[Daumload] (reupado) The Beatles – With The Beatles [1963]


Lista das músicas

01.It Won’t Be Long
02.All I’ve Got to Do
03.All My Loving
04.Don’t Bother Me
05.Little Child
06.Till There Was You
07.Please Mr. Postman
08.Roll over Beethoven
09.Hold Me Tight
10.You  Really Got a Hold on Me
11.I Wanna Be Your Man
12.Devil in Her Heart
13.Not a Second Time
14.Money

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[Daumload] (reupado) The Beatles – Please Please Me [1963]


Lista das músicas

01.I Saw Her Standing There
02.Misery
03.Anna (Go to Him)
04.Chains
05.Boys
06.Ask Me Why
07.Please Please Me
08.Love Me Do
09.P.S. I Love You
10.Baby It’s You
11.Do You Want to Know a Secret
12.A Taste of Honey
13.There’s a Place
14.Twist and Shout

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[Daumload] (reupado) The Beatles – A Hard Day’s Night [1964]


Lista das músicas

01.A Hard Day’s Night
02.I Should Have Known Better
03.If I Fell
04.I’m Happy Just to Dance With You
05.And I Love Her
06.Tell Me Why
07.Can’t Buy Me Love
08.Any Time at All
09.I’ll Cry Instead
10.Things We Said Today
11.When I Get Home
12.You Can’t Do That
13.I’ll Be Back

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[Daumload] LANÇAMENTO Livros Loureiro: Mandingo - Kyle Onstott

MANDINGO
KYLE ONSTOTT


Circulo de Leitores

Título do original

MANDINGO

Tradução de: MARIA CLARISSE TAVARES

Sobrecapa de: CÃMARA PEREIRA

Revisão de: LUIS BAÇÃO

EDIÇÃO INTEGRAL LICENÇA EDITORIAL PARA 0 CIRCULO
DE LEITORES


POR CORTESIA DE EDITORA NOVA ERA COMPOSTO EM
GARAMOND 10110 POR GRIS IMPRESSORES IMPRESSO E
ENCADERNADO POR PRINTER PORTUGUESA
NO MÊS DE MARÇO DE 1977
PRIMEIRA EDIÇÃO: 20.000 EXEMPLARES
É PROIBIDA A VENDA A QUEM NÃO PERTENÇA AO CIRCULO


Rancho de criação humano,

Por trás das saias rodadas e do conceito de hospitalidade, do xarope
de hortelã-pimenta e das magnólias em flor do Velho Sul, havia um


mundo de cuja existência poucas pessoas sabiam -um mundo de
violência, de crueldade, cupidez e desejo.

Mandingo traz-nos à vida real os sons, os cheiros, a terrível
realidade dos ranchos de criação humana e das plantações onde
homens e mulheres eram acasalados e criados como gado. .

Podem adorar Mandingo ou podem odiá-lo, mas não conseguirão
pô-lo de lado, porque é um romance terrível e maravilhoso!

Dedicado à Vicky e ao Philip,

evidentemente.

Que é um mandingo?

Os Mandingos são uma tribo hamítica do Sudão Ocidental, que se
crê ter origem árabe ou berbere, e quase todos os seus membros são
muito perfeitos, fortes, resistentes e robustos. Os de raça pura eram
de uma bela cor de cobre e tinham feições mouras, diferentes das
dos negros.

0 reino dos Mandingos, com a sua dinastia que durou séculos, foi
estabelecido por volta de 1200 a. D., ou talvez antes mesmo, e tinha
a sua capital em Timbuctu. 0 Corão era a base da educação e o
alfabetismo estava mais espalhado entre eles do que nas culturas
contemporâneas da Europa.

Os Mandingos não são de modo algum negros. Estão talvez mais
relacionados com os Anglo-Saxões que com os negros das florestas


das Costas do Ouro, do Marfim e das Especiarias na África
Ocidental.

Não obstante, foram apanhados juntamente com os verdadeiros
negros e feitos escravos, quando os negreiros conseguiam adquirilos.
Valiam muitíssimo nos ranchos de criação de escravos, por
causa da sua força, do seu vigor, beleza, sensibilidade e inteligência.

Só alguns mandingos, em pequena quantidade, foram trazidos para
a América do Norte.

0 Mandingo do meu romance é um belo escravo à volta do qual gira
uma complicada teia de violência e de cruas emoções.

Ky1e Onstott

Capítulo primeiro

0 velho ouviu fechar a porta da frente e os passos claudicantes no
vestíbulo. Ficou satisfeito por ver que o seu filho manifestara o bom
senso de mandar os negros para casa a meio da manhã e livrar-se da
chuva fria e penetrante de Fevereiro. Além de se sentir preocupado
por o rapaz ficar exposto aos elementos, ansiava pela companhia do
filho, sempre que ele se sentia inclinado a largar as suas viagens
infatigáveis e a beber com ele, em frente da lareira. Quando a porta
da sala se abriu e Hammond surgiu, à entrada, sobre a larga soleira,
Maxwell percebeu que o trabalho não tinha sido adiado.
-0 Big Tom não vai rebentar comas pontes, julgo eu, como fez há
três anos, mas está cheio de forças. A água já passou das marcas



comunicou o jovem, com um tom de ansiedade na voz. -E esta
chuva não dá sinais de parar.
-Senta-te, senta-te -acalmou-o o pai. -Há cinquenta anos que o
velho Tombigbee se enfurece de vez em quando, que eu me lembre,
e há-de fazê-lo mais outros cinquenta. Nunca chegou até à casa. Não
consegue, estamos numa colina. Nem sequer chega às cabanas,
embora uma vez inundasse a casa das reuniões, logo que a
construíram. Senta-te e manda Mem preparar-te um toddy. Num
dia frio como este, há-de fazer-te bem.
-Acho que não. Não tenho tempo -disse o rapaz.
-Tens todo o tempo que há -contradisse o pai. -Não podes impedir

o Tombigbee de provocar inundações, desde que isso lhe apeteça.
Espera-se e ele acaba por descer.
-E leva com ele toda a boa terra preta de Falconhurst -acrescentou
Hammond.
-Supondo que a leva, que se há-de fazer? Suponho que a leva, filho?
Não há muita. A terra de Falconhurst tem sido muito usada pelos
negros, de qualquer modo. Pelo menos, não se pode empurrar o
velho Tom para trás à vassourada, mesmo que tu e todos os negros
o vão varrer.
Hammond encolheu os ombros.
-Acho que não -disse. -Parece que nada posso fazer. Tenho que
ficar a vê-lo avançar. Além disso, pus os rapazes a cortar árvores.
Tenho de ir lá.
-Este tempo não é bom para abater árvores -declarou o velho. Pode-
se apanhar a febre dos pulmões, com esta chuva fria. Um dos
rapazes pode apanhar a febre e morrer-te para ali, e vale mais do
que todas as estacas e que toda a madeira que consigas cortar em
dez anos; só um deles, para não falar em ti.
-Eu estou quente, pai, com este casaco e o resto. Não se rale comigo.
E cortar árvores mantém os negros quentes. Não pense que vão
morrer por isso.


-Eles são tanto teus como meus, filho. Acabas por os matar com
trabalho. E se tu morres, enterro-te, embora te jure que me apetecia
fazer outra coisa.
Hammond atravessou a sala para beijar o pai, antes de voltar ao
trabalho, cerimónia que inadvertidamente omitira à chegada.
Quando se inclinou sobre o velho, pegou no copo de toddy e bebeu
um golo.
-Bebe mais, bebe mais -insistiu Maxwell. -Faz-te bem, filho. De
qualquer modo já está frio, para o meu gosto. Preciso de outro, e
sempre posso pedir àquele preguiçoso do Meirmon que me prepare
outro.
-Só um golo chega-me -disse Hammond, e depois perguntou: -0
Mem não está a tratar bem de si? Eu já o ponho a mexer, quando
voltar para o trabalho.
-Não vale a pena, não vale a pena! Eu chego para lhe dar uns
berros. Mas precisa de ser endireitado. Não posso fazer isso, no
estado em que estou. Tu é que tens de o endireitar. Umas
mordidelas do chicote curam-lhe a preguiça.
-E só dizer e eu arranco-lhe a pele do rabo! Como se tem sentido?
Parece que fica sempre pior, com este tempo. -Enquanto falava,
Hammond levantou a mão do pai e observou as articulações
inchadas.
-Mal, hoje mal. Pior que nunca, parece-me. joelhos, cotovelos,
costas e mãos, todo eu.
-Há-de sentir-se melhor quando o tempo aquecer. Chegue-se bem à
lareira,, deixe-se cozer -aconselhou o filho.
-E o que eu faço, eu bem me cozo -concordou o pai. -0 melhor que
há para o reumatismo é o uísque. Farto-me de beber toddy. É a
única, coisa que me alivia.

-Mando-lhe um novo toddy, quando sair -disse o rapaz. -Beba
bastante.


-0 reumatismo não me estragou a voz. Posso chamar pelo rapaz
quando preciso de um toddy -disse o pai, e começou a demonstrar.
-Mem!
-gritou com voz estentórica. -Mern! Mermion! -chamou de novo,
mais alto do que antes.
Hammond dirigia-se à sala de jantar para ir buscar Meirmon,
quando o rapaz abriu a porta, com aparente alacridade, mais
fingida que real.
-Não me ouviste chamar, Mem, maldito negro vadio? Arranja-me
um toddy, mas bem quente! já! Não é para a semana que vem! ordenou
o amo.
-Sim, patrão, sim, siô, -disse o escravo, saindo.
-Posso falar contigo, posso aldrabar-te, posso pedir-te, e posso
maldizer-te! -disse o amo severamente. -Só não posso chicotear-te,
por causa do reumatismo. Mas o patrão mais novo trata disso.
0 escravo estava habituado às ameaças do patrão velho, que, até
então, não tinham dado nada. Contudo, Agamerimon não apreciava
sequer a possibilidade de execução de uma dessas ameaças, e olhou
para o Maxwell mais novo, com as pupilas dilatadas e mostrando o
branco dos olhos.
-Logo que queira eu trato dele -prometeu Hammond ao pai. – Que
julgas tu, rapaz? Quando pego no chicote, dou com força. Separo-te
a carne dos ossos. Eh?
-Não, siô, por favo, siô, patrão, siô! -respondeu o negro. -Eu mexe
bem. Eu não vai preguiçá mais!
Embora calculasse que a impaciência do patrão velho não passava
de fanfarronada, não acreditava que o patrão mais novo falasse por
falar, especialmente quando se tratava do conforto do seu pai
inválido. Merimon sabia que não era preguiçoso propriamente, mas
que era negligente e indolente e gostava de adiar as coisas, contudo
decidiu tornar-se diligente a partir dali -pelo menos durante algum
tempo, até a ira do velho se acalmar. Tinha pouco trabalho, preparar
os toddies para o velho, reavivar a lareira, servir à mesa, despir o


patrão à noite e ajudá-lo a vestir de manhã; e tratavam-no bem,
comia as viandas dos brancos, davam-lhe roupa limpa e inteira,
tinha pelo menos uma mulher ardente para dormir com ele, e
alternava-a com frequência. E era valioso, forte, de ombros largos,
de pele clara, sem cicatrizes, desfigurações ou defeitos. Sabia que
não estava à venda, embora tivesse passado dos trinta anos e
valesse mais agora do que valeria mais tarde, mas não era de crer
que o patrão mais novo se arriscasse a desfigurá-lo com o chicote,
reduzindo o seu valor, especialmente porque sabia o orgulho que os
Maxwell tinham em manter o seu gado, humano e quadrúpede,
com os membros perfeitos e saudável.

Apesar da chuva fria e dos rogos do pai, o rapaz regressou ao
trabalho, decidido a abrir mais terreno, fazer cercas, cortar madeira
para as lareiras da casa, mas, sobretudo, a manter os negros a
trabalhar. Agameirmon preparou o toddy que Maxwell tinha
pedido, assegurou-se que estava quente, como lhe tinham
ordenado, e, quando o levou à sala, verificou se o fogo ardia bem na
lareira. Sem esperar pelos gritos do velho, trouxe troncos novos de
carvalho-da-Virgínia e ajeitou-os sobre os ferros da lareira.

Maxwell, surpreendido com o ataque de diligência do escravo e
desapontado por perder rim pretexto de o insultar, apenas
resmungava perante aquilo que considerava sinal de emenda. As
suas junções atormentavam-no e levantou uma das mãos com a
outra para observar os nós dos dedos inchados. Contudo, apesar da
dor e do esforço que isso lhe custava, encheu-se de coragem, pôs-se
de pé, cambaleante, e caminhou, inseguro, até à janela, para
observar o tempo, só para provar a si próprio que conseguia fazê-lo
e diminuir o tédio de olhar para o fogo e esperar o regresso de
Hammond. As suas preocupações em relação ao tempo resumiam-
se aos efeitos da chuva persistente e de frio penetrante sobre as
dores das suas articulações que ele pensava, talvez com razão,


serem agravadas pela inclemência do tempo, mas, ainda mais que o
seu reumatismo, preocupava-o a idéia de que Hammond adoecesse
por estar exposto aos elementos. Nem se incomodava em pensar na
inundação do rio que subia, atingindo as zonas mais baixas da
plantação, o que era de prever, de tantos em tantos anos, e pouco
mais mal fazia além de arrancar uma camada de solo já exausto, que
pouco lhe interessava. Sentia-se mais tranqüilo quanto aos negros,
desde que soube que os cortadores de árvores se aqueciam a
trabalhar, e não pensou mais na saúde deles. Numa das suas
excursões, perto do meio-dia, notou que o aguaceiro tinha
diminuído e se transformara numa chuva miudinha, e perscrutou o
céu à procura de uma clareira, na esperança de que a chuva parasse
por completo. Entre os troncos da miscelânea de árvores -bordos,
tupelos, carvalhos, castanheiros, nogueiras e olmos -que, por trás
de uma vedação aos ziguezagues, se alinhavam ao longo da avenida
que conduzia à entrada principal, notou um objecto que se movia.
Não conseguia acreditar que um visitante chegasse a Falconhurst
num dia tão mau e através do lamaçal em que as chuvas tinham
transformado as estradas.
Custava-lhe a crer.
-Mem! -berrou. -Meirmon! Meirmon, estás a ouvir-me? Merrinon,
meu rafeiro negro! Vem cá! Vem cá, estás a ouvir?
Mem, que dormitava em frente da lareira da cozinha, levantou-se e
correu através da passagem aberta até à casa de jantar, e chegou à
sala.
-Sim, siô, Patrão. Chamou?
-Claro que chamei. Chega aqui à janela. Olha lá para fora. Que te
parece que vem pela alameda?
Mem olhou.
-Parece um cavalo com um siô em cima -disse ele.
0 objecto da sua observação já não deixava dúvidas, quando Mem
chegou e Maxwell conclui que nunca as deixara.


-Claro que é um senhor e é claro que vem montado num cavalo disse
desdenhosamente. -Mas quem é? Quem vem a Falconhurst
com este tempo através daquele lamaçal?
Mettirion não fazia qualquer idéia e disse-o. Contudo, o seu
interesse não era menor do que o do amo.
-Agora vai sê bom -declarou com optimismo. A chegada de
qualquer branco a Falconhurst era um acontecimento e só um
branco viria a cavalo.
0 cavaleiro surgiu na zona aberta e conseguiu ver-se que vestia uma
sobrecasaca e trazia um chapéu com as abas viradas para baixo,
como seria de esperar, e era magríssimo e não muito alto, que a sua
montada baia estava cansada, enlameada e era provavelmente
castrada, pela maneira de andar, o que fez com que Maxwell
sentisse certo desprezo.
Três crianças corriam ao lado do cavalo, levantando muito os pés
para escapar à lama. 0 homem fazia estalar monotonamente um
chicote para apressar as crianças, mas geralmente não as atingia de
propósito. De vez em quando, uma delas estremecia quando uma
chicotada lhe atingia as pernas ou as nádegas e apressava o passo,
em três ou quatro passadas.
-É apenas um negreiro -escarneceu MaxwelI, mais para si próprio
do -que para o criado.
Apesar do desprezo que pusera na voz, apressou-se a dirigir-se à
porta dupla da frente e foi até ao varandim, seguido de perto por
Agamérmion, para aguardar o seu hóspede. A profissão de compra
e venda de negros era depreciada, mas não ao ponto de se negar a
hospitalidade a quem a praticasse. 0 desprezo era para a profissão,
não para o homem. Se era um mal, era um mal conveniente. Os
negreiros poupavam aos plantadores a necessidade de ir até ao
mercado para comprar um ou dois escravos; não punham
problemas sobre os defeitos dos negros que compravam para
revenda, e eram bons agentes para os donos se verem livres dos


negros "maus"; e, o que era melhor, pagavam a pronto as suas
aquisições. Além disso, eram brancos.
Eram raros os visitantes de Falconhurst; traziam notícias. E o
desprezo de Maxwell pelos negreiros era mais uma convenção do
que uma convicção. Sabia bem que o seu lugar na hierarquia social
não era entre os cavalheiros pelo menos não entre os de qualidade,
apenas era um cavalheiro por cortesia, muito acima do negreiro,
mas não inteiramente um cavalheiro.
0 estranho desmontou rigidamente, massageou um pouco os flancos
magros para afastar o cansaço, tirou o chapéu, e disse:
-Como passa, senhor? 0 meu nome é Brownlee. Os negrinhos que o
acompanhavam afastaram-se do cavalo e, de boca aberta, olhavam
em volta, desconfiados, observando a recepção feita ao seu amo.
-0 meu é Maxwell. Warren Maxwell -disse o anfitrião, retribuindo
a saudação e identificando-se.
-Fui informado do seu nome, senhor. É bem conhecido por estas
bandas e, se me permite, muito favoravelmente.
-Assim tinha de ser. já estávamos aqui em Falconhurst antes da
revolta de 1776. -A resposta não fora dada em tom menos amável,
mas servia para sublinhar a diferença entre o cavalheiro-plantador e

o negreiro. Nenhum dos homens esboçou o gesto de apertar as
mãos -Entregue as rédeas ao rapaz; ele põe o cavalo no está bulo e
arranja cama para os seus criados. Depois entre. 0 jantar está a ser
preparado, deve estar quase pronto e como sempre óptimo.
Agamermion pegou nas rédeas, apenas para entregar a tarefa a
outro negro que tinha avançado, mais ousado do que os outros,
vindo de um canto da casa. Brownlee tinha boa vista para negros e
reparou logo que o rapaz apenas tinha dois dedos -o grande o
pequeno -no pé esquerdo. Todos os habitantes da casa observavam
o visitante, escondidos. A sua chegada era um acontecimento e
motivo de especulações e conversas em voz baixa.
Maxwell foi específico nas ordens dadas ao negro:


-Leva o cavalo do senhor directamente para o estábulo. Tira-lhe a
sela e limpa-o bem, com água quente, não te esqueças, não quente
de mais, hem? Se te apanho a lavar um cavalo com água fria nesta
época do ano, esfolo-te!
-Sim, siô, patrão -respondeu o rapaz convencionalmente.
-E leva estes negrinhos contigo e põe-os a dormir noutro estábulo e
dá-lhes pão de milho, eles que comam quanto queiram. A
cozinheira que te dê melaço com rum para o tornar mais saboroso.
Diz-lhe que eu mandei.
-A cozinheira não dá melaço cum rum prós preto se o siô não diz protestou
o rapaz.
-Diz-lhe que eu mandei. Se ela não acreditar, diz-lhe que pergunte
ao Meirmon.
-Sim, siô, patrão; cozinheira pergunta ao Memnon -repetiu o rapaz,
para não se esquecer.
Maxwell consultou Brownlee:
-Será melhor acorrentar os negros?
-Acho que não será necessário, num dia frio como o de hoje. Estão
muito cansados para correr. Claro que nunca se sabe o que passa
pela cabeça de um preto -observou. -Não fazia mal nenhum.
Maxwell voltou-se outra vez para o rapaz.
-E acorrenta os negros à parede do estábulo, a fêmea separada dos
machos. Usa daquelas correntes pequenas, para que eles não
possam fugir, depois pega nas chaves e entrega-as ao Memnon.
-Entrega chaves ao Mertirion -repetiu o negro.
-Quando a lama das pernas deles secar, arranca-a e tira-a também observou
Brownlee. -Desculpe, senhor, por dar ordens ao seu
criado -disse para Maxwell.
-Os meus criados são seus criados, senhor, enquanto nos honrar
com a sua companhia em Falconhurst, pode dar-lhes as ordens que
quiser -disse Maxwell, tranquilizando o seu convidado. -0 rapaz
pode fazer mais alguma coisa pelos seus pertences?
-Assim ficam perfeitamente, senhor, perfeitamente.



-Menuion, depois do jantar vais ao estábulo e vês o que este rapaz,
como te chamas, rapaz? -interrompeu o patrão.
-0 meu nome é Pregadô, siô, faz favô -gaguejou o rapaz.
-0 quê? Fala claro.
-Pregadô, siô. Meu nome é Pregadô.
-Pregadô? Não me agrada. Não significa nada. Gosto de nomes da
história ou nomes de deuses pagãos.
-A 'nha mãe queria que eu fosse pregadô, reverendo.
-já te dou o reverendo! Vamos já mudar-te de nome. Ora vamos a
ver: Barbarosa. já há muito tempo que não temos um Barbarosa.
Lembra-te disto, o teu nome é Barbarosa.
-Barbarosa, Barbarosa, Barbarosa -murmurou o rapaz, confuso,
mas decidido a lembrar-se da sua nova designação.
Maxwell prosseguiu as suas ordens a Meintion.
-Vê se este Barba faz tudo o que eu lhe mandei. Se ele não cuidar
bem do cavalo e dos negros, pode contar com o chicote. Percebeste,
rapaz?
-Sim, siô, patrão.
-É tudo -disse o patrão.
0 recém-baptizado Barbarosa levou o cavalo para o estábulo,
seguido pelas três crianças.
-Barba, Barba, Barba, parece-me. 0 patrão mudou meu nome de
Pregadô para Barba -fez estalar os dedos, -assim mêmo -disse para
si próprio, em voz alta. E rindo-se, encantado com a sua própria
piada.
-Barba, Barba, Bar.
-Negoceio em negros -anunciou Brownlee a Maxwell.
-já calculava, já calculava -replicou o anfitrião. -Temos que ter
negociantes, se queremos ter negros. Não podemos comê-los.
-Sei que há cavalheiros que não gostam dos negociantes de negros,
mas todos temos de viver. Que fariam os plantadores sem
negociantes de negros?



-Teríamos que semear os negros, penso eu. Não tenho nada contra
os negociantes. Tenho feito vendas a muitos; são bem-vindos em
minha casa e ao meu estábulo -isto é, desde que a minha mulher
faleceu. Era uma Hammond, filha do velho senhor Theophilus
Hammond, da Plantação Anglebranch, perto de Selma. 0 senhor
Theophilus nada queria com negreiros, era um grande cavalheiro.
Nunca vendeu um criado, nem um. Criava bons negros. Ainda me
lembro de, há vinte anos, quando os pretos eram baratos,
Theophilus Hammond pagar dois mil dólares por um macho
mestiço; muito dinheiro, nesses tempos.
-Sem dúvida. Ainda hoje, pode-se arranjar um criado bem bom,
pronto para trabalhar em casa e tudo, por uns mil e quinhentos ou
dois mil. Antes do Natal vendi um macho grande, forte e robusto,
com um metro e oitenta e ombros assim -esticou os braços -, ali
mesmo, em Nova Orleães, por mil e quatrocentos, claro, também
capaz de cobrir qualquer fêmea.
Maxwell recusou-se a abandonar o seu aristocrático sogro.
-Evidentemente, o senhor Theophilus (sendo da família, trata-o
pelo primeiro nome) costumava vender os negros maus, quando
tinha algum; ou para servir um amigo com um bom rapaz para a
casa ou uma boa costureira; ou então, mas só raramente, muito
raramente, separava-se de um macho jovem para obter dinheiro
para a Plantação de Anglebranch e para alimentar os outros, até à
colheita do algodão. Mas nunca se habituou a vender os seus
rapazes. Não confiava nos negreiros e não queria vender-lhes.
-Desviei-me muito do meu caminho para lhe apresentar os meus
respeitos -Brownlee fez uma vénia que Maxwell retribuiu, na
medida em que o reumatismo lho permitia -e para saber se não
teria criados de que quisesse ver-se livre.
-Não, não posso dizer que tenha. Mandei uma caravana de machos
jovens de primeira para Natchez, depois da colheita. Se tivesse
aparecido nessa altura, tínhamos falado, mas agora não temos nada
de primeira para lhe oferecer.


-Não é preciso que sejam de primeira. Eu ponho-os na ordem
quando chegar a Nova Orleães -insistiu Brownlee, traindo o seu
interesse.
-Se voltar a passar por aqui no próximo Outono arranjo-lhe uma
dúzia ou uns quinze jeitosos, acredite, ou uma fêmea ou duas, se
conseguir arranjá-las. Não compensa vender uma só. Os
compradores querem sempre duas pelo preço de uma.
-Não sei se poderei comprar-lhe uma dúzia de uma vez. 0 capital é
limitado, compreende, muito limitado, mas passo por cá, pode
contar com isso.
0 vento agitava os cabelos ruivos de Maxwell e ele apercebeu-se
subitamente do ar frio que podia fazer piorar o seu reumatismo.
-Parece que vem aí mais chuva. Sinto-o nas minhas juntas. E está a
pôr-se vento. Algum bem havia de vir deste maldito reumatismo;
posso prever o tempo. -Esfregou as articulações inchadas de uma
mão contra as articulações igualmente inchadas da outra. -Hei-de
lembrar-me sempre de que em 1831 foi um ano húmido, o ano em
que apanhei o reumatismo. E agora em Fevereiro começou outra
vez a ficar húmido, e o reumatismo parece que espelha o tempo.
-As estradas parecem caldo espesso, por todo o Alabama, desde
que saí da Geórgia. 0 cavalo enterrava-se até aos topetes e os
negrinhos ficavam cheios de lama até ao rabo. Tive que parar, a
certa altura, e pôr a miúda na garupa; e o chicote atrasava mais os
rapazes do que os adiantava. Estou muito satisfeito por ter tão
poucos, porque vão ficar escanzelados, ou mesmo doentes, antes de
chegarem ao mercado.
0 Sr. Brownlee suspirou, tirou os seus óculos de lentes quadradas,
esfregou os olhos azuis, porcinos, raiados de sangue, com um sujo
lenço azul, que extraiu do bolso de trás da sobrecasaca, depois tirou

o chapéu preto e enxugou com o lenço o crânio calvo, com tufos de
cabelo encaracolado por cima das orelhas. 0 seu rosto pequeno tinha
estado liso, três ou quatro dias antes, mas, naquela altura, estava
semeado de ralos pêlos negros.

-Agora, quando muito, pode descansar os ossos e engordar os seus
negros. A Plantação de Falconhurst não é nenhum palácio, mas pelo
menos não chove cá dentro; as vitualhas não são corno aquelas que
está habituado na Verandah House de Nova Orleães, mas
engordam; e o uísque pode não ser famoso, mas a água do toddy é
bem quente. É bem-vindo aqui. Esperamos que se demore algum
tempo connosco, pelo menos até o tempo melhorar.
_ Não, obrigado, acho melhor partir esta mesma noite, tanto mais
que não me pode dispensar negros. A colheita de negros é muito
magra, em toda a parte. Não consigo comprá-los em parte alguma,
nem na Virgínia, nas Carolinas, na Geórgia e agora no Alabama. E
os preços estão a subir como balões. Paguei por aqueles três
enfezadinhos tanto quanto pagava por negros de primeira, há cinco
anos -queixou-se Brownlee.
-Não há pressa -argumentou Maxwell. -Não temos a honra de
receber muitas visitas em Falconhurst.
-Tenho de ir. Tenho de ir. Aprecio a sua hospitalidade, senhor
Maxwell, mas tenho de ir-me embora.
-Amanhã de manhã talvez eu pudesse decidir-me a deixá-lo levar
um macho ou dois. Estamos cheios de rapazes, temos que os pôr
fora do caminho a pontapé, mas são muito novos para os vender
com vantagem. Por exemplo, um macho de quinze ou dezasseis
anos, com bastante pão de milho, é capaz de crescer quase um
palmo por ano, às vezes palmo e meio; já faz uma diferença de
duzentos ou trezentos dólares, no mercado. Posso alimentar e vestir
um macho em crescimento -e dos bons -por dezassete dólares por
ano; há quem faça a conta a quinze, mas é demasiada economia, se
quisermos que eles cresçam depressa e saíam de primeira.
-Preciso de. negros, preciso mesmo, Senhor Maxwell -, sublinhou
Brownlee. -Se houver possibilidades de os arranjar e os seus preços
não forem muito fortes, posso ficar e incomodá-lo por uma noite.
-Não incomoda, não incomoda absolutamente nada. Estou
encantado por poder conversar consigo. Mas lembre-se que eu disse


que talvez venda, não que vendo mesmo. Tenho de aconselhar-me
com o meu filho. Entreguei-lhe a direcção de toda a plantação, por
causa do meu reumatismo. Nem posso montar. Ele que a dirija à
sua maneira.
-Mas entre, senhor, entre e acomode-se -insistiu Maxwell, cuspindo
para a mão e arremessando para o chão um pedaço de tabaco que
guardava na boca. -É muito bem-vindo -repetiu com sinceridade. 0
jantar estará pronto logo que Ham chegar.
Brownlee parou no varandim em frente da casa, para retirar, na
raspadeira, parte da lama que secava nas suas botas.
-Não se rale com isso, não se rale -disse MaxwelI, que segurava a
porta aberta. -Não temos luxos, só carpetes baratas por toda a parte
e muitos negros gordos para limpar tudo. Um pouco de lama não
faz mal.
-Parece-me uma bela mansão -Brownlee olhou em volta. -Muito
confortável.
-0 meu avô construiu neste mesmo sítio, numa clareira, uma cabana
de troncos. 0 meu pai construiu esta cabana de nove quartos, que
era bastante boa, uma casa simples e vulgar, no seu tempo, até
bastante jeitosa, para estes sítios. Eu pensava construir uma melhor,
e bem podia fazê-lo, qualquer coisa no gênero de que o senhor Tom
Jefferson tem na Virgínia, própria para viver como um cavalheiro,
quando a minha mulher faleceu há sete anos. A minha mulher era
uma Hammond, filha do senhor Theophilus Hammond, da
Plantação Anglebranch.
-Boa família, esplêndida família -observou Brownlee.
-Eu tencionava construir uma mansão, como lhe ia dizendo,
quando ela adoeceu, com qualquer doença de mulheres, uma
nascida. Quando ela partiu desta para melhor, foi como se me
arrancassem as entranhas. Ainda não me recuperei. Larguei tudo.
Esta casa velha serve bem para o rapaz e para mim.
-Serve para qualquer pessoa, acho eu -declarou o convidado.


-É um abrigo, apenas um abrigo -depreciou o anfitrião. -Claro, se

o Hammond casar com uma senhora fina, como a mãe (e conto com
isso), provavelmente ele construirá urna bela casa na outra colina e
deixará esta para os criados. Estão muito apertados, de qualquer
modo; duas famílias com uma rapariga extra em cada cabana, e os
rapazes extra a dormir sobre palha no estábulo. Não é saudável.
Aparece por aí uma epizootia e ficamos arruinados.
Um fogo agradável aquecia a sala onde Maxwell acolhia o seu
hóspede transitório, que cautelosamente depôs o seu corpo magro
numa grande cadeira de balanço. 0 anfitrião cozia-se em frente do
fogo, alternadamente de frente e de costas, esforçando-se por aliviar
as dores reumáticas que afligiam as suas articulações.
-Meninon! Merimon! -chamou. Antes de o rapaz chegar perguntou
ao convidado: -Como gosta do seu uísque?
-Não contaminado, por favor, não contaminado.
-Um copo de uísque sem água para este cavalheiro e um toddy
para mim. Quente, não te esqueças! -ordenou ao negro.
Brownlee observou o escravo, apreciativamente. -Um rapaz esperto
declarou. -Não está para venda, suponho.
Quando Agamermion regressou com as bebidas, Brownlee parecia
mais interessado no rapaz do que no uísque. Quando o negro se
aproximou para lhe entregar o copo bem cheio, Brownlee estendeu
a mão e apalpou-lhe criticamente os músculos da perna.
-Ajoelha-te -ordenou-lhe, e passou-lhe a mão pelos ombros,
abrindo-lhe a boca passou os dedos superficialmente pelos dentes
sãos.
-Cerca de trinta anos, diria eu.
-Não tanto -observou o amo, orgulhosamente.
-Parece ter cerca de trinta, pelos dentes e pelo resto. É mestiço,
parece-me.
-Mais ou menos. A mãe era mulata e o pai branco.
-Totalmente domesticado, não? -insistiu o comprador.
-Sim, mas preguiçoso. Não se consegue fazê-lo trabalhar.


-Venda-mo e curo-o depressa.
-E é respondão. Tenho andado para o pendurar e chicoteá-lo um
bocado, mas com o reumatismo e tudo o resto, vou adiando.
-Não, não, patrão, siô -o rapaz começou a lamentar-se-Eu é um
bom nêgo; não chicoteá; vai ser bom. Não, não, patrão. Vai.
-Pára com isso -avisou o patrão. Está a ver o que eu dizia? -dirigiuse
a Brownlee. -Está sempre a falar como os brancos. E uma espécie
de animal de estimação do meu filho, e o Ham estragou-o. 0 meu
filho não se importa que eu lhe arranque a pele, mas está muito
ocupado para o fazer ele próprio.
-Penso que então não o queira vender? -interrompeu o mercador.
-Não, acho que não. Ouviu-se um passo irregular sobre o chão
rangente do vestíbulo, e Hammond Maxwell entrou, a coxear.
-Desculpe atrasar o jantar -explicou ao pai. -Dei outra volta, a
cavalo, para ver como estava o rio, depois da chuvada.
-Não estragues o jantar com preocupações. -Maxwell voltou-se
para o seu convidado. -Este meu filho é demasiado grave. 0 seu
único defeito, acredite, é amar esta maldita plantação já esgotada e
os seus pretos mais do que as mulheres brancas. Senhor Brownlee (é
esse o nome correcto, não é?), senhor Brownlee, apresento-lhe o
meu Hammond; recebeu o nome do seu avô, Theophilus
Hammond.
-Encantado pela honra da sua companhia -respondeu Hammond
cordialmente.
-Muito obrigado, senhor. Também estou encantado -disse
Brownlee, erguendo-se e estendendo a mão.
-0 senhor Brownlee anda pelo país a comprar negros para o
mercado de Nova Orleães. Não conseguiu um bom grupo e passou
por Falconhurst para ver o que temos. Achas que podemos arranjar-
lhe um macho ou dois?
-Acho que não nos podemos negar a ajudar um cavalheiro.
Teremos muito gosto em arranjar-lhe qualquer coisa -disse Ham,
para encorajar Brownlee, pois a sua noção de hospitalidade


ultrapassava o seu desprezo pela profissão do convidado. -Mas o
jantar está à nossa espera. Quer acompanhar-me à outra sala, para
partilharmos uma ligeira refeição?
-Sim, já é altura e tu deves estar esfomeado, filho, depois de
passares toda a manhã na sela -declarou o pai, com certa
preocupação, avançando para a casa de jantar.
Era uma sala enorme e nua, cuja extensão apenas era modificada
pela altura dos tectos. Contra uma das paredes encontrava-se um
enorme aparador de estilo Império, em mogno, coberto de talha,
mas de certa elegância e distinção. Contudo, a sua superfície estava
de tal modo cheia de pratas e vidros, em estilo rococó, que se
destruíra toda a dignidade que o móvel poderia possuir.
A grande mesa rectangular parecia pequena, no meio da sala longa
e alta. Estava coberta com uma toalha de damasco, de quadrados
vermelhos e brancos, pequenos no centro e maiores nos rebordos.
Mesmo no meio da mesa havia um enorme galheteiro giratório em
prata ou metal com galhetas, recipientes para condimentos e para
diversos tipos de picles. Da sua pega superior estavam penduradas
duas pinças e, em volta do seu perímetro, estavam suspensas
colherinhas de prata.
Num dos cantos da mesa encontrava-se um enorme jarro de vidro
cheio de leite espesso e amarelo, algo entre leite e creme. A mesa
estava posta para três pessoas. Os pratos de porcelana rosada eram
enormes, ornamentados com templos e pagodes chineses. junto de
cada um deles havia um pratinho para ossos, da mesma louça. As
facas e os garfos, enormes, eram de aço, com os cabos de osso
manchados de amarelo por demasiadas lavagens com água quente.
As chávenas de café vazias que se encontravam à direita de cada
prato, com as asas meticulosamente voltadas para a direita, eram da
mesma escala excessiva dos pratos. Por trás das chávenas, havia
altos copos de vidro grosso, contendo, cada um deles, um
guardanapo dobrado e passado a ferro, de modo a mostrar o
rebordo franjado.


Com excepção dos picles dentro dos seus recipientes e do sal dentro
de espaçosos pratos de pesado vidro vermelho, não havia comida à
vista.
Apesar de não haver moscas a afastar, naquele dia frio, com
excepção de três ou quatro que languidamente atravessavam o tecto
e não ameaçavam a comida, havia dois rapazes lustrosos, de cerca
de quatro pés de altura (Maxwell calculá-los-ia em doze palmos,
duas ou três polegadas), um de cada lado da mesa, agitando leques
de penas de pavão, de um lado para o outro, monótona e
incansavelmente. 0 negociante avaliou imediatamente os rapazes,
mal lhes pôs a vista em cima. Era coisa que valia a pena, coisa boa.
Que preço obteria por aquele par num negócio particular em Nova
Orleães! Sabia exactamente quais os homens, quais as pessoas que
estariam interessadas. 0 grande copo de uísque que bebera ampliou
a sua imaginação. Talvez aqueles rústicos não compreendessem o
valor daquela parelha, no mercado, devido aos fins para que seria
vendida, e ao uso que lhe seria dado. Qualquer deles, só por si, era
uma jóia. Em conjunto, gêmeos, valiam quatro ou cinco vezes mais
do que valeriam separados.
Continuou a olhar sub-repticiamente para os pequenos tratantes,
receando que o seu excesso de interesse pudesse causar
desconfiança.
Olhando de soslaio de um para o outro, não detectava qualquer
diferença. os contornos dos seus crânios bem rapados eram
exactamente iguais, as faces igualmente redondas e cheias, os
narizes iguais, apenas ligeiramente achatados, com as narinas um
pouco largas, as mesmas orelhas pequenas, a mesma boca grossa,
voltada para cima nos cantos, os mesmos olhos grandes, com íris
tão negras que era impossível detectar as pupilas. A pele dos rostos
era igual em cor e textura -um tom de âmbar-claro através do qual
brilhava o rosado das faces. A sua pele fina parecia brunida, mas de
saúde e do sabão macio que recentemente haviam aplicado para
poderem servir na sala de jantar do amo.


Até aos pequenos pés, arqueados e descalços, eram exactamente
iguais em altura, comprimento dos braços, comprimento das
pernas, lisura do peito, arredondar das nádegas. Não estavam
vestidos de igual de propósito, mas sim porque os rapazinhos de
Falconhurst, depois dos seis ou oito anos, se vestiam todos de igual,
com as camisas grosseiras e as calças mais grosseiras ainda que
eram o seu único vestuário. Antes dos seis ou oito anos,
frequentemente até aos dez, os rapazes nada vestiam, embora as
raparigas usassem roupa um pouco mais cedo. Os fatos dos rapazes
eram uniformes, também, na idade e no tom -não se lhe podia
chamar cor.
0 vestuário dos gêmeos diferia um tanto do dos rapazes destinados
a trabalhar no campo, porque estava relativamente, apenas
relativamente, inteiro, e diferia nitidamente porque estava limpo parecia
limpo e bem cheiroso -mesmo imaculado. Um dos rapazes,
não importa qual, porque eram exactamente iguais e os vestuários
eram intermutáveis, tinha um buraco nas calças, à altura da coxa,
que parecia ter sido remendado e o remendo parecia ter-se gasto ou
não se segurar, tendo a costureira ou o alfaiate ou o encarregado do
guarda-roupa desistido de o arranjar. 0 outro rapaz mostrava
candidamente as nádegas. Os buracos serviam para mostrar que a
sua semelhança de pigmentação não terminava no pescoço, e era tão
igual sob o vestuário como nas extremidades.

Alguém atara um laço de um vermelho que passara para rosa, em
volta do braço de um dos rapazes, e um laço de um azul que
passara para cinzento, em volta do braço do outro -ostensivamente
para os distinguir. Possivelmente eles próprios os tinham colocado,
para não os confundirem. Ou talvez fossem ordens de Deus para
poder distribuir devidamente os seus pecadilhos no livro do
julgamento. De pecados propriamente ditos não podia Ele acusálos.
Tais querubins eram incapazes de pecar e, aliás, não tinham a
noção de pecado, mas podiam ser acusados de coisas como rir na


presença dos seus superiores, de gritar nas suas brincadeiras, de
recordarem ao outro que era um negro ou um malandro, ou de se
esquecerem de agitar o leque de penas de pavão com o ritmo
devido.
A observação que Brownlee fez da sala e a sua avaliação dos
gêmeos foram rápidas. Não levaram mais tempo do que levou
Agameirmon a afastar a cadeira, forrada a couro, e a sentar o seu
reumático patrão à cabeceira da mesa, após o que afastou a cadeira
de Brownlee e a empurrou. Hammond dispensou a ajuda do negro
e sentou-se à mesa, em frente de Brownlee, cujos olhos sôfregos
continuavam a observar os rapazitos. 0 seu apetite não ía para a
comida, apesar da viagem matinal, enquanto retirava o guardanapo
vermelho do copo, e desdobrava e o enfiava cuidadosamente no
colarinho.
Contudo, o odor da comida que Agamérmion fora buscar à cozinha
e colocara sobre a mesa reavivou-lhe a fome. Primeiramente chegou
uma imensa travessa de galinha guisada, rodeada de tortas de
maçã, e bastava olhar para ela e ver a maneira como começava a
separar-se, para se compreender como era tenra. Seguiu-se outra
travessa com talhadas de presunto dispostas em círculo, rodeadas
pelo molho vermelho em que tinham sido cozinhadas. Uma terceira
travessa continha ovos estrelados, mais de uma dúzia deles, fritos
apenas de um lado, com as gemas de um amarelo-vivo centradas na
clara branca, como um ramo de margaridas enormes.
Seguidamente surgiu uma travessa cheia de batatas empilhadas e
tenras verduras, sobre as quais repousava um grande pedaço de
bacon.
Agameirmon encheu os copos com o leite cremoso do jarro, e foi
buscar à cozinha um prato cheio de grandes biscoitos quentes
empilhados, espalhando um aroma a excesso de bicarbonato,
simultaneamente agradável e repugnante, como o odor do suor.
Em seguida, Agameirmon encheu as chávenas de um café forte,
negro e quente, sobre o qual colocou um creme tão espesso que era


difícil vertê-lo do jarro, em estado de semiliquidez. Passou então
um recipiente de melaço claro, com o qual se podia adoçar o café, e
Maxwell desculpou-se:
-Nós gostamos de um adoçamento mais lento-explicou. -Deve
haver açúcar por aí, algures, mas eu e o Ham nunca lhe tocamos.
Gostamos do paladar deste.
-0 adoçamento lento é sempre melhor -concordou Brownlee, que
deitava o café no pires e o soprava.
-Claro que o gosto a rum sabe mal a um branco. Este melaço é de
primeira. Caro de mais para se dar a pretos. 0 de rum serve-lhes
bem.
-Claro que sim -voltou a concordar Brownlee, levando à boca uma
perna de galinha, cuja carne ameaçava separar-se do osso. -Mas não
dá aos negros açúcar ou coisa parecida? -perguntou, um pouco
espantado.
-Dou-lhes melaço com rum todos os dias.
-Mas isso não os faz crescer e aumenta-lhes o apetite, fá-los comer
mais. É um desperdício -disse o comerciante, incrédulo.
-Quero que os meus negros comam. Quanto mais comem, mais
crescem. Não acredito na idéia de poupar em comida e gastar no
veterinário.
-Além disso -acrescentou Brownlee -, estraga-lhes os dentes.
Maxwell riu, pela experiência que tinha do assunto.
-Isso são histórias, apenas histórias. Os meus negros comem melaço
com rum no pão todos os dias e, se encontrar um dente cariado
nesta plantação, dou-lhe o negro. Examine qualquer deles.
Brownlee aceitou a sugestão. Empurrando um pouco a cadeira para
trás, fez sinal ao rapazito que estava atrás dele.
-Vem cá, rapaz -ordenou. Embaraçado, o garoto avançou
timidamente. Brownlee envolveu-o com o braço esquerdo,
introduzindo acidentalmente a mão pelo buraco dos calções e
acariciando-o, enquanto com a mão direita abria boca do rapaz e


prolongava a sua exploração dos dentes. 0 rapaz encolheu-se e
procurou suavemente afastar-se, o que Hammond notou.
-Alph esconjurou-o-, deixa esse branco observara tua boca. Queres
que te pendure?
0 rapaz apenas podia grunhir uma resposta negativa à questão
retórica, para não morder o dedo branco introduzido entre os seus
dentes.
0 outro rapaz riu-se à socapa, mais embaraçado do que divertido
com o atrapalhamento do irmão.
-Pára com os risinhos, Meg -avisou Hammond -, ou chicoteio-os a
ambos. Queres ser negro de casa, não queres? Ou preferes trabalhar
no campo?
Brownlee soltou Alph e chamou o outro gêmeo.
-Meg? -perguntou, quando o agarrou. -Que raio de coisa, chamar
um rapaz por um nome de rapariga! É porque foi castrado? -e
apalpou abertamente os seus órgãos genitais, ficando desapontado
por os sentir flácidos.
-Raios, não, não foi castrado! -gritou o velho MaxwelI, indignado
com a ideia de castrar um negro. -Apalpe-o! -o que Brownlee
continuou a fazer. -Não há cavalos nem negros castrados nesta
plantação.
Hammond interrompeu com uma explicação, não só para acalmar a
ira do seu pai perante as acusações implícitas, mas também para
esclarecer o estranho sobre o nome do rapaz.
1 -Meg é uma abreviatura de ómega! ómega e Alpha, percebe,
Alpha e Omega.
-Não conheço nada sobre deuses romanos, mas percebo de negros e
este é um macho. Não pensa vender este par?
Hammond riu, ao responder.
-Morríamos de fome, se os vendêssemos. A cozinheira tinha um
ataque; são filhos dela.


-Ganhava forças três dias depois, como o resto deles; e têm-me
pedido que descubra um par como este, sei muito bem a quem os
havia de vender.
-São de estimação, mais ou menos. 0 meu pai e eu achamos que são
espertos. Acho que os vamos conservar para semente -disse
Hammond, declinando a proposta sem descortesia para o
convidado.
0 Maxwell mais velho ainda estava irritado com a ideia da castração
do rapaz e voltou ao assunto.
-Nunca castrei um negro na minha vida, nem o meu pai, nem o
meu avô o fizeram. Nem sequer nunca os ameacei com isso. Fugiam
e era bem feito. Não os censurava por isso.
-Não queria ofender -disse Brownlee, tentando acalmá-lo. -Muitos
cavalheiros castram os pretos de casa ou os pretos maus. Tenho
vendido muitos.
-Comer e fornicar são as únicas coisas para que um negro vive -e
um ser humano também, para falar verdade -filosofou Maxwell
com ar profundo. -E claro, uma fêmea também gosta de dar de
mamar aos filhos.

Brownlee, que não apreciava um gênero de conversa tão abstracta,
mudou de assunto.
-A comida é muito boa na sua plantação, senhor MaxwelI, a avaliar
por esta amostra.
-Coma à vontade, coma à vontade -insistiu o anfitrião. -Pode bem
limpar as travessas. Os restos, de qualquer modo, são só para os
criados.
-Grande quantidade, grande quantidade -declarou Brownlee,
bebendo o último pires da sua quarta chávena de café. -Esplêndida
refeição, esplêndida refeição, senhor Maxwe11. -Tirou o
guardanapo do pescoço, dobrou-o cuidadosamente, com
delicadeza, e colocou-o junto do rato. Depois, seguindo o
procedimento dos seus anfitriões, empurrou a cadeira e levantou-se,


sacudiu as migalhas do fato e, co,mo ostensivo cumprimento pelo
jantar que comera, esfregou o estômago e-desapertou o último
botão do casaco.
-Nada de especial, nada de especial. É o jantar habitual -disse
Maxwell, depreciando o cumprimento e regressando à sala de estar.
-E agora vamos àqueles criados que se ofereceu para me vender insistiu
Brownlee, enterrando-se na sua cadeira, em frente da
lareira.
Maxwell estava relutante em falar de negócios.
-Bom, vejamos -disse. -Que achas, Ham? Hammond mostrou
menos relutância.
-Bom, e se lhe entregássemos aquele Pregador e o rapaz magro,
acastanhado, chamado Imperador?
-São vivos e enérgicos? Que idade têm?
-Um deles tem cerca de quinze palmos e três polegadas, calculo eu.
0 senhor viu-o. Levou o seu cavalo para o estábulo. 0 outro é mais
alto, tem talvez dezassete palmos; mas vão crescer mais. São bons
trabalhadores -afirmou o Maxwell mais velho.
-Estava só a calcular -respondeu o negociante. -Aquele Pregador é
aleijado, não é? Faltam-lhe dedos num pé, não faltam?
-Não é aleijado. Não lhe fazem falta nenhuma -disse Hammond.
Claro, se não lhe interessa ...
-Está bem, está bem. Um negro é um negro-claro, conforme o
preço.
-Claro -concorou Hammond.
-Que defeito tem o outro? -inquiriu Brownlee.
-Uma cicatriz de queimadura; não o estraga em nada, mas o meu
pai e eu não gostamos de dar de comer a um rapaz que não tem
bom aspecto. Os negros de Falconhurst são todos saudáveis e assim
queremos conservá-los. Orgulhamo-nos de ter bom gado, sem
defeitos nem doenças. É esse o único motivo porque eles são mais
baratos.



-Que extensão tem a queimadura e como a fez ele?
-0 caldeirão das barrelas caiu por cima dele, apanhou-o no
estômago, nas partes e num flanco. Uma grande cicatriz, mas curou-
se bem. Tinha algumas manchas vermelhas ainda, mas estavam
prestes a desaparecer quando o vi, há um mês ou coisa parecida.
-Hei-de vê-lo -disse Brownlee.
-Não lhe garanto que consigo educá-lo. É muito calado, mas nunca

o amansámos, nem um bocado.
-Se é capaz de cortar cana e colher algodão, posso usá-lo; claro, com
desconto.
-Merruion, vai buscar esses dois rapazes, o Pregador e o
Imperador; despe-os e dá-lhes um pedaço de sabão duro. Diz-lhes
que vão ao rio e se lavem bem, e depois voltem aqui e esperem em
frente do varandim -ordenou Hammond. -E manda buscar o meu
cavalo.
-Não quero que te mates, filho, a trabalhar com este tempo, de frio e
chuva.
-Não se preocupe, pai -disse o rapaz. -Estou quente e o casaco é à
prova de água.
-Quanto peço ao senhor Brownlee pelos rapazes> -perguntou o
velho.
-0 que achar justo-respondeu o rapaz. -Tem mais experiência disso
do que eu.
Inclinou-se e beijou o pai, fez uma vénia ao negociante e partiu.
0 pai suspirou, levantou-se e caminhou penosamente até à janela
embaciada, onde abriu uma clareira para ver o filho montar a
cavalo.
-Aquele rapaz é demasiado fogoso e ambicioso. É esse o mal dele.
Não herdou isso de mim. Herdou-o do velho Theophilus
Hammond, penso eu. Herdou o exterior de mim e o interior dos
Hammonds. Tem a minha cara avermelhada e os meus olhos azuis,
mais claros, o meu corpo comprido e as pernas curtas: tudo; mas
herdou a teimosia e a vontade de subir dos Hammonds. Trabalha

de mais e não se diverte. É o melhor filho que um pai jamais teve,
mas trabalha de mais. É o único defeito que consigo encontrar-lhe.
-Merimon, Mermion! -chamou.
-Sim, siô, patrão -respondeu o rapaz.
-Um toddy quente, para mim. Que descia beber, senhor?
-Só um pouco de uísque simples, se faz favor. Só um pouco respondeu
o convidado.


Apesar de Brownlee estar ansioso por inspeccionar as suas
aquisições em perspectiva, Maxwell preferiu aguardar um pouco,
imaginando o prazer que sabia obter em efectuar a transacção.
Calculava o interesse que o negociante sentia em comprar e
confiava em que saberia esperar até o peixe ter engolido o anzol.
Bebeu o seu toddy tranquilamente, em pequenos golos, pousando o
copo de vez em quando, enquanto esfregava os joelhos doloridos ou
massageava uma mão com a outra, aquecendo as pernas ao fogo.
Havia poucos dias no ano, no Alabama, suficientemente frios para
justificar o uso das lareiras e Maxwell apreciava o conforto de um
cepo crepitante.
-Hammond pensa que isto é uma plantação de algodão -observou.
-Falconhurst não é só uma plantação de algodão. É uma criação de
pretos, é o que isto é, uma criação de pretos. Anos após anos
fizeram-se colheitas de algodão até já não haver mais algodão na
terra. Há sítios onde já não pode dar mais que um bom fardo em
cada cinquenta acres, e a fibra é tão curta que o coeficiente de Nova
Orleães tem o dobro, ou mesmo o triplo.
Brownlee não estava interessado na economia do algodão no
Alabama. De vez em quando levantava-se e ia até à janela, olhando
para os dois negros nus que esperavam pacientemente por baixo
duma nissa que os resguardava parcialmente da chuva arrastada
pelo vento.
Para tomar parte na conversa, inseriu uma observação no solilóquio
do seu anfitrião.



-Uma maneira lenta de viver, ao que parece. Leva um tempo dos
diabos a criar um negro para o levar ao mercado.
-Não muito, não muito. 0 tempo passa depressa, na minha idade.
Em passando dos quarenta, a cova começa a olhar para nós. Não
podemos escapar-lhe; também não tenho vontade disso, com o
reumatismo e tudo o resto. Claro, gostava de viver o suficiente para
casar Hammond com uma jovem de boas famílias, com bom
sangue, que lhe desse um filho para continuar a usar o nome dos
Maxwe11. Hammond, esse tem bom sangue; neto do velho
Theophilus Hammond, da Plantação Anglebranch. Com Hammond
casado e um filho a caminho, estarei pronto para ir ao encontro do
Criador. Não tenho medo, nem um bocadinho. Claro, nunca me dei
muito bem com pregadores e coisas no género, mas sempre tentei
proceder bem, nunca enganei um branco nos negócios, tratei
sempre bem os meus pretos, dei-lhes de comer, nunca os fiz
trabalhar aos domingos, excepto na altura das colheitas, nunca
vendi uma criança sem a mãe antes de estar desmamada e mesmo
assim só raramente, nunca andei atrás de putas brancas e nunca fui
estroina. Nunca fiz coisa alguma de que me envergonhasse. E quero
ser desculpado, quando chegar o meu rol.
Brownfee estava menos preocupado com a virtude de Maxwell e a
sua recompensa do que corri o negócio dos negros. Fez nova
excursão à janela.
-A queimadura do rapaz tem mau aspecto -observou.
-Parece, vista dessa janela. Vê-se tudo distorcido, por causa do
vidro martelado. Mas não é nada, quase. Contudo, Hammond não
pode suportar ter um negro que não seja perfeito. É estranho.
Talvez lhe faça recordar a sua perna rígida, que um pónei castrado
lhe fez quando tinha seis anos. 0 maldito pónei parecia manso
quando o comprei, mas nunca se pode confiar num castrado, cavalo
ou negro. São maus e traiçoeiros. 0 vadio atirou o garoto ao chão no
terceiro dia de o ter, sem qualquer motivo. Não me pareceu que o
rapaz estivesse ferido, mas trouxe-o ao colo para casa (não o confiei


a qualquer negro) e deitei-o naquele sofá ali do canto, tentei fazê-lo
parar de chorar, despi-o com todo o cuidado e esfreguei-lhe a perna
com uísque. Lucrécia Bórgia, a cozinheira, andava a amamentar os
dois gêmeos
-os que viu na casa de jantar -e ela e eu demos os bebés a Ham,
para o convencer a deixá-la esfregar-lhe a perna todos os dias com
uísque. Mas não serviu de nada. 0 joelho endureceu. Mal pode
dobrá-lo. Brownlee estava menos interessado no joelho rígido de
Hammond do que nos negros lá em baixo.
-É melhor irmos ver os rapazes. Ali nus à chuva, são capazes de
apanhar febre dos pulmões ou coisa parecida.
-Não lhes vem mal nenhum enquanto estiverem nus. São as roupas
molhadas que fazem adoecer. Além disso, já têm juízo suficiente
para se meterem debaixo da árvore, não acha? Espere até eu beber
este copo de toddy. já arrefeceu e está quase vazio.

Maxwell bebeu o resto do seu toddy e Brownlee esboçou o gesto de
ajudar o reumático a levantar-se.
-Não se incomode, não se incomode -protestou este, lutando para
se pôr de pé. -Meirmon, Merririon! -chamou. -Põe aquela coberta
do sofá por cima dos meus ombros.
Aquecido com a manta azul e branca, Maxwell atravessou o
vestíbulo até à porta da frente, que Agamermion lhe abriu,
descendo o degrau para o varandim. 0 negro trouxe cadeiras de
balanço, mas apenas o patrão se sentou. Brownlee, preocupado em
fechar o negócio continuou de pé.
-Manda os rapazes virem até ao varandim e enxuga-os -ordenou
Maxwell a Agamermion, tirando um lenço sujo do bolso e
estendendo-lhe.
-0 senhor Brownlee está ansioso por lhes tocar.

Os dois jovens negros aproximaram-se do varandim com embaraço.
Nunca lhes tinham permitido aproximar-se tanto da casa e agora


que tinham sido convocados, tomavam consciência dos seus pés
cheios de lama. Ambos tremiam, tanto de medo como de frio.
Agameitmon, que baixava do serviço de criado de quarto ao de
trabalhador do campo, escolheu Imperador, de cor mais clara, como

o menor dos males, e enxugou-o cuidadosamente com o lenço, após
o que, com um olhar interrogativo na direcção do amo, atirou o
lenço molhado ao Pregador que começou a torcê-lo e a limpar as
gotas de chuva que tinha sobre o corpo. Era impossível secar-se com
o pano molhado.
Brownlee ocupou-se do Imperador; fez uma passagem preliminar
das mãos sobre as costas em pele de galinha e a perna magra, a os o
que voltou a atenção para a grande cicatriz, que estava tão bem c
Y3 e que não abriu sangue nem sangrou com a pancada e o beliscão
que o negociante lhe deu. Imperador ficara imunizado à dor pela
queimadura e pelo tratamento que suportara, e nem se moveu.
-Muito feia -lamentou Brownlee. -Ombros estreitos e corcovados.
-Eu sei que ele ainda não está pronto para vender. Precisa de mais
um ano. Pois não foi engordado e preparado -contradisse o
proprietário.
-Tem uma boca de porco horrível.
-Não queria que ele chupasse por uma palhinha, pois não? respondeu
Maxwell. -A boca de porco não o impede de comer
como um porco.
-E um daqueles vadios do cabo da Boa Esperança, dos lados de
Zanzibar, parece-me -disse Brownlee, deixando-se cair na cadeira,
desaprovadoramente.
-Talvez. Não sei nada sobre a raça dele. Talvez tenha sangue da
Costa Oriental. Mas já lho tirámos. De resto, nunca me deu
problemas. Nunca tive que o chicotear.
-Ajoelha-te aí na minha frente, rapaz, -ordenou o negreiro. -Não,
assim não. De costas para mim.


