguiria
o
crédito.
É
a
mesma
coisa.
O
Velho
balançou
a
cabeça.
—Não
teria
sido
mais
simples
ir
até
o
velho
Leonides
e
pedir
auxílio?
—
sugeriu
ele.
—Eu
acho
que
ele
fez
isto
—
disse
Taverner.
—
Eu
creio
que
deve
ser
isto
que
a
menina
escutou.
O
velho
recusou
categoricamente,
eu
imagino,
a
jogar
dinheiro
fora.
Era
o
que
ele
faria,
vocês
sabem.
Eu
calculei
que
neste
ponto
Taverner
estava
certo.
Aristide
Leonides
recusara-se
a
financiar
a
peça
de
Magda
—
dissera
que
não
seria
um
êxito
de
bilheteria.
Os
fatos
provaram
que
ele
tinha
razão.
Era
um
homem
generoso
com
a
família
mas
não
era
um
homem
que
pusesse
dinheiro
fora
em
empreendimentos
improfícuos.
E
a
Associação
de
Fornecedores
precisava
de
milhares
ou
de
centenas
de
milhares,
provavelmente.
Ele
se
recusara
categoricamente
e
a
única
maneira
de
Roger
evitar
a
ruína
financeira
seria
com
a
morte
do
pai.
Sim,
aí
havia
certamente
um
bom
motivo.
Meu
pai
olhou
para
o
relógio.
—Eu
pedi
a
ele
que
viesse
aqui
—
disse.
—
Deve
estar
chegando
a
qualquer
minuto.
—Roger?
—Sim.
—Você
quer
vir
à
minha
casa,
perguntou
a
aranha
à
mosca?
—
murmurei
eu.
Taverner
olhou
para
mim
com
ar
chocado.
—Nós
devemos
dar
a
ele
todas
as
advertências
necessárias
—
disse
ele
com
severidade.
O
palco
estava
arrumado,
a
estenodatilógrafa
preparada.
Neste
instante
a
campainha
soou
e
alguns
minutos
depois
Roger
Leonides
entrou
na
sala.
Ele
chegou
ansioso
—
e
um
tanto
sem
jeito
—
tropeçou
numa
cadeira.
Eu
me
lembrei,
como
da
primeira
vez,
de
um
cachorrão
simpático.
Foi
neste
momento
que
eu
decidi
que
não
podia
ter
sido
ele
quem
levara
a
cabo
o
processo
de
troca
da
eserina
no
frasco
de
insulina.
Ele
teria
quebrado
o
vidro,
derramado
tudo,
ou
falhado
a
operação
de
uma
ou
outra
maneira.
Não,
Clemency
—
decidi
eu
—
deve
ter
feito
a
troca,
se
bem
que
Roger
fosse
conivente
no
delito.
Ele
começou
a
falar
aos
arrancos:
—O
senhor
queria
ver-me?
Descobriu
alguma
coisa?
Alô,
Charles,
eu
não
o
tinha
visto.
Que
bom
você
ter
vindo.
Mas,
por
favor,
diga-me
Sir
Arthur...
Um
camarada
tão
simpático
—
realmente
um
camarada
muito
simpático.
Mas
um
monte
de
assassinos
também
tinham
sido
sujeitos
simpáticos
—
pelo
menos
é
o
que
diziam
seus
amigos
espantados
depois.
Sentindo-me
como
Judas,
eu
lhe
dei
um
sorriso
de
boas-
vindas.
Meu
pai
foi
deliberado,
frio,
oficial.
Frases
fluentes
foram
ditas.
Declarações...
seriam
anotadas...
não
era
obrigado...
advogado...
Roger
Leonides
pôs
tudo
isto
de
lado
com
a
mesma
impaciência
e
ansiedade
características.
Eu
percebi
um
leve
sorriso
sardônico
no
rosto
do
Inspetor
Taverner
e,
por
ele,
li
os
seus
pensamentos.
"Sempre
certos
de
si,
esses
caras...
Não
podem
cometer
um
erro.
São
mais
do
que
espertos!"
Eu
me
sentei
discretamente
em
um
canto
e
escutei.
—Eu
lhe
pedi
para
vir
aqui,
Sr.
Leonides
—
começou
meu
pai,
—
mas
não
foi
para
lhe
dar
novas
informações
e
sim
para
lhe
pedir
uma
informação...
informação
esta
que
o
senhor
anteriormente
escondeu.
Roger
Leonides
pareceu
confuso.
—Escondi?
Mas
eu
lhe
contei
tudo...
absolutamente
tudo!
—Eu
penso
que
não.
O
senhor
teve
uma
conversa
com
o
falecido
na
tarde
de
sua
morte?
—Sim,
sim,
eu
tomei
chá
com
ele.
Eu
lhes
contei
isto.
—O
senhor
nos
contou
isto,
mas
não
falou
sobre
o
assunto
da
conversa.
—Nós...
apenas...
conversamos.
—Sobre
o
quê?
—Acontecimentos
do
dia,
a
casa,
Sophia...
—E
a
respeito
da
Associação
de
Fornecedores?
Mencionaram
isto?
Creio
que
eu
testava
torcendo
para
que
Josephine
tivesse
inventado
a
história
toda
mas
se
foi
assim
a
esperança
foi
por
água
abaixo.
O
rosto
de
Roger
transfigurou-se.
Mudou
de
uma
expressão
de
ansiedade
para
algo
facilmente
reconhecível
como
perto
do
desespero.
—Oh,
meu
Deus!
—
disse
ele
e
deixou-se
cair
numa
cadeira,
afundando
o
rosto
nas
mãos.
Taverner
sorriu
como
um
gato
satisfeito.
—O
senhor
admite,
Sr.
Leonides,
que
não
foi
franco
conosco?
—Como
foi
que
vocês
souberam
disto?
Eu
pensei
que
ninguém
soubesse...
eu
não
sei
como
alguém
pôde
saber.
—Nós
temos
meios
de
saber
de
coisas
como
estas,
Sr.
Leonides
—
houve
uma
pausa
majestosa.
—
Eu
acho
que
o
senhor
está
vendo
agora
que
é
melhor
nos
contar
toda
a
verdade.
—Sim,
sim,
é
claro.
Eu
vou
contar.
O
que
é
que
os
senhores
querem
saber?
—É
verdade
que
a
Associação
de
Fornecedores
está
à
beira
do
colapso?
—Sim.
Agora
não
pode
mais
ser
salva
do
desastre.
A
falência
está
às
portas.
Se
ao
menos
meu
pai
tivesse
morrido
sem
saber
de
nada.
Eu
me
sinto
tão
envergonhado...
tão
desgraçado...
—Há
possibilidade
de
instauração
de
processo?
Roger
sentou-se
muito
espigado.
—Não,
de
jeito
nenhum.
Será
a
falência...
mas
uma
falência
honrosa.
Os
credores
serão
pagos
integralmente
se
eu
lançar
mão
de
meus
bens
pessoais,
o
que
farei.
Não,
a
desgraça
que
eu
sinto
é
a
de
ter
falhado
a
meu
pai.
Ele
confiou
em
mim.
Passou
tudo
para
mim,
o
seu
maior
negócio...
e
a
menina
de
seus
olhos.
Nunca
interferiu,
nunca
perguntou
o
que
eu
estava
fazendo.
Apenas...
confiou
em
mim...
E
eu
o
deixei
na
mão...
Meu
pai
disse
secamente:
—O
senhor
diz
que
não
haverá
uma
instauração
de
processo?
Então
por
que
o
senhor
e
sua
esposa
planejavam
ir
para
o
exterior
sem
contar
a
ninguém
a
sua
intenção?
—O
senhor
também
sabe
disto?
—Sim,
Sr.
Leonides.
—Mas
não
compreendeu?
—
inclinou-se
para
a
frente,
ansioso.
—
Eu
não
poderia
enfrentá-lo
com
a
verdade.
Iria
parecer,
o
senhor
pode
ver,
que
eu
lhe
estava
pedindo
dinheiro.
Como
se
eu
lhe
estivesse
pedindo
para
me
pôr
em
pé
novamente.
Ele...
ele
gostava
muito
de
mim.
Iria
querer
ajudar-me.
Mas
eu
não
podia...
eu
não
podia
mesmo...
ia
ser
outra
vez
a
mesma
confusão...
eu
não
presto
para
nada.
Não
tenho
nenhuma
habilidade.
Não
sou
o
homem
que
meu
pai
era.
Eu
sempre
soube
disto.
Eu
tentei
mas
não
adiantou.
Tenho-me
sentido
tão
miserável...
Deus!
O
senhor
não
pode
imaginar
como
eu
me
tenho
sentido
miserável.
Tentando
sair
da
embrulhada,
esperando
conseguir
safar-me,
esperando
que
o
meu
velhinho
querido
não
chegasse
nunca
a
saber
disto.
Mas
aconteceu...
não
havia
mais
esperança
de
evitar
a
queda.
Clemency,
minha
mulher,
ela
compreendeu,
estava
de
acordo
comigo.
Nós
planejamos
tudo.
Não
dissemos
nada
a
ninguém.
Íamos
embora.
E
depois
que
a
tempestade
estourasse,
deixaria
uma
carta
para
meu
pai,
contando-lhe
tudo.
Contando
como
eu
estava
envergonhado
e
pedindo-lhe
que
me
perdoasse.
Ele
sempre
fora
tão
bom
para
mim...
o
senhor
não
pode
imaginar!
Mas
teria
sido
tarde
demais
para
fazer
qualquer
coisa.
Era
o
que
eu
queria.
Não
pedir
nada
a
ele...
nem
mesmo
sonhar
em
pedir
auxílio.
Começar
outra
vez
sozinho
em
qualquer
lugar.
Viver
simples
e
humildemente.
Plantar
nossa
comida.
Café...
frutas...
Apenas
as
necessidades
essenciais
à
vida...
seria
duro
para
Clemency
mas
ela
jurou
que
não
se
incomodava.
Ela
foi
maravilhosa...
simplesmente
maravilhosa...
—Eu
vejo
—
a
voz
de
meu
pai
era
seca.
—
E
o
que
o
fez
mudar
de
idéia?
—Mudar
de
idéia?
—Sim.
O
que
o
fez
decidir-se
a
falar
com
seu
pai
e
pedir-lhe
para
ajudá-lo
financeiramente?
Roger
olhou
para
ele.
—Mas
eu
não
fiz
isto!
—Vamos,
vamos,
Sr.
Leonides!
—O
senhor
entendeu
mal.
Eu
não
fui
falar
com
ele.
Foi
ele
quem
me
chamou.
Ele
ouviu
falar,
não
sei
como,
lá
na
cidade.
Um
boato,
eu
suponho.
Mas
ele
sabia
das
coisas.
Alguém
falou
com
ele.
Ele
me
apertou.
Então,
é
lógico,
eu
me
abri...
Contei-lhe
tudo.
Disse
que
eu
não
me
importava
com
o
dinheiro...
era
o
sentimento
de
ter
falhado
quando
ele
confiou
em
mim.
Roger
engoliu
convulsivamente.
—O
meu
velhinho
querido
—
disse
ele.
—
O
senhor
não
pode
imaginar
como
ele
era
bom
para
mim.
Nenhuma
censura.
Apenas
bondade.
Eu
disse
que
não
queria
ajuda,
que
eu
preferia
não
ter
ajuda...
que
eu
preferia
mesmo
ir
embora
como
havia
planejado.
Mas
ele
não
me
ouviu.
Insistiu
em
me
salvar...
em
levantar
outra
vez
a
Associação
de
Fornecedores.
Taverner
disse
bruscamente:
—O
senhor
está
querendo
fazer-nos
crer
que
o
seu
pai
pretendia
auxiliá-lo
financeiramente?
—E
claro
que
sim.
Ele
escreveu
para
os
seus
corretores
diversos,
dando-lhes
instruções.
Eu
calculei
que
ele
via
a
incredulidade
no
rosto
dos
dois
homens.
Ficou
vermelho.
—Olhem
aqui
—
disse
ele.
—
Eu
ainda
tenho
a
carta.
Era
para
botar
no
correio.
Mas
é
claro
que
depois...
com...
com
o
choque
e
a
confusão,
eu
esqueci.
É
provável
que
ela
esteja
ainda
no
meu
bolso.
Tirou
a
carteira
do
bolso
e
começou
a
remexê-la.
Finalmente
encontrou
o
que
queria.
Era
um
envelope
dobrado
já
selado.
Estava
endereçado,
como
eu
pude
ver
ao
me
espichar,
aos
Srs.
Greatorex
e
Hanbury.
—Leiam
os
senhores
mesmos
—
disse
ele,
—
se
não
acreditam
em
mim.
Meu
pai
rasgou
o
envelope.
Taverner
deu
a
volta
e
ficou
por
detrás.
Eu
não
li
a
carta
nesta
ocasião
mas
um
pouco
depois.
Instruía
os
Srs.
Greatorex
e
Hanbury
para
realizarem
certos
investimentos
e
pedia
a
um
membro
da
firma
que
viesse
no
dia
seguinte
receber
certas
instruções
a
respeito
da
Associação
de
Fornecedores.
Algumas
delas
eram
ininteligíveis
para
mim,
mas
a
sua
finalidade
era
bastante
clara.
Aristide
Leonides
estava-se
preparando
para
levantar
novamente
a
As-
sociação
de
Fornecedores.
Taverner
disse:
—Nós
lhe
daremos
um
recibo
por
esta
carta,
Sr.
Leonides.
Roger
aceitou
o
recibo.
Levantou-se
e
disse:
—É
tudo?
Os
senhores
vão
examinar
tudo,
não
vão?
Taverner
disse:
—O
Sr.
Leonides
deu-lhe
esta
carta
e
o
senhor
foi-se
embora?
O
que
fez
então?
—Eu
voltei
depressa
para
a
minha
parte
da
casa.
Minha
mulher
acabara
de
chegar.
Eu
lhe
contei
o
que
meu
pai
pretendia
fazer.
Como
ele
fora
maravilhoso!
Eu...
realmente,
eu
nem
sei
o
que
estava
fazendo.
—E
seu
pai
adoeceu...
quanto
tempo
depois
disto?
—Deixe-me
ver...
meia
hora,
talvez,
ou
uma
hora...
Brenda
veio
correndo.
Ela
estava
assustada.
Disse
que
ele
estava
esquisito.
Eu...
eu
corri
de
volta.
Mas
eu
já
lhes
contei
isso
tudo.
—Durante
a
sua
visita
anterior,
o
senhor
esteve
no
banheiro
ao
lado
do
quarto
de
seu
pai?
—Creio
que
não.
Não...
eu
tenho
certeza
de
que
não
estive.
Mas,
o
senhor
não
está
pensando
que
eu...
Meu
pai
reprimiu-lhe
a
indignação
repentina.
Levantou-se
e
abanou
as
mãos.
—Muito
obrigado,
Sr.
Leonides
—
disse
ele.
—
O
senhor
nos
prestou
um
grande
favor.
Mas
devia
ter-nos
falado
sobre
isto
antes.
A
porta
fechou-se
atrás
de
Roger.
Eu
me
levantei
e
vim
olhar
a
carta
que
estava
sobre
a
mesa
de
meu
pai.
—Pode
ser
falsa
—
disse
Taverner
esperançoso.
—Pode
ser
—
disse
meu
pai.
—
Mas
eu
não
creio
que
seja.
Acho
que
nós
devemos
aceitá-la
como
prova.
O
velho
Leonides
estava
pronto
a
tirar
seu
filho
da
enrascada.
Teria
sido
mais
fácil
fazê-lo
com
ele
vivo
do
que
por
Roger,
depois
de
sua
morte...
especialmente
agora
que
se
descobriu
que
nenhum
testamento
apareceu
e,
em
conseqüência,
a
parte
da
herança
de
Roger
está
sujeita
a
questões.
Isto
significa
demoras...
e
dificuldades.
Não,
Taverner,
Roger
Leonides
e
sua
esposa
não
tinham
motivo
para
querer
tirar
o
velho
do
caminho.
Pelo
contrário...
Ele
parou
e
repetiu
pensativamente
como
se
uma
idéia
súbita
houvesse
lhe
ocorrido.
—Pelo
contrário...
—O
que
o
senhor
está
pensando?
—
perguntou
Taverner.
O
Velho
falou
lentamente:
—Se
ao
menos
Aristide
Leonides
tivesse
vivido
mais
vinte
e
quatro
horas,
Roger
estaria
são
e
salvo.
Mas
ele
não
viveu
vinte
e
quatro
horas.
Morreu
de
repente
e
de
forma
dramática,
um
pouco
mais
de
uma
hora
apenas...
—Hum...
—
disse
Taverner.
—
O
senhor
acha
que
alguém
em
casa
gostaria
de
ver
Roger
falido?
Alguém
que
tivesse
um
interesse
financeiro
contrário
a
ele?
Não
me
parece
muito
provável.
—Em
que
pé
ficamos
em
relação
ao
testamento?
—perguntou
meu
pai.
—
Quem
é
que
vai
ficar
com
dinheiro
de
Leonides?
—O
senhor
sabe
como
são
esses
advogados.
Não
se
pode
obter
uma
resposta
direta
deles.
Há
um
testamento
anterior,
feito
quando
ele
se
casou
pela
segunda
vez.
Este
deixa
a
mesma
soma
para
ela,
um
pouco
menos
para
Edith
de
Haviland
e
o
restante
entre
Philip
e
Roger.
Eu
achava
que
se
este
novo
testamento
não
foi
assinado,
então
o
primeiro
seria
válido,
mas
parece
que
não
é
tão
fácil
assim.
A
feitura
de
um
novo
testamento
revoga
o
anterior
e
há
testemunhas
quanto
à
sua
assinatura
e
à
"intenção
do
testamentário".
Parece
que
vai
haver
uma
confusão
se
aconteceu
mesmo
que
ele
morreu
sem
testamento.
Então
a
viúva
aparentemente
fica
com
tudo...
ou
pelo
menos
com
uma
renda
pelo
resto
da
vida.
—Então
se
o
testamento
desapareceu
Brenda
Leonides
é
a
pessoa
que
mais
lucrou?
—
Sim.
Se
houve
fraude,
provavelmente
ela
está
por
baixo
de
tudo.
E
obviamente
houve
fraude
mas
eu
não
posso
imaginar
como
foi
cometida...
Eu
também
não
podia
ver.
Supus
que
nós
éramos
de
fato
incrivelmente
estúpidos.
Mas
estávamos
olhando,
é
claro,
pelo
ângulo
errado.
Capítulo
12
HOUVE
UM
SILÊNCIO
breve
depois
que
Taverner
saiu.
Então
eu
falei:
—
Papai,
como
são
os
assassinos?
O
Velho
olhou-me
pensativo.
Nós
nos
entendíamos
tão
bem,
que
ele
compreendeu
exatamente
o
que
eu
tinha
na
cabeça
quando
lhe
fiz
esta
pergunta.
E
respondeu-a
com
seriedade:
—Sim...
—
disse
ele.
—
Isto
é
muito
importante
agora...
muito
importante
para
você...
O
crime
chegou
perto
de
você.
Não
pode
mais
olhá-lo
pelo
lado
de
fora.
Eu
sempre
me
interessara,
de
maneira
amadorística,
em
alguns
dos
"casos"
mais
espetaculares
que
o
Departamento
de
Investigações
Criminais
lidara,
mas,
como
meu
pai
dissera,
sempre
me
interessara
pelo
lado
de
fora
—
olhando-os
como
se
estivessem
por
detrás
de
uma
vitrina.
Mas
agora,
como
Sophia
percebera
bem
antes
de
mim
mesmo,
o
crime
tornara-se
o
fator
dominante
em
minha
vida.
O
Velho
continuou:
—Eu
não
sei
se
sou
a
pessoa
certa
para
você
fazer
esta
pergunta.
Eu
poderia
pô-lo
em
contato
com
um
par
de
bons
psiquiatras
que
trabalham
para
nós.
Eles
têm
tudo
dissecado
e
certinho.
Ou
Taverner
pode
dar-lhe
as
informações
de
dentro.
Mas
eu
penso
que
você
quer
ouvir
o
que
eu,
pessoalmente,
em
resultado
de
minhas
experiências
com
assassinos,
acho
sobre
eles?
—É
isto
o
que
eu
quero
—
disse
eu
agradecido.
Meu
pai
traçou
um
amplo
círculo
com
o
dedo
sobre
a
mesa.
—Como
são
os
assassinos?
Alguns
deles
—
um
leve
sorriso
melancólico
apareceu
em
seu
rosto
—
foram
sujeitos
muito
simpáticos.
Eu
acho
que
demonstrei
uma
certa
surpresa.
—Oh,
sim,
foram
mesmo
—
disse
ele.
—
Camaradas
simples
e
simpáticos
assim
como
você
ou
eu...
ou
como
o
homem
que
acabou
de
sair
daqui...
Roger
Leonides.
O
assassinato
é
um
crime
de
amador.
Eu
estou
falando,
é
lógico,
do
tipo
de
crime
em
que
você
está
pensando...
não
em
quadrilhas
organizadas.
A
gente
muitas
vezes
sente
que
esses
sujeitos
simpáticos
foram
surpreendidos
pelo
crime
quase
acidentalmente.
Ou
eles
estavam
na
miséria,
ou
queriam
algo
com
todas
as
forças,
dinheiro
ou
uma
mulher,
e
mataram
para
conseguir
isto...
O
freio
que
age
conosco
não
age
com
eles.
Uma
criança,
você
sabe,
transfere
o
desejo
em
ação
sem
nenhum
remorso.
Uma
criança
zangada
com
seu
gatinho
diz:
"Eu
mato
você"
e
bate-
lhe
na
cabeça
com
um
martelo...
e
depois
morre
de
chorar
porque
o
gatinho
não
fica
vivo
outra
vez!
Uma
porção
de
crianças
tenta
tirar
o
bebê
do
berço
para
"afogá-lo",
por
que
ele
usurpa
atenção...
ou
interfere
em
seus
prazeres.
Elas
chegam,
muito
cedo
felizmente,
a
um
estágio
em
que
sabem
que
isso
é
"errado",
isto
é,
que
se
fizerem
isso
serão
castigadas.
Depois,
começam
a
perceber
que
isso
ê
errado.
Mas
algumas
pessoas,
eu
penso,
permanecem
moralmente
imaturas.
Continuam
a
considerar
que
o
crime
é
errado
mas
não
sentem
isso.
Eu
não
penso,
com
minha
experiência,
que
qualquer
assassino
tenha
realmente
sentido
remorsos...
E
isto
talvez
seja
a
marca
de
Caim...
Assassinos
são
classificados
à
parte,
eles
são
"diferentes"...
o
crime
é
errado
mas
não
para
eles,
nem
quando
é
"necessário"...
a
vítima
"pediu
isto",
era
a
"única
maneira".
—O
senhor
acha
—
eu
perguntei
—
que
se
alguém
odiasse
o
velho
Leonides,
mas
odiasse
mesmo,
digamos,
há
muito
tempo,
isto
seria
uma
razão?
—Ódio
puro?
Pouco
provável,
eu
diria
—
meu
pai
olhou-me
curiosamente.
—
Quando
você
diz
ódio,
eu
imagino
que
queira
dizer
uma
antipatia
extrema.
Um
ódio
ciumento
é
diferente...
ele
se
forma
pela
afeição
e
a
frustração.
Constance
Kent,
diziam
todos,
gostava
muito
do
irmãozinho
menor
que
matou.
Mas
ela
queria,
a
gente
supõe,
a
atenção
e
o
amor
que
ele
dividira.
Eu
acho
que
as
pessoas
matam
com
mais
facilidade
aqueles
a
quem
amam,
que
aqueles
a
quem
odeiam.
Possivelmente
porque
apenas
as
pessoas
que
amamos
são
realmente
capazes
de
nos
infernizar
a
vida.
—Mas
isto
não
o
ajuda
muito,
não
é?
—
continuou
ele.
—
O
que
você
quer,
se
eu
o
interpreto
corretamente,
é
um
sinal,
algum
sinal
universal
que
o
ajude
a
achar
o
seu
assassino
entre
uma
família
aparentemente
de
pessoas
normais
e
agradáveis?
—Sim,
é
isto
mesmo.
—Se
há
um
denominador
comum?
Eu
imagino...
Você
sabe
—
ele
fez
uma
pausa
para
pensar
—
se
há
mesmo,
eu
estou
inclinado
a
acreditar
que
seja
a
vaidade.
—Vaidade?
—Sim,
eu
nunca
conheci
um
assassino
que
não
fosse
vaidoso...
É
a
vaidade
que
os
conduz
à
ruína,
nove
entre
dez
vezes.
Mesmo
tendo
medo
de
serem
capturados
não
conseguem
evitar
de
se
vangloriarem
e
de
se
orgulharem
e
geralmente
acham-se
espertos
demais
para
serem
descobertos
—
e
acrescentou:
—
E
há
uma
coisa
ainda,
um
assassino
gosta
de
falar.
—De
falar?
—Sim,
você
sabe
que
tendo
cometido
um
crime
isso
o
deixa
numa
posição
de
muita
solidão.
Tem
vontade
de
contar
tudo
a
alguém...
mas
não
pode.
E
isso
o
faz
querer
ainda
mais.
E
assim,
se
você
não
puder
contar
a
ninguém
o
que
fez,
pode
ao
menos
falar
sobre
o
crime...
discuti-lo,
apresentar
teorias...
dissecá-lo.
—Se
eu
fosse
você,
Charles,
tentaria
olhar
por
este
lado.
Ir
novamente
para
lá,
misturar-se
com
eles,
fazê-los
falar.
É
claro
que
não
vai
ser
sopa.
Culpados
ou
inocentes,
eles
vão
ficar
contentes
de
poder
conversar
com
alguém
de
fora,
por
que
poderão
dizer
coisas
que
não
poderiam
dizer
entre
si.
Mas
é
possível,
creio
eu,
que
você
note
uma
diferença.
Uma
pessoa
que
tem
realmente
algo
a
esconder
não
pode
se
dar
ao
luxo
de
falar
nada.
Os
sujeitos
da
Seção
de
Inteligência
aprendiam
isso
durante
a
guerra.
Se
você
fosse
capturado,
só
dizia
o
nome,
o
posto,
a
unidade
e
nada
mais.
Pessoas
que
tentam
dar
informações
falsas
terminam
quase
sempre
escorregando.
Faça
aquele
povo
falar,
Charles,
e
fique
atento
a
um
escorregão
ou
a
algum
lampejo
de
culpa.
Eu
contei
a
ele
o
que
Sophia
dissera
a
respeito
da
crueldade
na
família
—
as
diferentes
formas
de
crueldade.
Ele
ficou
muito
interessado.
—Sim...
—
disse
ele.
—
Sua
jovem
descobriu
alguma
coisa
aí.
Quase
todas
as
famílias
têm
um
defeito,
um
ponto
fraco.
Muitas
pessoas
podem
ter
uma
fraqueza,
mas
a
maioria
não
resiste
a
duas
fraquezas
diferentes.
É
uma
coisa
engraçada,
a
hereditariedade.
Veja,
por
exemplo,
a
crueldade
dos
De
Haviland,
e
o
que
poderíamos
chamar
de
falta
de
escrúpulos
dos
Leonides...
os
De
Haviland
são
muito
boa
gente
por
que
não
são
inescrupulosos,
e
os
Leonides
também,
se
bem
que
sem
escrúpulos,
mas
são
gentis.
Mas
vejamos
um
descendente
de
ambos
que
herdasse
ambos
os
defeitos...
percebeu
aonde
eu
quero
chegar?
Eu
não
tinha
pensado
nisto
nestes
termos.
Meu
pai
falou:
—Mas
eu
não
preocuparia
minha
cabeça
com
hereditariedade
se
fosse
você.
É
um
assunto
muito
complicado
e
cheio
de
problemas.
Não,
menino,
vá
para
lá
e
faça-os
conversar
com
você.
Sua
Sophia
está
certa
sobre
uma
certa
coisa.
Nada,
a
não
ser
a
verdade,
servirá
para
ela
ou
para
você.
Você
precisa
saber
de
tudo.
Ele
acrescentou
quando
eu
estava
saindo:
—E
tome
cuidado
com
a
criança.
—Josephine?
Não
deixar
que
ela
saiba
o
que
eu
estou
fazendo?
—Não,
eu
não
quis
dizer
isto.
Eu
quis
dizer...
tomar
conta
dela.
Nós
não
queremos
que
lhe
aconteça
nada.
Eu
olhei
para
ele.
—Vamos,
vamos,
Charles.
Há
um
assassino
de
sangue
frio
naquela
casa.
A
menina
Josephine
parece
saber
de
muita
coisa
ali
dentro.
—Ela
sabia
mesmo
de
tudo
sobre
Roger...
até
mesmo
ter
chegado
à
conclusão
de
que
ele
era
um
vigarista.
O
que
contou
sobre
a
conversa
que
ouviu
parece
ter
sido
bastante
acurado.
—Sim,
sim.
As
evidências
de
crianças
são
sempre
as
melhores
que
existem.
Eu
sempre
confio
nelas.
Não
servem
para
nada
no
tribunal,
é
claro.
Crianças
não
servem
para
responder
a
perguntas
diretas.
Elas
gaguejam
ou
ficam
com
cara
de
bestas
e
dizem
que
não
sabem
de
nada.
Estão
no
auge
quando
querem
mostrar-se
para
alguém.
Era
isso
o
que
ela
estava
fazendo.
Se
mostrando...
Você
conseguirá
saber
mais
coisas
desse
jeito.
Não
fique
fazendo
perguntas.
Finja
que
você
acha
que
ela
não
sabe
de
nada.
Isso
vai
encantá-la.
Acrescentou:
—Mas
tome
conta
dela.
Talvez
saiba
mais
do
que
deva
para
a
segurança
de
alguém.
Capítulo
13
EU
FUI
PARA
a
Casa
Torta
(como
a
chamava
em
meus
pensamentos)
com
um
leve
sentimento
de
culpa.
Apesar
de
eu
ter
contado
a
Taverner
as
confidências
de
Josephine
sobre
Roger,
eu
não
dissera
nada
sobre
a
declaração
que
ela
me
fizera
de
que
Brenda
e
Laurence
Brown
escreviam
cartas
de
amor
um
para
o
outro.
Eu
me
desculpei
comigo
mesmo,
pretendendo
que
ela
estava
apenas
romanceando
e
que
não
havia
nenhuma
razão
para
acreditar
que
fosse
verdade.
Mas
na
realidade
eu
sentia
uma
estranha
relutância
em
acrescentar
mais
evidências
contra
Brenda
Leonides.
Eu
ficara
impressionado
pelo
lado
patético
de
sua
posição
na
casa
—
rodeada
por
uma
família
hostil
solidamente
unida
contra
ela.
Se
tais
cartas
existissem
mesmo,
sem
dúvida
Taverner
e
seus
sabujos
iriam
encontrá-las.
Eu
não
gostaria
de
ser
o
portador
de
novas
suspeitas
sobre
uma
mulher
já
em
posição
tão
difícil.
Além
disto,
ela
me
assegu-
rara
solenemente
que
não
havia
nada
dessa
natureza
entre
ela
e
Laurence
Brown
e
eu
me
sentia
mais
inclinado
a
acreditar
nela
que
naquele
gnomo
pequeno
e
malicioso
que
era
Josephine.
A
própria
Brenda
não
dissera
que
Josephine
"não
era
muito
certa
da
cabeça"?
Eu
sufocara
uma
certeza
constrangida
ao
imaginar
que
Josephine
não
era
muito
certa.
Eu
me
lembrava
da
inteligência
que
havia
naqueles
olhinhos
pretos
e
redondos.
Telefonei
para
Sophia
pedindo-lhe
para
voltar
novamente
à
sua
casa.
—Venha
por
favor,
Charles.
—Como
vão
as
coisas?
—Eu
não
sei.
Acho
que
está
tudo
bem.
Eles
continuam
dando
buscas
na
casa.
O
que
é
que
estão
procurando?
—Não
tenho
idéia.
—Estamos
ficando
todos
muito
nervosos.
Venha
logo
que
puder.
Eu
vou
ficar
louca
se
não
tiver
com
quem
falar.
Eu
disse
que
iria
imediatamente.
Não
havia
ninguém
à
vista
quando
cheguei
à
porta
da
frente.
Paguei
o
táxi
e
ele
foi
embora.
Eu
não
sabia
ao
certo
se
devia
tocar
a
campainha
ou
ir
entrando.
A
porta
da
frente
estava
aberta.
Enquanto
estava
de
pé,
hesitante,
ouvi
um
leve
ruído
atrás
de
mim.
Voltei
a
cabeça
vivamente.
Josephine,
com
o
rosto
parcialmente
escondido
atrás
de
uma
maçã
enorme,
estava
de
pé
aparecendo
por
uma
sebe
de
teixos
e
olhando
para
mim.
Quando
eu
virei
a
cabeça,
ela
também
virou
a
dela.
—Alô,
Josephine.
Ela
não
respondeu
e
se
escondeu
atrás
da
cerca.
Atravessei
o
caminho
e
fui
atrás
dela.
Sentara-se
num
banco
rústico
e
inconfortável
perto
do
laguinho
de
peixes
vermelhos,
balançando
as
pernas
para
cima
e
para
baixo
e
dando
mordidas
na
maçã.
Por
cima
da
circunferência
vermelha
seus
olhos
me
olhavam
sombrios
e
com
um
ar
de
hostilidade.
—Eu
voltei
novamente,
Josephine.
Era
um
começo
bem
pobre
mas
eu
estava
achando
aquele
silêncio
de
Josephine
e
o
seu
olhar
fixo
bastante
enervantes.
Com
um
excelente
sentido
estratégico
ela
ainda
não
respondeu.
—A
maçã
está
gostosa?
—
perguntei.
Desta
vez
Josephine
condescendeu
em
responder.
Mas
a
sua
resposta
consistiu
numa
só
palavra.
—Farinhenta.
—Que
pena
—
disse
eu.
—
Eu
não
gosto
de
maçãs
farinhentas.
Josephine
acrescentou
zombeteira:
—Ninguém
gosta.
—Por
que
você
não
falou
comigo
quando
eu
disse
"Alô"?
—Eu
não
queria
falar.
—Por
que
não?
Josephine
tirou
a
maçã
da
boca
para
fazer
a
sua
acusação
com
clareza.
—Você
foi
lá
e
avisou
a
polícia
—
disse
ela.
—Oh!
—
fiquei
perplexo.
—
Você
quer
dizer...
sobre...
—Sobre
tio
Roger.
—
—
—Mas
foi
tudo
bem,
Josephine
eu
lhe
garanti.
Está
tudo
bem.
Eles
sabem
que
ele
não
fez
nada
errado,
isto
é,
ele
não
desviou
dinheiro
ou
nada
no
gênero.
Josephine
lançou-me
um
olhar
desesperado.
—Como
você
é
burro!
—Eu
sinto
muito.
—Eu
não
estava
preocupada
com
tio
Roger.
E
sim
por
que
você
não
fez
direito
o
seu
trabalho
de
detetive.
Não
sabe
que
não
se
deve
nunca
falar
com
a
polícia
até
chegar
ao
fim?
—Oh,
eu
compreendo
—
eu
disse.
—
E
sinto
muito,
Josephine.
Sinto
muitíssimo.
—Devia
sentir
mesmo
—
acrescentou
com
reprovação:
—Eu
confiei
em
você.
Eu
disse
que
sentia
muito
pela
terceira
vez.
Josephine
pareceu
um
tanto
mais
apaziguada.
Deu
mais
duas
dentadas
na
maçã.
—Mas
a
polícia
iria
mesmo
saber
de
tudo
sobre
isso
—
disse
eu.
—
Você...
eu...
nós
não
poderíamos
guardar
este
segredo.
—Você
quer
dizer
porque
ele
vai
à
falência?
Como
sempre
Josephine
estava
bem
informada.
—Eu
acho
que
vai
terminar
assim.
—Vão
falar
sobre
isso
hoje
à
noite
—
disse
Josephine.
—
Papai
e
mamãe
e
tio
Roger
e
tia
Edith.
Tia
Edith
daria
o
dinheiro
dela
mas
ela
não
recebeu
ainda,
acho
porém
que
papai
não
daria
não.
Ele
diz
que
se
Roger
se
meteu
numa
encrenca
a
culpa
é
somente
dele
e
que
não
adianta
pôr
dinheiro
bom
atrás
de
dinheiro
perdido,
e
mamãe
nem
quer
ouvir
falar
em
dar
dinheiro
porque
ela
quer
que
ele
use
o
dinheiro
para
financiar
Edith
Thompson.
Você
conhece
Edith
Thompson?
Ela
era
casada
mas
não
gostava
do
marido.
Estava
apaixonada
por
um
moço
chamado
Bywaters
que
saiu
de
um
navio
e
foi
para
uma
rua
diferente
depois
do
teatro
e
ela
o
apunhalou
pelas
costas.
Eu
maravilhei-me
outra
vez
pela
competência
dos
conhecimentos
de
Josephine,
e
também
pelo
senso
dramático,
apenas
ligeiramente
obscurecido
por
uns
pronomes
confusos,
com
que
ela
apresentara
todos
os
fatos
principais
em
tão
poucas
palavras.
—Parece
muito
bom
—
continuou
Josephine
—
mas
eu
não
acho
que
a
peça
vá
ser
assim.
Vai
ser
como
Jezebel
novamente.
Ela
suspirou.
—Eu
gostaria
de
saber
por
que
os
cachorros
não
comeram
as
palmas
das
mãos
dela.
—Josephine
—
disse
eu,
—
você
me
contou
que
estava
quase
certa
de
quem
era
o
assassino?
—Então?
—Quem
é?
Ela
me
deu
uma
olhada
desdenhosa.
—Eu
entendo
—
disse
eu.
—
Somente
no
último
capítulo?
Mesmo
se
eu
prometer
não
contar
nada
ao
Inspetor
Taverner?
—Eu
ainda
preciso
de
mais
algumas
pistas
—
disse
Josephine.
—E
além
disso
—
acrescentou
ela,
jogando
o
miolo
da
maçã
no
laguinho
dos
peixes
vermelhos
—
eu
não
contaria
para
você.
Se
você
for
alguém,
você
é
o
Watson.
Eu
engoli
este
insulto.
—Muito
bem
—
disse
eu.
—
Eu
sou
Watson.
Mas
mesmo
a
Watson
eram
fornecidos
os
dados.
—O
quê?
—Os
fatos.
E
então
ele
fazia
deduções
erradas
sobre
os
fatos.
Não
seria
uma
farra
para
você
me
ver
fazer
as
deduções
erradas?
Por
um
momento
ela
quase
caiu
em
tentação.
Mas
depois
balançou
a
cabeça.
—Não
—
disse
ela
e
acrescentou:
—
De
qualquer
jeito,
eu
não
gosto
muito
de
Sherlock
Holmes.
Ele
está
horrivelmente
fora
de
moda.
Ainda
anda
em
carruagens.
—E
sobre
as
cartas?
—
perguntei.
—Que
cartas?
—As
cartas
que
você
disse
que
Laurence
Brown
e
Brenda
escreviam
um
para
o
outro.
—Eu
inventei
—
disse
Josephine.
—Eu
não
acredito
em
você.
—Eu
inventei,
sim.
Eu
sempre
invento
coisas.
Me
diverte.
Eu
olhei
para
ela.
Ela
me
olhou
de
volta.
—Olhe
aqui,
Josephine.
Eu
conheço
um
homem,
no
Museu
Britânico,
que
sabe
um
bocado
de
coisas
sobre
a
Bíblia.
Se
eu
descobrir
por
que
os
cachorros
não
comeram
as
palmas
das
mãos
de
Jezebel
você
me
fala
sobre
as
cartas?
Desta
vez
Josephine
realmente
hesitou.
Em
algum
lugar
um
raminho
estalou
fazendo
um
barulho
seco.
Josephine
falou
numa
voz
sem
expressão:
—Não,
eu
não
falo.
Eu
aceitei
a
derrota.
Um
pouco
tarde,
lembrei-me
do
aviso
de
meu
pai.
—Muito
bem,
é
mesmo
uma
brincadeira.
É
claro
que
na
realidade
você
não
sabe
mesmo
de
nada.
Os
olhos
de
Josephine
se
acenderam,
mas
ela
não
engoliu
a
isca.
Eu
me
levantei.
— Agora
eu
vou
—
disse
eu
—
procurar
Sophia.
Venha.
— Eu
vou
ficar
aqui
—
disse
Josephine.
— Não
vai,
não
—
disse
eu.
—
Você
vem
comigo.
Sem
cerimônias
eu
a
ergui
de
pé.
Ela
pareceu
surpresa
e
pronta
a
reclamar
mas
rendeu-se
de
muito
boa
vontade,
parcialmente,
sem
dúvida,
porque
gostaria
de
observar
a
reação
da
família
à
minha
presença.
Porque
eu
estava
tão
ansioso
para
que
ela
me
acompanhasse
eu
não
teria
sido
capaz
de
dizer
naquele
momento.
Só
me
veio
à
cabeça
quando
nós
passamos
pela
porta
da
frente.
Foi
porque
o
raminho
estalara.
Capítulo
14
UM
MURMÚRIO
vinha
da
grande
sala
de
visitas.
Eu
hesitei
mas
não
entrei.
Fiquei
andando
pelo
corredor
e
então,
guiado
por
um
impulso,
empurrei
uma
porta.
O
corredor
do
outro
lado
era
escuro
mas
de
repente
outra
porta
abriu-se
mostrando
uma
cozinha
grande
e
muito
clara.
No
umbral
da
porta
apareceu
uma
mulher
idosa,
cheia
de
corpo.
Usava
um
avental
branco
muito
limpo
amarrado
em
volta
de
sua
cintura
ampla
e,
desde
o
instante
em
que
a
vi,
senti
que
tudo
es-
tava
bem.
É
este
sentimento
que
uma
boa
babá
sempre
nos
traz.
Eu
tinha
trinta
e
cinco
anos
mas
me
senti
como
um
garotinho
de
quatro.
Que
eu
soubesse,
Nannie
nunca
me
tinha
visto,
mas
disse
logo:
—É
o
Sr.
Charles,
não
é?
Venha
para
a
cozinha
que
eu
lhe
darei
uma
xícara
de
chá.
Era
uma
cozinha
alegre
e
feliz.
Eu
me
sentei
na
mesa
do
centro
e
Nannie
trouxe-me
uma
xícara
de
chá
e
dois
bolinhos
num
prato.
Eu
me
senti
novamente
como
se
tivesse
voltado
aos
tempos
de
criança.
Tudo
ia
bem
—
e
os
terrores
da
sala
escura
e
do
desconhecido
não
estavam
mais
comigo.
—D.
Sophia
vai
ficar
contente
porque
o
senhor
veio
—
disse
Nannie.
—
Ela
estava
ficando
nervosa.
Acrescentou
em
tom
de
censura:
—Todos
estão
muito
nervosos.
Eu
olhei
por
cima
do
ombro.
—Onde
está
Josephine?
Ela
entrou
em
casa
comigo.
Nannie
deu
um
estalo
de
censura
com
a
língua.
—Escutando
atrás
das
portas
ou
escrevendo
coisas
naquele
livrinho
bobo
que
ela
carrega
pra
todo
lado
—
disse
ela.
—
Ela
devia
ter
ido
para
a
escola
e
ter
crianças
da
idade
dela
para
brincar.
Eu
disse
a
D.
Edith
e
ela
está
de
acordo
mas
o
patrão
dizia
que
ela
estaria
melhor
em
casa.
—Eu
acho
que
ele
gosta
muito
dela.
—Ele
gostava,
sim,
senhor.
Ele
gostava
muito
deles
todos.
Olhei-a
um
tanto
surpreso,
imaginando
por
que
a
afeição
de
Philip
por
seus
filhos
fosse
assim
tão
definitivamente
colocada
no
passado.
Nannie
viu
minha
expressão
e,
corando
ligeiramente,
disse:
—Quando
eu
disse
o
patrão
foi
ao
velho
Sr.
Leonides
que
eu
me
referi.
Antes
que
eu
pudesse
dar-lhe
uma
resposta
a
isso,
a
porta
abriu-se
num
arranco
e
Sophia
entrou:
—Oh,
Charles!
—
disse
ela
e
acrescentou
muito
depressa:
—
Oh,
Nannie,
eu
estou
tão
contente
que
ele
tenha
chegado.
—Eu
sei
que
você
está,
querida.
Nannie
apanhou
uma
porção
de
panelas
e
caldeirões
e
foi
para
a
copa,
fechando
a
porta
ao
passar.
Eu
me
levantei
e
fui
até
onde
Sophia
estava.
Pus
meus
braços
em
volta
dela
e
apertei-a
contra
mim.
—Minha
querida
—
disse
eu,
—
você
está
tremendo.
O
que
foi?
—Eu
estou
com
medo,
Charles,
eu
estou
com
medo.
—Eu
a
amo
—
disse
eu.
—
Se
eu
pudesse
levá-la
daqui...
Ela
afastou-se
de
mim
e
balançou
a
cabeça.
—Não,
isto
é
impossível.
Nós
temos
de
ir
até
o
fim.
Mas
você
sabe,
Charles,
eu
não
estou
gostando.
Eu
não
gosto
desta
impressão
de
que
alguém...
alguém
aqui
desta
casa...
alguém
que
eu
estou
vendo
e
com
quem
falo
todos
os
dias
é
um
envenenador
frio
e
calculista...
Eu
não
soube
o
que
responder
a
isto.
Para
alguém
como
Sophia
a
gente
não
consegue
dar
uma
falsa
resposta
para
acalmá-la.
Ela
falou:
—Se
ao
menos
alguém
soubesse...
—Isto
seria
o
pior
—
disse
eu.
—Você
sabe
o
que
me
assusta
realmente?
—
murmurou
ela.
—
É
que
talvez
nós
não
saibamos
nunca...
Eu
pude
imaginar
com
facilidade
o
pesadelo
que
isto
seria...
E
me
parecia
altamente
provável
que
talvez
nunca
soubéssemos
a
verdade
de
quem
matara
o
velho
Leonides.
Mas
isto
também
me
fez
lembrar
de
uma
pergunta
que
eu
queria
fazer
a
Sophia,
num
ponto
que
me
interessava.
—Diga-me,
Sophia
—
disse
eu
—
quantas
pessoas
nesta
casa
sabiam
sobre
as
gotas
de
eserina,
eu
quero
dizer,
primeiro:
quem
sabia
que
seu
avô
as
tinha
em
seu
poder
e,
segundo:
quem
sabia
que
elas
eram
venenosas
e
qual
seria
a
dose
fatal?
—Eu
sei
aonde
você
está
querendo
chegar,
Charles.
Mas
não
vai
adiantar.
Calcule
que
todos
nós
sabíamos.
—Bem,
sim,
vagamente
eu
suponho,
mas
especificamente...
—Todos
nós
sabíamos
especificamente.
Estávamos
todos
reunidos
com
vovô
um
dia
depois
do
almoço
tomando
café.
Ele
gostava
de
ter
a
família
a
sua
volta,
você
sabe.
E
seus
olhos
vinham-
lhe
dando
uma
série
de
problemas.
E
Brenda
trouxe
o
colírio
para
pingar
uma
gota
em
cada
olho
e
Josephine,
que
vive
sempre
fazendo
perguntas
sobre
tudo,
disse:
O
que
é
que
quer
dizer:
Colírio
—
para
uso
externo
—
aí
no
vidrinho?"
E
vovô
sorriu
e
disse:
"Se
Brenda
se
enganasse
e
me
desse
uma
injeção
de
colírio
um
dia
em
vez
da
insulina...
eu
acho
que
ia
dar
um
suspiro
fundo,
ficar
com
o
rosto
azul
e
morrer,
sabe,
porque
o
meu
coração
não
é
muito
forte."
E
Josephine
disse:
"Oh!"
e
vovô
continuou:
"É
por
isto
que
nós
precisamos
ter
muito
cuidado
com
Brenda
para
que
ela
não
me
dê
uma
injeção
de
eserina
em
vez
de
insulina,
não
acha?"
—
Sophia
fez
uma
pausa
e
continuou:
—
Nós
estávamos
todos
ali
escutando.
Viu
agora?
Todos
nós
ouvimos!
Eu
compreendi.
Tivera
uma
vaga
idéia
que
apenas
um
primário
conhecimento
especializado
fosse
necessário.
Mas
agora
estava
provado
que
fora
o
velho
Leonides
quem
havia
feito
o
próprio
plano
de
seu
assassinato.
O
assassino
não
tivera
de
pensar
em
um
esquema,
nem
de
planejar
ou
imaginar
coisa
alguma.
Um
método
simples
para
causar
a
morte
fora
indicado
pela
própria
vítima.
Eu
respirei
fundo.
Sophia,
adivinhando
meus
pensamentos,
disse:
—Sim,
foi
horrível,
não
foi?
—Sabe,
Sophia?
—
falei
lentamente.
—
Só
há
uma
coisa
que
me
intriga.
—O
quê?
—Que
você
tem
razão
e
que
não
pode
ter
sido
Brenda.
Ela
não
podia
fazer
isto
assim
da
mesma
maneira...
quando
todos
vocês
tinham
ouvido...
quando
vocês
todos
se
lembravam.
—Eu
não
posso
dizer
nada
sobre
isso.
Para
certas
coisas
ela
é
muito
boba,
você
sabe.
—Mas
tão
boba
assim
não
—
disse
eu.
—
Não,
não
pode
ter
sido
Brenda.
Sophia
afastou-se
de
mim.
—Você
não
quer
que
tenha
sido
Brenda,
não
é?
—
perguntou
ela.
O
que
é
que
eu
podia
dizer?
Eu
não
podia
—
não,
eu
não
podia
mesmo
—
dizer
calmamente?:
"Sim,
eu
espero
que
tenha
sido
Brenda".
Por
que
é
que
eu
não
podia?
Apenas
a
impressão
de
que
Brenda
estava
sozinha
de
um
lado
do
campo,
e
que
a
animosidade
concentrada
da
poderosa
família
Leonides
estava
formada
do
outro
lado
do
campo
contra
ela?
Cavalheirismo?
Uma
certa
queda
pelos
mais
fracos?
Pelos
indefesos?
Eu
me
lembrava
dela
sentada
no
sofá,
em
seu
luto
luxuoso,
e
a
falta
de
esperança
em
sua
voz
—
e
do
medo
em
seus
olhos.
Nannie
voltou
oportunamente
da
copa.
Eu
não
sei
como,
mas
ela
percebeu
que
havia
algo
entre
nós
dois.
Disse
com
censura:
—Falando
sobre
crimes
e
coisas
assim.
Esqueçam
isso,
é
o
que
eu
digo.
Deixem
para
a
polícia.
O
problema
é
deles,
e
não
de
vocês.
—Oh,
Nannie,
você
não
está
vendo
que
alguém
nesta
casa
é
um
assassino?
—Tolice,
D.
Sophia,
eu
não
tenho
mais
paciência
com
a
senhora.
A
porta
da
frente
não
vive
aberta
o
tempo
todo?
Todas
as
portas
vivem
abertas,
nada
é
trancado...
pedindo
ladrões
e
assaltantes.
—Mas
não
pode
ter
sido
um
ladrão,
não
roubaram
nada.
E
além
disto,
por
que
é
que
um
ladrão
entraria
para
envenenar
alguém?
—Eu
não
disse
que
foi
um
ladrão,
D.
Sophia.
Eu
disse
apenas
que
todas
as
portas
vivem
abertas.
Qualquer
um
podia
entrar.
Se
me
perguntarem
quem
foi
eu
garanto
que
foram
os
comunistas.
Nannie
abanou
a
cabeça
de
maneira
satisfeita.
—E
por
que
os
comunistas
iriam
assassinar
o
meu
pobre
avô?
—Bem,
todos
dizem
que
eles
estão
sempre
por
dentro
de
tudo
o
que
acontece.
Mas
se
não
foram
os
comunistas,
preste
atenção
ao
que
eu
digo,
então
foram
os
católicos.
A
Mulher
Escarlate
da
Babilônia,
isso
é
que
é.
Com
um
ar
de
quem
tinha
dito
a
última
palavra,
Nannie
desapareceu
novamente
na
copa.
Sophia
e
eu
rimos.
—Uma
protestante
convicta...
—
disse
eu.
—É
sim,
não
acha?
Venha,
Charles,
venha
para
a
sala
de
visitas.
Há
uma
espécie
de
conclave
familiar
lá.
Estava
marcado
para
hoje
à
noite
mas
começou
mais
cedo.
—É
melhor
eu
não
me
meter,
Sophia.
—Se
por
acaso
você
for
mesmo
casar-se
na
família,
é
melhor
que
nos
veja
com
as
unhas
de
fora.
—E
é
sobre
o
quê?
—Os
negócios
de
Roger.
Pelo
jeito
você
também
já
se
meteu
neles.
Mas
está
louco
se
imagina
que
Roger
mataria
meu
avô.
Roger
o
adorava.
—Eu
nunca
pensei
que
tivesse
sido
Roger.
Pensei
que
fosse
talvez
Clemency.
—Só
porque
eu
lhe
pus
isso
na
cabeça.
Mas
você
também
está
errado
aí.
Eu
acho
que
Clemency
não
se
importa
de
jeito
nenhum
se
Roger
perder
todo
o
dinheiro.
Eu
acho
até
que
ela
ia
ficar
satisfeita.
Ela
tem
uma
paixão
esquisita
em
não
possuir
coisas.
Venha.
Quando
Sophia
e
eu
entramos
na
sala
de
visitas,
as
vozes
que
estavam
falando
calaram-se
bruscamente.
Todos
nos
olharam.
Estavam
todos
ali.
Philip
sentado
numa
enorme
poltrona
vermelha
de
brocado,
entre
as
janelas,
seu
rosto
bonito
transformado
numa
máscara
severa.
Parecia
um
juiz
pronto
a
dar
a
sentença.
Roger
estava
a
cavalo
sobre
um
tamborete
estofado
perto
da
lareira.
Tinha
passado
tanto
os
dedos
pelos
cabelos
que
estava
todo
descabelado.
A
perna
esquerda
de
sua
calça
estava
arregaçada
e
a
gravata
de
lado.
Ele
estava
vermelho
com
a
discussão.
Clemency
estava
sentada
atrás
dele
e
seu
corpo
esguio
parecia
pequeno
demais
para
a
enorme
cadeira
estofada.
Ela
não
olhava
para
ninguém
e
parecia
estudar
os
lambris
das
paredes
com
um
olhar
desinteressado.
Edith
estava
sentada
num
tipo
de
cadeira
do
papai,
muito
espigada.
Tricotava
com
energia
incrível,
os
lábios
apertados.
A
coisa
mais
linda
da
sala
eram
Magda
e
Eustace.
Eles
pareciam
um
retrato
de
Gainsborough.
Estavam
sentados
juntos
no
sofá
—
o
rapaz
moreno
e
bonito
com
uma
expressão
sombria
no
rosto,
e
a
seu
lado,
um
braço
sobre
o
encosto,
Magda,
a
Duquesa
dos
Três
Oitões,
num
vestido
de
tafetá
e
um
pezinho
pequeno
aparecendo
num
sapato
de
brocado.
Philip
franziu
as
sobrancelhas.
—Sophia
—
disse
ele.
—
Eu
sinto
muito,
mas
nós
estamos
discutindo
problemas
familiares
de
natureza
privada.
As
agulhas
de
Edith
de
Haviland
estalaram.
Eu
me
preparei
para
pedir
desculpas
e
sair.
Sophia
antecipou-se
a
mim.
A
voz
dela
era
clara
e
determinada.
—Charles
e
eu
—
disse
ela
—
pretendemos
casar-nos.
Eu
quero
que
ele
esteja
presente.
—E
por
que
não
haveria
de
ficar?
—
gritou
Roger,
dando
um
pulo
do
tamborete
com
uma
energia
explosiva.
—
Eu
não
me
canso
de
dizer
a
Philip,
não
há
nada
de
particular
nisto!
O
mundo
inteiro
vai
ficar
sabendo
amanhã
ou
depois.
E
de
qualquer
jeito,
meu
caro
—
ele
veio
até
onde
eu
estava
e
pôs
uma
mão
amigável
em
meu
ombro,
—
você
já
sabe
de
tudo.
Estava
lá
hoje
de
manhã.
—Conte-me
por
favor
—
falou
Magda,
inclinando-se
para
a
frente.
—
Como
são
as
coisas
lá
na
Scotland
Yard?
A
gente
fica
imaginando.
Uma
mesa?
Uma
escrivaninha?
Cadeiras?
Que
tipo
de
cortinas?
Não
deve
haver
flores,
eu
calculo.
Um
ditafone?
—Ora,
cale
a
boca,
mamãe
—
disse
Sophia.
—
E
de
qualquer
jeito
a
senhora
já
falou
com
Vavasour
Jones
para
cortar
aquela
cena
na
Scotland
Yard.
A
senhora
mesma
disse
que
era
um
anticlímax.
—É
que
faz
a
peça
parecer
muito
com
uma
história
policial
—
disse
Magda.
—
Edith
Thompson
é
definidamente
um
drama
psicológico...
ou
um
mistério
psicológico...
o
que
é
que
você
acha
que
soa
melhor?
—Você
estava
lá
hoje
de
manhã?
—
Philip
perguntou-me
secamente.
—
Por
quê?
Oh,
é
claro...
seu
pai...
Ele
franziu
as
sobrancelhas.
Percebi
ainda
mais
claramente
que
a
minha
presença
ali
não
era
desejada
mas
a
mão
de
Sophia
apertou-
me
o
braço.
Clemency
empurrou
uma
cadeira
para
a
frente.
—
Sente-se
—
disse
ela.
Eu
dei-lhe
um
olhar
agradecido
e
aceitei.
—Vocês
podem
dizer
o
que
bem
quiserem
—
disse
Edith
de
Haviland,
aparentemente
recomeçando
de
onde
a
haviam
interrompido
—
mas
eu
creio
que
nós
devemos
respeitar
os
desejos
de
Aristide.
Quando
este
negócio
do
testamento
se
arranjar,
na
parte
que
me
diz
respeito,
o
meu
legado
está
inteiramente
à
sua
disposição,
Roger.
Roger
puxou
os
cabelos
com
desespero.
—Não,
tia
Edith,
não!
—
gritou
ele.
—Eu
gostaria
de
poder
dizer
o
mesmo
—
disse
Philip
—
mas
cada
um
tem
de
levar
cada
fator
em
consideração...
—Mas,
meu
caro
Phil,
você
não
entende?
Eu
não
vou
aceitar
um
tostão
de
ninguém.
—É
claro
que
não!
—
retrucou
Clemency.
—E
de
qualquer
jeito,
Edith
—
disse
Magda,
—
se
este
testamento
aparecer,
ele
terá
o
seu
próprio
dinheiro.
—Mas
será
que
vai
aparecer
em
tempo?
—
perguntou
Eustace.
—Você
não
entende
nada
disso,
Eustace
—
disse
Philip.
—O
menino
tem
toda
a
razão
—
gritou
Roger.
—
Ele
acertou
em
cheio.
Nada
pode
impedir
a
queda.
Nada!
Ele
falou
com
uma
espécie
de
contentamento.
—
—Na
verdade
não
há
nada
mesmo
a
discutir
disse
Clemency.
—E
de
qualquer
forma
—
disse
Roger,
—
o
que
importa?
—Eu
pensava
que
isso
importava
em
muitas
coisas
—
disse
Philip,
os
lábios
apertados.
—Não
—
disse
Roger.
—
Não!
Alguma
coisa
mais
importa
agora
que
papai
está
morto?
Papai
está
morto!
E
nós
ficamos
aqui
discutindo
problemas
de
dinheiro!
Um
ligeiro
rubor
apareceu
no
rosto
pálido
de
Philip.
—Nós
estávamos
apenas
tentando
ajudar
—
falou
com
secura.
—Eu
sei,
Phil,
meu
velho,
eu
sei.
Mas
ninguém
pode
fazer
nada.
Então
vamos
deixar
pra
lá.
—Eu
creio
—
disse
Philip
—
que
talvez
eu
possa
levantar
uma
certa
quantia
de
dinheiro.
As
minhas
ações
baixaram
um
bocado
e
uma
parte
do
meu
capital
está
empatado
de
tal
forma
que
eu
não
posso
contar
com
ele:
a
peça
de
Magda
e
mais
outras
coisas...
mas...
Magda
disse
rapidamente:
—E
claro
que
você
não
pode
levantar
esse
dinheiro,
querido.
Seria
um
absurdo
tentar...
e
não
seria
justo
para
com
as
crianças.
—Eu
estou
dizendo
que
não
estou
pedindo
nada
a
ninguém!
—
berrou
Roger.
—
Estou
rouco
de
tanto
dizer
isto.
Estou
satisfeito
com
o
rumo
que
as
coisas
estão
tomando.
—É
uma
questão
de
prestígio
—
disse
Philip.
—
De
papai.
Nosso.
—Não
é
um
negócio
de
família.
Estava
inteiramente
em
minhas
mãos.
—Sim
—
disse
Philip,
olhando
para
ele.
—
Estava
inteiramente
em
suas
mãos.
Edith
de
Haviland
levantou-se
e
disse:
—Eu
acho
que
nós
já
discutimos
isso
bastante.
Havia
na
voz
dela
aquela
nota
autêntica
de
autoridade
que
nunca
deixa
de
produzir
efeito.
Philip
e
Magda
levantaram-se.
Eustace
saiu
da
sala
e
eu
notei
a
rigidez
de
seu
andar.
Ele
não
era
exatamente
um
aleijado,
mas
seu
andar
era
defeituoso.
Roger
enfiou
seu
braço
no
de
Philip
e
disse:
—Você
foi
um
camaradão,
Phil,
mesmo
só
de
pensar
em
tal
coisa!
Os
dois
irmãos
saíram
juntos.
Magda
murmurou:
—Que
confusão!
—
enquanto
os
seguia
e
Sophia
disse
que
ia
arrumar
a
sala.
Edith
de
Haviland
ficou
de
pé
enrolando
o
seu
tricô.
Ela
olhou
para
mim
e
eu
pensei
que
me
fosse
falar
alguma
coisa.
Havia
quase
um
apelo
em
seu
olhar.
Entretanto
ela
mudou
de
idéia,
suspirou
e
saiu
atrás
dos
outros.
Clemency
foi
até
a
janela
e
pôs-se
a
olhar
para
o
jardim.
Eu
fui
até
perto
dela.
Voltou
a
cabeça
ligeiramente
para
mim.
—Graças
a
Deus
que
tudo
acabou
—
disse
e
acrescentou
com
repugnância:
—
Que
sala
horrorosa
esta!
—Não
gosta
dela?
—Não
consigo
respirar
aqui
dentro.
Há
sempre
um
cheiro
de
flores
meio
murchas
e
de
poeira.
Achei
que
ela
estava
sendo
injusta
com
a
sala.
Mas
eu
sabia
o
que
ela
queria
dizer.
Era
definitivamente
uma
sala
muito
fechada.
Era
uma
sala
feminina,
exótica,
macia,
fechada
às
intempéries
lá
de
fora.
Não
era
uma
peça
onde
um
homem
pudesse
ser
feliz
por
muito
tempo.
Não
era
uma
sala
onde
se
pudesse
descansar
e
ler
o
jornal
e
fumar
um
cachimbo
com
os
pés
para
cima.
No
entanto,
eu
a
preferia
à
expressão
abstrata
de
Clemency
lá
em
cima.
No
duro
mesmo,
eu
preferia
uma
sala
de
estar
a
um
palco.
Ela
falou,
olhando
em
torno:
—É
somente
um
palco.
Um
cenário
para
Magda
representar
suas
cenas
—
olhou
para
mim.
—
Você
reparou,
não
foi?
Reparou
no
que
nós
estávamos
fazendo?
Ato
II:
o
conclave
da
família.
Magda
arranjou
tudo.
Não
significava
nada.
Não
havia
nada
a
falar,
nada
a
discutir.
Tudo
está
decidido,
terminado.
Não
havia
tristeza
em
sua
voz.
Quase
satisfação.
Ela
percebeu
meu
olhar.
—Oh,
você
não
compreende?
—
falou
com
impaciência.
—
Nós
estamos
livres...
finalmente!
Não
entende
que
Roger
foi
um
infeliz...
absolutamente
infeliz...
durante
anos?
Ele
nunca
teve
jeito
para
os
negócios.
Gosta
de
coisas
como
cavalos
e
vacas
e
de
perambular
pelos
campos.
Mas
ele
adorava
o
pai...
todos
o
adoravam.
É
isto
o
que
é
errado
nesta
casa...
é
familiar
demais.
Eu
não
quero
dizer
que
o
velho
fosse
um
tirano,
ou
que
os
oprimisse
ou
maltratasse.
De
jeito
nenhum.
Ele
lhes
dava
dinheiro
e
liberdade.
Era-lhes
completamente
devotado.
E
todos
se
devotavam
por
ele.
—E
há
algo
errado
nisto?
—Eu
acho
que
há.
Eu
creio
que,
quando
as
crianças
crescem,
nós
devemos
afastar-nos
delas,
devemos
apagar-nos,
sumir,
forçá-los
a
se
esquecerem
de
nós.
—Forçá-los?
É
um
tanto
drástico,
não
acha?
A
coação
de
uma
ou
de
outra
forma
não
é
igualmente
prejudicial?
—Se
ele
não
tivesse
construído
a
sua
personalidade...
—Ninguém
pode
construir
a
sua
personalidade
—
disse
eu.
—
Ele
tinha
a
sua
personalidade.
—Pois
ele
tinha
personalidade
demais
para
Roger.
Roger
adorava-o.
Queria
fazer
tudo
que
seu
pai
queria
que
ele
fizesse,
queria
ser
o
tipo
de
filho
que
seu
pai
queria
que
ele
fosse.
E
ele
não
podia
ser
isto.
O
pai
deu-lhe
a
Associação
de
Fornecedores...
era
o
brinquedo
predileto
e
o
orgulho
do
velho
e
Roger
tentou
com
todas
as
forças
seguir
as
pegadas
do
pai.
Mas
ele
não
tinha
aquele
tipo
de
habilidade.
Em
matéria
de
negócios
Roger
é...
sim,
eu
digo
francamente...
é
um
tolo.
E
isso
cortou-lhe
o
coração.
Ele
foi
infeliz
durante
anos,
lutando,
vendo
tudo
ir
por
água
abaixo,
tendo
repentinas
"idéias"
maravilhosas
e
"esquemas"
extraordinários
que
sempre
davam
errado
e
pioravam
as
coisas
cada
vez
mais.
É
horrível
sentir-se
um
fracasso
ano
após
ano.
Você
não
pode
calcular
como
ele
tem
sido
infeliz.
Eu
posso.
Novamente
ela
se
voltou
e
me
encarou:
—Você
pensou,
e
chegou
mesmo
a
sugerir
para
a
polícia
que
Roger
teria
morto
o
pai...
por
dinheiro!
Você
não
sabe
como...
como
isto
é
absolutamente
ridículo!
—Agora
eu
sei
—
falei
com
humildade.
—Quando
Roger
viu
que
não
podia
mais
safar-se,
que
a
falência
era
iminente,
ficou
quase
que
aliviado.
Sim,
ele
ficou
mesmo.
Só
ficou
preocupado
porque
seu
pai
ia
saber...
mas
não
sobre
as
outras
conseqüências.
Ele
estava
olhando
em
frente,
para
a
nova
vida
que
nós
íamos
levar.
Seu
rosto
estremeceu
levemente
e
sua
voz
tornou-se
mais
suave.
—Para
onde
vocês
iam?
—
perguntei.
—Para
os
Barbados.
Um
primo
meu
distante
morreu
há
algum
tempo
e
deixou-me
um
pequeno
sítio
lá...
oh,
não
é
quase
nada.
Mas
pelo
menos
era
um
lugar
para
irmos.
Nós
seríamos
muito
pobres
mas
daríamos
um
jeitinho
de
viver...
custa
tão
pouco
viver
simplesmente.
Nós
estaríamos
juntos...
despreocupados,
longe
deles
todos.
Ela
suspirou.
—Roger
é
ridículo
às
vezes.
Ele
se
preocupa
muito
comigo...
porque
eu
sou
pobre.
Eu
creio
que
ele
adotou
demais
a
atitude
da
família
Leonides
sobre
o
dinheiro.
Quando
meu
primeiro
marido
era
vivo,
nós
éramos
horrivelmente
pobres.
E
Roger
pensa
que
eu
era
muito
corajosa
e
maravilhosa!
Ele
não
consegue
imaginar
que
eu
era
feliz...
realmente
feliz!