Imperador voltou-se, e, apesar da ausência de marcas visíveis, o
negreiro explorou cuidadosamente os músculos por baixo da pele,
para ver se encontrava estrias que traíssem as marcas já curadas do
chicote.
Continuou a conversar com Maxwell enquanto percorria, com as
mãos experientes, as costas do negro.
-Talvez este não seja desordeiro, mas, na cidade, levei ao mercado
um negro da Costa Oriental e não consegui ofertas. Os plantadores
não estão para se arriscar. Mas tem as costas limpas.
-Já lhe disse que nunca o chicoteei.
-Podia alguém tê-lo feito antes de ser seu, não duvido da sua
palavra -disse Brownlee, empurrando o rapaz para a frente, de cara
para o chão, para poder observar as nádegas magras e ver se tinha
hemorróidas no anus, mas não encontrou sinais delas. Voltou a
puxar o rapaz para o pôr de novo de joelhos, inclinou-lhe a cabeça
para trás e correu os dedos pelos dentes, que, apesar do defeito da
mandíbula inferior, eram tão sãos como se as suas extremidades se
tivessem fixado normalmente. Pondo Imperador de pé, puxou-lhe
os dedos e torceu-os e, verificando que nenhum deles estava
partido, soldado ou torcido, fez-lhe sinal para levantar os pés, um
de cada vez, até ao braço da cadeira, para lhe poder examinar os
dedos.
-Traz-me aquele bocado de madeira, rapaz -ordenou, indicando
um pequeno pedaço de lenha a alguns pés de distância. Levantou-
se e, atirando-o o mais longe que podia, disse: -Vai buscar.
-Imperador trotou em direcção ao pau.
Virou-se para Meirmon que estava de pé, por detrás da cadeira do
amo e ordenou-lhe: -Vai buscar o meu chicote. Está ao pé da lareira.
Maxwell interrompeu o "sim, siô" de Meirmon para avisar:
-Não vai usá-lo nos meus negros. Eu é que os chicoteio.
-Vou só enrolá-lo à volta das pernas dele umas vezes para se
apressar. Tenho que o ver a correr. Não vou magoar ninguém explicou
o negreiro, um pouco surpreendido.


Não se preocupe, não se preocupe, o rapaz galopa -respondeu o
patrão. -Não vale a pena, Meirmon -contra-ordenou.
Maxwell estava farto da tediosa precisão com que o outro
examinava um rapaz que já lhe dissera não ser perfeito. A sua
paciência esgotava-se.
-Atira tu -Brownlee entregou o pau a Meirmon que o atirou muito
mais longe do que Brownlee o fizera. -Vai apanhar -disse Brownlee
ao Imperador que correu languidamente e o trouxe de volta, uma
actuação indiferente.
-Ouve-me bem, meu malandro -disse Maxwell pegando-lhe na
mão.
-Tu és preguiçoso. Podes trotar com muito mais energia. Se
estragas o negócio com a tua preguiça, penduro-te pelos calcanhares
e mando Memnon desancar-te até mostrares mais velocidade e
enquanto puderes. Percebes? Desanco-te até já nem poderes andar.
Arranco-te a preguiça dos ossos. Agora vai buscar.
-Sim, siô, patrão. Imperador correu tanto quanto podia mas a
distância não era suficientemente grande para lhe permitir dar toda
a sua velocidade. Brownlee pareceu ficar satisfeito.
-Agora salta -disse. -Mais alto! Mais alto! Maxwell estava disposto
a acabar com a transacção.
-Leva o rapaz -disse a Meirmon. -0 senhor Brownlee não está
interessado. Só quer negros de primeira. Leva-o.
-Espere um minuto, espere um minuto, senhor Maxwe11. Posso
ficar com o macho. Tenho interesse em comprá-lo -interrompeu
Brownlee.
-Não parece -disse Maxwell, mostrando a sua impaciência.
-Quanto quer por ele, senhor? -0 colóquio tornara-se formal.
-Deve valer seiscentos e cinquenta -aventurou Maxwell, à
experiência.
-É de mais. Não me serve por esse preço. Não consigo mais de
setecentos por ele em Nova Orleães.


-Seiscentos e vinte e cinco, então?
-Espere: deixe-me ver o outro. Talvez possamos fazer o negócio
para ambos.


0 Pregador estava cheio de frio e a tremer, mas avançou
indolentemente, para ser examinado. já não sentia medo e não
mostrava mais indícios de indignação do que o companheiro
apresentara. Sabia que era apenas uma propriedade que já tinha
mudado de dono antes.
É pena o pé -depreciou o negreiro. -Como foi? Um cavalo pisou-o,
acho eu. Mas é um trabalhador seguro. Brownlee resmungou.
Continuou a sua inspecção do mesmo modo que fizera com
Imperador.
-Um angolano -disse depreciativamente.
-Penso que só lhe interessam rnandingos e fulas -disse Maxwell,
com desprezo.
-Bem, são bons negros, especialmente os mandingos. Brownlee
apressou o seu exame ao Pregador, sentindo a irritação crescente de
Maxwell, mas o seu estudo não deixava de ser minucioso. Chegou
às costas que aparentemente estavam limpas. Os seus dedos
exploradores detectaram uma saliência por baixo da pele, e mais
abaixo outra.
-Há aqui marcas. Este vadio foi chicoteado.
-Onde? -Maxwell tentou levantar-se, incrédulo.
-Aqui e aqui. Apalpe.
-Eu seja cão se foi! Não me lembro de o ter chicoteado, acho que
não o fiz -pelo menos não usei o chicote. Chicoteei-te, Barba? Procurava
confirmação.
-Não, siô -respondeu o rapaz.
-Então quem foi?
-0 patrão Johnson, capataz do patrão Knowlton, na Plantação
KnowIton Knoll, antes de comprá eu -explicou o rapaz. -0 patrão



velho ria quando o patrão Johnson chicoteô eu e esfregô sal e
pimenta no meu carne. -0 rapaz começou a chorar, ao lembrar-se.
-Não te rales; já passou tudo; o sal e a pimenta curam -declarou
Maxwell em tom terno. -É estranho eu não ter reparado nos altos,
quando o comprei. E deviam estar maiores nessa altura.
-Angolano? -roçou Brownlee. -Não suporta uma chicotadazinha.
-Porque é que ele te chicoteou? Que fizeste tu? -perguntou o amo.
0 Pregador era demasiado negro para corar. Baixou a cabeça e
parou de soluçar.
-Responde, que fizeste tu? -ordenou MaxwelI, com firmeza.
-Eu..., eu... -Pregador hesitou e depois murmurou, embaraçado. -0
patrão apanhô eu no palha a brincá.
Maxwell estava divertido.
-Nunca chicoteio um rapaz por isso. Digo-lhe que aquilo cal e assim


o assusto. Seja como for, não serve de nada.
-A única coisa para curar isso é uma fêmea -anunciou Brownlee.
-Talvez, talvez.
-Compensa, compensa.
-Penso que não lhe interessa um rapaz com cicatrizes nas costas... aventurou
Maxwell.
-Depende do preço, depende do preço -disse Brownlee,
continuando a sua investigação.
0 Pregador foi melhor que o Imperador, no teste de actividade. Era
mais vigoroso, mais vivo e, não sendo tão alto, não era tão
prejudicado pela curta distância que tinha de correr para apanhar o
pau.
-Quanto, quer por este? -perguntou Brownlee.
-Setecentos, mais ou menos. -Maxwell chegara ao ponto de
negociar propriamente, e gostava de regatear.
-Não posso dar isso porque não o recebo. Quanto quer pelos dois?
-Quanto é que eu lhe pedi pelo mais claro? Seiscentos e vinte e
cinco, não foi? E setecentos por este. Dá, dá, velamos. Sou muito

lento a fazer contas de cabeça. Mil e trezentos e vinte e cinco, não é?
Vá lá, mil duzentos e cinquenta pelos dois. É bem barato.
-Não posso -esquivou-se o negreiro. -Faça-me, digamos, cerca de
...
-Não pense nisso. Mil duzentos e cinquenta é o melhor que posso
fazer-lhe. É pegar ou largar. É como quiser. Eu não estou aflito por
os vender.
Brownlee pressentiu um tom de finalidade na declaração de
Maxwell que ele não tencionara dar-lhe. Brownlee pareceu prestes a
desistir.
-Oh, vá lá mil e duzentos -acedeu Maxwe11.
-Eles não são perfeitos -argumentou o negreiro, passando a mão
sobre a cicatriz do Imperador. -Lamento, mas não posso dar-lhe
esse preço.
-Tenho uma ideia! -propôs Maxwell, como se isso lhe tivesse
acabado de ocorrer. -Podia trocar os três garoto s que tem no
estábulo por estes dois machos.
-Não os troco. Talvez por dois -ofereceu o negreiro.
-Vamos lá vê-los -Maxwell voltou-se para Meirmon. -Tu tens as
chaves. Vai buscá-los.
Enquanto Agamémnon partia para cumprir a ordem, o amo deu
permissão aos dois rapazes para entrarem numa cabana e se
aquecerem.
-Vão para a cabana da Dido. Ela tem um bom fogo, nesta altura:
está a cozinhar.
-Não consegue vender os miúdos em Nova Orleães -começou
Maxwell.
-Os rapazes já são bastante grandes e a rapariga passa bem por
onze anos. Uma lei estúpida, de qualquer modo -declarou
Brownlee.
-Não me referia à lei da Luisiana quanto à venda dos pequenos.
Toda a gente sabe que é estúpida. Quem tem negros pequenos,
devia poder vendê-los quando muito bem lhe apetecesse. Ninguém



tem nada com isso -afirmou Maxwell -, mas calculo que os seus
pequenos não possam fazer nada ainda, não valham nada no
mercado. Calculo que o saiba e os tenha comprado por baixo preço.
Ficando com eles, uns três, quatro ou cinco anos, já terão valor real.
-E onde é que eu os guardo? Não posso guardá-los em Nova
Orleães. Comprei-os para os vender. Quero receber o meu dinheiro
e comprar mais negros.
-E o que estou a dizer-lhe; é o que estou a dizer-lhe. Troque-os
pelos meus dois rapazes que podem trabalhar e estão bons para o
mercado. Eu crio os pequenos aqui, onde a comida é barata e o
senhor pode voltar a comprarmos, quando tiverem crescido e
amadurecido. Claro, quero observá-los, antes da troca.
Brownlee parecia não encontrar falhas no argumento de Maxwe11.
Meirmon surgiu, vindo dos estábulos, seguido pelos dois rapazes.
Trazia a menina pela mão. Exaustos pela viagem matinal, tinham
estado a dormir e encontravam-se apenas meio acordados. Um dos
rapazes esfregava o olho com o punho, o que talvez tivesse
proporcionado uma deixa ao outro -que tinha uma constipação porque
o pus, seco e granulado, se acumulava nas extremidades das
pálpebras. A rapariga era a mais feliz e animada dos três.
-Descasca-os -ordenou Maxwe11. -Não me apetece mexer nesses
patifes sem os lavar. Mas já está muito frio agora, pois o sol está a
pôr-se. Se estivessem lavados, podíamos levá-los para casa, onde
está quente.
Memnon retirara o vestuário dos dois negros, e a rapariga,
desabotoando o seu único botão, tinha despido o vestido, puxando-

o por cima da cabeça.
Maxwell não fez uma observação tão detalhada como a que
Brownlee fizera aos rapazes mais velhos. Delegou-a, na maior parte
a Memnon. Os rapazes tinham aproximadamente a mesma idade,
eram ambos mulatos escuros, e o que estava constipado era mais
escuro que o outro. Não eram gémeos, obviamente, embora
semelhantes na forma, bem arredondados, mas robustos e de

músculos fortes, para a sua idade. Maxwell notou a sua semelhança
e Brownlee respondeu:
-0 mesmo pai, provavelmente. Comprei-os ao mesmo criador. Foi
difícil, mas não queria vender os mais velhos.
Maxwell apalpou-lhes superficialmente as coxas e as barrigas das
pernas, inspeccionou o umbigo de um deles que suspeitou de ter
uma hérnia, mandou Meirmon abrir-lhe a boca para examinar os
dentes, e declarou-se satisfeito.
A rapariga não era bonita, mas era viva e simpática. Apreciou a
atenção que lhe prestavam e reagia instantaneamente a qualquer
ordem. Maxwell observou-a rapidamente. Clara, mais ou menos
mestiça, tinha ossos pequenos e pouca carne. Os seus seios
começavam a inchar, mas ainda estava longe da nubilidade.
-Virgem, julgo eu? -inquiriu Maxwe11.
-Era, sim; não sei o que lhe possa ter feito andar montada na garupa
do cavalo.
-Observa-a, Meirmon -ordenou Maxwell. A rapariga divertiu-se
com a exploração de Meinnon.
Um dos rapazes -o que estava engripado -olhava fixamente para o
processo e Brownlee, notando o seu excesso de interesse, bateu-lhe
no rabo com o pedaço de madeira que atirara para o Imperador ir
buscar.
-Tem cuidado, rapaz, tem cuidado. Volta as costas e não olhes para
os brancos, se vais ser assim. -0 rapaz voltou-se de costas a chorar. Suponho
que posso bater nos meus pretos, já que não posso tocar
nos seus -comentou Brownlee.
-Por esse motivo não, não pode. Aqui não. Deixe o miúdo divertir-
se. Não se pode mudar a natureza dos machos -disse Maxwe11. Bom
acrescentou. -Como vamos negociar?
-Troca-se por igual. Os seus dois pelos meus três.
-Não, quero cem dólares, além disso.
-Por igual.
-Cinquenta.


-Não posso dar-lhe excedente, Os seus dois rapazes não são
perfeitos.
-Não deprecio o seu material.
-Não há nada para depreciar. São perfeitos como moedas de ouro.
-Nunca faço uma troca sem receber qualquer coisa. Digo-lhe o que
vou fazer, vou ao seu encontro -dez dólares, ou cinco.
-Raios, dou-lhe cinco -concordou o negreiro.
-Feito -declarou MaxwelI, satisfeito por manter a sua resolução de
obter dinheiro em metal sonante em todas as suas transacções.
-Agora temos que fazer as facturas.
-E pagar o dinheiro. Mas agora que ela é minha, digo-lhe que a
rapariga não é saudável. Qualquer pessoa pode ver que tem vermes,
os vermes quase que lhe saiem pela garganta. Talvez sejam só
lombrigas, mas eu acho que deve ser uma ténia. Vou purgá-la e ver


o que sai. Não é assim muito feia. É apenas magra e angulosa.
-É sua e pode tratá-la como quiser. Estou satisfeito por ficar livre
dessa porcalhona -regozijou-se o negreiro.
-Memnon, leva a pobrezinha à Dido. Diz-lhe que tome cuidado
com os rapazes, à volta dela, porque não a quero estragada já, e ela
que o evite. E diz à Dido que não lhe dê de comer ou de beber esta
noite -nem uma dentada nem uma gota. É por isso que é mau uma
criança ter bichas -ficam vazias. Gosto de alimentar o gado e fazê-lo
crescer. E veste qualquer coisa seca aos dois rapazes do senhor
Brownlee e leva-os outra vez para o estábulo. -Voltando-se para o
negreiro. Maxwell perguntou: -Quer que se ponham grilhetas nos
rapazes, não vão eles fugir esta noite? Agora são seus. Lavo daí as
minhas mãos.
-Tragam-mos cá antes de os mandarem para o estábulo. Vou falar
com eles. Quando acabar a conversa, já não fogem -respondeu o
novo dono.
-Deita estes dois pretinhos no estábulo com os outros miúdos. Eles
que fiquem a conhecer-se. Alimenta-os e dá-lhes bastante melaço
com rum. Não tenhas medo que fujam esta noite; estão muito

cansados para fugir, e amanhã saberão que a comida de Falconhurst
é tão boa que nem conseguíamos correr com eles.
-Sim, siô, patrão -disse Mertirion.
-E não te esqueças de triturar esta noite umas nozes de betel para
aquela miúda. Tritura-as bem, em pó. E não tentes usar aquele pó já
velho que sobrou. Têm que ser trituradas frescas ou não servem de
nada. A quantidade que couber numa medida. É a melhor cura para
bichas que já se viu, se conseguirmos fazê-los engolir aquilo.
-Só isso, patrão siô?
-Só isso; vê se não te esqueces do que te disse. Vai buscar o
Barbarosa e o Imperador para virem ao seu novo dono. Eu vou para
junto da lareira. Ainda faz frio e chuva.
Maxwell levantou-se, ajeitou a manta azul e branca e entrou na casa,
com Mertirion a segurar a porta.
-Eu vou contigo -disse Brownlee a Merimon. Não quero que os
dois rapazes saiam nus com esta chuva.
Agamértirion levou-o à cabana de Dido, seguido pelos três miúdos
nus, com o negreiro atrás.
Encontraram o Pregador e o Imperador sentados no chão escorado,
ao lado da lareira, junto da qual a enorme Dido fazia o jantar numa
panela, com um bebé agarrado ao peito. Quatro outras crianças,
dispersas pela única divisão da cabana sem janelas, reuniram-se de
costas para a parede, para olhar para o branco estranho. Os dois
rapazes nus levantaram-se e afastaram-se do fogo, para dar lugar
aos seus superiores. Os seus rostos estavam sombrios.
Brownlee dirigiu-se-lhes.
-Gostavam de vir comigo, de serem os meus negros? -disse, em
tom bondoso.
-Eu gosta daqui, patrão é bom para eu -disse Imperador e o
Pregador desatou a chorar de novo.
-Eu também vou ser bom para vocês.
-Siô levá gente para Nova Orleães e vendê gente pra trabalhá nos
campo -protestou Imperador.



-Que disparate! Nada disso! Se eu ficar com vocês, vão ficar para
mim. Claro que vamos para Nova Orleães, onde tenho que comprar
mais alguns trabalhadores; mas eu tenho uma grande plantação no
Kentucky e tenho umas dezoito ou vinte fêmeas à espera e têm que
ser servidas.
Agmerimon abafou o riso com a mão. Não teria tido vontade de rir
se qualquer dos Maxwell estivesse presente.
Brownlee esperou que a sua informação penetrasse nas suas cabeças
duras. Viu as suas colunas endireitarem-se, as cabeças levantarem-
se, e a animação espalhar-se pelas suas faces.
-Acham que podem fazer esse trabalho?
-Pode, sim -ecoaram as suas palavras antes de as poderem
pronunciar. Olharam um para o outro, mal acreditando ria sua boa
sorte.
-Claro que o negócio ainda não está feito. 0 vosso patrão quer
muito dinheiro por machos de primeira como vocês, e eu quero ver
que gênero de bebés vocês fazem antes de me arriscar a entregá-los
às minhas belas fêmeas.
Ficaram ambos embaraçados.
-0 patrão Ham não usou eu ainda. Está a poupá-exclamou
Pregador.
-Eu também não -acrescentou Imperador. -Mas pode fazer bebés
bons. Eu sabe que pode, siô. Experimente eu.
-Tu nã pode fazê nada, nègo. Tu está todo queimado. -Pregador
tentou aproveitar a sua vantagem. -Os cavalheiro branco na precisa
de ti? Eu pode servir todas as fêmea, eu sozinho sem ajuda.
-Interesso-me pelos dois -disse Brownlee, -se conseguir um bom
preço. Amanhã de manhã se verá.
Voltou-se para sair da cabana.
-Esta noite não fogem. Não vale a pena pôr-lhes grilhetas. Vestelhes
fatos secos e manda-os para a cama como habitualmente ordenou
a Merririon.


Merrírion não estava de bom modo. Não gostava de fazer de ama
de rapazes de campo. Estava abaixo da sua dignidade. 0 seu lugar
era em casa
-na casa, a fazer toddies, a espevitar a lareira e a servir à mesa dos
brancos.
Levou os pretos pequenos e os dois mais velhos para os estábulos.
Logo que ficaram suficientemente longe de Brownlee para que este
pudesse ouvi-los, Mem desatou a rir.
-Vocês pensam que aquele branco vai comprá vocês pra criação?
Nenhum branco é parvo para comprá vocês pra porcas quanto mais
pra fêmeas de criação -explicou.
-Eles quer preto grande como eu pra esse trabalho.
-Eu pode fazê mêrno que tu -replicou Pregador, persistindo na sua
credulidade. -Talvez Imperador não pode; tá todo queimado.


-Pode, pode tão bem como tu! -gritou o Imperador.
-Plantação no Kentucky, uffa -continuou Meirmon com desprezo. Aquele
branco não tem plantação nenhuma, em sítio algum. É só
negreiro um simples e vulgar negreiro sem valor. Não é cavalheiro
nenhum. 0 patrão Brownlee vai comprá vocês, já comprou vocês,
para levar vocês para Nova Orleães e pô vocês no mercado e vendê
pla maiô oferta que aparecê. Agora entrem pró estábulo, pró pé dos
outros rapazes e esqueçam-se de Kentucky e das mulheres. Pra
criação! -resmungou Meirmon com desprezo, fechando e
aferrolhando a porta do estábulo.


Pregador e Imperador guardaram, como um tesouro, a garantia que
Brownlee lhes dera. Não queriam que lhes roubassem o seu sonho.
Gabaram-se aos companheiros dos êxtases que os esperavam,
discutiram azedamente um com o outro a sua futura fecundidade,
em comparação, e não conseguiriam levá-los a fugir mesmo que
lhes prometessem o paraíso.



Capítulo segundo


0 senhor BrownIce saiu da zona das cabanas e encaminhou-se
lentamente para a casa, sob a luz que desaparecia. A chuva tinha-se
transformado num chuvisco, de tal modo que as gotas que
escorriam das árvores, quando passava sob elas, molhavam mais do
que a chuva nos espaços abertos. 0 negreiro compreendeu que o
chuvisco era apenas uma pausa na fúria dos elementos porque se
aproximavam, de oeste, nuvens carregadas de água que o vento
impulsionava. Brownlee estava preocupado com o tempo e cogitava
na sua viagem, pensando se ela teria que ser adiada por mais um
dia, dois, ou mesmo três, em Falconhurst, ou se lhe seria possível
partir na manhã seguinte.
Estava impaciente para sair dali, chegar a Nova Orleães e receber o
seu dinheiro e o lucro, com a venda dos dois escravos -ou antes, o
dinheiro do seu capitalista, pois o capital para a sua expedição tinha
sido emprestado, e o lucro líquido obtido na venda dos negros que
comprasse teria de ser dividido entre ele e o cavalheiro que o
financiara. Esses lucros seriam provavelmente pequenos, nesta
incursão. Tinha encontrado poucos pretos, caros, de má qualidade,
e difíceis de comprar. Era um mercado em inflação e os plantadores
aguardavam preços mais altos -com excepção daqueles que
vendiam um negro ou dois para comprar comida para os que
mantinham em reserva.
Brownlee riu-se, intimamente, com a mentira que pregara aos
rapazes, para fortalecer a sua vontade de o seguirem. Um negro que
mudara de dono contra vontade era susceptível de criar problemas
ao seu novo dono. BrownIce pensava que a sua conversa com os
rapazes apressaria os seus passos pelo caminho fora, tanto como a
ameaça do chicote nas pernas.
Ao entrar em casa, que mergulhava na obscuridade, encontrou o
seu anfitrião inclinado sobre as poucas brasas da lareira, furioso,


insultando Agamerririon por permitir que o fogo se apagasse.
Necessitava terrivelmente de um toddy e queria velas. Embora
estivesse tão coberto que era impossível vê-lo, a face do Sol
desaparecera totalmente no horizonte, mas o dia ainda não expirara
tão completamente como Maxwell julgava. Sempre impaciente com
as ausências de Hammond, por muito curtas que fossem, mostrava-
se agora mimado e irritado com o atraso do seu regresso do
trabalho.
Agameirmon tendo devidamente executado as ordens que o seu
amo lhe dera, chegou poucos minutos depois de Brownlee. Entrou
pela porta da casa de jantar, com os braços carregados de lenha para

o fogão e despejou-a toda sobre a trempe.
A descompustura que Maxwell aplicou ao negro era uma obra-
prima de invectivas -sarcasmos sobre insultos e insultos sobre
vitupérios. Merririon absorveu tudo como se o merecesse, sem
apreciar a eloquência. Conservando-se perante o fogo, mexendo as
brasas e esforçando-se por fazer arder a madeira nova e húmida,
não tentou refutar os argumentos do amo, mas afastou a sua ira
com um "sim, siô, patrão, ou um ,não, siô, patrão", pronunciados em
tom suave e contrito, sempre que podia, introduzindo-os nas breves
pausas que Maxwell fazia para recuperar o fôlego.
Meirmon era demasiado educado, talvez demasiado assustado,
para tentar escapar-se antes do amo ter esgotado a sua arenga.
Continuou a ativamente, para dar a espevitar o fogo, mesmo depois
de ele já arder e Maxwell oportunidade de dar largas a todo o seu
fel. Logo que viu que era seguro fazê-lo, desapareceu, voltou com as
velas e retirou-se para preparar um toddy para Maxwell e um copo
grande de uísque para Brownlee. Sabia bem que nada acalmava
mais o patrão do que beber um toddy.
Escurecera bastante quando Hamnond regressou. Vinha cansado
mas bem disposto. Os vaticínios do pai tinham sido feitos em vão.

-Boa noite, pai-disse, inclinando-se para beijara face do velho. -Boa
noite, senhor Brownlee. Então o pai convenceu-o a comprar os
rapazes?
-Claro que sim -declarou Brownlee. -Fizemos negocio ... Maxwell
resolveu adiar a notícia do modo como o negócio tinha sido feito e
mudou de assunto.
-Chama o Mermion para te preparar um toddy, filho, e senta-te e
bebe-o antes da ceia. Ajuda-te a descansar um pouco.
Hammond aceitou o conselho. Enquanto Merimon estava na sala,
para receber as instruções de Hammond, o Maxwell mais velho
despejou o seu copo e disse:
-Apetece-me outro. Apanhei um raio de um frio naquele varandim
e esse maldito negro preguiçoso deixou o fogo apagar-se. Sinto o
reumatismo a piorar. Acho melhor beber outro. E o senhor
Brownlee, que toma?
-Outro uísque -respondeu o negreiro.
-Conte-me a venda, -disse Hammond, voltando ao assunto. -0 pai
arrancou-lhe um dente, senhor Brownlee?
-Quase -respondeu o negociante. Maxwell sentiu que chegara a
altura de não poder adiar mais a confissão a que estivera a fugir.
-A falar verdade, não foi uma venda -começou ele.
-Não? -perguntou Hammond.
-Não, foi uma espécie de troca, por assim dizer; embora eu
recebesse um excedente -e repetiu: -Recebi um excedente, lá isso
recebi.
Quando Merimon voltou com as bebidas, Maxwell aproveitou a
oportunidade para falar doutra coisa.
-Traz ao patrão Ham umas pantufas e calça-lhas, para ele
descansar. Não vês que está molhado? Não mais consegues fazer
nada sem te mandarem?
As perguntas desorientavam Merririon, mas era preciso reconhecêlas,
mesmo que não lhes respondesse.


-Sim, siô; não siô -respondeu, deixando o patrão escolher a
resposta que lhe conviesse.
-Que gênero de troca? -insistiu Hammond, implacavelmente,
enquanto Meirmon lhe trazia as pantufas, ajoelhava-se em frente
dele e, apoiando na barriga o pé do patrão, lhe arrancava as botas
de montar, após o que lhe despiu as meias de lã, passou os dedos
entre os dedos do pé para lhes tirar a humidade, massageou as
articulações e esfregou o peito do pé, antes de lhe calçar as pantufas
espessas, desajeitadas e enormes, feitas de carpeta de Bruxelas com
desenhos tão grandes que as pantufas não pareciam constituir um
par.
-Bem, para dizer a verdade, o senhor Brownlee tinha três pretinhos
que vinham com ele, um casal de machos com cerca de quinze
palmos de altura e uma fêmea clarita e jeitosa.
-Eu vi-os acorrentados nos estábulos. E calculo que trocou os dois
machos grandes por eles? -0 tom da pergunta traía contrariedade.
-Mas recebi o excedente, recebi o excedente -protestou o pai.
Brownlee absteve-se de discutir.
-Quanto? Não tinha que receber excedente, parece-me.
-Só cinco dólares. Mas excedente é excedente. Maxwell sentiu a
contrariedade de Hammond e esfregou as articulações artríticas,
para o incitar à piedade. 0 seu rosto ensombrou-se, como se fosse
chorar.
-julgava que estava a fazer um bom negócio. Talvez esteja a perder
a mão, talvez esteja mesmo a perder o juízo.
-Ora, ora, pai! Teve toda a razão -disse Ham, ao ver o desgosto que
a sua crítica causara. Levantou-se da cadeira, arrastou as pantufas
através da sala, apertou suavemente uma das mãos distorcidas e
fez-lhe uma leve fricção. -Não, não; fez boa troca. Foi boa porque
em vez de obter dinheiro com os dois negros, arranjou-nos mais um,
e nada de dinheiro.
-Cinco dólares.


-Sim, cinco dólares. Não pode ver um preto pequeno sem o
comprar. Falconhurst está apinhada de negros jovens que não
servem para tratar do algodão e não temos trabalhadores com
tamanho suficiente para trabalhar no campo.
-Como sempre disse, Falconhurst não é uma plantação de algodão.
É uma criação de pretos, só uma criação de pretos -justificou o
velho.
-Pai, se quer outro criado pequeno, vai ter outro criado pequeno.
Ninguém o vai contrariar e muito menos eu. Continua a ser o dono
de Falconhurst, e aposto o seu bom senso num negócio contra o
pouco que aprendi consigo, e perco. -Hammon soltou a mão do pai,
com uma palmadinha, e voltou para a sua cadeira, para beber o
resto do seu toddy. 0 velho sentia-se bem; a dor desaparecera
miraculosamente das suas articulações. A aprovação de Hammond
e a prova do seu afecto eram os remédios que lhe bastavam.
-És tu quem manda em Falconhurst agora, filho. Não quero fazer
nada sem a tua aprovação.

Agameirmon abriu a porta da sala de jantar e tocou a sineta para a
ceia. A ceia foi muito parecida com o jantar, exceptuando o facto de
a mesa ser iluminada por duas velas, além de duas outras que os
gémeos seguravam alto mas não com muita firmeza. Não havia
moscas a afastar na sala gelada, àquela hora. A luz das velas fazia o
tecto parecer ainda mais alto, e a sala mais cavernosa do que à luz
do dia.
As refeições eram muito semelhantes em Falconhurst, mas havia
sempre muita comida substancial -galinha, porco e pão quente.
Lucrécia Bórgia insinuou-se na sala com a desculpa de trazer café
quente para encher de novo as chávenas vazias. Queria ver
Brownlee desde que soubera da sua chegada.
-Aquele Metruion não anda nada depressa -disse ela, à guisa de
explicação. -Deixa todos sem café. Preguiçoso, é o que é.


-Claro que é preguiçoso -concordou o amo. -E preciso que tu o
empurres por trás e eu o puxe pela frente para se lhe arrancar
qualquer trabalho.
-A Lucrécia Bórgia é a única negra da plantação que merece o que
come -acrescentou Hammond. -Faz mais trabalho que três dos
outros.
Os olhos pretos de Lucrécia Bórgia brilharam; sorriu, mostrando
todos os seus dentes fortes; e a sua papada tremeu, em apreciação
do cumprimento. Mais ou menos mestiça, Lucrécia Bórgia, a quem
sempre chamavam pelo nome completo, era mais roliça e
grandalhona do que propriamente gorda, como podia parecer à
primeira vista. Ao andar, plantava os pés grandes e nus com
segurança, balançando-se de um lado para o outro, com certa
majestade, à volta da mesa. Era bem humorada, em virtude do bom
tratamento que recebia e da boa comida que sobrava da mesa do
amo. Rindo-se, obtinha as boas graças do patrão e dominava à sua
vontade em toda a plantação.
-E ela que cozinha todos estes acepipes? -inquiriu Brownlee.
-Não é só cozinheira, é também encarregada da alimentação dos
criados, toma conta da fiação, dos alojamentos e, desde que chegou
há três anos, teve um miúdo de dezoito em dezoito ou de vinte em
vinte meses. É uma boa criadora. É a mãe destes gémeos
preguiçosos -Maxwell cada vez a elogiava mais. Sabia como
inspirá-la a esforçar-se ainda mais. -Penso que agora está
desocupada, embora não seja assim tão velha. Teve os bebés muito
depressa e está desocupada.
-Não, siô; não, siô, patrão -gaguejou Lucrécia Bórgia, alegre por
dar a notícia. -Tou cheia, outra vez.
-0 quê? Deus me valha! -disse MaxwelI, espantado. -Tens aí um
dólar de prata, Ham? Dá-o à Lucrécia Bórgia. Como foi isso?
-Não sei, siô; mas tou.
-Aqui tens o teu dólar -disse Ham. -E quando o bebé vier, recebes
outro dólar, dois dólares se tiveres gêmeos outra vez.


Lucrécia Bórgia fez uma vénia, modestamente, quando recebeu a
moeda e expressou um complicado agradecimento.
Para esconder o seu embaraço, voltou a sua atenção para Meg.
-Tu aí, nêgo, segura essa vela bem. Sabes que não pode queimar
dos lado, e pára de mexê que os branco nem pode vê o que tão a
comê. Eu desanco-te, rapaz, desanco-te até gritares que doi, mal esta
cela acabe.
Meg mordeu o lábio, para se impedir de chorar, mas segurou a vela
firme e ficou quieto. As promessas de Lucrécia Bórgia não eram vãs.
Alph também ficou sério, porque a mãe não os castigava
separadamente.
-Então aquele Napoleão que eu te dei sempre era um macho a
valer? Levou tempo a mostrá-lo -comentou Maxwell.
-Acho que não foi o Poleão. Aquele presumido não presta. 0 bebé é
do Meirmon, acho eu. Patrão Ham disse p'a eu exprimentá Memnon
ôta vez e eu anda com ele há um mês.
-Por Deus, devem ser gêmeos, se foi o Mermion. Ele próprio era
gêmeo e é o negro que mais gêmeos tem feito.
Meirmon sorriu ao ouvir falar tão bem dele. Mas o sorriso morreu,
quando o amo prosseguiu:
-Mandava este filho da puta para o mercado se não fosse tão bom
criador. Só serve para andar atrás das mulheres. Nem consegue
manter uma lareira acesa, e os seus toddies chegam sempre frios
quando mos entrega.
-Não sabia que o Meirmon andava outra vez a portar-se mal, pai.
Porque não mo disse? Só falar com ele, não resulta. Acho melhor
levá-lo ao estábulo, quando tiver tempo. Arranco-lhe a pele do
lombo e esfrego-o com pimentade. Vai ver como esperta. -ofereceuse
Ham.
-Não, não, patrão. Eu vai ser bom. Eu trabalha depressa. Não
precisa chicote -suplicou Mermion.
-Deixa de responder aos brancos -avisou-c, o patrão.


-Pimentade? -inquiriu Brownlee. -0 que é essa pimentade? Ham
explicou:
-Quando se arranca a pele a um preto, esfrega-se com pimentade e
a pele cresce outra vez sem marcas. É esplêndido para peles
arrancadas. Mistura-se sal, pimenta de cayenne e sumo de limão.
Claro que arde. Os negros têm mais medo da esfregadela que das
chicotadas, mas endireita-os mesmo.
-Sal, pimenta de cayenne e limão? -Brownlee tomou nota,
mentalmente. -Parece bom. Tenho que experimentar. Uso sempre
terebentina.
-A terebentina é boa, mas a pimentade é melhor. Doi mais e cura
mais depressa.
-Assim parece, assim parece.
-Claro que é preciso arrancar a pele, se não a pimentade não arde.
Nos miúdos pequenos e nas mulheres, que não se chiocoteiam com
tanta força, pode-se usar a escova dos cavalos para levantar a pele,
antes de se esfregar com pimentade, para fazer arder.
-Há quem use só sal. 0 sal cura mas não faz arder muito -disse o
negreiro.
Ham empurrou a cadeira e todos se levantaram para regressar à
sala. Ham disse:
-Se não tiver muita pressa em partir amanhã de manhã, talvez eu
arranje tempo para chicotear este rapaz e pode vê-lo torcer-se e
contorcer-se e ouvi-lo berrar quando eu aplicar a pimentade. É
excelente. É estranho que nunca tenha ouvido falar. A ideia vem de
São Domingos. Os franceses são espertos, por aqueles lados.
-Não tenciono partir muito cedo. Seja como for, espero, se vai
castigar o rapaz, não quero que se mace só por minha causa. Tenho
visto montes de negros serem sovados, mas gosto sempre de ver. É
cómico, quando tem mesmo que ser feito. Sempre se aprende
qualquer coisa.
Maxwell tinha uma visão mais moderada do assunto.


-Não os chicoteamos muito em Falconhurst. Só tivemos dois casos
no ano passado, que eu me lembre, ambos por roubo. Mas quando
os chicoteamos, chicoteamos mesmo, damos-lhes bem.
É a única maneira -declarou Brownlee. É a única maneira. Claro
que não usamos um chicote que lhes arranque bocados de carne e
que estrague os negros. Não, senhor. Mandei fazer duas
palmatórias, uma grande e outra mais pequena para os miúdos e
para as mulheres, de cabedal só lido com buracos. Penduram-se os
negros, pelos tornozelos, nunca pelos dedos dos pés para não os
torcer, com as pernas tão afastadas quanto se puder, e mete-se-lhes
um trapo na boca. Dá-se a palmatória grande a um rapaz e diz-selhe
que se ponha a trabalhar. Arranca-se a pele do lombo do negro
num instante e acaba-se o serviço com uma boa dose da tal
pimentade, de que o Ham lhe falou. Depois vamo-nos embora e
deixamos o negro pendurado, a pensar durante uma hora ou duas,
e tem-se um bom criado, garanto-lhe, um bom criado, a partir dessa
altura. Sim, senhor, nenhum negro quer uma segunda dose.
-Eles abusam -interrompeu Brownlee, que nunca tivera um criado,
em sua casa.
-Claro que sim, e temos que os castigar. Olhe para este Memnon,
um bom macho, mas preguiçoso, mais preguiçoso não há.
Estragado, estragado. Foi de estimação. 0 macho mais velho da casa
e só foi castigado uma vez. _ Penso que não lhe faz mal nenhum.
Pode fazer-lhe umas cicatrizes, talvez, mas se não pensa em vendêlo
...
-Não tem uma marca. Tudo curado há muito. Acho que não
mereceu a sova que lhe dei. Não devia ter-lha dado. Mas eu estava
desvairado. Aprendi nessa altura a nunca chicotear um negro
quando se está desvairado. É preciso arrefecer um pouco, e talvez já
não seja preciso. Mas agora com este negro, vai ficando cada vez
mais indolente; parece que a preguiça se acumula. Ouviu aquela
descompostura que lhe dei esta tarde. Não serviu de nada. Acho
que tens razão, Ham. Acho melhor arrancares-lhe um pedaço de


pele. Quando tiveres uma hora ou duas livres, não há pressa. Posso
dispensar-to quando quiseres.
-Está bem pai, eu ocupo-me dele, amanhã ou no dia seguinte. A
Lucrécia Bórgia pode arranjar-te os toddies e tratar da lareira,
enquanto ele estiver pendurado a secar, não podes Lucrécia Bórgia?
-Pode, sim. Pode, sim, -Lucrécia Bórgia apreciava as carnificinas.
-Talvez fosse boa ideia a Lucrécia Bórgia espancar o Mem todas as
manhãs, quando espanca os gémeos, depois de eu tratar dele declarou
Ham.
-Todas as manhãs? -inquiriu Brownlee.
-Sim siô, todas as manhãs eu amacio o rabo deles pelas asneiras que
fizeram ontem. Nem sei que asneiras foi, mas sei que fazem. Sim,
siô. Assim, com aquecimento todos os dias, não vão crescê e fazê
patrão Ham perdê o tempo a chicoteá eles todos meses. Quero que
Alph e Meg sejam nêgos trabalhadores, bons pró Patrão os ter em
casa e pra servir bem Patrão.
-já te disse, Lucrécia Bórgia, não sei quantas vezes, que nunca
chicotearei os teus rapazes sem tua licença. Percebeste? Prometo-te declarou
Hammond.
-Chicoteia eles quando quizé, patrão Ham -respondeu Lucrécia
Bórgia. -Mas não venda eles. Não venda eles, a não ser que lhe
paguem muito dinheiro, por favô, patrão.
-Não, nunca os venderei. 0 pai e eu queremo-los para nós. Não é
verdade, pai?
-Vendeu muitos dos meus filhos, ainda pequenos.
-Bem, eram meus, não eram? -cortou Maxwell.
-Sim, siô, patrão. Eram seus.
-E arranjei boas casas para todos eles.
-Não, siô, patrão. Não tou a queixar-me para onde eles foi. Eu sabe
que eles são criados como bons cristãos. Mas ...
-Mas quê? Lucrécia Bórgia, estás a passar das marcas, a dizer-me o
que hei-de fazer com os meus pretos. Lembra-te que te comprei os



miúdos, te dei por cada um daqueles diabos uni dólar de prata e
dois dólares pelos gêmeos, e faço com eles o que me apetecer.
-Pai, pai, não se irrite. Não faz bem ao reumatismo -advertiu
Hammond.
Maxwell voltou-se tão depressa quanto lhe permitia o seu
reumatismo e avançou, contrariado, para a sala. Brownlee seguiu-o,
Hammond ficou na sala. Estava perturbado com o caminho que a
conversa tinha seguido, achava as apreensões de Lucrécia Bórgia
sobre os seus preciosos filhos um pouco gratuitas e atribuiu a
irritação desnecessária do pai se não à idade pelo menos às dores
reumáticas. Não era costume do pai provocar os negros.

Finalmente Hammond seguiu Lucrécia Bórgia pelo corredor até à
cozinha quente e alegre onde os gêmeos se banqueteavam com os
restos da mesa e onde encontrou Lucrécia Bórgia, invulgarmente, a
chorar. Perante a sua manifestação de surpreendida compaixão, ela
saltou do banco, lançou os braços pesados em volta do seu pescoço
e chorou até mais não poder, enquanto Ham aguentava o seu peso
de carne quente.
Bastava um pouco de compaixão e um mínimo de diplomacia, toda
a que Hammond possuía, para transformar o desgosto de Lucrécia
Bórgia na felicidade que lhe era própria. A sua saúde, o seu
indomável vigor, e a sua posição na hierarquia da plantação,
primeiro corno cozinheira e depois como criadora, a criadora de
gêmeos cor de ambar, conspiravam entre si para lhe inspirar alegria.
Tal posição havia sido depreciada, e com ela tudo o resto. Ham, sem
compreender totalmente o que fazia, colocou de novo Lucrécia
Bórgia no seu pedestal oscilante. Reconfortou-a até as lágrimas
secarem e depois começou a brincar com ela.
As piadas de Ham não perdiam nada pela sua lubricidade ou falta
de eufemismo. Referiam-se à superioridade de Meirmon e ao facto
de ele suplantar ou mesmo ajudar Napoleão, o jovem claro que
Lucrécia Bórgia tinha escolhido para par, fazendo comparações


entre as suas anatomias e as circunstâncias em que ela ficara
grávida.
Ham rebaixara-se a brincar com Lucrécia Bórgia como jamais teria
feito com qualquer dos seus outros criados, mesmo com Memnon.
Ele era um potentado e ela era o seu vizir, quase sua substituta na
direcção dos outros criados. Tinha atingido a mais elevada posição a
que podia aspirar.

Capítulo terceiro

0 motivo por que Hammond fora à cozinha, e de que nem
suspeitava, era não só afastar-se da,conversa com Brownlee, mas
também socorrer Lucrécia Bórgia. já suportava Brownlee o mais que
podia, mas o seu esforço junto da cozinheira esgotara-o, e estava
disposto a regressar à sala, quando da noite negra emergiu uma
aparição ainda mais negra, na pessoa do filho da preta Lucy.
-Miss Lucrécia Bórgia -exclamou -a 'nha mãe diz pra dizê o patrão
que Pérola Grande tá doente. Tá muito doente.
-Que tem Pérola Grande? -perguntou Hammond, com uma
severidade não intencional que paralisou o garoto e o emudeceu. A
criança engoliu em seco uma vez e outra. Incapaz de falar, apenas
conseguia pensar no destino que o esperava.
Hammond agarrou no ombro de Baltasar e repetiu a pergunta.
-Que tem Pérola Grande? Pérola Grande era a jóia de Falconhurst.
Trigueira como cobre polido, forte como um cadernal, direita como
uma viga, e claramente núbil. Pérola Grande era a mandinga pura
mais magnificente que jamais pegara numa sachola para tratar de


algodão. Era tão elefantina nas suas proporções como na graça com
que avançava. Ela não caminhava nem corria nem passeava .
Pérola Grande avançava. Era bela como só uma catedral gótica é
bela. Era o espectáculo da plantação. Sem ter medo de homem ou
demónio, era dócil como uma gatinha, e as ofertas choviam.
Encantava-a que a despissem e a exibissem, que o negociassem o
seu corpo, convencida de que as tremendas ofertas que faziam por
ela seriam sempre declinadas. Nunca estivera doente um único dia.
Para Hammond, era como se o céu tivesse caído.
-Que tem Pérola Grande? -perguntou, pela terceira vez. Baltasar, a
quem o medo tirara a fala, recuperou-a por medo:
-Eu? Eu não sabe, siô. Pérola Grande tá doente. Dizia tudo o que
sabia. Hammond, arrastando as pantufas e coxeando por causa da
perna rígida, dirigiu-se, através da escuridão, para a cabana de
Lucy. Caminhava tão depressa que Baltasar tinha que correr, de vez
em quando, para o acompanhar. A proximidade do amo protegia-o
da escuridão.

Hammond ouvia os gemidos da rapariga, interrompidos, a
intervalos, por um grito de dor. Abriu a porta da cabana. Tudo era
confusão. As crianças recuaram, assustadas, para as paredes do
fundo. Na lareira havia um fogo alto. Lucy inclinava-se, solícita mas
desesperada, sobre a cama onde Pérola Grande se torcia na sua
agonia, e a noite tornava-se assustadora, com os sons que saíam do
mais profundo do seu ser.
Hammond sentiu compaixão pelo sofrimento da rapariga. Não
sabia que fazer por ela. Aproximou-se da cama, empurrou a enorme
Lucy para o lado e, sentando-se ao lado da rapariga, pegou-lhe na
mão.
-Pérola Grande, que tens? Onde te dói?
-Tenho uma dô, patrão Ham, tenho uma dô na barriga, patrão. Mas
tá melhor agora. -Pararam os gemidos e Pérola Grande ficou calma.
-Ta melhor agora -repetiu debilmente.


-Aquela mulher pensa que lá porque é uma boa cozinheira e boa
criadora, é dona da plantação -declarou Maxwell, em tom
petulante, para Brownlee. -Pensa que Ham e eu somos seus criados
e não ela nossa. Hammond não se irrita com os criados. É muito
suave para dirigir os pretos, lá isso é um facto. Mas ela há-de saber,
essa Lucrécia Bórgia, quem pega no chicote aqui -resmungava e
ameaçava, impotente.
Nunca resulta, deixar um negro sentir-se por cima -concordou o
convidado, sentando-se em frente da lareira.
-Eu sou bom para os pretos, deixo-os comer o que querem, doulhes
abrigo e visto-os, nunca os faço trabalhar demais para não
pararem de crescer, mantenho-os felizes e deixo-os em paz. -
Maxwell expunha a sua moderação. -Mas -acrescentou -um negro
é um negro e tem que continuar a ser negro.
Chamou Merririon e mandou vir uma bebida, que veio mais
depressa do que nunca. E vinha quente -perfeita.
-Têm alguma religião para os vossos negros? -perguntou
Brownlee, para fazer conversa.
-Raios, não! -respondeu Maxwell, aparando o tabaco. -Quanto
mais religião um negro tem, mais calaceiro fica, e mais difícil de
levar.
-Não se rala muito com as almas mortais deles? Eh?
-Não acho que eles tenham almas mortais. Talvez alguns dos mais
claros. Pelo menos, não queria ter nenhum deles no céu comigo. Se
um negro vai para o céu e lhe dão alguns privilégios, acaba por
pensar que vale tanto como os brancos.
Não havia qualquer tom de brincadeira na sua frase.
-Há quem pense que, dando-lhes a religião para se entreterem,
ficam mais calmos e vivem mais tranquilos; satisfazem-se com ser
melhores nesta vida, para poderem pintar o diabo quando
chegarem ao céu.
-0 céu está muito longe dos pretos jovens. Não conseguem pensar
numa coisa tão distante. E os meus são quase todos jovens. Vendo



os quando já não procriarem, e enquanto um negro pode procriar,
não pensa no céu.
-Podia dispensar-me mais alguns. Estou pronto a comprar-lhos.
Não me agrada ir para casa de mãos vazias.
-Ainda não, ainda não. Todos os negros que eu tenho são sãos,
escorreitos e perfeitos, agora que me comprou aqueles dois. Mas os
jovens ainda têm de crescer.
Maxwell esvaziou o copo e pediu outro e Brownlee voltou a pedir
uísque simples. Começava a precisar dele.


Quando Meirmon trouxe as bebidas, o patrão observou:
-Porque é que o patrão Hammond não veio dar-me as boas noites?
Teria ficado aborrecido com o que eu disse à Lucrécia Bórgia?
-Não, siô, patrão. Patrão Ham não tá no cama. Tá com Pérola
Grande.
-Fico satisfeito por ele começar a ganhar juízo. Mas porque não a
mandou chamar? Tinha medo que eu o arreliasse, aposto.
-Não, siô, patrão -contradisse Meirmon, com temeridade. -0 patrão
Ham não anda à volta da Pérola Grande. Pérola Grande tá doente.
-Disparate! -opinou Maxwell. -Pérola Grande não está doente;
nunca esteve doente.
-Pérola Grande tá doente -insistiu Merririon. -Tem qualqué coisa
terrível. Lucy mandou dizê a patrão Hammond. Ele tá agora no
cabana da Lucy. Pérola Grande parou de gritá. Acho que ta melhor.
Maxwell estava menos preocupado com a doença da enorme
rapariga do que com o facto de o filho não vir despedir-se dele antes
de ir para a cama. A falar verdade, Maxwell não gostava que
sucedesse qualquer mal a uma fêmea tão magnífica e valiosa e
receava uma doença que pudesse espalhar-se pela plantação
apinhada. Mas sentia-se ainda mais apreensivo quanto à ofensa que
pudesse ter feito a Hammond. Tinha a noção da sua total e absoluta
independência em relação ao filho, não só na direcção da plantação,
na orientação dos negros, na colheita do algodão, mas também



quanto à sua companhia e amor filiais, sentimentos que, para
MaxwelI, apesar de homem prático, eram necessidades maiores do
que a própria comida. Sabia como eram raras as relações como as
que tinha com o seu filho, como era ilógico e injusto pedi-Ias a um
rapaz. Que tinha para oferecer à sua juventude? Vivia no terror
constante do abandono de Hammond.
0 ranger dos degraus recordou ao velho a ideia de que Hammond
não viria despedir-se dele.
-Quem sobe a escada? -perguntou a Meirmon. -É ele que entrou e
vai para cima?
-Não siô, patrão. É só Dite que vai pró quarto do patrão Hammond
esperá por ele.
-Acende um bom fogo lá em cima. 0 patrão Hammond deve vir
cheio de frio.
-já acendeu e o quarto ta quente pró patrão Hammond. -disse
Meirmon, muito cheio de si. 0 castigo prometido para o dia seguinte
já estimulara Merimon a ser atencioso e bem disposto.
Hammond voltou finalmente para casa e, enterrando-se num
cadeirão, ordenou a Merrinon que lhe trouxesse um toddy. A sua
aparente fadiga e preocupação levaram o pai a expressar a sua
solicitude.
-Está tudo bem -respondeu Hammond, em tom não muito
convincente.
-Como está Pérola Grande? Que tem ela? -perguntou MaxwelI,
com impaciência.
-Pérola Grande já está melhor, parece-me. Acho que foi apenas uma
dor de barriga. 0 pior 'já tinha passado quando eu lá cheguei explicou
o jovem. Dei-lhe uma boa dose de óleo de castor e um
pouco de láudano. Acho que é o melhor a fazer.
-E é mesmo -afirmou Maxwell.
-Depois chamei Lancelote e mandei-o levar Pérola Grande para a
antiga casa dos doentes, nas traseiras. Grande como é, só ele podia
transportá-la. Acho que não é nada, talvez um excesso de carne de


porco da última matança, mas não quero que se espalhe alguma
epizootia numa plantação tão cheia de negros jovens.
-Fizeste bem, Ham. Fizeste muito bem. Tiveste uma boa ideia disse
Maxwell aprovativamente. -Não ouvi dizer que andasse coisa
por aí, mas as bexigas ou a febre-amarela limpavam-nos. Fizeste
muito bem.
-0 melhor que pude. Mandei Lancelote acender um bom fogo na
casa dos doentes e deixei-o lá para velar por ela. Se Pérola Grande
não estiver melhor de manhã, mando um rapaz numa mula ao
veterinário de Benson.
-Não é seguro, não é seguro, acho eu, deixar aquele Lancelote toda
a noite com a rapariga. É muito ardente e virogoso. Não queremos
acidentes desse gênero com uma fêmea daquela categoria.
-Avisei-o de que o chicoteava se se metesse com ela, disse
Hammond.
-Virgem, ainda, não é?
-Acho que sim. Não apalpei para ver, desde a última colheira. A
Lucy é bastante moral e vigia-a.
-Não sei o que se passa contigo, Ham, deixar uma bela rapariga
como Pérola Grande virgem há tanto tempo. já vai nos quinze anos.
-Parece que está a fugir aos seus deveres, não está, meu rapaz? interrompeu
Brownlee, em tom íntimo.
Todas elas esperam que o patrão lhes preste atenção. Pelo menos da
primeira vez. Eu estou todo tomado com este maldito reumatismo e
já não sirvo para isso -queixou-se Maxwell.
-Mas eu já lhe disse umas cinquenta vezes -respondeu Hammond que
não suporto o cheiro de uma negra. já com as mais claras me
custa.
-Quando eu tinha a tua idade, não havia virgens de quatorze anos
em Falconhurst, podes acreditar. Pretas ou mulatas, cheirando bem
ou mal, se não fosse eu, era o teu tio Dick. Dick era mais novo que
eu e franzino. 0 nosso pai castigou-me mais de uma vez por andar à
volta de uma fêmea que estava a poupar para o Dick -recordou


Maxwell. -E a si, senhor, Brownlee? Quando era rapaz,
incomodava-o o cheiro de uma preta.
-Nada, mesmo nada; mas o meu pai não possuía pretos dele. Era
capataz e as mulatas eram todas postas de parte para o patrão e
para os filhos. Não tive possibilidade de ter senão pretas mesmo, e
cheiravam mal. Tive que me agarrar ao que havia, e quase nunca
eram virgens, a menos que tivessem qualquer defeito -disse
Brownlee, cheio de franqueza.
-Não há nada que cheire pior que uma negra porca. Nós obrigamos
as nossas a irem ao rio lavar-se com sabão, quase todos os sábados,
no Verão, evidentemente -explicou Hammond. -Os criados de casa
lavam-se na banheira durante todo o ano, de Verão e de Inverno.
-Por isso os vossos negros não cheiram ... muito. Quase não se sente

o cheiro deles em vossa casa. Não é como na casa de alguns patrões
que nunca mandam lavar os seus pretos -afirmou Brownlee, à guisa
de cumprimento -Claro, há uma maneira de acabar com o cheiro.
Dá muito trabalho, mas faz-se.
-Como é? -perguntou Hammond, cheio de interesse. -Esfregá-los
com perfume? Isso só junta um mau cheiro a outro e ainda fica pior.
-Não; é mergulhá-los bem, aí durante cinco minutos, em água de
permanganato de potássio, não muito forte, só um pouco
avermelhada.
-0 que é isso? -perguntou Maxwell.
-Olhe, é aquele espécie de pó grosso que está na garrafa cheia de
poeira, na prateleira dos remédios. Nunca soube para que servia
nem que fazer com aquilo. Estive para o deitar fora -disse
Hammond.
-Pois serve para isso -declarou Brownlee. -Toda a gente em Nova
Orleães o usa nos pretos da casa. Uma rapariga que se banhe com
permanganato fica absolutamente sem cheiro durante dois dias
inteiros; um macho já começa a cheirar outra vez ao fim de um dia.
E preciso meter um macho todos os dias na água, para o manter
bem cheiroso. julgava que toda a gente sabia isso.

-Pois nunca tinha ouvido dizer -disse Maxwe11. -Aquele que está
na prateleira talvez fosse da Sophy. Ela era muito asseada. Não
suportava um negro que cheirasse mal.
-Temos que experimentar -decidiu Hammond. -Que quantidade
usa?
-0 suficiente para fazer a água encarnada. Não cor de púrpura, e
mergulha-se o negro nela, cabeça e tudo, excepto o nariz, durante
uns bons cinco minutos. Uma banheira com permanganato chega
para uma dúzia de negros ou mais, não é preciso desperdiçá-lo. Mas
não se pode voltar a usar. Perde a força com o tempo.
-Temos mesmo que experimentar-disse Maxwell. -Não gosto muito
dessas ideias novas. Mas não há-de fazer mal. Lembra-me para
experimentar amanhã, Ham.
-0 pai não gosta de ideias novas-queixou-se Ham.-Nem queria que
eu usasse aquela nova maneira de semear em atravessado, em vez
de ser ao comprido, aquele sistema sobre que escreveu o senhor
Tom Jefferson da Virgínia. Mas vou experimentá-lo, quando chegar
a altura de semear, dê lá para onde der.
-É complicado de mais -explicou Maxwe11. -A terra de
Falconhurst está toda gasta, já. Deixa-a ensopar. Não consegues
uma colheita completa de algodão, com o senhor Tom Jefferson ou
sem o senhor Tom Jefferson. A terra só presta para criar negros. 0
algodão só serve para os manter ocupados, para não estarem para aí
parados e a pensar no que não devem.
-0 senhor Tom Jefferson é um homem muito esperto, e eu tenciono
seguir o que ele diz -insistiu Ham, -Ele diz que semear o grão
contra os sulcos impede a camada de cima de se livrar da água do
Tombigbee e cria matéria para crescimento.
-É tarde de mais, é tarde de mais. Falconhurst está muito bem
assim.
-Deixa-a em paz. Não digo que o Torn Jefferson não seja esperto. Só
acho que é tarde.
-Não se preocupe, pai. Não é bom para o seu reumatismo.


-Diabos levem o meu reumatismo! Não faça isto, não faça aquilo.
Vai piorando, faça eu ou não faça o que me apetece. Parece-me que
os toddies são a única coisa que me faz bem. Mas esta noite está pior
do que o costume.
Ham sacudiu a cabeça, desesperado.
-Só gostava que arranjasse um daqueles cães sem pêlo que os
mexicanos têm. Dizem que dormir com os pés encostados a um
desses cães faz passar o reumatismo do homem para o cão.
-Ouvi falar deles, mas nunca vi nenhum. Duvido que existam cães
sem pêlo.
-Existem. Eles têm cães desses -declarou Brownlee, com segurança,
-Quem os tem? Onde posso arranjar um? -Maxwell estava disposto
a tentar tudo. -Embora o doutor Nixon diga que não serve de nada,
que não resulta.
-São mesmo bons para isso -disse Brownlee. -Eu próprio nunca vi
nenhum, mas eles existem, e sem um único pêlo.
-Devem ser muito cómicos -conjecturou Maxwell.
-Claro, qualquer cão tosquiado de modo que os pés possam
encostar-se à pele, também serve, ou um preto. Um preto pode
drenar o reumatismo pelos pés tão bem como um cão sem pêlo.
-Acha que sim?
-De certeza -disse Brownlee com segurança. -Conheço um homem
chamado Bronson, de Natchez, que experimentou. Estava tão
tolhido que mal podia andar. Experimentou dormir com os pés bem
apertados contra a barriga de um preto e dentro de pouco tempo,
umas semanas, no máximo, Bronson já andava e montava a cavalo
tão bem como dantes. 0 reumatismo passou dele para o preto. 0
preto ficou todo tolhido num instante, tal como Bronson estava
antes.
-Talvez valesse a pena experimentar -disse Ham.
-Arranja-me um preto, Hammond; começo esta noite mesmo.
Manda-o lavar bem. Um macho é melhor que uma fêmea. Uma



fêmea sempre perturba um bocado quando se tem reumatismo e
não se pode fazer nada.
-Vamos usar um dos gêmeos, e vou dar à Lucrécia Bórgía um
bocado daquele pó para pôr na água e acabar com o cheiro.
-Não me agrada muito arruinar um dos gêmeos com reumatismo especulou
Maxwell.
-Podemos depois passá-lo para outro negro se ele ficar muito mal.
já está cá em casa e à mão -disse Hammond, levantando-se para ir
acordar Lucrécia Bórgia e dar-lhe as instruções necessárias para a
preparação do filho, para serviço do patrão.
-Claro, é preciso que o negro se enrole em volta dos seus pés e tem
que carregar bem, para fazer passar o reumatismo pelas plantas dos
pés -aconselhou Brownlee, com ar experiente.

Maxwell esfregou os joelhos e massageou uma mão com a outra. A
dor diminuía de vez em quando, mas nunca saía totalmente das
articulações. Estava tão habituado à sua presença que, quando a dor
era menor, nem a notava, até que uma guinada súbita percorresse as
diversas partes do corpo, o que o obrigava a dominar-se para não
gritar.
-0 pior é para o Hammond-lamentou-se. -É novo, demasiado novo
para carregar toda a plantação sobre os ombros. Não posso queixar-
me da maneira como o faz. Faz tudo muito bem; mas aos dezoito
anos eu andava por aí, levava uma vida de pândega e fazia toda a
série de asneiras.
-É um rapaz esperto e com estudos. Não lhe faz mal estar um
pouco preso -aventurou Brownlee. -Eu nunca andei por aí. E nunca
me fez mal.
-Nunca teve estudos, propriamente. A mãe ensinou-lhe a ler, e eu
tentei continuar, depois de ela morrer. Ela sabia ler muito bem,
melhor do que eu. Depois mandei-o para o Instituto de Jackson,
durante um período, há três ou quatro anos, mas não suportava têlo
longe de mim. Não o deixei voltar. Tinha sempre medo que lhe


acontecesse alguma coisa, desde que aquele pónei castrado, em que
tive a estupidez de o montar, o atirou ao chão e lhe deu cabo do
joelho. Não se pode confiar num cavalo castrado; só quero cavalos
inteiros ou então nenhum. Os estudos fazem muita falta a um rapaz.
Precisa deles. Cada vez mais, à medida que o tempo passa, mais do
que no meu tempo.
-E o juízo que conta, não os estudos -consolou Brownlee. -E
Hammond tem juízo.
-Agarrei-me a ele, daquela vez e continuo a agarrar-me. Além da
plantação e duzentos negros, tem-me a mim e ao meu reumatismo
em cima dos ombros. Jovem como é, penso se não estaria melhor se
eu morresse. Claro, se eu não melhorar das minhas dores, não duro
muito, e gostava de o ver casado antes de morrer; claro, com uma
jovem simpática, de boas famílias. Quero vê-lo! Quero vê-lo fazer
outro rapaz para tomar conta de Falconhurst quando Ham tiver
reumatismo ou qualquer outra coisa, e para a fazer passar ao longo
das gerações. Claro, Falconhurst é uma plantação de algodão; mas
quem precisa do algodão, com os negros a aumentar cada vez mais?
-A menos que os abolicionistas do Norte libertem todos os negros interpôs
Brownlee, num tom simultaneamente trocista e céptico.
-Não passam duns inúteis, a interferir nos negócios dos outros. A
escravatura foi ordenada por Deus, por Deus, e eles nada podem
fazer, além de falar e arranjar problemas entre os territórios da
libertação, entre o Sul e o Norte. Não compreendem que são
precisos negros para cultivar algodão e que é preciso o algodão para
as fiações do Norte? Querem abolir os seus próprios empregos e os
seus próprios lucros?
Maxwell pôs-se de pé, na excitação da sua própria eloquência.
-Seja como for, são perigosos -disse Brownlee. -Repare nesses
Quakers e nesse Garrison e no jornal que começou a imprimir no
ano passado, aquele Libertador, como ele lhe chama. Viu alguns
desses jornais?
-Nem penso vê-los! Só o que leio sobre eles nos Anúncios de Nova


Orleães já me põe doente. Que ninguém traga para Falconhurst um
desses Libertadores; não são decentes, não prestam para limpar um
preto com eles.
-Seja como for, é melhor não deixar os negros verem-nos. Mete-lhes
ideias na cabeça -avisou Brownlee.
-Os meus negros não sabem ler. Foi a melhor lei que já se fez, a que
proíbe os negros de aprender a ler.
-Alguns sabem, apesar da lei -disse Brownlee.
-E podem sentir vontade de lutar, também. Se os negros não
souberem ler, não se revoltam. Mal aquele Garrison tinha publicado

o tal Libertador há seis meses, deu-se, no ano passado, aquela
revolta dos negros na Virgínia. Não sei se conseguiram apanhar
aquele negro, Nat Turner.
-Apanharam-no, sim. Não sabia? Apanharam-no e enforcaram-no,
na altura da colheira.
-Enforcaram-no? -Maxwell sentia-se incrédulo.
-Enforcaram-no.
-Só o enforcaram. Não o queimaram nem nada, depois de ter morto
todos aqueles brancos? Deviam tê-lo queimado. Deviam fazer dele
um exemplo.
-Deviam ter queimado aquele Clarrison no mesmo poste e largado
fogo aos Libertadores -concordou Brownlee. -Garrison é que levou
o negro àquilo. Por toda a costa, as pessoas ainda falam de Nat
Turner. Receiam mais revoltas. Em toda a Virgínia e nas Carolinas, e
especialmente na Geórgia.
-Não sabem como tratar os negros. Tratem-nos bem, dêem-lhes de
comer, não os obriguem a trabalhar de mais, e eles não se revoltam.
Os donos são muito gananciosos a arrancar-lhes trabalho. Um negro
reage ao bom tratamento melhor que um cão. Eu não tenho
problemas com os meus, e Ham também não.
Hammond entrou na sala de jantar, trazendo, com a mão sobre o
ombro, um dos gémeos de Lucrécia Bórgia. 0 rapaz tinha sido


levantado da cama, banhado e mergulhado na solução de
permanganato de potássio, mas ainda não acordara totalmente.
Estava inteiramente despido e parecia não se preocupar com o
motivo por que fora acordado ou com a sorte que lhe destinavam.
Tinha confiança em Hammond e não receava que lhe fizessem mal.
-Aqui tem o seu cão mexicano -disse Ham ao pai. -Usei aquele pó
vermelho e nem vestígios de cheiro; cheira como um branco.
-Anda cá, rapaz. Senta-te e bebe o teu toddy, Ham, antes que
arrefeça.
-Maxwell cheirou diversas áreas do rapaz e declarou-se satisfeito. Deve
ser um remédio forte para acabar assim com o cheiro dos
pretos. Cheire-o, senhor Brownlee -e empurrou a criança para o
negreiro.

Brownlee, por sua vez, nunca mais parava de cheirar o rapaz
tocando-lhe e agarrando-lhe, dando-lhe palmadinhas e não o
largando, como se duvidasse da eficácia do seu remédio.
Finalmente, Brownlee mostrou-se também convencido, mas
relutante em entregar o negrinho. Os Maxwell mantinham-se
insensíveis ao comportamento de Brownlee para com a criança, até
que, julgando que o rapaz se demorava de propósito e não
reparando que era o negreiro que estava a agarrá-lo, Hammond
mandou sentar o garoto.
As cadeiras à volta da lareira estavam ocupadas e o rapaz foi sentar-
se numa ao fundo da sala, subindo cuidadosamente para ela sem
saber o que esperavam dele.
-Meg, que maneiras são essas? Não te deves sentar numa cadeira! disse
Hammond severamente.
0 rapaz pôs-se imediatamente de pé.
-Eu não é Meg; eu é Alph.
-És Meg quando eu te chamar Meg. Sabes a quem me dirijo. És um
negro, e os negros sentam-se no chão, em casa dos brancos.


A criança, arrependida, deslizou para o chão. Abriu a boca para se
desculpar pelo motivo de nunca ter estado naquela sala antes e não
conhecer as regras, depois pensou melhor, em face da disposição do
patrão mais novo e mordeu a língua.
Hammond percebeu que a criança não o fizera por falta de respeito
e mudou de tom.
-Vem para aqui, que está mais quente -meio ordenou, meio
convidou
-aí, ao lado da lareira.
0 rapaz obedeceu, acocorando-se, como um sapo, confortável e
tranquilo. Fez um esforço para escutar a conversa dos brancos mas
não conseguia manter os olhos abertos. 0 que ouvia não tinha
interesse para ele, nem o compreendia. Pensou apenas no que
beberiam os patrões, que cheirava tão bem. Finalmente, deitou-se de
lado, enrolou-se e adormeceu ao calor. Os Maxwell ignoraram a sua
presença, mas as suas formas arredondadas eram acariciadas pelos
olhares lúbricos dos olhos pequenos, deslavados e porcinos de
Brownlee.
-0 rapaz adormeceu -observou.
-Sim, mais um toddy e vamos todos para a cama -disse Maxwell. Estou
ansioso por me meter na cama, com os pés contra a barriga
dele; estou desejoso de experimentar -e chamou Mem.
Merririon tinha andado toda a noite para um lado e para o outro, a
espertar a lareira, a servir bebidas, a substituir as velas. Diligente e
alerta, de nada se esqueceu. Queria demonstrar que o castigo
prometido para o dia seguinte era desnecessário. já imaginava a dor
nas nádegas e pensava no desprezo que os outros negros sentiriam
por ele, no rebaixamento da posição em que se entronizara perante
eles. A sua vergonha seria tão dolorosa como as pancadas recebidas.
-Pulverizaste a noz de betel como te disse? -perguntou Maxwe11.
-Sim, sio, patrão; sim, siô, fez isso -respondeu Mem, e tomou nota
mentalmente de que tinha de ir fazé-1o antes de ir para a cama.


Admitir que se esquecera do encargo seria acrescentar mais um
ponto a sua acusação.
-Acha que eu devia ir à casa dos doentes para ir ver como está a
Pérola Grande, antes de me deitar -perguntou Hammond ao pai.
-Deixa estar a Pérola Grande. Tu estás cansado, Ham. Está frio lá
fora.
Vai mas é dormir e deixa-te de te ralar 'com os negros. Não és a
mãe deles. Não precisas de os amimar e de tratá-los como fazes.
Estão bem. Deixa-os em paz.
-Seja como for, sou responsável por eles. Gosto muito dos nossos
negros e tenho orgulho neles. Qualquer deles é são e escorreito. E
quanto a Pérola Grande, tinha multa pena de a perder.
-Claro, um negro bom é uma grande perda, hoje em dia e com os
preços que se fazem. Mas porque vale essa Pérola mais que os
outros?
-Porque não mostras a Pérola Grande ao senhor Brownlee, pai?
-Em primeiro lugar, não está à venda. Em segundo lugar, faz os
outros pretos parecerem insignificantes. Em terceiro lugar, está a
chover e não quero apanhar vento e chuva.
É a vossa negra de categoria? Mandinga, mandinga pura -explicou
Maxwell. -já não se encontram muitos mandingos puros, hoje em
dia. Todos cruzados com angolanos e wydahs, e outras tribos, e até
com sangue branco.
-Eu gosto delas pretas -declarou Brownlee.
-Eu? Eu gosto delas enérgicas, seja qual for a cor. Claro, está certo
os brancos andarem atrás das brancas; é uma protecção para as
brancas, sempre disse. Mas todos querem negras claras; os
proprietários brancos pequenos, frágeis e fracos passam o tempo a
tentar arranjar belos mulatos que nem sempre se tornam em
trabalhadores fortes para o algodão. Todos eles sonham arranjar
mulatas claras e bonitas que possam vender jovens por um preço
monstro. Se tivessem um espelho, viam logo que só podiam
engendrar animaizinhos feios, de cabelo encarapinhado. Claro que


não me refiro a proprietários como o Ham, que é forte, bonito e
vigoroso, mas o Ham não anda pelas cabanas a cobrir todas as
fêmas para arranjar crias de cor clara. Não senhor.
Hammond sentia-se embaraçado com o aspecto pessoal do desvio
da conversa do pai. Tentou voltar à origem
-Estava a falar dos Mandingos, pai -começou ele.
-Pois estava, pois estava. Estava a falar de Pérola Grande. Mas volto
atrás para dizer -prosseguiu MaxwelI, recusando a interrupção que
o Ham só fez dois ou três bebés, ao todo, mas são três machos.
São jeitosos, de cor clara, é certo, mas todos machos. 0 mais velho
(anda a gatinhar, agora) é o mulatínho mais saudável e mais bonito
que eu já vi. Claro, recebe comida extra, ovos, e melaço com rum e
isso tudo.
-0 Ham parece ser uma viga -disse Brownlee.
-Não contava que aquele primeiro desse nada, porque o Hammond
só tinha quatorze anos quando o fez. Nasceu no dia a seguir àquele
em que ele fez quinze anos. Sempre muito orgulhoso; achava que já
era um homem.
-Ficou furioso, naturalmente, quando soube que ele andava atrás
das suas mulheres corri essa idade -disse Brownlee. -Claro, eu sei
que todos fazem isso, mas nada resulta.
-Não era minha. Era dele. Deixou-lha a mãe. Começou a servi1o
quando ele tinha uns onze ou doze anos, quando largou a ama.
-Admira que não se tenha arruinado.
-Vale mais um rapaz andar com uma rapariga esperta e limpa, do
que deixá-lo andar por aí ansioso por isso. Eu teria sido mais forte (e
mais esperto também) se o meu velho me tivesse dado uma
rapariga antes dos dezasseis ou dezassete anos.
-Dezassete? Eu tinha dezanove e, mesmo assim, não era minha nem
do meu pai. Pertencia ao homem para quem o meu pai trabalhava
como capataz, era uma mestiça feia, pelo menos; recordando-me
dela, penso que tinha sangue choctaw. Claro que eu arranjei
algumas antes às escondidas -admitiu Brownlee. -Nas leiras, onde


os trabalhadores passavam o dia, sempre que podia dar uma
escapadela.
Maxwell mostrou pouco interesse pela juventude do negreiro.
Brownlee não era forte recomendação para a continência na
adolescência.
-Naqueles dias, os pais não sabiam como o desejo de ter uma
mulher pode enfezar os rapazes ou enlouquecê-los. -Presumia-se
que os desvios de Brownlee se deviam à negligência do pai. -Talvez

o motivo porque os rapazes do Norte são tão enfezados e estúpidos
seja só terem raparigas brancas com quem se possam meter.
0 negociante estava mais interessado no copo de uísque que
Agamémnon lhe trazia do que nos comentários de Maxwell. 0 andar
de Mem era pouco seguro, os seus olhos tinham um brilho vítreo. A
sua mão tremia quando entregou as bebidas, embora se abstivesse
de as entornar.
-Anda cá, meu malandro. Ajoelha-te aqui e deixa-me cheirar-te! ordenou
Maxwell.
Merruion encontrou refúgio nas lágrimas.
-Eu não bebeu nada. Eu não fez isso, patrão, siô. Eu não fez isso. Eu
só provou para ver se tava quente. Só provou siô.
-Hammond, cheira-me o hálito desse rapaz. Merimon ajoelhou-se
junto de Maxwell e depois avançou, de joelhos, até Hammond, que

o cheirou superficialmente.
-Isso significa mais vinte e cinco palmatoadas, amanhã. -
Hammond dirigia-se ao pai, ignorando o preto. -E esta noite uma
boa dose de ipecacuanha. Fá-lo vomitar o uísque todo.
-Não repete, siô, não -pediu o negro sotto voce, não ousando falar
alto para não agravar a sentença, mas incapaz de ficar calado. -Eu
só provou.
Meirmon sabia que Hammond era inflexível, quando tinha uma
disposição tão concreta e objectiva; se o patrão o tivesse insultado e


ameaçado, poderia tê-lo amansado com o seu arrependimento,
Hammond nem se dignara dirigir-se-lhe. A sua resolução não era
temperada pela ira.
Quando Merrinon viu que Hammond não seria demovido pela
piedade, ergueu-se e saiu furtivamente da sala, mas já estava
totalmente sóbrio. 0 uísque que bebera para adormecer a previsão
do castigo do dia seguinte perdera o seu poder amortizador. Toda a
agilidade e prontidão que mostrara durante toda a noite para evitar

o desastre tinham ficado anuladas. A ipecacuanha era um castigo
que estava à altura do crime. Só de pensar nisso, sentia vómitos
antecipadamente. Saiu, da casa e vomitou. Sabia que o poderoso
eurético o voltaria do avesso e não tinha ilusões quanto à dose que
lhe seria destinada. Quando voltou para casa, após a sua excursão
no escuro, a pele clara de Merrinori. tomara um tom esverdeado.
Sentia-se doente do estômago e do coração.
-Como eu ia dizendo, acerca dos Mandingos-Maxwell retomou o
seu o seu monólogo, esquecendo a interrupção -, são muito
satisfatórios: poderosos, vendáveis, saudáveis. Não percebo como
essa Pérola Grande adoeceu.
-Como sabe que ela é mandinga pura? -inquiriu Brownlee.
-Basta olhar! Basta olhar! Não é preciso mais que olhar para ela
respondeu o dono. -Mas eu conheço a história dela, sei tudo sobre
ela. 0 velho coronel Wilson da Plantação Colgri, cerca de cinquenta
ou sessenta milhas mais acima, indo pela estrada, precisava de
alguns trabalhadores e foi a Charleston comprar uns. Claro, isto foi
no tempo em que o coronel era novo e podia andar a cavalo, antes
do senhor Tom Jefferson os impedir de carregarem aqueles brutos.
Estavam a descarregar uma carga inteira de mandingos puros,
duzentos ou trezentos brutos enormes e dóceis, e ele ficou com
quatro ou cinco. 0 coronel Wilson conhece um bom negro. Não
custavam muito, nessa altura, quinhentos, seiscentos, setecentos
cada. Dois deles, um macho grande e uma fêmea corpulenta, eram a
coisa mais bonita que eu já vi. A fêmea devia ter uns dezanove

palmos de altura, ou perto disso, e o macho era mais alto; não eram
só altos, eram corpulentos, não gordos, mas esbeltos, duros como
mogno.
-Claro, o coronel Wilson acasalou-os e nasceu uma rapariga, uma
fêmea grande e forte, que nasceu com mais de dezasseis libras; mas
por essa altura apareceu a febre-amarela em Coigri e a fêmea mais
velha morreu, assim como os outros mandingos, excepto o macho
grande e a bebé .
-Pouca sorte -disse Brownlee.
-Terrível, terrível. Mas a bebé cresceu; e quando já era grande e
capaz de procriar, o coronel Wilson não tinha qualquer mandingo,
excepto o pai, para a engravidar, e queria manter puro o sangue
mandingo. Então que fez ele? Acasalou a fêmea com o pai.
-Não podia fazer de outra maneira? -perguntou Brownlee. -Isso é
horrível; é incesto; é ir contra a Bíblia. Conheci um branco em
Tenessee, uma vez, que se meteu com a própria filha negra, e ela
teve uma fêmea que era muito enfezada e só chorava, nunca cresceu
e era fraca da cabeça. Só ficava deitada a babar-se. Quando tinha
uns três anos, o velho, vendo que nunca valeria nada, teve pena
dela e deu-lhe uma pancada na cabeça. 0 seu coronel Wilson devia
ter mais juízo.
-Mas não teve. A fêmea deu à luz o miúdo mais vigoroso que já se
viu. Está muito crescido, agora, mas o coronel não quer vendê-lo.
Vai guardá-lo para procriar.
-Custa a crer! -disse Brownlee.
-Vendo que se tinha saído tão bem da primeira vez, o coronel
Wilson acasalou outra vez o pai com a filha e desta vez nasceu uma
rapariga, Pérola Grande. Comprei-a, a ela e à Lucy (é a mãe), ao
coronel, quando Pérola Grande ainda mamava.
-É por isso que sei que ela é mandinga pura. Ela e a Lucy, e os dois
do coronel Wilson, o macho velho e o novo, são os únicos mandigos
puros que conheço. Belos negros, todos eles.


-É muito perigoso, penso eu -disse Brownlee. -Eu não me
arriscava. Que vai fazer com a sua fêmea? Não tem mandingos para
a acasalar.
-Quando Hammond tiver tempo, gostava que ele fosse à Plantação
Colgri e pedisse ao coronel que lhe emprestasse o macho velho por
um mês ou dois. Queria acasalar a Pérola Grande outra vez com o
pai e avô. 0 velho tem sessenta ou sessenta e cinco anos, talvez
setenta; mas julgo que ainda tem semente.
-Não se arrisque, senhor Maxwe11. Não se arrisque. Isso é horrível.
0 horror de Brownlee só confirmou a decisão de Maxwell.
-Resulta bem nos cavalos, nas vacas, nos porcos, nos cães, etc. Não
percebo porque não há-de resultar com os pretos. Claro que é
preciso ter bom gado; não resulta com fracotes.
-Está a ir longe na procriação, senhor Maxwell. Pensava que sabia
mais de pretos.
-0 Ham acha bem. Não achas Ham? Se ele estiver de acordo, vamos
experimentar.
Hammond estava cansado, quiescente, mal o ouvia.
-Pai, fala nisso há três anos. julgava que já estava decidido eu ir a
Colgri buscar o macho. Dentro de dias hei-de ter tempo. Não há
nada a perder, excepto o tempo de Pérola Grande, se a cria nascer
pequena ou coisa parecida.
0 Seth Thomas, que fazia tiquetaque sobre a lareira, tossiu e bateu
oito rápidas badaladas, como se a sua função fosse desagradável e
desejasse despachá-la o mais rapidamente possível.
-Aquele maldito relógio -observou Maxwell. -Dá as horas certas,
quase; mas está atrasado uma hora nas badaladas. Sei arranjá-lo;
logo que tenha tempo.
Hammond espreguiçou-se.
-Acho que é altura de subirmos. Mais ou menos nove, não e, pai.
-Passa um quarto, mais ou menos. Está atrasado, também. Espera
até ele me arranjar um toddy e podes levar o Meirmon. Depois ele
pode ocupar-se do senhor Brownlee e em seguida de mim.


Meirmon trouxe as bebidas para Maxwell e Brownlee, conforme
mandaram.
A sua presença recordou a Maxwell o seu mau comportamento.
Avisou Hammond:
-Não te esqueças da ipecacuanha, filho?
-Não, pai. Eu preparo-a, mal vá para cima. Hammond bocejou e
levantou-se, relutante em abandonar a lareira quente e ir para o
vestíbulo frio. Aplicou um beijo negligente na face do pai, desejou
delicadamente boa-noite e sonhos agradáveis a Brownlee, e notando

o alvo convidativo que contribuia o rabito saliente de Alpha,
baixou-se e deu-lhe uma sonora palmada. Os músculos de Alpha
estavam constantemente doridos por causa do espancamento diário
de Lucrécia Bórgia, e a palmada, destinada a ser uma carícia, fez-lhe
doer. 0 rapaz, mal acordado, gritou, olhou em volta e esfregou as
nádegas; depois adormeceu de novo.
-Não se esqueça da sua botija para os pés; está uma noite fria, pai disse
Ham, a brincar.
-Dite já subiu? -perguntou Hammond a Meirmon.
-Dite subiu cedo -respondeu Metrinon.
-V em, então -disse Hammond, e saiu a coxear, seguido pelo negro
apreensivo.
Maxwell ouvia, com desgosto, os passos desiguais do filho que
subia as escadas, e o seu andar irregular no andar superior.
Censurou-se novamente por ter confiado o seu herdeiro a um
animal castrado, de temperamento inseguro.
-Quem é? -perguntou Brownlee.
0 espírito de Maxwell ainda estava no acidente passado havia tanto
tempo.
-Quem é quem?
-Quem é ela? Aquela Dite?
-Ah, essa. É a fêmea de quarto do Hammond.
-Bonita, calculo -disse o negreiro, dando voz à sua imaginação.

É mesmo. Mestiça, acho eu. Clara, hem? E jovem? Quatorze, talvez
quinze anos. Porquê? Estava só a pensar, só a pensar no belo lote de
negros que têm aqui. Por todo o lado, e não os vendem.

Capítulo quarto

Quando Hammond entrou no quarto, a sua concubina levantou-se
para o receber.
Tinha-se despido e cobria-se apenas com uma colcha que tinha
pendurada sobre os ombros.
-Vens tarde, siô -disse, em tom casual.
-sim, um pouco. Pérola Grande está doente. Porque não te deitaste?
-Esperei pra sabê se quer eu na cama ou na esteira.
-No chão. Estou cansado, esta noite -disse Hammond, deixando-se
cair numa cadeira em frente do fogo e entregando-se aos cuidados
de Mem. Depois reconsiderou. Não, mete-te na cama e aquece-me
os lençóis até eu me despir e depois podes ir para a esteira.
Afrodite soltou a colcha e ficou nua, enquanto afastava as cobertas,
ajeitava o travesseiro e se estendia na cama de penas. Merrinon
despiu as roupas a Hammond, esperando que o patrão se tivesse
esquecido da ipecacuanha. Enquanto Ham se colocou em frente da
lareira, voltando-se e coçando as partes, Afrodite manteve-se
estendida, olhando para ele com afecto servil.
0 corpo de Hammond, com excepção de algumas zonas nas costas e
em volta do ventre, estava coberto de pêlos louros, pouco grossos,
mas de comprimento considerável. De pé, entre Dite e o fogo,
voltando-se, como em cozedura lenta, parecia usar uma couraça
dourada, como Zeus vindo ter com Danae, dentro de uma nuvem


dourada, se Dite conhecesse a lenda. Naquela posição, não se
notava a rigidez do joelho. Os seus ombros não eram largos, mas
duros e fortes e, cobertos de pêlos, pareciam mais largos do que
eram na realidade. 0 seu corpo era mais longo que o normal e as
pernas um pouco curvas. As longas horas na sela tinham
desenvolvido os músculos das coxas, que inchavam ou se
alongavam quando mudava de posição perante o fogo.
-Traz-me uma vasilha grande, aquela garrafa grande, amarela, que
está na prateleira, e um jarro de água quente. Vamos divertir-nos.
Mem sabia que o seu protesto seria em vão.
-E mexe-te -acrescentou Ham, enquanto Mem partia para cumprir
a ordem.
Mem fez o que lhe diziam e a sua garganta movia-se, enquanto via
Ham deitar a dose enorme da garrafa para a vasilha, acrescentar
água e mexer a mistura com o dedo, que limpou nos cabelos da
coxa. Colocou a vasilha na lareira, encostando a asa ao lado de fora.
-Vamos mantê-la quente -disse, dando uma volta final em frente
da lareira. Custava-lhe deixar o calor e meter-se na cama.

Finalmente, atravessou o quarto, deixou-se cair sobre um joelho,
estendendo atrás de si a perna rígida, inclinou a cabeça e repetiu
rapidamente a sua simples oração:
-Agora que me vou deitar, peço ao Senhor para a minha alma
guardar. Se eu morrer antes de acordar, peço ao Senhor para a
minha alma levar.
Era apenas uma fórmula sem sentido, murmurada à pressa sem a
noção do que era dormir ou morrer, ou levar almas. Hesitou, como
se se lembrasse e acrescentou:
-Bom Deus, abençoa a mãe que está no céu; abençoa o meu pai e
livra-o do reumatismo para Alph; abençoa este teu servo
Hammond, abençoa Pérola Grande e dá-lhe as melhoras; abençoa
Dite; abençoa Lucrécia Bórgia e os gêmeos ...


-Mem, patrão, siô, Merrmon. Pede a Deus pra abençoá Mermion.
Por favô, patrão; por favô, siô -o negro interrompeu a sua oração,
pensando que as petições dos brancos mereciam mais rápida
atenção no Trono da Graça do que as dos pretos.
0 patrão tranquilizou-o e pediu por ele.
-Abençoa Merrinon e ensina-lhe a não roubar e torna-o um bom
negro depois do castigo de amanhã; e, meu Deus, abençoa
Falconhurst e todos os negros da plantação.
Era pedir pouco. Falconhurst era um lugar bom e o seu pessoal era
bom também. Deus devia ficar lisonjeado por ter invocado a Sua
benção para eles.
Dite saiu da cama e tomou lugar na esteira ao lado, e Hammond
trepou para a cama alta e mergulhou entre os lençóis que o seu
corpo aquecera.
-Deixa a vela, rapaz. Vais voltar cá para beber aquela mistela, logo
que trates do senhor Brownlee e do patrão. Se eu estiver a dormir,
tens que me acordar.
Sim, siô, patrão -disse Mem; depois aventurou-se: -Eu pode leva a
vasilha e bebé aquela coisa antes de deitá.
-Voltas aqui, como te disse. Se a bebes já começas a vomitar e não
podes atender os senhores. Enrola bem o gêmeo em volta dos pés
do meu pai.
Mem escapou-se sem prometer coisa alguma. Ham sabia que ele
voltaria e Mem também o sabia, mas não tinha prometido nada.
Hammond ficou deitado a olhar para o fogo. 0 seu dia não acabara
antes de fazer o seu dever para com Mermion e não tencionava
dormir sem o negro chegar.
-Patrão, siô, tu tá acordado? -perguntou Dite, tentativamente,
erguendo-se na esteira para colocar a mão sobre a cama.
-Que queres Dite?
-Patrão, eu tá grávida. Adiara a informação, sabendo que a
manutenção da sua actual sinecura seria limitada pelo avanço da
gravidez. Tinha conseguido a sua posição por outra ter ficado


grávida, e ia perdê-la por engravidar. Nunca seria privada da
distinção de ter partilhado a cama do seu senhor, mesmo muito
tempo depois. Ser suplantada por causa da sua gravidez não seria
um súbito aviltamento. Ser mãe de um filho do patrão causaria a
inveja das outras e a inveja cria uma posição.


Contudo, era improvável que as actuais relações, uma vez
interrompidas, voltassem a começar. Poderia fingir que pensava
regressar depois de a criança poder ser desmamada, mas iria
engordar, os selos ficariam pendentes, e Dite estaria velha. Numa
plantação com as dimensões de Falconhurst havia uma sucessão de
raparigas que amadureciam a intervalos frequentes, o que tornava
impossível que uma fêmea afastada uma vez, voltasse ao leito do
patrão.
Hammond dormitava e foi lento a responder.
-Estava à espera disso. Há quanto tempo?
-Há dois meses. Não sabe ao certo.
-Estava na esperança que isso não sucedesse até aquela rapariga da
Dido crescer um pouco mais. Ela é muito bonita.
-Aquela nêga Tense? Dite conhecia já a sua sucessora.
-Sim, é esse o nome, ou qualquer coisa parecida. Hortense, julgo eu.
-Aquela magrizela preguiçosa, aquela coisa escura? Não presta p'ra
ti, patrão.
-Sim, É mais escura que tu. Tu és quase branca. Mas a cor dela é
bastante clara. É muito simpática -argumentou ele.
-Quase não tem carne nela.
-Está a engordar. Há dias olhei para ela. já tem boas ancas e está a
ganhar um peito jeitoso. Claro, os úberes ainda não cresceram tudo.
Por isso é que eu queria que esperasses mais algum tempo, mais
seis meses.
-Não pensa que Tensa tá virgem, pois não? Dite atacava ... com o
seu desespero.
-Acho que sim. A Dido é muito moralista.



-Dido é moralista, é. Mas com aquele irmão grande dela a dormir
na cabana, a Tense já não tá virgem, caiu a tampa -declarou Dite,
cheia de esperanças. -Eu era virgem, não era, patrão?
-Claro que sim. Claro que sim. Tu não eras mais velha do que
Tense, nessa altura. Ficaste irritada e tiveste medo de mim e tive
que te dar uma bofetada para ficares quieta. Eras muito cómica.
Lembras-te?
Dite lembrava-se muito bem daquela primeira noite aterrorizadora
mas guardada corno um tesouro, lembrava-se da rudeza de
Hammond e da sua ternura, da sua própria fuga e submissão
forçada. Bem poderia rir-se agora da experiência, se ela não
estivesse prestes a terminar.
Hammond tornou nota mentalmente para avisar Dido quanto à
protecção de Tense e para mandar o macho dormir para o estábulo.
Ficou quieto durante algum tempo. Mem já tivera tempo suficiente
para meter Brownlee e Maxwell na cama. Pensou se a recusa
teimosa de Mem iria ao ponto de não voltar para beber a mistura.
Ham estava resolvido a castigar o negro tanto quanto possível, de
modo a não destruir o seu valor; maior desobediência não agravaria
o castigo. Ham pensava se Mem seria suficientemente astuto para o
compreender.
0 facto é que o trabalho de meter os dois homens na cama tinha
custado pouco. Brownlee tinha sido conduzido a um quarto sem
lareira. Ficava no topo, sob a viga mestra, e estava frio. Estava
habituado, porém, ao frio que o decidia a tirar apenas as roupas
exteriores e o obrigava a enfiar-se na cama vestindo a camisola
interior, as ceroulas e as meias; nenhuma daquelas peças tinha sido
lavada ou mesmo despida desde que ele deixara as Carolinas.

A vocação de Brownlee fazia-c, indevidamente sensível a qualquer
tratamento que considerasse como rebaixamento. Assim interpretou
a ausência de calor no quarto que lhe fora destinado e
especialmente a ausência de uma mulher para o aquecer.


-Meirmon, traz-me uma mulher, para me dar prazer esta noite.
Esqueces-te disso, também?
-Não, siô, patrão Brownlee. 0 meu patrão não disse nada sobre uma
mulhé pró patrão.
-Digo-te eu. Vai-me buscar uma mulher nova, limpa, de pele clara,
e amanhã de manhã eu tento livrar-te do castigo. Eu digo ao senhor
Hammond que tu não és um negro mau, afinal. Digo-lhe que o pai
está desaparafusado ...
-Não, siô, não diga isso ao patrão Ham. Fica furioso. Ele sabe que
patrão velho não é desaparafusado. Ele acha que patrão velho tem
sempre razão.
-Vai buscar a rapariga e deixa o resto comigo.
-Sim, siô; sim, siô, patrão Brownlee. Eu vai, siô. Merrmon não sabia
se devia manter a sua promessa, mas não fazia mal em fazê-la.
Sentia-se dividido entre o seu desejo de uma mediação para a sua
zanga com os patrões e o medo de agir sem autorização. 0 suborno
que o negreiro oferecia era tentador, mas ele duvidava da vontade e
da capacidade de Brownlee para afastar Hammond das suas ideias.


0 dilema de Mem punha-lhe muitas perguntas, e a resposta certa
poderia evitar o seu castigo ou, pelo menos, mitigar a sua
severidade. Mem não estava habituado a tomar decisões; as
decisões eram tomadas por ele. Ponderou as alternativas enquanto
metia o velho patrão na cama, que era mera rotina, com excepção de
ajeitar o rapaz ao conforto do velho e colocar os cobertores por
forma que o garoto pudesse respirar. 0 torpor de Alph era tão forte
que não alterou a posição em que era mais ajeitado do que colocado.
Podiam-lhe ter dado um nó que não daria por isso.


MaxwelI, entorpecido pelos toddies e sonolento por se deitar
invulgarmente tarde, foi quase tão complacente corno urna criança.
Estendeu-se na cama enquanto Meirmon lhe retirava as roupas, e o



silêncio era apenas quebrado por urna ou outra imprecação quando
Mem teve dificuldades em puxar-lhe a camisa pela cabeça.
A luz da lareira enchia a sala e a vela pouca falta fazia quando
Meitmon a levou e fechou a porta.
Faltava apenas a Mem ir ao quarto de Hammond e beber aquela
horrível mistela que lá o aguardava. Só de pensar nisso, estremecia
de náusea.
Conhecia o violento mal-estar que causava quando já nada havia no
estômago para vomitar. Levaria pelo menos uma noite, a levantar-
se e a deitar-se, a tentar vomitar e a desejar morrer.


Meirmon hesitou antes de entrar no quarto de Hammond, receando
a bebida que o aguardava. Hammond parecia estar na melhor
disposição. Até se riu, quando lhe ordenou.
-Traz-me aquela vasilha e aquela garrafa. Não querias voltar para
beber a dose que preparei, eh? Vamos fazê-la mais forte -despejou
metade do conteúdo da garrafa na mistura já potente, e entregou-o
a Mem.
-Aquele siô branco diz pra eu arranjá uma mulhé. Que mulhé dou a
ele? Tense? Tenho qu'ir buscá ela antes que siô branco fique furioso
e vá dormi.
Mem tentou distrair Hammond do projecto em vista.
-Deixa o cavalheiro branco em paz e deixa Tense sossegada,
ouviste? Aquele negreiro não precisa de mulher. Não quero daquele
sangue sujo de negreiro misturado com o das minhas negras.
-Mas ele diz ...
-E eu digo-te que bebas essa mistura e te vás embora. E lembra-te
de acender as lareiras de manhã. Há muito que fazer amanhã.
Agora bebe isso.


A calma de Ham, que Meirmon tomara por complacência, era a
calma da sua ira. Estava farto das fugas e das desobediências do
rapaz. Ria-se antevendo a satisfação que iria obter ao forçar Mem a



beber a ipecacuanha. A disputa sobre a rapariga para Brownlee
prejudicava Mem.
A mão de Memnon tremia quando levantou a vasilha e a levou à
boca. Provou a mistura nauseante.
-Bebe tudo. Bebe tudo depressa, sem deixar uma gota. Queres
começar a vomitar enquanto estás a beber, para eu te dar outra
dose?
Meirmon bebeu.
-Por favô, patrão Ham, slô, chega. Não pode beber mais.
-Até ao fim. E bebe depressa antes que comeces a vomitar.
Meirmon tentou de novo -e engoliu tudo. Sentiu-se enjoado e saiu a
correr da sala. Logo que desceu a escada, começou a sentir vómitos
e vomitou por cima da carpeta da escada. Quando chegou ao fim,
ainda a vomitar, caiu de cabeça para o chão, com o muco a escorrer-
lhe da boca. Começou a sentir suores frios. Ficou ali, a vomitar, sem
forças para se levantar. Estava preocupado com a sujidade que
fizera e que se sentia incapaz de limpar.
Pensou na morte. Morrer sem estar nas graças do patrão, levava-o
direito ao inferno. Imaginou as chamas, sentiu o cheiro do enxofre,
sentiu as forquilhas. Contudo o inferno não podia ser pior do que
aquela náusea persistente. Desejava morrer, mesmo aterrorizado
com a tortura eterna. Ficou ali, sobre o seu próprio vómito,
demasiado exausto para se voltar. Vomitou até cair num sono
perturbado de que só acordava para voltar a vomitar. já nada saía.
Sabia que seria castigado por ter sujado as carpetas da escada, além
do outro castigo que o aguardava. Seria simplesmente um castigo
mais forte e mais longo? Se ao menos conseguisse ganhar forças
para se levantar e limpar o vestíbulo. Decidiu ficar quieto para não
acordar os brancos que dormiam. Limparia tudo e os patrões nem
saberiam. Tentou levantar-se, mas não conseguiu. Só conseguia
vomitar.


Hammond tencionava fazer Merruion ficar doente. Curá-lo-la de
roubar uísque. Não tencionava envenená-lo. 0 aditamento final que
fizera, por vingança pelo atraso do rapaz, quase lhe custava uma
propriedade valiosa.
Lucrécia Bórgia levantou-se à hora habitual, um pouco antes do
amanhecer, para preparar o pequeno-almoço. Fazia parte das
funções de Memnon acender o fogo na cozinha, mas ele não vinha e
Lucrécia Bórgia acendeu-o ela própria. Despiu Meg e deitando-o de
barriga para baixo, por cima das pernas, deu-lhe o castigo diário
com a palma aberta da sua mão poderosa. 0 castigo de Mem, que
uma sova diária aos gémeos se destinava a evitar no futuro deles,
entusiasmava-a a agir. Lucrécia Bórgia não confessava nem a si
própria o prazer íntimo que sentia ao ver os seus traseiros passarem
de castanho a rosa, e a futilidade dos seus pontapés, dentro do torno
em que os conservava. Era para o bem deles. Eram uns negrinhos
bem comportados e Lucrécia Bórgia queria torná-los impecáveis.
Alph, evidentemente, não estava disponível para o castigo antes do
pequeno-almoço que teria de ser adiado até estar livre do serviço do
seu amo.

Contudo, Merririon não chegava. Lucrécia Bórgia começou a sentir
que algo não estava bem e decidiu explorar a casa. Também não
havia lareira acesa na sala de estar! Devia estar a aquecer. Apanhou
uns gravetos e madeira da pilha que havia na passagem, preparou o
fogo e foi buscar uma brasa à cozinha para o acender. Pensando se
já haveria lareiras acesas nos quartos, começou a subir a escada para
ir ver e descobrir Meirmon a dormir sobre o próprio vómito, no
vestíbulo.
Estava muito fraco para conseguir explicar-lhe o que se passara. Ela
pô-lo de pé e, conduziu-o até à cozinha. 0 calor apenas piorou as
suas náuseas. Não sabendo que mais fazer, deitou um pouco de
uísque numa chávena -a última coisa que Mem desejava ver no
mundo. Tentou afastá-lo, quando ela lho deu. Lucrécia Bórgia


levou-lhe a chávena à boca e, no seu esforço para não o beber, ele
derramou-o sobre o casaco. Ficou pior, mais enjoado ainda com o
cheiro, e vomitou no chão da cozinha.
Lucrécia Bórgia desistiu, desesperada e enojada. Foi fazer o seu
trabalho, deixando-o na sua letargia. Tinha que fazer o trabalho de
Mem, além do seu.
Chamou o primeiro rapaz que encontrou e que sucedeu ser
Napoleão, e mandou-o limpar as escadas e o vestíbulo. Carregou
Meg com lenha e, pegando também numa dose maior de toros,
atravessou o vestíbulo e subiu as escadas, evitando pisar a sujidade
com os seus pés nus, para ir acender as lareiras em frente das quais
os amos se vestiriam com conforto. 0 Maxwell mais velhõ ainda
dormia, ressonando; mas a cabeça de Alph saía das cobertas, aos
pés da cama, e ele gabou-se orgulhosamente:
-Mãe, eu tem reumatismo. Doi muito, comó Patrão.
-Cala a boca e fica calado. Acordas o patrão e eu faz reumatismo a
ti de certeza -murmurou Lucrécia Bórgia mas a notícia de Alph era
a melhor que ouvira dizer nessa manhã. Alegrou-se com as
melhoras de Maxwell e ainda mais que um dos seus filhos tivesse
absorvido as suas dores. Nunca duvidou da afirmação de Alph.

Meg ficou ao lado da mãe enquanto ela descarregava a lenha e
acendia a lareira. Agarrou algumas brasas cobertas de cinzas e
soprou-as para acender a matéria de ignição. Um grande toro
separou-se da pilha de madeira que Meg tinha nos braços e caiu
com um ruído surdo sobre a lareira, magoando o ombro de Lucrécía
Bórgia na queda. 0 ruído incomodou Maxwell, que se moveu, mas
não acordou. 0 rapaz não esperou pelo castigo que estava certo de
receber para começar a chorar, e as lágrimas correram ao longo das
suas faces, misturando-se com as já secas do seu espancamento
anterior.
Quando chegaram ao vestíbulo, com a porta já fechada por trás
dela, Lucrécia Bórgia voltou-se para Meg.


-Olha pra mim nêgo -disse ela, e Meg levantou a cabeça. Ela deu
um passo atrás para poder estender o braço e esbofeteou-o na face
esquerda com tal força que ele quase se desequilibrou, com a sua
carga de lenha. Salvou-se de cair por causa da bofetada aplicada na
face direita, na altura precisa. Ele sabia que não valia a pena
protestar. Aliás, o impacto da poderosa mão aberta sobre a cara foi
tão grande que a dor não se tornou perceptível imediatamente. A
segunda bofetada actuara como contra-irritante da primeira. As
bochechas só lhe começaram a arder a valer quando seguiu a mãe
para o quarto de Hammond, do outro lado do vestíbulo.


Hammond estava acordado. Tinha dito a Merrmon para acender a
lareira cedo e o frio do quarto impedira-o de se levantar
imediatamente. Sentindo-se restaurado da fadiga da noite anterior,
acordara Dite e tinha-lhe dado permissão para vir para a sua cama.
Lucrécia Bõrgia, entrando no quarto, fingiu não ver as contorções
que se passavam por baixo das cobertas. Meg, contudo, enquanto a
mãe lhe tirava a lenha dos braços e preparava a lareira, não podia
impedir o olhar de se dirigir para a cama. Não era totalmente
inocente, tinha ouvido conversas licenciosas; sabia
aproximadamente o que o patrão estava a fazer. 0 seu interesse pelo
que se passava na cama fez Meg esquecer as bofetadas.
Quando Lucrécia Bórgia acabou de preparar a lareira, notou que as
cinzas estavam frias e mandou ir Meg ao quarto de Maxwell buscar
um tição. Este encontrou o irmão que saía do quarto a coxear e a
esfregar as articulações de uma mão com a outra. A inveja que Meg
sentiu pelo sofrimento de Alph fê-lo parar, esquecendo-se do recado
que tinha de fazer.


-A doença do patrão passou prá minha barriga -declarou Alph. Dói
muito e as mãos 'tão terríveis.
-Tás a fingir nêgo. Não dói nada, só tem medo de levá pancada.
julga que mãe não vai batê a ti porque tem reumatismo, seu



estúpido. A mãe tá danada, esta manhã! -avisou Meg e foi ao
quarto de MaxwelI, enquanto Alph descia lentamente as escadas,
exagerando o coxear.
Maxwell ignorou os movimentos de Meg junto da lareira até ele ter
acendido um pedaço de madeira e atravessado o quarto para sair;
nessa altura, o velho perguntou-lhe:
-Onde está Meirmon?
-Merimon tá doente -respondeu o rapaz, timidamente, esforçando-
se por sair.
-Esse negro não está doente. Está a ver se consegue escapar ao
castigo. Mas vai tê-lo na mesma. 0 negro não está doente -disse
Maxwell em voz alta, para si próprio.
-Sim, siô, patrão, siô. Meg teria concordado com qualquer outra
afirmação que o amo fizesse. Não tinha propriamente medo do
velho, mas sentia-se pouco à vontade. Nunca tinha estado nos
quartos antes e o que lhe parecia ser luxo espantava-o. A vida dos
brancos era tão complexa. Os brancos esforçavam-se mais para estar
confortáveis do que valia a pena.
-Leva esse tição. Depois volta cá e ajuda-me a calçar as botas ordenou
Maxwell e Meg sentiu-se aliviado por poder sair.


No quarto de Ham, Lucrécia Bórgia continuava a arranjar a lareira.
-Aquele nêgo tá cada vez pior. Vomitou por cima dos fato, sujou-se
todo-ouviu-a Meg dizer, rindo, a Ham, que, sem esperar pelo lume,
já saíra da cama.
-Porque demoraste tanto? Não vês que faz o patrão vestir-se sem
lareira? -censurou Lucécia Bórgia.
-Patrão velho diz pra eu ir lá e ajudá ele a calçá os botas.
-Então tem cuidado; cuidado, ouviu? E vê se és educado -avisou a
mãe.
Os olhos de Meg estavam cravados em Hammond. Tinha visto
muitos negros nus, mas nunca lhe ocorrera que os brancos tirassem
a roupa. Tinha partido do princípio de que os cavalheiros brancos



eram anjos sem corpo, mas agora via que tinham carne, uma bonita
carne cor-de-rosa coberta de pêlos dourados. Longe de desiludir o
rapaz, esta revelação aumentou a sua reverência pelo poder dos
brancos. Poder reforçado pela beleza. Gostaria de tocar naquela
carne, de passar os seus dedos escuros por aquele pêlo dourado,
mas conhecia perfeitamente bem a lesa majestade dessa ideia.
Apenas podia deitar-lhe um olhar langoroso, mas isso bastava para
excitar o amor físico. Tinha visto Dite na cama de Hammond e
sentiu inveja pelo seu contacto com ele. Por ciúmes, Meg odiou a
rapariga.
Regressou ao quarto de Maxwell e ajoelhou-se perante o patrão
sentado na cama. Maxwell atirou as meias ao rapaz e estendeu-lhe
os pés. Meg calçou-as ao velho e depois começou a lutar para enfiar
as botas, preocupado com o pensamento do prazer que teria se
fizesse o mesmo ao seu jovem patrão. Sonhava vir a ser criado
pessoal de Hammond. A sua imaginação levou-o a despir
Hammond, a dar-lhe banho. Aquela carne cor-de-rosa precisava de
ser lavada de tempos a tempos. Ou não precisava? Talvez estivesse
perpetuamente limpa e não precisasse de banhos. Os brancos não
cheiravam mal, como os pretos.
Meg lembrou-se que Hammond mal reparava nele, ou então só o
fazia para o censurar, mas guardou na memória todos os reparos
que recebera, em aprovação ou desaprovação. Achava que até
mesmo os maus tratos seriam aceitáveis de um tal amo, se ao menos
pudesse estar perto dele e servi-lo -intimamente. As vísceras de
Meg moveram-se. Algo se passara com ele. Não sabia o que lhe
tinha sucedido, não sabia o que queria. Sabia que era escravo de
Hammond, tanto por vontade como de facto. Tivera uma visão. 0
seu deus assumira uma forma mortal.


Capítulo quinto


Os céus tinham-se esvaziado e lavado a paisagem. 0 Sol surgira no
horizonte com um brilho deslumbrante. As únicas nuvens que se
viam eram tufos espalhados que intensificavam o azul-brilhante
com o seu contraste. 0 vento secava fortemente a terra húmida mas
perdera a fúria da noite. Os raios quentes do Sol, embora fosse
ainda cedo, penetravam na carne e aqueciam a medula dos ossos, se
se estivesse abrigado. Maxwell olhou através da janela e viu alguns
dos negros acocorados junto das cabanas, absorvendo o calor.

Compreendeu então que era sábado, um dia em que não estava
prescrito o trabalho em Falconhurst. Pertencia aos escravos, para
limparem as suas instalações, lavarem as roupas e tomarem banho,
cultivarem as suas leiras e fazerem os seus trabalhos pessoais. As
leiras estavam demasiado enlameadas para serem tratadas.
Maxwell não censurava a sua ociosidade.

Na realidade, Maxwell não censurava coisa alguma a ninguém.
Abriu e fechou as mãos e olhou para elas. 0 inchaço das articulações
não tinha diminuído mas a maior parte da dor desaparecera. Os
seus joelhos não estavam propriamente flexíveis, mas conseguia
andar sem desconforto. Mal podia acreditar nos seus sentidos. A
sua artrite desaparecera, pelo menos em parte. Isso deu-lhe
esperanças. 0 rapazito negro tinha saído do quarto a coxear. Talvez
as dores tivessem realmente passado para o negro. Maxwell estava
espantado. Não previra resultados tão imediatos para o tratamento.
Sentiu uma benevolência que se aproximava da gratidão para com
Alph, embora o rapaz tivesse sido utilizado na experiência sem ser
por sua própria vontade.


Alph era um negrinho demasiado valioso para ser usado para tal
fim, mas era limpo e bem formado e não cheirava mal. Era filho de
Lucrécia Bórgia e tinha sido gerado por Mermion, crescera na
cozinha. Era mais aceitável para aquele fim que um dos rapazes mal
cheirosos das cabanas. Claro que o mau cheiro deixara de ser
problema; aquela água vermelha neutralizava-o. Tinha que se
lembrar de mandar lavar o rapaz outra vez, antes da noite. Fosse
qual fosse o valor de Alph, Maxwell achava que, se ele pudesse
absorver-lhe as dores, o tolhimento do rapaz seria um pequeno
preço. Além disso, seria possível drenar o reumatismo de Alph para
outro negro menos valioso, mais tarde. Talvez fosse possível
arranjar-lhe um daqueles cães mexicanos -se realmente tais animais
existiam.

Maxwell sentiu o cheiro acre da carpete húmida quando desceu,
mas, na alegria das suas melhoras, ficou indiferente. Encontrou
Brownlee na sala, em frente da lareira, um pouco rígido, ressentindo
ainda as faltas na hospitalidade dos MaxwelI, o quarto sem
aquecimento, a ausência de uma mulher, a necessidade de se
levantar e calçar as botas sem um criado.

Brownlee estava habituado a piores instalações, raramente gozava
da presença de uma mulher, a menos que tivesse alguma para
vender, e podia bem vestir-se sem ajuda; mas sentia o desprezo de
Maxwell pela sua profissão, o que era verdade.
Maxwell chamou Merririon e apareceu-lhe Lucrécia Bórgia.
Mandou vir bebidas -um uísque sem água para Brownlee, um
toddy para ele. Quando chegaram, Meg trazia-as numa bandeja e
serviu-as. Lucrécia Bórgia seguiu o rapaz até à porta, para
supervisar o seu comportamento, o qual, aparte a impetuosidade, o
desejo de agradar, foi tal que nem a mãe poderia exigir melhor. 0
prazer de Meg em desempenhar as funções de Merririon só foi
diminuído pela ausência de Hammond. Talvez, se ele fosse


especialmente diligente, o patrão mais velho o notasse e informasse

o branco mais novo de que aquele rapazito era um negro a valer.
A primeira tarefa matinal de Hammond foi ir à casa dos doentes ver
Pérola Grande. Quando entrou no quarto, ela sentou-se e estendeu
os braços para ele. Sentou-se ao lado dela, na cama, e ela agarrou
nas suas mãos e começou a choramingar.
-0 que tens, Pérola Grande? Onde te dói? -perguntou Hammond,
em tom bondoso.
-Não dói coisa nenhuma. A doença foi embora -respondeu Pérola
Grande, agarrando-se a ele. -Patrão, siô! Patrão, siô! -chorou ela.
-Não chores, Pérola Grande. Tu estás bem.
-Sim, siô. Eu sabe que tá bem, com patrão aqui ... Patrão, patrão.
-Porque choras tu?
-Patrão vai deixar eu e minha doença volta. Patrão, patrão, fica
aqui, fica aqui, por favô, patrão, siô! -pediu Pérola
apaixonadamente.
-Como esteve ela toda a noite, Lance? Ham voltou-se para o negro
grande que se erguera, à sua entrada.
-Primeiro, quando patrão saiu, Pérola Grande adormeceu mêmo
bem. Eu ficou aqui ao pé do fogo toda noite. Depois ela acordou e
começô a gritá e a gemê, e ficou assim té patrão entrá 'quéla porta,
siô.


Ham apalpou a testa de Pérola Grande. Parecia fresca. Notou,
contudo, um ligeiro movimento convulsivo do seu corpo, quando
lhe tocou. Ficou confuso. Não havia sintomas de febre amarela ou
de varíola. Talvez aquilo fosse o resultado da procriação
consanguínea.
Não porque pensasse que pudesse fazer qualquer bem à rapariga,
mas porque não sabia que mais dar-lhe, deitou uma dose de
láudano num copo e deu-lhe a beber. Ela cravou os olhos em
Hammond com uma expressão de gratidão que era adulação.



-Vou dizer-te uma coisa, Lance, pões arreios naquela mula cinzenta
e vais a Benson buscar aquele veterinário. Conheces o doutor
Redfleld. Conheces o caminho para Benson não conheces?
-Sim, siô, patrão, conhece, o branco que curou Nimrod no ano
passada.
-Hás-de encontrá-lo na taberna ou na mercearia, a beber. Diz-lhe
que venha já à Plantação Falconhurst dos Maxwe11. Lembras-te do
recado?
-Sim, siô, patrão. -Lance estava felicíssimo por ter sido escolhido
para aquele recado. Podia ga6ar-se disso nas cabanas e contar tudo

o que vira na cidade. -Eu precisa de passe, patrão. Eu não quê ser
apanhado como negro fugitivo.
-Eu escrevo-te um passe. Vai à casa grande e arranjo-te. E tem
cuidado com aquela mula. Vai devagar e não te afundes na lama.
-Sim, siô, eu tem cuidado. Eu preto cuidadoso.
0 opiácio começou a fazer os seus efeitos sobre a paciente e
Hammond voltou para casa para tomar o pequeno-almoço. Meg
ouviu-o entrar e coxear pelo vestíbulo. Sem aguardar ordens,
galopou para a cozinha e, excitado, puxou pela sala de Lucrécia
Bórgia.
-Um toddy pró patrão, um toddy pró patrão Hammond, um toddy.
É pró patrão Ham -insistiu com impaciência. A mãe interrompeu a
preparação dos pequenos-almoços para misturar o toddy.
Hammond entrou na sala e parou junto da lareira, estendendo as
mãos para o fogo e girando em frente dela, antes de se sentar, mais
por hábito que por frio.
-É melhor beberes um toddy, Ham -avisou o pai. -Faz-te bem. Mal
Hammond se deixara cair na cadeira, Meg precipitou-se pela porta,
de copo na mão. A sua impetuosidade desapareceu e tornou-se
tímido ao aproximar-se do jovem amo. Mordeu os lábios, ao
estender a libação não pedida ao seu deus cor-de-rosa e dourado,
sem saber como seria recebida a sua decisão.


-Donde saiu este? -perguntou Hammond, em jeito de exclamação,
apontando Meg com o queixo. -Este negro é melhor que o outro.
Não é preciso mandá-lo. -Ham sorriu para o rapaz.
Meg sentiu-se envergonhado com o louvor que tanto desejara.
Baixou a cabeça e mordeu o lábio inferior, enquanto retribuia um
sorriso tímido. Depois a emoção venceu-o e começou a chorar. Não
havia motivo aparente para tal reacção.
-Que tens rapaz? Ninguém vai fazer-te mal. Tu és um bom rapaz consolou-
o Hammond.
Meg sabia que era sacrilégio, mas não conseguia impedir-se de o
fazer. Não podia continuar de pé. Os seus joelhos dobraram-se sob
ele e caiu de joelhos, com o rosto entre as pernas de Hammond.
-Eu é o teu nêgo, patrão, eu é o teu nêgo, patrão, siô. Diz que é o teu
nêgo, patrão Ham; só o teu nêgo. Nêgo de mais ninguém, só teu suplicou
o rapaz, entre soluços.
-Claro que és o meu negro. De quem receias ser? Claro que és o
meu negro e também negro do Patrão Velho.
Hammond, sem compreender, tentava confortar o rapaz.
-Teu, teu, não dele; só teu nêgo -gritou o garoto. -Alph é o nêgo do
Patrão Velho. Eu é teu, patrão Ham, por favô, siô. Eu não cheira
mal, siô. Eu quer ser teu nêgo, só teu.
-Está bem. És o meu negro. -Hammond pousou a mão sobre a
cabeça rapada entre as suas pernas.
-Chicoteia eu, então. Tu nunca chicoteá eu, patrão, siô. Por favô,
castiga eu, patrão. Espanca eu com força.
-Não fizeste nada para eu te espancar. És um bom negro. Não é
preciso castigar-te -protestou Hammond.
-Por favô, castiga eu. Depois sabe eu que é teu. Para satisfazer o
rapaz, Hammond colocou-o no colo e aplicou-lhe cinco ressonantes
palmadas no traseiro. Era impossível determinar se o grito de Meg
"Por favô, patrão" que se seguia a cada palmada implorava que
desistisse ou que continuasse. 0 gemido e o salto que se seguiam a
cada palmada denotavam dor, mas, quando Hammond o soltou e o


pôs de pé, o rosto do rapaz tinha um ar de satisfação, de êxtase. já
não havia nele timidez nem dúvida. Meg sabia a quem pertencia.
Podia olhar para Hammond de frente e jurar a sua fidelidade.
-Tu é tão bom, patrão, e bonito. Eu amo tu, patrão. Lucrécia Bórgia
apareceu com a sineta do pequeno-almoço. Este estava atrasado,
mas Lucrécia Bórgia não estivera parada. Viu as lágrimas no rosto
de Meg. Compreendeu que sucedera algo de invulgar.
-Esse negrinho tem tado a maçã os siô? Eu desanca ele, eu desanca
ele té cair.
Hammond sorriu-lhe e disse:
-Mete-te na tua vida, Lucrécia Bórgia. Este negro é meu. Se eu
quiser desancá-lo, desanco-o. Não lhe toques.
0 tom era jocoso e Lucrécia Bórgia compreendeu que o filho não
tinha feito disparate.