Eu
nunca
mais
fui
feliz
como
eu
era!
E,
no
entanto,
eu
nunca
amei
Richard
como
eu
amo
Roger.
Seus
olhos
estavam
semicerrados.
Senti
a
intensidade
de
suas
emoções.
Ela
os
abriu,
olhou-me
e
disse:
—Você
vê,
eu
nunca
mataria
alguém
por
dinheiro.
Eu
não
gosto
de
dinheiro.
Eu
tive
a
certeza
de
que
era
aquilo
mesmo
que
ela
queria
dizer.
Clemency
Leonides
era
uma
dessas
raras
pessoas
que
não
se
sentem
atraídas
por
dinheiro.
Elas
não
gostam
do
luxo,
preferem
a
austeridade
e
suspeitam
das
riquezas.
Entretanto,
há
alguns
para
os
quais
o
dinheiro
não
tem
nenhum
apelo
pessoal,
mas
que
podem
ser
tentados
pelo
poder
que
ele
confere.
Eu
falei:
—Talvez
você
não
quisesse
dinheiro
para
si
mesma...
mas
sabiamente
dirigido,
o
dinheiro
pode
fazer
uma
série
de
coisas
interessantes.
Pode
patrocinar
pesquisas,
por
exemplo.
Eu
suspeitava
talvez
de
que
Clemency
fosse
uma
fanática
pelo
seu
trabalho
mas
ela
disse
apenas:
—Duvido
que
esses
patrocínios
sirvam
para
alguma
coisa.
Eles
são
em
geral
usados
erradamente.
As
coisas
que
valem
mesmo
a
pena
são
usualmente
conseguidas
por
alguém
que
tenha
entusiasmo
e
iniciativa...
e
uma
visão
natural.
Equipamentos
dispendiosos,
treinamentos
e
experiências
nunca
fazem
o
que
se
pensa.
O
seu
uso
quase
sempre
cai
em
mãos
erradas.
—Você
não
se
importa
em
largar
o
seu
trabalho
e
ir
para
os
Barbados?
—
perguntei.
—
Vocês
vão
mesmo,
não
é?
—Oh,
sim,
assim
que
a
polícia
deixar.
Não,
eu
não
me
importo
absolutamente
de
largar
o
meu
trabalho.
Por
que
haveria
de
me
importar?
Não
gostaria
de
ficar
à
toa,
mas
sei
que
não
ficarei
à
toa
em
Barbados.
Ela
acrescentou
impaciente:
—Oh,
se
ao
menos
tudo
isso
pudesse
ser
logo
esclarecido
e
nós
pudéssemos
ir
logo
embora.
—Clemency
—
perguntei
—
você
tem
alguma
idéia
de
quem
fez
isso?
Considerando
que
nem
você
nem
Roger
têm
nada
a
ver
com
a
coisa
(e
realmente
eu
não
vejo
razão
para
pensar
que
vocês
têm),
certamente,
com
a
sua
inteligência,
você
deve
ter
alguma
idéia
de
quem
possa
ter
feito?
Ela
me
deu
um
olhar
estranho,
um
olhar
de
lado.
Quando
falou,
sua
voz
perdera
a
espontaneidade.
Meio
sem
jeito,
quase
encabulada.
—A
gente
não
pode
fazer
conjeturas,
não
é
científico
—
disse
ela.
—
Só
se
pode
dizer
que
Brenda
e
Laurence
são
os
suspeitos
óbvios.
—Então
você
pensa
que
foram
eles?
Clemency
deu
de
ombros.
Ficou
quieta
por
um
instante
como
se
estivesse
escutando
algo
e
depois
saiu
da
sala,
cruzando
com
Edith
de
Haviland
ao
passar
pela
porta.
Edith
veio
direta
para
o
meu
lado.
—Eu
quero
falar
com
você
—
disse
ela.
As
palavras
de
meu
pai
vieram
à
tona.
Será
que
isto...
Mas
Edith
de
Haviland
prosseguiu:
—Eu
espero
que
você
não
tenha
tomado
uma
impressão
errada
—
disse
ela.
—
Sobre
Philip,
eu
quero
dizer.
Philip
é
muito
difícil
de
entender.
Ele
pode
parecer
frio
e
reservado
mas
não
é
tanto
assim.
É
somente
uma
maneira
de
ser.
Não
consegue
evitar.
—Eu
realmente
não
pensei...
—
comecei
eu.
Mas
ela
continuou:
—Agora
mesmo...
sobre
Roger.
Ele
não
está
realmente
com
má
vontade.
Ele
nunca
foi
sovina
com
dinheiro.
E
ele
é
realmente
um
amor...
sempre
foi
um
amor...
mas
é
preciso
que
o
compreendam.
Eu
olhei
para
ela
com
um
ar,
espero,
de
quem
está
mesmo
querendo
entender.
Ela
prosseguiu:
—Parcialmente,
creio
eu,
é
por
ter
sido
o
segundo
da
família.
Diversas
vezes
existe
alguma
coisa
sobre
um
segundo
filho...
eles
já
começam
com
desvantagem.
Ele
adorava
o
pai,
sabe?
É
claro,
todas
as
crianças
adoravam
Aristide
e
ele
as
adorava.
Mas
Roger
era
o
seu
orgulho
e
a
sua
alegria
principais.
Talvez
por
ter
sido
o
primeiro.
E
eu
acho
que
Philip
sentia
isto.
Ele
se
fechou
em
si
mesmo.
Começou
a
gostar
de
livros
e
do
passado
e
de
coisas
que
eram
completamente
divorciadas
da
vida
quotidiana.
Eu
acho
que
ele
sofreu...
crianças
sofrem
muito...
Ela
fez
uma
pausa
e
continuou:
—O
que
eu
queria
mesmo
dizer,
suponho,
é
que
ele
sempre
teve
ciúmes
de
Roger.
Talvez
nem
ele
próprio
perceba
isto.
Mas
eu
penso
que
o
fato
de
Roger
ter-se
transformado
num
fracasso...
oh,
parece
tão
odioso
dizer
isto
e
realmente,
eu
tenho
certeza
que
nem
ele
próprio
sabe
disso...
mas
eu
penso
que
talvez
Philip
não
esteja
tão
sentido
quanto
deveria
estar.
—A
senhora
quer
dizer
que
ele
está
quase
satisfeito
por
Roger
ter
bancado
o
tolo.
—Sim
—
disse
Edith
de
Haviland.
—
E
exatamente
o
que
eu
queria
dizer.
Ela
acrescentou,
franzindo
as
sobrancelhas:
—Eu
fiquei
muito
sentida,
sabe,
de
ele
não
ter
oferecido
ajuda
imediata
a
seu
irmão.
—Por
que
ele
deveria
ter
ajudado?
—
disse
eu.
—
Apesar
de
tudo,
Roger
fez
uma
série
de
confusões.
Mas
é
um
homem
adulto.
Não
tem
filhos
a
considerar.
Se
ele
estivesse
doente
ou
mesmo
com
uma
necessidade
real,
é
claro
que
sua
família
ajudaria.
Mas
eu
não
tenho
a
menor
dúvida
de
que
Roger
na
verdade
prefere
recomeçar
inteiramente
sozinho.
—Oh,
é
claro
que
sim!
Ele
só
se
importa
com
Clemency.
E
Clemency
é
uma
criatura
extraordinária.
Ela
gosta
realmente
de
se
sentir
inconfortável
e
de
ter
apenas
uma
xícara
barata
para
tomar
chá.
É
moderna,
eu
acho.
Não
tem
nenhum
sentido
do
passado,
nenhum
senso
de
beleza.
Eu
senti
seus
olhos
agudos
olhando
para
mim
de
cima
abaixo.
—Isto
é
uma
prova
horrível
para
Sophia
—
disse
ela.
—
Eu
tenho
tanta
pena
de
que
a
sua
juventude
possa
ser
atingida
por
isto.
Eu
gosto
deles
todos,
sabe?
Roger
e
Philip,
e
agora
Sophia
e
Eustace
e
Josephine.
Todas
essas
crianças
que
ridas...
As
crianças
de
Márcia.
Sim,
eu
os
quero
muito.
Fez
uma
pausa
e
acrescentou
bruscamente:
—Fique
sabendo,
que
é
quase
uma
idolatria...
Ela
se
voltou
rapidamente
e
saiu.
Eu
tive
a
impressão
de
que
ela
quisera
dizer
algo
com
aquela
última
frase
mas
eu
não
entendi
o
quê.
Capítulo
15
SEU
QUARTO
ESTÁ
pronto
—
disse
Sophia.
Ela
estava
ao
meu
lado,
olhando
para
o
jardim.
Este
parecia
desolado
e
cinzento,
com
as
árvores
quase
desnudas
balançando-se
ao
vento.
Sophia
pareceu
ler
meus
pensamentos
ao
dizer:
—Parece
tão
desolado...
Enquanto
olhávamos,
uma
figura,
e
logo
depois,
uma
outra,
apareceram
através
da
sebe
de
teixos
indo
para
o
jardim
de
pedras.
Ambas
pareciam
irreais
na
luz
que
se
apagava.
Brenda
Leonides
era
a
primeira.
Ela
estava
envolta
num
casaco
cinzento
de
chinchila
e
havia
um
certo
ar
felino
e
furtivo
em
seus
movimentos.
No
crepúsculo
ela
flutuava
com
uma
graça
sobrenatural.
Vi
seu
rosto
ao
passar
pela
janela.
Havia
um
meio
sorriso
nele,
aquele
mesmo
meio
sorriso
que
eu
já
notara
lá
em
cima.
Alguns
minutos
depois,
Laurence
Brown,
parecendo
ainda
mais
magro
e
encolhido,
também
desapareceu
no
crepúsculo.
Só
posso
descrever
assim
a
cena.
Eles
não
pareciam
duas
pessoas
andando
normalmente,
duas
pessoas
que
tivessem
saído
para
dar
uma
volta.
Havia
algo
irreal
sobre
eles,
como
se
fossem
dois
fantasmas.
Fiquei
pensando
no
estalido
que
ouvira,
se
fora
o
pé
de
Brenda
ou
o
de
Laurence.
Por
uma
associação
natural
de
idéias,
eu
perguntei:
—Onde
está
Josephine?
—Provavelmente
com
Eustace
na
sala
de
aulas
—
franziu
o
rosto.
—
Eu
estou
preocupada
com
Eustace,
Charles.
—Por
quê?
—Ele
anda
tão
amuado
e
estranho.
Ficou
tão
diferente
depois
que
teve
a
paralisia.
Não
consigo
imaginar
o
que
anda
pela
cabeça
dele.
Às
vezes
parece
que
nos
odeia
a
todos.
—Provavelmente
ele
ultrapassará
isto
tudo.
É
apenas
uma
fase.
—Sim,
eu
creio
que
seja.
Mas
eu
me
preocupo
muito,
Charles.
—Por
que,
meu
coração?
—Na
verdade,
eu
acho
que
papai
e
mamãe
nunca
se
preocupam.
Eles
não
se
comportam
como
um
pai
e
uma
mãe.
—Talvez
isso
seja
melhor
para
vocês
todos.
Mais
crianças
sofrem
com
o
zelo
excessivo
do
que
o
contrário.
—É
verdade.
Sabe,
eu
nunca
pensei
nisso
até
voltar
do
exterior
mas
eles
são
um
casal
esquisito.
Papai
vivendo
propositadamente
num
mundo
obscuro
de
trilhas
históricas
e
mamãe
sempre
se
divertindo
e
vivendo
suas
cenas.
Aquela
bobagem
de
hoje
à
tarde
foi
idéia
de
mamãe.
Ela
queria
representar
uma
cena
de
uma
reunião
familiar.
Ela
se
aborrece
aqui
e
fica
tentando
criar
um
drama.
Por
um
momento
eu
tive
a
fantástica
visão
da
mãe
de
Sophia
envenenando
o
velho
sogro
de
maneira
suave,
apenas
para
observar
um
drama
em
primeira
mão
e
com
ela
representando
o
papel
principal.
Um
pensamento
engraçado!
Eu
o
deixei
de
lado
—
mas
fiquei
um
tanto
encabulado.
—Mamãe
—
continuou
Sophia
—
precisa
de
que
se
tome
conta
dela
o
tempo
inteiro.
A
gente
nunca
imagina
o
que
ela
pretende
fazer.
—Esqueça
sua
família,
Sophia
—
disse
eu
com
firmeza.
—Eu
adoraria
isso
mas
no
momento
é
muito
difícil.
Eu
estava
feliz
no
Cairo
porque
os
esquecera
a
todos.
Eu
me
lembrava
de
que
Sophia
nunca
mencionara
seu
lar
ou
seus
parentes.
—É
por
isso
que
você
nunca
falava
deles?
—
perguntei.
—
Porque
você
tinha
vontade
de
esquecê-los?
—Eu
creio
que
sim.
Nós
vivemos
sempre,
todos
nós,
sempre
agarrados
uns
com
os
outros.
Nós...
nós
gostamos
demais
uns
dos
outros.
Não
somos
como
essas
famílias
que
se
odeiam
até
a
morte.
Deve
ser
horrível
mas
quase
que
é
pior
vivermos
sempre
presos
por
sentimentos
de
afeição.
Ela
acrescentou:
—Eu
acho
que
é
por
isso
que
eu
lhe
disse
que
nós
vivíamos
todos
juntos
numa
Casa
Torta.
Eu
não
quis
dizer
torta
num
sentido
de
desonestidade.
Eu
creio
que
quis
dizer
é
que
todos
nós
não
conseguimos
crescer
e
nos
tornarmos
independentes,
responsáveis,
íntegros.
Nós
somos
um
pouquinho
tortos
e
enrolados.
Eu
vi
Edith
de
Haviland
esmagando
uma
erva
daninha
no
caminho
enquanto
Sophia
acrescentava:
—Como
a
jitirana...
E
de
repente,
Magda
estava
conosco
—
escancarando
a
porta,
dando
gritinhos:
—Meus
queridos,
por
que
vocês
não
acendem
as
luzes?
Está
quase
escuro.
E
ela
apertou
os
comutadores
e
as
luzes
se
acenderam
nas
paredes
e
nas
mesas,
e
ela,
Sophia
e
eu
puxamos
as
pesadas
cortinas
cor-de-rosa
e
ficamos
naquele
interior
perfumado
de
flores,
e
Magda,
espichando-se
num
sofá,
falou:
—Que
cena
incrível,
não
foi?
Como
Eustace
estava
contrariado!
Ele
me
disse
que
achou
aquilo
positivamente
indecente!
Como
esses
meninos
são
engraçados!
Ela
suspirou.
—Roger
é
um
amor.
Eu
adoro
quando
ele
passa
a
mão
pelos
cabelos
e
começa
a
chutar
as
coisas.
Não
foi
um
encanto
a
Edith
ter-
lhe
oferecido
a
sua
parte
da
herança?
Ela
estava
mesmo
disposta
a
fazer
isso,
sabem?
Não
foi
apenas
um
gesto.
Mas
foi
terrivelmente
estúpido.
Imagine
se
Philip
quisesse
fazer
a
mesma
coisa!
É
claro
que
Edith
faria
qualquer
coisa
pela
família!
Há
algo
quase
patético
no
amor
de
uma
solteirona
pelos
filhos
de
sua
irmã.
Qualquer
dia
desses
eu
vou
querer
representar
um
papel
de
uma
dessas
devotadas
tias
solteironas.
Indiscreta,
obstinada
e
devotada.
—Deve
ter
sido
muito
duro
paria
ela
quando
sua
irmã
morreu
—
disse
eu,
recusando-me
a
permitir
que
a
conversa
fosse
desviada
para
outro
dos
papéis
das
peças
de
Magda.
—
Isto
é,
se
ela
detestava
tanto
o
velho
Leonides.
Magda
interrompeu-me.
—Detestava-o?
Quem
lhe
disse
isso?
Tolice.
Ela
estava
apaixonada
por
ele.
—Mamãe!
—
disse
Sophia.
—Nem
tente
contradizer-me,
Sophia.
Naturalmente
que
na
sua
idade
vocês
pensam
que
o
amor
é
somente
o
de
dois
jovens
bonitões
ao
luar.
—Ela
me
disse
—
disse
eu
—
que
sempre
o
detestara.
—Provavelmente
sim,
quando
veio
para
cá.
Ela
estava
zangada
com
sua
irmã
por
ter-se
casado
com
ele.
Eu
diria
que
havia
uma
espécie
de
antagonismo...
mas
ela
estava
apaixonada
mesmo
por
ele!
Queridos,
eu
sei
do
que
estou
falando!
É
claro
que,
como
irmã
da
falecida
esposa
e
tudo
o
mais,
ele
não
podia
casar-se
com
ela,
e
eu
diria
também
que
ele
nunca
pensou
nisso...
e
provavelmente
ela
também
não.
Ela
era
bastante
feliz
tomando
conta
das
crianças
e
brigando
com
ele.
Mas
ela
não
gostou
quando
ele
se
casou
com
Brenda.
Não
gostou
nem
um
pouquinho!
—Você
e
papai
também
não
gostaram
—
disse
Sophia.
—Não,
é
lógico
que
não
gostamos!
Naturalmente!
Mas
Edith
foi
quem
mais
detestou.
Querida,
o
jeito
que
eu
a
vi
olhar
para
Brenda!
—Vamos,
mamãe
—
disse
Sophia.
Magda
dirigiu-lhe
um
olhar
afetuoso
e
meio
de
culpa,
um
olhar
de
criança
mimada
e
maliciosa.
Ela
continuou
a
falar,
sem
perceber
que
mudara
completamente
de
assunto:
—Eu
resolvi
que
Josephine
precisa
ir
para
uma
escola.
—Josephine?
Para
uma
escola?
—Sim.
Para
a
Suíça.
Vou
cuidar
disso
amanhã.
Acho
que
realmente
nós
devemos
tratar
do
assunto
imediatamente.
E
péssimo
para
ela
estar
presenciando
estes
momentos
horríveis.
Está-se
tornando
muito
mórbida.
O
de
que
ela
precisa
são
outras
crianças
de
sua
idade.
Vida
escolar.
Eu
sempre
pensei
assim.
—Vovô
não
queria
que
ela
fosse
para
a
escola
—
disse
Sophia
lentamente.
—
Ele
era
muito
contra
isto.
—O
nosso
velhinho
querido
queria
que
todos
ficassem
sob
suas
vistas.
Muitas
pessoas
idosas
são
assim
egoístas.
Uma
criança
deve
viver
entre
outras
crianças.
E
a
Suíça
é
tão
saudável,
com
os
esportes
de
inverno,
o
ar
puro,
e
tantas
coisas
mais,
comida
muito
melhor
do
que
a
daqui!
—Não
será
difícil
ir
para
a
Suíça
agora
com
as
restrições
cambiais?
—
perguntei.
—Tolice,
Charles.
Há
uma
espécie
de
acordo
educacional...
uma
troca
com
uma
criança
suíça...
há
várias
formas.
Rudolf
Alstir
está
em
Lausanne.
Eu
vou
telegrafar
para
ele
amanhã
para
arranjar
tudo.
Nós
poderemos
enviá-la
já
no
próximo
fim
da
semana!
Magda
desamassou
uma
almofada,
sorriu
para
nós,
foi
até
a
porta,
ficou
parada
um
instante
olhando
para
trás
de
uma
maneira
encantadora
e
disse:
—São
somente
os
jovens
que
importam.
E
dito
por
ela,
isto
foi
uma
deixa
adorável.
—Eles
sempre
vêm
em
primeiro
lugar.
E,
queridos,
lembrem-se
das
flores,
das
gencianas
azuis,
dos
narcisos...
—Em
novembro?
—
perguntou
Sophia,
mas
Magda
já
saíra.
Sophia
deu
um
suspiro
exasperado.
—Realmente!
—
disse
ela.
—
Mamãe
deixa
a
gente
desesperada!
Ela
tem
essas
manias
repentinas,
envia
centenas
de
telegramas
e
tudo
tem
de
ser
arranjado
na
última
hora.
Por
que
é
que
Josephine
tem
de
ser
mandada
para
a
Suíça
assim
a
toque
de
caixa?
—Ela
tem
uma
certa
razão
nesta
idéia
de
escola.
Eu
acho
que
crianças
da
idade
dela
farão
muito
bem
a
Josephine.
—Vovô
não
pensava
assim
—
disse
Sophia
obstinada.
Eu
fiquei
ligeiramente
irritado.
—Minha
cara
Sophia,
você
acha
que
um
velho
de
mais
de
oitenta
anos
seja
o
melhor
juiz
para
o
bem-estar
de
uma
criança?
—Ele
era
o
melhor
juiz
para
cada
um
daqui
desta
casa.
—Melhor
que
sua
tia
Edith?
—Não,
talvez
não.
Ela
era
a
favor
da
idéia
da
escola.
Eu
admito
que
Josephine
se
tornou
uma
criança
difícil...
ela
tem
o
hábito
horrível
de
viver
espionando.
Mas
eu
acho
que
é
porque
ela
gosta
de
bancar
o
detetive.
Teria
sido
apenas
pelo
bem-estar
de
Josephine
que
Magda
tomara
aquela
decisão
repentina?
Eu
fiquei
imaginando.
Josephine
era
surpreendentemente
bem
informada
a
respeito
dos
fatos
acontecidos
antes
do
assassinato
e
que
não
eram
da
sua
conta.
Uma
saudável
vida
escolar,
com
uma
boa
quantidade
de
jogos,
certamente
lhe
faria
muito
bem.
Mas
eu
me
pus
a
imaginar
por
que
a
decisão
urgente
e
repentina
de
Magda
—
a
Suíça
ficava
tão
longe...
Capítulo
16
O
VELHO
DISSERA:
—Deixe-os
falar.
Enquanto
eu
fazia
a
barba
na
manhã
seguinte,
fiquei
considerando
até
onde
isso
me
ajudara.
Edith
de
Haviland
falara
comigo
—
ela
me
procurara
especialmente
para
isso.
Clemency
falara
comigo
(ou
fora
eu
que
falara
com
ela?).
Magda
num
certo
sentido
falara
comigo,
isto
é,
eu
fizera
parte
da
audiência
para
uma
de
suas
representações.
Sophia
naturalmente
falara
comigo.
Até
mesmo
Nannie
falara
comigo.
Teria
eu
ficado
mais
sabido
depois
de
ter
falado
com
todos
eles?
Teria
havido
alguma
frase
ou
palavra
significantes?
Mais,
teria
havido
alguma
evidência
de
uma
vaidade
anormal
em
que
meu
pai
tanto
confiara?
Eu
não
podia
ver
nada
ainda.
A
única
pessoa
que
não
mostrara
absolutamente
nenhum
desejo
de
falar
comigo,
sobre
coisa
nenhuma,
fora
Philip.
Isso
não
seria
de
certa
maneira
anormal?
Ele
já
devia
saber
agora
que
eu
queria
casar-
me
com
a
filha
dele.
E,
no
entanto,
continuava
a
proceder
como
se
eu
não
estivesse
na
casa.
Provavelmente
ele
se
ressentia
com
a
minha
presença
ali.
Edith
de
Haviland
desculpara-se
por
ele.
Ela
dissera
que
era
apenas
"uma
maneira
de
ser".
Demonstrara
estar
preocupada
com
Philip.
Por
quê?
Considerei
o
pai
de
Sophia.
Ele
era
em
todos
os
sentidos
um
indivíduo
reprimido.
Fora
uma
criança
infeliz
e
invejosa.
Fora
forçado
a
se
retrair.
Refugiara-se
no
mundo
dos
livros
—
num
passado
histórico.
Aquela
frieza
e
reserva
estudadas
podiam
esconder
um
bom
bocado
de
seus
sentimentos
apaixonados.
A
falta
de
motivos
financeiros
com
a
morte
de
seu
pai
era
inconvincente
—
eu
não
teria
pensado
nem
por
um
minuto
que
Philip
Leonides
pudesse
ter
matado
o
pai
porque
quisesse
ter
mais
dinheiro
do
que
já
tinha.
Mas
poderia
ter
havido
uma
outra
razão
psicológica
profunda
que
o
fizesse
desejar
a
morte
do
pai.
Philip
voltara
a
morar
em
casa
do
pai,
e
mais
tarde,
devido
aos
bombardeios,
Roger
também
voltara
—
e
Philip
fora
obrigado
a
ver,
dia
após
dia,
que
Roger
ainda
era
o
favorito
do
pai...
As
coisas
podem
ter
corrido
de
tal
maneira
na
sua
mente
torturada
que
o
único
alívio
possível
seria
a
morte
do
pai?
E,
supondo
que
esta
morte
incriminasse
o
seu
irmão
mais
velho?
Roger
estava
precisando
de
dinheiro
—
à
beira
da
falência.
Não
sabendo
nada
sobre
a
última
entrevista
entre
Roger
e
o
pai
e
a
oferta
deste
último
para
ajudá-lo,
Philip
não
poderia
ter
pensado
que
os
motivos
seriam
bastante
poderosos
e
que
Roger
seria
imediatamente
o
suspeito?
Estariam
as
faculdades
mentais
de
Philip
tão
conturbadas
que
o
levassem
ao
homicídio?
Cortei
o
queixo
com
a
gilete
e
soltei
um
palavrão.
Que
diabos
eu
estava
tentando
fazer?
Tentando
culpar
o
pai
de
Sophia
pelo
crime?
Não
era
das
coisas
mais
simpáticas
de
minha
parte.
Pelo
menos
não
era
o
que
Sophia
esperava
que
eu
fizesse...
Ou...
talvez
fosse?
Havia
algo,
sempre
houvera
algo
o
tempo
todo,
por
trás
do
apelo
de
Sophia.
Se
houvesse
a
mais
remota
suspeita
de
que
seu
pai
fosse
o
assassino,
então
ela
jamais
concordaria
em
se
casar
comigo
—
no
caso
da
suspeita
ser
verdadeira.
E,
uma
vez
que
ela
era
Sophia,
arguta
e
corajosa,
ela
queria
a
verdade,
já
que
a
incerteza
seria
uma
barreira
eterna
e
perpétua
entre
nós.
Não
tinha
ela
mesmo
dito
a
mim:
"Prove-me
que
esta
coisa
pavorosa
que
eu
estou
imaginando
não
é
verdadeira
—
mas
se
for
mesmo
a
verdade,
então
me
prove
que
é
verdade
—
para
que
eu
possa
saber
o
pior
e
encará-lo!"?
Será
que
Edith
de
Haviland
sabia,
ou
suspeitava,
que
Philip
era
o
culpado?
O
que
é
que
ela
tinha
querido
dizer
com
aquela
"quase
idolatria"?
E
o
que
é
que
Clemency
tinha
querido
dizer
com
aquele
olhar
estranho
que
me
lançara
quando
lhe
perguntei
se
ela
suspeitava
de
alguém
e
ela
me
respondera:
"Laurence
e
Brenda
são
os
mais
prováveis
suspeitos,
não
são?"
A
família
inteira
queria
que
fossem
Brenda
e
Laurence,
tinha
a
esperança
que
fossem
Brenda
e
Laurence,
mas
na
realidade
não
acreditava
que
fossem
Brenda
e
Laurence...
E,
é
lógico,
a
família
inteira
podia
estar
errada,
e
talvez
os
criminosos
fossem
mesmo
Laurence
e
Brenda.
Ou
talvez
fosse
Laurence,
e
não
Brenda...
Esta
seria
uma
solução
muito
melhor.
Eu
acabei
de
dar
umas
palmadinhas
no
queixo
cortado
e
desci
para
o
café,
determinado
a
ter
uma
entrevista
com
Laurence
Brown,
o
mais
cedo
possível.
Foi
somente
depois
de
beber
a
minha
segunda
xícara
de
café
que
me
ocorreu
que
a
Casa
Torta
estava
também
me
atingindo.
Eu,
também,
queria
encontrar
não
a
solução
certa
mas
a
solução
que
melhor
me
convinha.
Depois
do
café
fui
até
o
vestíbulo
e
subi
as
escadas.
Sophia
me
dissera
que
eu
encontraria
Laurence
dando
aulas
a
Eustace
e
Josephine
na
sala
de
aulas.
Lá
em
cima
eu
hesitei
um
instante
em
frente
à
porta
de
Brenda.
Deveria
tocar
ou
bater,
ou
entrar
diretamente?
Decidi
tratar
a
casa
como
um
todo
integral
e
não
como
a
parte
privada
de
Brenda.
Abri
a
porta
e
entrei.
Tudo
estava
silencioso,
parecia
não
haver
ninguém.
A
minha
esquerda,
a
porta
que
dava
para
a
grande
sala
de
estar
estava
fechada.
À
direita,
duas
portas
abertas
mostravam
um
quarto
de
dormir
e
um
banheiro.
O
banheiro
eu
sabia
que
era
o
que
ficava
ao
lado
do
quarto
de
Aristide
Leonides,
onde
a
eserina
e
a
insulina
eram
guardadas.
A
polícia
já
terminara
de
examiná-lo.
Empurrei
a
porta
entreaberta
e
entrei.
Percebi
como
teria
sido
fácil
para
qualquer
pessoa
da
casa
(ou
para
falar
com
franqueza
também
para
alguém
de
fora),
chegar
até
o
banheiro
sem
ser
visto.
Fiquei
um
pouco
no
banheiro
examinando-o.
Era
suntuosamente
decorado
com
azulejos
brilhantes
e
uma
banheira
embutida
no
chão.
De
um
lado
havia
vários
aparelhos
elétricos:
uma
caçarola
elétrica
e
uma
grelha
por
baixo
de
uma
chaleira
também
elétrica,
uma
pequena
frigideira,
uma
torradeira
tudo
o
que
o
criado
de
quarto
de
um
senhor
de
idade
pudesse
precisar.
Na
parede,
um
pequeno
armário
esmaltado.
Eu
o
abri.
Dentro
estavam
objetos
médicos,
dois
vidros
de
remédios,
um
copinho
para
lavar
os
olhos,
um
conta-gotas
e
alguns
vidrinhos
rotulados.
Aspirinas,
bórax
em
pó,
iodo,
esparadrapo
etc...
Numa
prateleira
separada
estava
o
estoque
de
insulina,
duas
agulhas
hipodérmicas
e
um
vidro
de
éter.
Numa
terceira
prateleira
estava
um
frasco
marcado:
"Pílulas
uma
ou
duas
à
noite
conforme
a
receita".
Nesta
prateleira
sem
dúvida
estivera
o
vidro
de
colírio.
Tudo
era
simples,
bem
arranjado,
fácil
para
qualquer
pessoa
pegar
o
que
desejasse.
Igualmente
fácil
para
o
crime.
Eu
podia
ter
feito
o
que
quisesse
com
os
vidros
e
depois
sair
de
mansinho
outra
vez
e
ninguém
nunca
saberia
que
eu
estivera
ali.
Tudo
isso,
é
claro,
não
era
novo
para
mim,
mas
me
deixou
ver
o
quanto
era
difícil
a
tarefa
da
polícia.
Somente
do
culpado,
ou
dos
culpados,
a
gente
poderia
conseguir
algo.
"Sacuda-os
—
Taverner
me
dissera.
—
Faça
com
que
tenham
medo.
Faça-os
crer
que
nós
sabemos
de
alguma
coisa.
Mantenha-os
sempre
em
primeiro
plano.
Mais
cedo
ou
mais
tarde,
se
continuarmos
assim,
nosso
criminoso
vai
cansar
de
ficar
calado
e
vai
tentar
ser
ainda
mais
esperto...
e
então...
nós
o
pegaremos..."
Bem,
até
agora
o
criminoso
ainda
não
reagira
a
esse
tratamento.
Saí
do
banheiro.
Ainda
não
havia
ninguém
à
vista.
Fui
até
o
corredor.
Passei
pela
sala
de
jantar
que
ficava
à
esquerda
e
pelo
quarto
e
o
banheiro
de
Brenda,
à
direita.
Neste
último,
uma
das
empregadas
ia
e
vinha
de
um
lado
para
outro.
A
porta
da
sala
de
jantar
estava
fechada.
De
uma
outra
peça
mais
de
trás,
eu
ouvi
a
voz
de
Edith
de
Haviland
falando
ao
telefone
com
o
inevitável
peixeiro.
Um
lanço
de
escada
em
espiral
levava
ao
andar
de
cima.
Subi.
Ali
estavam
o
quarto
de
dormir
e
a
salinha
de
estar
de
Edith,
eu
sabia,
mais
dois
ba-
nheiros
e
o
quarto
de
Laurence
Brown.
Mais
além
ainda,
um
outro
lanço
curto
de
escadas
descia
para
uma
sala
muito
grande
construída
sobre
a
área
de
serviço
e
que
era
usada
como
sala
de
aula.
Parei
do
lado
de
fora
da
porta.
Podia-se
ouvir
a
voz
de
Laurence
Brown,
um
pouco
alterada,
vinda
lá
de
dentro.
Acho
que
o
hábito
de
escutar
atrás
das
portas
de
Josephine
era
contagioso.
Sem
sentir
nenhuma
vergonha
eu
me
abaixei
até
a
altura
da
fechadura
e
escutei.
Era
uma
aula
de
história
que
estava
em
curso,
e
o
período
em
questão
era
o
Diretório
francês.
Enquanto
ouvia,
o
espanto
fez-me
arregalar
os
olhos.
Foi
uma
surpresa
considerável
para
mim
descobrir
que
Laurence
Brown
era
um
magnífico
professor.
Não
sei
por
que
isso
me
surpreendeu
tanto.
Apesar
de
tudo,
Aristide
Leonides
sempre
fora
um
excelente
juiz
de
homens.
Apesar
de
toda
a
aparência
desprezível,
Laurence
tinha
o
dom
supremo
de
despertar
o
entusiasmo
e
a
imaginação
de
seus
alunos.
O
drama
de
Thermidor,
o
decreto
que
considerou
Robespierre
fora
da
lei,
a
magnificência
de
Barras,
a
lábia
de
Fouché
e
Napoleão,
um
tenentezinho
da
artilharia
que
morria
de
fome
—
todos
estavam
ali,
vivos
e
reais.
De
repente
Laurence
parou,
fez
uma
pergunta
a
Eustace
e
a
Josephine,
fez
com
que
eles
se
pusessem
no
lugar
de
uma
e
de
outras
figuras
do
drama.