Alph estava no seu devido lugar, ao lado da mesa, agitando as
penas de pavão. Conseguia mexer-se o bastante para mostrar que
coxeava. Lucrécia Bórgia puxou a cadeira para Maxwell se sentar, e
Meg estava alerta e cerimonioso, ao puxar a cadeira de Hammon.
Apressou-se a tirar o guardanapo do seu copo, a desdobrá-lo e a
colocá-lo no regaço de Hammond.


Lucrécia Bórgia serviu o pequeno-almoço, mas Meg anticipava-selhe
em tudo o que respeitava às necessidades de Hammond.
Ignorando Maxwell e Brownlee, encheu o copo de Ham com leite,
acumulou bacon e ovos no seu prato, virou a travessa do pão para
que a fatia maior ficasse do lado de Hammond.
Existia uma regra tácita de que os negros não deviam comer dos
pratos reservados aos brancos. Mas agora Meg não precisou de
grande temeridade para sussurrara Ham:
-Patrão, eu pode comê o que tu não quer?



-Oh, percebo; é por isso que me estás a servir tão bem. Queres
comer o que eu deixar? -disse Hammond, brincando com o rapaz, o
que o pai desaprovou.
A acusação era injusta e o rapaz apenas pôde negar, dizendo:
-Não, siô, patrão. Eu quer que comas tudo o que pudé, mas, por
favô, siô, deixa eu comê os teus resto.
-Claro que podes. És o meu negro, não és? Ham não tencionara
censurar o rapaz.
-Mêrno do teu prato? Por favô, patrão, siô, eu pode? Mesmo do
meu prato. Maxwell observava Alph a coxear. Quanto mais Alph
coxeava, mais Maxwell se convencia das suas melhoras. 0 tempo
maravilhoso e a desistência de Hammond da sua proposta, ou pelo
menos desejada, expedição ao Texas, tinham-se combinado para
alterar o desconforto do velho. Contudo, ele atribuía-o, com certa
dúvida, ao negrinho aos seus pés e estava-lhe quase tão grato pelo
seu alívio como um proprietário estaria grato à sua propriedade.


Hammond notara o aspecto do pai mas não queria fazer
comentários sem estar seguro de que ele estava melhor. Era
aparente a sua maior destreza. Podia levar a faca à boca com
segurança e sem vacilar.
-Parece que está melhor, esta manhã, pai -observou Ham,
finalmente.
-Melhor, Ham, melhor. Vou ficar bom, agora que descobri a cura.
Vê como aquele rapaz coxeia. 0 veneno está todo a sair. Vou ficar
bom e tirar-te a plantação das costas. Hei-de montar a cavalo outra
vez, antes de tu dares por isso.
-Não se rale comigo. Eu estou bem e Falconhurst também.
-Conheci um preto com uma barriga excelente para o reumatismo.
já lhe contei -informou Brownlee. -Aquele Bronson de Natchez ...
-Gostava de saber como vai a Pérola Grande -declarou Maxwell. É
melhor ires ver como ela está, Ham, depois do pequeno-almoço.
-já fui. Está melhor, mas Lancelote diz que passou mal a noite.



-E melhor chamar o Redfleld -aconselhou Maxwe11.
-já mandei o Lancelote.
-É a coisa mais terrível nesta plantação, senhor Brownlee. Não
consigo sugerir nada, nem uma coisa, que não tenha já sido tratada.
Este Hammond pensa em tudo e faz tudo antes de eu falar nisso. Só
tenho que tratar do meu reumatismo, beber os meus toddies, e
deixar de me maçar, penso eu.
-Espero que o Lance chegue a Benson. A lama está terrivelmente
funda e espessa -ponderou Hammond.
-Tenho estado a pensar na lama -disse Brownlee. -Estava bastante
má ontem, mas está pior esta manhã. Acha que aqueles dois pretos
podem acompanhar o meu cavalo?
-É melhor ficar mais um dia ou dois. Deixe secar a estrada. Temos
muito uísque e muita comida e uma cama. É bem-vindo, senhor
Brownlee -insistiu Maxwell.
-Vou ver. Vou ver -disse o negreiro. -Este vento e o sol secam as
estradas muito depressa. Claro, vou ficar para ver espancar aquele
negro.
-Acho que não pode ser castigado esta manhã. Está doente explicou
Ham.
-Provavelmente a fingir.
0 negreiro estava desapontado.
-Não, não, está doente. Dei-lhe uma boa dose de emético na noite
passada, por beber aquele uísque. Eu estava furioso e dei-lhe
ipecacuanha de mais. Está muito doente.
-Mereceu, mereceu. Não foi mais do que ele merecia-disse
Maxwe11.
-Não lhe fazia mal baterem-lhe, acho eu -insistiu BrownleePrometeu-
lhe, como sabe. Deve-se sempre manter a promessa de
um castigo feita a um negro.
-Mantenho a promessa, na mesma, mas não enquanto estiver
doente. Não espancamos negros doentes em Falconhurst. Além


disso, faz-lhe bem pensar uns dias no castigo antes de o receber.
Deixe-c, pensar como lhe vai doer.
-Estragam os vossos negros, em Falconhurst; dão cabo deles
completamente. Não trabalham ao sábado! Não levam pancada
quando estão doentes! Veterinário para uma dor de barriga! Parece
que os negros é que sã o vossos donos, em vez de serem vocês os
donos deles.
Brownlee expressava a sua desaprovação.
-É verdade, de certo modo -concordou Hammond. -Por um lado,
os negros são nossos donos, por outro somos nós os donos deles.
Eles alimentam-nos e nós alimentamo-los. Nada há que eu mais
deseje do que bons negros, gordos, bem dispostos e felizes, e a
crescer.
-Isso recorda-me -disse MaxwelI, empurrando a cadeira para trás que
tenho de tirar as lombrigas àquela rapariga. Lucrécia Bórgia,
dá-me a noz de betel que o Mem pisou ontem e traz-me a
rapariguita à varanda. Preciso de uma colher de melaço com rum
também, para fazer uma massa.
-0 Memnon não pisou nenhum betel a noite passada, patrão.
-Sim, pisou. Eu disse-lhe e ele respondeu que tinha pisado. Além
disso eu disse à Dido que esvaziasse a pequena e a tivesse pronta.
-Aquele nêgo mentiroso não pisou nenhum noz, patrão, siô, tão
certo como tu tê nascido. Se quer qualquer coisa, porque patrão não
pede a mim? Pode contá com Lucrécia Bórgia.
Justapunha a sua actividade à preguiça de Mem.
-Lembra-te disto, Ham, quando castigares aquele macho, e aplica-
lhe mais umas. Não só não fez o que lhe mandei, como me mentiu e
disse que tinha feito.
-Tenho medo, se me lembro de tudo e lhe dou mais por cada
mentira, não fica nada do preto quando eu acabar. Vou bater-lhe até
me apetecer.


-Temos que esperar até a noz estar pronta. Manda o Meg pisá-la,
logo que acabar de comer. Aquela pobre pequena vai ter que jejuar disse
Maxwell.
Mal os brancos se tinham sentado na sala da frente quando Meg
apareceu perante Ham e perguntou:
-Quer um toddy?
-Não, passa muito pouco do pequeno-almoço-respondeu Ham.
Mas não era demasiado cedo para Brownlee e Maxwell.


Meg retirou-se um pouco abatido mas complacente. Servir o seu
amo era um prazer, servir qualquer outra pessoa era uma tarefa.
Trouxe as bebidas e serviu-as com a mais delicada unção; quando
passou junto do patrão mais jovem, a caminho da cozinha,
Hammond deu-lhe uma palmada jocosa mas aguda no traseiro. isto
fez Meg deixar cair a bandeja, e ficar com os olhos cheios de
lágrimas. Quando parou para apanhar a bandeja, olhou para a cara
de Ham e o seu rosto animou-se num sorriso amplo e satisfeito.
-Manda o outro aqui, logo que coma -ordenou Maxwell. Meg
desempenhou a missão e correu para a sala de jantar, antes que a
mesa fosse levantada. Pegou no prato de Hammond, com a comida
que ele deixara, correu para a cozinha e começou a comer.
Lucrécia Bórgia viu-o.
-Nêgo -disse ela, com as mãos nas ancas -, não pode comê do prato
dos branco!
-Meu patrão diz.
-Teu patrão diz o quê?
-Ele diz que eu pode, mêrno do prato dele. Eu perguntou e ele diz
sim.
-Eu diz não. Agora raspa essa comida prá'quela travessa rachada e
vocês dois come como costuma.
-Meu patrão diz -insistiu Meg.
-Nêgo, eu dá cabo de ti -e Lucrécia Bórgia avançou para ele, de
mão levantada.



Um brilho de desafio surgiu nos olhos de Meg, um brilho louco,
raivoso, assassino.
-Nêga, não me toque. Nunca mais toca a mim. Parto este prato no
teu cabeça. Se meu patrão quer castigá eu, ele castiga; ele mêrno.
Nenhuma nêga vai castigar eu.
Lucrécia Bórgia ficou espantada e deteve-se.
-Meu patrão diz que eu come do prato dele, e eu come do prato
dele. Nêga nenhuma não vai pará eu -declarou o jovem, entre as
dentadas que ía dando na comida. -Meu patrão disse que tu não
castigá eu, e tu não castigá eu, ouviu?
A discrição era a melhor virtude e Lucrécia Bórgia hesitou em
desobedecer às ordens de Ham, por muito desinteressadamente que
fossem dadas. Sentiu a sua autoridade desaparecer.
-Eu é o nêgo do patrão Ham agora, só do patrão Ham -regozijou-se
Meg. -A minha boca é prá comida do patrão Ham, meu rabo é pró
patrão Ham dar pancada quando quiser. 0 patrão Ham pode
pendurá eu e esfolá eu vivo, se quiser; pode matá eu, se quiser. Eu é

o nêgo do patrão Ham. -Lucrécia Bórgia sentia-se impressionada. Patrão
Ham espancou eu esta manhã com mais força do que tu
pode -anunciou ele, triunfante.
-Que fez tu, nêgo? Que fez tu prá aborrecê o patrão?
-Eu não fez nada prá aborrecê o patrão. Eu pedir a ele pra batê e o
patrão bateu. Espero que o patrão gostou.
Meg tinha acabado a comida de Ham e pegara no prato para o
lamber. Alph ouvira corri ansiedade a discussão de Meg com a mãe.
Pressentia que a vitória do seu irmão redobraria a tirania dela sobre
ele. Meg voltou-se para ele e, com desprezo na voz, disse-lhe:
-Patrão velho diz que tu ir ter com ele, quando acabá de comê.
-Qu'é que ele quer?
-Quer que tu vá lá; é isso que ele quer. Não sabes fazê o que teu
patrão manda sem fazê perguntas? -Meg era curel. -Tu és o nêgo do
patrão velho, acha eu, o nêgo de dormi do patrão velho. Mas eu tem


melhó patrão. Patrão velho não é novo e forte corno o patrão
Hammond, e bonito. 0 patrão velho não pode pôr o teu rabo a ardê
como o patrão Ham fez ó meu. Agora vai ao teu patrão.

Alph, que se esquecera de coxear, lembrou-se e recomeçou.
Esfregou as articulações das mãos e saiu a coxear.
-Onde tão as coisa,pra eu moê? -exigiu Meg.
-Que coisa pra moê? -perguntou Lucrécia Bórgia. --0 beté ou lá o
que é, que o patrão Harri quer pró patrão velho? Meg assumia
autoridade e Lucrécia Bórgia aceitou-a. Tirou uma noz de betel de
um saquinho de papel que estava na prateleira dos remédios, e
pegou num almofariz e num pilão. Meg, de joelhos no chão em
frente do lume, lutou com a enganadora noz que saltava debaixo do
pilão. Bateu tantas vezes nos dedos como na noz, mas insistiu até
acabar o trabalho. Pensava como seria bom se Hammond ficasse, de
súbito, com reumatismo, para ele poder dormir com ele na cama e
tirar-lhe as dores. Pensou se não poderia passar para ele o joelho
rígido de Ham. Era o negro de Hammond, não era? E era isso o que
significava ser o negro de um branco -fazer o trabalho dele, fazer o
que ele quisesse, suportar os seus maus tratos, aguentar o seu mau
humor, compartilhar os seus sofrimentos, as suas dores.
Alph tinha conseguido aperfeiçoar um coxear convincente, não
demasiado óbvio mas perceptível, enquanto atravessava a sala de
jantar para entrar na sala. Esperou um pouco, sem saber se
realmente o queriam. Só tinha a palavra de Meg. Os brancos
conversavam.
-Não há procura de negros no Texas ainda; mas hão de precisar,
quando chegar a altura -declarava Brownlee.
-Gostava imenso de lá ir, não para ficar, só para dar uma olhadela.
Se o pai não tivesse reumatismo, já lá estava. Fazem-se fortunas no
Texas, sei eu.
-E uma fortuna mais segura, com menos perigos e mais conforto
que aqui em Falconhurst. Conheço gente. Quando eu era da idade


do Ham, também me apetecia viajar, como ao Ham. Amarrado aqui
por causa do meu reumatismo, não tem tido qualquer escape para o
espírito. Mesmo quando leva negros a Nova Orleães, tem de voltar
rapidamente para casa. Se o meu reumatismo melhorar, ele pode
viajar um bocado, ir a Nova Orleães, até mesmo a Nova lorque, pelo
menos pode ir procurar uma dessas raparigas jeitosas de boas
famílias que estão em casa à espera de um mocetão que queira casar
com elas.
-Não digas mais, pai. Eu não vou ao Texas, mas gostava de lá ir. Eu
fico por aqui; pode ficar certo disso. Posso dar umas voltas, ir de vez
em quando à cidade, ir a Nova Orleães e arranjar-me um bocado.
Mas se fico aqui, quero é um negro que saiba lutar, para praticar um
bocado com ele.
-Fica cá e pensa em Falconhurst, filho; podes ter o melhor lutador
negro de todo o Alabama. Não vale a pena ter um lutador, se não se
tiver um dos bons. Hás-de ter um bom, o melhor de todos.
-Não há nada bom em lutadores nesta zona do país. Os tipos que
apresentam lutadores negros nas tabernas não têem dinheiro para
apostar neles. Pensam que cem dólares é dinheiro. Havia de ver
uma luta de negros em Nova Orleães. Apostas de mil dólares pouco
são; alguns deles apoiam os. seus negros com cinco mil -explicou
Brownlee.
-Os rapazes que levam os seus negros a Benson para lutar não têm
muito dinheiro para os apoiar, tem razão, mas geralmente levam
com eles um bom negro ou dois para os apostar. Todos têm negros,
ou então têm os pais -protestou Hammond. -Os negros jovens
valem tanto como dinheiro no banco.

-Os jogadores de Nova Orleães treinam os seus negros para lutar,
não usam apenas rapazes do algodão. Sã o treinados para lutar.
Estão exercitados e são alimentados e bem tratados para esse fim continuou
Brownlee.


-É isso que eu quero -disse Hammond. -Arranjar um macho bom,
forte e jovem e ensiná-lo a lutar, cientificamente.
-E os negros de Nova Orleães sabem que têm de lutar e fazem-no. 0
dono diz-lhes antes da luta que, se perderem o combate, os marcam
e os levam ao médico para serem castrados. E os negros sabem que
isso é verdade. Lutam, lutam sempre e nunca desistem. Arranham e
mordem e arrancam o que podem.
-Nova Orleães é uma cidade muito desportiva, parece-me -disse
Maxwell.
-Vi uma luta entre dois cavalheiros franceses. Isto é, entre os negros
que lhes pertenciam. Eram uns machos grandes, jovens, claros, bem
bonitos, e treinados a valer. Os negros fartaram-se de lutar, durante
mais de uma hora e meia, primeiro deu um e depois o outro. Que
bela luta a daqueles franceses! Nem um nem outro queria desistir.
Finalmente um dos pretos não conseguiu mexer-se mais. Toda a
gente pensou que estava morto; e bem podia estar, todo mordido,
com uma grande dentada de lado, uma orelha arrancada, o queixo
partido, pendurado, nem podia fechar a boca, um olho arrancado. 0
vencedor não estava muito melhor, com o nariz partido, a carne por
cima do tornozelo rasgada em duas por uma dentada, ambos os
pulsos partidos, e as costas quebradas, de tal modo que berrou
quando tentou levantar-se. Não sei o que os franceses fizeram com
os rapazes; não havia muito a fazer, acho eu. 0 sangue corria por
todo o lado, até estragou o belo casaco de um dos franceses. Cinco
mil de cada lado, mas mesmo assim o vencedor não ganhou muito.
0 seu negro valia bem isso. Eu ganhei cinquenta dólares nessa luta.
-Como eu gostava de ver isso! -suspirou Ham.
-Quando for para os lados de Nova Orleães, avise-me. Se eu lá
estiver, sei das lutas que há. São mais ou menos secretas, mas posso
levá-lo a elas.
Meg surgiu com dois pires, um com a noz moída, o outro com o
melaço e, sem falar, colocou-os na mesa ao lado de Hammond, que
lhe disse que os entregasse a Maxwe11. Maxwell experimentou o pó


entre o polegar e o indicador, à procura de partículas não
pulverizadas. Meg sabia que ele não as encontraria e esperou um
momento pelo elogio que esperava mas que poderia ser
simplesmente demonstrado pela ausência de comentários.
Meg, mais peremptoriamente, deu as suas instruções ao irmão:
-Vai buscá a rapariga que o teu patrão vai trará e leva ela pró
varandim. Não sabes pensá?
Por alguma coisa Meg era filho de Lucrécia Bórgia, com a sua
obsequiosa subserviência perante os patrões e o tom dominante
para quem quer que estivesse abaixo dela. Ele previa as ordens e
executava-as antes de serem dadas. Não perdia oportunidade
alguma para rastejar, trepar e subir nas boas graças do seu patrão.
Quando Maxwell se levantou para dar o vermífugo à rapariga, viu-
a através da janela, à espera, sob a guarda de Alph. Meg não estava
à vista, mas esperava, a curta distância, para o feliz caso de
Hammond o chamar.


Brownlee e Hammond seguiram Maxwell para o varandim cheio de
sol, viram-no deitar o melaço sobre o pó e mexê-lo com o indicador,
transformando-o numa bolinha mole que meteu bem para o fundo
da língua da rapariga, mantendo-lhe a boca fechada até a engolir, e
depois meter o dedo lambuzado na boca dela, para que chupasse o
resíduo, antes de limpar o dedo ao fato. Ela não ofereceu qualquer
resistência ao remédio intragável.
A rapariguita tinha perdido a vivacidade. Apelou para Brownlee-.
-Eu tem fome, patrão. Eu não come há muito tempo.
0 negreiro não lhe deu importância, mas Maxwell respondeu:
-Vais comer. Vais até comer muito, quando os vermes saírem.
Havemos de rechear essas costelas e dar carne a essas pernas.
Chamou Dido que velo à porta da cabana, escura, grande e
maternal.



-Vigia-me essa pequena, Dido, não a deixes vomitar o remédio, e
daqui a uma hora arranja-lhe um pequeno-almoço quente, pouco
consistente: papas de aveia, ou coisa parecida.
Enquanto Maxwell se ocupava da criança, o dr. Redfield entrou no
caminho para a plantação, montado no seu cavalo castrado
castanho-escuro, para o qual era preciso olhar uma segunda vez
para se descobrir que estava manchado de lama. Cem jardas atrás
vinha Lance, montando a mula sem sela que tinha sido cinzenta à
partida, duas horas antes, mas agora estava tão coberta de lama que
parecia da cor do cavalo do veterinário.

Meg surgiu não se sabe donde para agarrar nas rédeas do cavalo,
quando o doutor desmontou, mas, por ordem de Harrimond,
transferiu-as, para Lancelote, logo que este chegou, e o preto levou-
o, juntamente com a mula, para o estábulo, para serem secados e
escovados. Meg não voltou a desaparecer, contudo; manteve-se, à
escuta, na varanda, afastado do grupo. Tinha os olhos fixos em
Hammond. A sua boca estava aberta e ele parecia pronto a saltar,
reagindo a qualquer gesto que não chegou a ser feito.
-Parece que está a interferir no meu negócio -disse amavelmente
Redfield. -Sempre disse que o senhor Warren Maxwell era o melhor
veterinário do país. Trata melhor dos pretos do que ninguém. Eu
morria de fome se contasse com as chamadas dele para viver.
Era um homem pequeno, com um queixo bicudo, semibarbado, com
as faces cobertas por suíças com uma mistura de pêlos vermelhos,
pretos e grisalhos, suficientemente longas para indicar que se
atrasara duas semanas a barbear-se, mas demasiado curtas para
parecerem um acessório permanente do rosto.

-Que estava a dar-lhe, senhor Maxwell?
-Estava a limpar de vermes uma rapariga pequena, que comprei
ontem. Estava cheiinha de lombrigas. Há pessoas -disse, olhando


para Brownlee -que não ligam aos seus negros e admira-me como
eles não caiem de podres.
-Não era para isso que me queria, pois não? -sugeriu Redfield.
-Não, o Hammond é que o mandou chamar. Tem um caso para si.
Adoeceu na noite passada.
Hammond estendeu a mão a Redfield que observou:
-Parece que não passou tempo nenhum desde que tu eras um
rapaz, não maior que aquele negrito, sempre atrás do pai, para onde
quer que ele fosse. já és um homem, hem? já te sentes um homem?
-É um homem, é um homem. Não tem tempo para ser rapaz. Dirige
toda a plantação, porque eu estou doente. Deixe-me apresentá-lo ao
senhor Brownlee, doutor Redfield. 0 senhor Brownlee anda por aí, a
comprar -explicou Maxwell.
-já ouvi falar do senhor Brownlee. Um seu criado.
-Um seu criado.
-Acho melhor ir andando para a casa dos doentes. 0 Hammond
leva-o lá. Eu estou muito tolhido para ir. Volte e tome uma bebida,
antes de partir.
-Eu também vou -disse Brownlee. -Gostava de ver essa tal fêmea
assim tão grande.


Maxwell ficou na entrada, relutante em ficar para trás, mas sem
vontade de se juntar ao grupo. Meg manteve-se a distância, mas
seguiu o patrão sem parecer segui-lo.
Hammond relatou a Redfield os estranhos sintomas de Pérola
Grande, enquanto andavam.
-Achei melhor mandá-lo chamar. Não quero epizootia por aqui,
com todos esses negros jovens. Pode ser febre-amarela ou varíola.
-Febre-amarela não, nesta altura do ano. 0 seu pai sabe isso. Não
deve ser varíola. Talvez uma pequena congestão das tripas, penso
eu. Vamos ver.
-Eu sei que não devia fazê-lo vir, com toda esta lama, irias ...



-Não faz mal; não faz mal. De qualquer modo, tinha que ir à viúva
Johnson; Falconhurst fica no caminho. Conhece a viúva Johnson?
-Claro, claro; na Estrada das Seis Milhas.
-Tem ali uma boa plantação. Pequena, claro, só cento e sessenta,
mas tira muito algodão e tem uns quinze a vinte negros bons que o
Johnson lhe deixou.
-São criados velhos, no entanto -objectou Hammond. -Quase não
procriam.
-Alguns. Foi por isso que ela me chamou, para a livrar de uma
fêmea velha e inútil, aleijada, surda, quase cega. Tinha direito a
acabar corri ela há muito tempo, mas a viúva não queria.
-É contra a lei, não é? Bem, acho que sim; mas quem vai meter-se
nos negócios de uma pobre viúva? Nunca ouvi dizer que a lei se
metesse nessas coisas.
-Vai abatê-la? Os outros criados são capazes de ficar perturbados,
não acha?
-Antímónio. É uma coisa nova. Pelo menos nunca tinha ouvido
falar. Foi um médico de Nova Orleães que falou nisso. Acaba
facilmente corri eles. Nem chegam a dar por isso e os outros negros
nunca sabem.
-Nunca tinha ouvido dizer e acho que o meu pai também não.
-Se precisar, tenho muito. Mande-me um negro com uma nota.
Pode aplicá-lo você mesmo. Não precisa de mim. Claro, com uma
senhora, como a viúva, é diferente.
-Espero nunca precisar disso. Os nosso trabalhadores são todos
muito novos e sãos -disse Hammond.
-Nunca se sabe. Pode aparecer-lhe um negro mau, agitador, que
crie problemas.


-Talvez -admitiu Ham sem interesse. Tinham caminhado
lentamente ao sol, colina abaixo, em direcção ao rio, até à cabana
utilizada como enfermaria de isolamento.



Pérola Grande estava deitada na cama, a um canto, corri os olhos
fixos no espaço. Toda a sua magnífica energia desaparecera;
envolvia-a uma espécie de langor.
-Corno te sentes, Pérola Grande? -inquiriu Hammond. Pérola
Grande levantou um braço e estendeu-o para ele.
-Tou bem agora que tu veio. A doença foi-se imbora. Agarrou na
mão de Hammond e apertou-a com força.
-Chamei o doutor para te ver, Pérola Grande. Ele vai dar-te
remédios que te ponham boa. Deixa-o ver-te, agora -explicou
Hammond.
-Não precisa doutô -respondeu Pérola Grande. -Nenhum doutô
conhece a doença que eu tem. Meu Patrão fica comigo, eu tô bem. 0
patrão sai, eu morre; eu morre mêrno.
Redfield colocou a mão na testa de Pérola Grande. Viu-lhe a língua.
Tomou-lhe o pulso. Sacudiu a cabeça, pensativamente e encheu as
bochechas, com ar de sabedoria. Levantou as cobertas e subiu o
vestido de Pérola Grande apalpando-lhe o abdomen. Ela negou ter
dores naquela área.
-Que idade tem esta fêmea? -perguntou Redfield.
-Cerca de quatorze; mais perto dos quinze -disse Hammond.
-Bem forte, para essa idade. Olhe para as pernas dela, parecem
troncos de carvalho, mas bem torneados -comentou Brownlee. Aprecio
ver uma fêmea grande e perfeita.
-Virgem? -perguntou Redfield.
-Penso que sim -disse Hammond.
-Pensa que sim? Então não sabe? -disse o médico, com desprezo. Que
anda a fazer? A negligenciar os seus deveres? Ou o seu pai
quer mantê-lo virgem também?
Hammond corou.


-Cheira muito mal para mim.



-Mas o dever do patrão é dar prazer às suas fêmeas, pela primeira
vez. Uma fêmea perfeita e boa como esta faz um homem esquecer o
mau cheiro. Claro que é virgem. Devia ser castigado, rapaz.
-Mas ser virgem não causou dores a Pérola Grande -declarou
Hammond, espantado.
-Claro que causou. Sabe de que sofre esta fêmea? Está histérica. É
só isso que ela tem. Está histérica -declarou Redfield positivamente.
-Pode curá-la? -perguntou Hammond, confuso.
-Eu não, mas você pode. Ela quer que lhe faça um jeito.
-Isso não a pôs doente, não a fez gritar e berrar toda a noite.
-Fez, sim. Fez, sim. Adoeceu, pode morrer, se você não lhe der
prazer; possua essa rapariga, de qualquer modo. Não vê como ela se
agarra a si e não o larga? Não tem temperatura, tem o pulso normal,
a língua limpa. Não tem qualquer doença, excepto o desejo por si.
Está histérica, apenas histérica.
-Tá doente também, patrão Hammond, siô. Tá doente -protestou
Pérola Grande. -Não quê que tu durma comigo, patrão, siô, se tu
não tem prazer também. Eu sabe que é preta, que eu cheira mal, eu
sabe que não presta para ti, patrão, mas eu não é má, eu não é má,
patrão, eu não é má.
Começou o rolar-se na cama, sobre o ventre, e, de rosto voltado para
baixo, soltou longos soluços de vergonha, de desejo, de desilusão,
de esperança perdida.
Hammond passou ternamente o braço por baixo do corpo de Pérola
Grande e, voltando-a para ele, disse-lhe em voz baixa e confidencial.
-Tu não és má, Pérola Grande. Ninguém diz que tu és má. Estiveste
doente, mas agora estás boa. Vem. Levanta-te e vai ter com Lucy.
Vais ficar bem. Veremos. Veremos.
Pérola Grande deu um salto e pôs-se de pé, baixando o vestido.
Tropeçou em Meg que estava sentado no degrau da porta, a ouvir o
que se passava lá dentro. Ele retomou o equilíbrio e correu para a
parte de trás da cabana, para que o seu patrão não o visse. Pérola
Grande galopou colina acima té às cabanas, como possessa. Os três



homens ficaram a vê-Ia correr, notando o poder, o vigor, a
flexibilidade e a segurança dos seus passos.
-Eu disse que a rapariga estava só histérica -disse Redfield.
Regressaram vagarosamente, subindo a colina, o negreiro e o
veterinário por causa da falta de fôlego, Hammond devido à rigidez
do joelho. A cerca de cinquenta pés, passeava Meg, inocente de
escutar às portas, mas espetando a orelha para não perder palavra.
Era por empatia, não por troça, que caminhava com um joelho
rígido.
-Essa viúva Johnson, diz que ela talvez tenha criados? Onde vive
ela? -Brownlee especulava com a ideia de a ir visitar.
-Não vale a pena lá ir. Não tem nenhum para vender. -Redfield foi
positivo.
-Não vale a pena -acrescentou Hammond. -Os negros dela estão
gastos, todos demasiado velhos para alguém os querer. Se não fosse
os tratamentos com ervas e os trabalhos de parteira, ela e os seus
negros já tinham morrido de fome.
-Acha que sim? -perguntou Redfield. -Penso que ela seja rica. Bem,
não propriamente rica, mas toleravelmente, toleravelmente. Johnson
deixou-a bastante bem.
-Talvez, talvez. Não sei bem. Ela faz bem em poupar -concordou
Hammond.
-Tenho andado a pensar e talvez lhe fale hoje. A minha mulher
deixou esta vida há três ou quatro anos, já, e não arranjei outra. A
viúva tem andado a insinuar que precisa de um homem. Pensei que
seria boa ideia enforcar-me e deixar de ser veterinário. É melhor
assentar como plantador e não trabalhar.
-Penso que nunca mais podemos deixar um negro adoecer. Não
teremos veterinário para o vir ver. Antes queria confiar um negro
doente à Lucrécia Bórgia para o tratar, do que chamar o doutor
Simpson; mata mais do que cura.
-Claro que continuarei a tratar os negros de Falconhurst. Não posso
deixar totalmente a clínica e ficar sem motivo para ir à cidade. Além


disso, não quero que a velhota deixe de fazer as suas curas e os seus
partos -observou o médico.
-0 meu pai vai ficar contente.
-Talvez a viúva não me queira, mas tem andado a sugerir isso já há
algum tempo, pelo menos parece-me. Também ainda não me
adiantei. Para falar verdade, é difícil adiantar-me com a viúva; ela é
tão gorda, com a cara toda cheia de verrugas e aquele bigode preto,
que se torna um bocado difícil fazer amor com ela. Contudo tem
boa natureza e é vigorosa.

Brownlee pensou na sua mulher azeda e magrizela, que o esperava
em Nova Orleães. A descrição que Redfleld fizera da senhora
Johnson parecia-lhe apetitosa, apesar das verrugas e do bigode. A
agradável plantação, bem recheada de criados, era ainda mais
apetitosa. Se fosse solteiro, gostaria de entrar em competição com o
veterinário pela mão calosa da viúva. Se tivesse acesso a um pouco
daquele veneno de que Recífield falara! Devia actuar tão bem numa
branca como num negro. Como é que o médico lhe chamara? Onde
poderia comprá-lo?

0 grupo chegou junto da casa. Encontraram Maxwell anichado
numa cadeira confortável ao sol, no longo varandim. Alph estava
sentado no chão, aos pés do patrão e ambos bebiam toddies tão
quentes que apenas podiam tomar pequenos golos. .-Traz mais
bebidas. Meirmon, mais bebidas. -Maxwell saudou-os
amavelmente. -Sentem-se e bebam uísque.
0 gosto do uísque desagradava a Alph, mas era um triunfo sentar-se
aos pés do patrão e beber, especialmente um triunfo sobre o seu
irmão, cujo patrão não mostrava tal indulgência. Quando Meg se
aproximou, revirou os olhos na sua direcção, fez estalar a língua, e
dedicou-se assiduamente a engolir o líquido quente.
Meirmon apareceu, arrastando 'uma cadeira desajeitadamente.
Tinha um ar esgaseado e receava o castigo que o esperava. Meg


correu alegremente para dentro de casa e lutando com o seu peso,
trouxe de junto da lareira a cadeira de balanço mais confortável e
colocou-a por trás de Hammond. Meirmon voltou a casa e trouxe
outra cadeira para Brownlee, após o que foi à cozinha buscar
bebidas para todos.
Meg voltou a casa, com os olhos fixos no irmão, invejando cada golo
que ele bebia. Mas, quando Meirmon apareceu corri as bebidas
numa bandeja, Meg quase o derrubou, pegou no toddy e levou-o a
Hammond, ajoelhou junto da sua cadeira e olhou para o rosto dele.
-Tá bastante quente, patrão?-murmurou, solícito. -Tem açúcar
bastante? -Esperava receber respostas negativas, mas foi ignorado. Aquele
Meinnon não sabe fazer eles bem, patrão. 0 patrão devia
pedir a mim.
Hammond dirigiu-se ao pai.
-Acho que devíamos treinar este rapaz para tomar conta de
Meirmon.
0 Mem parece estar a falhar. Este pretinho é esperto.
-0 Mem fica bom depois do castigo que lhe vais dar, filho. 0 mal
dele é ter andado a escapar-se ao chicote.
-Nunca ouvi dizer que batesse num rapaz. Não os desanca muito,
pois não? -perguntou Redfield. -Não tenho tido que tratar pretos
seus por causa do chicote.
-Não, não bato muitas vezes. Não gosto de o fazer. Assusta tanto os
pretos novos que param de crescer durante um ano ou dois. E o mal
de os mandar para si, além de ter que pagar duas moedas por cada
chicotada, é que o senhor os chicoteia mesmo. Ninguém compra um
negro com marcas de chicote.
-Quero que eles se lembrem bem, não quero arrancar-lhes um
pouco de carne do lombo. Os negros esquecem-se do castigo muito
depressa opinou o veterinário.
-Já viu a minha palmatória? -perguntou Maxwe11. -Negro algum
se esquece depois de lha espalmar no rabo. Vai buscá-la, Memnon, e


não leves toda a manhã. Sabes onde está, na parede da direita
quando se entra no estábulo.
Merririon quis evitar o recado.
-Tem medo, patrão, siô. Tem medo daquela palmatória.
-Faz o que te mando!
-Sim, siô, patrão, siô; por favor, siô. Mal Merruion tinha dado cinco
ou seis passos relutantes fora do varandim, o medo da palmatória
provocou-lhe náuseas de novo. A sua boca encheu-se com o vómito
e lançou-o no chão. Voltou para o canto do varandim e só não caiu
no chão porque se agarrou ao poste.
-Aquele negro ainda está quente da dose que lhe deu -disse
Brownlee, rindo.
-Meg -disse Hammond -, vai a correr buscar aquela palmatória
comprida.
0 rapaz, grato pela ordem, saiu disparado pelo pórtico.
-Doente de mais para ir buscar a palmatória. Penso que não estejas
doente para ir buscar uísque para os senhores, pois não? -gritou
Maxwell para Mem, que reuniu todas as forças, e, murmurando
"Sim, siô, patrão", dirigiu-se cambaleante para casa.
-Acho que não devia beber mais -disse Redfield hesitante.
-Porque não? É uísque puro, do bom -disse Maxwell, que passava

o dia a bebericá-lo.
-A viúva pode sentir-lhe o cheiro-explicou Redfield. -Bom, mais
um não faz mal a ninguém, acho eu.
-0 doutor Redfield vai casar com a viúva Johnson, pai -explicou
Hammond.
0 médico ficou confuso.
-Se ela me quiser -balbuciou.
-Quer, pois, não tenha medo -afirmou Maxweli, e acrescentou: -A
viúva é danada, para a idade, claro.
-Mas virtuosa -corrigiu Redfield.
-Oh, sim, virtuosa. Não digo nada contra ela. Quando o Johnson
morreu, atirou-se a mim, mais ou menos. Mas eu não estava

interessado. A minha mulher era uma Hammond, bem vê; e depois
dela ... Desejo-lhe felicidades, desejo-lhe felicidades de todo o
coração.
Meg voltava a galope, acariciando a longa palmatória. Colocou-a no
colo do patrão e saltou para retirar o toddy de Hammond da
bandeja de Mem.
Hammond bateu com a palmatória no chão para lhe retirar o pó
acumulado e depois esfregou-a na fralda da camisa de Meg.
-Não é usada há tanto tempo que está rígida. Precisa de ser oleada comentou,
estendendo o instrumento a Redfield.

Redfield gírou-a no ar para trás e para diante.
-Muito jeitosa, parece. E couro para solas? Mas para que servem os
buracos?
-Para deixar passar a carne e o sangue. Retalha-os mesmo, bem
manejada por um macho forte. Mas curam-se lindamente e sem
marcas. Não deixa cicatrizes nem traços de chicote.
Maxwell alargou-se nos seus méritos, e Merimon tremia ao ouvi-lo
descrevê-los. Mem tinha recebido muitas vezes o encargo de ir
buscar a palmatória, noutros tempos, e sabia do que ela era capaz.
Estremeceu.
0 sol e os toddies e a ausência de dores puseram Maxwell sonolento
e começou a dormir. Não deu pela partida de Redfield.
Brownlee ergueu-se e espreguiçou-se.
-Acho que vou lá abaixo ver os meus rapazes -disse. Maxwell
continuou o seu sono e Alph, embrutecido, fez-lhe companhia.
Hammond pegou na palmatória e levou-a para casa, para dar a
Lucrécia Bórgia instruções para a esfregar com óleo de mocotó, para
lhe dar maior flexibilidade. Brownlee dirigiu-se vagarosamente para

o estábulo, em busca dos seus dois rapazes. Pensava em fazer uma
oferta pelos dois gêmeos. Sabia bem onde colocá-los. Talvez fosse
melhor ir a Nova Orleães, descrevê-los ao seu cliente e obter um
compromisso em vez de os comprar por um preço alto e vê-los

morrer nas suas mãos ou não poder vendê-los. Podia voltar. Tinha
apenas mil e setecentos dólares na carteira que sabia não chegarem,
apesar de os gémeos serem novos e pouco mais que ornamentais.
Podia contar obter por eles quatro mil e quinhentos, talvez cinco mil
dólares daquele francês rico e imbecil.
E aquela grande fêmea mandinga. Que magnífica era! Conhecia um
jogador que a compraria; pensava que uma virgem lhe trazia sorte.
Brownlee dirigiu-se para as cabanas. Tinha que ver outra vez Pérola
Grande. Era um conhecedor de negros bons, julgava ele. Na
realidade, nenhum negro de categoria passara pela sua posse, só
alguns machos grandes e robustos, mas todos tinham qualquer
coisa, não eram realmente de primeira. Aspirava a negociar, num
mercado de luxo, rapazes para trabalhos de casa, fêmeas claras e
núbeis, gêmeos, anões ou gigantes, curiosidades ou monstros,
hermafroditas ou fenômenos. Conhecera um homem que tinha pago
três vezes o preço normal por um macho jovem com uma cauda de
cinco polegadas de comprimento, que divertia os amigos do amo.
Brownlee nunca tivera capital para tal especulação, embora
soubesse o que dava lucros.

Não sabia bem qual era a cabana de Lucy. Parecia-lhe que a
conhecia. Tinha visto Pérola Grande correr para casa dela. A porta
estava aberta para entrar luz e Brownlee entrou. Pérola Grande
estava sentada na cama e, da sombra, saiu uma mulher alta,
monstruosa, ossuda, com as maxilas em forma de lanterna, que
trazia uma criança nua a cavalo na angulosidade que lhe servia de
anca. Exceptuando o seio pendente e exposto com que o bebé
brincava, Brownlee teria pensado tratar-se de um homem vestido de
mulher.
-Que quer tu, homem branco? -disse Lucy, saudando-o, irritada
com a sua intrusão e assustada por conhecer o seu negócio.
-Quero ver outra vez Pérola Grande -explicou Brownlee. -Despe-a
para eu a ver.


-0 Patrão Hammond sabe que tu veio? -perguntou Lucy.
-Não, mas ele não se importa que eu veja a rapariga. Vamos, Pérola
Grande, despe-te -e o branco avançou para a rapariga.
Lucy interceptou-o, meteu o bebé nos braços de Pérola Grande e
avançou para a porta, deu a volta à cabana e atravessou a clareira
que a separava da casa grande, berrando com a sua voz poderosa: Patrão,
patrão, siô, o homem branco tá a violá Pérola Grande; o
homem branco tá a violá Pérola Grande, patrão, patrão, disse ó
homem branco pra violá Pérola Grande?
Maxwell despertou com o barulho. Ergueu-se com dificuldade,
chamando Ham. 0 seu chamamento foi inútil, pois Hammond não
podia deixar de ouvir os gritos de Lucy. 0 passo de Hammond era
tão longo e firme quando saiu de casa, experimentando a saída da
pistola do coldre enquanto caminhava, que mal parecia coxear.
Atrás dele vinha Meg, com os olhos proeminentes, os braços no ar.
Alph, estupidificado pelo toddy que Maxwell prescrevera para o
seu reumatismo, abriu os olhos, tentou levantar-se e caiu no chão do
varandim, de novo adormecido.

Antes de Harrimond poder atravessar o espaço livre, o senhor
Brownlee surgiu de trás das cabanas, com maneiras brandas,
fingindo uma despreocupação que não sentia.
-Que quer isto dizer? Violou a minha fêmea? -perguntou
Hammond.
-Não há azar, não há azar. Andava a ver as vossas instalações. Nem
me cheguei para a cabana da preta. Só enfiei a cabeça pela porta.
Para falar verdade, queria dizer adeus à miúda que vendi ao seu
pai. Gosto muito da pequena.
Brownlee sabia que mentia, mas não se apercebia de que a mentira
era muito grande e pouco crível. Sabia que lhe tinha passado pela
cabeça a possibilidade de livrar Pérola Grande da sua penosa
virgindade. Pensava que Hammond ficaria mais satisfeito do que
irritado por ele assumir o papel do branco. Mas duvidava de que


tivesse tido qualquer intenção séria de fazer mais do que olhar para
a rapariga. Tinha esvaziado três copos grandes de uísque durante a
manhã mas não se sentia confuso.
Ham sentia uma raiva fria. Teve dificuldade em encontrar as
palavras, mas, quando falou, fê-lo claramente:
-Se não fosse branco, matava-o. Dava-lhe um tiro no meio da
barriga.
-Hammond mexeu na pistola mas não a extraiu do coldre. -Aquela
Lucy nunca mentiu antes e não está a mentir agora.
Brownlee aclarou a garganta, como se fosse falar de novo, mas nada
encontrou para dizer.
-Pegue no seu cavalo castrado e nos seus dois machos aleijados e
saia daqui. As estradas estão más, mas Redfield conseguiu vir de
Benson e você pode fazer o mesmo.

Brownlee sentia-se relutante em partir. Não era a primeira vez que
tinha sido corrido por um dono de uma plantação e não se sentia
muito embaraçado, mas, quando Hammond avançou, o negreiro
viu-o esfregar as mãos e ouviu-o dizer algo sotto voce sobre "branco
ordinário". 0 epíteto queimou-o como fogo.

0 negreiro dirigiu-se ao estábulo. Selou o seu cavalo e reuniu os dois
escravos. Não havia tempo para despedidas. Quando o cavalo
passou junto do varandim onde os Maxwell estavam de pé em
silêncio, gritou:
-Acho que-vou passar pela viúva Johnson, onde estão a assassinar
aquela velha. 0 xerife gostaria de saber o que se passa lá.

Os dois negros seguiam à frente do cavalo, num trote lento. 0 mais
pequeno e escuro estava pensativo e conservava os olhos no chão,
como se olhasse para o pé só com dois dedos. 0 rapaz mais claro,
com a cicatriz da queimadura parecia mais feliz.


-Adeus, patrão -gritou quando passou junto do varandim. -Eu vai
pró Kentucky.
O estalar do chicote nas suas pernas fê-lo calar-se.
O xerife não daria importância as acusações feitas por um negreiro
itinerante contra a senhora Johnson e o Dr. Redfield, por matarem
uma escrava. Era um crime insignificante, quando muito. A negra
era velha. 0 testemunho dos negros nada valia no tribunal e a
acusação de Brownlee não teria validade contra as negações de
culpa de cidadãos importantes como o Dr. Redfield e a viúva
johnson. Contudo, Hammond sentiu-se aliviado por ver que o
cavalo de Brownlee tomava a estrada da esquerda para Benson em
vez de se dirigir para a direita, em direcção à casa da viúva.

Capítulo sexto

Lucrécia Bórgia chamou os gêmeos, lavou-lhes as mãos e as caras e
vestiu-lhes roupa lavada antes do jantar. Alph, numa espécie de
torpor, enxotava as moscas que estavam agressivas, naquele dia
brilhante e quente. Mermion trouxe a comida para a mesa e serviu
MaxwelI, mas Meg andava à volta de Hammond, ajudou-o a sentar,
encheu-lhe o prato, despejou o leite e ressentiu-se por Merririon
querer encher a chávena do patrão jovem com café.

A conversa foi pouco abundante e sem ligação.
-Acho que tenho de dormir com a Pérola Grande -observou
Hammond, tanto para si próprio como para o pai. -0 Dr. Redfield
acha que é esse o mal dela. julgo que qualquer desses machos lhe
podia fazer o mesmo.


-As fêmeas querem ter o patrão pela primeira vez e Pérola Grande
é esplendorosa.
-E grande de mais -objectou Hammond.
-Eduquei-te mal, filho -declarou o pai. -Se eu não tivesse este
reumatismo... -suspirou. -Claro, se tu não queres, a Pérola Grande
não pode obrigar-te; mas eu sempre tomei conta delas pela primeira
vez, especialmente se elas serviam para procriar.
-Acho que posso fazê-lo eu -assentiu Ham.
-Acho melhor ir ver aqueles rapazes que comprei ontem. Achas que
têm alguma coisa que eu não notei? Aquele sacaria estava muito
satisfeito com o negócio. Gostava que mandasses vir os dois miúdos
ao varandim, quando acabares de jantar.
Hammond delegou a tarefa.
-Meg vai ao vestíbulo e traz os dois novos ao teu patrão depois de
jantar, ouviste?
-Sim, sio, patrão, siô. Eu vai buscar eles, patrão. Logo que os
brancos saíram da mesa, Meg pegou no prato de Hammond, com os
restos que ele deixara, levou-o para a cozinha e pô-lo de parte.
Depois saiu para ir buscar os dois negros ao estábulo. Os dois
garotos, estranhos e excluídos das brincadeiras dos outros, eram
tímidos e estavam relutantes em obedecer às ordens peremptórias
de Meg. Finalmente ele pegou numa vara e bateu com ela nas costas
de um dos rapazes e este, decidindo aceitar a sua autoridade,
avançou. De vara na mão e caminhando atrás deles, Meg escoltou
os dois para casa.

No caminho, Meg descreveu aos rapazes os tormentos a que o amo
iria sujeitá-los. À medida que a imaginação de Meg se ia
desenvolvendo, estes passavam do chicoteamento à marcação com
ferro em brasa e à castração o, que ele descreveu muito vivamente
mas com pouca exactidão. As faces dos rapazes descoraram do
negro brilhante para um cinzento-sujo, enquanto escutavam, com
terror, o que estavam prestes a fazer-lhes. Encostaram-se um ao


outro, enquanto Meg corria para casa para informar Hammond da
sua chegada.

Quando Meg chegou à cozinha e procurou o seu prato, descobriu
que a comida tinha sido raspada para a travessa rachada da qual o
seu irmão já estava a comer. Começou a chorar e recusou-se a
comer.
-Patrão Hammond diz que eu pode comê dos prato dele -declarou
a Lucrécia Bórgia.
-Não te faz mal comê com teu irmão. Tu não é melhó que ele.
Agora, come teu jantá. Só porque patrão Ham diz que tu é o nêgo
dele, tás a perdê o juízo. Precisa sê sovado, sê chicoteado, só
espancá tu nã chega -ameaçou a mãe.
-Nêga, se eu é chicoteado, é patrão Ham que chicoteia eu. Não
toques eu. Eu não quê jantá. Eu vai dizê ao patrão.
-Diz ao patrão o que quisé. Não te serve de nada. Quem julgas que
deu tu à luz? Quem deu peito a tu? Quem criou tu? 0 patrão Ham
não é tua mãe!
-Não, mas é meu patrão, e eu vai dizé a ele -e Meg saiu, porta fora.
Os MaxwelI, pai e filho, encontravam-se ocupados a examinar os
pretinhos que estavam, nus e assustados, na sua frente. Os rapazes
novos eram do tipo cepo, de ombros largos, sem pescoço, cabeça
esguia, com narizes achatados sem cana, narinas largas, de lábios
grossos, quase pretos, e um pouco gordos. Não sabiam que idade
tinham e era difícil determiná-la, mas Hammond calculou que
teriam quatorze anos, Maxwell quinze. Estavam ainda cansados da
viagem através da lama, sob o chicote, e sentiam-se pouco à vontade
no seu novo ambiente. Andavam desajeitadamente sobre os pés
grandes e grossos, obedecendo às ordens de boa vontade mas com
insegurança.
-Não é preciso mexer-lhes muito, filho -declarou Maxwell com
experiência. -Se não se consegue descobrir um bom negro ao olhar


para ele, também nunca o descobrirás mexendo-lhe. É preciso
mandá-los lavar antes de lhes tocares, de qualquer modo.
-Não lhes encontro nada de mal. Fez bom negócio, até onde consigo
ver -declarou Hammond.
-Ainda é preciso esperar antes de os vender. Têm muito para
crescer -disse o pai.
-Têm, de certeza -afirmou Ham, satisfeito com o negócio. Meg
aguardara uma pausa na conversa. Aproximou-se de Hammond e
disse, amuado:
-Patrão, siô, aquela nêga não quê dar Jantá pra eu.
-Qual negra?
-Aquela Lucrécia Bórgia. Ela raspou tudo pró prato de Alph. Não
quê dar pra mim. Eu tem fome. Ela diz que vai desancá eu.
-Que fizeste tu?
-Eu não fez nada, não fez nada. Só quer comer os teus resto, do teu
prato, como tu diz. Aquela nêga raspou os teus resto pró prato do
Alph.
-E a Lucrécia Bórgia não te deixa comer com o Alph?
Meg começou a chorar.
-Sim, siô, patrão, mas tu disse, tu disse que eu pode comê os resto
mêrno do teu prato, do teu prato. E tu disse àquela nêga pra não
castigá eu.
Tu disse. Tu disse que tu castiga eu, eu é teu.
-Vai já para a cozinha e come com o Alph ou castigo-te mesmo avisou
Hammond . -E manda cá a tua mãe.
Meg saiu a correr, de mau humor, mas quando Lucrécia Bórgia
veio, escondeu-se junto da porta para ouvir o que patrão ia dizer-
lhe.
-Lucrécia Bórgia -disse Hammond, -Meg quer comer do meu
prato?
-Sim, siô, patrão. Aquele fedelho tá a armá em gente grande. Não
pode fazê nada com ele. Nem quê que eu bata nele. Diz que tu
castiga ele.



-É certo. Se queres que ele apanhe, diz-me e eu castigo-o. Não
precisa de castigos, aliás.
-Eu gosto de desancá neles todas as manhã. É bom pra ele. Não
pode desancá o outro porque tem reumatismo.
-Eu castigo o meu, se precisar -interrompeu Maxwell. -Estou a
ficar suficientemente bem para tratar de um fedelho como ele.
-E deixa o Meg comer os meus restos, se ele quiser. Ele é limpo.
Não estraga os pratos.
-Sim, siô, patrão. Se tu quê. Lucrécia Bórgia olhou para o pai, à
espera que ele desaprovasse.
-Não se importa de comer num prato em que comeu um negro,
pois não, pai ... depois de lavado?
-Fui criado com leite de mamas de preta, e tu também, filho. Não
me envenenou, acho eu. Os pratos não se estragam por os negros
comerem neles. Boa ideia... a ideia de Hammond.
-Sim, siô, patrão. -Lucrécia Bórgia aceita o inevitável -Tu quer que
aquele nêgo tem também um garfo, e um guardanapo pra limpá ele,
e uma cadeira pra sentá? -perguntou com ironia.
-Acho bem. Porque não? -disse Hammond.
-E o outro também -acrescentou o pai. -0 que um tem o outro
também deve ter.
Meg sabia que a entrevista terminara e correu para a cozinha.
Comia o que Alph deixara na travessa partida quando Lucrécia
Bórgia entrou, a resmungar. Ele ouviu Ham afirmar que era dele,
mas escondeu a alegria.
-Que diz o patrão? -perguntou.
-Patrão diz que tu não é melhor que Alph. É o que patrão diz.
Patrão diz pra tu comê o jantá. Queres outra perna de galinha? respondeu
ela, e depois explodiu: -Linguareiro!
Lucrécia Bórgia viu o rapaz comer até se fartar. Depois de ele ter
armazenado quanto podia, agarrou-o nos seus grandes braços,
atravessou a cozinha com ele ao colo e sentou-se num banco baixo
em frente do lume. Apertou-o dolorosamente contra o seu corpo



enorme e quente e as suas lágrimas caíram sobre a cabeça dele. 0
seu anjo caído, o seu cordeiro perdido. Vacilava entre a execração e
a devoção. Gostava dele como seu filho; odiava-o como seu rival. A
natureza dele era semelhante à sua.

Capítulo sétimo

-Mas eu não quero casar-me, pai. 0 que eu quero é um lutador preto
-respondeu Hammond à solicitude do pai. 0 desejo que o velho
Maxwell sentia de ter um neto, branco, seu herdeiro, era persistente.

A ceia terminara e ambos estavam sentados, descontraídos,
bebendo os seus toddies em frente da lareira. A noite estava suave,
mas a lareira era confortável. Meg correra a descalçar as botas de
Hammond, substituindo Meirmon nesse dever. Ajoelhou-se em
frente de Hammond e puxou com força, e, quando uma das botas
deslizou subitamente, caiu de costas. Descalçou as meias de
Hammond e, em vez de secar os pés com as mãos, como Mem fizera
na noite anterior, Meg inclinou-se para a frente e enxugou-os na sua
carapinha. Antes de enfiar a pantufa no segundo pé, abraçou-o e
esfregou o rosto contra a carne branca. Esperava que lhe ralhassem,
mas Hammond não notou o gesto nem o sorriso interrogativo e
tímido que se lhe seguiu.
-Podes ter uma mulher e um lutador, acho eu. Ou queres dormir
com um lutador?
-Além disso, não conheço brancas -objectou Hammond.
-Olha, olha, há a miss Daisy Prescott, da Plantação Somerset. Boa
família, os Prescott e ficava doida se te tivesse.


-Sim, conheço a miss Daisy Belle. Muito respeitável e tudo o resto;
muito bonita, para quem gosta de morenas. Mas a miss Daisy Belle
é mais velha do que eu; vai ficar solteirona. Deve ter vinte um,
talvez vinte e dois anos.
-E há a tua prima, a miss Blanche Woodford, se gostas delas louras
e novinhas. Não deve ter mais de dezasseis anos e tem cabelos cor
de trigo, pelo menos tinha, quando eu a vi. Lembro-me dela.
-Pois eu não -negou Hammond.
-Sim, lembras-te. Fomos à Plantação Crowfoot com a tua mãe para
visitar a prima Beatriz, eras tu pequeno. Essa miss Woodford é
prima da tua mãe, uma Hammond também filha do velho Orestes
Hammond que era irmão do Theophilus, o pai da tua mãe.
-Como é que consegue lembrar-se disso tudo, de quem é parente de
quem?
-É importante. E preciso saber em quem se pode confiar. No
próprio sangue. Orestes Hammond não é um homem como o velho
Theophilus, era um bêbedo, matou-se com a bebida. Seja como for,
era um Hammond; bom sangue. 0 major Woodford, pai da miss
Blanche, também é de boa família; a mãe dele é uma Sitwe11.
Recebeu a Plantação Crowfoot pelo lado dela; aumentou-a e
construiu por ele próprio uma nova casa grande.
-Onde é Crowfoot?
-Para lá de Briarfield que fica depois de Centerville, perto dali, acho
eu. Toda a gente por esses lados conhece o maior Woodford e
Crowfoot.
-A cerca de cinquenta milhas, não?
-Talvez sessenta, ou mesmo sessenta e cinco.
-Não é o sítio onde um rapaz atrelou um bode a um carro e me
deixou guiá-lo?
-Isso mesmo. já te lembras. Esse rapaz era o Richard, mais velho do
que tu. Depois há outro rapaz, mais novo que tu, chamado Charles,
parece-me. Depois a miss Blanche. E ainda havia outro, um bebé,



rapaz ou rapariga, não me recordo, mas morreu. A Blanche é a mais
nova viva. Gostaste muito daquele bode!
-Não me lembro da rapariga.
-Eras muito novo, nessa altura. Tinhas talvez cinco anos. Foi antes,
antes de eu te dar aquele pónei castrado.
-Nunca tive nada com uma branca. Não sei o que havia de fazer confessou
Hammond.
-Olha, se vires uma que queiras, pedes ao pai dela se podes falar
com ela. Ele diz que sim e então podes ir ter com ela. É só isso.
-Não me refiro a isso. Refiro-me a ir para a cama. Ir para a cama
depois de casar. Que se deve fazer?
-Não te rales com isso. Farás tudo bem. Não há problema. A
rapariga também não sabe o que há-de fazer, desde que seja
decente.
-Tratam-se como a uma fêmea negra?
-Tal como uma fêmea. Quer dizer, não exactamente. Uma negra
sabe * que tu vais fazer. A branca não sabe, da primeira vez. É
recatada. Começa * chorar. Talvez grite e berre.
-E não deixa?
-Tu gostas dela e beíja-la e ela no fim deixa-te.
-Beijo-a? Não sou muito bom a beijar.
-Beijas bem se gostares de a beijar. Sei que não beijas as tuas
fêmeas. Mas às brancas, temos de as beijar.
-Eu beijava a minha mãe, quando era pequeno.
-Claro, claro. Quero dizer que não beijas as tuas fêmeas de cama.
Divertes-te com elas e manda-las embora. Se arranjares uma branca,
não lhe falas nisso. As brancas não gostam que se lhes fale nisso,
mas submetem-se, submetem-se ao marido. É o dever delas, o seu
dever de mulheres casadas. Por vezes são lentas, é preciso
prometer-lhes qualquer coisa, um chapéu novo, ou coisa parecida.
Mas submetem-se. Pelo menos a tua mãe fê-lo.
-E não se pode termais fêmeas? Que se faz quando a nossa mulher
fica velha, com vinte cinco, talvez trinta anos?



-Claro que se tem fêmeas, na mesma. Não se fala delas em frente da
nossa mulher, mas ela sabe que as temos. Ela quer que as tenhamos.
Evita-lhe ter de submeter-se.
-Uma branca é melhor que uma negra?
-Melhor? Não, não me parece. Mas é preciso ter uma mulher para
se ter filhos; filhos brancos, quero eu dizer, filhos como deve ser,
mesmo nossos, crianças propriamente ditas.
-Eu sei. Eu sei disso.
-Outra coisa. Não te podes despir totalmente quando fores para a
cama com uma branca. Conserva sempre a camisa e as ceroulas.
Uma branca fica furiosa se vê um homem nu.
É pouco prático, não é? Não é tão incómodo como a camisa que ela
usa para nós não a vermos. Usam uma camisa abotoada até ao
pescoço, que chega ao chão; cobre-as todas.
-Em Nova Orleães não. As mulheres brancas de lá despem-se todas.
Vi, na minha última viagem ...
-Putas. São putas. Isso é diferente. Não são muito melhores do que
as negras. Algumas delas nem tanto -declarou Maxwell enojado. Deixam-
nos ver as mamas nuas, até nos deixam mexer-lhes.
-São bem bonitas, de pele branca e tudo.
-Não quero apanhar-te a andar atrás de putas brancas, filho.
Apanham-se bichos delas e blenorragias, e tudo isso.
-Eu não, pai, eu não, mas vi disso.
-Quando fores a Nova Orleães outra vez, no próximo Outono, é
melhor levares a Dite, ou outra qualquer. Sabemos que as nossas
negras são limpas; não te transmitem nada disso.
-Não posso levar a Dite. Deve estar a dar à luz no Outono.
-Ficou grávida? Tens azar comas tuas raparigas. Se andas coma
Dite é capaz de ter um bebé bonito. 0 teu outro é mesmo de
primeira. Estás a ficar @mais velho e mais forte; o teu novo bebé
deve ser melhor ainda.
-Não tive ainda nenhum com um joelho rígido. É a primeira coisa
que veio nos meus miúdos.



-Não é provável, pelo menos na primeira geração. Talvez apareça
nos teus netos, não em todos, evidentemente, talvez nem em
nenhum.
-Gostava de conservar os meus, as fêmeas, pelo menos, para
criação.
-Boa ideia. 0 sangue dos Hammond há-de dar certa categoria aos
pretos. Mas não lhes entregues o teu filho, esse joelho é capaz de
parecer, vindo de ambos.
-Não tenho um filho ainda, pai. Não tenho um filho branco.
-Vais ter. Vais ter -predisse MaxwelI, confiadamente.
-Talvez vá até à Plantação Crowfoot ver a prima Blanche Woodford
na próxima semana, ou na outra, antes das colheitas. Pode ficar só?
-Para isso claro que posso. Não preciso de fazer nada. Até descansa
os negros, antes da colheita. Qualquer coisa que haja a fazer,
guardo-a para quando voltares.
-É uma longa viagem, só para ver uma mulher, para ver se a quero
ou não.
-E à volta podes passar pela Coign e pedir ao velho Wilson que te
empreste o mandingo velho para a Pérola Grande e para Lucy.
Acho que ainda o têm em Coign.
-Leva mais um dia, talvez dois, se as estradas estiverem boas?
-Levas o tempo que quiseres. Estou interessado, bastante mesmo,
naquele mandingo. E podes procurar o tal lutador que queres.
-já tinha pensado nisso -disse Hammond.
-Se calhar pensaste mais nisso que em arranjar mulher.
-A ideia de uma mulher desencoraja-me. Mas acho que todos os
homens têm que ter uma.


0 relógio interrompeu a conversa, tossindo a hora errada. Eram oito
horas, contando com o erro de um quarto de hora.
-Não me agrada nada deitar-me tarde, como na noite passada.
melhor subir -disse Maxwell, bocejando. -0 Merimon que trate de ti
primeiro, pode depois vir tratar de mim e do garoto.



Hammond beijou o rosto manchado de tabaco do pai e afastou-se a
coxear, seguido por Mem que transportava as suas botas. 0 velho
escutou os seus passos desiguais, escada acima.
Quando o jovem se aproximou do cimo da escada, a vela que Mem
segurava iluminou uma figura pequena que se levantou do último
degrau e se verificou ser Meg.
-Que fazes a pé a esta hora? -perguntou Hammond.
-Tou à espera pra servir o meu patrão, siô.
-Para me servires?
-Sim, siô, patrão. Eu quer despir-te as calças e meter tu na cama,
patrão, siô, por favô, siô.
-És muito pequeno. Vai para a tua esteira, para o pé da tua mãe.
-Eu é forte, siô, patrão, mêrno se eu é pequeno. Eu é o teu nêgo, siô,
patrão. Não é o teu nêgo?
-Está bem. Está bem. Dá-lhe a vela, Mem, e as botas. Mem tinha
preparado uma desculpa para se livrar do castigo e estava à espera
de ficar a sós com Hammond para suplicar a sua simpatia. Ficou,
conseqüentemente desapontado com a interferência de Meg. Estava
salvo durante o dia seguinte e talvez conseguisse fazer o seu
discurso enquanto ajudasse Hammond a tomar banho, de manhã.
Contudo, obcecado pela hipótese de se castigado, não podia
esperar.
-Tu não vai castigá o Mem amanhã, patrão? -Mem falava de si
próprio na terceira pessoa quando desejava obter compaixão.
-Não, amanhã é domingo. Teremos de adiar.
-Tu não magoa o Mem, patrão, siô. Não magoa o Mem. 0 Mem
gosta de ti, patrão. 0 Mem é o rapaz do patrão -suplicou.
-0 Mem é o negro preguiçoso do patrão. -Não te vai doer muito, só
uns toques aqui e além. Só umas pancadinhas no teu lombo e
aquela pimentade esfregada por cima, para te curar. Durante uma
semana ou duas sentas-te numa cadeira sem almofada.
-Pimentade? Pimentade não, patrão. Por favô, siô, pimentade não.
Faz um negro arder mais que o chicote.



-Muita pimentade. É material barato. Agora vai tratar do meu pai.
Vê se os pés dele ficam bem junto do estômago de Alph.
-Vai castigá muito o Meirmon, não vai, patrão? -Meg não queria
que o assunto ficasse esquecido.
-Acho que precisa bem -disse Ham, continuando a avançar pelo
hall.
-Posso ajudá, patrão, siô?
-Ajudar em quê?
-ajudá a castigá o Menirion?
És pequeno de mais. Não podes levantar a palmatória. Preciso do
Vulcano ou do Pólo ou outro no gênero.
-Eu pode esfregã aquela coisa, aquela coisa que faz ardê.
-A pimentade?
-Sim, siô, a pimentade. Tu vai esfregá o meu rabo com pimentade
quando tu castigá eu? -inquiriu Meg com ar deliciado.
-Tu não precisas de castigo. És um bom negro; trabalhas bem.
-Eu é o teu nêgo, patrão. Eu é o teu nêgo.
-Sim.
-Se eu tivesse um nêgo, eu castigava ele. Pra ele sabê bem que era o
meu nêgo.
-Bom, talvez eu devesse castigar-te, já que tanto queres.
-Tu vai, patrão? Tu vai? -Meg parecia encantado com a ideia. Dite,
na sua esteira junto da cama, acordara, com a luz da vela e a
conversa. Ergueu-se sobre o cotovelo e perguntou:
-Onde quer eu, patrão, siô, na cama ou no chão?
-É melhor vires um pouco para a cama. Talvez eu te queira. Hoje
não precisava de lareira. 0 Mem está a ficar trabalhador. Aquele
castigo está já a resultar, antes de ele o receber.
-Mem não acendeu lareira nenhuma-disse Meg, corrigindo o
patrão.
-Eu acendeu aquela lareira.
Meg ajudou Hammond a despir o casaco. Depois Hammond
sentou-se numa cadeira baixa em frente da lareira e desabotoou a



camisa enquanto o rapaz se ajoelhava e lhe despia as calças e as
ceroulas. Meg alisou os cabelos das pernas de Hamniond e inclinou-
se, para colocar o rosto entre as pernas de Hammond, com uma face
encostada a cada coxa.
-Que estás a fazer, negro? Mas que é isso?
-Tava só a cheirá, patrão. A carne branca é tão bonita, os cabelos
das tuas pernas são tão bonito e macio. E tu cheira mêrno bem.
Umm! Umm!
-Preciso de me lavar, é por isso que cheiro assim -disse Hammond,
inclinando-se para que o rapaz lhe despisse a camisa e a camisola
interior pela cabeça.


Hammond ajoelhou-se na esteira de Dite para rezar e Meg ajoelhou-
se ao lado dele a ouvi-lo. 0 rapaz resistiu ao impulso de passar o
braço pela cintura do patrão. A atracção dos pêlos dourados e
abundantes era tão intensa como a que sentia pela carne rósea onde
eles cresciam. Quando Hammond se pôs de pé e trepou para a
cama, Meg apercebeu-se da mulher deitada ao lado dele. Olhou
com horror para o seu rosto sobre a almofada e o ódio dominou-o.
Desejou não somente matar Dite, mas também aniquilá-la. Desejou
que ela nunca tivesse nascido, ou melhor ainda, que tivesse nascido
preta e feia, e, pelo menos, que se encontrasse na cabana e não ao
lado do seu patrão, na cama. Meg apagou a vela com os dedos e,
não encontrando qualquer desculpa para ficar, saiu do quarto e
fechou a porta. Estendeu-se sobre o tapete do hall, o mais próximo
da porta que era possível. Pôs-se à escuta e, com angústia, ouviu os
movimentos, um ligeiro estalar da cama, o ruído das cobertas. Tinha
apenas uma vaga ideia do que se passava sob os cobertores, mas
sabia que, fosse o que fosse, dava prazer. Só quando ouviu Dite sair
da cama, para se ir deitar na esteira, Meg conseguiu conciliar o
sono.



Capítulo oitavo


Hammond passou a tarde inquieto. Não havia trabalho que
precisasse de ser feito. Pensou em ir a cavalo até Benson, mas as
estradas estavam péssimas e não haveria ninguém na taberna, a
menos que Brownlee tivesse sido atrasado pela lama, e Ham não
tinha qualquer desejo de voltar a ver Brownlee. Sentar-se junto da
lareira a beber toddies com o pai significava a repetição de planos já
formulados e a recordação de trivialidades que mais valia esquecer.

Para se libertar do aborrecimento, Hammond ter-se-ia dedicado
com gosto à tarefa ainda não saboreada de dar a Merririon o seu
castigo, mas era domingo. Para os Maxweli, o domingo não era um
dia de devoção mas de descanso, que os criados aguardavam
ansiosamente. Alguns dos escravos mais antigos, comprados em
plantações onde houvera serviços religiosos, ainda se recordavam
dos costumes da sua juventude e recitavam orações de domingo nas
suas cabanas. Os Maxwell nem sabiam disso. Não objectavam à
religião nas cabanas, mas também não a encorajavam. Objectavam,
sim, a que os negros aprendessem a escrever e a ler. Além de ser
contra a lei dos escravos, dava-lhes ideias sem as quais eles estavam
mais seguros e, por isso mesmo, mais felizes. Em Falconhurst não
era necessária justificação bíblica para a instituição da escravatura.
Ninguém a disputava. Não eram necessários sermões para que os
escravos obedecessem aos patrões. Para quê sugerir-lhes que existia
outra alternativa?

MaxwelI, ignorando Deus, evitava a necessidade de Lhe disputar
autoridade. Para quê introduzir na economia das plantações um ser
superior ao branco?
Hammond mandou vir o seu cavalo e cavalgou pela plantação.
Verificou que o rio estava a baixar e o perigo de inundação passara.



0 cavalo tomou o caminho, rio acima, até onde a ribeira de
SaintHeleri desaguava no Tombigbee. Ham observou três dos seus
negros jovens a pescar, com linhas e anzóis, e deteve o cavalo, para
falar com eles. Tinham apanhado quatro pequenos peixes-gato, mas
a corrente estava muito rápida e o sol demasiado pálido para uma
boa pesca.

Um dos negros tinha pisado uma moccasin corri o pé descalço, mas
a cobra deslizara para a água, sem tentar mordê-lo. Hammond
avisou o rapaz para que fosse mais cauteloso. 0 seu pai pagara
seiscentos dólares por aquele rapaz, quatro anos antes, e a
mordedura da inoccasin podia tê-lo morto.

Uma corça atravessou o caminho de Hammond; estava prenha, e
desapareceu no bosque. Mais adiante viu um lince, com duas crias,
a brinca num ramo. Disparou, procurando atingir a mãe, mas
falhou. Viu inúmeras codornizes e algumas narcejas. 0 cavalo
assustou-se corri uma cobra cascavel, demasiado perturbada para se
enroscar. A vida selvagem era tão abundante na propriedade dos
Maxwell que já não despertava o interesse de Hammond. Porcos
magros, reduzidos a apanhar o seu próprio alimento, afastaram-se a
correr, como animais selvagens. Passando por um matagal,
Hammond sentiu o cheiro de um gambá, mas o ofensor
desaparecera já.
Voltou através dos campos que destinava ao algodão, mas achou-os
muito ensopados para semear, tal como esperava. Estava
impaciente por se lançar ao trabalho e não podia iniciá-lo antes de
passar um mês.
Pouco havia que interessasse Hammond, no passeio que dera. 0 que
vira era demasiado familiar para despertar interesse. Regressou ao
estábulo e entregou o cavalo a um criado, dando-lhe instruções para

o limpar e escovar. Meg tinha-o visto partir e aguardava o seu
regresso no estábulo.

-Um toddy, patrão? Pode arranjá um toddy pra ti, patrão? suplicou
o garoto, seguindo o amo para casa.
-Acho que sim -respondeu Hammond, aborrecido e impaciente por
fazer qualquer coisa.
Viu Pérola Grande atravessar o espaço aberto entre as cabanas,
balouçando um balde de água sobre a cabeça. Era tão flexível e
graciosa a andar como a cobra negra que fugira à sua frente, ao pé
do rio. Pérola Grande também viu Hammond e, embaraçada pelo
diagnóstico do dr. Redfleld sobre a sua doença, andou mais
depressa, para evitar uni encontro directo.
Mas ele chamou-a e perguntou-lhe:
-já estás boa outra vez, Pérola Grande? Ela não podia baixar a
cabeça, para não entornar a água, e a terra recusou abrir-se para a
engolir. Apenas pôde responder:
-Sim, siô, patrão. Tá boa. Parece que não tinha nada, só dô de
barriga.
-A Lucy está na cabana?
-Sim, siô, tá em casa. Pérola Grande não queria que o patrão e a
mãe falassem da sua doença, como sabia ser a intenção dele, mas
não havia maneira de evitá-lo.

Hammond dirigiu-se à cabana. Meg quis segui-lo, mas o patrão não
lho permitiu. Disse-lhe que fosse para casa, preparar o seu toddy.
Baltasar largou a sua brincadeira, em frente da porta, para seguir o
patrão. Lucy estava a preparar verduras frescas, as primeiras da
época, que colhera para a ceia. Havia carne ao lume, numa panela.
-Tarde, patrão, siô. Entra. Entra. Tarde, siô. Bal, seu safado, sai
daqui. Não vê que o patrão chegou? Deixa eu rirá aquela tripé pra
tu sentá.
Lucy estava agitada com a honra de uma visita do seu jovem patrão.
Pegou num cabo de vassoura e começou a atiçar o fogo,
nervosamente.


-Boa tarde, Lucy. A Pérola Grande já está boa, outra vez?
-Não era nada, não era nada-depreciou Lucy. -Só tolice, acha eu.
As rapariga são assim.
-Pérola Grande tem vontade de ir para a cama comigo? -perguntou
Hammond, sem que ela notasse o seu embaraço.
-Ela quê, ela quê. Mas tu não que, pois não? -Lucy não podia
acreditar na sua boa sorte.
-E achas que eu devia fazer isso?
-Se apetece a ti, eu ficava muito agradecida, patrão. Pérola Grande
já tá a ficá muito grande pra não ter macho. Eu pensou pedir tua
licença pra ela andá com um daqueles preguiçoso. Claro, Pérola
Grande antes quê o patrão.
-Bom, então prepara-a. Lava-a bem, toda.
-Ela é limpa, aquela rapariga, patrão, siô.
-E pões na água daquele pó vermelho que a Lucrécia Bórgia te há-
de dar. Ela diz-te como é.
-Pó vermelho? -Lucy não compreendia.
-Para tirar o cheiro. Pérola Grande tem um cheiro muito forte.
-Tem, tem. E depois mando ela tê contigo a casa?
-Não te preocupes. Eu volto cá daqui a um bocado. A carne
concupiscente da Pérola Grande arrepiou-se com a antecipação, mas
a única coisa que conseguiu dizer foi:
-Obrigado patrão, siô. Obrigado, siô. Hammond saiu da cabana
com uma certa repugnância. Sentia horror à tarefa de que se
incumbira, duvidando da sua capacidade para a levar a cabo. E se
falhasse, quando chegasse o momento? Seria um choque para a sua
virilidade, se falhasse. Corno conhecedor de animais perfeitos,
sentia orgulho de Pérola Grande, gostava de exibi-Ia e demonstrar a
sua força, agradava-lhe passar a mão pelos seus flancos macios e
poderosos, como se fosse uma potra de carga; mas nunca tinha
pensado nela como um ser humano. Havia algo de bestial na sua
tarefa. Estava a ser usado corno um garanhão de serviço, como um
negro de criação. 0 pai esperava isso dele, a rapariga sentir-se-la


roubada nos seus direitos, Lucy perderia categoria, se ele não
ligasse à filha que guardara tão cuidadosamente para ele, os outros
negros consideravam-no como um direito do patrão, e, na medida
em que um patrão tinha obrigações perante um escravo, como um
dever do patrão. Omiti-lo não diminuiria a sua autoridade, nem
causaria desprezo excepto o seu próprio; apenas provocaria
estranheza, dúvida. Hammond sabia como as acções de um amo,
quer em actos quer em omissões, embora nada pudesse fazer
errado, eram observadas e recordadas por todo o pessoal.
Fornicar corri Pérola Grande afastaria o seu aborrecimento; e, se
tinha que fazê-lo, não valia a pena adiar.

Mal Hammond saíra da cabana de Lucy logo se iniciou a orgia de
preparações para o acontecimento havia tanto esperado. Trouxeram
uma banheira e Pérola Grande e Baltasar foram buscar água ao
poço; a quantidade suficiente para lavar a enorme rapariga exigia
três viagens de cada um deles. Não havia tempo para a aquecer,
uma vez que o patrão voltaria "daí a um bocado", e Lucy não sabia
se ele se referia a cinco minutos ou a quando lhe apetecesse, e ela
receara perguntar. Correu para a cozinha da casa grande, a pedir
sabão e o pó vermelho para tirar o cheiro, e Lucrécia Bõrgia levou,
de propósito, bastante tempo para ir buscá-lo.
-Depressa, depressa. 0 patrão novo vai violá Pérola Grande e eu
tem de límpá ela bem -ouviu Meg dizer Lucy a sua mãe. -Depressa,
por favô sínhora miss Lucrécia Bórgia.

Lucrécia Bórgia fingiu uma indiferença que não sentia, e Meg fez de
conta que não ouvia. As suas emoções eram confusas. Existia urna
ambivalência entre o seu ciúme por Pérola Grande e o seu orgulho
pela proeza do patrão. Mas nada podia dizer a Hammond sobre o
assunto. Ansiava por entrar nas confidências do patrã o, queria
informações, ansiava por fazer perguntas. Lucrécia Bórgia nunca


mais tirou os olhos da janela através da qual espreitava, para ver
Hammond atravessar a clareira até às cabanas.

Lucy nunca deixava o seu chão sujar-se, mas, para ter a certeza de
que estava limpo, mandou Baltasar lançar água sobre as tábuas,
para as esfregar de novo, enquanto ela se dedicava à toilette de
Pérola Grande.

Quando Pérola Grande meteu os pés na banheira, pouco espaço
ficou para o resto do corpo. Se ela se sentasse ou acocorasse, a água
corria para fora. Lucy utilizou um esfregão da louça como esponja,
ensaboando e esfregando o corpo de Pérola Grande. Depois, uma
vez que Pérola Grande não podia ser mergulhada na solução de
permanganato de potássio, Lucy obteve o mesmo resultado,
espremendo repetidamente a esponja sobre os ombros da rapariga e
mantendo o corpo molhado.
Pérola Grande estava demasiado excitada para sentir o frio da água.
Ouvia as ordens e ameaças de Lucy sem as escutar.
-Porta-te como uma sinhora. Faz tudo o que patrão Hammond diz,
como ele diz, tudo -instruiu-a Lucy. -Nã o pedes nada ó patrão,
nada. 0 patrão novo sabe o quê fazê e sabe o que vai dá a ti. Se não
te porta como uma sinhora, eu espanco tu, e o patrão novo pendura
tu plos calcanhar e arranca teu pele e deixa tu morrê. E nada de
peídos, mêrno que tu te sinta muito bem, não peida, ouviu? 0 patrão
Ham fica a chirá mal. Não pode tirá todo o cheiro de ti, com água
encarnada ou não, por isso não quer peidos. E não esqueça de dizê
obrigado ó patrão Ham. Mêrno que ele não dê nada pra ti, diz
obrigado. Cansa muito o patrão Ham violá todas as rapariga. Diz
obrigado a ele.
Lucy repetia os seus avisos, uma vez e outra, com variações.
Enquanto Pérola Grande se secava, Lucy correu à cabana de Dido
para espalhar a notícia e pedir uma colcha emprestada. Não
escondia a sua excitação.


-Dído -implorou -empresta tua colcha nova. Patrão Ham vai violá
Pérola Grande agora rnêmo e minha colcha tá suja. Eu sei que tu
quê guardá ela, mas é pró patrão Ham e eu sei que tu vai emprestá.
-Como é que patrão Ham deixou Pérola Grande ficá tão
monstruosa antes de violá ela? -disse Dido, para atormentar a mãe,
mas foi à arca e trouxe a colcha.
-Patrão Ham tem andado a espreitá Pérola Grande, pra deixá ela
ganhá mamas. Ele gosta delas com mama. Ele diz que Pérola
Grande é bem bonita.
-É melhó levá este almofadão também. 0 teu tá todo rasgado sugeriu
Dido.
Lucy correu para casa com a roupa de cama e Dido não perdeu
tempo a espalhar a notícia pela vizinhança, não se esquecendo de se
gabar de que a sua roupa de cama era melhor que a de Lucy.

Lucy fez a cama de novo, deu ordem a Baltasar para esvaziar a
banheira e se ir embora, para não voltar antes de Hammond chegar
e partir de novo.
-0 patrão Ham vai violá tua irmã e não quê um nêgo a metê seu
nariz aqui -explicou ao rapaz. -Se quê tua mãe, eu tá na cabana de
Dido.
Feita a cama e posto o quarto em ordem, Lucy reabasteceu a lareira,
voltou a sentar-se num banco junto do fogo e olhou para a filha.
-Tás bem bonita, Pérola Grande-foi o seu veredicto. -Claro, tu não é
clara, e é grande. Tu sempre foi grande, maió que qualqué bebé que
eu teve; menos aquele macho que nasceu antes, que o velho patrão
Wilson guardou pra ele quando o pai do patrão Hammond
comprou tu e eu. Ele o maio nego que eu já vi. Mas tu foi mais
difícil de nascê, Ele saiu mêmo bem de mim, como se tivesse
untado; tu tava ao contrário, de rabo pra fora. Quase mataste eu.
Gostava de sabê se o velho patrão Wilson vendeu aquele machinho
ou se tá na plantação Coign. já tá grande agora. É duas ou três
colheita mais velho que tu.


-Quem violou tu, mãe; da primeira vez? -perguntou Pérola
Grande.
-Meu patrão, claro-respondeu Lucy ingenuamente. -0 velho patrão
Wilson. Tá a ficá velho. Penso que já morreu, é tão velho. Era velho
e fraco, mas rebentou eu muito bem antes de dá eu pró teu pai.
-Tu não acha que o patrão Hammond vai levá eu prá casa grande
pra sê sua fêmea de cama? -disse Pérola Grande, cheia de
esperança.
-Que disparate de conversa! 0 patrão não quê uma giganta como tu
prá sua cama. Quê mulheres clara e pequena como Dite. Dido diz
que ele tá olhando prá Tense, mas tá inda pequena.
-Tu diz que eu é bonita.
-Tu é bonita, mas é grande e muito escura. É boa pra criação, talvez
pró patrão. Mas não prá cama. Não tá satisfeita?
-Tou, sim.
-0 patrão novo vai violá ela e não tá satisfeita! Quê sê fêmea de
cama dele!

Quando Hammond saiu da casa grande, havia mais olhos a
observá-lo do que ele suspeitava. Lucrécia Bórgia viu-o sair, através
da janela da cozinha, e resmungou cheia de inveja. 0 ciúme de Meg
era ainda maior. Tinha vontade de pedir para ir mas não ousava.
Por trás dos arbustos e às esquinas das cabanas, espreitavam rostos
negros e todos sabiam qual a tarefa do patrão e invejavam a Pérola
Grande a honra que sabiam que ele ia fazer-lhe.

Lucy e Pérola Grande levantaram-se quando viram o patrão. Este
entrou na cabana, despiu o casaco ecolocou-o sobre um caixote que
servia de mesa. Desafivelando o cinturão e colocando a pistola ao
lado do casaco, disse:
-Pronto, Lucy, podes ir para a cabana da Dido ou para outra
qualquer, mas vigia aquela porta e conserva os negros fora daqui.


-Pérola Grande porta como uma sinhora, agora. Faz o que o patrão
diz ou ele castiga tu. Tá uma boa vassoura ao pé do fogão, se precísá
dela, patrão.
Não te rales, Lucy. A Pérola Grande não vai precisar de vassoura. É
melhó, é melhó -ameaçou Lucy, fechando a porta atrás de si.
Quando Hammond saiu da cabana, sentia-se ao mesmo tempo
exausto e satisfeito. A tarefa tinha sido mais difícil mas mais
agradável do que esperava. Sentia o prazer do dever cumprido,
uma vaga pena de que não estivesse ainda por fazer. Ardiam-lhe as
costas por os dedos poderosos de Pérola Grande nelas se cravarem,
mesmo através da camisa, e o ombro doía-lhe das suas dentadas.


Quando Lucy regressou, encontrou Pérola Grande ainda na cama, a
chorar e a rir.
-Que tá tu a chorá, nêga? 0 patrão Ham magoou tu?
-Não, não. Patrão Ham é muito bom. Eu ama o patrão Ham.
-Teve que castigá tu?
-Não siô, não siô. 0 patrão não bateu nunca. 0 patrão Ham é um
branco bom.
Hammond não receava a desaprovação do pai; receava, sim, o seu
riso de aprovação. Decidiu adiar a narração do seu feito, para que o
incidente mergulhasse na rotina da plantação quando o pai viesse a
saber dele. Mas não contava com a má língua dos negros. Lucrécia
Bórgia e Agamérririon já tinham dado à língua junto de MaxwelI,
que já notara a perturbação inquieta de Meg, e que a atribuía a uma
descompostura ou chibatada que Hammond tivesse dado ao garoto.


0 pai bebia os últimos golos do seu copo quando o filho entrou.
-Meinnon -chamou. -É melhor beberes um toddy filho. 0 uísque
há-de fazer-te bem depois desse esforço. A Pérola Grande é
muitíssimo forte -disse MaxwelI, entrando no assunto.
É grande, é. Que tal achas a carne negra? Igual à clara, se se fechar
os olhos. Penso que a branca não será diferente, tirando o cheiro.



-É a mesma coisa. É a mesma coisa. Estou satisfeito por teres
chegado a essa conclusão. Estás cansado, Ham?
-Um pouco, só um pouco. Sinto-me bem.
-Vais passar a ir ter com Pérola Grande regularmente -predisse
Maxwell.
-Talvez -admitiu Hammond. -0 mais difícil foi a primeira vez. Um
patrão é urna espécie de garanhão; fornica quer tenha cio ou não.


Capitulo Nono

-Vai ao rio, lava-te todo muito bem e vem ter comigo ao estábulo disse
Hammond friamente a Merririon, na manhã seguinte ao
pequeno-almoço.
Meinnon começou a choramingar.
-0 patrão vai castigá o Merririon. Não castiga o Mem, patrão, siô,
por favô, siô. 0 Mem tá doente, patrão. Não pode castigá um nêgo
doente, patrão -Eu disse para te ires lavar e vires ter comigo. Não
falei do castigo.
Ham geralmente abstinha-se do seu toddy após o pequeno-almoço,
mas naquela manhã sentiu necessidade de um. Meg preparou as
bebidas, uma para cada um dos patrões, antes de se sentar a tomar o
seu pequeno-almoço na cozinha, com Alph. Comeu apressada e
nervosamente. Receava que Hammond fosse para o estábulo sem
ele.
Estava à porta, com a palmatória de couro na mão quando
Hammond saiu.
-Dá cá -ordenou Ham.
-Mas eu também vai -protestou o rapaz, duvidoso.



-Quem disse?
-Disse tu -afirmou Meg. -Eu vai esfregá aquela coisa ... a ... tu disse
que eu pode.
-A pimentade? Bom, vem lá. Acho que disse.
0 primeiro adulto que encontraram foi Napoleão que tinha sido
suplantado no afecto de Lucrécia Bórgia pelo mais fértil Mem. Era
um rapaz claro e forte, pouco mais velho do que Hammond, pois
tinha dezanove, possivelmente vinte anos.
-Vem Pólo: preciso de ti -disse Hammond. Pólo viu a palmatória e
começou a protestar.
-Não castiga eu, patrão. Eu não fez nada, patrão? A sua inflecção
transformou a afirmação numa pergunta.
-Não te aflijas. Não penso castigar-te, Pólo.
-Vai castigá Merrinon. Eu vai esfregá 'quela coisa -elucidou Meg.
-Não podes manter a boca fechada -avisou Hammond. Estava
preocupado, relutante em desempenhar a tarefa que o esperava.
Contudo, passou os olhos por Pólo, imaginando quanto pagariam
por ele no Outono em Nova Orleães -mil e quinhentos ou mil e
oitocentos dólares, talvez dois mil, se a procura de negros
continuasse a aumentar. Pólo era um negro preguiçoso, não muito
vivo, apenas suficientemente esperto para se livrar do trabalho e
evitar castigos. Contudo, era um rapaz forte, direito, bem
proporcionado, com boas feições, quase bonitas, e covinhas no
rosto; as suas falhas não o tornariam mais barato. Hammond notou
que Pólo tinha os músculos flácidos, pouco duros; não era cedo
demais para começar a prepará-lo.

As portas duplas do estábulo abriram-se e as moscas azuis
zumbiram ao sol. Um carro de quatro rodas e um cabriolé surgiram
nas sombras do interior cavernoso. Nos cantos da sala principal
havia teias de aranha nas quais tinham ficado presos pedaços de
feno, poeiras e outros detritos. Hammond notou que algumas selas


pouco usadas, penduradas na parede, estavam cheias de pó e a
precisar de óleo.

As pranchas que atravessavam o chão estavam desgastadas pelos
anos, e as fendas entre elas estavam cheias de poeira. A viga que
suportava a edificação estava arqueada pelo peso do feno no
palheiro e já não estava a prumo, se é que alguma vez estivera.
Algumas manchas de cal ainda aderiam às paredes, perto do tecto,
mas tinham passado a um tom cinzento, por acumulação de poeira.

0 garanhão de Hamiriond relinchou para chamar a sua atenção, ao
sentir-lhe o cheiro, e Hammond foi à sua baia para lhe afagar o
focinho. As éguas e mulas que estavam por trás do garanhão
ignoraram a presença de Hammond, embora o som dos seus cascos
e os seus resmungos anunciassem a sua presença. As portas das
outras balas, que serviam de dormitório, estavam abertas.
-Leva esses negros para fora do celeiro e diz-lhes que os quero
longe daqui -ordenou Hammond a Pólo. -Procura bem nas baías e
corre-me com eles todos. Onde está aquele Mem? Será que tem
medo? Estará escondido?
-Ali vem Mem, agora, patrão, siô, Ali vem ele -anunciou Meg, de
fora.

Em todos os graus de adolescência, os rapazes negros, pretos,
castanhos, cor de ocre, tudo menos brancos, atarracados e altos,
gordos e magros, passaram a correr, a andar lentamente ou de
esguelha, pelo patrão, saindo do edifício. Passou perto dele um
adolescente feio, cheio de gânglios, com o cabelo encarapinhado de
um castanho próximo do ruivo, de olhos cinzentos e face cor de
açafrão semeada de sardas. Hammond ignorou os outros, mas
aquela desagradável combinação atraiu a sua atenção e tomou nota
para o vender. Não compensava alimentar e fazer crescer um
animal tão hediondo, mesmo que pudesse ser são. Porque não


pensara em oferecer o rapaz a Brownlee? Que fazia aquele ordinário
em Falconhurst?
Memnon parou junto da porta.
-Onde estiveste? Disse-te para te lavares e vires para aqui -foi a
saudação de Hammond.
-Tive a lavar, como tu disse, todo, bem. Patrão, eu tá doente. Eu não
quê ser castigado. Mem não precisa de castigo. Patrão, por favô, siô,
por favô, slô. Patrão, eu tá doente. Tem dô no barriga.
-0 Pólo já te vai arrancar essa dor. Espera aí. Despe-te.
-Esta corda está gasta. Aguentará? -Hammond falava consigo
próprio; depois disse a Napoleão: -Passa-a por essa roldana.


Pólo entrou numa das baias e enfiou a corda pela roldana final de
uma delas, fixas, à distância de um pé e meio entre elas, na viga
central do tecto.
-Tu vai pendurá eu, patrão? Eu ajoelha, eu dobra, eu fica quieto,
mas não pendura eu, patrão. Patrão, siô, nã o pendura o Mem. Por
favô, não.
0 negro, agora nu, estava aterrorizado.
-A roldana tá presa. Não anda -disse Pólo.
-Não é usada há muito tempo -disse Ham. -Limpa-a e põe-lhe
óleo. Vou usar as duas das pontas e esticá-lo.
-Não estica tanto eu, patrão. As minhas perna não chega tão longe.
Usa a roldana do meio, patrão, por favô.
-Mem, traz-me aquele garrafão de pimentade, a canecae a esponja.
Da última vez que foi usada, puseste-a naquela casa do canto.
-Não vai também pôr pimentade no Meni, patrão, slô? Aquilo
queima muito. Oh, patrão, patrão, por favô, a pimentade não!
Mernnon chorava, mas trouxe o garrafão coberto de pó e foi
procurar a caneca que continha a esponja sobre a qual se tinha
fixado poeira misturada com teias de aranha. Colocou tudo
cuidadosamente no chão, ao lado da bala onde o patrão estava
sentado.



Pólo tinha limpo e oleado a roldana que já funcionava, com um
rangido. Meg agarrou-se ao garrafão de pimentade, lutando com a
rolha que o fechava e acabou por arrancá-la corri os dentes.
Começou a deitar o líquido sobre a esponja suja que estava dentro
da caneca, até que Hammond reparou nele.
-Não deites ainda. Agita a garrafa, primeiro. A pimenta está toda
no fundo -explicou a Meg.
0 garrafão era demasiado pesado para o rapaz o poder agitar e
Hammond levantou-o e agitou-o. Meg, porém, inclinou-o e
despejou o seu conteúdo na caneca, para não cair para o chão.
Ensopou a esponja, espremeu-a voltou a ensopá-la. Ficou a segurar
na esponja saturada, pronto a usá-la quando necessário, esquecendo
a mistura escura que pingava nas suas roupas.
-Fecha as portas, Meg -ordenou Hammond. -Não quero os rapazes
por aí a ouvir a palmatória a cair. Assustam-se e não crescem.
A grande divisão ficou triste e escura, quando desapareceu o sol
que passava pelas largas portas.
-Agora deita-te -ordenou Hammond a Mem. -Não, de costas e
mais perto daqui. -Fez um laço corri a ponta da corda e atou-o
firmemente em volta do tornozelo de Mem. -Agora puxa, Pólo.
Merririon parou de protestar. Foi-se apoiando nas mãos e nos
braços, tentando proteger as costas do chão áspero, enquanto
Napoleão, do outro lado da corda, o içava. Os seus dedos podiam
ainda tocar no chão e aliviar uma pequena parte da tensão no pé,
quando Hammond gritou a Pólo:
-Basta. Ata aí.
0 rapaz ficou pendurado por um pé, com o outro agitando-se no ar.
As suas súplicas tínham-se transformado num simples "Patrão. Por
favô, siô, patrão", que Hammond ignorou.

Pólo entrou na baia e lançou outra corda pela roldana que estava
mais longe de Mem. Hammond enlaçou-a em volta do outro pé de


Mem e Pólo puxou a corda e atou-a, afastando assim as pernas de
Mem até à máxima distância que era possível abri-Ias.
Hammond agarrou-se a Mem pela cintura e acrescentou o seu peso
ao das cordas.
-Acho que aguentam bem -comentou -, mesmo que ele esperneie
muito.
-Oh, oh, meu pé dói. Oh, oh, patrão -gritava Merrinon, mas
Hammond tirando o lenço do bolso e enfiando-o na boca de Mem,
abafou o ruído. Merimon podia tê-lo retirado, mas estava satisfeito
com a mordaça. Os seus gritos eram involuntários.
-Tu fica cómico, aí pendurado. Gostava que miss Lucrécia visse tu
aí -disse Napoleão.
-Diz pra eu quando for esfregá a pimentade -disse Meg.
-Espera. Primeiro tenho que o desancar. Eu digo-te quando chegar
a altura -disse Hammond; fez sinal a Pólo, que avançou e ficou à
espera.


Hammond passou as mãos pelas coxas e nádegas de Mem e achou-
as moles. Sabia que não podiam ser duras, porque Mem não fazia
trabalhos pesados. Apalpou-lhe a barriga que não ofereceu
resistência.
Meteu a palmatória na mão de Pólo e explicou-lhe:
-Agora fica longe dele, assim. E faz pontaria ao rabo. Se lhe dás nas
pernas, não dói nada, mas não lhe batas nas costas. E afasta-te da
frente. Não lhe batas na barriga ou nos testículos. Percebeste?
-Sim, siô, patrão, Parece que sim.
-Eu digo-te quando deves começar a bater e quando deves parar. -
Hammond retirou-se para uma baia, encostada à parede. Não se
sentia muito bem. -Começa -disse.
Pólo tomou balanço e levantou a palmatória, medindo a distância
do alvo. Tentava esconder a sua alegria, mas não conseguia
controlar as covinhas da face. Bateu levemente no rabo de Mem,
mal lhe tocando. Depois deu-lhe três fortes pancadas que fizeram



com que o corpo pendente oscilasse ligeiramente. Os gemidos de
Mem eram audíveis mas não podia gritar.
-Não tens mais força, Pólo? -perguntou Hammond. -Isso até o
Meg podia fazer. Tenho que chamar um negro mais forte.
-Eu é forte, patrão -respondeu Pólo. -Tou a experimentá. Tou à
procura do jeito.
-Não estás a acariciar um bebé; estás a castigar um negro. A
pancada seguinte fez Mem oscilar e soltar um gemido que o lenço
não conseguiu abafar. A partir daí, a palmatória caiu a intervalos
regulares, lenta mas firmemente, cada pancada seguida de urna
pausa em que a vítima descansava, e depois nova pancada. 0
impacto do couro pesado sobre a carne flácida produzia um som
cavo, como se a carne fosse inanimada e não suportada por um
esqueleto. Através do lenço passavam sons abafados,
incompreensíveis e distorcidos. 0 corpo de Mem torcia-se e ele tirou
os dedos do chão e agitou os braços. Urna vez, uma só, colocou as
mãos por trás dele, para proteger as nádegas, e apanhou a pancada
nas articulações.

Havia pequenas marcas da primeira dúzia de palmatoadas, mas o
tegumento aguentava. Finalmente, a carne contundida rompeu-se e

o sangue esguichou através dos buracos da palmatória. 0 mal-estar
de Hammond transformou-se em náusea. Disse a Pólo que
esperasse. Saiu e fechou a porta atrás de si.
0 corpo balouçante de Mem ficou absolutamente parado. 0 seu peso
oscilante tinha esticado tanto as cordas que Mem podia tocar no
chão corri as palmas das mãos, aliviando assim a tensão dos
tornozelos. Levantou as mãos, uma de cada vez, e apalpou o
traseiro ferido e sangrento.
Pólo riu-se.
-Nêgo, Lucrécia Bórgia devia vê tu. Eu acha que agora tu não presta
prá Lucrécia Bórgia, m4rica mais vai prestá. Tá mêrno lindo com o


sangue a corrê. Inda vai ficá mclhó quando patrão voltá. Espera pra
vê o que ele faz a ti. Não vai matá tu, de certeza. Mas vai fazê tu um
nêgo bom, um nêgo bom, um nêgo bom.
A boca de Mem contorceu-se, num esforço para responder, mas
Pólo não podia interpretar os sons que dela provinham.
Hammond voltou ao celeiro, muito pálido. Tinha esvaziado o
estômago e sentia-se melhor.
-É melhor dares-lhe mais -disse estoicamente, sentando-se na baia.
Pólo voltou ao ataque. A pausa tornava a dor mais forte. No
intervalo, a carne ferida começara a arder. Hammond sentia-se
impelido a parar com o castigo, mas não conseguiu. Se não se
tivesse sentido mal, teria ordenado a Napoleão que parasse, mas
sentia-se envergonhado com a sua fraqueza. Tinha que provar a sua
dureza, que considerava como coragem. Tinha de provar a si
mesmo que podia castigar uni negro. Logo que ousou fazê-lo,
mandou parar o castigo. Pólo descansou a extremidade da
palmatória no chão; Hammond tirou-lha da mão e pendurou-a num
prego da parede.
Meg tinha estado a observar o castigo, pasmado, extasiado. Não
sentia ódio por Metririon, mas era aquele o destino condigno de um
negro, conceito esse que recebera de Lucrécia Bórgia, que era
suficientern ente bajuladora para evitar os castigos mas pronta a
submeter-se a eles se isso apetecesse ao patrão. Se não fosse o favor
de Hammond, o próprio Meg poderia estar ali pendurado, ferido e
em sangue. Meg tinha gozado a ignomínia de Mem devido ao
castigo aplicado por Pólo, por delegação do patrão, e pensou na dor
extática e maravilhosa que lhe provocaria o impacto da palmatória
impelida pelas própria mãos de Hammond. Tinha de facto aspirado
a tal martírio, mas não previra que o patrão delegaria a tarefa a
outro escravo. Isso tornou-o mais sóbrio. Decidiu escapar-se ao
castigo que antes tinha solicitado.
-Pronto. Podes trabalhar -disse Hammond a Meg. Estava sério;
embora fosse o seu dever, sentia-se contrito. Imaginava a agonia e o


terror de Mem. Calculava o ardor terrível que a aplicação da
pimentade iria provocar; e não a teria aplicado se não fosse a fé que
tinha no seu poder curativo. Não era desumano, mas, tendo
causado um ferimento, tinha que o sarar.


Meg tinha que se esticar para aplicar a esponja e, quando a
espremeu, correu tanto líquido pelo seu braço como pelas feridas de
Mem. Mem contorceu-se ao sentir a queimadura excruciante da
mistura acre e tentou gritar. 0 próprio Hammond desatou as cordas,
baixando Mem de modo a poder apoiar-se sobre os ombros, de
modo que Meg tinha de inclinar-se em vez de se estender. A cabeça
de Mem estava esticada para a frente, mas ele mudou de posição, de
modo que a sua face esquerda se encostasse ao chão. Tinha
transformado o lenço numa rodilha molhada e cuspiu-o sem o
notar. Tê-lo-ia podido tirar com a mão, mas preferia que os seus
gritos fossem silenciados.


Meg regressou da caneca com a esponja novamente embebida em
pimentade, que escorreu sobre o posterior de Meirmon. Mem uivou
com a queimadura.
-Au ... au ... u ... u ... por favô, patrão. Chega, patrão. Au ... au ... u ...
Agarrou-se aos tornozelos de Meg, as únicas coisas que tinha à mão.
Precisava de agarrar-se a qualquer coisa. Os seus gritos
transformaram -se em gemidos.
-Por favô, siô, patrão, siô -murmurou, sem sentido. A pimentade
espessa corria pelas suas costas e misturava-se com o sangue que
escorria; penetrava-lhe na carapinha e descia-lhe pelo rosto.


Hammond disse a Pólo que soltasse as cordas e descesse Mem. Meg
soltou-se, aos pontapés, das mãos de Memnon em volta dos seus
tornozelos e 'correu para a tigela para ensopar a esponja no resto da
pimentade onde a pimenta assentara. Pólo desatou uma corda e
soltou uma perna, e o rosto de Mem arrastou-se lentamente pelo



chão quando o peso na outra corda o colocou na vertical. A perna
livre agitou-se francamente quando Meg voltou a espremer a carga
final de pimentade sobre Mem, que perdera a sensibilidade e não se
contorceu com a fricção da esponja. Pólo soltou a segunda corda e o
corpo de Mem caiu de costas no chão. Estava demasiado exausto,
demasiado esgotado, demasiado aliviado, para se voltar. Não fez
qualquer esforço para libertar os tornozelos das cordas desatadas,
Hammond abriu uma das portas e empurrou a outra. A claridade
inundou o celeiro e o feixe de luz caiu diagonalmente sobre o corpo
de Mem, ficando a cabeça sob o seu calor e as pernas na sombra.


Hammond, sem se voltar, dirigiu-se para casa. Meg seguiu-o,
olhando para trás, relutante em abandonar a carnificina.
Encontraram o Maxwell mais velho que caminhava, sobre as pernas
reumáticas, em direcção ao celeiro. Tinha andado impacientemente
de um lado para o outro, no varandim, até ouvir o grito de Mem e
não pudera aguentar mais.
-Como está ele? -perguntou o pai.
-Está bem, vai ficar bom.
-Tiveste problemas? Correu tudo bem?
-Tudo bem -respondeu Hammond rapidamente.
-Deitou muito sangue?
-Não muito.
-Como estás tu filho? Devia ter eu próprio feito isso.
-Estou bem, pai. Apenas cansado. Acho que sou fraco. Penso que
não fui talhado para espancar negros.
-Tem de ser feito ... às vezes.
-Tem de ser feito ... às vezes -ecoou o filho.


Faz bem a Mertirion. Estava a precisar. Estava mesmo, andava a
mentir, a roubar e a preguiçar por aí. É melhor esse rapaz te ir
arranjar um toddy, filho. Não quero toddies, pai. Apetece-me deitar.
Hammond subiu a escada, com Meg atrás. Mandou o garoto



embora, entrou no quarto, atirou-se para cima da cama, com o rosto
voltado para baixo e procurou alívio nas lágrimas.

Capítulo décimo

-Olha quem ele é! 0 filho de Warren Maxweli. Conhecia-te em
qualquer lado. És tal qual o teu pai! -disse amavelmente o major
Woodford. -Beatríz, oh Beatriz, anda ver o filho da Sophie
Hammond. Ela não me ouviu; não ouve muito bem. Vem daqui a
pouco. Como vai o teu pai?
-0 pai anda mal, do reumatismo. Mas está a melhorar bastante. Está
a passar o reumatismo para um negrinho -respondeu Hammond.
-É um bom veneno, esse reumatismo. Eu tive um ataque há dois
anos. Arnica, mandei um criado esfregar-me bem com arnica todas
as noites, e assim me vi livre dele. Engoli alguma, também.
-Arnica? Não me posso esquecer, para dizer ao meu pai.
-0 teu pai e eu temos que ter qualquer coisa. Chegámos à idade,
parece. Ele está na cama?
-Não, não, está a pé todo o dia, mas não pode andar muito ou
muito depressa e não consegue montar a cavalo.
-Têm um bom capataz?
-0 capataz sou eu. Pelo menos é o único que temos. 0 meu pai não
gosta de produzir algodão com capatazes, diz que eles dão cabo dos
pretos para conseguir uma boa colheita.
-É certo, mas temos que cultivar o algodão. É a única maneira de
nos mantermos vivos e de impedir que os nossos negros morram disse
o major.


-A nossa terra está esgotada. Mal se consegue cultivar algodão,
mesmo que se faça trabalhar muito os negros -replicou Hammond.
-Tenho ouvido dizer que vão muito bem em Falconhurst. Dizem
por aí que têm feito bom dinheiro -sugeriu o maior.
-Bem, vamos vivendo e pondo um pouco de parte. Não é mau, não
é mau.
-E tu é que diriges tudo. És ainda um rapaz. Tens que ter muito
pulso.
-Tem de ser. Não há mais ninguém.
-0 meu Dick é mais velho do que tu, mas não posso contar com ele
para nada. Tenho-o em Centerville a estudar leis com o juiz Beritley.
Vou fazer dele advogado, se conseguir. Não serve para mais nada.
Não assenta. Só rouba, só rouba, a mim, é claro.
-Isso é mau -admitiu Hammond. -Mas há-de assentar, quando for
mais velho.
-Tenho que vigiar os meus negros para impedir que Dick os roube
para os vender e pagar as suas dívidas de jogo. Levou-me dois
machos, no ano passado.
-0 Dick era aquele que tinha o bode, não era?
-0 bode? -repetiu o maior.
-Sim. Quando era pequeno, vim aqui com a minha mãe, para ver a
prima Beatriz, e havia um rapaz que tinha atrelado um bode a um
carro,
-Lembro-me disso. Era o Dick.'Recordas-te desse bode? Que
memória! Não tinhas mais de seis ou sete anos.
-Cinco. Era tudo aquilo de que me recordava de Crowfoot, até
chegar aqui, esta manhã, e ver a casa. Então lembrei-me de tudo.
Veio-me tudo à memória.
-Não vieste cá durante todos estes anos? Pois não. Um pouco
desleixado, não achas? A que devemos a honra de te ver agora? És
sempre bem-vindo, sempre bem-vindo, em qualquer altura, mas a
que devemos esta honra?



-Bom, vim para estes lados para pedir emprestado uni velho macho
mandingo ao senhor Wilson, da Plantação Coígn. 0 meu pai tem
duas fêmeas mandingas de primeira e quer acasalá-las com o macho
do senhor Wilson. 0 pai é louco por mandingos, julgo eu. Acha que
não há negros como os mandingos.
-São bons, de facto. Não há muitos dos puros, por aí. Acho que são
muito difíceis de caçar, em África. Não vieram muitos para a
América, Há muitos em Cuba, ao que oiço dizer, e na Jamaica.
-Mas não há maneira de os apanhar.
-Agora não. Que lei tão estúpida! Lembro-me daquele macho
grande do senhor Wilson. Um autêntico bruto. Era enorme e bem
proporcionado, mesmo para um mandingo. já deve ser velho, no
entanto. Talvez ainda não esteja gasto e as fêmeas sempre são
jovens e vivas. Vais a Coign pedí-lo, hem?
-E passei por Crowfoot para os visitar. São os meus parentes mais
próximos. Isto é, a prima Beatriz é que é.
-É certo, é certo. Tu e o teu pai são os únicos Maxwell que restam.
Era uma grande família; e os Hammond extinguíram-se, por
qualquer motivo; julgo que a minha mulher e os meus filhos são o
teu sangue mais próximo. És casado?
-Ainda não -disse Hammond, corando.
-Devias casar-te. Impede que o sangue se acabe-argumentou o
maior Woodford.
-É o que meu pai diz. Ando a ver. Não conheço muitas raparigas
brancas.
-É o que há mais, podes ir colhê-las ao bosque. És um homem como
deve ser e herdeiro de uma boa plantação. És um bom partido.

Hammond sentia-se pouco à vontade. A elegância da sala de
Crowfoot, a mobília de nogueira, entalhada, em estilo Império
Americano, a carpeta imitação de Aubusson, o grande piano
quadrado com as suas pernas maciças, os cortinados de damasco
amarelo nas janelas altas, embora usados, os retratos baços em


pesadas molduras douradas, tudo isto impressionava tanto o rapaz
que aumentava a sua timidez.

0 major ergueu-se do sofá cor-de-rosa e enfiou os polegares nos
bolsos do colete, abrindo a sobrecasaca e mostrando a pesada
corrente de ouro, com os seus sinetes, que usava sobre o estômago
arredondado.
-Vamos procurar a miss Woodford, ou seja a tua prima Beatriz. Vai
ficar muito contente. Não lhe digo quem tu és; deixo-a adivinhar.

Começou a andar, com as suas pernas curtas, como se tivesse
pressa, mas sem pressa alguma, em direcção à sala, com a mão no
braço de Hammond, que coxeava ao seu lado, Encontraram a
mulher a ler a Bíblia, cujas linhas acompanhava com o indicador,
movendo os lábios. Não os notou senão quando se aproximaram
dela e assustou-se quando viu o hóspede não esperado, Observou
Hammond da cabeça aos pés e depois olhou interrogativamente
para o rosto do major, fechando o livro e erguendo a corneta
acústica, com um só gesto.
-Quem julgas que é? -gritou o major para dentro da maquineta em
forma de funil.
A mulher olhou Hammond de alto a baixo com um ar que lhe
pareceu de hostilidade, ou, pelo menos de indiferença.
-Não sei -disse finalmente numa voz alta, sem ressonância, a voz
oca de quem não pode ouvir as suas próprias palavras.
-0 filho de Sophie Hammond, Hammond Maxwell -explicou o
major para dentro da corneta.
-0 quê? Não oiço -disse ela, procurando o rosto do maior. -Não oiço
bem -informou, voltando-se para Hammond, como se isso não
fosse evidente.
-Hammond. Hammond Maxwell. 0 filho de tua prima Sophie vociferou
o major.


A mulher levou algum tempo a apreender a informação inesperada.
Um sorriso espalhou-se lentamente pelo seu rosto, enquanto se
erguia, deixando cair o livro do regaço.
-Quem diria! Hammond, primo Hammond. Tenho muito prazer
em ver-te, mesmo muito prazer -exclamou, lançando os braços
pesados em volta dos ombros dele e aplicando um beijo sobre a sua
boca embaraçada. -Donde saiste tu?
-De casa -respondeu Hammond, sem que ela o ouvisse.
-Ora esta! -disse ela, dando um passo atrás mas agarrando
firmemente os ombros dele, com os braços estendidos. -Ora esta! 0
filho da Sophie. Devia conhecer-te, devia conhecer-te logo. És a
imagem do tioTheo. Não é parecido com o tio Theophilus, maior?
-Mais com o pai. É tal qual o Warren -disse o maior em alta voz,
mas foi forçado a repetir mais alto ainda.


Hammond sentiu-se desapontado com o estudo em castanhos que
era a sua prima. Era uma mulher forte, de meia idade indefinida,
com o cabelo baço, castanho-escuro, severamente penteado para
trás, em volta da sua face amarelada e carcomida, com os olhos cor
de âmbar. A parte superior dos lábios finos, curta e coberta com
uma penugem escura, na qual não tinham ainda aparecido pêlos
espetados, afastou-se para revelar uns dentes separados, também
acastanhados, que avançavam sobre o maxilar inferior. O'seu
vestido de lã castanha, bem espartilhado, era simples e severo.
Apontou a corneta na direcção de Hammond, mas ele, a princípio,
quase não falou para dentro dela. Ela apenas apanhou metade do
que ele disse, mesmo depois de ele repetir, mas isso pouco
importava, pois inreressava-lhe mais o que tinha para dizer do que
aquilo que Hammond dizia.
-Como ficou o primo Warren? -perguntou e Hammond explicou-
lhe o estado de saúde do pai.
-Quando vieste?



-Passei por aqui. Dormi, na noite passada, na taberna de
Centerville.
-Foi pena. Podias ter encontrado Richard e dormido com ele. Ele
está em Centerville a estudar leis -regozijou-se ela. -Vai ser
advogado. Que queres tu ser?
-Não sei. Apenas um plantador, julgo eu -disse Hammond.
-Devias fazer-te advogado e entrar na política, como o Richard.
Acho que um dia será governador, ou coisa parecida.
-É mais provável que venha a ser jogador ou ladrão de negros
interrompeu o maior Woodford, em tom normal.
-Que dizes? A mulher voltou a corneta para ele.
-Nada -disse o major, abanando a cabeça.
-É capaz de ser qualquer coisa sobre o Richard. Tens má vontade
sobre o pobre Richard. Richard não é muito forte. Tens que lhe dar
desconto. Sempre favoreceu o Charles. 0 Charles é o meu segundo
filho -explicou a Hammond.
-0 Charlie não é ladrão de negros, por enquanto -disse o maior,
num tom que Beatriz não podia ouvir.
-Charles é mais novo do que tu. 0 Richard é mais velho. A Sophie
teve-te entre os nascimentos deles.
-Eu sei -gritou Hammond.
-E a Blanche, a Blanche ainda é mais nova. Tem dezasseis anos. É a
mais novinha. Onde está a Blanche? já devia estar pronta para ir à
igreja.
-Deve estar pronta, penso eu. Provavelmente está a enfeitar-se um
pouco mais, se souber que o Hammond está aqui -riu o maior.
-0 carro está pronto? -perguntou Beatriz.
-Vai estar-disse o maior, acenando afirmativamente. -0 velho Wash
está a atrelá-lo.
-0 Charles vai com ela? -perguntou a mãe.
-Não se pode contar com ele. Prometeu vir a tempo, mas não se
pode contar com ele. Não gosta nada de Ir à igreja -disse o major.



-Alguém tem de ir com a Blanche. Não pode ir sozinha com aquele
cocheiro negro -observou a mãe.
-Porque não? Está segara como velho Wash. É velho de mais para
lhe fazer mal -gritou o major.
-Não parece bem. Vão falar, na igreja -declarou Beatriz. -Não
percebo porque é que o Charles tem de ir a Centerville ver o
Richard todos os sábados, e não pode estar em casa no domingo,
para levar Blanche à igreja. Aqueles rapazes não se entendem em
casa.
-A Centerville para ver o Dick? -troçou o maior Woodford. -0
Charlie rala-se tanto com o Dick em Centerville como em Crowfoot.
Ele vai a Centerville para ver os negros a lutar, todos os sábados. É
isso que ele vai ver. Adora lutas de negros.
-Não devias deíxá-lo ir -queixou-se a mulher. -Isso leva-o a jogar.
Qualquer dia começa a jogar e a culpa é tua.
-Jogar! Com que é que ele pode jogar? Com os poucos dólares da
mesada talvez, Não se pode impedir um rapaz de jogar um pouco disse
o major com complacência.
-jogar a dinheiro é um pecado, como dançar e jogar às cartas, e
praguejar. 0 irmão Ben Jones disse isso no último sermão. Eu ouvi-o
pregar
-citou ela, com autoridade. -já não vou à igreja. Não vale a pena.
Não oiço bem, por isso fico em casa e leio a Bíblia e deixo os meus
filhos lá irem. É o mesmo, penso eu. Mas jogar a dinheiro é um
pecado, tão certo corno eu ter nascido. Na Bíblia não diz nada sobre
lutas de negros. Isso está bem, se ele gosta, mas jogar a dinheiro é
muito mau. Onde há lutas de negros, há jogo e eu não quero o meu
Charles corrompido. 0 Charles é um rapaz inocente e bom, mas
acaba por se tornar como o Richard, se não o afastas daquelas lutas.
-Não posso conservá-lo em casa, a menos que lhe ponha uma
canga. Está sempre a pedir que lhe dê um macho jovem para fazer
dele um lutador. Eu não lho dou, pois não? Não quero os meus
trabalhadores arruinados, todos moídos de pancada, com cicatrizes


ou cegos. Dou-lhe um negro para lutar, tem que ter outro para
apostar, talvez para perder. Não podes dizer que eu o ajudo e o
protejo na sua fraqueza -desculpou-se o pai.
-0 Charles não vem, porque não vais à igreja com a Blanche?sugeriu
a mulher. -Ela está decidida a ir, depois de se vestir e
arranjar.
-Sabes tão bem como eu que tenho aquele culto para negros.
Conheces a lei e sabes que não pode haver culto dos pretos, a menos
que lá esteja um branco para ver se eles não pregam revolta.
-Talvez o primo Hammond gostasse de levar a Blanche ao culto? sugeriu
a prima Beatriz.
-0 Hammond está cansado-objectou o marido. -Andou ontem todo

o dia a cavalo, e levantou-se hoje cedo para cá vir.
-Não estou muito cansado. Ficaria encantado por ir, se soubesse o
que fazer -ofereceu-se Hammond.
-Faz como em qualquer outra igreja. Somos baptístas.
-Do que tu precisas é de uma boa esposa crista, primo Hammond prescreveu
Beatriz. -Que te faça ir à igreja. Que salve a tua alma e te
leve a Jesus.
-Que se passa com o Charles? já estamos atrasados. Nunca cumpre
uma promessa -queixou-se Blanche, que entrou na sala, atando o
chapéu com fitas por baixo do queixo. Ao ver Hammond, parou de
repente e expressou a sua surpresa com um "Oh!".
-Vem cá querida, e beijão primo Hammond Maxweli, o filho da
prima Sophie Hammond -pediu a mãe a Blanche. -Não o via desde
rapazinho, eras tu ainda um bebé. Veio da Plantação Falconhurst
para nos visitar. Vai levar-te à igreja. Vem cá e dá-lhe um beijo de
boas-vindas.
A rapariga corou mas não mostrou relutância. Avançou e o rapaz
envolveu-a pela cintura e aplicou um beijo embaraçoso na sua
pequena boca petulante.
-Não sabia que tinha um primo como tu -disse ela.
-Só segundo, só segundo primo -explicou Hammond.