Se
bem
que
ele
não
obtivesse
muito
resultado
com
Josephine,
cuja
voz
soava
como
se
ela
estivesse
resfriada,
Eustace
parecia
muito
diferente
de
seu
jeito
normal
Ele
mostrava
muita
cabeça
e
inteligência
e
aquele
arguto
sentido
histórico
que
sem
dúvida
herdara
de
seu
pai.
Ouvi
então
as
cadeiras
sendo
empurradas
para
trás
e
arranhando
o
assoalho.
Recuei
alguns
degraus
e
estava
apenas
chegando
quando
a
porta
se
abriu.
Eustace
e
Josephine
saíram.
—Alô
—
disse
eu.
Eustace
pareceu
surpreso
ao
me
ver.
—Você
está
procurando
alguém?
—
perguntou
polidamente.
Josephine,
sem
ligar
para
mim,
foi-se
embora.
—Eu
só
queria
ver
a
sala
de
aula
—
disse
meio
sem
jeito.
—Você
já
a
viu
outro
dia,
não
viu?
É
mesmo
uma
sala
para
criancinhas.
Antigamente
servia
de
quarto
de
brinquedos.
Ainda
tem
uma
porção
de
brinquedos
espalhados
pelos
cantos.
Ele
segurou
a
porta
aberta
para
mim
e
eu
entrei.
Laurence
Brown
estava
de
pé
ao
lado
da
mesa.
Olhou-me,
corou,
murmurou
algo
em
resposta
ao
meu
bom-dia
e
saiu
apressado.
—Você
o
deixou
amedrontado
—
disse
Eustace.
—
Ele
se
amedronta
com
facilidade.
—Você
gosta
dele,
Eustace?
—Oh!
Ele
é
legal.
Mas
é
meio
burro,
é
claro.
—Mas
não
é
um
mau
professor?
—Não,
para
falar
com
franqueza,
ele
é
mesmo
muito
interessante.
E
sabe
um
bocado
de
coisas.
Faz
a
gente
ver
as
coisas
por
um
ângulo
diferente.
Eu
nunca
soube
que
Henrique
VIII
tinha
escrito
poesias...
para
Anne
Boleyn,
é
lógico...
poesia
muito
bacana.
Nós
conversamos
mais
um
pouco
sobre
outros
assuntos
como
o
Velho
Marinheiro,
de
Chaucer,
as
questões
políticas
por
detrás
das
Cruzadas,
a
maneira
de
encarar
a
vida
na
época
medieval
e,
para
Eustace,
a
surpresa
de
saber
que
Oliver
Cromwell
proibira
a
celebração
do
Natal.
Por
trás
do
ar
desdenhoso
e
quase
desagradável
de
Eustace,
eu
percebi
que
havia
uma
mente
curiosa
e
inteligente.
Logo
eu
também
comecei
a
perceber
a
razão
de
seu
mau
humor.
Sua
doença
não
fora
apenas
uma
dura
prova,
fora
igualmente
uma
frustração
e
um
passo
atrás
em
sua
vida,
logo
no
momento
em
que
ele
começava
a
gozá-la.
—Eu
estaria
no
11°,
no
ano
que
vem
—
e
então
eu
iria
para
a
universidade.
É
muito
chato
ter
de
estudar
em
casa
e
estudar
com
uma
criança
horrorosa
como
Josephine.
Imagine,
ela
só
tem
doze
anos.
—Eu
sei,
mas
vocês
não
estudam
a
mesma
coisa,
não
é?
—Não,
é
claro
que
ela
não
estuda
matemática
avançada...
ou
latim.
Mas
você
não
gostaria
de
dividir
um
professor
com
uma
menina,
não
é?
Tentei
aplacar
seu
orgulho
masculino
ferido,
fazendo-o
ver
que
Josephine
era
uma
menina
bastante
inteligente
para
a
sua
idade.
—Você
acha?
Eu
a
acho
muito
errada.
É
louca
por
histórias
de
detetives
e
vive
enfiando
o
nariz
em
todo
canto
e
escrevendo
coisas
num
livrinho
preto
e
pretendendo
que
está
descobrindo
tudo.
É
uma
menina
boba,
é
isto
que
ela
é
—
disse
Eustace
muito
altivo.
—E
de
qualquer
jeito
—
acrescentou
ele
—
meninas
não
podem
ser
detetives.
Eu
já
disse
a
ela.
Acho
que
mamãe
está
muito
certa
e
quanto
mais
cedo
mandarem
Josephine
para
a
Suíça
melhor
será.
—Você
não
vai
sentir
falta
dela?
—Sentir
falta
de
uma
menina
daquela
idade?
—
disse
Eustace
desdenhoso.
—
É
claro
que
não.
Meu
Deus,
esta
casa
é
o
máximo!
Mamãe
sempre
andando
para
cima
e
para
baixo
lá
por
Londres
e
chateando
uns
autores
bobocas
a
reescreverem
as
peças
para
ela,
e
fazendo
confusões
incríveis
absolutamente
por
nada.
E
papai
fechado
com
os
livros
dele,
às
vezes
nem
escutando
o
que
a
gente
fala
com
ele.
Eu
não
sei
por
que
é
que
eu
tenho
de
carregar
este
fardo
de
ter
todos
estes
parentes...
E
tio
Roger...
tão
sincero
que
faz
até
a
gente
estremecer...
Tia
Clemency
é
legal,
não
aborrece
ninguém,
mas
às
vezes
eu
penso
que
ela
é
um
pouquinho
maluca.
Tia
Edith
também
não
é
das
piores
mas
é
muito
velha.
As
coisas
melhoraram
um
pouco
depois
que
Sophia
voltou...
se
bem
que
ela
saiba
ser
muito
severa
às
vezes.
Mas
é
uma
família
estranha,
você
não
acha?
Ter
uma
madrasta-avó
tão
moça
que
podia
ser
sua
tia
ou
mesmo
sua
irmã
mais
velha?
Eu
quero
dizer,
isto
faz
a
gente
se
sentir
meio
besta!
Eu
compreendi
os
seus
sentimentos.
Lembrava-me
(muito
vagamente)
de
minha
própria
supersensitividade
na
idade
de
Eustace.
O
horror
que
eu
tinha
de
parecer
diferente
ou
de
que
meus
parentes
fossem
diferentes
do
normal.
—E
sobre
seu
avô?
—
eu
perguntei.
—
Você
gostava
dele?
Uma
expressão
curiosa
passou
pelo
rosto
de
Eustace.
—Vovô
—
disse
ele
—
era
definitivamente
anti-social!
—Em
que
sentido?
—Ele
não
pensava
em
nada
a
não
ser
em
ganhar
dinheiro.
Laurence
diz
que
isto
é
completamente
errado.
E
ele
era
também
um
grande
individualista.
Tudo
isso
tende
a
acabar,
você
não
acha?
—Bem
—
eu
disse
bruscamente,
—
ele
acabou.
—Uma
boa
coisa,
na
verdade
—
disse
Eustace.
—
Eu
não
quero
parecer
desumano,
mas
você
não
pode
mais
gozar
a
vida
naquela
idade!
—E
ele
não
gozava?
—Não
poderia.
E
de
qualquer
forma,
já
era
mesmo
tempo
de
ele
ir
embora.
Ele...
—
Eustace
interrompeu-se
quando
Laurence
voltou
à
sala
de
aula.
Laurence
pôs-se
a
remexer
nalguns
livros,
mas
eu
calculei
que
ele
nos
estivesse
observando
pelo
rabo
do
olho.
Olhou
para
seu
relógio
de
pulso
e
disse:
—Por
favor,
esteja
de
volta
às
onze
horas
em
ponto,
Eustace.
Nós
perdemos
muito
tempo
ultimamente.
—Sim,
senhor.
Eustace
dirigiu-se
para
a
porta
e
saiu
assobiando.
Laurence
Brown
deu
outra
olhada
furtiva
para
o
meu
lado.
Passou
a
língua
nos
lábios
uma
ou
duas
vezes.
Eu
estava
convencido
de
que
ele
voltara
à
sala
de
aula
exclusivamente
para
falar
comigo.
Com
efeito,
depois
de
um
arrumar
e
desarrumar
de
livros
absolutamente
inútil
e
um
pretenso
pretexto
de
achar
um
livro
que
estava
faltando,
ele
falou:
—Ahn...
Como
é
que
eles
estão
indo?
—Eles?
—A
polícia.
Torceu
o
nariz.
Um
rato
numa
ratoeira,
eu
pensei,
um
rato
na
ratoeira.
—Eles
não
me
fazem
muitas
confidências
—
disse
eu.
—Oh,
eu
pensei
que
seu
pai
fosse
o
Comissário
Assistente.
—Ele
é,
mas
naturalmente
não
revela
os
segredos
oficiais.
Fiz
uma
voz
propositadamente
pomposa.
—Então
você
não
sabe
como...
o
quê...
se...
—
sua
voz
sumiu.
—
Eles
não
vão
deter
ninguém,
vão?
—Que
eu
saiba
não.
Mas,
é
como
eu
digo,
talvez
eu
não
saiba.
Faça-os
ficar
com
medo,
o
Inspetor
Taverner
dissera.
Faça-os
ficar
apavorados.
Bem,
Laurence
Brown
estava
apavorado
mesmo.
Começou
a
falar
depressa
e
com
nervosismo.
—Você
não
sabe
como
é...
a
tensão...
sem
saber
como,
isto
é,
eles
entram
e
saem...
Fazendo
perguntas...
perguntas
que
aparentemente
não
têm
nada
a
ver
com
o
caso...
Parou.
Esperei.
Ele
queria
falar,
muito
bem,
eu
devia
deixá-lo
falar.
—Você
estava
aqui
outro
dia
quando
o
Inspetor-Chefe
fez
aquela
sugestão
monstruosa?
Sobre
a
Sra.
Leonides
e
eu?
Foi
monstruoso.
Faz
a
gente
se
sentir
tão
indefeso.
Não
podemos
impedir
que
as
pessoas
pensem
coisas
assim
de
nós!
E
tudo
era
maldosamente
falso!
Apenas
porque
ela
é...
era...
tantos
anos
mais
nova
que
seu
marido.
Há
pessoas
que
têm
a
mente
suja...
a
mente
muito
suja...
Eu
sinto...
eu
não
posso
deixar
de
sentir...
que
tudo
isto
é
uma
conspiração.
—Uma
conspiração?
Que
coisa
interessante!
Interessante
era,
mas
não
no
sentido
que
ele
interpretou.
—A
família,
você
sabe,
a
família
do
Sr.
Leonides
nunca
teve
simpatia
por
mim.
Eles
sempre
se
mantiveram
afastados.
Eu
sempre
senti
que
me
desprezavam.
As
mãos
dele
começaram
a
tremer.
—Só
porque
eles
sempre
foram
ricos...
e
poderosos
—
olhou
para
mim.
—
O
que
eu
era
para
eles?
Apenas
um
professor.
Apenas
um
objetar
de
consciência
fracassado.
E
minhas
objeções
eram
de
consciência.
Eram
mesmo!
Eu
não
disse
nada.
—Muito
bem!
—
ele
explodiu.
—
O
que
é
que
tem
se
eu
era...
um
covarde?
Eu
tive
medo
de
fazer
confusão.
Tive
medo
de
que,
quando
fosse
obrigado
a
puxar
o
gatilho...
eu
não
fosse
capaz
de
fazê-lo.
Como
eu
podia
ter
certeza
de
que
era
um
nazista
que
eu
ia
matar?
Podia
ser
algum
rapaz
decente...
algum
rapaz
do
campo...
que
não
tivesse
pendores
políticos,
apenas
chamado
para
servir
à
sua
pátria?
Eu
acho
que
a
guerra
é
um
erro,
você
compreende?
Eu
penso
que
é
um
erro!
Eu
continuei
em
silêncio.
Achei
que
meu
silêncio
era
mais
útil
que
se
eu
argumentasse
ou
concordasse
com
ele.
Laurence
Brown
estava
discutindo
consigo
mesmo,
e
revelava
uma
boa
parte
de
si
próprio.
—Todos
sempre
riram
de
mim
—
sua
voz
estremeceu.
—
Parece
que
eu
tenho
um
quê
para
me
fazer
ridículo.
Não
é
realmente
uma
falta
de
coragem...
mas
eu
sempre
faço
as
coisas
erradas.
Entrei
numa
casa
que
estava
pegando
fogo
para
salvar
uma
mulher
que
estava
presa
lá
dentro.
Mas
eu
me
perdi
logo
na
entrada
e
a
fumaça
me
fez
perder
os
sentidos,
e
eu
dei
um
trabalhão
aos
bombeiros
para
me
acharem.
Eu
os
ouvi
dizer:
"Por
que
esse
cabeça
oca
não
deixa
o
trabalho
para
nós?"
Não
adianta
eu
tentar,
todos
são
contra
mim.
Quem
quer
que
tenha
morto
o
Sr.
Leonides
arranjou
para
que
eu
fosse
o
suspeito.
Alguém
o
matou
só
para
me
desgraçar.
—E
sobre
a
Sra.
Leonides?
—
perguntei.
Ele
corou.
Tornou-se
um
pouco
menos
rato
e
um
pouco
mais
homem.
—A
Sra.
Leonides
é
um
anjo
—
disse
ele
—
um
anjo.
Sua
doçura,
sua
bondade
para
o
idoso
marido
eram
maravilhosas.
Pensar
nela
em
conexão
com
o
veneno
é
ridículo...
ridículo!
E
aquele
cabeça
dura
daquele
inspetor
não
é
capaz
de
ver
isto!
—Ele
tem
uma
opinião
preconcebida
—
disse
eu
—
pelo
número
de
casos
em
seus
arquivos
onde
maridos
idosos
foram
envenenados
por
doces
e
jovens
esposas.
—Um
insuportável
imbecil!
—
disse
raivoso
Laurence
Brown.
Ele
foi
até
a
estante
do
canto
e
começou
a
remexer
nos
livros.
Eu
calculei
que
não
conseguiria
mais
nada
dele.
Saí
lentamente
da
sala.
Ao
passar
pelo
corredor,
uma
porta
à
minha
esquerda
abriu-se
e
Josephine
quase
caiu
em
cima
de
mim.
Sua
entrada
fora
tão
precipitada
quanto
a
entrada
de
um
demônio
numa
pantomima
arcaica.
O
rosto
e
as
mãos
estavam
imundos
e
uma
enorme
teia
de
aranha
flutuava
presa
à
sua
orelha
esquerda.
—Onde
você
estava,
Josephine?
Olhei
através
da
porta
entreaberta.
Uns
dois
degraus
conduziam
a
um
pátio
retangular
onde
se
viam
vários
tanques
grandes.
—Na
sala
das
cisternas.
—Por
que
você
estava
na
sala
das
cisternas?
Josephine
respondeu
de
maneira
muito
concisa:
—Descobrindo
coisas.
—E
que
diabo
de
coisas
existem
na
sala
das
cisternas
para
serem
descobertas?
A
isto,
Josephine
apenas
replicou:
—Eu
preciso
lavar-me.
—Eu
diria
que
está
precisando
muito.
Josephine
sumiu
pela
porta
do
banheiro
mais
próximo.
De
lá
de
dentro
olhou
para
mim
e
disse:
—Eu
acho
que
está
na
hora
do
próximo
assassinato,
você
não
acha?
—O
que
é
que
você
quer
dizer...
o
próximo
assassinato?
—Bem,
nos
livros
há
sempre
um
segundo
assassinato
mais
ou
menos
nessa
hora.
Alguém
que
sabe
de
alguma
coisa
é
eliminado
antes
que
possa
contar
o
que
sabe.
—Você
lê
histórias
de
detetives
demais,
Josephine.
Na
vida
real
não
é
assim.
E,
se
alguém
nesta
casa
sabe
de
alguma
coisa,
a
última
coisa
que
fará
será
falar
sobre
isto.
A
resposta
que
Josephine
deu
foi
meio
confusa
devido
ao
jato
d'água
da
torneira.
—
Às
vezes
é
algo
que
eles
não
sabem
que
sabem.
Eu
pisquei
os
olhos
ao
tentar
compreender
o
significado
do
que
ela
dissera.
E
então,
deixando
Josephine
entregue
às
suas
abluções,
eu
desci
para
o
andar
de
baixo.
No
instante
em
que
eu
estava
saindo
da
porta
da
escadaria,
Brenda
apareceu
num
suave
rumor
pela
porta
da
sala
de
visitas.
Ela
chegou
perto
de
mim
e
pousou
a
mão
em
meu
braço,
me
olhando
no
rosto.
—E
então?
—
perguntou.
Era
a
mesma
procura
de
informações
que
Laurence
demonstrara,
apenas
a
pergunta
fora
formulada
de
outra
forma.
E
sua
única
palavra
fora
mais
efetiva.
Eu
balancei
a
cabeça.
—Nada.
Ela
deu
um
suspiro
profundo.
—Eu
estou
com
tanto
medo,
Charles
—
disse
ela.
—
Eu
estou
com
tanto
medo...
O
seu
medo
era
mesmo
real.
Ela
me
contagiou
naquele
espaço
apertado.
Eu
queria
tranqüilizá-la,
ajudá-la.
Uma
vez
mais
eu
sentia
aquele
sentimento
pungente
de
sabê-la
terrivelmente
sozinha
naquele
ambiente
hostil.
Ela
poderia
igualmente
ter
gritado:
"Quem
está
a
meu
lado?"
E
qual
teria
sido
a
resposta?
Laurence
Brown?
E
quem
era,
afinal
de
contas,
Laurence
Brown?
Não
era
um
ponto
de
apoio
num
momento
de
tormenta.
O
lado
mais
fraco
da
corda.
Eu
me
lembrava
dos
dois
passeando
no
jardim
na
noite
anterior.
Queria
ajudá-la.
Queria
ajudá-la
com
todas
as
minhas
forças.
Mas
não
havia
muita
coisa
que
eu
pudesse
fazer
ou
dizer.
E
eu
tinha
no
fundo
de
minha
consciência
um
senti--mento
de
culpa,
como
se
os
olhos
desdenhosos
de
Sophia
me
estivessem
espreitando.
Eu
me
lembrava
da
voz
de
Sophia
dizendo:
"Então
ela
conquistou
você".
E
Sophia
não
via,
nem
queria
ver
o
lado
de
Brenda
na
história.
Sozinha,
suspeita
do
crime,
sem
ninguém
para
ficar
a
seu
lado.
—O
inquérito
é
amanhã.
O
que...
o
que
vai
acontecer?
Neste
ponto
eu
podia
ajudá-la.
—Nada
—
eu
garanti.
—
Você
não
precisa
preocupar-se
com
isto.
Será
adiado
para
a
polícia
continuar
com
as
investigações.
Mas
isto
vai
certamente
deixar
a
imprensa
alerta.
Que
eu
saiba,
até
agora
não
saiu
nada
nos
jornais
que
deixasse
entrever
que
a
morte
não
foi
natural.
Os
Leonides
ainda
têm
um
bocado
de
influência.
Mas
um
inquérito
adiado...
bem,
aí
a
farra
vai
começar.
(Que
coisas
esquisitas
que
a
gente
diz!
A
farra!
Por
que
é
que
eu
tinha
de
escolher
esta
palavra?)
—Será
que...
será
que
vai
ser
muito
ruim?
—Eu
não
daria
nenhuma
entrevista
se
fosse
você.
Sabe,
Brenda,
você
devia
arranjar
um
advogado...
Ela
recuou
num
gesto
de
horror.
—Não...
não
é
o
que
você
está
pensando.
Mas
alguém
que
zele
pelos
seus
interesses
e
a
aconselhe
como
deve
proceder,
o
que
deve
dizer
e
fazer
e
o
que
não
deve
dizer
ou
fazer.
—
Você
sabe
—
eu
acrescentei
—
você
está
sempre
muito
só.
Sua
mão
apertou
meu
braço
com
mais
força.
—Sim
—
disse
ela.
—
Você
compreendeu
isto.
Você
me
tem
ajudado,
Charles,
você
me
tem
ajudado
muito...
Eu
desci
as
escadas
com
um
sentimento
de
calor,
de
alegria...
Foi
então
que
vi
Sophia
parada
em
frente
à
porta
principal.
Sua
voz
era
fria
e
bastante
seca.
—Há
quanto
tempo
você
sumiu
—
disse
ela.
—
Ligaram
para
você
de
Londres.
Seu
pai
quer
falar-lhe.
—Lá
na
Yard?
—Sim.
—Não
imagino
o
que
eles
queiram
comigo.
Não
disseram
nada?
Sophia
balançou
a
cabeça
negativamente.
Seus
olhos
estavam
ansiosos.
Puxei-a
para
mim.
—Não
se
preocupe,
querida.
Eu
voltarei
logo.
Capítulo
17
HAVIA
UMA
FORTE
tensão
na
atmosfera
do
escritório
de
meu
pai.
O
Velho
estava
sentado
à
sua
escrivaninha.
O
Inspetor
Taverner
encostado
ao
batente
da
janela.
Na
cadeira
destinada
aos
visitantes
estava
sentado
o
Sr.
Gaitskill,
que
parecia
contrariado.
—...
uma
extraordinária
falta
de
confiança
—
ele
estava
dizendo
acidamente.
—É
claro,
é
claro
—
meu
pai
falou
apaziguador.
—
Ah,
alô,
Charles,
você
veio
depressa.
Aconteceu
um
fato
bastante
surpreendente.
—Imprecedente
—
disse
Gaitskill.
Alguma
coisa
havia
visivelmente
contrariado
o
pequeno
advogado
em
seu
íntimo.
Por
trás
dele,
o
Inspetor
Taverner
fez
uma
careta
para
mim.
—Se
eu
recapitulasse?
—
perguntou
meu
pai.
—
O
Sr.
Gaitskill
recebeu
uma
comunicação
assaz
surpreendente
esta
manhã,
Charles.
De
um
Sr.
Agrodopolous,
proprietário
do
restaurante
Delphos.
É
um
senhor
muito
idoso,
grego
de
nascimento,
e
quando
era
moço
foi
ajudado
e
prestigiado
por
Aristide
Leonides.
Ele
permaneceu
sempre
muito
agradecido
a
seu
amigo
e
benfeitor
e,
ao
que
parece,
Leonides
depositava
muita
confiança
nele.
—Eu
nunca
pude
imaginar
que
Leonides
fosse
assim
tão
desconfiado
e
de
natureza
tão
secretiva
—
disse
Gaitskill.
—É
claro,
ele
já
estava
muito
avançado
nos
anos...
praticamente
caduco,
pode-se
dizer.
—A
nacionalidade
conta
—
disse
meu
pai
gentilmente.
—Sabe,
Gaitskill,
quando
se
fica
muito
idoso
o
seu
pensamento
se
volta
para
os
dias
de
sua
juventude
e
para
os
amigos
de
sua
juventude.
—Mas
os
negócios
de
Leonides
estão
em
minhas
mãos
há
mais
de
quarenta
anos
—
disse
Gaitskill.
—
Quarenta
e
três
anos
e
seis
meses,
para
ser
exato.
Taverner
fez
outra
careta.
—O
que
foi
que
aconteceu?
—
perguntei.
Gaitskill
ia
abrindo
a
boca
mas
meu
pai
adiantou-se.
—O
Sr.
Agrodopolous
declarou
nesta
comunicação
que
estava
obedecendo
a
certas
instruções
que
lhe
haviam
sido
dadas
por
seu
amigo
Aristide
Leonides.
Resumindo,
há
cerca
de
um
ano,
o
Sr.
Leonides
confiou-lhe
um
envelope
selado
que
ele,
Sr.
Agrodopolous,
deveria
entregar
ao
Sr.
Gaitskill
imediatamente
após
a
morte
do
Sr.
Leonides.
No
caso
de
o
Sr.
Agrodopolous
morrer
primeiro,
seu
filho,
um
afilhado
do
Sr.
Leonides,
deveria
executar
as
mesmas
instruções.
O
Sr.
Agrodopolous
desculpou-se
pela
demora
mas
explicou
que
ele
estivera
doente
com
pneumonia
e
só
soube
da
morte
de
seu
velho
amigo
ontem
à
tarde.
—Tudo
isto
é
muito
antiprofissional
—
disse
Gaitskill.
—Quando
o
Sr.
Gaitskill
abriu
o
envelope
selado
e
tomou
conhecimento
de
seu
conteúdo,
ele
decidiu
que
era
seu
dever...
—Devido
às
circunstâncias
—
explicou
Gaitskill.
—Trazer
ao
nosso
conhecimento
os
documentos.
Eles
consistem
em
um
testamento,
devidamente
assinado
com
testemunhas,
e
uma
carta
explicativa.
—Então
afinal
o
testamento
apareceu?
—
perguntei.
O
Sr.
Gaitskill
ficou
rubro.
—Não
é
o
mesmo
testamento
—
berrou
ele.
—
Não
foi
este
o
documento
que
eu
preparei
a
pedido
do
Sr.
Leonides.
Este
foi
escrito
com
suas
próprias
mãos,
uma
coisa
muito
perigosa
para
qualquer
leigo
fazer.
Ao
que
parece,
a
intenção
do
Sr.
Leonides
era
fazer-me
de
bobo.
O
Inspetor
Taverner
tentou
acalmar
um
pouquinho
a
amargura
reinante.
—Ele
era
um
senhor
muito
idoso,
Sr.
Gaitskill
—
disse.
—
Eles
ficam
meio
gagás
quando
ficam
velhos,
o
senhor
sabe...
não
chegam
a
caducar
de
todo,
mas
ficam
um
pouquinho
excêntricos.
Gaitskill
fungou.
—O
Sr.
Gaitskill
nos
telefonou
—
disse
meu
pai
—
e
nos
fez
tomar
conhecimento
dos
termos
principais
do
testamento
e
eu
lhe
pedi
que
viesse
até
aqui
e
trouxesse
os
documentos
com
ele.
Eu
também
telefonei
a
você,
Charles.
Não
imaginei
por
que
era
que
me
tinham
telefonado.
Parecia-me
bastante
estranho
este
procedimento
de
meu
pai
e
de
Taverner.
Eu
ficaria
sabendo
mais
tarde
do
testamento,
e
não
era
mesmo
da
minha
conta
saber
o
que
o
velho
Leonides
tinha
feito
de
seu
dinheiro.
—É
um
testamento
diferente?
—
perguntei.
—
Eu
quero
dizer,
ele
dispôs
de
sua
fortuna
de
outra
forma?
—Muito
diferente
—
disse
Gaitskill.
Meu
pai
estava
olhando
para
mim.
O
Inspetor
Taverner
estava
tendo
muito
cuidado
para
não
olhar
para
mim.
Não
sei
por
que,
mas
eu
comecei
a
me
sentir
ligeiramente
encabulado...
Algo
estava-se
passando
no
pensamento
deles
—
e
era
algo
que
eu
não
tinha
a
mínima
idéia
do
que
podia
ser.
Olhei
inquisitivamente
para
Gaitskill.
—Não
é
da
minha
conta
—
disse
eu
—
mas...
Ele
me
respondeu:
—As
disposições
testamentárias
do
Sr.
Leonides
não
são,
é
lógico,
secretas
—
disse
ele.
—
Eu
achei
que
era
meu
dever
apresentar
os
fatos
às
autoridades
policiais
primeiro
e
deixar
que
me
guiassem
para
o
meu
procedimento
seguinte.
Eu
creio
—
fez
uma
pausa
—
que
há
um...
certo
entendimento
eu
diria...
entre
o
senhor
e
a
Srta.
Sophia
Leonides?
—Eu
espero
casar-me
com
ela
—
disse
eu
—
porém
ela
não
deseja
um
noivado
neste
momento.
—Muito
adequado
—
disse
Gaitskill.
Eu
não
concordava
com
ele.
Mas
não
era
este
o
momento
para
discutirmos
isto.
—Por
este
testamento
—
continuou
Gaitskill,
—
datado
de
29
de
novembro
do
ano
passado,
o
Sr.
Leonides,
após
um
dote
para
sua
esposa
de
cento
e
cinqüenta
mil
libras,
deixa
a
sua
fortuna
inteira,
real
e
pessoal,
para
sua
neta
Sophia
Katherine
Leonides,
exclusivamente.
Eu
quase
me
engasguei.
Fosse
o
que
fosse
que
eu
estava
esperando,
não
era
absolutamente
isto.
—Ele
deixou
tudo
para
Sophia!
—
exclamei.
—
Que
coisa
extraordinária!
Alguma
razão?
—Ele
explicou
suas
razões
com
muita
clareza
na
carta
anexa
—
disse
meu
pai
e
pegou
uma
folha
de
papel
que
estava
à
sua
frente
na
escrivaninha.
—
O
senhor
não
tem
nenhuma
objeção
que
Charles
leia
isto,
Sr.
Gaitskill?
—Eu
me
pus
em
suas
mãos
—
disse
Gaitskill
com
frieza.
—
A
carta
pelo
menos
oferece
uma
explicação...
e
possivelmente
(se
bem
que
eu
tenha
minhas
dúvidas
quanto
a
isto)
uma
desculpa
para
a
extraordinária
conduta
do
Sr.
Leonides.
O
Velho
me
entregou
a
carta.
Estava
escrita
numa
letrinha
intricada
com
uma
tinta
muito
preta.
O
talhe
da
letra
demonstrava
caráter
e
individualidade,
não
era
absolutamente
a
letra
de
um
velho
—
exceto
talvez
pelo
desenho
caprichoso
das
letras,
característico
dos
tempos
antigos,
quando
a
escrita
era
algo
dificilmente
adquirido
e
devidamente
valorizado.
Dizia:
Caro
Gaitskill:
Você
vai
ficar
surpreso
ao
receber
esta
carta,
e
provavelmente
ofendido.
Mas
eu
tenho
minhas
próprias
razões
em
proceder
de
uma
forma
que
para
você
talvez
pareça
desnecessariamente
secreta.
Eu
sempre
fui
uma
pessoa
que
acredita
na
individualidade.
Numa
família
(isto
eu
observei
durante
a
minha
infância
e
nunca
esqueci),
há
sempre
um
caráter
mais
forte
e
geralmente
cabe
a
esta
pessoa
zelar
e
ter
a
responsabilidade
de
tomar
conta
da
família.
Na
minha
família
eu
fui
esta
pessoa.
Vim
para
Londres,
ali
me
estabeleci,
sustentei
minha
mãe
e
meus
avós
idosos
em
Smyrna,
livrei
um
de
meus
irmãos
das
garras
da
lei,
assegurei
a
liberdade
de
minha
irmã
salvando-a
de
um
casamento
infeliz
e
muitas
coisas
assim.
Deus
foi
generoso
comigo
concedendo-me
uma
vida
longa
e
eu
pude
zelar
e
cuidar
de
meus
filhos
e
dos
filhos
de
meus
filhos.
Muitos
me
foram
levados
pela
morte,
os
outros,
e
eu
sou
feliz
ao
dizê-lo,
estão
sob
o
meu
teto.
Quando
eu
morrer,
a
responsabilidade
que
eu
tenho
deverá
recair
em
outra
pessoa.
Refleti
muito
pensando
em
dividir
minha
fortuna
igualmente
entre
todos
os
meus
entes
queridos
—
mas
fazendo
isso
eu
não
estaria
sendo
justo
com
todos.
Os
homens
nascem
diferentes
uns
dos
outros.
Para
compensar
a
desigualdade
natural
da
Natureza,
nós
precisamos
endireitar
a
balança.
Em
outras
palavras,
alguém
deveria
ser
o
meu
sucessor,
deveria
tomar
sobre
os
ombros
o
cargo
de
responsabilidade
pelo
resto
da
família.
Depois
de
uma
observação
cuidadosa,
eu
cheguei
à
conclusão
de
que
nenhum
de
meus
filhos
poderia
arcar
com
esta
responsabilidade.
Meu
muito
querido
filho
Roger
não
tem
nenhum
sentido
de
negócios,
e
se
bem
que
seja
de
uma
natureza
muito
amável
é
impulsivo
demais
para
poder
julgar
os
outros.
Meu
filho
Philip
é
muito
inseguro
de
si
mesmo
e
não
é
capaz
de
fazer
nada
a
não
ser
se
encolher
perante
a
vida.
Eustace,
meu
neto,
ainda
é
muito
jovem
e
eu
não
creio
que
tenha
as
qualidades
de
percepção
e
julgamento
necessárias.
Ele
é
indolente
e
facilmente
influenciável
pelas
idéias
da
primeira
pessoa
que
encontra.
Apenas
minha
neta
Sophia
me
parece
ter
as
qualidades
positivas
requeridas.
Ela
tem
cabeça,
julgamento,
coragem,
a
mente
livre
de
preconceitos
e,
penso
eu,
generosidade
de
espírito.
A
ela,
eu
confio
o
bem-estar
da
família
—
eo
bem-estar
de
minha
querida
cunhada
Edith
de
Haviland,
pela
devoção
de
toda
a
vida
à
minha
família
e
a
qual
eu
agradeço
de
todo
o
coração.
Isto
explica
o
documento
anexo.
O
que
será
difícil
de
explicar
—
ou
seja,
difícil
de
explicar
a
você
—
é
o
ardil
que
eu
empreguei.
Achei
que
não
devia
levantar
nenhuma
especulação
sobre
a
disposição
de
minha
fortuna,
e
não
tenho
a
intenção
de
deixar
que
minha
família
saiba
que
Sophia
será
a
minha
herdeira.
Uma
vez
que
meus
dois
filhos
já
têm
consideráveis
fortunas
pessoais
à
sua
disposição,
eu
não
creio
que
as
minhas,
disposições
testamentárias
os
coloque
numa
posição
humilhante.
Para
abafar
a
curiosidade
e
a
suspeita,
eu
lhe
pedi
que
me
preparasse
um
testamento.
Este
testamento
eu
leria
para
toda
a
família
reunida.
Poria
este
testamento
sobre
a
minha
mesa,
colocaria
uma
folha
de
papel
sobre
ele,
e
pediria
que
fossem
chamados
dois
empregados.
Quando
eles
chegassem,
eu
escorregaria
a
folha
de
papel
sobre
o
documento,
assinaria
meu
nome
e
pediria
a
eles
que
assinassem
também.
Não
tenho
necessidade
de
acrescentar
que
o
testamento
que
eu
e
eles
havíamos
assinado
seria
o
testamento
que
eu
agora
anexo
a
esta
carta
e
não
o
que
você
preparara
e
que
eu
lera
em
voz
alta.
Eu
sei
que
não
espero
que
você
vá
compreender
o
que
me
levou
a
executar
tal
coisa.
Eu
lhe
pedirei
apenas
que
me
perdoe
por
deixá-lo
às
escuras.