-Ouvia a mamã falar da prima Sophie, mas julgava que ela tinha
morrido.
-Sim, morreu. Era a minha mãe.
-Aí está o Wash com a parelha -disse o major Woodford,
espreitando pela ]anela. -É melhor irem, para não chegarem tarde
ao culto. Penso que o Charlie já não vem. Havemos de falar quando
ele chegar.
Blanche beijou a mãe, que não se levantou. 0 maior levou-os através
do vasto hall e acompanhou o par até ao varadim da frente, onde
ficou a ver Hammond a ajudar, desajeitadamente, a rapariga a subir
para o banco de trás da caleche e sentar-se ao lado dela. 0 velho
cocheiro cor de chocolate, com a sua libré já gasta, apareciou o
recém-chegado com aprovação, sem voltar a cabeça nem parecer
olhá-lo. Notou a afabilidade do seu patrão e a animação da rapariga
e depreendeu que havia neles a esperança de incluir o visitante na
família.

Para Hammond, sentar-se tão perto de uma branca era uma
experiência nova. Achava Blanche bonita, bela, mesmo. Queria
achá-la. Ela era, efectivamente, fresca e jovem, e o traio sublinhava-
lhe a figura. 0 vestido esvoaçante, de um fino tecido de lã creme,
com pequenas rosas-musgo estampadas, bem apertado na cintura
por uma faixa cor-de-rosa, envolvia-a do pescoço aos tornozelos. 0
espartilho fazia espetar o peito e havia uma sugestão de seios fartos
e firmes por baixo dos folhos do vestido, As largas abas do chapéu
com flores estavam encostadas aos lados da cara pelas fitas que
atara por baixo do queixo.

0 que Hammond conseguiu ver de Blanche satisfez a sua
inexperiência. Apreciou a pequenez da sua boca e atribuiu certo
conceito de beleza ao facto de a parte superior do lábio ser curta;
esta ao contrário da mãe, ainda não estava coberta por um buço.
Achou adorável o seu pequeno nariz, adenóide e apertado. Achou


divinos os seus olhos azuis-claros, embora o aborrecesse que o
espaço entre eles fosse muito pequeno. Não eram obscurecidos
pelas sobrancelhas finas e pálidas, da mesma cor do cabelo. Como
poderia Hammond saber que os caracóis que espreitavam por baixo
do chapéu eram feitos com um ferro de cabelo? E como podia saber
que o alternar entre a palidez e o avermelhado das faces dela
resultava da sua presença?

Hammond não notou os dedos bulbosos, com unhas roídas que
saíam das mitenes de renda preta de Blanche. Estava encantado
com o odor da rapariga, um perfume fresco, semelhante ao do
gerâneos rosados e perguntou a si próprio se todas as brancas
cheirariam tão bem. Nada de cheiro a catinga.
Mas tinha de habituar-se à brancura da pele feminina. A sua palidez
não lhe parecia saudável, como que leprosa, fria. Reconhecia a
beleza das louras, mas não a apreciava. Mas sabia que, se tivesse
uma mulher, teria que tolerar que ela fosse branca.

Hammond apenas podia imaginar os seus contornos, por baixo do
vestido. Se fosse uma escrava, despia-a para a examinar, mas, como
era branca, tinha que se contentar com a imaginação da sua carne
branca. A ideia fê-lo sentir-se enojado. Era melhor não a ver. Seria
injusto duvidar de que ela fosse virgem; Hammond envergonhava-
se de ter permitido que a dúvida penetrasse no seu consciente.
-As pessoas não vão acreditar que és meu primo -observou
Blanche.
-Porque não? Sou teu primo.
-Eu sei que és, mas nunca falámos de ti, não sabia nada a teu
respeito.
-julgava que toda a gente sabia que éramos primos. Eu sabia. 0 pai
sempre me falou de ti e da prima Beatriz, desde pequeno.
-Acho que a mamã se esqueceu de que tu eras tão bem parecido.


-Eu era um miúdo da última vez que ela me viu. Só me lembro do
teu irmão Richard e do bode que ele atrelou. Deixou-me guiar um
carrinho -recordou Hammond.
-Lembras-de de um bode e não te recordas de mim. Achas isso
bonito? -disse ela, num jeito amuado.
-Eras um bebé, nessa altura. Como havia eu de saber que te ias
transformar na linda rapariga que és? Nunca mais me esquecerei de
ti -disse Hammond, tentando a galanteria.
-Todos vocês dizem isso. Não achas realmente que eu seja bonita.
-Acho pois. Muito bonita e muito simpática -confessou Ham.
-Acho que não faz mal deixar um primo dizer isso, mas eu sei que
estás a enganar-me.
-Não estou a enganar-te. É verdade.
-As pessoas na igreja vão pensar que vamos casar-nos -sugeriu
Blanche.
-Porque hão-de pensar isso? -perguntou Hammond, aliviado por
ver que BIanche lhe estava a facilitar a conversa.
-Por nos verem ir à igreja juntos. Não sabem que somos só primos.
Se um rapaz leva uma rapariga à igreja, toda a gente pensa que vão
casar-se. É assim mesmo.
-Se calhar vamos -declarou Hammond.
-Vamos o quê? -insistiu Blanche.
-Se calhar vamos casar-nos. Que achas? Hammond zumbia mais
perto da teia.
-Tens uma plantação boa? Uma casa grande?
-Não é grande coisa. Pelo menos não é bonita como Crowfoot, mas
temos muitos pretos. Ninguém tem negros melhores que o meu pai
-gabou-se Hammond.
-Negros! -disse Blanche, com desprezo.
-Posso construir uma casa, o tipo de casa que tu quiseres. Tenho
andado à espera de casar para construir uma casa, uma casa bonita.
A casa que temos chega para o meu pai e para mim. 0 pai ia
construir uma quando a minha mãe morreu.



-Não penso em casar-me, não penso muito nisso, -disse Blanche,
voltando ao assunto.
-Mas gostavas?
-Estás a pedir-me? Estás a fazer-me uma proposta de casamento?
-Claro que sim. Não sei que devo fazer. Sou tímido, acho eu.
-Não nos conhecemos há muito tempo, mas...
-Somos primos, não somos? É diferente.
-Acho que sim -concordou ela. -Pediste ao papá? Ele disse que
estava bem? Ou pensavas fugir comigo?
-Não lhe falei ainda. Não tive oportunidade; mas vou fazê-lo. Não
tinha pensado em fugirmos ... a menos que ele diga que não.
-0 papá é muito exigente. Não sei o que te vai dizer.
-Se ele disser que sim, tu dizes que sim?
-Acho que digo-Hammond não se moveu e Blanche acrescentou:
-Mas não me beijes ainda. Pede primeiro ao papá. Só se for um
beijo de primo. Acho que isso não faz mal.


0 desejo não estava ausente em Hammond, mas era o de abraçar,
não de a beijar. Contudo, quando pôs os braços em roda do corpo
da rapariga, ela colou os lábios aos dele e recusou-se a largá-lo. E
assim ficaram, nos braços um do outro, esquecendo os saltos do
carro sobre as estradas más, até que viraram uma esquina
arborizada e encontraram Charles que regressava a cavalo, de
Centerville. Não o viram até ele chegar mesmo junto deles.
Charies agarrou as rédeas do cavalo do lado de fora e Wash fez
parar a parelha.
-Que é isso, a abraçar a minha irmã? A frente de toda a gente.
Apanhada de surpresa Blanche sentiu-se desorientada.
-E o primo Hammond, Charles, o primo Hammond Maxwell. É
Maxwell não é? Não me lembro bem. Não faz mal os primos
beijarem-se, pois não?
-0 pai sabe que saíste sozinha com este homem, com este primo
Hammond, ou lá corno se chama?



-Claro que sabe. Tu não cumpriste a promessa de ir buscar-me para
me levar ao culto, e o primo Hammond disse que me trazia.
-0 pai não sabia que tu vinhas beijá-lo e abraçá-lo, penso eu -disse
Charles. -Saiam desse carro que eu desmonto e já lhes digo.


Hammond fez menção de sair e Blanche empurrou-o para baixo.
-Não lhe ligues, Quem pensa ele que é, para nos bater? Não era
capaz de bater num cachorrinho.
Provavelmente Blanche tinha razão. Além de ser jovem, Charles era
frágil, de pernas e braços compridos, ombros estreitos, peito metido
para dentro, pele anémica. Tinha os olhos tortos e era impossível
perceber ao certo para onde olhava. Apesar da sua magreza e dos
ombros curvados estava à vontade na sela e montava bem.
-Não quero sarilhos, primo Charles -disse Hammond -mas se quer
lutar, lutamos. A sua irmã e eu vamos casar-nos e eu gostava que
fôssemos amigos.
-E se contas ao papá que nos estávamos a beijar, conto-lhe o que tu
me fizeste -ameaçou Blanche.
-Isso foi há dois ou três anos; ninguém vai ligar a isso. Aliás, és tão
culpada como eu -respondeu Charles.
-Estou a avisar-te para não lhe dizeres. -Blanche sabia que a sua
vantagem teria efeito, tal como antes. -Tu também não dizes nada,
Walsh.
-Eu não tem nada pra dizer. Eu tava a guiá a parelha -respondeu o
cocheiro. -Eu não tem dois par de olhos.
-Bom, continua, e põe os cavalos a trote -ordenou Blanche. -já
vamos atrasados para o culto.
0 carro avançou e Charies dirigiu-se para Crowfoot.
-Esta estrada... -começou Walsh.
-Não interessa, não interessa. Deixa-te de responder. Eu disse a
trote -disse Blanche peremptoriamente.



Cerca de duas horas mais tarde, os cavalos, cansados, puxavam o
carro pela álea de ulmeiros e paravam em frente da mansão
Crowfoot. Quando Hammond e Blanche desceram, viram no
varandim o major Woodford em alegre conversa com um homem
de meia idade, grande, de bigode, com um aspecto autoritário e
importante. Um negro levava um pesado cavalo de sela para o
estábulo.
-Venham cá, venham cá -Insistiu o maior. -Lembra-se da Blanche,
coronel Butler? Ela e o primo foram à igreja.
-Claro, claro, lembro-me dela. Cresceu bastante. E está bem bonita.
Se eu fosse mais novo... -elogiou o homem grande.
-Este é o primo da minha mulher, o senhor Hammond Maxweli,
que veio visitar-nos. 0 coronel Jim Butler. 0 coronel Butler anda por
aí a falar sobre a eleição do general Jackson outra vez, no próximo
Outono. Vai falar em Centerville, amanhã à noite.
-Espero que vote no general outra vez, senhor Maxwell -disse o
coronel Butler. -Claro, nem se duvida.
-Não posso votar... ainda -respondeu Hammond, corando pela sua
juventude.
-Bem, pelo menos apoie o general Jackson; faça propaganda dele. É

o mesmo. Para a próxima vez já vota, penso eu, na Vanguarda. -0
coronel pôs de parte o assunto mais próximo do seu coração. -
Maxwell? Maxwell? Não tem qualquer relação com o Warren
Maxweli, perto de Benson?
-É filho de Warren -interrompeu o major. -Não imaginava que o
Warren tivesse um rapaz como este, pois não?
-já estou a ver a semelhança. Ora esta, não sabia que eram de
família, juro.
-Vai para dentro, tira o chapeu e prepara-te para o jantar. O jantar
está quase pronto -sugeriu o maior à filha. -Nós ficamos por aqui.
-Muito bonita, muito bonita -disse o coronel, vendo Blanche partir.
-Está interessado nela, não está senhor Maxwell? Veio fazer urna
visita? Veio fazer-lhe a corte, diria eu.

Hammond desejou não corar tão facilmente.
-Vamos para a estufa tomar um uísque antes de comer -sugeriu o
maior. -A minha mulher não me deixa beber em casa. É a própria
Temperança.
-É melhor não ofendermos miss Woodford -objectou o coronel
Butter.
-Não é ofensa. Ela sabe que eu bebo. Só não quer uísque dentro de
casa. Raio de ideia do pregador. A sua jurisdição não chega à estufa.
-Um copo caía bem. Só um copito -disse o coronel, enquanto se
dirigiam para a estufa.
-A visita do coronel Butter significa que terás de dormir com o teu
primo Charles -explicou o anfitrião a Hammond. -Espero que não
te importes. A cama é larga. Charles é limpo. Lavou-se todo ontem
para ira Centerville.
-Por mim está bem, só se Charles não quiser -declarou Hammond.
-Fomos apanhados de surpresa, com tantos visitantes ao mesmo
tempo. Geralmente há muitos quartos, mas o senhor Satherwait e a
mulher vêm cá passar a noite. São amigos de igreja da Beatriz e vão
para Mobile, creio eu. São muito piedosos.
-Não quero incomodar -disse o coronel Butler. -Posso ir para
Centerville.
-Nem pensar. Nem pensar -disse Woodford. -Há muito espaço. Só
os rapazes é que terão de dormir juntos, eles e as fêmeas deles.
-Acho que não preciso de fêmea -disse Ham.
-Claro que precisas, claro que precisas, depois da viagem. Amenos
que o teu pai ainda não te tenha iniciado -apressou-se o anfitrião a
dizer.
-A menos que o Warren Maxwell tenha mudado muito, o filho já
sabe para que serve uma fêmea -disse o coronel, bebendo o seu
segundo uísque.
-Não sei se o Charles sabe ou não. Tem uma para ele, mas não me
parece que a engravidasse. 0 Charles é fraquito -disse o maior.



Está atrasado no crescimento -acrescentou. -0 avô dele morreu de
tísica galopante e o Charies caminha para lá. Está sempre a tossir.

0 uísque aguçou os apetites para o jantar, que foi servido numa
sala,de jantar que impressionou Hammond tal como a sala de
visitas. A casa de jantar, porem, era usada todos os dias, enquanto a
sala era reservada para ocasiões especiais. Também ali o Estilo
Império degenerara por excesso de ornamentos, A pesada toalha
branca e a porcelana com rebordos floridos, contribuíam para dar
uma nota festiva a uma ocasião solene.
Uma rapariga clara, ainda,imatura, agitava o leque de penas de
pavão, com os olhos fixos em Charies. 0 coronel Butler, o convidado
mais velho, convidado a pronunciar a bênção dos alimentos, baixou
a cabeça e murmurou qualquer coisa que culminou num "amén"
que todos perceberam porque era inevitável. 0 criado encarregado
de tratar da comida era um preto de meia idade. Era ajudado pelo
velho Walsh, o negro que conduzira os jovens à igreja.
-De que falou o irmão Ben Jones no sermão desta manhã? -quis
saber a senhora Woodford, do seu extremo da mesa, levando a
corneta ao ouvido.
-São sempre inspiradores os sermões do irmão Jones.
-Qualquer coisa sobre o jogo e outras coisas -gritou Blanche, através
da mesa.
-Fez um sermão com certeza. Ninguém se lembra?
-Fez um sermão sobre deitar muita coisa fora por uma capa sem
valor. Não sei. Não fazia muito sentido -disse Blanche em voz alta,
em direcção à mãe. -E -acrescentou, olhando para Charles -o irmão
Jones diz que quem tem negros para lutar vai directo para um mau
lugar, porque não se pode ter negros para lutar sem deixar de jogar
a dinheiro.
-Exactamente o que eu disse, o que eu disse esta manhã mesmo.
Deus seja louvado -assentiu Beatriz. -Não é que tenha mal, mas
leva ao jogo.


-Penso que Hammond não se mete nessas coisas -disse o major
Woodford, à espera de uma opinião.
-Não tenho tido lutadores meus, mas estive em Benson a vê-los.
Entusiasma. Não vejo que tenha mal.
-Se tivesses um lutador, nunca mais te falava, Hammond Maxwell declarou
Blanche.
-Então, filha -avisou o pai. Hammond limitou-se a baixar a cabeça
e ergueu os olhos, com um sorriso confiante.
-Bem, não falava -disse ela francamente amuada.
-Continuávamos a ser primos, penso eu -gracejou Hammond. A
conversa desviou-se para o mercado do algodão, o mercado de
negros, o general Jackson, galinha frita, más estradas, e o Texas.
Beatriz mantinha um sorriso fixo, de quem nada compreende, e
seguia com o olhar cada pessoa que falava, mas desistiu de ouvir o
que se dizia, As outras pessoas em volta da mesa, em breve se
cansaram de gritar e passaram a falar em tom natural.


0 coronel Butler, depois de todos se levantarem, dírígiu-se à anfitriã
e, à terceira tentativa, conseguiu fazê-la compreender quando
apreciara aquela excelente refeição.
0 major Woodford levou o coronel Butler para ao salão,
ostensivamente para falar com ele, mas, na realidade, apenas para
exibir a grandeza da sala, que o coronel desprezou com as palavras
"é bonita, é bonita". 0 maior já estava convertido à democracia
jacksoniana, e o coronel, sem outro assunto, concordou com os
comentários do major até não conseguir controlar mais o seu desejo
de dormir e passou pelo sono, na sua cadeira.


0 maior Woodford, irritado com a falta de interesse do seu
convidado pela sua casa e pela sua conversa, resolveu ir à salinha e
interrompeu o namoro entre Blanche e Hammond, que gritava
Intermitente para Beatriz, que o não compreendia.



Blanche levantou-se e disse, sem rodeios.
-Penso que tu e o papá querem falar. Quando ela saiu, Hammond
aclarou a garganta que a dúvida secara. Olhou para o maior e,
finalmente, conseguiu dizer:
-A prima Blanche e eu gostamos um do outro.
-Não estás a ir muito depressa, meu rapaz? -disse o major, sorrindo.
-Só a conheces há três ou quatro horas.
-Bom, somos primos, como sabe -objectou Ham. -Parece ser muito
boa rapariga e bem bonita.
-Bern criada. Uma coisa devo dizer, a Beatriz é uma boa mãe.
Severa mas boa.
-Para dizer a verdade, gostava de arranjar mulher. 0 pai acha que
eu devia casar ... assentar e arranjar um filho.
-Bom conselho para um jovem. Impede-o de fazer asneiras concordou
o major.
-E eu gosto da prima Blanche. Gostava que me deixasse namorá-la disse
Harrimond, à experiência.
0 outro tinha o peixe no anzol e começou a puxá-lo.
-Não namoraste nada esta manhã, na ida para a igreja?
-Para falar verdade, disse-lhe que gostava de andar de carro corri
ela. Para lhe perguntar se ela gostava de mim -admitiu Hamniond,
que não sabia o que Charies podia ter dito quanto ao encontro na
estrada.
-Aquela rapariga foi criada com tanta inocência que não sabe de
quem gosta. Gostaria de qualquer jovem que usasse calças.
Pela entoação, o pai transformou o sarcasmo num elogio.
-Eu quero mesmo casar com ela. Gosto dela. Percebi isso logo que a
vi, com aquele vestido tão bonito.
-Já lhe perguntaste se quer?
-Bom, mais ou menos. Ela diz que lhe peça a si. Diz que gostava de
casar comigo, mas eu tinha de pedir-lhe.



-Nem sei o que responda -meditou o pai. Tornou-se gravemente
sentimental. -Eu sei que a Blanche já tem idade para casar, mas é
tão criança, ainda. Inocente e pura como um bebé.
-Lá isso é verdade -concordou Hammond.
-E eu nada sei a teu respeito, excepto as tuas origens. Uma boa mãe,
um bom pai. Não muito religioso, mas bom homem. Eu também
não tenho religião, excepto a de minha mulher. Não sei como vais
tratar a minha rapariga.
-Vou tratá-la bem. 0 melhor que é possível. 0 melhor que eu saiba.
-Não sei se ela gostaria de viver tão longe da mãe. Não tens uma
casa muito boa, em Falconhurst, pois não?
-Tenciono construir uma casa nova, logo que me case.
-E podes? Quero eu dizer, tens dinheiro para isso?
-Claro que sim, o meu pai tem. É tudo dele, mas eu dirijo o lugar;
tenho o que quiser.
-Governam-se bem, hem? Boas colheitas de algodão?
-Não muito algodão; negros. A terra de Falconhurst, como toda a
terra do Alabama, está muito esgotada. Onde o pai arranja dinheiro
é a comprar negros jovens e fortes e a criá-los para o mercado de
Nova Orleães.
-Falconhurst tem bolha?
-Bolha?
-Hipoteca?
-Oh, não senhor. Não temos hipotecas sobre a plantação.
-E sobre os negros? Também não há hipotecas?
-Não senhor. Não devemos um cêntimo na compra de qualquer
negro, nem de coisa alguma. -Hammond ficou chocado com a ideia
das dívidas. -E todos os negros que temos são fortes e saudáveis,
mais de duzentos. Na maioria são jovens mas estão a crescer bem e


o mercado vai subir.
-Bom, tenho que pensar nisso, falar com a minha mulher. Acho que
vamos dar-te um sim. 0 casamento é assunto sério. Penso que é
melhor ser contigo que com os outros.

-Agradeço-lhe muito.
-Lembra-te que ainda não te disseque sim, mas penso que o farei-e


o major fez uma pausa. -Penso que, se eu te ajudar tu também me
ajudarás.
-Em tudo o que eu puder -afirmou Hammond.
-Ando aflito de dinheiro, o banco está a fazer pressão, etc., só até a
colheita estar vendida. É tudo. Eu pago-te depois da colheita do
algodão.
-Que ainda não está plantada -disse Hammond.
-Mas vai estar, e vai ser boa, este ano, tenho a certeza. já tive três
anos maus. É a altura de ter uma boa colheita.
Hammond não conseguia compreender este raciocínio, mas não
podia perder a rapariga.
-Depreendo que quer que o meu pai lhe empreste dinheiro. Eu não
tenho nenhum meu.
-Bem, sim. É Isso Mesmo.
-Quanto quer?
-Preciso de uns cinco mil dólares, para pagar o juro do que devo ao
banco, e para preparar Blanche para o casamento.
-E um monte de dinheiro, cinco mil dólares. Duvido que o pai
possa dispor de tanto dinheiro.
-Pode pedir emprestado, não pode? Tem bom crédito. Dizes que ele
nada deve.
-Acho que pode. Mas não quer. Tem medo de dever.
-E só até à colheita -sublinhou o major,
-Porque não pede o empréstimo ao banco? -perguntou Hammond.
-Tem uma boa plantação e muitos negros.
-Custa-me dizê-lo, mas Crowfoot já está hipotecada por mais do
que o seu valor e cada negro que possuo está hipotecado por aquilo
que vale. Estou mesmo com a corda na garganta. 0 banco pode
arruinar-me de um momento para o outro. Parece que o teu pai
podia ajudar um velho amigo e um primo a morrer -choramingou o
major.

Hammond devia ter sabido que a hospitalidade de Crowfoot, aberta
e francamente oferecida, era sempre acompanhada de um pedido
de empréstimo do seu proprietário. Não que Woodford não
precisasse de dinheiro, e que não fosse capaz de fazer um
empréstimo a outrém tão livremente como o pedia a um convidado,
se estivesse mais abonado. Não conhecia a frugalidade. Não
conseguia compreender a mesquinhez ou mesmo a cautela. Pedir
transformara-se num hábito. Cada convidado era avaliado pelo
valor do empréstimo que se lhe conseguiria extrair, e Hammond
Maxwell parecia-lhe caça grossa. Além disso, tinha-o fisgado; podia
recusar-lhe a mão da filha.
0 maior não tinha qualquer intenção de não dar o seu
consentimento àquele casamento que era exactamente aquilo que
esperava conseguir, mas Hammond não sabia como o seu anfitrião
era exigente, quanto a um marido rico para Blanche.
0 que o pai avaliou mal foi a profundidade da paixão de Hammond
por Blanche. 0 rapaz queria uma mulher, ou antes, o pai
convencera-o a casar-se e sentia-se atraído para Blanche porque não
conhecia mais candidatas apropriadas. Tinha-se apaixonado tanto
pela rapariga corno pelo vestido de lã, pela casa aparatosa, pela
vida atraente, e, sobretudo, pelo sangue dos Hammond, que toda a
vida tinha ouvido exaltar.
Hammond já tinha feito uma rápida exploração às imperfeições que
pudessem existir por baixo do vestido bonito. A casa e a vida
tinham perdido parte do seu encanto, ao saber que a casa estava
hipotecada e a vida afundada em dívidas. Toda a graça daquela
maneira de viver era uma bolha prestes a rebentar. E, quanto ao
sangue dos Hammond, ali estava a sua prima Beatriz, surda, pálida,
toda em tons de castanho, e tinha observado Charles, de peito
côncavo, cheio de borbulhas, com os olhos tortos, ambos
Hammond. Eram brancos, e não podiam de modo algum ser
comparados com os pretos, mas Warren Maxwell tinha inculcado


no filho a noção dos defeitos físicos dos animais humanos. Ele
próprio, Harrimond, coxeava.
Não tinha mudado de ideias quanto a casar corri Blanche, mas, se o
namoro fosse rejeitado, não se sentiria angustiado. Não tinha
pensado em fazer um casamento por compra, mas era isso o que a
proposta de Woodford implicava, urna vez que o devedor não teria
desejos nem possibilidades de pagar o empréstimo. Isso era
evidente, mesmo para Hammond.
Cinco mil dólares, o preço de quatro ou cinco machos fortes. Pensou
se Blanche lhe interessaria a esse ponto.
Hammond contemporizou:
Cinco mil dólares -fez rolar as palavras sob a língua. -Não se
arranjaria com menos? Pagando só uma parte?
-Acho que preciso disso tudo. Talvez se pudesse encurtar um
pouco, mas ficava apertado -concedeu o maior.
-Talvez o pai lhe possa avançar metade disso. Tenho que lhe
perguntar. Acho que ele o fará. Faz quase tudo o que eu lhe digo.
-Podia dar-lhe nota de dívida. Isso tem valor.
-Com certeza; até às colheitas -acrescentou Hammond, fingindo
que a negociação era um empréstimo.
-Então posso contar com isso? -Woodford desejava acabar com o
assunto. -Quando achas que ele mandaria o dinheiro?
-Logo que chegue a casa e o convença a fazê-lo.
-Acho que podes casar com a minha filha, então -o pai voltou
ruidosamente ao tema anterior. -Pareces-me um rapaz bom,
generoso, às direitas, capaz de tomar conta de uma rapariga.
-Posso tornar conta dela, conte com isso.
-A Blanche e o Hammond vão casar-se -gritou o maior para
Beatriz, que estava mergulhada nos seus pensamentos.
Ela levantou a corneta acústica e perguntou:
-0 quê?
-A Blanche e o Hammond vão casar-se -gritou o marido outra vez.
-Estão apaixonados.



-Não. Beatriz recusava-se a acreditar.
-Sim -garantiu-lhe o marido.
-Mas o primo Hammond acaba de chegar.
-Isso não importa. Um homem não leva muito tempo a decidir-se
por uma coisinha bonita corno a nossa Blanche.
Beatriz começou a chorar; levantou-se e beijou Hammond,
continuando a chorar nos seus braços.
-Vais ser bom para ela? -perguntou. -Eduquei-a no receio do Senhor
e há-de ser uma esposa boa e fiel. Talvez te encaminhe para Jesus. É
tudo o que eu peço, que ela te leve para Jesus.


Hammond soltou-se de Beatríz logo que o conseguiu, mas teve de
suportar o aperto da mão rechonchuda do maior e a sua entusiástica
pancada no ombro.
-Que tal te sentes, fisgado? -riu Woodford, sufocadamente.
-Muito bem. -Hammond afastou todas as dúvidas. -Muito bem repetiu,
para dar maior ênfase.
-E o Hammond vai emprestar-me dois mil e quinhentos dólares acrescentou
o major Woodford, num murmúrio estentório para
dentro da corneta.
Beatriz assentiu, para mostrar que ouvira e murmurou, com
delicada indiferença.
-Muito bem. Muito bem. Unia senhora não se interessa por
dinheiro.


Capitulo décimo primeiro


Naquela noite de domingo, Blanche e Hammond, afastados do
grupo, que agora incluía também os antiquados e devotos


Satherwaits, planeavam a sua vida em comum. 0 maior interesse de
Blanche residia na casa que Hammond ia construir para ela; o dele
no herdeiro que ela lhe daria, sobre o qual, devido à inocência de
Blanche, não era delicado fazer insinuações.

Blanche precisou de contar pelos dedos para marear a data propícia
para o casamento e escolheu o dia 8 de Maio, mais ou menos daí a
dois meses. Era difícil para Hammond afastar-se da plantação
naquela altura, mas ser-lhe-ia igualmente difícil durante todo o
Verão. A sementeira estaria pronta, era cerro, mas a apanha das
ervas ruins entre as plantas tenras do algodão exigia supervisão dos
trabalhadores. Poderia largar o trabalho por alguns dias para as
festas do casamento, mas a ideia de urna lua-de-mel prolongada
estava fora de questão. Prometeu levar a noiva a Nova Orleães
depois da colheita, no Outono, e depois de ter passado o perigo da
febre-amarela, o perene terror daquela cidade no Verão.

Hammond nada disse sobre um anel para selar os esponsais e
Blanche achou necessário recordar-lho. Ele não conhecia o anel de
noivado, que mulher alguma esquece; mas depois de ela lho
recordar e explicar para que servia, prometeu cumprir o costume. 0
joalheiro de Benson teria que encomendar um anel de Nova Orleães
ou Nova lorque, e Blanche teria de ter paciência até lho poder
mandar. Ela desejava um diamante que não havia, decerto, numa
cidade como Benson. Hammond não fazia ideia do custo desse
bugiganga, mas dar-lho-ía -certamente. Dar-lho-ia.

Blanche mostrou-se mimada para com Hammond, ou fingiu certo
mimo, perante o adiamento da viagem de lua-de-mel, o atraso na
obtenção do anel, a sua decisão de partir no dia seguinte, a sua
pouca atenção por ela e, finalmente, o ardor dos seus beijos quando
a levou para o varandim, para se despedir dela. 0 mimo era, de
facto, o ceptro com que ela governava Crowfoot. Quando queria


uma coisa, amuava até a conseguir. E quando queria evitar uma
tarefa, um dever ou Lima obrigação, choramingava, até outra
pessoa a fazer.

Blanche estava encantada com as suas perspectivas. Todos os seus
pretendentes locais, eram campónios; pior, eram pobres. 0 seu
noivado era romântico, mesmo fascinante, porque ele era um
estranho, um homem vindo de locais estranhos, um homem do
grande mundo que estivera em Nova Orleães e a quem ela fizera
perder a cabeça no seu primeiro encontro. Todos esses atributos
eram pontos de que se poderia gabar em Centerville e em Briarfield.
Faltavam ainda quatro, mesmo cinco anos para ser considerada
uma solteirona, mas uma rapariga solteira de dezasseís anos
encarava a hipótese e receava-a. Blanche sentia-se salva, agora. Pelo
menos, se as coisas corressem mal e o casamento não chegasse a
fazer-se, ela teria tido o seu período de romance e poderia passar a
vida numa aura de amor falhado, gozando a compaixão de todos os
que conhecessem ou advinhassem os pormenores. Mas, apesar da
sua felicidade, Blanche e tinha já previsto dominar o seu
apaixonado, através da sua petulância.

Hammond, por seu lado, estava agradavelmente satisfeito com o
seu negócio, porque tinha sido um negócio. Podia bem enfrentar a
petulância de Blanche, na silenciosa consolação da ideia de que ela
fora comprada e tinha que render. Ela seria dele, poderia dominá-la
como quisesse. Claro, era branca e era uma senhora, neta de Orestes
Hammond, irmão do seu defunto avo, e tencionava tratá-la bem,
trabalhar para ela e dar-lhe tudo, na medida das suas forças e dos
seus meios. Contudo, o seu método de a adquirir deixava-o livre
para combater a petulância dela pela firmeza, as lágrimas pela
dureza. Hammond não previa essa necessidade e o conceito era
portanto nebuloso, mas deixava-o satisfeito. Era um baluarte contra
a possibilidade de ser ameaçado.


Tinha sido um dia de grande excitação. 0 major Woodford e o
coronel Butler tinham feito frequentes excursões à estufa; os idosos
Satherwaits estavam cansados da sua viagem; Beatriz estava
aborrecida pela sua impossibilidade de ouvir a conversa;
Harrimond tinha dormido numa cama cheia de covas, na taberna,
na noite anterior; Charles ansiava por conversar com Hammond; só
Blanche estava relutante em retirar-se cedo. 0 grupo era demasiado
polido para ir para a cama, simplesmente, o que era vagamente
indelicado.

0 quarto em que Charles e Hammond iriam dormir era o único do
rés-do-chão, pelo que o anfitrião pediu desculpa. 0 motivo era mais
a localização do que a sua fealdade. Era um quarto grande,
mobilado com móveis quase todos de nogueira, que haviam
sobrado do mobiliário da casa antiga quando a nova fora
construída, mobiliário bastante bom para crianças destruidoras.
Estava atravancado com uma dobadoira partida e um guarda-fatos
extra, com o espelho partido, uma pesada mesa redonda coberta
com roupas cheias de poeira, já muito gastas ou fora de moda, duas
cadeiras aleijadas, além do mobiliário do quarto que era utilizável,
embora feio, mas, no entanto, tão bom como o do quarto de
Hammond, em sua casa. A carpeta era feita de trapos, exactamente
como todas as de Falconhurst. Não havia cortinas na cama larga que
tinha a armação para um dossel. Exceptuando as coisas velhas, que
cabiam bem, sem incomodar, aquele quarto informal não era
desconfortável. Abria para a sala de estar, e tinha uma porta que
dava para o varandim lateral.

Quando Hammond entrou, Charies estava despido até à cintura,
reclinado no leito, com os pés, de meias calçadas, pousados no chão,
demasiado cansado ou demasiado preguiçoso para retirar o resto do
vestuário. 0 seu comportamento para Hammond tinha mudado
completamente desde o encontro matinal na estrada. A sua


afabilidade aumentara com a declaração de Hamiriond de que tinha
visitado Nova Orleães e não desaprovava as lutas de negros,
assunto sobre o qual Charles desejava conversar corri o sei]
convidado.
-Que lado da cama prefere? -perguntou,
-Qualquer me serve -respondeu Hammond.
-Eu fico sempre deste lado. 0 Dick dorme aí quando está em casa.
-0 seu pai diz que o primo Dick está a estudar leis em Centerville disse
Hammond. -Deve ser muito esperto, para ser advogado. É
preciso estudar imenso.
-Dick não vai ser advogado. 0 estudo das leis é apenas uma
desculpa.
0 Dick está mas é a estudar para ser um jogador.
-É mais velho que o Charles, não é?
-É, é mais velho, e o favorito da mamã. Tem tudo. Eu nunca
consigo nada. Até tenho que usar os fatos velhos do Dick,
arranjados para mim. 0 pai é pobre, muito pobre -confessou. Além
disso, o Dick é mais bonito do que eu. Muito diferente. É mais forte,
mais bem porporcionado.
-Você ainda não acabou de crescer e de formar o seu corpo -disse
Hammond, com indulgência. -É bastante grande, pelo menos
bastante alto para a sua idade.
-E Dick olha a direito. Não é vesgo, como eu. A compaixão de
Hammond não lhe inspirou qualquer resposta satisfatória e o
assunto ficou por ali, após um ataque de tosse de Charles.
-Namora a Blanche? -perguntou o irmão, abruptamente. -Pensa
casar com ela?
-Penso sim -confirmou Hammond.
-Simpatizo consigo, mesmo que não fosse meu primo. É meu
amigo, não é? Então, deixe a Blanche em paz.
-0 seu pai disse que eu posso namorá-la. Ele acha bem. Porque está


o Charles contra?

-Já lhe disse que sou seu amigo. Ela é um veneno. A Blanche é uni
veneno.
-É sua irmã. Não devia falar dela assim -disse Hammond, tentando
enverg9nhar Charles.
E minha irmã, e conheço-a, sei tudo acerca dela. Digo-lhe que ela
não o vai deixar ter negros para luta.
-Quem disse que eu quero ter negros para luta?
-Toda a gente quer, desde que tenha pretos. Ao jantar, pareceu-me
compreender que não achava mal -a confiança de Charles estava
abalada.
-Para dizer a verdade, quero ter um lutador e a prima Blanche não
vai impedir-me de ter um. Ando à procura. Hei-de encontrar um
bom, um dia destes.
-Julguei que tinha muitos pretos. Dizem que é rico.
-Os nossos pretos não servem para lutar. Tenho que arranjar um
rapaz grande e vigoroso. Não quero ter um se não for melhor que os
que os rapazes levam a Benson. Quero um lutador que dê cabo
deles todos.
-Se são bons de mais, os outros não podem fazer-lhes frente. Pegam
tios seus machos e levam-nos para casa.
-Os rapazes de Benson são muito desportivos. Têm pretos muito
bons e não se importam de os mandar para a luta. Eu quero ganhar.
-Eu gosto é de vê-los lutar, quer ganhem quer percam -disse
Charles.
-Foi o que estive a fazer esta tarde, enquanto conversavam. Levei
dois pretos para trás da reserva de madeira, onde o pai não podia
ouvi-los e pu-los a lutar. Claro, não os deixei morder nem arrancar
olhos; só lutar e esmurrarem-se. Não queria que o pai descobrisse.
Não lhe conta, pois não?
-Claro que não. Não tenho nada com isso. Não são pretos meus.
Ham lavava as mãos do assunto.


-Um dos machos é muito bom, alto e claro. Arrancou um dente ao
outro e quase lhe arrancou o dedo grande do pé com uma dentada,
antes que eu o pudesse parar.
-Isso arruína o outro, não acha? É só um trabalhador do campo. 0
pai não nota até o pôr a trabalhar. Penso que o dedo há-de sarar. -
Charles afastou o assunto. -Gostava de poder escapar-me com
aquele mulato e levá-lo a Centerville, no próximo sábado. Posso
dizer-lhe uma coisa e não vai contar a ninguém?
-Já lhe disse que não sou linguareiro -prometeu Hammond.
-Bem, ganhei ontem à noite sessenta e cinco dólares em Centerville,
a apostar em três combates. Ganhei todos. Dick ganha mais de cem.
-É muito bom -disse Hammond, com indiferença, lutando para
descalçar a bota da perna rígida.
-Não quero que o pai saiba, e a Blanche ainda menos. Obrigava-me
a dar-lhe o dinheiro. Traz suspensa sobre a minha cabeça uma coisa
que eu fiz há muito tempo. Ela é veneno, digo-lhe eu. Deixe-a em
paz. Quero ficar com o meu dinheiro para apostar. Porque será que
as raparigas não vêm?
-Charles respondeu à sua própria pergunta. -Aquela Sukey está
com medo de si.


Dirigiu-se à porta que dava para o exterior para chamar as raparigas
e descobriu-as, agarradas uma à outra num canto do varandim, à
espera que as chamassem.
-Entrem e dispam-se -ordenou-lhes. Hammond sentia-se
embaraçado, dividido entre as suas dúvidas sobre se deveria
receber uma fêmea na sua cama naquela casa, e a exibição da sua
falta de virilidade perante o outro.
-Acho que esta noite não preciso de fêmea. Estou muito cansado
contemporizou.
-Não faz mal. 0 pai disse para lhe dar uma fêmea -insistiu Charles,
enquanto as duas raparigas despiam as roupas simples,
negligentemente.



-Aquela Sukcy é alta e magra, mas o Dick acha que é muito boa. É
do Dick, quando ele está em casa. Não há virgens por cá, excepto
umas pretas que ainda não estão maduras.
-A Sukey é boa. Não és Sukey? -perguntou Hammond sem
entusiasmo.
-Sim, siô, patrão -admitiu ela, timidamente.
-Claro que não é tão arredondada como a sua, não tem tanta carne Admitiu
Hammond.
-Esta, Kary está a engordar. Tens de comer menos -comentou
Charles, passando a mão pelo flanco da rapariga e dando um
beliscão na sua nádega ampla. -Se quiser trocar... -sugeriu
hospitaleiramente, mas não escondeu a sua relutância e Hammond
declinou a oferta.


Kary era baixa e larga, com cara de lua cheia, pescoço curto e gordo.
Tinha pés grandes e agitava-se provocantemente, ao andar. Gostava
de ser a concubina do seu jovem patrão e Hammond achou-a
presumida, com demasiada familiaridade. Ele não teria tolerado as
suas intimidades gratuitas.
Hammond sentou-se na cama e pediu a Sukey que o ajudasse a
despir-se.
-Sou aleijado; bem vê -explicou a Charles. Hammond não viu onde
ele fora buscá-lo nem percebia para que servia, irias Charles
estendia-lhe um feixe de varas, atadas com um pedaço de pano
rasgado, para fazer um cabo.
-Quer usar isto? -perguntou Charles, indicando Sukey, que se
encolheu ao ver o feixe.
-0 que é isso? -perguntou Hammond.
-Que lhe parece? É um batedor de vime. Quer usá-lo na sua?
-A Sukey não fez nada. Para que hei-de castigá-la? -perguntou
Hammond, confuso.
-Pensei que quisesse. 0 Dick faz-te isso, não faz Sukcy?
-Faz sim, siô -conformou a rapariga.



-Díck ensinou-me a fazer isso. Faz um homem sentir-se bem,
parece. Deita-te. -Charies voltou-se para a gorda Katy e apontou
para a cama.
-Volta-te. Katy gosta; não gostas Katy?
Não teve resposta e Charles foi forçado a repetir a pergunta.
-Sim, siô, patrão, siô. Eu gosta, se tu quer. Sim, siô, patrão, siô, por
favô, com muita força não, siô, patrão, siô.
0 tom de Katy desmentia a sua confirmação. Ela conseguiu
aguentar-se até a terceira pancada com o chicote múltiplo, mas
depois não pôde manter-se calada por mais tempo.
-Oh, siô, patrão, siô, não, com isso não. Patrão, siô, patrão, siô. Ob
... o ... o ... o! -gritou finalmente.
Charles pegou numa das suas meias, aquilo que estava mais à mão,
e enfiou-a na boca de Katy, continuando o castigo.
Hanimond sentia-se irritado com o que via. 0 seu primeiro impulso
foi arrancar as varas da mão do rapaz franzindo e dar-lhe com elas
nas pernas nuas. Não foi a violação da hospitalidade que o impediu,
pois sabia que o major Woodford não apoiaria que o seu filho
infligisse dores escusadas à rapariga inocente, mas a sua relutância
em demonstrar que existia qualquer autoridade superior sobre um
negro do que os caprichos do seu patrão. Não queria arriscar-se a
inculcar a revolta. Além disso, sabia que a sua interferência irritaria
Charies que, em ocasiões subsequentes, vingaria em Kary o seu
ressentimento pelo acto de Hammond.

Hammond observou, pois, o castigo, pedindo:
-Páre, Charles. já chega. Está a magoá-la. Charles riu, ao ver a negra
aninhar-se corri medo.
0 castigo não durou muito tempo nem foi muito forte. Hammond
calculava que teria sido doloroso, no entanto, a pele não tinha
quebrado nem havia vergões. Katy parou de chorar no momento
em que ficou certa de que Charles terminara. Passou o braço pela
cara, para limpar as lágrimas e retirou a meia da boca.


-Porque faz isso? -perguntou Hammond. -Katy não fez nada.
-Não sei. Gosto de o fazer. Faço isto todas as noites, não faço, Kary?
E, de facto, Charles parecia sentir-se melhor. Endireitara os ombros,
os olhos tortos adquiriram um brilho de confiança, e a sua estatura
parecia maior. 0 castigo que aplicara dera-lhe urna sensação de
domínio, mesmo que esse domínio fosse apenas sobre uma jovem
negra indefesa. Fazia bem ao seu ego atrofiado. Sentía-se outro.
-A Katy gosta. Não gostas, Katy? -Charles repetiu a sua pergunta
anterior.
-Sim, siô, patrão -a resposta de Kary foi imediata, agora que a
experiência terminara. -Eu gosta -afirmou ela, com um ar que
parecia sincero. Não gostava da dor, mas, depois de esta passar,
gostava de se sentir subserviente perante um homem que
demonstrava o seu domínio sobre ela. Nem Charles nem Katy se
sentiam suficientemente convencidos desse domínio sem
demonstração. Katy, gostava, efectivamente.
-Talvez o pai me deixe ir a Falconhurst, quando o Hammond tiver
aquele lutador que vai arranjar, para eu o poder ver. -Charles
regressara ao seu principal interesse.
-Talvez deixe. Mas não vai chicotear as minhas negras, como fez à
sua, e não o deixo fazer os meus negros lutar, só para os ver.
Amanhã pedimos ao seu pai.
Enquanto Hammond se ajoelhava sobre o lado direito da cama,
para dizer a sua oração, Charies e Kary trepavam para o grosso leito
de penas do lado oposto.
Sukey esperou que o seu pouco apressado amante entrasse na cama,
para apagar a vela.
Apesar da largura da cama grande, esta ficou cheia. Sukey emitia
um odor, simplesmente por falta de limpeza ou apenas racial, como

o branco pensou, que Hammond achou desagradável. Teria
mandado embora a rapariga e começado a dormir se não fosse a
violação da hospitalidade. Charles, do outro lado da cama, veria em
tal comportamento desprezo pelo melhor divertimento que

Crowfoot tinha para oferecer. Hammond executou aquilo que
considerava um dever, sem prazer e com pouca satisfação; apenas
por simples desintumescência, um esvaziar de desperdício
acumulado.
Sukey sentiu a apatia de Hammond, mas agradeceu na mesma o
seu favor, como Dick lhe ensinara a fazer.
-Sai da cama e deixa-me voltar e dormir. A cama está muito cheia murmurou
Hammond.
-Eu fica com frio. 0 patrão Richard nunca atira eu pra fora da cama
-queixou-se Sukey.
-Bem, embrulha-te numa colcha. julgas que me apatece cheírar-te
toda a noite?

Hammond foi incomodado toda a noite pelos seus companheiros de
cama, de quem não podia livrar-se tão facilmente como de Sukey.
Sentia ao seu lado o casal, nos braços um do outro; sentia o esticar e

o relaxar das cordas que aguentavam o colchão; ouvia os pequenos
gritos de delícia ou de dor; sentia os apertões e os beijos que tinham
lugar por toda a cama, as exigências de Charles, e a fingida negação
de Katy.
Contudo, o incómodo que Ham sentia não era propriamente físico,
não provinha dos ruídos, nem da falta de espaço, nem dos
movimentos. Sentia um nojo que se aproximava da náusea por ver
um branco colocar-se em igualdade erótica com uma fêmea negra.
Isso estava abaixo da dignidade da sua raça -tinha algo de bestial.
Uma fêmea era um objecto que um homem podia usar quando
preciasse dele, não um alvo dos seus afectos, destinava-se a receber
ordens, não a ser persuadida. Hammond sentia-se mais
incomodado por Charies beijar Katy apaixonadamente do que por
ele a castigar sem culpa. Como é que os lábios dos brancos podiam
suportar o contacto com a pele mulata? Como podia Charies
rebaixar-se tanto, sabendo que havia outro branco ali ao seu lado?


A madrugada tinha rompido pouco antes, quando Hammond se
ergueu. Queria evitar o embaraço que esperava que Charles exibisse
quando se levantasse, ou poupar-se a ver o à vontade de Charies.
Ao ar livre fazia fresco e o ar era revigorante. A estrela da manhã
empalidecera mas ainda estava visível. Hammond começou a
passear, com espírito de crítica. Observou portões a cair dos gonzos,
um campo de cardos secos a invadir o terreno adjacente, carrinhos
de mão voltados sobre as ervas daninhas e abandonados aos
elementos, um pomar atacado pelos pulgões e à espera de ser
podado, uma cerca com metade das estacas partidas. Imaginou para
que serviria. A inutilidade aborrecia-o.

Começava a sair fumo das chaminés das cabanas e Wash arrastou-
se para o estábulo, esfregando os olhos pelo caminho. As mulheres
avançavam penosamente, com baldes, até ao poço e regressavam
com eles cheios em equilíbrio sobre a cabeça. Eram de meia idade,
na sua maioria, e Hammond pensou na falta de economia que
representava conservar negros que já não podiam procriar.

Dois rapazes mulatos apareceram por trás de uma cabana, mas
viram o estranho e recuaram. Hammond notou que um deles
coxeava. Talvez fosse o rapaz do dedo mordido, que Charles usara
na véspera para combater, mas parecia-lhe novo de mais para
aquele desporto. Uma fêmea jovem, atrasada, avançou a coxear
para o poço, aos ziguezagues; aquela podia procriar, se valesse a
pena fazê-lo, mas não prestava para mais nada. Seriam todos os
trabalhadores de Crowfoot velhos ou aleijados? Qual seria a ideia
de um plantador que conservava e alimentava aqueles criados? Não
era de espantar que a plantação estivesse mal cuidada e delapidada
-com excepção da casa; não era de admirar que Woodford tivesse
dívidas e precisasse de dinheiro.


Hammond regressou a casa e sentou-se no varadim, à espera que a
família desse sinais de vida. Sukey saiu pela porta lateral e saudou-
o, a caminho das cabanas. Em breve Katy a seguiu e depois
apareceu Charles.
-Quero ver-me livre das raparigas antes que a mãe se levante explicou.
-Penso que ela sabe, mas ...
-Claro, ela é surda -disse Hammond. -Talvez ...
-A Blanche sabe e dá à língua. Cria problemas sempre que pode.
Não vai casar com ela, pois não? Eu gosto de si e estou a dizer-lhe
como é-avisou Charles de novo.
-Sim, vou casar coma sua irmã? -declarou Hammond
positivamente.
0 maior Woodford apareceu, chamando os rapazes para o pequeno-
almoço.
-Dormiste bem? -perguntou a Hammond. -Ou este porcalhão
obrigou-te a sair da cama?
-Dormi muito bem -disse Hanimond. -Charles esteve muito
sossegado.
-Mas ele não gostou da Sukey. Mandou-a para o chão -disse
Charles.
-Não fales dessas coisas, Charles. Não é de boa educação -censurou

o maior. -Houve alguma coisa errada?
-Já tinha acabado; foi tudo. Ela não fez nada de mal -explicou
Ham.
-Não lhe apetecia forrobodó toda a noite, eh? Eu gosto ... ou
gostava. Penso que esse aí sai ao pai. Eu gostava de as chicotear e
depois fazer amor corri elas. Gostava delas bem pretas e não me
ralava com o cheiro, mas agora os rapazes são esquisitos, querem-
nas clarinhas.
Seria possível que o pai soubesse do comportamento do rapaz e o
aprovasse? Hammond não estava interessado em discutir o assunto.


A senhora Woodford presidiu à mesa do pequeno-almoço com a
sua voz oca e a sua corneta acústica. Blanche desceu atrasada, com o
seu fato de montar comprido -o fato mais vistoso do seu escasso
guarda-roupa. Tinha preparado a sua entrada por forma a surgir
quando todos estivessem sentados para que os olhares se cravassem
nela, embora estivesse apenas interessada na aprovação de
Hammond.
-Tencionas andar a cavalo esta manhã, querida? -perguntou
Beatriz apontando a corneta.
Blanche acenou afirmativamente e gritou:
-Eu e o Hammond vamos andar a cavalo depois do pequeno-
almoço.
-Esperam pelas orações, decerto -disse a mãe. -0 senhor e a senhora
Satherwait estão cá e estou certa de que o coronel Butier também é
homem de Deus. Hammond rezará connosco.
-0 primo Hammond não precisa de rezar -anunciou Charles. -já
rezou ontem à noite.
Beatriz olhou, radiante, para Hammond. -Espero, meu filho, que te
tenhas ajoelhado com ele. Eu sei que o primo Hammond há-de
encaminhar-se para Jesus.
Os Satherwait acenaram afirmativamente.
-Receio bastante não poder ir passear a cavalo, prima Blanche, nem
sequer esperar pelas orações -desculpou-se Hammond. -Tenho
uma grande viagem a fazer e preciso de ir-me embora. Quero
chegar à Plantação Coign antes do meio-dia ou pouco depois e
seguir para Falconhurst antes da noite cair.

Blanche apenas tencionava amuar, o que julgava fazer lindamente,
mas começou a chorar e saiu da mesa abruptamente. Hammond
afastou a cadeira e seguiu-a até à sala, tentando acalmá-la.
-Tu não me amas! Tu não me amas! Não casava contigo mesmo que
não houvesse mais nenhum homem no mundo!


As suas palavras ressoaram na casa de jantar e alarmaram o pai da
rapariga que se apressou a correr à sala, para acabar com aquela
discussão que ameaçava os seus cálculos.
A satisfação de Charles foi amortecida pelo seu receio de que
Blanche não permitisse que o noivo se escapasse. Beatriz olhava de
uns para os outros à espera de uma explicação sobre o que se estava
a passar, mas os membros do grupo, embaraçados, nada lhe diziam.
-Então, então, Blanche, querida-, dizia o maior, consolando a filha-,

o Hammond tem de voltar para a sua plantação. É um homem
ocupado. julgavas que ele te propunha casamento no primeiro dia,
se pudesse ficar e fazer-te a corte?
-Mas, papá! -protestou Blanche, enxugando os olhos. -Não é justo,
não é decente. Ninguém vai acreditar em mim. Ninguém pensará
que eu tenho um namorado.
-Nós havemos de mostrar-lhes, não havemos, Hammond? Quanto
mais depressa Hammond chegar a casa e falar com o pai, mais
depressa volta e se casam -disse o maior.
-Ele já disse que volta no dia 8 de Maio -soluçou Blanche. -Eu só
queria que ele ficasse, agora.
-Tenho de voltar para casa e comprar o tal anel de diamantes persuadiu-
a Hammond. -Quanto mais depressa o comprar, mais
depressa ele chega.
Este argumento acalmou a rapariga que, sem ser adulta, decidira
fazer um papel de adulta. Assoou-se e enxugou os olhos. Hammond
inclinou-se e beijou-a desajeitadamente e regressaram os três à
mesa.
0 major estava radiante:
-Foi só um arrufo de namorados -anunciou orgulhosamente. As
lágrimas de reconciliação brilhavam ainda nos olhos de Blanche
quando voltou a sentar-se para o pequeno-almoço, que não
conseguiu comer. Tinha feito convergir sobre ela a atenção de toda a
mesa e cria ter ganho a compaixão de todos. Sentía-se ferida; o seu
projecto de passear a cavalo por toda a região e mostrar o seu noivo

aos outros tinha ido ao ar. Os boatos e os risinhos de inveja,
provocados pela presença de Hammond com ela na igreja,
morreriam. Não poderia gabar-se da sua conquista. Voltou a amuar,
em parte porque se sentia desgostosa, mas principalmente porque
achava que lhe ficava bem. Quando o grupo se levantou da mesa,
Charles colocou o braço sobre o ombro de Hammond e sussurrou-
lhe, para o lembrar:
-Vai perguntar ao pai se eu posso ir visitá-lo a Falconhurst? Apesar
de o rapaz lhe desagradar, o convite de Hammond foi amável.
-Major Woodford -disse Ham-, o Charles gostava de ir até
Falconhurst. É muito bem-vindo, quando o deixa ir?
-Acho-o muito novo para andar por aí -respondeu o major. -Não
confio nele.
-Nunca estive em parte alguma. Não posso 'r a parte alguma. já
não sou um miúdo-argumentou o rapaz. -0 primo Hammond
esteve em Nova Orleães e tudo isso. Sou quase da idade dele.
-Mas não ages como tal -disse o pai. -Talvez, se me mandar aquele
dinheiro, ele possa ir.
-Claro, se ele for, tem que fazer o que eu lhe disser -especificou
Hammond. -Não quero os meus negros arruinados para nada.
-Dá-lhe açoites. Baixa-lhe as calças e bate-lhe, se ele não se portar
bem -sugeriu o pai. -Às vezes tenho que o fazer, não é assim, meu
filho?
-Já há muito tempo que não. Desde o Natal. -Charles corara. -Se me
deixar ir a Falconhurst, porto-me bem, faço tudo o que o primo
Hamiriond mandar e não causo problemas.
-Havemos de ver, quando o dinheiro chegar. Precisas de roupa.
Havemos de ver se o Dick tem algum fato para ti.


Hammond mandou buscar o cavalo, e foi ao quarto buscar os
alforjes. Conseguiu forçar um breve encontro corri Blanche no salão,
do qual o par emergiu com ar embaraçado; a rapariga trazia o
cabelo despenteado e lágrimas nos olhos. Walsh segurava o



garanhão pelas rédeas. 0 major repetiu as suas instruções sobre a
melhor maneira de chegar a Coígn e avisou-o da lama da estrada
que atravessa o pântano durante cerca de quatro milhas.
-Volta à esquerda daquele carvalho retorcido entre dois caminhos e
vais dar a Colgri -explicou. -Se viras à direita, não vais dar a parte
alguma.

Hammond receava o beijo de Beatriz que não conseguiu evitar e,
logo que pôde, soltou-se dos seus braços e partiu. Beatriz enxugava
os olhos. Hammond apertou a mão a todos. Quanto ao coronel
Butler e aos Sutberwalts, a despedida foi superficial; Charles estava
nervoso e Hammond estranhou a ansiedade do rapaz por o ver
partir; o maior Woodford reteve a mão do rapaz, sacudindo-a
repetidas vezes.
-Penso que será melhor eu escrever uma carta ao teu pai, sobre o
dinheiro -sugeriu-lhe, à parte. -Não tenho muito jeito para escrever
cartas.
-Não vale a pena -disse-lhe Hammond. -0 pai faz o que eu lhe
disser. Ele manda-o ... de certeza.

Um beijo final a Blanche, muito decente, suficientemente ardoroso
para confirmar o seu afecto, suficientemente rápido para não violar
a propriedade, e Hammond montou. 0 grupo afastou-se, para sair
do caminho do cavalo. No rosto de Blanche surgiu um sorriso que
pretendia ser valente, próprio de urna heroína.

Hammond seguiu a passo, olhando para trás e acenando, até chegar
à estrada pública e voltar para sul. 0 resto do grupo não podia
escapar às orações matinais de Beatriz e os Sutherwaits não tinham
qualquer desejo de o fazer.
-Um rapaz muito simpático, e bem instalado, ao que parece-
opinou a senhora Sutherwait. -uma boa esposa levá-lo-á para Jesus.


-Tenciono fazê-lo -disse Blanche, de modo possessivo.

Capitulo décimo segundo

Hammond sentia-se bem, com o cavalo de novo sob ele, a sela entre
as pernas. 0 cavalo estava fresco e irrompeu num trote lento.
Hammond tinha onde ir, mas não tinha pressa alguma, excepto a de
se escapar da saturante afabilidade de Crowfoot. 0 sol caí sobre ele,
quase desconfortavelmente quente.

Bom, tinha cumprido a sua missão, tinha conseguido o que viera
fazer. Estava satisfeito. 0 casamento era uma obrigação para com o
seu sangue Hammond, que não se podia deixar desaparecer.
Blanche era mimada e precisava de ser condescendente para com
ela. Mas para que servia uma mulher branca se não para ser
amimada? Esta era certamente bonita, pelo menos aquilo que dela
pudera ver. Recordou o vestido de lã. Que pequena era a cintura de
Blanche. Que cheios eram os seus seios, apesar de ser tão nova! Que
voluptuosa era a curva sugerida das suas nádegas! Hammond tinha
poucas dúvidas quanto às formas dela. 0 que o preocupava era toda
aquela extensão de carne branca. Não teria que olhar para ela, mas
saberia que estava ali, pálida e desigual. Havia de habituar-se. Não
conseguia considerar que a sua mulher viria a ser, como Beatriz,
surda, pálida e beata. Deve-se conceder certo crédito à astúcia do
jovem inexperiente, pois conseguiu ver através da fingida piedade
de Blanche -uma simples acomodação aos costumes da mãe, na
realidade, aos costumes da comunidade, um baluarte, se dele
necessitasse, para o seu comportamento. Hammond não via
necessidade disso.


A estrada era boa e deixou o garanhão andar à vontade, durante
algum tempo, mas a cilha parecia larga, e ele fê-lo parar, desmontou
e apertou-a. A estrada passava por um bosque e Hammond sentiu-
se estranhamente só. Era uma sensação nova; nunca se sentira só.
Não sentia qualquer desejo de voltar a Crowfoot, para as conversas
sem sentido, mas sim de regressar a Falconhurst, ver os seus negros
e pô-los a trabalhar.


Tinham sido mais as ideias do pai do que as suas que o tinham
afastado de casa; o pai desejava que se casasse, mais do que ele; e
era a paixão do pai pelos mandingos puros que agora o levava à
Plantação Colgri. Saindo do bosque para urna clareira, Hammond
viu abutres no céu, descrevendo círculos e manobrando. Observou a
facilidade e a graça com que se elevavam e pairavam. Mais adiante,
trazido pelo vento, de um grupo de árvores, as suas narinas
captaram o cheiro de carne morta.


Avançara já cinco, talvez seis milhas, sem pressas, e sem encontrar
pessoa alguma, mas estava certo de seguir no bom caminho para
Coign. De súbito, atrás de si, ouviu um rápido galope. Voltou-se na
sela e o outro cavaleiro ergueu o braço e fez-lhe sinal para esperar.
Era Charles.
-Vou consigo -declarou sem fôlego, Charles.
-Não vai,não. Vai voltar para trás e regressara Crowfoot. Fugiu de
lá.
-Não fugi, não. 0 pai disse que,eu podia -protestou o rapaz.
-Podia quê? -perguntou Hammond.
-Que eu podia ir consigo até Falconhurst. Não quer que eu vá?
-Quero, claro que quero. É bem-vindo. Mas está a mentir.
-0 pai disse que sim, disse, de verdade. -Charles falava
veementemente. -Pedí-lhe e ele disse-me que podia vir apanhá-lo e
seguir consigo. juro que disse, juro sobre a Bíblia.



-Não devia ter feito correr o cavalo dessa maneira. Está coberto de
espuma e a arquejar -censurou o mais velho dos dois rapazes,
-Tinha que o apanhar, não acha?
-Continuo a pensar que está a mentir-me. Se fugiu, não vai ter que
esperar por urna sova quando chegar a casa. Eu próprio lha dou.
Charles fez um esforço para focar os olhos e olhar Hammond de
frente:
-Juro -disse. Hammond ainda não acreditava no juramento do
jovem, mas não tinha intenções de voltar atrás só para apanhar mais
numa mentira. A admiração, pelo menos, gera tolerância, e o afecto
dá lugar à bondade. Hammond não confiava em Charles, mas o seu
desagrado por ele modificara-se, e a companhia dele afastou a
solidão que Hammond começara a sentir -não tanto solidão como a
sensação de ser estranho, estranho naquela região, estar perdido e
contudo conhecer o caminho.

Hammond pôs o seu cavalo a passo, para permitir que o cavalo de
Charles, um velho cavalo castrado de cascos pesados, recuperasse o
fôlego. Um grande falcão mergulhou e voltou a subir com um
coelho pequeno nas garras; Charles pensou que a ave pudesse ser
uma águia ainda jovem.

Os cavalos trotaram uma milha ou mais e os rapazes conservaram-
se silenciosos. Chegaram a um pântano, onde tiveram de afrouxar a
marcha, enquanto os cavalos escolhiam o caminho. Nas poças de
água estagnada, os jacintos começavam a florir e algumas
ameixoeiras espalhadas inclinavam-se, carregadas de flores. A luz
passava por entre as folhas novas das árvores, em raios visíveis,
como chuva seca. Um bando de perus selvagens levantou voo, com
um bater de asas. Harrimond sabia o que produzira o ruído, mas
não conseguiu ver senão uma única ave já velha, que fugia a
gorgolejar.


Os cavaleiros sentiram-se satisfeitos ao sair do pântano sombrio,
venenoso, Infestado de insectos, para terreno aberto e ascendente.
Passaram por uma cabana maltratada pelas intempéries, acenaram
para duas crianças meio nuas, esfarrapadas, penduradas naquilo
que devia servir de cerca, e viram três mais pequenas que se
esconderam furtivamente por trás da casa. Embora o sítio fosse
pouco convidativo, sentiam-se esfomeados e voltaram atrás para
ver se podiam arranjar algo para comer.

As duas crianças, vendo os cavaleiros regressar, começaram a fugir.
Atando as rédeas à cerca oscilante, Hammond e Charles dirigiram-
se à cabana e bateram com os nós dos dedos na ombreira da porta
aberta que dava para a única divisão. Uma mulher desmazelada, de
ventre inchado, faces cavadas, descalça, de meia-idade indefinida,
apareceu, vinda de algures dentro da casa e ficou a olhar para eles,
num silêncio truculento. Os rapazes disseram que tinham fome e
estavam dispostos a pagar a comida. A mulher coçou a cabeça
loura, de cabelos emaranhados, hesitou, com indecisão, e
desapareceu, sem dizer uma palavra. Hammond olhou para Charles
e Charies voltou pelo menos um dos olhos para Hammond. já
tinham dado um passo simultâneo em direcção aos cavalos, quando
a mulher voltou com duas grandes cabaças cheias de leite coalhado,
que lhes meteu nas mãos. Depois desapareceu de novo e voltou com
grandes pães de milho.
-Cinquenta cêntimos -disse ela, e foram as primeiras palavras que
pronunciou. Hammond pagou-lhe.
Era pouca comida, mas acalmou-lhes o apetite e sentiram-se melhor.
As duas crianças que tinham estado penduradas na cerca voltaram
furtivamente e puseram-se a ver os viajantes comer. Tinham doze
ou treze anos de idade. Embora ambos usassem algo que se
assemelhava a vestidos, um deles parecia ser um rapaz. Estavam
gordos e pareciam bem nutridos, mas seguiam com um olhar


cobiçoso cada gesto de levar a comida à boca. Finalmente, a
rapariga pediu, incapaz de se conter por mais tempo:
-Posso ficar com aquilo que não comer? Teria mandado chicotear
um negro por menos que aquilo, mas Hammond partiu o escupão
em dois e entregou metade à rapariga, que pegou nela e fugiu sem
agradecer. Charles deu metade do seu ao rapaz que pegou nele e
começou a comê-lo, mas não fugiu.
-A que distância fica a Plantação Coign? Sabes? -perguntou
Hammond ao rapaz que se limitou a abanar a cabeça.
Charles colocou a cabaça vazia no degrau em frente da porta, e a
mulher que devia ter estado a observá-los por uma fenda da parede,
visto que não havia janelas, lançou-se imediatamente sobre ela.
-A que distância fica a Plantação Coign? -perguntou-lhe
Hammond. Ela fez um gesto com a cabeça na direcção que ele já
conhecia, mas não lhe deu resposta quanto à distância.


Quando os dois rapazes saltaram de novo para as selas, Hammond
cuspiu e disse:
-E ainda há quem fale da escravatura?
-Quem? -perguntou Charles.
-A gente do Norte, aqueles abolicionistas, e até gente aqui do Sul.
Dizem que não há direito, não há direito que homens possuam
outros. Nenhum escravo vive como essa gente onde estivemos.
Precisam da escravatura. Limpa-os, ensina-lhes boas maneiras.


Aproximavam-se de uma casa, pequena mas arranjada, com uma
cabina dupla por trás. Um homem branco, um negro adulto e um
rapaz mulato trabalhavam em conjunto no campo para lá da casa.


Quando chegaram ao nível do sítio onde eles trabalhavam, puxaram
as rédeas aos cavalos e Ham perguntou a que distância estavam de
Coign. 0 branco largou o trabalho e veio até à cerca. Podiam-se ver
através dos fatos as articulações salientes da sua figura angulosa.



Tinha cerca de trinta anos, mas a barba negra, de três semanas,
fazia-o parecer mais velho. Trazia um chicote negro pendurado à
volta do pescoço. Ham repetiu a pergunta.
-Coign? -perguntou o estranho, cuspindo o tabaco e encostando-se
à estaca superior da cerca. -A cerca de quatro ou cinco milhas,
penso eu, mais para cinco. Siga a direito até a estrada se dividir e
volte à esquerda. Não há nada que errar. Há um grande carvalho
retorcido na bifurcação. Não há nada que errar. Vire à esquerda.
-Muitíssimo obrigado -disse Ham. Os dois cavaleiros chegaram à
bifurcação, Não havia realmente possibilidade de erro. 0 tronco do
grande carvalho estava retorcido por duas vezes, como um saca-
rolhas; devia ter sido artificialmente torcido em pequeno, pois os
carvalhos crescem a direito. Tomaram a estrada da esquerda que era
a subir.

Colgri estava situada numa elevação a que não se podia bem
chamar colina. 0 letreiro TIje Coign, em letras góticas, rodeada de
filigrana de ferro forjado, cobria dois portões do mesmo material
que estavam abertos. As maçanetas douradas no cimo das estacas
que formavam os portões estavam tão manchadas que pareciam
mais pretas do que douradas. Para lá dos portões estendia-se uma
álea recta, ladeada por nogueiras, cujos ramos se tocavam e
misturavam e entre os quais se podiam ver os pilares de um pórtico
dórico. Ham não previra tal magnificência, mas o local não
precisava de letreiros para proclamar que era TIje Coign.

As nogueiras terminavam abruptamente num relvado, mas o
caminho continuava em volta do relvado, num oval simétrico. A
extensão de relva e ervas era suficientemente vasta para permitir, a
quem avançasse pela área, parar na sua extremidade e apreciar toda
a fachada da mansão georgiana de tijolos, incluindo as alas que a
flanqueavam, de ambos os lados.


Aquela era efectivamente uma mansão. Simples, mesmo austera, a
casa não estava atravancada de ornamentos e o olhar podia apreciar
as proporções delicadas, embora robustas, de todo o edifício. Dos
extremos do corpo principal da casa erguiam-se quatro chaminés,
que não conseguiam mitigar o ar sombrio de todo o quadro. A tinta
branca despegava-se da pesada cornija e dos caixilhos das janelas
das alas, mas estava intacta sob o telhado do pórtico.


Um velho mulato reumático, impecavelmente vestido e calçado,
apareceu, vindo de uma das esquinas da casa, para tomar conta dos
cavalos.
-Boa tarde, senhores. Os cavalos estão fatigados. Vou tratar deles
disse, corri uma vénia, mas sem servilismo, apontando para a porta
com a palma da mão voltada para cima.


Hammond, seguido de Charles, dirigiu-se à porta e levantou o
batente de bronze. Tenras folhinhas de relva amarelada cresciam
numa fenda entre as lajes do chão. A espera foi longa e Hammond
observou uma carriça que transportava palhinhas para o seu ninho,
no topo de uma das colunas de arenito. 0 chilrear da ave e o
zumbido de um insecto qualquer eram os únicos sons que se
ouviam, e Hammond sobressaltou-se com a própria voz quando
disse:
-Parece que não há cá mais ninguém, além daquele preto velho.
Estendia a mão para o batente, pela segunda vez, quando a porta se
abriu silenciosamente.
-Meus senhores! -saudou o criado que abriu a porta. -0 senhor
Wilson está a dormir, mas deve estar a acordar. Não desciam
entrar? -perguntou cordialmente, mas sem grande entusiasmo, e
conduzi-os, através do vasto hall, para uma grande sala, onde os
convidou a esperar. Ajeitou os cortinados, para deixar entrar mais
luz, e retirou-se.



Este mordomo antigo tinha feições caucasianas e pouco lhe faltava
para ser branco. Tinhas as bochechas pendentes como sacos, por
baixo dos olhos, mas tinha sido belo e era ainda distinto nas suas
maneiras e elegante na sua pose. Usava uma libré de cetim azul-
escuro, bem limpa e nada estragada, calções até ao joelho e cabelo
empoado, puxado para trás e entrançado. As suas longas pernas
estavam cobertas com meias de seda branca.

A elegância da sala para a qual os rapazes haviam sido levados
deixou-os pouco à vontade. Falavam em voz baixa. As paredes
eram de nogueira com painéis de damasco cinzento, rodeados de
ouro-velho. Os cortinados eram de veludo azul-pavão, sem
estampados. A carpeta Kirmanshaw, que cobria o centro do soalho,
deixava à vista uma larga margem de carvalho polido. 0 mobiliário,
se não era Hepplewhite, tinha influência HeppIewithe, e as cadeiras
estavam cobertas com um damasco de um tom entre o amareloesmaecido
e o ouro-velho.

Por cima da chaminé de mármore, estava pendurado um grande
retrato de um homem alto, de meia idade, com as bochechas caídas
e olhos papudos, no género do mordomo. A sua longa i-não direita
estava pousada no ombro de um pretinho que olhava para ele com
admiração, e à sua esquerda estava representado um galgo elegante
mas de pernas muito compridas, com os olhos fixos no dono. Não
havia outros quadros ou ornamentos. 0 retrato poderia ter sido
pintado por Benjamin West, mas estava um pouco atrasado para o
seu período americano.

Os rapazes não ouviram entrar o senhor Wilson, quando este
finalmente chegou, e encontravam-se de costas para ele. 0 outro
saudou-os apenas com duas palavras:
-Meus senhores. Velho, fraco e quase paralítico, Wilson continuava
a ser urna figura imponente que dominava a sala, Coign inteira e a


paisagem adjacente. Parecia um monarca. Havia nele uma nova
versão das bochechas pendentes e dos olhos papudos, no gênero
dos do retrato e dos do mordomo.
-Meus senhores -repetiu. -Peço-lhes que me perdoem. Estava a
dormir e o meu criado recusou-se a acordar-me. Queiram
desculpar-me.
É o senhor Wilson? -perguntou Hammond.
0 próprio, ao seu dispor. Eu sou Hammond Maxwell.
-Sim? -inquiriu Wilson, aguardando.
-Sou Hammond MaxwelI, filho,de Warren MaxwelI, da Plantação
Falconhurst.
-0 senhor? -perguntou o velho. -0 senhor? Colocou a mão sobre o
ombro do rapaz e levou-o até uma janela, recuou um pouco e olhou-

o de alto a baixo, focando-lhe o rosto. Abanou a cabeça e estendeu-
lhe a mão.
-Muito bem, muito bem, tenho muito prazer em vê-lo, meu filho. Olhou
para Charies e perguntou: -E este jovem?
-É Charles Woodford, filho do major Woodford, de Crowfoot. Vou
casar-me com a filha dele, isto é, do major, e o Charles vem comigo
até Falconhurst.
-Conheço o maior, mas mal; é pessoa muito apreciável, ao que julgo
-disse o velho, salvaguardando a sua apreciação. -Tenho muito
gosto em vê-lo -disse a Charles; depois voltou-se para Hammond. Parabéns
pelo seu próximo casamento. E filho único, não é verdade?
Ou há outro?
-Não há mais nenhum. Só restamos o meu pai e eu -disse
Hammond.
-Ele é feliz por ter ao menos um filho. Feliz -suspirou Wilson. -0
meu filho mais velho morreu, foi morto a tiro num duelo. 0 mais
novo morreu com febres. Dois rapazes e quatro raparigas, todos
mortos. 0 Warren Maxwell tem sorte.
0 velho procurou com a mão o assento da cadeira em que ia deixar-
se cair.

-Como está Warren Maxwell? Corno vai o seu pai?
-Vai andando, mas o reumatismo não o larga. Contudo, parece
estar a melhorar -explicou Hammond. -Julgo que esteja muito
triste por eu andar longe. Preocupa-se muito quando deixo
Falconhurst.
-E bem pode, e bem pode. Todos os rapazes são uns tolos,
especialmente quando têm vitalidade. É muito novo?
-Tenho dezoito anos -protestou Hammond -, quase dezanove. E o
meu pai não me considera tolo. Confia em mim, mas gosta de me
ter junto dele. Gosta da minha companhia.
-Não me admira, não me admira nada. já lá vão doze anos ou mais
desde a última vez que vi Warren. Era muito mais novo do que eu,
muito mais novo, mas gostava dele. Lembro-me, era louco por
mulheres negras, ou de qualquer outra cor, tanto lhe fazia, mas
quanto mais escuras melhor. Invejava-lhe a juventude e o vigor. Eu
já estava a envelhecer.
-Acho que ainda se interessa por elas, mas o reumatismo...
-Da última vez que o vi, ele veio aqui, falou-me de uma grande
fêmea mandinga, a maior que eu já vi, e da filha dela que tinha três
anos e parecia ter cinco. Bonita. Eu não queria vendê-las, mas o
Warren tinha mesmo que as ter: era louco por mandíngos.
-E ainda é. Foi para isso que eu cá vim -declarou Harrimond.
-Ele ainda terá a fêmea e a filha? A pequena já deve ter idade para
procriar, quase.
-Ainda temos a velha Lucy e a filha chama-se Pérola Grande. Estão
as primas. A Lucy ainda procria e a mais nova está pronta. É isso
que venho fazer à Plantação Coign.
Wilson ergueu-se, apoiando as mãos nos braços da cadeira.
-Vamos para a biblioteca, onde há uma lareira acesa, e lá podemos
conversar melhor -sugeriu. -A tarde está a ficar fresca e, na minha
idade, gosta-se de calor.


0 homem idoso aceitou a ajuda do mordomo, que lhe pegou no
braço e o amparou através do hall. Exceptuando os trajos e o facto
de o mordomo ser mais novo, eram singularmente parecidos, tanto
no porte como na estatura, e nas faces descaídas.
-Não vale a pena lutar contra ele -disse o velho a sorrir,
apreciativamente, quando o outro o ajudou a sentar-se. -Estou sem
defesa. È o que faz ter um filho por criado; faz o que quer de mim e
não aceita ordens. Acha que sabe mais do que o patrão.
-Quer o seu chá, siô?
-Não, não, deixa-me só, Ben -respondeu o velho, mimado. -Mas
podes bem trazer-nos uma garrafa daquele Madeira, se fazes favor;
sabes qual é, o Mairrisey. Estes jovens devem apreciá-lo.
-Sim, siô, trago já, siô.
0 velho apontou o escravo que saía, e explicou:
-Eu não era mais velho que o senhor MaxwelI, não, nem tanto,
quando nasceu o velho Ben, o primeiro macho que eu tive, e o
melhor de todos. Antes disso, só tinha feito raparigas, pelo menos
julgava que eram minhas, embora o meu irmãos mais velho às
vezes entrasse nos meus domínios, e, por isso, não tinha bem a
certeza. Criei o Ben e treinei-o e tem sido fiei. Ao fim de setenta
anos, acaba-se por gostar de um escravo. Creio que o Ben tem
setenta e um ou setenta e dois. Eu tenho oitenta e sete. Se queremos
ter um bom criado, temos, nós próprios, que o fazer e domar,
adaptando-o aos nossos costumes, e já sabemos com o que podemos
contar.

A sala estava forrada com estantes cheias de livros encadernados a
couro, alguns com as lombadas manchadas ou estaladas e, por cima
das estantes, o verniz do apainelamento a branco tinha tomado tons
de marfim antigo. Por trás dos quatro espaçosos cadeirões que se
alinhavam em frente da lareira, estendia-se uma mesa enorme, com
livros de contabilidade, um tinteiro, penas, uma caixa com areia,
três ou quatro livros encadernados que haviam deixado lugares em


aberto nas estantes, e um candelabro de pé, em cada extremidade. A
carpeta estava gasta e a extremidade junto do fogo sarapintada com
pequenas queimadelas, uma das quais era tão grande como a palma
de uma mão feminina e tinha esse formato.


Por cima da lareira de nogueira, sobre a qual havia dois ou três
livros atirados descuidadamente, e um par de candelabros, com as
velas meio gastas, estava suspenso um quadro que representava
duas mulheres nuas e um sátiro, As mulheres eram rosadas e
arredondadas e os tons da sua pele eram quentes, à maneira de
Rubens.


Aquela sala parecia ser o retiro do velho. Usada, mesmo gasta.
Wilson olhava para o quadro, com acariciador apreço, nos
intervalos da conversa.
-0 que eu cá vim fazer foi... -começou Hammond.
-Fazer-me uma visita, espero eu, em delegação do velho Warren,
que há muito se esqueceu de um velho amigo. -Wilson adiava a
descrição da missão. -Este velho túmulo precisa do som de vozes
jovens. Bem gostaria que ficassem uma semana, um mês, um ano,
quanto tempo quisessem, escutando as garrulices de um velho.
-Temos que seguir para Falconhurst -disse Hammond.
-Sim, sim, amanhã ou depois, ou no dia seguinte. Entretanto,
preocupar-se faz bem ao Warren, ensina-o a ter paciência, faz-lhe
ver o que é ter um filho, e como um filho é precioso.
E Wilson inclinou-se para a frente, à custa de alguma energia,
estendendo a mão para dar uma palmadinha no joelho rígido de
Hammond.
-Não quero que o pai se preocupe comigo, ele conta comigo. Ben
voltou com uma garrafa coberta de poeira e três copos, numa
bandeja que colocou cuidadosamente sobre a mesa, como para não
agitar o vinho. Limpou a garrafa com um guardanapo, ternamente,
introduziu o saca-rolhas e puxou a rolha, levou a garrafa devagar



até às narinas para apreciar o bouquet, e despejou o vinho nos
copos. Passou a salva primeiro ao seu patrão, depois a Charles e
finalmente a Hammond, como um soberano a distribuir
condecorações.

0 proprietário passou o copo diversas vezes sob as narinas,
saboreou um pequeno golo e acenou afirmativamente para o
escravo. Ergueu o copo para Hammond e propôs um brinde:
-A Warren Maxwell e seu filho, que se parece com ele. -E, depois,
recordando-se, delicadamente, acrescentou, com uma vénia na
direcção de Charles: -e ao major Woodford e seu filho. -Saboreou
de novo o vinho e fez estalar os lábios. -Que tal o acham, meus
senhores?
Charles esvaziou o copo de uma só vez, antes de olhar para
Hammond, que imitava o anfitrião, o qual tomava pequenos golos,
os saboreava e aspirava o doce perfume do vinho, enquanto ia
observando os nus sobre a lareira.
-É bom, mas não sei de que é. Nunca bebi nada assim até agora disse
Hammond, francamente.
-É Madeira, Malinsey; aprende-se a gostar deste vinho doce -disse
Wilson. -Podes beber também, Ben. Vai buscar um copo.
-Obrigado, siô. já me admirava.
-Admiravas-te? Porquê?
-Dá-me sempre um copo, siô, quando bebe MaInisey.
-Claro, mas tem cuidado com as borras. As borras estragam-no.
0 velho dedicou-se a apreciar o vinho e nada disse até o copo estar
vazio. Hammond estava ansioso por tratar do seu negócio. Gostava
do seu anfitrião, mas custava-lhe perder tempo. Não conseguia
compreender que os motivos do velho para o impedir de falar da
sua missão, eram apenas o desejo de prolongar a sua estada. Wilson
não esparava convidados, mas o seu prazer em os receber era
diminuído pelo receio de que partissem depressa.


Hammond tentou, de novo:
-0 que eu vim cá fazer, senhor Wilson, foi saber se tinha um velho
macho mandingo, pois o pai gostava de pedir-lho emprestado para
acasalar corri as duas fêmeas.
-As duas que me comprou? Warren sabe que aquele velho macho é

o pai das duas, e a pequena já foi gerada por ele.
-Sim, senhor, senhor Wilson. 0 pai sabe disso, mas não conhece
mais ninguém que tenha um mandingo, puro e de confiança.
Gostava de experimentar outra vez e pede que lhe empreste o
macho. Não leva muito tempo e o pai pagava-lhe.
-Que disparate! Pagar? Que disparate! Mas já não tenho o macho.
Morreu. Um boi enfiou-lhe os cornos há três meses, e o velho Xerxes
morreu. Não sei se lhes teria servido de alguma coisa, porque estava
a ficar velho. Já há dez anos que eu não lhe dava fêmeas.
-0 pai tinha contado tanto com ele -disse Hammond, traindo o seu
próprio desapontamento.
-Warren Maxwell e os seus mandingos! Tem a mania dos
mandingos!
-São uns bons negros; eu também gosto deles -disse Ham,
defendendo o pai.
-Claro que gosta; ensinaram-lhe a gostar deles -disse Wilson, -Mas
há mandingos e mandingos. Conheci mandingos que nem valia a
pena matar, embora admita que fossem difíceis de matar. São
tenazes. Tive sorte com os pretos que arranjei, uma sorte danada.
Sorte na progenitura que eles produziram. 0 par original era
formado por dois patifes grandes e bonitos; o velho Xerxes era o
macho inicial. Eram parentes, ou primos ou tinham o mesmo pai,
talvez a mesma mãe, também. Tentaram explicar-me o seu
parentesco, mas nunca percebi bem; se calhar nem eles.
-Isso faz com que Pérola Grande tenha ainda mais raça do que o pai
julga; mesmo Lucy tinha raça, penso eu.
-Não se sabe donde vem já o incesto. Acho que é altura de parar.
Claro, eu sei que daí resulta uma progenítura de categoria

excepcional, ou a mais excepcional degeneração. Não há meio
termo. Produz tipos perfeitos ou monstros, ninguém sabe porquê explicou
Wilson. -Parece que é o motivo porque os reis podem ser
idiotas ou gênios. Na maioria são idiotas; grandes homens ou
maníacos, mais maníacos.
0 assunto aborrecia Charles.
-Não tem negros machos? Um macho é um macho. Não há
diferença.
0 que querem é um filho, não é?
-0 pai tem muita importância, jovem -disse o velho. -De modo
algum se deve acasalar um mandingo com um membro de outra
tribo. Deve manter-se a raça pura. Um cruzamento híbrido com um
mandingo, urna mula mandinga, como eu lhe chamo, é traiçoeira,
indigna de confiança, imprevísivel, um renegado ou assassino. Tal
mula pode ter o tamanho e o vigor de um mandingo, nem sempre
os tem, mas pode tê-los, mas, quando chega à idade de procriar, sai
um mau negro. Metade dos negros maus de que se ouve falar tem
algum sangue mandingo, não puro, claro, mas misturado com
sangue de guinéu, de haúça ou de Angola, ou de qualquer outra
raça. E as fêmeas são tão más como os machos, piores, até. É
possível dominar um macho mau; uma fêmea má continua má até
morrer.
-É o que o pai diz. Por isso ele queria o seu velho macho para as
fêmeas que temos.
-Tem razão. Um mandingo puro é manso como um gatinho,
resistente como um cabo, forte corno um elefante. Um meio
mandingo é uma víbora, acredite. Agora vou dizer-lhe uma coisa,
eu tenho o irmão da tal Pérola, é assim que se chama?
-Pérola Grande, sim, senhor,
-Tenho o irmão da Pérola Grande, filho da Lucy e do Xerxes. É
cerca de três anos, quase quatro, mais velho do que a Pérola. 0
animal mais belo que eu já vi; maior, mais bem feito todo ele do que
Xerxes. Só tem uma coisa má; não posso fazê-lo procriar.


-Quer dizer que não tem sêmen dentro dele? -perguntou Ham.
-Tem muito, provavelmente até de mais; mas é demasiado grande.
Quando chegou à idade de procriar, pediu-me que lhe desse uma
fêmea, e eu mandei Ben chamar a fêmea maior e mais
experimentada da casa, que tinha recebido uns doze ou quinze
jovens robustos, e entreguei-lhe o Medes. Ela ficou satisfeita ao vê]
o, embora ]*à tivesse passado da idade de ter filhos, mas ele era tão
grande e magoou-a tanto, e ela gritou tão forte, que arranquei o
rapaz de cima dela, com medo que ele a rasgasse e desse cabo dela.
Tentei dar-lhe mais uma ou duas outras fêmeas, mas receio que ele
tenha de viver virgem toda a vida, a menos que eu lhe arranje uma
elefante fêmea. -Wilson fez ouvir o seu riso de velho. -É coisa boa,
talvez, mas é de mais.
-Pérola Grande é bastante grande, e eu que o diga -afirmou Ham; e

o senhor conhece a Lucy.
-Não, não conheço, nesse aspecto, ou, se conheci já me esqueci. -0
velho acrescentou deliberadamente novas implicações à frase de
Ham. -Se quiser levar esse Medes para o seu pai o ver e o
experimentar, pode fazê-lo. Isto é, se o Medes quiser ir, e há-de
querer.
-Teria que ficar com ele até Maio, altura em que voltarei a Crowfoot
para o meu casamento.
-Está bem. Fique com ele o tempo que quiser. Quando já não
precisar dele, dê-lhe um passe, dê-lhe um pão e solte-o. Ele voltará
para casa. Só há um problema.
-Diga, senhor Wilson.
-0 Medes está hipotecado, pelo montante de mil e quinhentos
dólares, penso eu. Talvez seja só mil e duzentos e alguns anos de
juros. Toda a plantação está hipotecada, cada peça do mobiliário e
cada escravo. As hipotecas estão todas vencidas e o juro está por
pagar, e eu vivo aqui devido à paciência do judeu, que se recusa a
correr com um velho e aguarda que eu morra para tomar posse da
sua propriedade. 0 judeu Wertheimer de Mobile, digam o que

disserem dos judeus, o judeu Wertheimer é um branco. Se quiser
pedir dinheiro emprestado, não vá ter com banqueiros brancos, vá a
Mobile e fale com o judeu Wertheimer. Com ia dizendo, se o Medes
morrer ou ficar aleijado enquanto estiver em seu poder, teria o
senhor de pagar a hipoteca que pesa sobre ele. Eu não queria que o
judeu sofresse essa perda, depois da sua clemência para comigo,
pois eu não poderia pagar-lhe.
-Claro, está muito bem. 0 pai faria isso, evidentemente. Dou-lhe
uma nota por escrito.
-Não é preciso nota, basta que nos entendamos. Se o filho do
Warren Maxwell não pagasse um negro morto, a minha fé na
natureza humana morreria e eu bem podia, morrer com ela. Não
vivi oitenta e sete anos sem aprender a conhecer os homens,
especialmente se conheço a sua linhagem, e o senhor não pode
negar a sua. Talvez gostasse de ver o tal mandingo.
-Agradecia muito. Gostava imenso de o ver. É um lutador? perguntou
Charles. Só pensas em combates, Charles? -inquiriu
Hammond. Ben, ó Ben! -chamou Wilson, batendo no chão com o
atiçador, para chamar o mordomo, que apareceu imediatamente. Apanha
o Ganimedes e traz-mo aqui.
-Como é que chama o rapaz, senhor Wilson? Ganimedes; que nome
é esse? -perguntou Hammond.
-Geralmente chamo-lhe Medes. Nos livros e na hipoteca, está
registado como Ganimedes.
-Era isso que eu queria saber. Que significa esse nome?
-Bom, para lhe contar sem corar, Zeus, o deus soberano dos gregos,
viu um rapaz chamado Ganimedes e apaixonou-se tanto por ele que
mandou uma enorme águia raptá-lo e levá-lo, nas suas garras, para

o monte Olimpo, onde o rapaz serviu Zeus como copeiro, isto é,
servia-lhe o vinho e servia para outros fins.
A porta abriu-se e Ben perguntou:
-0 Medes pode entrar, siô?

-Sim, ele que entre -respondeu o patrão. Medes avançou e encheu a
sala, que não era suficientemente grande para ele. Andava aos
saltos, não indecorosamente, mas porque as suas pernas pareciam
conter molas que ele não conseguia controlar. Irrompeu como um
garanhão e, contudo, conservou a dignidade de um potentado. Com
cerca de seis pés e duas ou três polegadas, parecia mais alto do que
era. Talvez a idade e a fraqueza do patrão formassem contraste com
a juventude e o vigor do escravo. Parecia incapaz de sentir medo, e
a sua subserviência perante o seu bondoso patrão era a
subserviência da dedicação.
-Medes, vem cá. Mal pronunciara as palavras, já o rapaz
atravessara a sala e se colocara, dócil mas nervoso, em frente da
cadeira do velho.
Hammond notou que a sua pele não era totalmente negra mas de
um castanho profundo e quente, como nogueira polida, com uma
vaga coloração de vermelho nas faces. Tinha os olhos bem
afastados, dentro do rosto largo, mas dentro das têmporas, ao nível
das faces, e não muito proeminentes, sob as sobrancelhas, na testa
baixa. A cana do nariz não era totalmente achatada e as enormes
narinas redondas eram animadas pela respiração. Os dentes
grandes, regulares, eram amarelos e semelhantes a ossos, por trás
da ampla abertura que formava a boca de lábios grossos mas não
proeminentes. A mandíbula inferior era maciça e quadrada. Uma
carapinha espessa crescia em linha recta, por cima da testa.

A cabeça era bárbara. Parecia uma escultura rudemente talhada, um
grande trabalho por acabar, sem pormenores, uma cabeça tão
poderosa, tão primitiva que inspirava medo -excepto quanto aos
olhos, pretos, de longas pestanas, e benignos, confiantes, não só na
capacidade de se defenderem contra o mundo inteiro mas também
no mundo contra o qual não era necessário qualquer defesa. Esses
olhos pousavam-se no patrão com algo que parecia adoração.


-Medes, despe-te e mostra a estes senhores o que tens. -A ordem
fora modulada como um pedido. -Eles nã o se importam com o
cheiro, se o Ben não te deu tempo para te lavares.
-Patrão está a pensar em vender-me? -perguntou Medes com
interesse mas sem alarme.
-Nem pensar nisso -riu-se o patrão. -Sabes muito bem, que eu não
te vendia sem to pedir.
-Precisa de dinheiro, patrão, e eu valho bom preço. Eu não me
importo se quiser vender-me.
Medes ajoelhou-se, para desapertar os sapatos.
-Basta que eu me preocupe em The Coigri para arranjar de comer
para todos nós, rapaz, e não preciso de vender-te. Não como dos
meus escravos.
0 motivo porque gostaria de vender-te era para saber que vai ser de
ti, arranjar-te um bom patrão, antes de morrer.
-Eu sabe, patrão.
-Que o diabo te leve, pára de falar como um negro. Cresceste a falar
inglês.
Era a primeira vez que o patrão se mostrava severo.
-Eu sei, patrão -corrigiu Medes, contrito.
-Assim está melhor. Medes tirou a camisa e despiu as calças.
Hammond acenou afirmativamente.
-Um perfeito rapaz -disse. -Parece-se com a Pérola Grande, mas é
maior. Muito perfeito -repetiu.


Embora a saúde não estivesse em questão, Hammond levantou-se
para percorrer com as mãos, exploratoriamente, os ombros e os
braços do rapaz, deu-lhe palmadas nas coxas, levantou os orgãos
genitais e sorriu admirativamente. Bastava a Hammond olhar para
um bom negro para saber o que era; não era necessário o exame
táctil, mas gostava de confirmar a sua aprovação com as mãos.
Obtinha uma satisfação adicional do contacto com a carne. Era



como se achasse que a saúde, a força, a beleza, fossem contagiosas, e
pudesse absorver esses atributos tocando em quem os tivesse.


Wilson sentia o mesmo. Compreendia o prazer que Hammond
sentira perante um tão magnífico animal e, sendo também um
conhecedor, pressentia a muda aprovação de Hartimond. Ham
limitou-se a olhar para o velho e abanou a cabeça.
-Calculei que gostasse dele. É jovem, não está ainda no máximo,
mas é melhor que o pai. Acho que o Warren gostaria de o usar?
-0 pai gostaria imenso de o ver. É mesmo aquilo que ele deseja para
Lucy e Pérola Grande. Ele é magnífico -respondeu Hammond.
Ganimedes, cônscio da sua magnificência, dernonstrou-a. Flectiu os
músculos, torceu o corpo de um lado para o outro, baixou-se e
levantou-se.
0 seu rosto estava imperturbável, mas a admiração dos brancos
estimulava o seu ego.
-Medes, senta-te aí e escuta-me -disse o patrão. -0 senhor Maxwell
é, ou antes, o pai do senhor Maxwell é um velho amigo meu. Quer
manter a raça pura. 0 senhor Maxwell quer que eu te empreste para
procriar, e eu gostaria de o servir. Queres ir com ele e voltar quando
as fêmeas estiverem cheias ou quando ele te mandar embora?
-Sim, siô, patrão. Faço o que mandar.
-Eu sei. E melhor para ti -disse o patrão, rindo. -Mas queres ir?
Ninguém te obriga.
-Eu quero ir, sim, siô. Mas acha que eu posso? Nunca fiz nada
antes, bem sabe. Sou muito grande. Arrancou-me à velha Célia e
não me deixou.
0 negro olhava para si próprio, para baixo.
-As fêmeas do senhor Maxwell são grandes, diz ele. Acho que as
poderás cobrir. 0 senhor Maxwell decidirá.
-Como quiser, patrão. Quando começamos?
-Depois digo-te. 0 senhor Maxwell fica cá alguns dias. Depois digo-
te. Agora pega nos teus trapos e volta para casa.



Medes meteu a camisa e as calças debaixo do braço e inclinou-se
para pegar nos sapatos.
-Espera-interrompeu Ham, -Senhor Wilson, vende-me este macho?
0 velho hesitou antes de responder.
-Queria-o para si e não voltaria a vendê-lo? -perguntou. Medes
olhou para Wilson, depois para Hammond e de novo para Wilson.
Confiava no patrão, mas não era um espectador indiferente ao seu
destino. Deixou cair as roupas e ficou à espera.
-Quero-o para o conservar -explicou Hammond. -Na realidade,
quero fazer dele um lutador. Tenho andado à procura de um. Acha
que ele serve para lutar? _ Claro que serve. Claro que serve para
lutar-interrompeu Charles. As próprias palavras o excitavam. Compre-
o; porque não o compra?
-Não sei -disse Wilson. -É bastante forte. Quando o velho Xerxes
apanhou uma cornada, o rapaz pegou no boi pelos cornos e partiu-
lhe o pescoço. Foi como se matasse uma galinha. Mas lutar, não sei.
0 Medes não se enfurece, nunca o vi furioso. Sabes lutar, Medes?
-Quem quer que eu desanque? Para quê? -perguntou o negro,
demonstrando interesse, mesmo alacridade. -Sim, siô, sei lutar.
Sim, siô.
-já ouvi falar desse novo desporto da luta, mas nunca vi um
combate.
-Nos meus tempos não se fazia disso -disse Wilson. -Deve ser tão
excitante como uma corrida de cavalos, mas perigoso. Detestava
que o Medes se arruinasse num combate.
-Todos os rapazes têm os seus lutadores -explicou Hammond. -Eu
gostava de ter um. 0 pai disse que eu podia comprar um, mas um
muito bom, que pudesse vencer todos.
-Sim, vendia-o ... a si -admitiu Wilson. -Isto é, se o rapaz quiser ir.
Achas que gostavas de ir, Medes? Queres ser o lutador do senhor
Maxwell?
-E posso ter sempre duas fêmeas? -estipulou o negro.



-Bom, quando não estivermos a preparar-te para um combate. Não
quero que te canses com as fêmas -esclareceu Hammond.
-Não lhe fazia mal nenhum -interrompeu Charles, que todos
ignoraram.
-0 senhor Maxwell há-de tratar-te bem. Boa comida e em grande
quantidade. Claro, não seria como aqui. Terias que descobrir os
costumes do senhor Max. A -e adaptar-te a eles; obedecer-lhe. Que
dizes? Eu não posso viver muito mais tempo, e sempre é melhor do
que seres vendido em bloco sem saber a quem.
É melhor -concordou Medes. Quanto quer por ele, senhor Wilson? perguntou
Hammond. Não sei. Não sei. 0 Medes é uma espécie de
negro de estimação, algo especial que deve valer bastante. Como lhe
disse, o judeu de Mobile, emprestou-me mil e duzentos ou mil e
quinhentos dólares sobre ele, não me lembro do valor exacto, e sabe

o que isso representa quanto ao valor dele especulou o proprietário.
-Não sei quanto esse rapaz me daria, mas para si, para o seu pai,
para ir para uma boa casa, onde não abusarão dele nem o farã o
trabalhar em excesso, três mil dólares estará bem? Ou é muito?
-Acho que ele vale isso. É um rapaz perfeito. -Hammond hesitava.
Estendeu a mão e puxou Medes para ele. -Ajoelha-te -ordenou.
Esquecera-se de examinar os dentes.
-Se descobrir qualquer coisa errada nele quando chegar a casa, ou
se o Warren não o quiser, solte-o e diga-lhe que volte a The Coign.
Não fico aborrecido -especificou Wilson.
-0 pai concorda, de certeza -disse Hammond, dando uma palmada
no ombro do negro.
-Isso é muito -decidiu Wilson. -Não posso explorar o filho de um
velho amigo. Eu disse três mil; passo-o para dois mil setecentos e
cinquenta. Assim é melhor. Basta. Nenhum negro vale mais que
isso.
-Eu volto cá na próxima semana e levo-c, -prometeu Ham. -Não
tenho tanto dinheiro, aqui comigo. Volto, de certeza. Não vende este
negro a mais ninguém, senhor Wilson?

-Não diga disparates. Leve-o consigo. Leve-o consigo. Depois
manda o dinheiro.
Medes pôs-se de pé, pegou outra vez nas roupas, e depois caiu de
Joelhos em frente da cadeira do velho, abraçou Wilson e escondeu o
rosto no seu peito. Os soluços fizeram-no estremecer.
-Que se passa, Medes? Eu perguntei-te primeiro, antes de te
vender. Então, então, o senhor Maxwell liberta-nos do
compromisso. Não tens que ir. Levanta-te.
Medes agarrou-se mais a Wilson.
-É melhor-disse. -Eu quero ir. Eu quero uma fêmea. Eu quero lutar.
Mas eu gosto de si, patrão. É tão bom, patrão, siô, e tão velho. Gosto
muito de si.
Wilson passou os dedos frágeis pela carapinha do enorme negro e
deu-lhe umas palmadinhas ternas. Depois libertou-se do abraço do
rapaz e afastou-o. Havia lágrimas nos seus olhos mas não as
enxugou. Pôs-se a olhar para a janela, enquanto Medes se erguia e
pegava nas suas roupas pela terceira vez.
-Mais nada, patrão?
-Mais nada, Medes. Podes ir-te embora. Isto é, a menos que o teu
patrão, o teu novo patrão, tenha ordens a dar-te.
-Não, acho que não -disse Hammond. -Podes ir. Está pronto
amanhã de manhã, muito cedo.
0 silêncio que se seguiu à saída do negro foi quebrado por Charles.
-É muito poderoso. Levamo-lo à cidade e fazê-mo-lo lutar no
sábado? Eh primo Hammond?
-Primeiro treinamo-lo. Temos que o ensinar e que o endurecer. Ben
entrou com uma braçada de lenha para a lareira e colocou-a no
lume. Enquanto varria as cinzas e limpava a lareira, ninguém falou.
Ele levantou-se para sair.
-Vendi o Medes, Ben -anunciou o patrão.
-Vendeu o Medes? Nunca pensei que fizesse isso, siô.
EntãoTheCoigri está a acabar. Partiremos em breve.



-Sim, iremos em breve -ecoou o patrão.
-A cela está quase pronta, siô. Comeremos uma perna da corça que


o velho Frank matou no bosque.
-Não devia matar corças. Deixem-nas viver e procriar. Diz ao
Frank que não mate corças -disse Wilson.
Capítido décimo terceiro

-Vamos cedo para a cama em The Coign. Não há muito a fazer. Ler
à luz das velas faz-me mal aos olhos, embora queira ler Propércio só
mais uma vez, só mais uma, antes de morrer -declarou Wilson,
afastando a cadeira, à mesa da ceia, e esvaziando o cálice de Porto Acha
então que tem de partir amanhã? Gostava que ficasse mais
tempo. já não vem muita gente a The Coign, e muito menos jovens.
Foi muito agradável.
-0 pai está à espera. Temos que ir, temos de partir cedo. Acha que o
rapaz acompanha os nossos cavalos?
-Talvez o atrase um bocado. Tenciona parar durante a noite? Ou
quer ir directamente? São mais de sessenta milhas, perto de setenta.
-Pararemos. Não quero dar cabo dos cavalos, e muito menos do
rapaz -disse Hammond.
-Não chicoteie o Medes. Ele corre o mais que puder, sem chicote.
-Não trago chicotes comigo. Não tenciono chicoteá-lo. Iremos a
passo -prometeu Ham.
-Hão-de querer raparigas para passar a noite, julgo eu -propôs
Wilson. -Não me esqueci de quando era novo.
-Não é necessário. Estou muito cansado corri a viagem desde
Crowfoot -protestou Hammond, delicadamente.



-E o senhor? -disse o velho, voltando-se para Charles. -Não é
jovem de mais para lutar com uma fêmea saudável? Não desejo
corromper a juventude.
Charles olhou para o prato, com embaraço.
-Eu tenho uma fêmea, em casa. 0 meu pai deu-ma.
-Bem, bem, já calculava -disse Wilson. -Bem, aquelas três raparigas
já estão prontas? Trá-las aqui e deixa os senhores escolherem.
-A Letícia não pode vir, siô. É a altura dela, a altura do mês, siô. explicou
Ben.
-Bom, traz as outras duas -ordenou Wilson. -Tenho estado à
espera de rapazes brancos apresentáveis para estas raparigas. Corri
excepção do irmão delas, meio irmão aliás, não tenho machos
jovens para elas e não gostava de as dar a um velho. São boas de
mais. São mesmo especiais.
-Virgens? -perguntou Charles.
-Receio que sim, se é que a virgindade tem valor. Terei que pedirlhes
que as livrem dela.
Ellen e Edria tinham estado à espera na cozinha. Entraram atrás de
Ben e ficaram na sombra. Edria sufocou um risinho com a mão.
Estavam ambas envoltas em vestidos bem engomados que
chegavam ao chão.
-Venham cá, minhas queridas, e deixem os senhores verem-nas ordenou
Wilson, estendendo a mão num convite.

Edria avançou, seguida por Ellen, fingindo relutância e pôs-se ao
lado da cadeira do patrão. Ambas olhavam para o chão. Ele pegou
na mão de Ellen e deu-lhe uma palmadinha.
-És virgem, não és Ellen? Quer dizer, estás pura, nunca tiveste um
homem. Não é assim? -inquiriu o patrão.
Ellen acenou afirmativamente.
-Estes senhores, o senhor Maxwell e o senhor Woodford querem
que vão dormir com eles, nas suas camas. Sabem o que isso
significa, não sabem?


Ellen corou e acenou outra vez, e Edria sufocou outro risinho.
-Querem ir? Têm a certeza?
-Faço o que o patrão diz -assentiu Ellen. A outra concordou, em
silêncio.
-Vai doer. Vocês sabem -avisou Wilson.
-Eu sei -disse Ellen. Falava por ambas. Edria lançou um olhar
tímido a Charles e baixou de novo a cabeça.
-Os senhores terão que decidir qual fica para qual. Há pouco por
onde escolher, penso eu. Anda cá, Ellen e deixa estes senhores
verem-te.
A indiferença de Hammond era real.
-Qualquer delas -disse.
-Eu gosto da mais pequena, da mais pequena. Eu prefiro aquela declarou
Charies sem reticências.
-Estas duas e a outra são as únicas fêmeas jovens que me restam.
Eu tive um capataz jovem em The Coign durante umas estações, há
dezasseis ou dezassete anos, um rapaz bonito, de boa figura,
chamado Hall, Willis Hall. Era um branco ordinário, mas conseguiu
boas colheitas de algodão. As raparigas da plantação andavam
todas loucas por ele e ele por elas. Eu não tinha um bom macho
para procriar, na altura, de modo que deixei o Hall à vontade. Fe z
estas duas, outra rapariga e um macho pequeno, além de quatro ou
cinco outros que morreram quando eram ainda bebés ou pouco
depois. Tudo o que ele fazia saía bonito mas frágil, não
propriamente enfezado, só frágil. Não sei porquê; ele próprio era
forte, um malandro robusto, capaz de vigiar um grupo de
lenhadores todo o dia e fornicar toda a noite, tendo tanto prazer
numa coisa como na outra, Não era muito grande, mas era perfeito
e cheio de sêmen. Quase deu cabo dos pretos; matava-os com
trabalho, mas o algodão que conseguiu valia mais que os negros
que matou. Ainda cá estaria se não lhe desse para a religião.
Começou a fazer rezas pela plantação toda, e finalmente descobriu
que tinha vocação para pregar. Tinha visões, ou coisa parecida, em


que ouvia o Senhor a chamá-lo para congregar os pecadores.
Durante um mês não tocava nas mulheres; no mês seguinte atirava-
se a elas, pior do que nunca. Creio que o desejo de pregar era
simplesmente saciedade da carne negra e falta de mulheres brancas;
as pretas já não lhe serviam. Foi-se embora e, desde então, não
tenho tido sorte com os capatazes, nem nunca mais tive uma
colheita de algodão razoável.
-Willis Hall Era o pregador de Benson, no ano passado, até se meter
num sarilho qualquer -disse Hammond.
-De vez em quando oiço falar dele, por aí. Fez-se um grande
pregador -disse Wilson. -Sarilho com mulheres, não?
-Não, foi qualquer coisa relacionado com ele e outro tipo de
Natchez tentarem roubar um negro. Se houvesse provas, tinha sido
enforcado. Mas assim, só correram com ele.
-Pois bem, o Hall foi o procriador destas duas. Acho que hão-de
gostar delas. -Wilson ergueu-se. -0 Ben dir-lhes-á onde os homens
dormem, pequenas; vejam se estão bem limpas.

0 velho tentou demonstrar, com valentia, que era capaz de regressar
sozinho à biblioteca, mas Ben seguiu ao lado dele, e, a meio
caminho, Wilson submeteu-se à ajuda do mordomo, Ben auxiliou o
patrão a sentar-se na sua cadeira habitual, junto da lareira, encheu o
cachimbo e levou-lho, acendendo-lhe com uma varinha a arder que
rapidamente foi buscar à lareira.
-E chega-disse ele. -Quando acabar defumar, é a altura de ir para a
cama.
-Eu vou -concordou o patrão. -Estes senhores darão desconto à
minha idade e perdoar-me-ão por não lhes fazer companhia.
Gostava de conversar um pouco, mas os velhos precisam de dormir,
não que eu não vá dormir de vez brevemente. Mas o Ben é quem
manda.
-Nós não queremos incomodá-lo, senhor Wilson -respondeu
Hammond. -Nós também estamos cansados.


-Eu não estou cansado. Não fiz nada, a não ser andar a cavalo protestou
Charles e Ham olhou-o, desaprovadoramente.
-Fiquem à lareira o tempo que quiserem. 0 Ben trará o que
desejarem. The Colgri é vossa -disse Wilson generosamente. -Não
temos distracções para a juventude, mas eu desejava,
egoisticamente, pedir-lhes que prolongassem a vossa estada.
-0 pai está à espera, em casa, com duzentos negros preguiçosos que
nem valem aquilo que comem. 0 pai não os faz trabalhar. Não pode,
por causa do reumatismo. Temos de nos ir embora.
-São horas de ir para a cama, patrão, siô -comunicou Ben. -Venha já,
siô, se faz favor. É altura de se levantar daí.
-Bom, ordens são ordens, meus senhores -disse o velho,
suspirando, resignadamente. -0 Ben tratará dos senhores. Espero
que gostem das as, mas não é obrigação. Não lhes fará mal mais uns
meses de virgindade; nã o é obrigação. Boa noite. Ben leva-os aos
quartos, quando estiverem prontos para subir.
Enquanto falava, a mão do mordomo, sob o seu braço, ajudava-o a
erguer-se.


Hammond levantou-se e fez o sinal a Charles para fazer o mesmo.
Wilson estendeu a mão a Charles primeiro. Enquanto apertava com
força a mão de Hammond, disse-lhe:
-Deus o abençoe por ter vindo, meu rapaz. É como o seu pai. Não
se esqueça de lhe dar os meus cumprimentos.
Depois de a porta se fechar, Hammond ouviu o velho injuriar o
mordomo por o ajudar, mas aceitou a ajuda com gratidão e até corri
certo encanto.
-Não faz mal nenhum aldrabar o velho -observou Charles,
deixando-se cair de novo na cadeira.
-A respeito de quê?
-De tomar conta do preto. 0 velho não sabe nada sobre lutadores.
Nunca pôs negros a lutar.



-0 senhor Wilson já se esqueceu de mais coisas do que as que nós
sabemos; teve mais negros do que todos os que nós já vimos. Olha
para estes livros; já leu todos.
-Falam de negros? Dizem como eles devem lutar?
-Não propriamente. Mas falam de multa coisa. Alguns deles estão
numa linguagem que não conseguimos entender, nem a sabemos
ler.
-Para que servem? Provavelmente para tanto como a Bíblia que a
mãe lê. Ninguém percebe o que aquilo quer dizer. -Charles cuspiu
para o fogo e mudou de assunto. -Aquela fêmea, a Edria, parece
bem boa. E virgem, diz ele. Não tem as mamas muito grandes; mas
são boas e firmes. É melhor que a sua, acho eu. Melhor que a Katy.
-já sabe que não vai chicoteá-la, como fez com a sua, na noite
passada
-avisou Hammond. -Ela é do senhor Wilson e ele não gostava.
Corno viu, trata os seus negros com bondade.
-É preciso fazer com que os negros gostem de nós, olhem para nós
com respeito. Além disso, eu gosto. Dick, o meu irmão, como sabe,
chicoteia sempre as fêmeas antes. Não é para as magoar,
compreende, é só pára as fazer chorar.
-Deixe lá o Dick. Porte-se bem. É tudo. Se não se portar bem,
quando chegarmos a Falconhurst, dispo-o e castigo-o como se fosse
um negro.
Ben abriu a porta.
-Os senhores desejam alguma coisa?
-Só ir para a cama -disse Hammond. -Leve-nos até ao quarto,
quando estiver livre.
-Então venham comigo -disse o velho mordomo, cuja dignidade
obrigava à deferência. -Por aqui, meus senhores.
Mais do que nunca, parecia uma réplica do patrão, mais novo e
mais vigoroso, mas com a mesma pose, os mesmos gestos.
Ao cimo das escadas, abriu uma porta e fez uma vénia.



-Para o senhor mais novo -disse. -Creio que encontrará tudo o que
precisa; mas eu volto.
Um pouco mais adiante, indicou a Hammond um quarto de
esquina, iluminado por seis velas em dois candelabros.
Hammond olhou em volta, para observar a elegância do quarto, de
papel pintado, e do leito de dossel, com cortinados de seda
adamascada, antes de ver Ellen, que se levantara de uma cadeira.
0 mordomo pediu desculpa pelo cheiro a humidade que se notava
no quarto.
-Eu preferia que dormisse noutro quarto, que tivesse sido arejado,
mas o patrão preferiu este quarto tarde de mais, e eu não quis
deixar entrar o ar da noite -disse ele. -Tem aqui uma bebida, se a
desejar, e há mais cobertores naquela cadeira, se sentir frio. Creio
que vai chover.
-Não se incomode -disse Hammond.
-0 nome da rapariga é Ellen. Vai achá-la tímida, não está habituada
à cama, mas é dócil, Vai obedecer-lhe, siô.
-Eu sei.
-Eu trago a caçarola de aquecer antes de estar pronto para a cama disse
o mordomo, curvando-se.
Hammond sentou-se na cama.
-Vais ter de ajudar-me a tirar as botas -disse a Ellen. -Sou aleijado,
como vês.
-Sim, siô; eu sei, patrão -disse Ellen, avançando, ajoelhando
perante Hammond e estendendo as mãos para a bota.
-Não tenhas medo, Ellen. Não vou comer-te.
-Não tenho medo, patrão -mas Ellen tinha medo, mais medo dela
própria do que de Hammond. Conseguiu tirar-lhe as botas antes de
irromper em lágrimas.
-Está bem, negra. Não chores. Não queres ir para a cama com um
aleijado, e ninguém te obriga. Podes ir-te embora, logo que eu me
dispa. Eu não me ofendo.



-Não é isso, patrão. E que eu não sei como é. Não sei o que quer que
eu faça, siô. Eu quero agradar-lhe.
-C laro que me agradas. Agradas-me mesmo muito, és de primeira
categoria.
Hammond ergueu-se e levantou a rapariga e abraçou-a. Estavam
assim quando Beri voltou com a caçarola cheia de brasas para
aquecer a cama.
-A rapariga não quer despir-se? -perguntou e, antes que
Hammond pudesse responder, pousou a caçarola na lareira,
arrancou os botões do vestido da rapariga, que não se defendia, e o
vestido caiu no chão. -Se as trazemos para a casa grande, ficam
envergonhadas, julgam que um senhor nunca viu uma rapariga
nua. Ben aplicou uma pancada rápida nas nádegas da rapariga. Gordas
-disse; -temos que as alisar. 0 peito também está atrasado;
ainda não estás madura.
-Está muito bem. Eu gosto delas arredondadas. Tem boas mamas,
para uma virgem -disse Hammond, defendendo a rapariga. -E
bons membros, também, não é magrizelas -acrescentou, passando a
mão, aprovadoramente, pelas coxas de Ellen. A depreciação que
Ben fizera da fêmea dissipou a indiferença de Hammond perante a
sua beleza e despertou o seu interesse por ela.
Talvez a ache agradável, siô. Tem que ser firme. Use-a como se fosse
sua, siô.
Ben tinha pegado na caçarola e passava-a lentamente, de um lado
para o outro, sobre os lençóis. Soltou os cortinados e puxou-os, aos
lados da cama, deixando um espaço para entrarem.
-Se precisar de mim -acrescentou -eu durmo no chão em frente do
quarto do patrão, que é ao lado deste.
Hammond sentou-se numa cadeira baixa, para que Ellen o despisse,

o que ela fez cuidadosamente, evitando tocar-lhe na carne. Estava
de cabeça baixa e Hammond não percebeu que ela chorava, até a
ouvir abafar um soluço.

-Que tens, Ellen? -perguntou. -Estás a portar-te como uma branca, a
chorar e tudo. Não sabes.que és apenas uma negra? Se não gostas
de mim, não precisas de ficar.
Hammond tentava desajeitadamente consolar a rapariga.
-Eu gosto de si, patrão. Eu gosto de si. Por favor, deixe-me ficar, só
esta noite, só uma noite. Eu sei que não sou suficientemente bonita
para estar na sua cama. Sou gorda e sou feia, mas vou tentar.
Estava de joelhos diante dele, e, apesar de ter sido tão cautelosa a
evitar contactos com ele enquanto o despia, atirou-se
impetuosamente para a frente, abraçou-se ao corpo dele e encostou
a sua face firmemente, ao seu ventre.
As dúvidas de Ellen quanto à sua beleza não eram justificadas. A
sua figura, é certo, era arredondada, não gorda; os seus seios eram
imaturos, mas firmes e os mamilos róseos erguiam-se
orgulhosamente sobre a pele cheia de veias azuladas. Os seus
grandes olhos castanhos eram sombreados por pestanas longas e
estavam bem afastados no rosto oval, de maçãs baixas. Tinha uma
cova no queixo, e apenas os lábios, ligeiramente grossos traíam a
sua origem negra. Embora a pele fosse escura, a sua cor não trairia a
origem, porque era mais clara que a de muitas brancas, dois tons
mais clara que a da prima Beatriz.

Para Hammond, o negro, fosse qual fosse o tom, era negro, mas não
sentia escrúpulos em tocar-lhe. Não apreciava o cheiro deles, que
considerava próprio da raça, mas Ellen não emitia esse cheiro. 0 seu
odor era limpo e ligeiramente pungente, feminino, mas dificilmente
detectável.

0 gesto dela despertou a compaixão de Hammond que a ergueu nos
braços e a beijou com urna piedade que se transformou em paixão.
Ficou confuso, ao notar o que fizera. Segundo o seu código, uma
fêmea servia para fornicar, não para namoros. Na noite anterior
tinha ficado chocado com o afecto que Charles demonstrara por


Katy. Talvez o seu código devesse ser revisto. Ao beijá-la, sentiu o
sangue correr mais depressa, um formigueiro na carne, a sua
intumescência aumentou, e a sua indiferença desapareceu.
Afastou as cobertas.
-Trepa -disse ele -enquanto eu rezo.
-E as velas?
-julgas que eu não posso apagá-las?


Capitulo décimo quarto

-Não gosto nada do aspecto do tempo. Vai chover antes da noite disse
o anfitrião, cheio de esperanças, ao saudar Hammond, ao
pequeno-almoço. -É melhor esperarem mais um dia.
-Estou habituado ao mau tempo, mas agradeço o cuidado. 0
Charies já se levantou? Importa-se de o chamar, Ben? Há-de ser
hora de partir, e o rapaz a dormir.
Hammond sentou-se à mesa e serviu-se de presunto e ovos.
-Dormiu bem, senhor Maxwell? Fez a sua fêmea feliz? -perguntou
Wilson, superficialmente. Nenhuma das perguntas exigia resposta.
Mas a última abriu caminho a um assunto que Hammond relutava
em abordar.
-Aquela fêmea, senhor Wilson -começou ele. -Bem, vende-me a
Ellen?
-Vender a Ellen? -o anfitrião riu-se. -Suponho que ela lhe agradou
muito. Lembre-se que ela não volta a ser a inesina. A virgindade
não regressa.
-Eu não a desvirginei.
-Não? Ela fez-se difícil? 0 senhor era um estranho para ela, sabe?
Larnento ...