Um
velho
homem
gosta
de
guardar
seus
pequenos
segredos.
Obrigado,
meu
velho
amigo,
pela
assiduidade
que
você
sempre
dedicou
aos
meus
negócios.
Transmita
a
Sophia
o
meu
amor.
Peça-lhe
que
vele
pelo
bem
da
família
e
proteja-a
de
todos
os
males.
Seu
amigo
sincero,
Aristide
Leonides
Li
este
estranho
documento
com
imenso
interesse.
—Extraordinário!
—
exclamei.
—Extremamente
extraordinário
—
disse
Gaitskill,
levantando-se.
—
Eu
repito,
penso
que
meu
velho
amigo
Leonides
devia
ter
confiado
em
mim.
—Não,
Gaitskill
—
disse
meu
pai.
—
Ele
era
um
enrolado
nato.
Gostava,
eu
diria,
de
fazer
as
coisas
sempre
meio
fora
da
lei.
—Isto
mesmo,
senhor
—
disse
o
Inspetor
Taverner.
—
Se
havia
alguém
enrolado
neste
mundo,
era
ele
—
acrescentou
com
convicção.
Gaitskill
saiu
altivamente
sem
se
acalmar.
Ele
fora
ferido
no
mais
profundo
âmago
de
seus
sentimentos
profissionais.
—Ele
foi
ferido
fundo
—
disse
Taverner.
—
É
uma
firma
muito
respeitável,
a
Gaitskill,
Callum
&
Gaitskill.
Com
eles
não
se
fazem
trapaças.
Quando
o
velho
Leonides
fazia
uma
transação
duvidosa,
ele
nunca
a
fazia
através
da
Gaitskill,
Callum
&
Gaitskill.
Ele
tinha
uma
meia
dúzia
de
firmas
de
advocacia
diferentes
que
atuavam
para
ele.
Oh,
como
ele
era
enrolado!
—E
nunca
o
provou
tanto
como
quando
fez
este
testamento
—
disse
meu
pai.
—Nós
fomos
uns
tolos
—
disse
Taverner.
—
Pensando
melhor,
a
única
pessoa
que
podia
ter
feito
algum
truque
com
o
testamento
era
o
próprio
velho.
Apenas
a
idéia
não
nos
ocorreu
nunca!
Eu
me
lembrei
do
sorriso
superior
de
Josephine
ao
dizer:
—A
polícia
não
é
burra?
Mas
Josephine
não
estivera
presente
no
momento
da
assinatura
do
testamento.
E
mesmo
que
ela
estivesse
do
lado
de
fora
da
porta
escutando
(o
que
eu
estava
certo
a
acreditar)
ela
dificilmente
poderia
adivinhar
o
que
seu
avô
estava
fazendo.
O
que
é
que
ela
sabia
que
a
fizera
dizer
que
a
polícia
era
estúpida?
Ou
novamente
talvez
ela
se
estivesse
mostrando?
Surpreso
pelo
silêncio
que
havia
na
sala,
levantei
os
olhos
rapidamente
—
ambos,
meu
pai
e
Taverner,
me
observavam.
Não
sei
o
que
havia
neles
que
me
obrigou
a
deixar
escapar
um
desafio:
—Sophia
não
sabia
de
nada
sobre
isto!
Absolutamente
de
nada!
—Não?
—
disse
meu
pai.
Eu
não
soube
se
ele
estava
concordando
ou
se
perguntara
algo.
—Ela
ficará
absolutamente
estarrecida!
—Será?
—Estarrecida!
Houve
uma
pausa.
Então,
numa
dissonância
repentina
o
telefone
da
mesa
de
meu
pai
soou.
—Sim?
—
Ele
ergueu
o
receptor,
escutou
e
disse:
—
Pode
ligar.
Olhou
para
mim.
—É
a
sua
jovem
—
disse
ele.
—
Ela
quer
falar
conosco.
É
urgente.
Eu
peguei
o
aparelho
de
suas
mãos.
—Sophia?
—Charles?
É
você?
É...
Josephine!
—
a
voz
dela
estremeceu
ligeiramente.
—O
que
houve
com
Josephine?
—Ela
foi
ferida
na
cabeça.
Concussão.
Ela...
ela
está
muito
mal...
Eles
dizem
que
talvez
ela
não
recobre
a
consciência...
Eu
me
virei
para
os
dois.
—Josephine
foi
posta
a
nocaute
—
eu
disse.
Meu
pai
pegou
o
aparelho
de
minha
mão.
Disse
secamente
para
mim:
—Eu
lhe
disse
para
ficar
de
olho
naquela
criança...
Capítulo
18
SEM
PERDA
DE
TEMPO,
Taverner
e
eu
estávamos
correndo
num
veloz
carro
da
polícia
em
direção
a
Swinly
Dean.
Eu
me
lembrei
de
Josephine,
saindo
do
pátio
das
cisternas
e
seu
comentário
frívolo
de
que
"estava
na
hora
do
segundo
crime".
A
pobre
criança
não
tinha
idéia
de
que
seria
ela
a
vítima
do
"segundo
crime".
Eu
aceitei
plenamente
a
reprimenda
que
meu
pai
tacitamente
me
deu.
É
claro
que
eu
devia
ter
ficado
de
olho
em
Josephine.
Apesar
de
nem
eu
nem
Taverner
termos
a
mínima
pista
quanto
ao
envenenador
do
Sr.
Leonides,
era
bastante
possível
que
Josephine
tivesse.
O
que
eu
tomara
por
uma
tolice
infantil
e
"exibição"
poderia
muito
bem
ser
algo
diferente.
Josephine,
praticando
o
seu
esporte
favorito
de
espionar
e
bisbilhotar,
poderia
ter
ficado
de
posse
de
alguma
informação
a
que
talvez
nem
ela
própria
houvesse
atribuído
o
valor
devido.
Eu
me
lembrei
do
raminho
que
estalara
no
jardim.
Eu
tivera
o
pressentimento
que
o
perigo
estava
por
perto.
Agi
assim
naquele
instante,
mas
depois,
minhas
suspeitas
me
pareceram
melodramáticas
e
irreais.
Pelo
contrário,
eu
deveria
ter
imaginado
que
houvera
um
crime,
e
quem
o
tivesse
cometido
pusera
o
seu
pescoço
em
perigo,
e
conseqüentemente
esta
mesma
pessoa
não
hesitaria
em
repetir
o
crime
se
assim
a
sua
segurança
fosse
garantida.
Talvez
Magda,
por
algum
obscuro
instinto
materno,
percebesse
que
Josephine
estava
em
perigo,
e
talvez
tenha
sido
este
o
motivo
de
sua
febril
e
súbita
impetuosidade
de
enviar
a
criança
para
a
Suíça.
Sophia
veio
à
porta
para
nos
receber.
Josephine,
disse
ela,
fora
levada
de
ambulância
para
o
Hospital
Geral
de
Market
Basing.
O
Dr.
Gray
lhes
poria
ao
corrente
o
mais
rápido
possível
sobre
o
resultado
das
radiografias.
—Como
foi
que
aconteceu?
—
perguntou
Taverner.
Sophia
guiou-nos
até
os
fundos
da
casa
e
por
uma
porta
entramos
num
pequeno
pátio
abandonado.
Em
um
canto
havia
uma
outra
porta
entreaberta.
—Era
uma
espécie
de
lavandaria
—
explicou
Sophia.
—
Há
um
buraco
para
o
gato
passar
na
parte
de
baixo
da
porta
e
Josephine
costumava
pendurar-se
nela
e
balançar
para
frente
e
para
trás.
Eu
me
lembrei
que
também
gostava
de
balançar
nas
portas
na
minha
própria
infância.
A
lavandaria
era
pequena
e
bastante
escura.
Havia
alguns
caixotes
de
madeira,
uma
mangueira
velha,
alguns
instrumentos
de
jardinagem
abandonados
e
uns
móveis
quebrados.
Ao
lado
da
porta
havia
um
leão
de
mármore
que
servia
de
calço
para
portas.
—E
o
calço
da
porta
da
frente
—
explicou
Sophia.
—
Deve
ter
sido
posto
em
equilíbrio
no
alto
da
porta.
Taverner
passou
a
mão
por
cima
da
porta.
Era
uma
porta
baixa,
a
parte
de
cima
ficava
apenas
a
uns
trinta
centímetros
acima
de
sua
cabeça.
—Uma
armadilha
—
disse
ele.
Balançou
a
porta,
experimentando-a
para
um
lado
e
para
outro.
Depois,
inclinou-se
sobre
o
bloco
de
mármore
mas
não
o
tocou.
—Alguém
mexeu
nele?
—Não
—
disse
Sophia.
—
Eu
não
deixaria
que
ninguém
o
tocasse.
—Muito
bem.
Quem
foi
que
a
encontrou?
—Fui
eu.
Ela
não
apareceu
para
almoçar
à
uma
hora
da
tarde.
Nannie
estava
chamando.
Ela
passara
pela
cozinha
e
fora
para
o
pátio
das
estrebarias
mais
ou
menos
uns
quinze
minutos
antes.
Nannie
me
dissera:
"Ela
deve
estar-se
balançando
novamente
naquela
porta"
e
eu
vim
aqui
buscá-la.
Sophia
fez
uma
pausa.
—Ela
tinha
o
hábito
de
brincar
assim,
você
disse?
Quem
sabia
disto?
Sophia
balançou
os
ombros.
—Eu
acho
que
todos
aqui
em
casa,
creio
eu.
—Quem
mais
usa
esta
lavandaria?
Jardineiros?
—Quase
ninguém
põe
os
pés
aqui.
—E
este
pequeno
pátio
não
é
visto
da
casa
—
resumiu
Taverner.
—
Qualquer
um
poderia
ter
saído
de
casa
ou
dado
a
volta
pela
frente
e
preparado
a
armadilha.
Mas
seria
arriscado...
Ele
parou,
olhando
para
a
porta
e
balançou-a
levemente
de
um
lado
para
outro.
—Não
se
podia
ter
certeza.
Acertar
ou
errar.
E
era
mais
provável
errar
do
que
acertar.
Mas
ela
não
teve
sorte.
Com
ela
foi
acertar.
Sophia
estremeceu.
Ele
olhou
para
o
chão.
Havia
várias
marcas
no
solo.
—Parece
que
alguém
andou
experimentando
antes...
para
ver
como
iria
cair...
O
barulho
não
chegaria
até
a
casa.
—Não,
nós
não
ouvimos
nada.
Não
tínhamos
idéia
de
que
havia
algo
errado
até
que
eu
vim
até
aqui
e
a
encontrei
deitada
de
bruços...
estatelada
—
a
voz
de
Sophia
tremeu
um
pouco.
—
Havia
sangue
em
seus
cabelos.
—Este
lenço
é
dela?
—
Taverner
apontou
para
um
cachecol
de
lã
xadrez
no
chão.
—Sim.
Usando
o
cachecol
ele
pegou
o
bloco
de
mármore
cuidadosamente.
—Pode
ser
que
tenha
impressões
digitais
—
disse
ele,
falando
com
pouca
esperança.
—
Mas
eu
creio
que
quem
quer
que
tenha
feito
isso
foi...
cuidadoso.
Virou-se
para
mim:
—O
que
é
que
você
está
olhando?
Eu
estava
olhando
para
uma
cadeira
de
cozinha
com
o
encosto
quebrado
que
estava
entre
as
coisas
abandonadas.
No
assento
havia
algumas
marcas
de
terra...
—Curioso
—
disse
Taverner.
—
Alguém
ficou
de
pé
nesta
cadeira
com
pés
enlameados.
Por
que
razão?
Ele
balançou
a
cabeça.
—Que
horas
eram
quando
a
encontrou,
Srta.
Leonides?
—Deve
ter
sido
à
uma
e
cinco.
—E
a
sua
Nannie
viu-a
saindo
vinte
minutos
antes.
Qual
foi
a
última
pessoa
que
esteve
antes
disso
na
lavandaria?
—Não
tenho
idéia.
Provavelmente
a
própria
Josephine.
Ela
estava-se
balançando
na
porta
esta
manhã
depois
do
café,
eu
sei.
Taverner
aquiesceu
com
a
cabeça.
—Então
desta
hora
até
um
quarto
para
a
uma
alguém
preparou
a
armadilha.
A
senhorita
disse
que
este
pedaço
de
mármore
serve
de
calço
para
a
porta
da
entrada?
Tem
idéia
de
quando
deu
falta
dele?
Sophia
balançou
negativamente
a
cabeça.
—A
porta
não
foi
aberta
totalmente
durante
o
dia
inteiro.
Fez
muito
frio.
—Tem
alguma
idéia
de
onde
estavam
as
pessoas
da
casa
hoje
de
manhã?
—Eu
saí
para
dar
um
passeio.
Eustace
e
Josephine
tiveram
aulas
até
as
doze
e
meia,
com
uma
pausa
às
dez
e
meia.
Papai,
eu
penso,
esteve
na
biblioteca
a
manhã
inteira.
—Sua
mãe?
—Ela
estava
saindo
do
quarto
de
dormir
quando
eu
voltei
do
passeio...
devia
ser
meio
dia
e
quinze.
Ela
não
se
levanta
muito
cedo.
Nós
entramos
na
casa
outra
vez.
Segui
Sophia
até
a
biblioteca.
Philip,
muito
pálido
e
ansioso,
estava
sentado
na
cadeira
de
costume.
Magda,
encolhida
sobre
seus
joelhos,
chorava
baixinho.
Sophia
perguntou:
—Eles
já
telefonaram
do
hospital?
Philip
abanou
a
cabeça.
Magda
soluçou:
—Por
que
não
me
deixaram
ir
com
ela?
Meu
bebezinho...
meu
bebezinho
feio
e
engraçado.
E
eu
gostava
de
brincar
com
ela
dizendo
que
tinha
sido
trocada
pelas
fadas
e
ela
ficava
furiosa.
Como
eu
pude
ser
tão
cruel?
E
agora
ela
vai
morrer...
Eu
sei
que
ela
vai
morrer!
—Vamos,
meu
bem
—
disse
Philip.
—
Tenha
calma.
Eu
senti
que
não
havia
lugar
para
mim
nesta
cena
familiar
de
ansiedade
e
desespero.
Saí
mansamente
e
fui
procurar
Nannie.
Ela
estava
sentada
na
cozinha
chorando
baixinho.
—É
um
castigo
para
mim,
Sr.
Charles,
pelas
coisas
horríveis
que
eu
estava
pensando.
Um
castigo,
é
isto
que
é.
Não
tentei
decifrar
o
seu
significado.
—Há
maldade
nesta
casa.
É
isto
que
há.
Eu
não
queria
ver
nem
acreditar.
Mas
só
vendo
para
crer.
Alguém
matou
o
patrão
e
este
mesmo
alguém
tentou
matar
Josephine.
—Por
que
será
que
tentaram
matar
Josephine?
Nannie
puxou
um
canto
do
lenço
de
um
olho
e
me
deu
uma
olhada
perspicaz.
—O
senhor
sabe
muito
bem
como
ela
é,
Sr.
Charles.
Ela
gosta
de
saber
de
tudo.
Ela
sempre
foi
assim,
mesmo
quando
era
um
tiquinho
de
gente.
Costumava
esconder-se
embaixo
da
mesa
de
jantar
e
ouvir
o
que
as
criadas
falavam
e
depois
fazia
chantagem
com
elas.
Fazia
com
que
ela
se
sentisse
importante.
Sabe?
Ela
foi
muito
abandonada
pela
patroa.
Não
era
uma
criança
bonita
como
as
outras
duas.
Sempre
foi
uma
menininha
feia.
Uma
bruxinha,
a
patroa
costu-
mava
chamá-la.
Eu
sempre
achei
ruim
com
a
patroa
por
isto,
pois
eu
acho
que
deixa
as
crianças
amargas.
Mas
de
uma
forma
engraçada,
ela
se
vingava
descobrindo
coisas
sobre
as
pessoas
e
deixando
que
elas
soubessem
que
ela
sabia.
Mas
isto
não
é
uma
coisa
a
se
fazer
quando
há
um
envenenador
por
aí!
Não,
não
era
uma
coisa
a
se
fazer!
E
isto
me
trouxe
outra
coisa
à
cabeça.
Perguntei
a
Nannie:
—Você
sabe
onde
ela
guarda
um
livrinho
preto...
um
livrinho
de
notas
onde
ela
costuma
escrever
as
coisas
que
descobre?
—Eu
sei
o
que
o
senhor
quer
dizer,
Sr.
Charles.
Muito
manhosa
é
que
ela
é,
sabe?
Eu
a
via
chupando
a
ponta
do
lápis
e
escrevendo
no
livrinho
e
chupando
outra
vez
o
lápis.
E
"não
faça
isso"
eu
dizia,
"você
vai-se
envenenar
com
o
chumbo"
e
"não,
eu
não
vou
não"
ela
dizia,
"porque
não
é
mesmo
chumbo
no
lápis,
é
grafita"
apesar
de
eu
não
saber
por
que
é
que
é
assim,
pois
se
chamamos
um
lápis
de
ponta
de
chumbo
é
porque
deve
haver
chumbo
nele.
—Você
pensa
que
é
assim
—
concordei
eu
—
mas
na
verdade
ela
tinha
razão
(Josephine
sempre
tinha
razão!)
—
E
sobre
o
livrinho?
Você
sabe
onde
ela
costuma
guardá-lo?
—Não
tenho
idéia,
senhor.
É
outra
das
coisas
em
que
ela
é
ardilosa.
—Não
estava
com
ela
quando
foi
encontrada?
—Oh,
não,
Sr.
Charles,
não
havia
nenhum
livro.
Será
que
alguém
pegara
o
livrinho?
Ou
talvez
ela
o
escondera
em
seu
quarto?
Tive
a
idéia
de
ir
procurá-lo
lá.
Eu
não
tinha
certeza
de
qual
era
o
quarto
de
Josephine
mas
hesitei
ao
ouvir
a
voz
de
Taverner
me
chamando
do
corredor.
—Venha
cá
—
disse
ele.
—
Eu
estou
no
quarto
da
menina.
Você
já
viu
coisa
igual?
Eu
cheguei
à
porta
e
parei
estarrecido.
O
pequeno
quarto
parecia
que
recebera
a
visita
de
um
furacão.
As
gavetas
da
cômoda
estavam
puxadas
e
seu
conteúdo
esparramado
pelo
chão.
O
colchão
e
as
cobertas
tinham
sido
arrancados
da
caminha.
Os
tapetes
estavam
empilhados.
As
cadeiras
estavam
de
pernas
para
cima,
os
quadros
arrancados
das
paredes,
as
fotografias
arrancadas
das
molduras.
—
Deus
do
Céu!
—
exclamei
—
Que
foi
isto?
—O
que
é
que
você
acha?
—Alguém
estava
procurando
alguma
coisa.
—Exatamente.
Eu
dei
uma
olhada
em
torno
e
assobiei.
—Mas
quem
poderia
ter...
Certamente
ninguém
poderia
entrar
aqui
e
fazer
esta
bagunça
sem
que
fosse
ouvido...
ou
visto?
—Por
que
não?
A
Sra.
Leonides
passa
a
manhã
inteira
no
quarto,
fazendo
as
unhas
e
telefonando
para
as
amigas
e
brincando
de
experimentar
suas
roupas.
Philip
senta-se
na
biblioteca
enfiado
nos
livros.
A
empregada
está
na
cozinha
descascando
batatas
e
cortando
vagens.
Numa
família
em
que
cada
um
conhece
os
hábitos
dos
outros
isso
seria
muito
fácil.
E
eu
lhe
digo
uma
coisa.
Qualquer
um
desta
casa
podia
ter
feito
este
trabalhinho...
ter
preparado
a
armadilha
para
a
menina
e
revistado
seu
quarto.
Mas
era
alguém
que
estava
com
pressa,
alguém
que
não
teve
tempo
de
dar
uma
busca
minuciosa.
—Qualquer
um
da
casa,
você
acha?
—Sim,
eu
já
chequei
todos.
Cada
um
tem
um
tempinho
que
não
pode
provar
onde
estava.
Philip,
Magda,
a
empregada,
sua
moça.
Lá
em
cima
a
mesma
coisa.
Brenda
passou
a
maior
parte
da
manhã
sozinha.
Laurence
e
Eustace
tiveram
meia
hora
de
recreio
—
das
dez
e
meia
às
onze...
você
esteve
com
eles
parte
deste
tempo...
mas
não
o
tempo
todo.
A
Srta.
de
Haviland
estava
no
jardim
sozinha.
Roger
estava
em
seu
estúdio.
—Então
somente
Clemency
estava
em
Londres
no
trabalho.
—Não,
nem
ela
saiu
hoje.
Ficou
em
casa
o
dia
todo
com
dor
de
cabeça;
estava
sozinha
no
quarto
com
a
sua
dor
de
cabeça!
Qualquer
um
deles...
qualquer
um
desses
desgraçados!
E
eu
não
sei
qual
deles!
Não
tenho
idéia.
Se
eu
soubesse
o
que
é
que
eles
estavam
procurando
aqui...
Seus
olhos
deram
a
volta
do
quarto
desarrumado.
—E
se
eu
soubesse
se
eles
encontraram
o
que
queriam...
Algo
estalou
em
minha
cabeça
—
um
pensamento...
Taverner
interrompeu-o
ao
me
perguntar:
—O
que
é
que
esta
menina
estava
fazendo
quando
você
a
viu
pela
última
vez?
—Espere
—
disse
eu.
Saí
do
quarto
às
pressas
e
subi
as
escadas.
Passei
pela
porta
da
esquerda
e
fui
até
o
andar
de
cima.
Empurrei
a
porta
da
sala
das
cisternas,
subi
os
dois
degraus
e,
baixando
a
cabeça
porque
o
teto
era
muito
baixo
e
sujo,
dei
uma
olhada
em
torno.
Josephine
dissera
quando
eu
lhe
perguntara
o
que
ela
estava
fazendo
ali
que
ela
estava
"procurando
pistas".
Eu
não
sabia
o
que
ela
podia
estar
procurando
naquela
sala
cheia
de
teias
de
aranha
e
tanques
cheios
d'água.
Mas
uma
tal
peça
daria
um
bom
esconderijo.
Considerei
provável
que
Josephine
tivesse
escondido
alguma
coisa
por
ali,
alguma
coisa
que
ela
sabia
muito
bem
que
não
era
da
sua
conta.
Se
assim
fosse,
eu
não
deveria
levar
muito
tempo
para
encontrar.
Só
levei
três
minutos.
Enfiado
por
detrás
do
tanque
maior,
de
onde
saía
um
assobio
sibilante
que
acrescentava
uma
nota
fantasmagórica
à
atmosfera,
eu
encontrei
um
maço
de
cartas
enroladas
num
pedaço
de
papel
pardo.
Li
a
primeira
carta:
Oh,
Laurence
—
meu
querido,
meu
único
e
verdadeiro
amor...
Foi
maravilhoso
a
noite
passada
quando
você
citou
aquele
verso
de
poesia.
Eu
sabia
que
era
dirigido
para
mim,
apesar
de
você
nem
me
ter
olhado.
Aristide
disse:
"Você
lê
versos
muito
bem".
Ele
não
adivinhou
o
que
ambos
estávamos
sentindo.
Meu
querido,
eu
tenho
certeza
de
que
brevemente
tudo
vai
dar
certo.
Nós
poderemos
alegrar-nos
que
ele
não
tenha
sabido
nunca
e
que
morreu
feliz.
Ele
foi
bom
para
mim.
Eu
não
quereria
que
ele
sofresse.
Mas
eu
não
penso
mesmo
que
se
possa
retirar
algum
prazer
da
vida
depois
dos
oitenta
anos.
Eu
não
quereria!
Breve
nós
estaremos
juntos
para
sempre.
Como
vai
ser
maravilhoso
quando
eu
puder
dizer
a
você:
meu
marido
adorado...
Meu
amor,
nós
fomos
feitos
um
para
o
outro,
eu
te
amo,
eu
te
amo,
eu
te
amo
—
eu
sei
que
nosso
amor
não
tem
fim,
eu...
Havia
muito
mais,
mas
eu
não
quis
continuar.
Fazendo
uma
careta,
desci
as
escadas
e
joguei
o
pacote
nas
mãos
de
Taverner.
—É
possível
—
disse
eu
—
que
fosse
isto
o
que
o
nosso
amigo
desconhecido
estivesse
procurando.
Taverner
leu
alguns
trechos,
assobiou
e
remexeu
entre
as
várias
cartas.
Então
foi
que
olhou
para
mim
com
a
expressão
de
um
gato
que
acabava
de
ser
alimentado
com
o
melhor
dos
cremes.
—Bem
—
disse
ele
mansamente,
—
isto
liquida
as
esperanças
da
Sra.
Brenda
Leonides.
E
também
as
do
Sr.
Laurence
Brown.
Então
eram
eles,
o
tempo
todo...
Capítulo
19
PARECEU-ME
ESTRANHO,
ao
olhar
para
trás,
como
a
minha
piedade
e
simpatia
por
Brenda
Leonides
desapareceram
repentinamente
com
a
descoberta
de
suas
cartas,
das
cartas
que
ela
escrevera
para
Laurence
Brown.
Teria
sido
a
minha
vaidade
ferida
que
não
agüentara
a
revelação
de
que
ela
amava
Laurence
com
uma
paixão
boba
e
piegas
e
que
me
mentira
deliberadamente?
Eu
não
sei.
Não
sou
um
psicólogo.
Prefiro
acreditar
que
foi
o
pensamento
em
Josephine,
ferida
de
maneira
cruel
por
alguém
que
queria
silenciá-la,
que
apagara
os
últimos
vestígios
de
minha
simpatia.
—Se
me
perguntarem,
eu
diria
que
Brown
preparou
a
armadilha
—
disse
Taverner
—
e
isto
explica
o
que
foi
que
me
intrigou.
—O
que
foi
que
o
intrigou?
—Bem,
era
uma
coisa
tão
boba.
Olhe
só,
se
a
garota
passou
a
mão
naquelas
cartas
—
cartas
que
eram
absolutamente
infernais!
—
a
primeira
coisa
a
fazer
era
tentar
reavê-las
—
(afinal
de
contas
a
menina
pode
falar
sobre
as
cartas,
mas
se
não
tem
nada
a
mostrar,
vão
dizer
que
ela
estava
romanceando),
porém
você
não
pode
reavê-
las
porque
não
sabe
onde
estão.
Então
a
única
coisa
a
fazer
é
desembaraçar-se
de
vez
da
menina.
Você
já
cometeu
um
crime
e
não
vai
ter
muitos
escrúpulos
para
cometer
um
outro.
Você
sabe
que
ela
gosta
de
se
balançar
na
porta
de
um
pátio
onde
ninguém
vai.
A
coisa
ideal
é
ficar
escondido
atrás
da
porta
e
abatê-la
quando
vier
com
um
pedaço
de
pau
ou
uma
barra
de
ferro,
ou
ainda
um
pedaço
de
mangueira
no
pescoço.
Estava
tudo
ali
à
mão.
Por
que
mexer
com
um
leão
de
mármore
pendurado
numa
porta
e
que
pode
muito
bem
falhar
completamente
ou,
se
chegar
a
acertá-la,
poderia
fazer
o
serviço
incompleto
(que
foi
o
que
acabou
acontecendo)?
Eu
lhe
pergunto:
por
quê?
—Bem
—
disse
eu,
—
qual
é
a
resposta?
—A
única
idéia
que
eu
tive
foi
que
alguém
tentou
ajeitar
isto
com
o
álibi
de
outra
pessoa.
Alguém
teria
um
álibi
formidável
no
momento
em
que
Josephine
estava
sendo
posta
fora
de
combate.
Mas
isto
não
adiantou
nada
porque,
para
começar,
ninguém
tem
álibi
de
espécie
alguma,
e
segundo,
alguém
havia
de
procurar
a
menina
na
hora
do
almoço
e
encontraria
a
armadilha
e
o
bloco
de
mármore,
e
todo
o
modus
operandi
iria
por
água
abaixo.
É
claro,
se
o
assassino
tivesse
tirado
o
bloco
antes
de
a
menina
ser
encontrada,
então
talvez
nós
tivéssemos
ficado
na
mão.
Mas
da
maneira
que
foi,
a
coisa
toda
não
faz
sentido.
Ele
estendeu
as
mãos.
—E
qual
é
a
sua
explicação?
—O
elemento
pessoal.
Idiossincrasia
pessoal.
Laurence
Brown
é
excêntrico.
Não
gosta
de
violência...
não
consegue
se
forçar
a
praticar
uma
violência.
Literalmente,
ele
não
poderia
ficar
atrás
da
porta
e
dar
uma
pancada
na
cabeça
da
menina.
Poderia
ter
preparado
a
armadilha
e
ido
embora
para
não
ver
o
resultado.
—Sim,
eu
entendo
—
eu
disse
devagar.
—
É
a
eserina
na
garrafa
de
insulina
outra
vez?
—Exatamente.
—Você
acha
que
ele
fez
isso
sem
que
Brenda
soubesse?
—Isso
explicaria
por
que
ela
não
jogou
fora
a
garrafinha
de
insulina
depois.
É
claro,
é
possível
que
eles
tenham
combinado
tudo
entre
si...
ou
talvez
ela
mesma
tenha
pensado
no
veneno...
uma
morte
fácil
e
suave
para
o
seu
marido
velho
e
cansado
e
a
melhor
das
melhores
como
solução!
Mas
eu
aposto
que
não
foi
ela
que
arrumou
a
armadilha.
Mulheres
nunca
confiam
em
coisas
mecânicas
que
funcionem
bem.
E
elas
têm
razão.
Eu
mesmo
acho
que
a
eserina
foi
idéia
dela
mas
que
obrigou
o
seu
escravo
abobalhado
a
fazer
a
troca.
Ela
é
do
tipo
que
consegue
geralmente
evitar
qualquer
coisa
que
as
comprometa.
E
assim,
elas
se
conservam
sempre
com
a
consciência
tranqüila.
Fez
uma
pausa
e
continuou:
—Com
aquelas
cartas
eu
acho
que
o
Promotor
Público
dirá
que
nós
já
temos
um
caso.
Eles
vão
ter
um
trabalhinho
para
se
explicarem!
Então,
se
a
garota
se
recuperar,
tudo
vai
ficar
azul
outra
vez!
—
ele
me
deu
uma
olhada
meio
de
lado.
—
Que
tal
é
ficar
noivo
de
um
milhão
de
libras?
Eu
pisquei.
Na
excitação
das
últimas
horas,
eu
esquecera
completamente
os
problemas
do
testamento.
—Sophia
ainda
não
sabe
—
eu
disse.
—
Você
quer
que
eu
lhe
dê
a
notícia?
—Ouvi
dizer
que
Gaitskill
vai
dar
a
triste
(ou
alegre?)
notícia
amanhã
depois
do
inquérito.
Taverner
fez
uma
pausa
e
olhou-me
pensativo.
—
Eu
estou
imaginando
—
disse
ele
—
quais
serão
as
reações
da
família?
Capítulo
20
O
INQUÉRITO
passou-se
mais
ou
menos
como
eu
previra.
Foi
adiado
a
pedido
da
polícia.
Estávamos
todos
alegres
porque
as
notícias
que
vieram
do
hospital
diziam
que
os
ferimentos
de
Josephine
eram
bem
menos
sérios
do
que
se
imaginara
e
que
sua
convalescença
seria
rápida.
No
momento,
o
Dr.
Gray
dissera,
ela
não
podia
receber
visitas
—
nem
mesmo
de
sua
mãe.
—Principalmente
de
sua
mãe
—
murmurara
Sophia
para
mim.
—
Eu
chamei
a
atenção
do
Dr.
Gray
para
isso.
De
qualquer
maneira,
ele
conhece
mamãe.
Acho
que
a
olhei
meio
em
dúvida,
porque
Sophia
disse
bruscamente:
—Por
que
este
olhar
de
censura?
—Bem...
certamente
a
mãe...
—Eu
fico
muito
satisfeita
de
você
ter
certas
idéias
simpáticas
e
antiquadas,
Charles.
Mas
você
ainda
não
sabe
do
que
mamãe
é
capaz.
A
queridinha
não
pode
evitar
mas
haveria
infalivelmente
uma
grande
cena
dramática.
E
cenas
dramáticas
não
são
o
que
há
de
melhor
para
alguém
que
está
convalescendo
de
um
ferimento
na
cabeça.
—Você
pensa
em
tudo,
não
é,
meu
amor?
—Bem,
alguém
tem
de
pensar
agora
que
vovô
morreu.
Olhei
para
ela
pensativo.
Vi
que
a
argúcia
do
velho
Leonides
não
o
abandonara.
O
fardo
de
responsabilidade
já
estava
sobre
os
ombros
de
Sophia.
Depois
do
inquérito,
Gaitskill
acompanhou-nos
de
volta
aos
Três
Oitões.
Pigarreou
e
disse:
—Há
uma
participação
que
é
meu
dever
fazer
a
vocês
todos.
Para
isto,
toda
a
família
reuniu-se
na
sala
de
visitas
de
Magda.
Eu
senti
neste
instante
as
sensações
bastante
agradáveis
do
homem
que
está
por
detrás
dos
bastidores.
Eu
já
sabia
o
que
Gaitskill
ia
dizer.
Preparei-me
para
observar
as
reações
de
cada
um.
Gaitskill
foi
lacônico
e
seco.
Qualquer
sinal
pessoal
de
aborrecimento
foi
muito
bem
escondido.
Ele
leu
primeiro
a
carta
de
Aristide
Leonides
e
depois
o
próprio
testamento.
Foi
muito
interessante
observá-los.
Só
desejei
que
meus
olhos
vissem
todos
ao
mesmo
tempo.
Não
prestei
muita
atenção
a
Brenda
e
Laurence.
O
dinheiro
para
Brenda
neste
testamento
era
igual
ao
outro.
Olhei
primeiro
para
Roger
e
Philip,
e
depois
para
Magda
e
Clemency.
Minha
primeira
impressão
foi
de
que
todos
se
comportaram
muito
bem.
Os
lábios
de
Philip
estavam
apertados,
sua
bela
cabeça
recostada
contra
a
cadeira
alta
em
que
estava
sentado.
Ele
não
falou
nada.
Magda,
pelo
contrário,
prorrompeu
num
discurso
assim
que
Gaitskill
acabou
de
falar,
sua
voz
cheia
emergindo
sobre
todos
os
tons
como
uma
maré
de
enchente
sobre
um
riachinho.
—Sophia
querida...
Que
coisa
extraordinária!...
Que
romântico...
Imagine,
o
nosso
velhinho
como
foi
manhoso
e
trapaceiro...
como
um
menininho
esperto.
Será
que
ele
não
confiava
em
nós?
Será
que
ele
achava
que
nós
iríamos
passá-lo
pra
trás?
Ele
nunca
pareceu
gostar
mais
de
Sophia
do
que
de
qualquer
um
de
nós.
Mas,
realmente,
como
isso
é
dramático!
De
repente,
Magda
ficou
de
pé
de
um
salto,
dançou
em
volta
de
Sophia
e
fez-lhe
uma
grande
reverência.
—Madame
Sophia,
a
sua
mãe
pobre
e
sem
tostão
pede-lhe
uma
esmolinha.
Passou
a
falar
em
gíria:
—Me
dá
uma
grana,
queridinha.
Sua
mãezinha
quer
ir
ao
cinema...
Sua
mão,
em
forma
de
garra,
estalava
para
Sophia
com
ânsia.
Philip,
sem
se
mexer,
falou
através
dos
lábios
semicerrados:
—Por
favor,
Magda,
não
há
necessidade
de
bancar
a
palhaça.
—Oh,
mas
Roger!
—
disse
Magda,
virando-se
de
repente
para
Roger.
—
Pobre
Roger
querido!
O
velhinho
ia
socorrê-lo
e
agora,
antes
que
ele
pudesse
fazer
alguma
coisa,
morreu.
E
agora
Roger
não
tem
nada,
Sophia.
Virou-se
impetuosamente
para
Sophia:
—Você
precisa
fazer
alguma
coisa
por
Roger!
—Não!
—
disse
Clemency.
Ela
dera
um
passo
à
frente.
Seu
rosto
era
um
desafio.
—
Nada.
Absolutamente
nada.
Roger
veio
para
perto
de
Sophia
bamboleando
como
um
ursão
simpático.
Tomou-lhe
as
mãos
afetuosamente.
—Eu
não
quero
um
níquel,
minha
menina.
Assim
que
este
negócio
terminar...
ou
se
apagar,
que
é
o
que
parece
que
vai
acontecer...
então
Clemency
e
eu
vamos
para
as
Índias
Ocidentais
e
para
uma
vida
simples.
Se
eu
me
vir
mesmo
em
apuros
sérios,
pedirei
ajuda
à
cabeça
da
família
—
ele
lhe
fez
uma
careta
de
simpatia
—
mas
até
lá,
eu
não
quero
um
tostão.
Eu
sou
realmente
uma
pessoa
muito
simples,
minha
que
rida,
pergunte
só
a
Clemency.
Uma
voz
inesperada
interrompeu-os.
Era
Edith
de
Haviland.
—Tudo
isto
está
muito
bom
—
disse
ela.
—
Mas
vocês
precisam
prestar
atenção
a
uma
coisa.
Se
você
for
à
falência,
Roger,
e
depois
escapulir
para
o
outro
lado
do
mundo
sem
que
Sophia
lhe
dê
uma
ajuda,
haverá
um
falatório
tão
grande
que
não
vai
ser
agradável
para
Nós
sabemos
que
para
você
não
importa,
Clemency
disse
ela.
—E
o
que
importa
a
opinião
alheia?
—
perguntou
Clemency
desdenhosa.
—
—
Edith
de
Haviland
secamente,
—
mas
Sophia
vive
neste
mundo.
Ela
é
uma
moça
que
tem
cabeça
e
bom
coração
e
eu
não
tenho
dúvidas
de
que
Aristide
estava
certo
quando
escolheu-a
para
cuidar
da
fortuna
da
família...
se
bem
que
passar
por
cima
de
seus
dois
filhos
ainda
vivos
nos
pareça
estranho
para
nossas
idéias
inglesas...
mas
eu
acho
que
seria
muito
triste
se
ela
demonstrasse
avareza
quanto
a
esta
questão...
e
deixar
Roger
arrebentar-se
sem
tentar
ajudá-lo,
Roger
aproximou-se
da
tia.
Pôs
as
mãos
sobre
seus
ombros
e
apertou-a
contra
si.
—Tia
Edith
—
disse
ele,
—
a
senhora
é
uma
lutadora
teimosa
e
é
um
amor,
mas
ainda
não
começou
a
compreender.
Clemency
e
eu
sabemos
o
que
queremos...
ou
o
que
não
queremos!
Clemency,
um
toque
colorido
aparecendo
de
repente
em
seu
rosto,
ficou
de
pé
num
desafio
em
frente
de
todos.
—Nenhum
de
vocês
—
disse
ela
—
compreende
Roger.
Nunca
compreenderam!
E
eu
acho
que
não
compreenderão
nunca!
Venha,
Roger.
Eles
deixaram
a
sala
enquanto
Gaitskill
pigarreava
e
remexia
em
seus
papéis.
Sua
atitude
era
a
da
mais
profunda
censura.
Ele
não
gostara
muito
da
cena
anterior.
Isto
estava
claro.
Meus
olhos
foram
então
para
Sophia.
Ela
estava
de
pé
muito
bonita
e
espigada,
perto
da
lareira,
o
queixo
erguido,
os
olhos
firmes.
Acabara
de
herdar
uma
imensa
fortuna
mas
o
meu
pensamento
principal
era
como
ela
se
tornara
de
repente
tão
sozinha.
Entre
ela
e
sua
família
fora
criada
uma
barreira.
De
hoje
em
diante,
ela
se
dividira
deles
e
eu
calculei
que
ela
já
sabia
disso
e
encarava
o
fato
como
consumado.
O
velho
Leonides
colocara
o
fardo
sobre
seus
ombros
—
ele
sabia
disto
e
ela
também.
Ele
acreditava
que
seus
ombros
eram
fortes
o
bastante
para
agüentá-lo
mas
neste
exato
momento
eu
sentia
uma
pena
indescritível
dela.
Até
então
ela
não
dissera
nada
—
na
verdade,
ninguém
lhe
dera
uma
oportunidade,
mas
brevemente
ela
seria
obrigada
a
falar.
Já,
agora,
por
baixo
da
afeição
familiar,
eu
podia
sentir
uma
hostilidade
latente.
Mesmo
no
ato
gracioso
representado
por
Magda,
eu
percebi
uma
malícia
sutil.
E
havia
muitas
outras
coisas
obscuras
que
ainda
não
tinham
vindo
à
tona.
Os
pigarros
do
Sr.
Gaitskill
deram
lugar
a
um
discurso
preciso
e
comedido.
—Permita-me
dar-lhe
os
parabéns,
Sophia
—
disse
ele.
—
Você
é
agora
uma
mulher
muito
rica.
Eu
a
aconselho
a
não
tomar
nenhuma...
ahn...
decisão
precipitada.
Posso
adiantar-lhe
o
dinheiro
de
que
você
necessitar
no
momento
para
as
primeiras
despesas.
Se
você
quiser
discutir
arranjos
futuros,
eu
ficarei
muito
feliz
de
dar-lhe
os
melhores
conselhos
que
estiverem
ao
meu
alcance.
Marque
uma
hora
comigo
no
Hotel
Lincoln
quando
você
tiver
um
tempo
livre
para
pormos
tudo
em
dia.
—Roger...
—
começou
obstinadamente
Edith
de
Haviland.
Gaitskill
interrompeu-a
rapidamente.
—Roger
—
disse
ele
—
precisa
arranjar-se
sozinho.
Ele
é
um
homem
adulto...
ahn...
tem
cinqüenta
e
quatro
anos,
eu
creio.
E
Aristide
Leonides
estava
certo,
vocês
sabem
disto.
Ele
não
é
um
homem
de
negócios
e
nunca
o
será.
Olhou
para
Sophia:
—Se
você
puser
a
Associação
de
Fornecedores
outra
vez
de
pé,
não
tenha
ilusões
de
que
Roger
poderá
dirigi-la
satisfatoriamente.
—Eu
nem
sonharia
de
levantar
outra
vez
a
Associação
de
Fornecedores
—
disse
Sophia.
Era
a
primeira
vez
que
ela
falava.
Sua
voz
era
viva
e
comercial.
—Seria
uma
coisa
estúpida
a
fazer
—
acrescentou.
Gaitskill
deu-lhe
uma
olhada
por
baixo
das
sobrancelhas
e
sorriu
consigo
mesmo.
Então
ele
deu
até
logo
para
todos
e
saiu.
Houve
alguns
minutos
de
silêncio,
a
certeza
de
que
a
família
estava
sozinha.
Foi
quando
Philip
ergueu-se
muito
empertigado.
—Preciso
voltar
à
biblioteca
—
disse
ele.
—
Já
perdi
muito
tempo.
—Papai...
—
Sophia
falou
incerta,
quase
suplicante.
Eu
senti
que
ela
estremeceu
e
recuou
ao
Philip
dirigir-lhe
um
olhar
hostil
e
frio.
—Você
deve
desculpar-me
por
não
lhe
dar
os
parabéns
—
disse
ele.
—
Mas
isso
foi
um
grande
choque
para
mim.
Não
acreditaria
nunca
que
meu
pai
pudesse
humilhar-me
tanto...
que
ele
não
tivesse
levado
em
conta
a
minha
devoção
de
toda
a
vida...
sim...
devoção.
Pela
primeira
vez,
o
homem
verdadeiro
quebrou
aquela
crosta
de
Oh,
não,
Philip,
não,
você
não
deve
pensar
assim!
gritou
gelo
que
o
cercava.
—Meu
Deus!
—
gritou
ele.
—
Como
ele
pôde
fazer
isso
comigo?
Sempre
foi
injusto
comigo...
sempre!
—
—
Edith
de
Haviland.
—
Não
olhe
isso
como
um
menosprezo.
Não
foi.
Quando
as
pessoas
envelhecem,
voltam-se
naturalmente
para
a
geração
mais
nova...
Eu
lhe
garanto
que
foi
apenas
isso...
E
além
disso,
Aristide
tinha
um
senso
para
negócios
muito
grande.
Eu
sempre
o
ouvi
dizer
que
pagar
dois
direitos
sobre
a
herança...
—Ele
nunca
ligou
para
mim
—
disse
Philip.
Sua
voz
era
baixa
e
rouca.
—
Foi
sempre
Roger...
Roger.
Bem,
pelo
menos...
Uma
expressão
extraordinária
de
rancor
desfigurou-lhe
o
rosto
bonito.
—Papai
percebeu
que
Roger
era
um
tolo
e
um
fracassado.
Ele
também
deserdou
Roger.
—E
eu
então?
—
disse
Eustace.
Eu
mal
reparara
em
Eustace
até
agora,
mas
percebi
que
ele
estava
tremendo
com
alguma
emoção
violenta.
Seu
rosto
estava
rubro
e,
havia,
creio
eu,
lágrimas
em
seus
olhos.
Sua
voz
tremia
quando
ele
falou
histérico:
—É
uma
vergonha!
—
disse
Eustace.
—
É
uma
vergonha
maldita!
Como
foi
que
vovô
ousou
fazer
isso
comigo?
Como
foi
que
ele
ousou
preferir
Sophia
a
mim.
Eu
era
o
seu
único
neto.
Não
é
justo.
Eu
o
odeio.
Eu
o
odeio.
Nunca
o
perdoarei
enquanto
viver.
Velho
tirânico
e
imbecil!
Eu
queria
que
ele
morresse.
Eu
queria
sair
desta
casa.
Eu
queria
ser
dono
de
mim
mesmo.
E
agora
eu
vou
ter
de
obedecer
e
de
bajular
Sophia
e
bancar
o
tolo.
Eu
preferia
estar
morto...
Sua
voz
sumiu
e
ele
saiu
correndo
da
sala.
Edith
de
Haviland
deu
um
estalo
rápido
com
a
língua.
—Não
sabe
controlar-se
—
murmurou
ela.
—Eu
sei
como
ele
se
sente
—
gritou
Magda.
—Eu
tenho
certeza
de
que
sabe
—
disse
Edith
acidamente.
—Meu
pobrezinho!
Eu
vou
atrás
dele.
—Ora,
Magda...
—
Edith
apressou-se
a
correr
atrás
dela.
Suas
vozes
morreram
a
distância.
Sophia
permaneceu
olhando
para
Philip.
Eu
acho
que
havia
uma
certa
súplica
em
seu
olhar.
Ele
olhou-a
friamente,
muito
controlado
outra
vez.
—Você
fez
um
trabalhinho
muito
bem
feito,
Sophia
—
disse
ele
e
saiu
da
sala.
—Isto
foi
uma
coisa
cruel
que
o
senhor
disse
—
gritei.
—Sophia...
Ela
estendeu
as
mãos
para
mim.
Tomei-a
nos
braços.
—Isto
foi
demais
para
você,
meu
amor.
—Eu
sei
como
eles
se
sentem
—
disse
Sophia.
—Aquele
velho
diabólico,
o
seu
avô,
não
devia
ter
feito
isso
com
você.
Ela
endireitou
os
ombros.
—Ele
achava
que
eu
agüentaria.
E
eu
também
acho.
Eu
gostaria...
eu
gostaria
que
Eustace
não
se
tivesse
importado
tanto.
—Ele
esquecerá.
—Será?
Eu
não
sei.
Ele
é
do
tipo
que
fica
meditando
o
tempo
todo.
E
eu
não
gostei
que
papai
ficasse
assim
tão
ferido.
—Sua
mãe
não
ligou.
—Ela
se
importa,
sim.
Somente
a
contragosto
ela
virá
à
sua
filha
pedir
dinheiro
para
financiar
suas
peças.
Ela
vai
ficar
atrás
de
mim
para
pôr
dinheiro
em
Edith
Thompson
bem
antes
do
que
você
imagina.
—E
o
que
é
que
você
vai
dizer?
Se
isto
a
faz
feliz...
Sophia
soltou-se
de
meus
braços,
a
cabeça
jogada
para
trás.
—Eu
vou
dizer
"Não!"
É
uma
peça
idiota
e
mamãe
não
pode
representar
aquele
papel.
Seria
como
se
eu
jogasse
dinheiro
fora!
Eu
ri
baixinho.
Não
pude
evitar.
—Por
que
é
que
você
está
rindo?
—
perguntou
Sophia
desconfiada.
—Estou
começando
a
entender
por
que
foi
que
seu
avô
lhe
deixou
o
dinheiro.
Filho
de
peixe
nasce
nadando,
Sophia...
Capítulo
21
MINHA
ÚNICA
tristeza
nesta
hora
foi
que
Josephine
não
estivesse
presente.
Ela
ter-se-ia
divertido
muito.
Sua
convalescença
foi
rápida
e
ela
estava
sendo
esperada
a
qualquer
hora,
mas
ainda
assim
perdeu
outro
acontecimento
de
muita
importância.
Eu
estava
no
jardim
de
manhã
com
Sophia
e
Brenda
quando
um
carro
parou
à
porta
da
frente.
Taverner
e
o
Sargento
Lamb
desceram
e
entraram
na
casa.
Brenda
ficou
imóvel,
olhando
para
o
carro.
—São
aqueles
homens
—
disse
ela.
—
Voltaram
e
eu
que
pensava
que
eles
já
tinham
desistido...
eu
pensei
que
já
estivesse
tudo
acabado.
Eu
vi
quando
ela
estremeceu.
Ela
se
juntara
a
nós
uns
dez
minutos
antes.
Enrolada
em
seu
abrigo
de
chinchila,
ela
dissera:
—Se
eu
não
tomar
ar
e
fizer
um
pouco
de
exercício,
vou
ficar
louca.
Se
eu
ponho
os
pés
lá
fora
há
sempre
um
repórter
esperando
para
me
abordar.
É
como
se
sentir
sitiada.
Vai
ser
assim
sempre?
Sophia
disse
que
acreditava
que
breve
os
repórteres
se
cansariam.
—Você
pode
dar
uma
volta
de
automóvel
—
acrescentou.
—Eu
lhe
digo
que
preferia
fazer
um
pouco
de
exercício.
Depois
ela
disse
bruscamente:
—Você
despediu
Laurence,
Sophia.
Por
quê?
Sophia
respondeu
devagar:
—Estamos
arranjando
outra
coisa
para
Eustace.
E
Josephine
vai
para
a
Suíça.
—Bem,
você
deixou
Laurence
aborrecido.
Ele
achou
que
você
não
confia
nele.
Sophia
não
respondeu
e
foi
neste
instante
que
o
carro
de
Taverner
chegou.
Parada
ali,
trêmula
no
ar
úmido
do
outono,
Brenda
murmurou:
—O
que
é
que
eles
querem?
Por
que
foi
que
vieram?
Eu
calculei
que
sabia
por
que
eles
tinham
voltado.
Não
dissera
nada
a
Sophia
sobre
as
cartas
que
eu
encontrara
perto
da
cisterna
mas
eu
sabia
que
elas
tinham
sido
encaminhadas
ao
Promotor
Público.
Taverner
saiu
outra
vez
da
casa.
Atravessou
a
alameda
e
o
gramado
em
nossa
direção.
Brenda
tremeu
ainda
com
mais
força.
—O
que
é
que
ele
quer?
—
ela
repetia
nervosa.
—
O
que
é
que
ele
quer?
Taverner
chegou
perto
de
nós.
Falou
pouco,
com
sua
voz
oficial,
usando
frases
oficiais.
—Eu
tenho
um
mandado
de
prisão
para
a
senhora...
a
senhora
está
sendo
acusada
de
ter
administrado
eserina
a
Aristide
Leonides
no
dia
19
de
setembro
último.
Eu
devo
avisá-la
de
que
qualquer
coisa
que
a
senhora
disser
poderá
ser
usado
como
evidência
em
seu
julgamento.
E
foi
então
que
Brenda
se
descontrolou.
Gritou.
Agarrou-se
a
mim.
Gritou
alto:
—Não,
não,
não,
não
é
verdade!
Charles,
diga-lhes
que
não
é
verdade!
Eu
não
fiz
isso!
Eu
não
sei
de
nada.
É
uma
conspiração.
Não
os
deixe
me
levar.
Não
é
verdade,
eu
lhes
digo...
Não
é
verdade...
Eu
não
fiz
nada...
Foi
horrível
—
inacreditavelmente
horrível.
Eu
tentei
acalmá-la,
soltei
seus
dedos
de
meu
braço.
Disse-lhe
que
arranjaria
um
advogado
para
ela
—
que
mantivesse
a
calma
—
que
um
advogado
arranjaria
tudo...
Taverner
levou-a
gentilmente
pelo
cotovelo.
—Venha,
Sra.
Leonides
—
disse
ele.
—
A
senhora
não
quer
um
chapéu,
quer?
Não?
Então
precisamos
ir
logo.
Ela
o
empurrou,
olhando
para
ele
com
seus
enormes
olhos
de
gata.
—Laurence
—
disse
ela.
—
O
que
foi
que
vocês
fizeram
com
Laurence?
—O
Sr.
Laurence
Brown
também
está
preso
sob
a
mesma
acusação
—
disse
Taverner.
Ela
afrouxou
então.
Seu
corpo
pareceu
entrar
em
colapso
e
encolher-se.
As
lágrimas
rolaram
sobre
seu
rosto.
Caminhou
mansamente
atrás
de
Taverner
pelo
gramado.
Eu
vi
Laurence
Brown
e
o
Sargento
Lamb
saírem
da
casa.
Todos
entraram
no
carro...
O
carro
foi
embora.
Dei
um
suspiro
fundo
e
virei-me
para
Sophia.
Ela
estava
muito
pálida
e
havia
um
ar
de
angústia
em
seu
rosto.
—É
horrível,
Charles
—
disse
ela.
—
Oh,
como
é
horrível!
—Eu
sei.
—Você
precisa
conseguir
para
ela
um
advogado
de
primeira
classe...
o
melhor
de
todos.
Ela...
ela
precisa
de
toda
a
ajuda
possível.
—A
gente
nunca
imagina
—
disse
eu
—
como
são
essas
coisas.
Eu
nunca
havia
visto
antes
ninguém
ser
preso.
—Eu
sei.
A
gente
não
tem
idéia.
Ficamos
ambos
em
silêncio.
Eu
estava
pensando
no
terror
desesperado
no
rosto
de
Brenda.
Parecera-me
familiar
e
de
repente
eu
entendi
por
quê.
Fora
a
mesma
expressão
que
eu
vira
no
rosto
de
Magda
Leonides,
quando
viera
pela
primeira
vez
na
Casa
Torta
e
que
ela
estava
falando
sobre
a
peça
de Edith
Thompson.
—E
então
—
ela
dissera,
—
o
terror
puro,
você
não
acha?
Terror
puro
—
era
isto
que
eu
vira
no
rosto
de
Brenda.
Brenda
não
era
uma
lutadora.
Fiquei
imaginando
se
ela
teria
tido
algum
dia
a
coragem
para
praticar
um
crime.
Possivelmente
não.
É
provável
que
tenha
sido
Laurence
Brown,
com
sua
mania
de
perseguição,
sua
personalidade instável,
que
pusera
o
conteúdo
de
um
vidrinho
no
outro
—
um
ato
tão
simples
—
para
libertar
a
mulher
que amava.
—Então
está
acabado
—
disse
Sophia.
Ela
suspirou
profundamente e perguntou:
.
—Mas
por
que
prendê-los
agora?
Eu
pensei
que
não
havia
provas
suficientes.
—Uma
certa
evidência
veio
à
luz.
Cartas.
—Você quer
dizer
cartas de amor
entre eles?
—Sim.
—Como
as pessoas são
tolas em
guardar
essas coisas!
Sim,
era
a
verdade.
Tolos.
O
tipo
de
tolice
que
se
repete
apesar
da
experiência
dos
outros.
Não
se
podia
abrir
um
jornal
qualquer
sem
se
ver
alguma
tolice
deste
tipo
—
a
paixão
de
se
guardar
a
palavra
escrita,
a
certeza
escrita
do
amor.
—É
cruel,
Sophia
—
disse
eu.
—
Mas
não
adianta
você
se
preocupar
mais
sobre
isto.
Depois
de
tudo,
era
isto
que
todos
nós
estávamos
esperando
o
tempo
todo,
não
era?
Foi
isso
que
você
me
disse
naquela
primeira
noite
no
Mario's.
Disse
que
tudo
ficaria
bem
se
tivesse
sido
a
pessoa
certa
que
matara
seu
avô.
Brenda
era
a
pessoa
certa,
não
era?
Brenda
ou
Laurence?
—Por
favor,
Charles,
não
me
faça
sentir
assim
tão
horrorosa.
—Mas
nós
precisamos
ser
sensatos.
Podemos
casar-nos
agora,
Sophia.
Você
não
pode
mais
me
recusar.
A
família
Leonides
está
fora
do
crime.
Ela
olhou
para
mim.
Eu
nunca
percebera
antes
como
era
forte
o
azul
de
seus
olhos.
—Sim
—
disse
ela,
—
eu
suponho
que
agora
estamos
fora.
Será
que
estamos
mesmo?
Você
tem
certeza?
—Minha
menina
querida,
nenhum
de
vocês
tinha
a
menor
sombra
de
motivo.
Seu
rosto
empalideceu
de
repente.
—Exceto
eu,
Charles.
Eu
tinha
um
motivo.
—Sim,
é
claro...
—
fiquei
surpreso.
—
Mas
não
na
verdade.
Você
não
sabia,
não
é?
Não
sabia
sobre
o
testamento.
—Mas
eu
sabia,
Charles
—
murmurou
ela.
—O
quê?
—
eu
olhei
para
ela.
Esfriei
de
repente.
—Eu
sabia
o
tempo
todo
que
vovô
deixara
o
dinheiro
para
mim.
—Mas
como?
—Ele
me
contou.
Uns
quinze
dias
antes
de
sua
morte.
Ele
me
disse
assim
de
repente
"Eu
deixei
todo
o
meu
dinheiro
para
você,
Sophia.
Você
precisa
tomar
conta
da
família
quando
eu
for
embora".
Eu
a
encarei.
—Você
nunca
me
disse
nada.
—Não.
Sabe?
Quando
todos
eles
explicaram
sobre
o
testamento
e
sobre
a
assinatura
dele,
eu
pensei
que
talvez
houvesse
um
erro...
que
ele
estava
apenas
imaginando
que
deixara
o
dinheiro
para
mim.
Ou
que
talvez
tivesse
mesmo
feito
um
testamento
deixando-o
para
mim,
e
que
depois
o
testamento
se
perdera
e
que
não
apareceria
nunca.
Eu
não
queria
que
ele
aparecesse...
eu
estava
com
medo.
—Com
medo?
Por
quê?
—Eu
acho
que...
por
causa
do
crime.
Eu
me
lembrei
do
olhar
de
terror
no
rosto
de
Brenda
—
o
terror
pânico
e
irracional.
Eu
me
lembrei
do
pânico
puro
que
Magda
evocara
como
que
por
encanto
enquanto
estava
interpretando
o
papel
de
uma
assassina.
Não
havia
pânico
no
pensamento
de
Sophia
mas
ela
era
realista
e
via
claramente
que
o
testamento
de
Leonides
fazia
dela
uma
suspeita.
Compreendi
melhor
agora
(ou
pensei
que
compreendi)
a
sua
recusa
de
se
tornar
minha
noiva
e
a
sua
insistência
de
que
eu
devia
procurar
saber
a
verdade.
Nada,
a
não
ser
a
verdade,
ela
dissera,
serviria
para
ela.
Eu
me
lembrei
da
paixão,
da
ansiedade
com
que
ela
dissera
isto.
Nós
nos
voltáramos
e
caminhávamos
na
direção
da
casa,
e
de
repente,
num
certo
lugar,
eu
me
lembrei
de
outra
coisa
que
ela
dissera.
Dissera
que
achava
que
era
capaz
de
assassinar
alguém,
mas
que
se
fosse
assim,
acrescentara,
teria
de
ser
por
algo
que
verdadeiramente
valesse
a
pena.
Capítulo
22
NUMA
CURVA
DO
JARDIM,
Roger
e
Clemency
caminhavam
vivamente
em
nossa
direção.
O
paletó
largão
de
Roger
caía-lhe
melhor
que
as
suas
roupas
de
cidade.
Ele
parecia
ansioso
e
excitado.
Clemency
tinha
a
testa
franzida.
—Alô,
vocês
dois!
—
disse
Roger.
—
Enfim!
Eu
pensei
que
não
iam
prender
nunca
aquela
mulher
pérfida!
O
que
eles
estavam
esperando
é
que
eu
não
sei.
Bem,
eles
a
pegaram
agora,
e
aquele
miserável
do
seu
namorado...
e
eu
espero
que
os
enforquem
a
ambos.
As
rugas
de
Clemency
se
acentuaram.
Ela
disse:
—Não
seja
tão
bárbaro,
Roger.
—Bárbaro?
Tolice!
Envenenamento
frio
e
deliberado
de
um
pobre
velho
inocente
e
indefeso...
e
quando
eu
digo
que
me
alegro
que
eles
paguem
por
sua
culpa,
você
diz
que
eu
sou
bárbaro!
Eu
lhe
digo
que
queria
enforcar
aquela
mulher
com
minhas
próprias
mãos!
Acrescentou:
—Ela
estava
com
vocês,
não
estava,
quando
a
polícia
veio
procurá-la?
Como
foi
que
ela
agiu?
—Foi
horrível
—
disse
Sophia
em
voz
baixa.
—
Ela
estava
apavorada.
—Bem
feito.
—Não
seja
vingativo
—
disse
Clemency.
—Oh,
eu
sei,
minha
querida,
mas
você
não
pode
compreender.
Não
era
o
seu
pai.
Eu
amava
meu
pai.
Você
não
compreende?
Eu
o
adorava!
—Eu
acho
que
já
era
tempo
de
que
eu
compreendesse
—
disse
Clemency.
Roger
falou
para
ela,
em
tom
de
brincadeira:
—Você
não
tem
imaginação,
Clemency.
Suponhamos
que
tivesse
sido
eu
que
fosse
envenenado?...
Eu
vi
seus
olhos
se
abaixarem
rapidamente,
as
mãos
semicerradas.
Ela
disse
secamente:
—Não
diga
estas
coisas
nem
por
brincadeira.
—Não
ligue,
querida,
breve
nós
estaremos
longe
daqui.
Dirigimo-nos
para
a
casa.
Roger
e
Sophia
iam
na
frente
e
Clemency
e
eu
mais
atrás.
Ela
falou:
—Será
que
eles
agora...
vão-nos
deixar
ir
embora?
—Você
está
assim
tão
ansiosa
para
ir-se?
—
perguntei.
—Isto
está-me
acabando.
Olhei
para
ela
surpreso.
Ela
enfrentou
meu
olhar
com
um
leve
sorriso
de
desespero
e
um
aceno
de
cabeça.
—Você
ainda
não
viu,
Charles,
que
eu
estou
lutando
o
tempo
todo?
Lutando
pela
minha
felicidade.
Pela
felicidade
de
Roger.
Eu
fiquei
com
tanto
medo
de
que
a
família
o
convencesse
a
ficar
na
Inglaterra.
Que
nós
ficássemos
outra
vez
presos
no
meio
deles,
presos
por
laços
familiares.
Eu
estava
com
medo
que
Sophia
lhe
oferecesse
uma
renda
e
que
ele
ficasse
na
Inglaterra
porque
isto
significasse
um
maior
conforto
e
facilidades
para
mim.
O
problema
com
Roger
é
que
ele
não
escuta
ninguém.
Ele
põe
idéias
na
cabeça...
elas
nunca
são
as
idéias
certas.
Ele
não
sabe
de
coisa
nenhuma.
E
é
demais
enraizado
na
família
para
pensar
que
a
felicidade
de
uma
mulher
está
ligada
ao
conforto
e
ao
dinheiro.
Mas
eu
lutarei
pela
minha
felicidade...
eu
lutarei...
Eu
lutarei
até
arrancar
Roger
daqui
e
dar-lhe
a
vida
que
lhe
convém
e
onde
ele
não
se
sinta
um
fracasso.
Eu
o
quero
para
mim...
longe
deles
todos...
bem
longe...
Ela
falara
numa
voz
baixa
e
apressada,
com
um
tom
de
desespero
que
me
espantara.
Eu
não
percebera
como
ela
estava
abalada.
Não
percebera
também
o
quanto
era
desesperado
e
possessivo
o
seu
amor
por
Roger.
Voltou-me
em
mente
uma
citação
passada
de
Edith
de
Haviland.
Ela
falara
desta
"quase
adoração"
com
uma
entoação
particular.
Imaginei
se
ela
não
estava
falando
de
Clemency.
Roger,
eu
pensei,
amava
o
pai
mais
do
que
a
qualquer
outra
pessoa,
mais
do
que
à
sua
esposa,
apesar
de
lhe
ser
muito
devotado.
Eu
percebi
pela
primeira
vez
como
era
urgente
o
desejo
de
Clemency
de
ter
o
marido
para
si
própria.
O
amor
por
Roger,
eu
vi,
significava
toda
a
sua
existência.
Ele
era
o
seu
filho,
o
seu
marido
e
o
seu
amante.
Um
automóvel
parou
na
porta
da
frente.
—
Alô!
—
disse
eu.
—
Josephine
está
de
volta.
Josephine
e
Magda
saíram
do
carro.
Josephine
tinha
uma
atadura
em
volta
da
cabeça,
mas
apesar
disso
parecia
extremamente
bem.
Ela
disse
logo:
—Eu
quero
ver
meu
peixinho
dourado
—
e
foi
para
perto
do
laguinho.
—Querida
—
gritou
Magda,
—
é
melhor
você
subir
primeiro
e
deitar-se
um
pouco
e,
talvez
tomar
uma
sopinha
fortificante.
—Não
exagere,
mamãe
—
disse
Josephine.
—
Eu
estou
muito
bem
e
detesto
sopinhas
fortificantes.
Magda
pareceu
indecisa.
Eu
sabia
que
Josephine
estava
para
vir
embora
do
hospital
já
há
alguns
dias,
e
que
foi
apenas
por
sugestão
de
Taverner
que
ela
ficara
lá.
Ele
não
estava
querendo
correr
riscos
quanto
à
segurança
de
Josephine
até
que
seus
suspeitos
estivessem
bem
guardados
debaixo
de
sete
chaves.
Eu
disse
a
Magda:
—Eu
diria
que
um
pouco
de
ar
fresco
fará
bem
a
ela.
Eu
fico
aqui
e
tomarei
conta.
Alcancei
Josephine
antes
que
ela
chegasse
perto
do
laguinho.
—Um
monte
de
coisas
aconteceu
enquanto
você
estava
fora.
Josephine
não
respondeu.
Ela
olhava
com
seus
olhos
míopes
para
o
laguinho.
—Não
estou
vendo
Ferdinando
—
disse
ela.
—Qual
é
o
Ferdinando?
—O
que
tem
quatro
rabos.
—É
um
tipo
de
peixe
engraçado.
Eu
gosto
mais
daquele
douradinho
ali.
—É
muito
comum.
—Eu
não
gosto
muito
daquele
que
tem
cara
de
ser
roído
pelas
traças,
o
branquinho.
Josephine
me
deu
um
olhar
de
desdém.
—É
uma
fêmea
de
beijador.
Elas
custam
muito
caro,
muito
mais
do
que
os
vermelhinhos.
—Você
não
quer
saber
do
que
está
acontecendo,
Josephine?
—Eu
acho
que
eu
sei
de
tudo.
—Você
sabia
que
acharam
outro
testamento
e
que
seu
avô
deixou
tudo
para
Sophia?
Josephine
fez
que
sim
com
a
cabeça
com
um
ar
enfastiado.
—Mamãe
me
disse.
E
de
qualquer
jeito,
eu
já
sabia
mesmo.
—Quer
dizer
que
você
soube
quando
estava
no
hospital?
—Não,
eu
quis
dizer
que
eu
sabia
que
vovô
deixou
todo
o
dinheiro
para
Sophia.
Eu
escutei
quando
ele
contou
a
ela.
—Você
estava
escutando
outra
vez?
—Sim.
Eu
gosto
de
escutar
as
coisas.
—É
uma
coisa
muito
feia
de
se
fazer,
e
lembre-se,
gente
que
escuta
as
coisas
nunca
ouve
coisas
boas
de
si
mesma.
Josephine
olhou-me
estranhamente.
—Eu
ouvi
o
que
ele
falou
de
mim
para
ela,
se
é
isso
que
você
quis
dizer.
Ela
acrescentou:
—Nannie
fica
danada
quando
me
pega
escutando
atrás
das
portas.
Ela
diz
que
não
é
uma
coisa
para
uma
mocinha
educada
fazer.
—Ela
tem
razão.
—Pô!
—
disse
Josephine.
—
Ninguém
tem
mais
educação
hoje
em
dia.
Eles
dizem
isso,
os
peritos
no
assunto.
Dizem
que
é
ob-so-le-
to.
—
Ela
pronunciou
a
palavra
cuidadosamente.
Eu
mudei
de
assunto.
—Você
chegou
um
pouquinho
atrasada
para
o
último
acontecimento:
o
Inspetor
Taverner
prendeu
Brenda
e
Laurence.
Pensei
que
Josephine,
em
seu
papel
de
jovem
detetive,
fosse
ficar
emocionada
com
esta
informação,
mas
ela
apenas
repetiu
da
mesma
forma
enfastiada:
—Sim,
eu
sei.
—Você
não
pode
saber.
Acabou
de
acontecer.
—O
automóvel
passou
pela
gente
na
estrada.
O
Inspetor
Taverner
e
o
detetive
de
sapatos
de
camurça
estavam
dentro
com
Brenda
e
Laurence,
então
eu
deduzi
que
eles
deviam
ter
sido
presos.
Eu
espero
que
ele
tenha
feito
as
coisas
em
regra.
Tem
de
ser
feito
com
muita
prudência,
você
sabe.
Eu
lhe
assegurei
que
Taverner
agira
estritamente
de
acordo
com
a
etiqueta.
—Eu
tive
de
contar
a
ele
sobre
as
cartas
—
disse,
me
desculpando.
—
Eu
as
encontrei
atrás
da
cisterna.
Eu
devia
ter
deixado
você
contar
a
ele
mas
você
estava
machucada.
A
mão
de
Josephine
passou
desajeitada
pela
cabeça.
—Eu
podia
ter
morrido
—
disse
com
complacência.
—
Eu
lhe
disse
que
estava
na
hora
do
segundo
crime.
A
cisterna
era
um
lugar
muito
ruim
para
esconder
aquelas
cartas.
Eu
adivinhei
logo
quando
vi
Laurence
saindo
de
lá
um
dia.
Eu
sabia
que
ele
não
é
do
tipo
de
homem
que
mexe
com
bóias,
encanamentos
ou
fusíveis,
logo
deduzi
que
ele
devia
estar
escondendo
alguma
coisa.
—Mas
eu
pensei...
—
me
interrompi
ao
ouvir
a
voz
de
Edith
de
Haviland
chamando
com
autoridade.
—Josephine,
Josephine,
venha
aqui
imediatamente!
Josephine
suspirou.
—Mais
confusão
—
disse
ela.
—
Mas
é
melhor
eu
ir.
Você
também,
é
tia
Edith.
Ela
correu
pelo
gramado.
Eu
a
segui
mais
devagar.
Depois
de
urna
breve
troca
de
palavras,
Josephine
entrou
em
casa.
Eu
me
juntei
a
Edith
de
Haviland
no
terraço.
Nesta
manhã,
ela
aparentava
mesmo
a
idade
que
tinha.
Fiquei
surpreso
pelas
rugas
de
cansaço
e
sofrimento
em
seu
rosto.
Parecia
exausta
e
derrotada.
Viu
que
eu
estava
reparando
nela
e
tentou
sorrir.
—Esta
criança
não
parece
ter
sofrido
nada
com
a
aventura
—
disse
ela.
—
Precisamos
cuidar
melhor
dela
no
futuro.
Entretanto...
eu
suponho
que
agora
não
é
mais
necessário.
Suspirou
e
acrescentou:
—Eu
estou
contente
que
tudo
tenha
terminado.
Mas
que
exibição!
Se
você
for
detido
por
um
crime
de
morte,
deve
ter
ao
menos
dignidade.
Eu
não
tenho
paciência
com
gente
como
Brenda
que
começa
a
berrar
e
fica
histérica.
Não
tem
tutano,
essa
gente.
Laurence
Brown
parecia
um
coelho
assustado.
Um
obscuro
instinto
de
piedade
tomou
conta
de
mim.
—Pobres
coitados...
—
disse
eu.
—Sim...
pobres
coitados.
Será
que
ela
vai
ter
juízo
para
saber
cuidar
de
si?
Eu
quero
dizer,
contratar
os
advogados
certos...
essas
coisas
todas?
Era
estranho,
eu
pensei,
a
ojeriza
que
todos
tinham
por
Brenda,
e
entretanto,
o
cuidado
escrupuloso
para
que
ela
tivesse
todas
as
vantagens
de
defesa.
Edith
de
Haviland
continuou:
—Quanto
tempo
vai
durar?
Quanto
tempo
leva
todo
o
processo?
Eu
disse
que
não
sabia
exatamente.
Eles
iriam
acusá-la
na
própria
corte
de
polícia,
e
com
certeza
ela
seria
enviada
a
julgamento.
Três
ou
quatro
meses,
eu
calculei
—
e
se
for
condenada
haveria
apelo.
—Você
acha
que
eles
serão
condenados?
—
perguntou
ela.
—Não
sei.
Não
sei
exatamente
quantas
provas
tem
a
polícia.
Há
as
cartas.
—Cartas
de
amor?
Eles
eram
amantes?
—Eles
estavam
apaixonados
um
pelo
outro.
Seu
rosto
pareceu
mais
sombrio.
—Eu
não
estou
satisfeita
com
isto
tudo,
Charles,
Eu
não
gosto
de
Brenda.
No
passado,
eu
a
detestava
mesmo.
Disse
muitas
coisas
desagradáveis
sobre
ela.
Mas
agora...
sinto
que
é
necessário
que
ela
tenha
todas
as
chances...
todas
as
chances
possíveis.
Aristide
havia
de
querer
que
fosse
assim.
Eu
creio
que
cabe
a
mim
agora
cuidar
disso...
Cuidar
que
Brenda
tenha
um
julgamento
honesto.
—E
Laurence?
—Oh,
Laurence!
—
ela
deu
de
ombros,
impaciente.
—
Os
homens
devem
cuidar
de
si
mesmos.
Mas
Aristide
nunca
nos
perdoaria
se
nós...
—
deixou
a
frase
inacabada.
Depois
disse:
—Deve
ser
quase
hora
de
almoço.
É
melhor
entrarmos.
Eu
lhe
expliquei
que
ia
para
Londres.
—No
seu
carro?
—Sim.
—Hum...
Talvez
você
possa
levar-me
até
lá.
Eu
calculo
que
nós
já
estamos
liberados
agora.
—É
claro
que
eu
a
levarei
mas
acredito
que
Magda
e
Sophia
também
vão
para
lá
depois
do
almoço.
A
senhora
estará
mais
confortável
com
elas
do
que
no
meu
carrinho
de
dois
lugares.
—Eu
não
quero
ir
com
elas.
Leve-me
com
você
e
não
diga
nada
a
ninguém.
Fiquei
surpreso
mas
fiz
o
que
ela
pediu.
Não
falamos
quase
enquanto
nos
dirigíamos
para
a
cidade.
Perguntei-lhe
onde
queria
que
eu
a
deixasse.
—Na
Rua
Harley.
Eu
senti
uma
leve
apreensão
mas
não
queria
falar
nada.
Ela
continuou:
—Não,
ainda
é
muito
cedo.
Pode
deixar-me
no
Debenhams.
Eu
almoço
qualquer
coisa
e
depois
vou
para
a
Rua
Harley.
—Eu
espero...
—
comecei
a
falar
mas
parei.
—É
por
isso
que
eu
não
queria
vir
com
Magda.
Ela
dramatiza
as
coisas.
Faz
muita
confusão.
—Eu
sinto
muito
—
disse
eu.
—Não
diga
isso.
Eu
tive
uma
vida
boa.
Uma
vida
muito
boa
—
fez
uma
careta
repentina.
—
E
ela
ainda
não
terminou.
Capítulo
23
EU
NÃO
VIA
MEU
pai
já
há
alguns
dias.
Encontrei-o
ocupado
com
outros
problemas
diferentes
do
caso
Leonides,
e
saí
à
procura
de
Taverner.
Taverner
estava
aproveitando
um
tempinho
livre
e
aceitou
meu
convite
para
sairmos
e
tomarmos
uma
bebida.
Eu
dei-lhe
os
parabéns
por
ter
desvendado
o
caso
e
ele
aceitou-os,
mas
sua
maneira
estava
longe
de
ser
triunfante.
—Bem,
tudo
acabou
—
disse
ele.
—
Nós
conseguimos
um
processo.
Ninguém
pode
negar
que
nós
conseguimos
um
processo.
—Você
acha
que
eles
vão
ser
condenados?
—Impossível
dizer.
A
evidência
é
circunstancial...
é
quase
sempre
nos
crimes
de
morte...
não
pode
deixar
de
ser.
Tudo
depende
muito
da
impressão
que
eles
causem
ao
júri.
—Até
onde
vão
as
cartas?
—A
primeira
vista,
Charles,
elas
são
terríveis.
Há
referências
à
vida
futura,
juntos,
quando
o
marido
dela
estiver
morto.
Frases
como
—
"não
será
por
muito
tempo
agora".
Veja
bem,
que
o
advogado
de
defesa
vai
tentar
virar
isso
ao
contrário
—
que
o
marido
era
tão
idoso
que
é
claro
que
realmente
eles
esperavam
que
ele
morresse.
Não
há
nenhuma
menção
ao
envenenamento...
assim
por
escrito...
mas
há
algumas
passagens
que
poderiam
ter
este
sentido.
Depende
do
juiz
que
conseguirmos.
Se
for
o
velho
Carberry
eles
estão
fritos.
Ele
é
sempre
muito
cheio
de
história
contra
os
amores
ilícitos.
Suponho
que
eles
vão
pegar
Eagles
ou
Humphrey
Kerr
para
a
defesa.
Humphrey
é
magnífico
para
esses
casos
mas
ele
gosta
de
um
galante
passado
de
guerras
ou
algo
no
gênero
para
ajudá-lo.
Um
objetor
de
consciência
vai
aleijar
o
seu
estilo.
A
questão
é:
será
que
o
júri
vai
gostar
deles?
A
gente
nunca
sabe
o
que
eles
têm
na
cabeça.
Sabe,
Charles,
aqueles
dois
não
são
dois
tipos
simpáticos.
Ela
é
uma
mulher
bonita,
que
se
casou
com
um
homem
muito
velho
por
seu
dinheiro
e
Brown
é
um
objetor
de
consciência
neurótico.
O
crime
é
tão
familiar...
tão
de
acordo
com
o
padrão,
que
a
gente
não
pode
mesmo
acreditar
que
eles
não
o
tenham
cometido.
É
claro,
eles
podem
resolver
que
foi
ele
quem
fez
tudo
e
que
ela
não
sabia
de
nada...
ou
por
outro
lado,
que
foi
ela
quem
fez
tudo
e
que
ele
é
que
não
sabia
de
nada...
ou
que
talvez
os
dois
tenham
agido
juntos.
—E
o
que
é
que
você
acha?
—
perguntei.
Ele
me
olhou
com
uma
cara
sem
expressão.
—Eu
não
acho
nada.
Eu
entreguei
os
fatos
para
o
Promotor
Público
e
foi
decidido
que
havia
lugar
para
um
processo.
Foi
tudo.
Eu
cumpri
meu
dever
e
estou
por
fora.
Agora
você
já
sabe,
Charles.
Mas
eu
não
sabia.
Via
não
sei
por
que
razão
que
Taverner
não
estava
satisfeito.
Foi
somente
uns
três
dias
depois
que
eu
me
abri
com
meu
pai.
Ele
próprio
nunca
comentara
o
caso
comigo.
Havia
uma
certa
barreira
entre
nós
—
e
eu
pensava
que
sabia
a
razão.
Mas
eu
precisava
quebrar
a
barreira.
—Nós
precisamos
rever
esse
caso
—
disse
eu.
—
Taverner
não
está
convencido
de
que
foram
aqueles
dois
que
fizeram
isso...
e
o
senhor
também
não
está
satisfeito.
Meu
pai
balançou
a
cabeça.
Disse
o
mesmo
que
Taverner
já
me
dissera:
—Não
está
mais
em
nossas
mãos.
Há
um
processo
a
responder.
Quanto
a
isto
não
há
mais
dúvida.
—Mas
o
senhor
não
acha,
nem
Taverner,
que
eles
sejam
os
culpados,
não
é?
—Isto
cabe
ao
júri
decidir.
—Pelo
amor
de
Deus
—
disse
eu,
—
não
me
enrole
com
essa
terminologia
técnica.
O
que
o
senhor
pensa...
ambos...
pessoalmente?
—A
minha
opinião
pessoal
não
é
melhor
do
que
a
sua,
Charles.
—É,
sim.
O
senhor
tem
mais
experiência.
—Então
eu
serei
honesto
com
você.
Eu
simplesmente...
não
sei!
—Eles
podem
ser
os
culpados?
—Oh,
sim.
—Mas
o
senhor
não
tem
certeza
de
que
sejam?
Meu
pai
deu
de
ombros.
—Como
se
pode
ter
certeza?
—Não
se
esquive
às
minhas
perguntas,
papai.
O
senhor
teve
certeza
em
outras
vezes,
não
teve?
Certeza
absoluta?
Nenhuma
dúvida
em
sua
mente?
—Algumas
vezes,
sim.
Nem
sempre.
—Eu
pediria
a
Deus
que
tivesse
certeza
desta
vez.
—Eu
também.
Ficamos
em
silêncio.
Eu
estava
pensando
naquelas
duas
figuras
flutuando
pelo
jardim
na
hora
do
crepúsculo.
Sozinhos,
perseguidos
e
amedrontados.
Eles
tiveram
medo
desde
o
início.
Isso
não
mostraria
uma
consciência
culpada?
Mas
eu
mesmo
me
respondi:
Não
necessariamente.
Ambos,
Brenda
e
Laurence,
tinham
medo
da
vida
—
não
tinham
confiança
em
si
próprios,
em
suas
habilidades
para
evitar
o
perigo
e
a
derrota,
e
só
viam
—
claramente
demais
—
o
exemplo
de
seus
amores
ilícitos
que
possivelmente
os
envolveria
a
qualquer
momento.
Meu
pai
falou
e
sua
voz
era
grave
e
gentil:
—Vamos,
Charles
—
disse
ele,
—
encaremos
os
fatos.
Você
ainda
tem
na
cabeça
que
é
um
dos
membros
da
família
Leonides
o
verdadeiro
culpado,
não
é?
—Não
de
verdade.
Eu
apenas
imagino...
—Você
pensa
assim.
Pode
estar
errado,
mas
você
pensa
assim.
—Sim
—
eu
disse.
—Porquê?
—Porque...
—
fiquei
pensando
sobre
isto,
tentando
ver
as
coisas
com
clareza,
pondo
minhas
idéias
em
dia...
—
Porque...
(sim,
era
isto!)
porque
eles
mesmos
pensam
assim!
—Eles
mesmos
pensam?
Isso
é
interessante.
Isso
é
muito
interessante.
Você
quer
dizer
que
eles
suspeitam
uns
dos
outros,
ou
que
talvez
mesmo
saibam
quem
foi
que
fez
aquilo?
—Eu
não
tenho
certeza
—
disse
eu.
—
Tudo
está
muito
enevoado
e
confuso.
Eu
penso...
assim
por
alto...
que
eles
estão
tentando
esconder
a
verdade
de
si
próprios.
Meu
pai
fez
que
sim
com
a
cabeça.
—Roger
não
—
disse
eu.
—
Roger
acredita
piamente
que
foi
Brenda
e
de
todo
o
coração
ele
quer
que
ela
seja
enforcada.
É...
é
um
alívio
estar-se
perto
de
Roger
porque
ele
é
sincero
e
positivo,
e
não
tem
nada
por
detrás
de
seus
pensamentos.
—Mas
os
outros
são
cheios
de
justificativas,
cheios
de
dedos...
pedem-me
demais
que
eu
garanta
a
Brenda
a
melhor
defesa...
que
todas
as
vantagens
possíveis
lhe
sejam
dadas...
por
quê?
Meu
pai
respondeu:
—Porque
eles
não
acreditam
realmente,
no
fundo
de
seus
corações,
que
ela
seja
a
culpada...
Sim,
parece
lógico.
Então
ele
falou
calmamente:
—Quem
poderia
ter
sido?
Você
falou
com
todos
eles?
Qual
é
o
melhor
palpite?
—Eu
não
sei
—
disse
eu.
—
E
isso
está-me
deixando
maluco.
Nenhum
deles
preenche
as
"características
de
um
assassino";
entretanto,
eu
sinto...
eu
sinto
mesmo...
que
um
deles
é
um
assassino.
—Sophia?
—Não!
Por
Deus
do
Céu!
Não!
—A
possibilidade
está
em
sua
mente,
Charles...
sim,
está,
não
queira
negar.
E
potencialmente
mais
ainda
porque
você
não
quer
dar
o
braço
a
torcer.
E
sobre
os
outros?
Philip?
—Somente
pelo
mais
fantástico
dos
motivos.
—Motivos
podem
ser
fantásticos...
ou
absurdamente
insignificantes.
Qual
é
o
motivo
dele?
—Ele
tem
um
ciúme
terrível
de
Roger...
sempre
teve,
a
vida
inteira.
A
preferência
de
seu
pai
por
Roger
deixou
Philip
fora
de
si.
Roger
estava
próximo
à
falência,
e
então
o
velho
soube
de
tudo.
Ele
prometeu
reerguer
Roger
novamente.
Suponhamos
que
Philip
tenha
ouvido
isso.
Se
o
velho
morresse
naquela
noite
não
havia
ajuda
para
Roger.
Roger
seria
derrotado
de
vez.
Oh!
Eu
sei
que
é
um
absurdo...
—Oh,
não,
não
é.
É
fora
do
normal
mas
acontece.
É
humano.
E
Magda?
—Ela
é
muito
infantil.
Ela...
ela
não
percebe
a
dimensão
de
nada.
Mas
eu
não
pensaria
duas
vezes
que
ela
estivesse
envolvida
se
ela
não
tivesse
querido
enviar
Josephine
a
toda
pressa
para
a
Suíça.
Eu
não
pude
deixar
de
sentir
que
esteja
com
medo
de
alguma
coisa
que
Josephine
possa
saber
ou
dizer...
—E
foi
então
que
Josephine
levou
a
pancada
na
cabeça?
—Bem,
mas
não
podia
ter
sido
sua
mãe!
—Por
que
não?
—Mas
papai,
uma
mãe
não
poderia...
—Charles,
Charles,
você
nunca
lê
os
noticiários
policiais?
Sempre
e
sempre
a
mãe
toma
uma
antipatia
por
um
de
seus
filhos.
Somente
um...
ela
pode
ser
dedicada
aos
outros.
Há
sempre
uma
associação,
alguma
razão,
mas
geralmente
é
difícil
de
se
saber.
Mas
quando
existe,
é
uma
aversão
irracional
e
é
muito
forte.
—Ela
chamava
Josephine
de
bruxinha
—
eu
admiti
a
contragosto.
—E
a
menina
se
importava?
—Que
eu
saiba,
não.
—Então
quem
mais
podia
ser?
Roger?
—Roger
não
matou
o
pai.
Eu
tenho
certeza
disso.
—Então
afastemos
Roger.
Sua
mulher...
como
é
mesmo
o
nome
dela?...
Clemency?
—Sim
—
disse
eu.
—
Se
ela
matou
o
velho
Leonides
foi
por
uma
razão
muito
estranha.
Contei
a
ele
as
minhas
conversas
com
Clemency.
Disse
que
podia
ser
possível
que
em
sua
paixão
por
afastar
Roger
da
Inglaterra
ela
poderia
ter
deliberadamente
envenenado
o
velho.
—Ela
persuadiu
Roger
a
ir-se
embora
sem
falar
a
seu
pai.
Depois
o
velho
descobriu
tudo.
Ele
ia
reconstituir
a
Associação
de
Fornecedores.
Todas
as
esperanças
e
os
planos
de
Clemency
frustraram-se.
E
ela
gosta
desesperadamente
de
Roger...
é
quase
uma
idolatria.
—Você
está
repetindo
o
que
Edith
de
Haviland
disse!
—Sim.
E
Edith
é
em
outra
que
eu
penso.
Ela
pode
ter
feito
isso.
Mas
eu
não
sei
por
quê.
Eu
só
posso
acreditar
que,
se
ela
tiver
uma
razão
boa
e
suficiente,
pode
querer
fazer
justiça
com
suas
próprias
mãos.
Ela
é
desse
tipo
de
pessoa.
—E
ela
também
estava
ansiosa
que
Brenda
tivesse
uma
defesa
adequada?
—Sim.
Eu
creio
que
isto
pode
ser
a
sua
consciência.
Mas
eu
não
penso,
nem
por
um
instante,
que
se
ela
fosse
a
culpada
pretendesse
que
eles
sejam
acusados
de
seu
crime.
—Provavelmente
não.
Mas
ela
teria
atingido
Josephine?
—Não
—
disse
eu
devagar.
—
Não
creio.
E
isto
me
faz
lembrar
uma
coisa
que
Josephine
me
disse
e
que
não
me
sai
da
cabeça,
mas
que
eu
não
consigo
lembrar
o
que
é.
É
um
lapso
em
minha
memória.
Mas
é
alguma
coisa
que
não
se
encaixa
bem
na
história.
Se
ao
menos
eu
pudesse
me
lembrar...
—Deixe
pra
lá.
Vai
lembrar-se
depois.
Mais
alguma
coisa
ou
mais
alguém
em
sua
cabeça?
—Sim
—
disse
eu.
—
Mais
uma
coisa.
O
senhor
sabe
algo
sobre
paralisia
infantil?
Sobre
seus
efeitos
sobre
o
caráter,
eu
quero
dizer?
—Eustace?
—Sim.
Quanto
mais
eu
penso
nele,
mais
me
parece
provável
que
ele
se
encaixe
no
papel.
Ele
não
gostava
e
tinha
ressentimentos
contra
o
avô.
É
esquisito
e
rabugento.
Não
é
normal.
—É
o
único
da
família
que
eu
veria
liquidando
Josephine
sem
piedade
se
ela
soubesse
de
alguma
coisa
sobre
ele...
e
é
bem
possível
que
ela
saiba.
Aquela
menina
sabe
de
tudo.
Ela
escreve
as
coisas
num
livrinho...
Parei.
—Deus
do
Céu!
—
exclamei.
—
Como
eu
fui
bobo!
—O
que
foi
que
houve?
—Eu
sei
agora
o
que
é
que
estava
errado.
Nós
calculamos,
Taverner
e
eu,
que
a
destruição
no
quarto
de
Josephine,
a
busca
frenética,
fosse
por
aquelas
cartas.
Pensei
que
ela
tivesse
passado
a
mão
nelas
e
as
tivesse
escondido
no
pátio
das
cisternas.
Mas
quando
ela
estava
falando
comigo
outro
dia,
ela
me
disse
claramente
que
foi
Laurence
quem
as
escondera
lá.
Ela
o
viu
saindo
e
foi
bisbilhotar
e
achou
as
cartas.
Então,
é
claro
que
as
leu.
Imagine
se
não
ia
ler!
Mas
ela
as
deixou
onde
estavam.
—Então?
—Não
está
vendo?
Não
poderiam
ter
sido
as
cartas
que
alguém
estava
procurando
no
quarto
de
Josephine.
Só
pode
ter
sido
outra
coisa.
—E
essa
outra
coisa...
—Era
o
livrinho
preto
onde
ela
escreve
suas
"descobertas
de
detetive".
Era
isto
que
alguém
estava
procurando!
Eu
penso
também
que
quem
fez
aquilo
não
o
encontrou.
Acho
que
Josephine
ainda
o
tem.
Mas
se
for
assim...
Eu
comecei
a
me
levantar.
—Se
for
assim
—
disse
meu
pai
—
ela
ainda
não
está
a
salvo.
Era
isto
o
que
você
ia
dizer?
—Sim.
Ela
não
estará
livre
de
perigo
enquanto
não
for
mesmo
mandada
para
a
Suíça.
Estão
planejando
enviá-la
para
lá,
o
senhor
sabe.
—Ela
quer
ir?
Considerei
isto.
—Eu
creio
que
não.
—Então
provavelmente
ela
ainda
não
foi
—
disse
meu
pai
secamente.
—
Mas
eu
acho
que
você
tem
razão
quanto
ao
perigo.
É
melhor
ir
para
lá.
—Eustace?
—
perguntei
em
desespero.
—
Clemency?
Meu
pai
disse
gentilmente:
—Para
mim
os
fatos
apontam
claramente
numa
única
direção...
Eu
não
sei
como
é
que
você
ainda
não
percebeu.
Eu...
Glover
abriu
a
porta.
—Desculpe,
Sr.
Charles,
é
o
telefone.
A
Srta.
Leonides
está
chamando
de
Swinly.
É
urgente.
Parecia
uma
repetição
horrível.
Josephine
se
teria
transformado
em
vítima
outra
vez?
E
será
que
desta
vez
o
criminoso
não
se
enganara?...
Corri
para
o
telefone.
—Sophia?
É
Charles
falando.
A
voz
de
Sophia
chegou
com
uma
entonação
de
desespero.
—Charles,
ainda
não
está
tudo
acabado.
O
criminoso
ainda
está
aqui.
—O
que
é
que
você
quer
dizer?
O
que
foi
que
aconteceu?
Foi...
Josephine?
—Não
é
Josephine.
É
Nannie.
—Nannie?
—Sim,
foi
uma
xícara
de
chocolate...
o
chocolate
de
Josephine,
que
ela
não
bebeu.
Ela
deixou
em
cima
da
mesa.
Nannie
achou
que
era
uma
pena
desperdiçá-lo.
Então,
tomou-o.
—Pobre
Nannie.
Ela
está
muito
mal?
A
voz
de
Sophia
sumiu.
—Oh,
Charles,
ela
está
morta.
Capítulo
24
ESTÁVAMOS
DE
volta
ao
pesadelo.
Foi
nisto
que
eu
pensei
enquanto
Taverner
e
eu
saíamos
de
Londres.
Era
a
repetição
de
nossa
viagem
anterior.
De
vez
em
quando,
Taverner
dizia
um
palavrão.
Eu
repetia
de
tempos
em
tempos,
estupidamente,
sem
nenhum
proveito:
—Então
não
eram
Brenda
e
Laurence.
Não
eram
Brenda
e
Laurence.
Será
que
alguma
vez
eu
pensara
que
eram
eles?
Fiquei
contente
com
esta
lembrança.
Contente
para
escapar
para
uma
outra,
mais
sinistra,
possibilidade.
Eles
tinham-se
apaixonado
um
pelo
outro.
Tinham
trocado
tolas
cartas
românticas.
Tinham
esperanças
de
que
o
marido
velho
de
Brenda
em
breve
morresse,
calma
e
tranqüilamente
—
mas
eu
imaginava
se
eles
haviam
mesmo
desejado
a
sua
morte.
Eu
tinha
uma
intuição
de
que
os
desesperos
e
desejos
de
um
caso
de
amor
infeliz
lhes
fosse
tão
bem,
ou
talvez
melhor
ainda,
que
uma
vida
trivial
quando
estivessem
casados
e
juntos.
Eu
não
pensava
que
Brenda
estivesse
mesmo
apaixonada.
Ela
era
anêmica
demais,
apática
demais.
Era
romance
o
que
ela
queria.
E
eu
pensava
que
Laurence,
também,
era
do
tipo
que
aproveitaria
melhor
a
sua
frustração
e
uns
vagos
sonhos
futu-
ros
de
bem-aventurança
do
que
as
satisfações
concretas
da
carne.
Eles
tinham
sido
apanhados
numa
armadilha
e,
aterrorizados,
não
tiveram
capacidade
de
encontrar
uma
saída.
Laurence,
por
uma
burrice
incrível,
não
destruíra
as
cartas
de
Brenda.
Brenda
provavelmente
destruíra
as
dele,
uma
vez
que
elas
não
tinham
sido
encontradas.
E
não
tinha
sido
Laurence
quem
pendurara
o
calço
de
mármore
na
porta
da
lavandaria.
Era
alguém
cujo
rosto
estava
escondido
atrás
de
uma
máscara.
Chegamos
à
porta
da
frente.
Taverner
desceu
e
eu
o
segui.
Havia
um
policial
à
paisana
que
eu
não
conhecia
no
vestíbulo.
Ele
cumprimentou
Taverner
e
este
chamou-o
para
um
lado.
Minha
atenção
foi
atraída
por
uma
pilha
de
bagagens
na
entrada.
Estava
já
com
as
etiquetas
e
pronta
para
a
saída.
Enquanto
olhava
para
elas,
Clemency
desceu
as
escadas
e
passou
pela
porta
que
estava
aberta.
Ela
estava
vestida
com
o
mesmo
vestido
vermelho,
um
casaco
cinzento
e
usava
um
chapéu
de
feltro
vermelho.
—Você
chegou
a
tempo
de
nos
dar
adeus,
Charles
—
disse
ela.
—Vocês
estão
indo
embora?
—Vamos
para
Londres
hoje
à
noite.
Nosso
avião
sai
amanhã
de
manhã.
Ela
estava
calma
e
sorridente
mas
eu
percebi
que
seus
olhos
estavam
vigilantes.
—Mas
é
claro
que
agora
vocês
não
vão
mais.
—Por
que
não?
—
sua
voz
era
dura.
—Com
esta
morte...
—A
morte
de
Nannie
não
tem
nada
a
ver
conosco.
—Talvez
não.
Mas
apesar
de
tudo...
—Por
que
é
que
você
diz
"talvez
não"?
Não
tem
nada
a
ver
conosco.
Roger
e
eu
estávamos
lá
em
cima,
terminando
de
arrumar
a
bagagem.
Não
descemos
nem
uma
vez
enquanto
o
chocolate
estava
em
cima
da
mesa
da
copa.
—Você
pode
provar
isto?
—Eu
posso
responder
por
Roger.
E
Roger
pode
responder
por
mim.
—Nada
mais
que
isso...
Vocês
são
marido
e
mulher,
lembre-se.
Ela
encolerizou-se.
—Você
é
impossível,
Charles!
Roger
e
eu
vamos
embora
viver
a
nossa
própria
vida.
Por
que
diabos
nós
quereríamos
envenenar
uma
pobre
velha
simpática
e
boba
que
não
nos
podia
causar
nenhum
mal?
—Talvez
não
tenha
sido
ela
que
vocês
quisessem
envenenar.
—Menos
ainda
seria
provável
que
quiséssemos
envenenar
uma
criança.
—Depende
muito
da
criança,
não
é?
—O
que
é
que
você
quer
dizer?
—Josephine
não
é
uma
criança
comum.
Ela
sabe
de
muitas
coisas
sobre
as
pessoas.
Ela...
Eu
me
interrompi.
Josephine
surgira
na
porta
que
dava
para
a
sala
de
visitas.
Ela
estava
comendo
a
inevitável
maçã
e
por
cima
deste
círculo
rosado
seus
olhos
brilhavam
com
uma
alegria
macabra.
E
você
não
está
triste
por
isto?
perguntei
com
severidade.
—Nannie
foi
envenenada
—
disse
ela.
—
Igualzinho
ao
vovô.
É
formidável,
não
é?
—
—
—
Você
gostava
dela,
não
gostava?
—Não
muito.
Ela
estava
sempre
ralhando
comigo
por
um
ou
outro
motivo.
Criava
casos.
—Você
gosta
de
alguém,
Josephine?
—
perguntou
Clemency.
Josephine
lançou
seu
olhar
macabro
para
Clemency.
—Eu
gosto
de
tia
Edith
—
disse
ela.
—
Eu
gosto
muito
de
tia
Edith.
E
eu
poderia
gostar
de
Eustace,
se
ele
não
fosse
sempre
tão
malvado
comigo
e
estivesse
interessado
em
descobrir
quem
foi
que
fez
isso.
—É
melhor
você
parar
de
descobrir
coisas,
Josephine.
Não
é
muito
seguro.
—Eu
não
preciso
descobrir
mais
nada
—
disse
Josephine.
—
Eu
sei.
Houve
um
momento
de
silêncio.
Os
olhos
de
Josephine,
solenes
e
sem
piscar,
estavam
fixos
em
Clemency.
Um
som
feito
um
suspiro
fundo
chegou
até
os
meus
ouvidos.
Eu
me
virei
rapidamente.
Edith
de
Haviland
estava
no
meio
da
escadaria,
mas
eu
não
pensei
que
fosse
ela
quem
havia
suspirado.
O
ruído
viera
da
porta
por
onde
Josephine
acabara
de
passar.
Eu
corri
até
lá
e
empurrei-a.
Não
havia
ninguém.
No
entanto,
eu
estava
seriamente
preocupado.
Alguém
estivera
de
pé
atrás
daquela
porta
e
ouvira
as
palavras
de
Josephine.
Voltei
e
segurei
Josephine
pelo
braço.
Ela
continuava
comendo
a
maçã
e
olhando
fixamente
para
Clemency.
Por
detrás
do
ar
solene,
havia,
eu
pensei,
uma
certa
satisfação
maligna.
—Venha,
Josephine
—
eu
disse.
—
Nós
vamos
ter
uma
conversinha.
Pensei
que
Josephine
fosse
protestar
mas
eu
não
iria
permitir
mais
nenhuma
tolice.
Levei-a
à
força
para
a
outra
parte
da
casa.
Havia
uma
pequena
sala
de
almoço,
que
não
era
usada,
onde
nós
podíamos
estar
razoavelmente
seguros
de
não
sermos
perturbados.
Levei-a
para
lá,
tranquei
a
porta
e
a
fiz
sentar-se
numa
cadeira.
Peguei
outra
cadeira
e
puxei-a
para
perto,
ficando
frente
a
frente
com
ela.
—Agora,
Josephine
—
disse
eu,
—
nós
vamos
pôr
as
cartas
na
mesa.
O
que
é
que
você
sabe
exatamente?
—Um
monte
de
coisas.
—Disto
eu
não
tenho
a
menor
dúvida.
Esta
sua
cabecinha
deve
estar
cheia
até
transbordar
de
informações
verdadeiras
e
de
informações
despropositadas.
Você
sabe
muito
bem
o
que
eu
quero
dizer.
Não
sabe?
—E
claro
que
eu
sei.
Não
sou
burra.
Eu
não
sei
dizer
se
isto
foi
para
mim
ou
para
a
polícia,
mas
não
dei
atenção
e
continuei:
—
Você
sabe
quem
foi
que
pôs
alguma
coisa
em
seu
chocolate?
Josephine
fez
que
sim
com
a
cabeça.
—Você
sabe
quem
foi
que
envenenou
seu
avô?
Josephine
fez
que
sim
outra
vez.
—E
quem
foi
que
lhe
deu
uma
pancada
na
cabeça?
Mais
uma
vez
Josephine
fez
que
sim.
—Então
você
vai
dizer-me
o
que
sabe.
Vai
contar-me
tudo...
agora!
—Não
posso.
—Você
precisa
contar.
Cada
informação
que
você
tem
ou
que
você
descobriu
precisa
ser
dada
à
polícia.
—Eu
não
vou
dizer
nada
à
polícia.
Eles
são
burros.
Pensavam
que
era
Brenda...
ou
Laurence.
Eu
não
fui
assim
tão
burra.
Eu
sabia
muito
bem
que
não
tinha
sido
eles
e
então
fiz
uma
espécie
de
teste...
e
agora
eu
sei
que
estava
certa.
Ela
terminou
com
uma
nota
triunfante.
Eu
pedi
aos
céus
para
ter
paciência
e
recomecei:
—Olhe,
Josephine,
eu
diria
que
você
é
extremamente
esperta...
—
Josephine
pareceu
satisfeita.
—
Mas
não
lhe
adiantará
nada
se
não
estiver
viva
para
gozar
esse
fato.
Não
está
vendo,
sua
bobinha,
que
enquanto
você
guardar
seus
segredos
desta
maneira
idiota
você
estará
em
perigo
iminente?
Josephine
fez
que
sim,
em
aprovação.
—E
claro
que
eu
estou.
—Você
já
escapou
de
fininho
duas
vezes.
Um
dos
atentados
quase
foi
bem
sucedido.
O
outro
custou
a
vida
de
outra
pessoa.
Não
está
vendo
que
se
você
continuar
a
se
pavonear
pela
casa,
proclamando
em
altos
brados
que
sabe
quem
é
o
assassino,
haverá
outros
atentados...
e
que,
ou
você
vai
morrer
ou
alguém
mais
morrerá?
—Em
alguns
livros
vai
morrendo
um
atrás
do
outro
—
Josephine
informou
com
deleite.
—
Você
termina
descobrindo
quem
é
o
assassino
porque
ele
ou
ela
é
praticamente
a
única
pessoa
que
resta.
—Esta
não
é
uma
história
de
detetives.
Isto
aqui
é
Três
Oitões,
Swinly
Dean,
e
você
é
uma
menininha
muito
boba
que
lê
mais
do
que
deve.
Eu
a
farei
falar
nem
que
tenha
de
sacudila
até
seus
dentes
chocalharem.
—Eu
posso
contar-lhe
uma
coisa
que
não
seja
a
verdade.
—Você
pode
mas
não
vai
fazer
isto.
O
que
é
que
você
está
esperando,
afinal
de
contas?
—Você
não
entende
—
disse
Josephine.
—
Talvez
eu
não
conte
nunca.
Sabe,
talvez
eu...
goste
da
pessoa.
Fez
uma
pausa
para
me
deixar
digerir
isto.
—E
se
eu
contar
—
continuou
ela,
—
eu
o
farei
da
maneira
correta.
Deixarei
todos
sentados
à
minha
volta,
e
então,
recapitularei
tudo...
com
as
pistas,
e
então
eu
direi,
assim
de
repente:
—E
foi
você!...
Ela
esticou
um
dramático
dedo
acusador
no
instante
em
que
Edith
de
Haviland
entrava
na
sala.
—Ponha
esse
miolo
de
maçã
na
cesta
de
papéis,
Josephine
—
disse
Edith.
—
Você
tem
um
lenço?
Seus
dedos
estão
melados.
Vamos
passear
de
carro.
Seus
olhos
encontraram
os
meus
e
com
ênfase
ela
disse:
—Ela
estará
melhor
fora
daqui
durante
as
próximas
horas.
Como
Josephine
queria
rebelar-se,
Edith
acrescentou:
—Vamos
a
Longbridge
e
tomaremos
um
refresco.
Os
olhos
de
Josephine
brilharam
e
ela
disse:
—Dois!
—Vamos
ver
—
disse
Edith.
—
Ande,
vá
pegar
seu
chapéu,
o
casaco
e
aquele
lenço
azul
escuro.
Está
frio
lá
fora.
Charles,
vá
com
ela
buscar
as
coisas.
Não
a
deixe
sozinha.
Eu
tenho
apenas
de
escrever
umas
duas
notinhas.
Ela
sentou-se
à
mesa
e
eu
segui
Josephine
para
fora
da
sala.
Mesmo
sem
o
aviso
de
Edith,
eu
teria
ficado
colado
a
Josephine
como
uma
sanguessuga.
Eu
estava
certo
de
que
havia
perigo
para
aquela
criança
ali
por
perto.
Quando
eu
acabei
de
vigiar
Josephine
se
vestir,
Sophia
entrou
no
quarto.
Ela
pareceu
surpresa
ao
me
ver.
—Ora,
ora,
Charles,
você
agora
virou
babá?
Eu
não
sabia
que
Sorvetes
são
sempre
gostosos
disse
Josephine.
Quando
a
estava
aqui.
—Eu
vou
a
Longbridge
com
tia
Edith
—
disse
Josephine
muito
importante.
—
Nós
vamos
tomar
sorvetes.
—Brrrr...
num
dia
como
este?
—
—
—
gente
fica
fria
por
dentro
sente
calor
por
fora.
Sophia
franziu
a
testa.
Parecia
preocupada.
Fiquei
assustado
pela
palidez
e
pelas
olheiras
em
seu
rosto.
Voltamos
à
sala
de
almoço.
Edith
estava
acabando
de
passar
o
mata-borrão
em
dois
envelopes.
Levantou-se
depressa.
—Vamos
embora
agora
—
disse
ela.
—
Eu
disse
a
Evans
para
trazer
o
Ford.
Ela
foi
para
o
vestíbulo.
Nós
a
seguimos.
Meu
olhar
foi
novamente
atraído
para
as
valises
e
suas
etiquetas
azuis.
Por
alguma
razão
elas
me
trouxeram
uma
vaga
inquietude.
—O
dia
está
agradável
—
disse
Edith
de
Haviland,
calçando
as
luvas
e
dando
uma
espiada
para
o
céu.
O
Ford
10
estava
à
espera
em
frente
da
casa.
—
Frio
mas
revigorante.
Um
verdadeiro
dia
de
outono
inglês.
Como
estão
lindas
as
árvores
com
seus
galhos
nus
contra
o
céu...
apenas
uma
ou
duas
folhas
douradas
ainda
penduradas...
Ela
ficou
em
silêncio
um
ou
dois
minutos,
depois
voltou-se
e
beijou
Sophia.
—Adeus,
querida
—
disse
ela.
—
Não
se
preocupe
tanto.
Precisamos
enfrentar
e
encarar
certas
coisas.
Depois
ela
disse:
—Venha,
Josephine
—
e
entrou
no
carro.
Josephine
subiu
a
seu
lado.
Ambas
deram
adeus
com
a
mão
enquanto
o
carro
se
afastava.
—Eu
acho
que
ela
tem
razão,
é
melhor
manter
Josephine
afastada
um
certo
tempo.
Mas
nós
precisamos
fazer
esta
menina
contar
o
que
sabe,
Sophia.
—Provavelmente
ela
não
sabe
de
nada.
Josephine
gosta
de
bancar
a
importante,
você
sabe.
—É
mais
do
que
isto.
Eles
já
sabem
qual
é
o
veneno
que
havia
no
chocolate?
—
Acham
que
é
digitalina.
Tia
Edith
toma
digitalina
para
o
coração.
Ela
tem
um
vidro
cheio
de
pílulas
no
seu
quarto.
Agora,
o
vidro
está
vazio.
—Ela
devia
guardar
essas
coisas
trancadas.
—Ela
guardava.
Mas
acho
que
não
deve
ser
difícil
para
alguém
descobrir
onde
estava
a
chave.
—Alguém?
Quem?
Eu
olhei
outra
vez
para
a
pilha
de
malas.
De
repente
eu
falei
alto:
—Eles
não
podem
ir
embora.
Não
se
pode
permitir
que
eles
saiam.
Sophia
olhou-me
surpresa.
—Roger
e
Clemency?
Charles,
você
não
está
pensando...
—Bem,
o
que
é
que
você
está
pensando?
Sophia
estendeu
as
mãos
num
gesto
de
desalento.
—Eu
não
sei,
Charles
—
sussurrou.
—
Eu
só
sei
que
eu
estou
de
volta...
de
volta
ao
pesadelo...
—Eu
sei.
Foram
estas
as
palavras
que
eu
disse
para
mim
mesmo
quando
vinha
para
cá
com
Taverner.
—Porque
é
um
pesadelo
o
que
isto
é.
Andando
no
meio
de
pessoas
que
você
conhece,
olhando
em
seus
rostos...
e
de
repente
os
rostos
se
transfiguram...
e
não
é
mais
alguém
que
você
conhece
há
muito
tempo...
é
um
estranho...
um
estranho
cruel...
Ela
gritou:
—Vamos
lá
para
fora,
Charles...
vamos
lá
para
fora.
É
mais
seguro
lá
fora...
Eu
estou
com
medo
de
ficar
nesta
casa...
Capítulo
25
FICAMOS
NO
jardim
muito
tempo.
Por
uma
espécie
de
acordo
mútuo,
não
discutimos
o
terror
que
se
apossara
de
nós.
Ao
invés
disto,
Sophia
falava
amorosamente
da
mulher
que
morrera,
das
coisas
que
ela
fizera,
das
brincadeiras
que
brincavam
com
Nannie
quando
eram
crianças,
das
histórias
que
ela
costumava
contar
sobre
Roger
e
o
pai
e
sobre
os
outros
irmãos
e
irmãs.
—Eles
eram
todos
seus
filhos,
sabe?
Ela
só
nos
veio
ajudar
durante
a
guerra
quando
Josephine
era
um
bebê
e
Eustace
um
menininho
engraçado.
Havia
um
certo
consolo
para
Sophia
nessas
lembranças
e
eu
encorajei-a
a
falar.
Fiquei
imaginando
o
que
Taverner
estaria
fazendo.
Perguntas
às
pessoas
da
casa,
calculei.
Um
carro
foi-se
embora
com
o
fotógrafo
da
polícia
e
dois
outros
homens,
e
depois,
uma
ambulância
chegou.
Sophia
estremeceu
ligeiramente.
Nesse
instante
a
ambulância
saiu
e
nós
soubemos
que
o
corpo
de
Nannie
fora
levado
para
ser
preparado
para
a
autópsia.
E
ficamos
sentados
quietos,
andamos
pelo
jardim
e
conversamos
—
nossas
palavras
tornando-se
de
mais
a
mais
um
disfarce
para
nossos
próprios
pensamentos.
Finalmente,
com
um
arrepio,
Sophia
disse:
—Deve
ser
muito
tarde...
já
está
quase
escuro.
Temos
de
entrar.
Tia
Edith
e
Josephine
ainda
não
voltaram...
Não
acha
que
elas
já
deviam
estar
de
volta?
Eu
senti
um
pressentimento
vago.
O
que
teria
acontecido?
Edith
estaria
mantendo
a
menina
deliberadamente
longe
da
Casa
Torta?
Entramos.
Sophia
puxou
as
cortinas.
O
fogo
estava
aceso
e
a
grande
sala
de
estar
tinha
um
ar
harmonioso
e
irreal
do
luxo
dos
tempos
passados.
Grandes
vasos
de
crisântemos
cor
de
bronze
estavam
sobre
as
mesas.
Sophia
chamou
uma
empregada
e
eu
reconheci
a
que
me
levara
o
chá
lá
em
cima
uma
vez.
Ela
estava
com
os
olhos
vermelhos
e
fungava
continuamente.
Notei
também
que
parecia
amedrontada
e
olhava
assustada
por
cima
do
ombro.
Magda
juntou-se
a
nós
mas
o
chá
de
Philip
foi
levado
para
a
biblioteca.
O
papel
que
Magda
desempenhava
era
a
mais
rígida
imagem
da
tristeza.
Ela
quase
não
falava.
Disse
apenas
uma
vez:
—Onde
estão
Edith
e
Josephine?
Elas
estão
fora
há
muito
tempo.
Mas
ela
dissera
isto
de
maneira
preocupada.
Eu
próprio
estava
começando
a
ficar
preocupado.
Perguntei
se
Taverner
ainda
estava
na
casa
e
Magda
respondeu
que
ela
pensava
que
sim.
Fui
à
sua
procura.
Disse-lhe
que
eu
estava
preocupado
sobre
Edith
e
a
menina.
Ele
foi
imediatamente
ao
telefone
e
deu
certas
instruções.
—Eu
lhe
aviso
quando
souber
de
alguma
coisa
—
disse
ele.
Agradeci
e
voltei
para
a
sala
de
visitas.
Sophia
estava
lá
com
Eustace.
Magda
fora
embora.
—Ele
nos
avisará
se
souber
de
alguma
coisa
—
disse
para
Sophia.
Ela
respondeu
em
voz
baixa:
—Alguma
coisa
aconteceu,
Charles,
alguma
coisa
deve
ter
acontecido.
—Sophia,
querida,
ainda
não
é
muito
tarde.
—Por
que
é
que
vocês
estão
preocupados?
—
disse
Eustace.
—
Provavelmente
elas
foram
ao
cinema.
Ele
saiu
da
sala.
Eu
disse
para
Sophia:
—Talvez
ela
tenha
levado
Josephine
para
um
hotel...
ou
para
Londres.
Acho
que
ela
percebeu
que
a
menina
corre
perigo...
talvez
ela
tenha
percebido
isto
melhor
do
que
nós
todos.
Sophia
respondeu
com
um
ar
sombrio
que
eu
não
pude
compreender.
—Ela
me
deu
um
beijo
e
disse
adeus...
Não
percebi
o
que
ela
quisera
dizer
com
esta
reflexão
sem
nexo,
ou
o
que
pretendia
dizer.
Perguntei
se
Magda
estava
preocupada.
—Mamãe?
Não,
ela
não
está
ligando.
Ela
não
tem
nenhum
senso
de
tempo.
Ela
está
lendo
uma
nova
peça
de
Vavasour
Jones
chamada
A
Mulher
Dispõe.
Ê
uma
peça
engraçada
sobre
um
crime...
uma
Barbazul
de
saias...
um
plágio
de
Arsênico
e
Alfazema
se
você
me
perguntar,
mas
tem
um
bom
papel
feminino,
uma
mulher
que
tem
mania
de
ficar
viúva.
Eu
não
falei
mais
nada.
Ficamos
sentados,
fingindo
que
líamos.
Eram
seis
e
meia
quando
Taverner
abriu
a
porta.
Seu
rosto
preparou-nos
para
o
que
ele
ia
dizer.
Sophia
levantou-se.
—Sim?
—
disse
ela.
—Eu
sinto
muito.
Mas
tenho
más
notícias
para
a
senhora.
Eu
dei
um
alarme
geral
para
procurar
o
carro.
Um
motorista
informou
que
viu
um
carro
Ford
com
um
número
parecido
com
o
dele,
saindo
da
estrada
principal
no
campo
de
Flackspur
—
através
do
bosque.
—Não...
é
a
estrada
que
vai
para
a
pedreira
de
Flackspur?
—Sim,
Srta.
Leonides
—
fez
uma
pausa
e
continuou:
—
O
carro
foi
encontrado
no
fundo
da
pedreira.
As
duas
ocupantes
estavam
mortas.
A
senhora
talvez
goste
de
saber
que
elas
tiveram
morte
instantânea.
—Josephine!
—
era
Magda
que
estava
de
pé
na
entrada.
Sua
voz
subiu
num
uivo.
—
Josephine!...
Meu
bebezinho!...
Sophia
foi
para
junto
dela
e
apertou-a
entre
os
braços.
Eu
disse:
—Esperem
um
minuto.
Eu
me
lembrara
de
algo!
Edith
de
Haviland
escrevera
duas
cartas
na
escrivaninha
e
fora
para
o
vestíbulo
com
elas
na
mão.
Mas
elas
não
estavam
em
suas
mãos
quando
ela
saíra
no
carro!
Corri
para
o
vestíbulo
e
fui
até
a
grande
arca
de
carvalho.
Encontrei
as
cartas
—
estavam
discretamente
colocadas
debaixo
de
um
samovar
de
bronze.
A
de
cima
estava
endereçada
ao
Inspetor-Chefe
Taverner.
Taverner
me
seguira.
Eu
entreguei-lhe
a
carta
e
ele
a
abriu.
De
pé
a
seu
lado,
eu
li
o
seu
breve
conteúdo:
Eu
espero
que
esta
carta
seja
aberta
depois
de
minha
morte.
Não
quero
entrar
em
detalhes
mas
aceito
plena
responsabilidade
pelas
mortes
de
meu
cunhado
Aristide
Leonides
e
de
Janet
Rowe
(Nannie).
Eu
declaro
aqui,
solenemente,
que
Brenda
Leonides
e
Laurence
Brown
são
inocentes
do
crime
contra
Aristide
Leonides.
Se
pedirem
informações
ao
Dr.
Michael
Chavasse,
na
Rua
Harley,
783,
ele
confirmará
que
minha
vida
só
poderá
ser
prolongada
por
uns
poucos
meses.
Eu
prefiro
escolher
esta
saída
e
poupar
a
duas
pessoas
inocentes
a
provação
de
serem
acusadas
por
um
crime
que
não
cometeram.
Eu
estou
em
pleno
gozo
de
minhas
faculdades
mentais
e
inteiramente
consciente
do
que
estou
escrevendo.
Edith
Elfrida
de
Haviland
Quando
terminei
de
ler
a
carta,
percebi
que
Sophia
também
a
lera
—
não
sei
se
com
o
consentimento
de
Taverner,
ou
não.
—Tia
Edith...
—
murmurou
Sophia.
Eu
me
lembrei
da
crueldade
de
Edith
de
Haviland
esmagando
a
jitirana
com
o
pé.
Lembrei
de
minhas
primeiras
suspeitas,
quase
imaginárias,
sobre
ela.
Mas
por
que...
Sophia
adivinhou
meu
pensamento.
—Por
que
Josephine?
Por
que
foi
que
ela
levou
Josephine?
—Por
que
foi
que
ela
fez
isto?
—
eu
perguntei.
—
Qual
foi
o
motivo?
Mas
mesmo
ao
dizer
isto,
eu
percebi
a
verdade.
Vi
tudo
claramente.
Vi
que
ainda
estava
com
a
segunda
carta
na
mão.
Olhei-a:
era
meu
próprio
nome
no
envelope.
Era
mais
grossa
e
pesada
que
a
outra.
Acho
que
adivinhei
o
que
havia
dentro
antes
de
abri-la.
Rasguei
o
envelope
e
o
pequeno
caderninho
preto
de
Josephine
caiu.
Peguei-o
do
chão
—
ele
abriu-se
em
minhas
mãos
e
eu
vi
o
que
estava
escrito
na
primeira
página...
Parecendo
vir
de
muito
longe,
ouvi
a
voz
de
Sophia,
clara
e
controlada.
—Nós
entendemos
tudo
errado
—
disse
ela.
—
Não
foi
Edith.
—Não
—
disse
eu.
Sophia
aproximou-se
mais
de
mim
e
murmurou:
—
Foi...
Josephine...
não
foi?
Era
isso,
Josephine.
Juntos
nós
olhamos
para
o
primeiro
assentamento
do
livrinho
preto,
escrito
numa
caligrafia
mal
feita
e
infantil.
Hoje
eu
matei
vovô.
Capítulo
26
FIQUEI
IMAGINANDO
depois
como
é
que
eu
pude
ser
tão
cego.
A
verdade
era
tão
clara
o
tempo
todo...
Josephine,
e
somente
Josephine,
se
encaixava
com
todos
os
requisitos
necessários.
Sua
vaidade,
sua
importância
persistente,
seu
prazer
em
falar,
sua
reafirmação
de
como
ela
era
esperta
e
de
como
a
polícia
era
burra.
Eu
nunca
pensara
nela
porque
era
uma
criança.
Mas
crianças
também
cometem
crimes,
e
este
crime
particular
estivera
sempre
ao
alcance
de
uma
criança.
Seu
avô
mesmo
indicara
o
método
preciso
—
ele
praticamente
dera
a
receita.
Tudo
o
que
ela
tinha
a
fazer
era
evitar
deixar
impressões
digitais
e
um
leve
conhecimento
de
aventuras
de
detetives
que
a
ensinariam
como
agir.
E
tudo
o
mais
fora
uma
simples
miscelânea,
escolhidas
ao
acaso
entre
uma
porção
de
histórias
de
mistérios.
O
livrinho
de
notas...
as
investigações...
suas
pretensas
suspeitas...
sua
insistência
em
dizer
que
ela
não
ia
contar
a
ninguém
até
ter
certeza...
E,
finalmente,
o
ataque
a
si
mesma.
Um
papel
quase
incrível,
considerando-se
que
ela
podia
facilmente
ter-se
matado.
Mas
aí,
muito
infantil,
ela
nunca
considerara
uma
tal
possibilidade.
Ela
era
a
heroína.
A
heroína
nunca
morre.
No
entanto,
ali
nós
tivéramos
uma
pista
—
as
manchas
de
terra
no
assento
da
cadeira
velha
na
lavandaria.
Josephine
era
a
única
pessoa
que
precisaria
subir
numa
cadeira
para
equilibrar
o
bloco
de
mármore
em
cima
da
porta.
Obviamente
ela
não
se
acertara
da
primeira
vez
(as
marcas
no
chão)
e
pacientemente
ela
subira
outra
vez
e
o
recolocara
no
lugar,
segurando-o
com
o
cachecol
para
não
deixar
impressões
digitais.
E
quando
ele
caíra
—
ela
escapara
da
morte
por
um
fio.
Fora
uma
cena
perfeita
—
a
impressão
que
ela
estava
ansiosa
por
causar!
Ela
estava
em
perigo,
ela
sabia
"alguma
coisa",
ela
fora
atacada!
Eu
via
agora
como
ela
chamara
deliberadamente
a
minha
atenção
para
a
sua
presença
no
pátio
das
cisternas.
E
ela
completara
a
artística
desordem
em
seu
quarto
antes
de
ir
para
a
lavandaria.
Mas,
quando
voltara
do
hospital,
quando
descobrira
que
Brenda
e
Laurence
tinham
sido
presos,
ela
deve
ter
ficado
aborrecida.
O
caso
estava
terminado
—
e
ela,
Josephine
—
estava
fora
das
luzes
da
ribalta.
Então
ela
roubou
a
digitalina
do
quarto
de
Edith
e
a
pôs
na
sua
própria
xícara
de
chocolate
e
deixou
a
xícara
intacta
em
cima
da
mesa.
Será
que
ela
sabia
que
Nannie
iria
beber?
Possivelmente.
Pelas
suas
palavras
naquela
manhã,
ela
se
ressentira
das
críticas
de
Nannie
a
seu
respeito.
Será
que
Nannie,
talvez
devido
a
uma
vida
inteira
com
crianças,
suspeitara
dela?
Eu
creio
que
Nannie
sabia,
e
soubera
sempre,
que
Josephine
não
era
normal.
Com
seu
precoce
desenvolvimento
mental
aparecera
um
retardamento
de
seu
senso
moral.
Talvez,
também,
os
fatores
de
hereditariedade
diversos
—
que
Sophia
chamara
de
"crueldade
da
família"
—
se
tivessem
reunido.
Ela
herdara
a
crueldade
autoritária
da
família
de
sua
avó,
o
cruel
egoísmo
de
Magda,
que
só
via
o
seu
próprio
ponto
de
vista.
Provavelmente
ela
também
sofrera,
sensível
como
Philip,
com
o
estigma
de
ser
a
feia
—
a
bruxinha
—
da
família.
Finalmente,
em
sua
própria
medula,
corria
a
deformação
essencial
do
velho
Leonides.
Ela
fora
uma
neta
de
Leonides,
parecia-se
com
ele
na
sua
inteligência
e
sua
argúcia
—
mas,
quanto
ao
amor,
ele
o
dera
para
sua
família
e
seus
amigos,
e
ela
o
conservara
para
si
mesma.
Eu
pensei
que
o
velho
Leonides
percebera
o
que
ninguém
da
família
havia
visto:
que
Josephine
poderia
ser
uma
fonte
de
perigo
para
os
outros
e
para
si
própria.
Ele
a
resguardara
da
vida
escolar
porque
tinha
medo
do
que
ela
pudesse
fazer.
Ele
a
protegera,
guardara-a
em
casa,
e
eu
compreendi
a
urgência
com
que
pedira
a
Sophia
que
olhasse
por
Josephine.
A
súbita
decisão
de
Magda
em
mandá-la
para
o
exterior
—
teria
sido
também
por
medo
da
criança?
Não
por
um
medo
consciente
mas
por
algum
vago
instinto
materno?
E
Edith
de
Haviland?
Será
que
ela
suspeitara
no
início,
receara
depois...
e
finalmente
descobrira?
Olhei
para
a
carta
em
minhas
mãos.
Caro
Charles.
Isto
é
em
confidência
para
você
—
e
para
Sophia
se
você
assim
o
decidir.
É
imperativo
que
alguém
saiba
da
verdade.
Eu
encontrei
o
caderno
anexo
no
canil
abandonado
atrás
da
porta
de
serviço.
Ela
o
guardava
lá.
Veio
a
confirmar
o
que
eu
já
suspeitava.
O
ato
que
eu
vou
empreender
pode
ser
errado
ou
certo.
Eu
não
sei.
Mas
minha
vida,
de
qualquer
forma,
já
está
perto
de
seu
fim,
e
eu
não
quero
que
esta
criança
sofra,
como
eu
acredito
que
sofrerá
se
for
chamada
a
prestar
contas
pelo
que
fez.
Há
sempre
alguém
da
ninhada
que
não
é
"muito
certo".
Se
eu
estiver
errada,
que
Deus
me
perdoe
—
mas
eu
o
faço
por
amor.
Deus
abençoe
vocês
dois.
Edith
de
Haviland
Hesitei
por
um
segundo,
depois
entreguei
a
carta
a
Sophia.
Juntos,
nós
abrimos
novamente
o
pequeno
livro
preto
de
Josephine.
Hoje
eu
matei
vovô.
Viramos
as
páginas.
Era
uma
composição
espantosa.
In-
teressante,
eu
imaginei,
para
um
psicólogo.
Exibia,
com
terrível
lucidez,
a
fúria
de
um
egoísmo
frustrado.
O
motivo
do
crime
estava
escrito
ali,
lamentavelmente
infantil
e
inadequado.
Vovô
não
me
quer
deixar
estudar
balé
então
eu
resolvi
que
eu
vou
matar
ele.
Então
nós
iremos
para
Londres
e
mamãe
não
vai
importar-
se
que
eu
faça
balé.
Eu
só
li
algumas
passagens.
Todas
eram
significantes.
Eu
não
quero
ir
para
a
Suíça
—
eu
não
vou.
Se
mamãe
me
obrigar
a
ir,
eu
mato
ela
também
—
só
que
agora
eu
não
vou
mais
conseguir
veneno.
Talvez
eu
possa
fazer
isto
com
frutinhas
do
jardim.
Elas
são
venenosas,
o
livro
diz.
Eustace
me
chateou
muito
outro
dia.
Ele
disse
que
eu
sou
só
uma
menina
e
que
é
uma
tolice
o
meu
trabalho
de
detetive.
Ele
não
acharia
que
eu
sou
boba
se
soubesse
que
fui
eu
que
cometi
o
crime.
Eu
gosto
de
Charles
—
mas
ele
é
meio
burro.
Eu
ainda
não
resolvi
quem
é
que
eu
vou
fazer
ser
o
culpado
do
crime.
Talvez
Brenda
e
Laurence
—
Brenda
às
vezes
é
malvada
comigo
—
ela
diz
que
eu
não
regulo
bem
mas
eu
gosto
de
Laurence
—
ele
me
contou
a
história
de
Charlot
Korday
—
ela
matou
alguém
dentro
da
banheira.
Ela
não
foi
muito
esperta.
O
último
assentamento
era
revelador:
Eu
odeio
Nannie...
Eu
odeio
ela...
Eu
odeio
ela...
Ela
diz
que
eu
sou
apenas
uma
menininha.
Ela
diz
que
eu
gosto
de
me
mostrar.
É
ela
que
está
fazendo
mamãe
me
mandar
lá
para
longe...
Eu
vou
matar
ela
também
—
eu
acho
que
o
remédio
de
tia
Edith
serve.
Se
houver
um
outro
assassinato,
então
a
polícia
vai
voltar
e
tudo
vai
ficar
bacana
de
novo.
Nannie
morreu.
Eu
estou
contente.
Eu
ainda
não
resolvi
onde
vou
esconder
o
vidro
com
as
pilulinhas.
Talvez
no
quarto
de
tia
Clemency
—
ou
então
no
de
Eustace.
Quando
eu
morrer,
muito
velha,
vou
deixar
este
caderno
endereçado
para
o
Chefe
de
Polícia
e
eles
vão
ver
como
eu
fui
realmente
uma
grande
criminosa.
Fechei
o
livro.
As
lágrimas
de
Sophia
corriam
copiosas.
—Oh,
Charles...
Oh,
Charles...
é
tão
pavoroso.
Ela
é
um
tal
monstrinho...
e,
no
entanto...
no
entanto,
ela
é
tão
horrivelmente
comovente...
Eu
sentia
o
mesmo.
Eu
gostava
de
Josephine...
Eu
ainda
agora
sentia
carinho
por
ela...
Você
não
deixa
de
gostar
de
alguém
só
porque
ele
está
tuberculoso
ou
com
alguma
outra
doença
fatal.
Josephine,
como
dissera
Sophia,
era
um
pequeno
monstro,
mas
era
um
pequeno
monstro
comovente.
Ela
nascera
com
um
estigma
—
era
a
criança
torta
da
pequena
casa
torta.
Sophia
perguntou:
—Se...
ela
estivesse
viva...
o
que
teria
acontecido?
—Eu
suponho
que
teria
sido
enviada
para
um
reformatório
ou
para
uma
escola
especial.
Mais
tarde
seria
libertada...
ou
provavelmente
receberia
um
certificado,
eu
não
sei.
Sophia
estremeceu.
—Foi
melhor
assim.
Mas
tia
Edith...
eu
não
queria
que
tia
Edith
levasse
a
culpa.
—Foi
ela
que
escolheu
assim.
Eu
não
creio
que
isto
se
torne
público.
Imagino
que
quando
Brenda
e
Laurence
forem
responder
ao
processo,
não
haverá
acusação
contra
eles
e
então
serão
absolvidos.
—
E
você,
Sophia
—
eu
disse,
desta
vez
num
tom
diferente
e
tomando
as
suas
mãos
entre
as
minhas
—
vai
casar-se
comigo.
Eu
acabei
de
saber
que
fui
designado
para
servir
na
Pérsia.
Iremos
juntos
para
lá,
e
você
vai
esquecer
da
pequena
Casa
Torta.
Sua
mãe
vai
continuar
a
representar
suas
peças
e
seu
pai
vai
comprar
mais
livros
e
Eustace
estará
indo
para
a
universidade.
Não
se
preocupe
mais
com
eles.
Pense
em
mim.
Sophia
olhou-me
firmemente
nos
olhos.
—Você
não
tem
medo,
Charles,
de
se
casar
comigo?
—E
por
que
teria?
Todos
os
males
da
família
estavam
concentrados
na
pobre
Josephine.
Em
você,
Sophia,
eu
acredito
piamente
que
está
o
que
de
mais
valente
e
corajoso
existia
na
família
Leonides.
Seu
avô
tinha-a
na
mais
alta
consideração
e
parece
que
ele
era
um
homem
que
sempre
tinha
razão.
Levante
a
cabeça,
querida.
O
futuro
é
nosso.
—Eu
me
casarei
com
você,
Charles.
Eu
o
amo
e
eu
me
casarei
com
você
e
o
farei
feliz.
Baixou
os
olhos
para
o
livrinho
de
notas.
—Pobre
Josephine...
—Pobre
Josephine...
—
eu
repeti.
—Qual
é
a
verdade,
Charles?
—
perguntou
meu
pai.
Eu
nunca
mentira
para
o
Velho.
—Não
foi
Edith
de
Haviland
—
eu
disse.
—
Foi
Josephine.
Meu
pai
acenou
gentilmente
com
a
cabeça.
—Sim
—
disse
ele.
—
Eu
já
pensava
assim
há
algum
tempo.
Pobre
criança...
ESTA
OBRA
FOI
IMPRESSA
NA
EDITORA
VOZES
LTDA.,
PARA
A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
S.A.,
EM
DEZEMBRO
DE
MIL
NOVECENTOS
E
OITENTA
E
TRÊS.
Não
encontrando
este
livro
nas
livrarias,
pedir
pelo
Reembolso
Postal
à
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
S.A.
—
Rua
Maria
Angélica,
168
—
Lagoa
—
CEP
22461
—
Rio
de
Janeiro
http://groups-beta.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
A Casa Torta (Crooked House) - Agatha Christie
Aristides Leonides é um grego riquíssimo imigrado na Inglaterra. Construiu a "casa torta" para habitar com toda a família, inclusive noras, netos e a cunhada, irmã da sua primeira esposa.
A casa era assim chamada não só pela sua particular arquitetura, como também pelas caraterísticas negativas dos seus habitantes. A neta mais velha, Sophia, é namorada do filho do inspetor chefe da Scotland Yard e, quando o avô é assassinado com uma injeção letal de eserina, um veneno de efeito quase instantâneo, o casal se empenha em investigar para descobrir o culpado. O principal suspeito, naturalmente, é a jovem viúva, cinqüenta anos mais nova que ele.
Boa leitura
Abraços.
M. Loureiro
http://www.manuloureiro.blogspot.com/
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http://www.romancesdeepoca-loureiro.blogspot.com/
http://www.romancessobrenaturais-loureiro.blogspot.com/
http://www.loureiromania.blogspot.com/
"Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos."
(Henry Miller)
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