-Não foi culpa da Ellen. Ela pediu-me, mas eu quero que ela seja
minha ... toda ela.. antes de a violar. Quer vender-ma? -explicou o
rapaz.
-Penso que a Ellen estará segura consigo, meu rapaz, mais segura
que com os outros. É bonita de mais. É essa a infelicidade dela. É
especial e acabaria por ir parar às mãos de qualquer jovem
desportista que a usasse durante algum tempo e voltasse a vendê-la.
Gostava que ficasse o senhor com ela. Consultou Ellen?
-Ela diz que gosta muito de mim. Quer ir comigo.
-Quanto dá por ela? Qual é a sua oferta?
-0 que quiser, senhor Wilson. Tudo quanto quiser. Mas quero levála
já comigo, se não se importa. Posso deixar o mandingo e voltar cá
para o vir buscar, e trago então o dinheiro. Mas quero levar a Ellen.
Quanto quer por ela?
Hammond tornava-se vulnerável, na sua urgência. Felizmente para
ele, o proprietário de Ellen estava menos interessado no preço do
que no comprador. Fechou os olhos e o rapaz pensou que ele
adormecera. As suas pálpebras agitaram-se e abriu-as.
-Hum, mil e quinhentos, talvez. Eu sei que ela valeria mais, depois
de eu morrer, mas mil e quinhentos está bem.
Muito obrigado. Não é muito. É o bastante. Se Warren não gostar
dela, pode vendê-la com lucro.
-0 pai vai gostar dela. Tem que gostar dela. Tem que gostar dela repetiu
Hammond.
-Se não aproveita aquela uva antes de chegar a casa, o Warren trata
disso. 0 reumatismo dele não pode estar assim tão mal, garanto-lhe.
-Então a Ellen é minha, e posso levá-la?
-Sim, e quero que lhe leve o irmão dela, como presente para o
Warren.
-Eu compro-lho, se a Ellen o quer -ofereceu-se Hammond.
-Não, quero oferecê-lo ao Warren MaxwelI, quero saber que não
será vendido. 0 Warren não venderia uma oferta.



-Acha que não terá problemas com o judeu por eu levar a Ellen e o
macho grande sem pagar?
-Não há problemas. Pode mandar-me o dinheiro, o suficiente para
pagar as hipotecas deles. Quanto ao resto, não há pressa, não há
pressa nenhuma. Ainda vivo mais uns meses, e se não viver ...
Wilson ergueu as mãos dos braços da cadeira, como a completar a
frase, A entrada de Charles afastou o anfitrião dos seus mórbidos
pensamentos.
-Vai ter que levar um negro na garupa -explicou-lhe Hammond.
-A menos que ele fuja, é melhor o Hammond e eu montar-mos no
seu cavalo e dar-lhe o meu. Aquele macho é tão grande como nós os
dois juntos.
-Não é ele. Não é o mandingo. Esse vai a pé, Eu ... eu comprei uma
fêmea e o senhor Wilson deu-me um miúdo, para o meu pai.
-E o miúdo não pode correr? -perguntou Charles. -Quer levar a
fêmea consigo, suponho eu. Porque é que o preto grande não leva o
pequeno às costas?
-Talvez seja melhor levarem a minha carroça -sugeriu Wilson. –
Podem devolvê-la quando quiserem.
-Nós arranjamo-nos, senhor Wilson; Medes vaia pé, o garoto atrás
do Charles e a Ellen atrás de mim. Vamos bem. A Ellen é capaz de
montar escarranchada, não é?
-Se a mandar. É a melhor maneira de montar a dois, para uma
distância grande. Mas sabe o perigo que corre; pode rasgá-la e lá se
vai a virgindade.
-Não se preocupe. já sei que ela a tem. Se o cavalo a rasgar, poupa-
me o trabalho -declarou Hammond.
-Não conseguiu desvirginá-la? Ela lutou? -perguntou Charles
espantado.
-Esqueça isso -disse Hammond. -Esqueça isso.
-Estou satisfeito por ter ficado com a Edria. Nunca me afastou.
Chorou e gritou, e isso tudo; mas não lutou. É sempre o Dick que


fica com as virgens, lá em casa, antes de mas passar. Agora já sei
como é.

-É a educação de um cavalheiro -observou o velho. -Não perdeu
pela demora.
A quietude do dia nublado era agoirenta. 0 velho negro que os
recebera à entrada e agora os conduzia à saída, olhou para o céu,
abanando a cabeça, espantado, pensando qual seria a tarefa urgente
que obrigava um branco a sair com aquele tempo. Medes teve a
ousadia de se sentar sobre o pórtico, sabendo que, com as
despedidas, não seria repreendido.

Jasão deu a volta à casa e foi ter com Medes, mas não se sentou.
Ellen, quando chegou, trazia os olhos vermelhos de chorar e voltou
duas vezes à cabana, mas, de ambas as vezes regressou sem trazer
nada nas mãos. Afastou-se dos outros.

Cerca de vinte trabalhadores, velhos e de meia idade, juntaram-se
perto da mansão, mas nenhum se aventurou a ultrapassar a
fachada. Edria e Letícia avançaram furtivamente, para darem um
beijo final a Ellen, que se agarrou a elas, e a Jason, que fingia
indiferença. Medes observava-as e sabia que, se aqueles beijos
tivessem sido para ele, teria chorado.

Era uma ocasião solene para os três, pois nenhum deles tinha ainda
ultrapassado as fronteiras de Coign. Tinham tomado eles próprios a
decisão de partir. 0 seu antigo patrão não teria disposto deles sem
os seus consentimentos. Na verdade, tinha motivos para os vender,
razões que eles não deviam pretender conhecer, mas todos eles
sabiam que, se pedissem para ficar, ele anularia o negócio, e ficaria
com eles até morrer. Iam, portanto, pelo menos por sua vontade
nominal, mas a sua partida era tão solene, como se tivessem sido
forçados. A atmosfera opressiva não lhes levantava a moral.


A porta da frente abriu-se e Charles saiu, seguido de perto por
Wilson, guiado por Ben. Hamnond foi o último a sair. 0 anfitrião
apertou as mãos dos dois convidados e, entre expressões de prazer
mútuo, Charles e Hammond montaram. Charles estava impaciente
e aborrecido com a prolongada despedida de Wilson dos seus
escravos. Hammond esperava pacientemente.

Medes conservou-se timidamente afastado, enquanto o patrão
beijava e abençoava o rapaz e a rapariga, recomendando-lhes
obediência. Avançou, envergonhado, de cabeça baixa, quando foi
chamado, e, quando o patrão tocou com os lábios na sua face
enorme, sentiu lágrimas nos olhos. Medes não se lembrava de ter
sido beijado alguma vez e, de súbito, pensou que nunca mais
voltaria a ver o homem a que a bondade devia aquilo que Medes
mais desejava -comida à vontade, abrigo, protecção, a ausência de
maus tratos, aquilo que entre patrão e escravo e justiça, clemência
mesmo.

0 garanhão, que não estava habituado a carga dupla, relinchou e
recuou, protestando, quando Ellen, com a ajuda do moço da
cavalariça, tentou montar por trás de Hammond. A segunda
tentativa, sentou-se de lado na sela, mas a sua longa sala impedia-a
de se escanrranchar.
-Não podes montar assim -queixou-se Hammond. -Acabas por
escorregar e arrastar-me contigo. Tens de abrir as pernas.
Ellen puxou o vestido para cima, até ficar pelos joelhos, recuou na
garupa e conseguiu passar uma perna pela frente. Depois ajeitou-se,
procurando ficar o mais confortável que conseguia. Sentia-se mal
por mostrar as pernas e tentou puxar a saia para baixo.
Jasão, com a ajuda do moço, montou facilmente atrás de Charles e
agarrou-se ao corpo dele, ficando com as pernas soltas, sobre as
ancas do cavalo.


-Pronto, Medes? Então vamos -disse Hammond, pondo o cavalo
em movimento e fixando o ritmo em passo lento, enquanto os
cavaleiros rodeavam o relvado e penetravam na área das nogueiras.
Medes seguia os cavalos num trote lento. Levava os sapatos a
baloiçar na mão esquerda. Antes de chegarem ao portão, tinha
ultrapassado os cavalos e seguia à frente. Afrouxou, para saber para
que lado devia voltar.

Capítulo décimo quinto

Hammond dirigíu-se para ocidente. 0 longo caminho pouco
frequentado era bom, cortado por pequenas ravinas e, em certos
locais, por miseráveis ervas daninhas, mas sempre distinto e
utilizável. Os cavalos irromperam num trote lento, e Medes alongou
a passada, correndo facilmente ao lado do caminho. Hammond
perguntou-lhe se ele estava bem, se podia seguir o trote dos cavalos
e o mandingo disse que podia.

Atravessaram um regato e Medes deitou-se no chão para beber um
pouco e correu para alcançar os cavalos. Os outros tinham sede, mas
não suficiente para os forçar a desmontar. As casas eram poucas e,
na maior parte dos casos, apenas pequenas cabanas feitas de
troncos, e uma ou outra, ocasionalmente, de ripas. Passaram por
uma casa de dois andares com uma longa varanda em frente. Por
trás havia quatro ou cinco cabanas, mas não se via ninguém, os
campos estavam cheios de ervas e o local parecia abandonado.
Eram quase duas horas quando chegaram ao núcleo de uma aldeia



uma mercearia, que também vendia secos, e servia uísque, um
ferreiro, um grande celeiro, em cujo pátio duas mulas e um cavalo
esparvonado preguiçavam ao sol, e quatro casas espalhadas, a
maior das quais ficava junto do caminho e tinha duas cabanas por
trás.
-Talvez arranjemos comida. Parece uma cidade -disse Hammond. Desliza
e desmonta, Ellen.
A rapariga deslizou rigidamente para o chão, deslocou o seu
vestido de Osnaburg do traseiro, onde o suor o colara, e baixou
modestamente a saia amarrotada. Hammond ergueu-se nos
estribos, lançou a perna boa sobre a garupa do cavalo e desengatou
agilmente a perna rígida. Jasão deslizou precariamente pelo rabo do
cavalo, com risco de levar um coice, e Charies desmontou com um
suspiro de alívio. Os brancos ataram as montadas à longa e pouco
segura cerca que ficava junto do armazém.
0 merceeiro estava recostado na sua cadeira, ao lado do fogão, onde
nada ardia. Levantou os óculos de aros de aço e colocou-os na testa
com uma mão, colocando de lado o jornal com a outra, mas não se
levantou para saudar os clientes.
-Quem acham que vai ser vice-presidente com o velho Andy, desta
vez? Talvez o Johnson? É um bom homem, apesar de viver com
aquela rameiro, negra. Que é uma rameíra a mais ou a menos? Eu
estou por ele, e todos o querem.
-Acho que sim -concordou Hammond, sem compreender. -Onde
posso arranjar comida para os nossos cavalos e jantar para nós?
0 homem levantou-se e dirigiu-se à montra, antes de responder.
-0 velho Crocodilo, ali do celeiro, dá de comer aos animais. São
dois, não é? Pague aqui; vinte cêntimos cada; quarenta cêntimos,
está certo. Digam ao Crocodilo que eu digo para lhes dar muita
aveia e água fresca. Os cavalos estão cansados e com sede. Vêm de
muito longe?
-Da Plantação Coigri -respondeu Hammond. -Pode-se arranjar
jantar?


-Não sei, A míss Lane mora do outro lado da rua. Esta terra chama-
se Lane por causa do falecido; foi ele quem começou isto, fixou-se
aqui e construiu as casas. A miss Lane talvez diga à Flora Manca
que lhes arranje comida. Não sei. Não faziam mal em experimentar.
Mas digo-lhes que ela é careira. Leva-lhe quase o mesmo pelos
negros. Ninguém a consegue levar. É negreiro? Muito novo para
esse trabalho, a menos que o seu pai já o fosse.
Hammond levou tempo para negar a profissão.
0 merceeiro foi até à porta, pôs as mãos à volta da boca, em concha,
e gritou:
-Crock, Crock! -e esperou. -Crocodilo, meu malandro@
-Sim, siô, patrão -ouviu-se, do celeiro.
-Só respondes quando eu berro. Queres outra sova? Dá de comer
aos cavalos deste senhor. Aveia. Aveia, ouviste, não é milho. E dálhes
água, percebeste? E esfrega-os bem enquanto o senhor come. já
está pago. Trata-os bem ou tens que dormir de barriga para baixo.
-Eu trata bem, patrão, siô. Eu trata.
0 merceeiro tinha dado as instruções directamente ao seu negro e
Hammond achou inútil seguir Medes que levava os cavalos para o
celeiro. Em vez disso, atravessou a rua e bateu à porta da senhora
Lane. Apareceu uma pequena mulher branca, de lábios azulados,
com sessenta anos aproximadamente. Tinha o cabelo tão esticado e
preso no alto da cabeça, que as sobrancelhas se erguiam com a
tensão. Um dedo com a unha suja espreitava de um buraco da sua
meia preta, mas o vestido sem cinto, de algodão cor de indigo, que a
envolvia, era fresco e tinha tanta goma que em certos locais ficava
mais escuro. A fechar a gola tinha um alfinete de peito fininho, no
qual ainda restavam vestígios a indicar que fora dourado.
-Sim, sim, penso que a Flora lhes pode arranjar presunto e ovos, ou
coisa parecida. Dois senhores, três negros, hem? Os negros pagam o
mesmo que os senhores. São duas moedas, vinte e cinco cêntimos,
seja para quem for. Os negros não entram na casa, não os quero cá.


Levam a frigideira e podem comer na varanda da mercearia, 0
senhor Wallace deixa.
Hammond concordou com as condições da mulher.
-Entrem e sentem-se enquanto a Flora prepara a comida. A grande
sala nua era mais fresca do que o exterior e Hammond aceitou o
convite, fazendo sinal ao primo. A senhora Lane indicou-lhes os
lugares e retirou-se.
-Tenho fome -protestou Charies, em tom mimado.
-Não leva muito tempo. Se calhar não presta. Temos que esperar consolou-
o Hammond.
Os odores da comida encheram a casa e, dentro de pouco tempo,
que pareceu longo para Charles, a senhora Lane voltou.
Pode chamar os seus criados -disse ela -Eles que venham à porta
das traseiras; as frigideiras deles estão prontas. É o mesmo que para
os br3ncos, mas sem pratos. Depois podem vir comer.


A toalha de algodão vermeho colocada sobre a mesa coxa, com um
rodízio partido, estava manchada de comida, e a casa de jantar era
gelada, com as suas altas paredes cinzentas, sem qualquer relevo
além de grandes manchas que pareciam ter resultado de ovos
atirados à parede com grande força. Havia cadeiras de cozinha, sem
pintura, com assentos duros e costas torneadas, alinhadas de um
dos lados da casa, com excepção das duas quase encontravam junto
da mesa. 0 chão estava limpo mas nu, havendo apenas um pequeno
tapete de farrapos, enrugado, com um buraco, colocado em frente
de uma cadeira de balanço baixa, com almofadas, que estava junto
da única janela.


A comida estava toda na mesa -numa pungente exibição: presunto
e bacon espesso fritos, ovos mexidos, biscoitos quentes, exalando o
habitual excesso de soda, uma tigela redonda de manteiga dourada,
picles, geleia, um jarro de leite, e uma grande cafeteira de folha com
café.



A senhora Lane sentou-se na cadeira de balanço e deu instruções a
Flora que cozinhara a refeição e se esforçava por serví-la. Pouco
havia para ela fazer, visto que a comida estava ao alcance dos dois
comensais. Flora arrastava o pé direito e não podia mexer o braço
do mesmo lado. Era alta, angulosa, de ossos salientes, com um
grande incisivo ao lado de um buraco nas gengivas, no sítio onde o
dente correspondente faltava, o que a obrigava a cecear as poucas
palavras que pronunciava. Uma década mais nova do que a patroa,
não era totalmente negra, talvez mulata, ou, mais provavelmente,
resultante do cruzamento de um mulato com urna negra.


0 jantar sabia tão bem corno cheirava. Os rapazes estavam
demasiado esfomeados para se queixarem, mas a comida suportaria
qualquer crítica. A senhora Lane, sentada junto da janela,
depreciava a comida para depreciar Flora, mas sabia que estava boa.
-Aquela negra preguiçosa está acabada. Isso mesmo, acabada.
Costumava cozinhar bem, comigo atrás dela e dar-lhe instruções,
mas já não. Queima tudo ou deixa as coisas cruas. Olhem para os
ovos! Flora, enche os copos e passa o presunto, ouviste, e dá picles
aos senhores.
-Sim, siô, patroa -murmurava Flora, revirando os olhos para o lado
da senhora Lane.
-Não a querem? Não querem comprá-la? 0 Ben tenta livrar-me dela
há muito tempo, Vendo-a barato,


Hammond negou o seu interesse, mas a senhora Lane insistiu:
-Ofereço-a a todos os negreiros que passam mas nem lhe tocam,
nem olham para ela. Dizem que os negros estão a subir, mas nem
parece. Claro, Flora não é uma beleza, não a ofereço como se fosse
especial, mas sempre deve valer qualquer coisa. Aquele coxear não
conta. É quase tudo fingido para não a comprarem. Do que Flora
precisa é dumas vergastadas para andar como deve ser. Não leva



uma sova desde que o Lane morreu. Eu não ia fazer isso e o senhor
Wallace da mercearia não quer fazê-lo. Eu pedi-lhe. É disso que
precisas, Flora, dumas boas vergastadas. É ou não?
-Sim, siô -admitiu Flora com relutância. -Mas da última vez que o
patrão bateu em mim, eu ficou aleijada, Acho que castigo arruinou
eu.
Hammond acabou de comer e esperou por Charles. Tinha escapado
a Wallace, mas tinha que aturar a senhora Lane.
Esta prosseguiu no seu monólogo.
-Então não está interessado em comprar Flora? É só meia negra,
mas continuo a tentar. Hei-de ver-me livre dela, algum dia hão-de
ma comprar.
Charles terminou finalmente e Hammond ergueu-se.
-Está satisfeito? -perguntou a senhora Lane. Quando Hammond
disse que estava satisfeito e o jantar estava bom, ela disse:
-É um dólar e meio por tudo, Tenho que cobrar o dobro por aquele
macho grande. Comeu por dois, É um dó lar e meio. Claro, se não
pagar a dobrar por ele...
Hammond pagou sem protestar. Abriu a porta para ver como
estavam os seus negros e viu que o céu estava com mau aspecto.
Tinha-se levantado vento e no céu corriam nuvens debruadas a
cobre. Sentia-se um certo alívio, depois da quietude asfixiante.
Hammond atravessou a estrada e olhou para as frigideiras de ferro
e as cabaças vazias, que estavam na frente dos escravos, no chão.
-0 jantar estava bom? -perguntou.
-Sim, siô, patrão -foi a resposta em coro, a que Ellen acrescentou*
-Obrigado, patrão.
Deu uma cotovelada a Jasão e ele levantou-se, baixou os olhos
envergonhado e disse:
-Obrigado, patrão, siô. Charles observou o firmamento, enquanto
atravessava a rua.
-Vai chover, parece-me; aguaceiros.



-Se partirmos, somos apanhados -disse Hammond. -Era melhor
passarmos aqui a noite. Não vale a pena partirmos depois da
chuvada, se ela parar. Não chagávamos a parte nenhuma.


-Se a miss Lane nos aceitar -reflectiu Charles.
-0 celeiro é seco para os cavalos -disse Ham.
-E para os negros. A velha não os quer lá em casa ~ acrescentou
Charles.
-Acho melhor voltar lá e perguntar-lhe se tem quartos. Hammond
voltou a bater à porta dos Lane e esta abriu-se tão depressa que ele
ficou certo de que a mulher tinha estado a escutar o que se passava,
no alpendre de Wallace.
-Tenho uma cama, larga, para duas pessoas. Limpa. Sem
percevejos. Cinquenta cêntimos. Mas nada de negros, só um macho
se quiserem que ele os sirva, mas nada mais. Nada de mulheres.
Não me interessa o que façam no celeiro, sobre a palha, mas aqui
não. Nada de mulheres. Pode pedir ao senhor Wallace que lhe
arranje cama no celeiro. É melhor dizer-lhe que prenda o velho
Crock, se não quer que ele se agarre à rapariga.
-Também queremos ceia. Não é precisa muita comida, porque
jantámos tarde, mas queremos ceia.
-Não vai ser mais barato por isso -disse a viúva. -Vinte e cinco por
cada refeição, pequeno-almoço, jantar ou ceia, igual para os negros.
Hammond concordou.
-Os negros já comeram; não precisam de mais comida até amanhã.
Mas tem que lhes dar de comer de manhã, pelo menos ao que vai a
pé. Tem de ser. Não pode correr bem em jejum,
-Os negros comem quando eu como -declarou Hammond. -Quero
ceia e pequeno-almoço para eles.


Quando Hammond regressou ao armazém saía dele um homem
grande de pernas fininhas, seguido de um gordo adolescente de
rosto redondo e lábios grossos e protuberantes, rígido com o cabelo



cor de palha e ousados olhos cor de violeta. 0 rosto do homem
estava escondido por trás de uma espessa barba não aparada, com
pêlos ruivos e negros à mistura. Tinha olhos cor de violeta corno o
rapaz. 0 merceeiro saiu, atrás deles, e observou o céu.
É capaz de andar por aí um tufão -disse o merceeiro. Vamos passar
a noite em casa da miss Lane -disse Hammond. -Espero que tenha
lugar para os negros no celeiro.
-Se pagar, claro. São três?
-A miss Lane deixa o miúdo dormir no chão. Diz que é preciso
prender o seu preto por causa da rapariga.
-0 velho Crock é inofensivo; mas ponho-o a ferros, se quiser. Custa-
lhe vinte e cinco cêntimos pelos dois, além de nova ração para os
cavalos. Saí muito caro viajar, especialmente com pretos.
-É verdade -concordou Hammond. A chuva começou a cair em
grossas bagas, inundando a estrada. 0 vento aumentou de
intensidade e a água em breve corria em camadas ondulantes.
Hammond mandou os negros meterem-se mais para baixo do
edifício, para evitarem a água que caía do alpendre. A quietude
dera lugar à fúria. Os relâmpagos cruzavam o céu, seguidos de
trovoada que ecoava ensurdecedoramente. Jasão pôs-se a chorar,
com medo dos elementos e Medes colocou o braço em volta do
rapaz.
-Pára com isso -censurou Hammond a Jasão, -Não te vão fazer mal.
E se fizer, não o podes impedir. Não és nenhuma fêmea. Olha para a
Ellen.
É como aquela tempestade de há dois anos. -disse o merceeiro.
Perdi a sementeira e o feno, nessa altura -disse o homem da barba. Acho
que foi tudo pela ribeira abaixo. Pelo menos nunca encontrei
vestígios de nada.
A chuva abrandou, mas recomeçou logo com mais força e as rajadas
tornaram-se mais violentas. Houve um clarão deslumbrante,
seguido de um trovão, que parecia o fim do mundo. Jasão
estremeceu mas não chorou.


Durante o segundo intervalo o homem da barba disse, sem se
dirigir a ninguém em especial.
-Belos negros. Hammond acenou afirmativamente.


-Tenho andado a pensar em comprar um negro jovem e barato,
aqui para o Aristóteles. Ele tem ataques e suja-se todo e eu quero
arranjar um preto para tomar conta dele e o limpar -disse o homem
da barba.
-Uma fêmea -corrigiu Aristóteles. -Eu quero uma fêmea.
-Macho ou fêmea, tanto faz. Um macho é melhor, não incomoda a
tua mãe. Seja como for, ainda não podes ocupar-te de uma fêmea.
Hammond dirigiu-se à extremidade oriental do alpendre,
ostensivamente, para observar o tempo.
-Miss Lane, do outro lado da rua tem uma fêmea velha que vende
barato. Serve bem para aquilo que pretende -informou Chartes.
-A Flora Manca? -perguntou o merceeiro. -A miss Lane anda a
dizer que vende a Flora Manca há trinta anos, oferece-a barata a
todos os negreiros que aqui passam. Mas nem pagando em ouro
comprava a Flora. Miss Lane morria se não a tivesse para a
apoquentar. Seja qual for a que morrer primeiro, a outra segue-a
logo. A miss Lane dizer que vende a Flora já diverte toda a gente
por aqui. Nem quer nem pode vendê-la.
-Gostava que visse se me arranjava um macho barato, senhor
Wallace. Estão sempre a aparecer negreiros.
-Baratos já não se arranjam ~ respondeu o merceeiro. -Porque não
compra antes uma fêmea jeitosa para o Tóteles, boa para procriar!
Arrumava um miúdo por ano? 0 velho Crock está para ali, só serve
para comer, e nunca foi usado. Não lhe custava um cêntimo. É um
bom cliente.
-Não precisava do Crock. Eu próprio posso fazer isso melhor que o
Crock. Além disso, sou branco. Mas tenho medo que faça o Tóteles
ter mais ataques, estar a ver e não poder fazer nada. 0 Tóteles só tem
um testículo. Além disso, a minha mulher dava-me cabo da cabeça



se eu andasse com uma fêmea, ou com um macho que andasse atrás
das mulheres. Claro, podia castrar o macho.
-A chuva está a parar -disse Hammond. -Podíamos ainda fazer
umas boas milhas, mas acho que é melhor ficarmos. Podemos não
encontrar um sítio tão bom.
0 Sol, prestes a pôr-se, apareceu entre dois cúmulos, e, a oriente,
brilhou um bonito arco-íris. 0 homem da barba pegou na mão do
rapaz gordo e levou-o, rua abaixo.
-A lama está muito espessa, mas eles não moram longe-disse
Wallace. Observou os dois que saltavam sobre as poças de água. Não
gastava cinquenta dólares numa negra nem que fosse a rainha
do Sabá. Mas uma coisa é certa; aquele rapaz fede depois de ter tido
um ataque.
-Agradecia que mandasse o seu rapaz dar de comer aos meus
cavalos outra vez, se faz favor, senhor Wallace, antes de irem
dormir -pediu Hammond. -Tu e a Ellen dormem no celeiro. 0
senhor Wallace dá-lhes palha nova, talvez mesmo um cobertor. 0
Jason fica em casa comigo.
-Quer que nos deitemos, patrão? -perguntou Ellen.
-Depois da ceia.
-Quero pôr-lhes os ferros, antes de anoitecer. É melhor dar-lhes a
ração já.
-Os meus negros não precisam de ferro, mas é melhor pô-los ao seu
Crock, como disse a míss Lane.

Depois da ceia, Charles seguiu Hammond até à varanda da
mercearia, para ver corno estavam os escravos. Ellen não tinha tido
fome e Jason quase não comera. Medes, contudo, tinha consumido
as suas duas refeições, esvaziara a frigideira de Ellen e estava a
acabar o que Jasão deixara. ~ Estás doente, Jasão? -perguntou
Hammond, solícito. -Porque não comes?
-Não, siô, patrão. Ainda estou cheio do jantar. Táva só a pensar.
-Gostavas de voltar a The Coign, não é? Tens saudades?


-Não, siô, patrão. Eu gosto disto. Gosto de andar a cavalo. Gosto de
si, patrão, e gosto do patrão Charles. É tão alto, e tão bonito, e tem
um cabelo tão macio e tão liso. Não quero voltar para junto do
patrão velho, se puder ficar consigo ... e com ele.
Charles não estava habituado a elogios, e a admiração, mesmo
vindo de um escravo, impressionou o seu ego. Endireitou-se e
passou a mão pelo cabelo. Charles era alto, de facto, e tinha muito
cabelo. Pouco mais havia com que elogiá-lo, mas Jasão tinha tocado
nas suas vaidades essenciais.
Já não se sentiu tão satisfeito quando Jasão inquiriu:
-Patrão, por favô, siô, o patrão Charles é seu filho? É o pai dele?
Charles sentiu-se envergonhado da sua juventude e ofendido com a
sua comparação com a maturidade de Hammond. Contudo, sentiu-
se orgulhoso do parentesco, que Hammond explicou em poucas
palavras.
-Se não comes mais, Jasão, tenho que te dar óleo, quando
chegarmos a casa. Quando chegar a Primavera, talvez seja melhor
tomares chá de sassafrás -comentou Hammond.
Ellen tinha ido sentar-se noutro ponto do alpendre, sozinha,
Hammond foi ter com ela e sentou-se. Puxou-a para ele e sentiu os
seus seios endurecerem quando meteu a mão por baixo do vestido.
Ela afastou-se dele e Hammond repreendeu-a, mas com palavras
amáveis.
-Não fujas de mim. És a minha fêmea, agora. As tuas mamas são
minhas e posso brincar com elas sempre que me apetecer, não
achas?
-Sim, siô, patrão. Ele retirou a mão, inclinou a cabeça dela e beijou-a
na boca. A rapariga estremeceu, como que trespassada por uma dor
e ajoelhou-se no chão ao lado dele, pondo os braços em volta do
pescoço dele e beijou-o longamente. Depois, começou a chorar.
-Tens alguma coisa? -perguntou Ham. -Não gostas de mim?
-Patrão, siô, patrão, siô, patrão, eu amo-o, patrão. Não vê que eu o
amo?


Charles veio ao encontro deles. -As mamas dela são duras? ~
perguntou
-São jeitosas. Não muito grandes, mas jeitosas -respondeu,
formalmente.
-A Blanche tem boas mamas, É a única coisa boa que posso dizer da
Blanche é que tem boas mamas.
Hammond esquecera-se completamente de Blanche. A Lua quase
cheia, espalhava a sua luz sobre a paisagem. Hammond disse:
-Podíamos ter seguido. É melhor mandá-los para a cama e irmos
deitar-nos. Podemos partir bem cedinho.
Fez sinal aos escravos para o seguirem e dirigiu-se para o celeiro,
através da lama. ~ Charles, tu e o Jasão podem voltar para trás disse.
-Não vale a pena andarem a sujar-se. Esperem lá por mim.
A aduela que devia fechar o largo portão do celeiro estava presa à
cerca e Hammond ordenou a Medes que a quebrasse. Não era
necessário, pois o portão teve que ser levantado do chão para poder
girar nos. seus gonzos guinchantes. A chuva tinha ensopado uma
meda de feno, a palha, as vagens e as espigas que serviam de tapete
sob a lama, mas que soltavam um cheiro adocicado de estrume e
urina misturados com vegetais em decomposição. Ham abriu uma
das largas portas do celeiro; Medes abriu a outra, que foi preciso
escorar. Sobre o chão de terra batida caiu um trapézio de luar, e a
luz que passava pelas fendas verticais da parede do lado esquerdo
iluminava a parte de trás do chão e formava riscas até ao meio da
parede do lado direito.


Parecia escuro, dentro do celeiro, até que as pupilas de Ham se
adaptarem. Eclipse, sentindo o cheiro do dono, relinchou e
Hammond falou com ele.
-Hei, aí! Crock! -chamou o branco. Crock respondeu do fundo do
celeiro.
-Aqui tá eu, patrão. Aqui tá eu, siô, mas não pode ir, não pode.
Desculpa, patrão, siô, mas não pode ir. Eu tá a ferro.



Hammond caminhou, às apalpadelas, até ao local onde o negro
estava deitado.
-Por favô, patrão, siô, solta eu. Eu não faz mal à fêmea, siô, por
favô. Eu não gosta delas tão branca. Por favô, siô, patrão! -suplicou
Crock.
-Não tenho as chaves dos teus ferros. 0 senhor Wallace é que as
tem. Ele prendeu-te e amanhã de manhã é ele quem te solta.
Hammond apalpou a corrente, deu-lhe um esticão e considerou-a
segura. Tinha cerca de dois pés de comprimento, com uma das
extremidades seguramente fixada na parede a cerca de quatro pés
do chão, e a outra com uma algema em volta do tornozelo de Crock,
forçando-o a estar deitado de costas, com um pé no ar. Wallace
tinha-lhe atado os pulsos atrás das costas. Hammond soltou o nó
complicado. Crock continuou a agradecer a Hammond muito
depois de ele se ter afastado, entremeando os pedidos para lhe
retirar os ferros com expressões de gratidão por ter soltado a corda.
0 branco não fez caso dele; e após alguns violentos esticões à
corrente, Crock caiu para trás, com o pé no ar, mergulhando no
silêncio.

Wallace não faltou à sua palavra. Na parte da frente do celeiro,
Hammond encontrou dois montes de palha fresca, com um espaço
de vinte pés entre eles. junto de cada molho estavam suspensas
grilhetas abertas, uma delas ligada a uma parede e a outra a um
poste, à escolha de Hammond. As correntes chegavam ao chão e
teriam proporcionado menor desconforto às suas vítimas do que a
de Crock, se Hammond as quisesse usar.

Ham deu pontapés à palha para a espalhar e ordenou a Ellen que se
deitasse. Ajoelhou-se junto dela, acariciou-lhe rapidamente os seios
e beijou-a.


-Não é como a da noite passada -disse ele -mas a palha é espessa e
boa. Não é uma cama de penas como teremos em Falconhurst. 0
Medes toma conta de ti, não tenhas medo.

-Estou bem, patrão. Boa noite, patrão, siô -disse Ellen, estendida ao
luar.
-Toma conta da Ellen, Medes, e vê se aquele negro se solta.
-Sim, siô, patrão, se o patrão manda; mas eu vou magoar a Ellen, de
certeza. Ela é pequena e eu sou tão grande -avisou o mandingo. Eu
sei como é, mas preferia esperar para me dizer o que devo fazer.
-Meu malandro, se tocas naquela fêmea esta noite, mato-te à
pancada, nem que lhe toques só com um dedo. Não disse para
tomares conta dela dessa maneira. Quero dizer que não deixes
ninguém tocar-lhe, nem branco nem preto. Percebeste?
-Percebi, patrão. Hammond soltou uma das portas e ia fechá-la
quando Ellen apareceu e o chamou.
-Eu gosto do luar, patrão. Por favor, deixe as portas abertas.
-Está bem -disse Hammond. -Não faz diferença. Voltou a escorar a
porta e Ellen ficou a vê-lo sair a coxear sobre o lixo, abrir o portão
corri dificuldade e desaparecer na rua enlameada.

Quando Hammond se aproximou do armazém, viu Charles sentado
no alpendre. Parecia estar a apertar contra o seu o corpo nu de
Jasão, mas, quando Hammond se aproximou, Charies atirou
subitamente um objecto para a estrada e o rapaz correu a apanhá-lo.
-Não podia esperar que ele chegasse a casa para o despir e observálo
-disse Hammond. -Está bem, não está? Não tem ruturas nem
cicatrizes? Está são?
-Está são, sim-respondeu Charles com certo embaraço -isto é, o que
eu lhe pude ver à luz da Lua. Mas não serve para lutar. É um negro
para o quarto, mas não serve para lutar.
Hammond afastou o assunto.


-Veste as calças, rapaz. Não devias tê-las tirado. A miss Lane podia
...
-0 patrão Charles disse-me para tirar -disse Jasão, justificando a sua
nudez.
-Está bem. Veste as calças. Vamos para a cama. Não havia luzes
vísiveís na casa mas a porta da casa de jantar estava aberta e,
através da janela, Hammond viu a senhora Lane atravessar a sala da
frente com uma vela, em resposta.
-Já é tarde -queixou-se ela, quando abriu a porta. -julgava que
tinham partido. Começava a pensar que não queriam a cama. São
quase oito horas.
-Está pronta? -perguntou Hammond.
-Sim, entrem. 0 negro cheira mal? -perguntou. -Não quero negros
malcheirosos cá em casa. Chega-me a Flora.
-Este não cheira mal, minha senhora-disse Hammond. -Quer dizer,
não cheira muito mal.
-Anda cá -pediu a, mulher ao rapaz que avançou, relutante. Ela
inclinou-se e cheirou-o audivelmente, passando a mão por ele. Não
cheira muito mal -foi o seu veredicto; -e é um macho. No mês
passado, um cavalheiro meteu cá em casa uma fêmea, de calças,
como um rapaz. Não é decente, enganar uma pobre viúva indefesa,
como eu. Eu sei que o senhor não é dessa raça, mas nunca fiando.


A senhora Lane ergueu a vela e conduziu-os, abrindo uma porta na
parede do lado direito.
-Não precisam de vela para se deitarem. Há bastante luar -disse
ela, e saiu, fechando a porta.
No centro do soalho nu havia uma cama de madeira crua. Com
excepção de um cobertor vermelho já gasto, na chão, possivelmente
destinado a servir de cama para o criado, a cama era a única peça de
mobiliário. 0 quarto era comprido e estreito e o luar penetrava por
uma das duas janelas sujas e iluminava o chão, dividido pelas
sombras das couceiras.



Quando Hammond se sentou na cama para Jasão lhe descalçar as
botas, descobriu que esta apenas tinha um fino colchão de palha
sobre uma base de cordas interligadas. Afastou as colchas e viu que
os lençóis estavam amarrotados, como se alguém já tivesse dormido
neles, mas razoavelmente limpos.
-Não sabes limpar-me os pés quando me tiras as meias? -censurou
ele.
-Limpa sempre o suor entre os dedos.
Deitou-se para trás, para Jasão lhe despir as calças e as ceroulas.
Acabando de despir Hammond, Jasão deu a volta à cama para fazer
o mesmo serviço a Charles, cujos pés limpou devidamente sem o
avisarem. Hammond meteu-se entre os lençóis e estendeu-se e
Charles fez-lhe companhia.
-Que quer que eu faça agora, patrão? -perguntou o escravo.
-Olha, deita-te e dorme. Que querias fazer? Põe essa coberta
rasgada por baixo para não ficares em contacto com o chão.
Hammond sentia-se cansado, mas não conseguia dormir. Dava
voltas na cama, impacientemente. Charies dormia de costas,
ressonando e Jasão dormia, enroscado, respirando audivelmente
num ritmo lento. Hammond deu uma cotovelada a Charles e disse-
lhe que se voltasse, o que ele fez sem acordar. Hammond
continuava sem sono.
Hammond levantou-se da cama e foi até à janela que dava para a
rua. Nada havia para ver, excepto o luar que cobria a mercearia, a
loja do ferreiro e o celeiro. Mas Ellen dormia no celeiro.
Pegou nas calças e enfiou-as sem ceroulas. A coxear, descalço, deu a
volta à cama e, com o pé, empurrou Jasão, para o acordar. 0 rapaz,
assustado, sentou-se, sem saber onde estava.
-Que -é, patrão? Que me quer? -perguntou, esfregando os olhos.
-Levanta-te e ajuda-me a calçar as botas. Não faças barulho. Vamos
ao celeiro.
0 escravo, meio desorientado, ajoelhou-se em frente do amo e pegou
nas meias.


-Deixa lá as meias; calça-me as botas.
-Vamos partir? Não sem o senhor Charles -protestou Jasão.
-Cata-te e não penses. Anda comigo. Os pés descalços do rapaz não
faziam ruído mas as botas de Hammond pareciam-lhe fazer um
ruído enorme, enquanto ele se esforçava por atravessar o quarto
silenciosamente. Alcançou a sala da frente e saiu pela porta com
Jasão atrás. Cortando obliquamente em direcção ao celeiro, abriu o
portão do cercado, apenas o suficiente para passar e dirigiu-se à
porta. 0 luar mudara de lugar e a cama de Ellen estava agora na
sombra. Entraram no celeiro sem que os ouvissem. A respiração
estertorosa de Crock ressoava, mas não se podia evitar, pois ele só
podia deitar-se de costas.

Hammond aproximou-se do leito de Ellen e inclinara-se para lhe
tocar, quando o mandingo, subitamente desperto, emitiu um grito
selvagem de terror, e saltou para os ombros de Ham, esmurrando-o
como louco e atirando-o ao chão. Jasão, por sua vez, saltara para as
costas de Medes, mas as suas pancadas e pontapés nem foram
notados.
-Patrão! Patrão! -gritou Jasão. -É patrão, Medes, é o patrão!
O negro, semisonolento, acordou e reconheceu o objecto do seu
ataque.
O rosto de Medes contorceu-se de aflição, mas não chorou. Tentou
falar, mas estava mudo de arrependimento.
-Levanta-te, meu malandro -ordenou Hammond, apertando-lhe o
ombro. -Fizeste bem@ Fizeste muito bem. Eu disse-te para tomares
conta dela.
-Estou envergonhado. Estou tão envergonhado, patrão, perdoe-me.
Eu não sabia que era o patrão. Pensei que vinham violar a Ellen.
-Claro que pensaste. Fizeste muito bem -insistiu Hammond. -Eu
castigava-te, se não tivesses feito isto.
0 ressonar de Crock continuava a ecoar pelo celeiro.


-Ellen, tu e o rapaz vão trocar de fatos. Tira o teu vestido e enfia as
calças. Vou levar-te comigo. Vou transformar-te num macho declarou
Hammond.
A rapariga não conseguia compreender.
-Não te preocupes; não te preocupes -disse o patrão. -Tu e ele vão
despir-se. Ellen e Jasão obedeceram. -Agora, veste as calças do
rapaz e tu, Jasão, veste o vestido de Ellen.
Não sentindo vergonha por se despir, Ellen sentia-se embaraçada
por usar calças.
-Tenho mesmo que vestir? Patrão, tenho mesmo? -perguntou.
-Veste-as -disse Hammond. -E porta-te como um rapaz. Se a miss
Lane te vir, és um rapaz. Agora não te esqueças. Jasão, veste esse
vestido e deita-te na palha. As calças de Jasão ficavam muito
apertadas a Ellen no traseiro e nas ancas, e os seus seios notavam-se
por baixo da camisa dele.
-Deixe-me ir atrás patrão -sugeriu ela. -Tenho vergonha que me
veja vestida de rapaz.
-Não te preocupes, rapariga-respondeu o patrão. -Ficas um
perfeito rapaz. Só tens que as usar até passarmos pela miss Lane e
chegarmos ao quarto. Depois podes despír-te.

0 par não encontrou ninguém e atravessou silenciosamente a sala da
frente até ao quarto. Charies estava estirado no meio da cama e não
acordou. Ellen descalçou as botas de Hammond e despiu-lhe as
calças, após o que tirou as suas roupas também. Hammond
empurrou Charles para o lado direito da cama, meteu-se no meio e
Ellen deitou-se à sua esquerda.

-És bonita -disse ele, beijando-a e puxando-a para si, com um braço
em volta do corpo dela. -Agora já posso dormir. Estava com medo;
tu ali com aquele negro grande. Não podia censurá-lo se fizesse
alguma coisa. Estava com medo.


-0 Medes não me fazia mal -disse ela. -Eu estava segura com o
Medes; mas a si, patrão, amo-o.

0 patrão sentiu a exigência da escrava, admirou-se com a sua
própria letargia. Aborrecia-o reconhecer que o odor suave da
feminilidade da escrava era agradável. Sentia-se satisfeito por se
aninhar contra ela e adormecer.
Pouco faltava para a meia-noite; o silêncio ensopado em luar apenas
foi interrompido pelo uivar de um cão algures, na distância, e pelo
uivo de resposta de outro mais próximo.
0 pequeno-almoço foi uni duplicado das duas refeições anteriores e
Hammond perguntou a si próprio se a senhora Lane nunca comia
outra coisa além de ovos com presunto. Só havia uma diferença; a
senhora Lane não ocupava a cadeira junto da janela.
-A patroa tá danada, tá mêrno danada -ceceou Flora, arrastando a
perna em volta da mesa para servir os biscoitos quentes. -Vai
desancá eu, quando os siô partir.
-Que é que tu fizeste? -perguntou Hammond, sem interesse.
-Eu não fez nada, não fez nada. Ela tá danada por siô trazer sua
fêmea. Ela não tem home. Talvez ela fique satisfeita e não bata na
Flora, se o siô pagã bem. Não sabe. Vai pagã bem, não váí, patrão,
siô?

Hammond afirmou que era essa a sua intenção e, depois do
pequeno-almoço, encontrou a senhora Lane na sala da frente, à
espera de receber o seu dinheiro. Hammond deu-lhe uma moeda de
cinco dólares em ouro, mas ela não tinha troco. Foram forçados a
levar a moeda ao outro lado da rua a Wallace, que também não
conseguiu trocar; mas, como Ham lhe devia dinheiro pela ração dos
cavalos e pelas camas dos negros, a senhora Lane e Wallace ficaram
satisfeitos em guardar os cinco dólares que mais tarde dividiram, e
Hammond procurou no bolso trocos pequenos para pagar o resto
da conta do merceeiro. Crock levou os cavalos à mercearia onde os


brancos montaram primeiro e depois conduziram os cavalos até ao
pé do alpendre, onde o mandingo colocou os outros negros sobre os
cavalos. Ellen sentia-se mal com o seu fato e Jasão estava ainda mais
embaraçado, com o vestido, mas Hammond ordenou que
conservassem os fatos trocados. De calças, a rapariga podia montar
melhor, e o rapaz podia puxar o vestido até às coxas, se fosse
preciso, sem ofender quem pudesse olhá-lo.

A manhã estava fresca e era muito cedo quando partiram; o
mandingo trotava facilmente ao lado dos cavalos. 0 velho Crock
tinha voltado para o celeiro e estava pesadamente encostado à cerca,
acenando ao grupo, quando passou por ele. Jasão voltou-se e
levantou a mão, mas os outros não fizeram caso do aceno do
escravo.
Ao fim de meia milha, chegaram a um sítio onde geralmente havia
um vale num ribeiro sem nome, que agora corria, turvo e
enlameado devido à chuva da véspera, e continuava a avolumar-se.
Não havia outra maneira de atravessar além de fazer nadar os
cavalos e os escravos.
-Ellen, tu e o Jasão desçam dos cavalos e dispam-se. Dêem-me os
vossos fatos e eu levo-os a seco para o lado de lá -ordenou
Hammond.
-Eu não sei nadar -objectou Ellen.
-Nem eu -disse Jasão.
-Nesse caso, Medes, pega na rapariga às cavalitas. Atira-se o miúdo
à água para aprender a nadar; há-de aprender. Tu secas-te a correr;
não precisas de despir-te.
Ellen agarrou-se à carapinha de Medes e enrolou as pernas grossas
em volta do corpo dele. Medes avançou pelo ribeiro enquanto pôde,
nadou sem esforço através do canal mais fundo e depois voltou a
caminhar até à outra margem. Inclinou-se para a rapariga poder
desmontar dos seus ombros, após o que voltou. atrás para conduzir

o cavalo de Hammond pela água. Eclipse recuou junto da água,

mas, entre os incitamentos de Hammond e os puxões de Medes, foi
forçado a mergulhar. Enterrou-se até aos joelhos na lama e até à
barriga na água antes de chegar ao ponto em que era preciso nadar.
Hammond foi impedido pelo joelho aleijado de levantar as pernas e
evitar a água. Tinha puxado as calças até ao joelho e a água
penetrou-lhe nas botas, mas pouca diferença lhe fez.
Depois de Hammond ter atravessado o ribeiro, Medes voltou de
novo atrás para ir buscar Charles e o seu cavalo.
-Atire esse rapaz para a água. Não vale a pena perder tempo. Anda,
Jasão, tens que aprender -gritou Hammond, do outro lado.
Charles observou Ellen, enquanto ela enfiava as calças.
-Ainda não tinha visto aquela fêmea nua. É muito boa, -disse. Faz-
me ficar excitado.
-Pode continuar excitado, que isso não me interessa, mas deixe
estar a fêmea sossegada -avisou Hammond; e acrescentou, num
tom que tentou tornar superficial: -Se toca naquela fêmea, mato-o.
Ouviu?
-Creio que posso esperar até Falconhurst -respondeu Charles.
-Nunca. E é mesmo nunca. Não lhe toca. Nem com um dedo ... nem
em Falconhurst, nem em parte alguma.
-Espero que tenha outras -disse Charles. -Está mesmo caído por
esta. Se não se livra dela antes de Blanche chegar, ela mata-a; vai
ver, pega numa faca de cozinha e espeta-lha na barriga. A Blanche é
um veneno.
-A Blanche é uma senhora branca. Não se importa com negras.
-A Blanche é um veneno.
-Despe-te e torce as tuas roupas antes de continuarmos, Medes disse
Hammond, desviando o assunto. -E tu, Jasão, limpa a lama
das pernas e enfia o vestido. Vou levar-te ao Tombigbee, tens de
aprender a nadar.


Com a ajuda de Medes, Ellen e Jasão voltaram a ocupar os seus
lugares sobre os cavalos, atrás dos brancos, e estes puseram os



cavalos em marcha, com o mandingo a trotar atrás, vestindo a
camisa molhada enquanto corria. A meia milha através da região
arborizada estava coberta de ervas, áspera, irregular. Hammond, à
frente da coluna, levava o cavalo a passo, procurando o caminho.

Quando o grupo saiu de entre as árvores e penetrou em terreno
aberto e nivelado, os cavalos começaram a trotar e Medes teve de
alargar a passada para os acompanhar. Não se tinha apercebido do
frio, mas estremeceu com satisfação quando sentiu o sol quente
sobre os ombros, através da camisa molhada.
-Que se passará com este cavalo? -perguntou Charles, puxando as
rédeas da montada, pouco tempo depois. -Está a coxear.
Hammond olhou para trás.
-Está mesmo -disse ele. -É melhor desmontar e ver. É capaz de ter
uma pedra presa no casco. Jasão, desce.
0 exame, revelou um golpe mesmo ao pé do tendão de Aquiles, que
avançava pela perna acima.
-Acha que posso continuar a montá-lo?
-Não há outro remédio -disse Hammond, encolhendo os ombros. Mas
o pretinho, não. Vamos montar o pequeno no grande. Baixa-te,
Medes, e põe o Jasão às costas. Achas que o podes levar?
-Claro que posso, patrão, siô. 0 Jasão não pesa nada. Assim não,
Jasão. Põe as pernas à volta do meu pescoço.
0 mandingo ergueu-se, sem esforço. Puxou a perna direita do rapaz
e agitou os ombros, para equilibrar o fardo. A saia atrapalhava-o e
teve que ser subida e enrolada em volta da cintura do rapaz.
Charles voltou a montar o cavalo coxo. A rapariga, com a ajuda que
Medes lhe podia dar sem desequilibrar o rapaz, trepou para o
cavalo por trás do patrão.
0 avanço era lento mas não voltou a ser interrompido. 0 grupo
parou junto de uma cabana para comer um jantar que apenas se
compôs de pão e torresmos, mas foi-lhes apresentado com tão
hospitaleira boa vontade que se tornou bastante gostoso e os


satisfez. A cabana abrigava um homem de bigode, a sua magra
mulher e a sua filha de cara de rato e longas pernas, ainda
adolescente que olhava esfomeadamente para Charles e fez diversos
esforços vãos para atrair o interesse dele. Apesar da sua pobreza
que era aparente, pareciam limpos, até aos pés descalços, e o
interior da casa, de uma só divisão, era arrumado e limpo.

A mulher ficou ofendida quando Hammond se ofereceu para pagar
a comida, sentindo-se amplamente compensada pelas suas
respostas de carácter pessoal -de onde vinham, para onde iam, que
iam fazer dos negros, quantos tinham, porque motivo Jasão e Ellen
tinham trocado de roupas, se. a rapariga estava grávida, se os
brancos eram casados. Hammond ficou embaraçado por a mulher
recusar o seu dinheiro, pois sabia que ele lhe fazia falta; e, subrepticiamente,
meteu dois dólares de prata na mão da rapariga que
os aceitou prontamente.

0 dono da casa estava impressionado com o mandingo.
-0 melhor negro que eu já vi -declarou, passando a mão sobre os
ombros de Medes, beliscando-lhe a coxa e abrindo-lhe a boca para
ver os dentes. -É um perfeito rapaz. Quanto é preciso pagar por um
macho destes?
-Dois mil setecentos e cinquenta dólares -respondeu Hammond
com sinceridade.
-An, an. Ouviste, mãe? Dois mil setecentos e cinquenta; é muito
dinheiro, mas vale, lá isso vale, mais do que qualquer outro.
-Nenhum negro vale tanto -disse a mulher. -Isso é verdade? Dois
mil setecentos e cinquenta?
-Palavra -respondeu Ham.
-Tive uma vez uma fêmea, já há muito tempo, mas morreu, morreu
de parto, ela e o bebé que era um macho. Não tenho tido dinheiro
para comprar pretos desde então, mas gostava de começar. Só
queria uma boa fêmea para procriar. Em breve teria uma casa cheia


deles. Não podia ter um macho, é claro, por causa da minha
rapariga. Não o deixava em paz e eu não a quero metida com um
preto.
-Uma branca não deixava um preto tocar-lhe -disse Hammond
horrorizado.
-Esta deixava. Mal me consigo ver livre dela, eu próprio que sou
pai dela, pelo menos penso que sim, mas não lhe toco. jurei que não
lhe tocava. Prometi à mãe. Seja como for, nascem filhos enfezados
de um pai com a própria filha, tenho ouvido dizer.
-É certo -disse Charies, olhando para a rapariga, levemente
tentado.
-0 meu irmão que está em Coffee Country, tem duas boas fêmeas, a
mãe a filha. Se ele morrer e mas deixar, e se eu for até Falconhurst,
pode deixar esse macho cobri-Ias? -perguntou o homem.
-Claro que sim, claro que sim, ambas. Não lhe custa um centavo prometeu
Hammond. ~ Claro -suspirou o homem -, o meu irmão
nem sequer está doente, que eu saiba. No entanto, todas as
Primaveras tem febres. Pode morrer, sabe. Hei-de me lembrar desse
macho, se ele morrer.
Menos de duas milhas mais adiante, o grupo chegou a uma cidade
considerável, uma dúzia de casas, armazéns, e uma taberna onde
poderiam ter obtido uma boa refeição, mas ninguém tinha fome.
Quando se aproximaram da povoação, Hammond ordenou a Jasão
que descesse dos ombros de Medes, baixasse a saia e corresse ao
lado dos cavalos até passarem a zona habitada.

0 grupo continuou a avançar lenta mas seguramente. 0 passo
vagaroso fatigava mais Medes do que o rápido, mas
frequentemente, corria à frente um quarto de milha e estendia-se
sobre as ervas, com Jasão ao lado, à espera que os cavalos
chegassem. Durante a tarde passaram por muitas casas, e por três
plantações consideráveis, com grandes celeiros e inúmeras cabanas
de negros. Hammond tinha ouvido o pai falar de plantadores


daquela área e pôs-se a pensar a quem pertenceriam as diversas
plantações, mas não achou que valesse a pena ir até às casas para se
certificar. Sabia que uma visita implicaria comida e insistência para
passar a noite. Seria perder muito tempo e atrasaria a viagem. A
intervalos irregulares, chegavam a encruzilhadas e a povoações com
um armazém e quatro ou cinco casas, ou a lugarejos maiores, com
uma dúzia de habitantes ou mais.

Finalmente Hammond reconheceu alguns locais e percebeu que
estavam a chegar a casa. Ali, em frente, ficava a High Tower, a
plantação abandonada do velho Ezra Hightower, já falecido.
Hammond estranhou que os herdeiros não a tivessem reclamado e a
tivessem deixado cair em tal estado de destruição. Estranhou ainda
mais que os ocupantes da decrépita cabana do outro lado da estrada
não se tivessem mudado para a casa grande e mais segura. Até
mesmo as cabanas dos escravos de High Tower eram mais
habitáveis.

0 coração de Hammond batia com mais força. Tinha estado fora de
casa menos de uma semana, mas a chegada despertava nele
emoções que não compreendia. Pertencia àquela terra. Tinha sido
modelado a partir daquele solo e reconhecia o seu parentesco com
ele. Chegaram ao caminho que saía da estrada principal e levava à
plantação da viúva Johnson, talvez já pertença de Redfield. 0
caminho agora era a direito; Charles, com o seu cavalo mais lento,
não se perderia decerto. Hammond soltou as rédeas e Eclipse, que
sabia tão bem como o seu cavaleiro que se aproximava o fim da
jornada, começou a trotar e irrompeu a galope, Ellen agarrou-se
firmemente ao corpo de Hammond. Medes não conseguiu aguentar
a velocidade de Eclipse e perdeu terreno gradualmente, e Charles
não fez qualquer esforço para apressar a montada.


Antes de chegar à área, Eclipse começou a relinchar,
intermitentemente e, quando começou a dirigir-se para a casa,
relinchou outra vez e recebeu, dos estábulos, um relincho como
uma resposta. A meio caminho, um cã o, o velho Rugidor, surgiu
aos saltos e a ladrar, saudando não tanto Hammond como Eclipse.
Hammond chegou à casa antes de o mandingo ter voltado para
entrar na álea.


Três ou quatro negros tinham aparecido, de trás da casa,
competindo silenciosamente pela honra de tornarem conta do
cavalo, que Hammond, depois de Ellen ter deslizado para o chão e
ele ter desmontado, entregou a Napoleão.
-Como estão todos? Como está toda a gente? Onde está o patrão?
-Estão todos bem, obrigado, siô, patrão. Tamos contente por ter
voltado.
-Porquê? Correu alguma coisa mal?
-Não, siô, tamos só contente. É só isso. Meg estava no alpendre,
subindo e descendo, extasiado, com um largo sorriso no rosto.
Incapaz de falar, apenas conseguia gorgolejar. Lucrécia Bórgia saiu
a correr e apertou Hammond contra os seios enormes.
Onde está o pai? Onde está o pai? -perguntou Hammond. Vem aí respondeu
Lucrécia Bórgia. E vinha, meio apoiado no braço de
Mem. 0 filho beijou-o, deu-lhe palmadas no ombro, perguntou-lhe
pela saúde.
-Estou bem; estou melhor, estou mesmo melhor. 0 velho
reumatismo já saiu quase todo -garantiu ele a Hammond. -Aquele
Alph está a apanhá-lo todo, mas eu estou a tratá-lo com toddies.
-Eu preparei eles, patrão, eu preparei eles e trouxe eles, como o
patrão disse, siô. Tratei deles como disse, patrão. Sou o teu nêgo,
patrão. Não sou o teu nêgo? -Meg suplicava que ele o reconhecesse.
-Claro que és -foi tudo o que Hammond teve tempo para
responder-lhe, com uma pancada no ombro do rapaz.



-Que é isto? -perguntou o velho, olhando para Ellen. Parece uma
fêmea, com mamas e tudo. Porque é que ela usa calças? -e apalpou,
para determinar o sexo.
Antes de Hammond ter tempo para lhe responder, o mandingo,
com Jasão sobre os ombros, chegou ao fim da álea.
-Um mandingo, um mandingo jovem! Onde é que o arranjaste? No
velho senhor Wilson? Que belo mandingo! Precisamente o que eu
tanto desejava.
-0 meu lutador -explicou Hammond.
-Que é aquela fêmea que ele traz ao pescoço? Que vais fazer dela?
Não tem formas nenhumas,
-Não é uma fêmea. É um macho. 0 senhor Wilson mandou-o para
si. É um presente.
-Que é isto? Um macho de vestido, uma fêmea de calças. Não é
decente. Que é que o senhor Wilson quer que eu faça com um
macho-fêmea como este? É invertido? Acho que tenho de ficar com
ele ... é um presente, dizes tu? Não se pode vender um presente.
Desce daí! Desce, para eu te ver.
-Vem aí o Charles -declarou Hammond. -0 cavalo dele está coxo.
-Quem é o Charles?
-Charles Woodford, o primo Charles, irmão da prima Blanche.
-A prima Blanche? Oh, sim. já a namoras? É bonita? Que disse o
maior Woodford?
Maxwell empilhava pergunta sobre pergunta.
-Vou casar com a prima Blanche. Isto é, se o pai emprestar dinheiro
ao major Woodford. -Ham especificou a sua afirmação: -Prometilhe
dois mil e quinhentos dólares.
-Nunca mais os recebes. Sabes bem. Aquela velha sanguessuga, a
vender a própria filha, uma Hammond.
-Shiu, shiu -fez Hammond, para calar o pai. -Aqui vem o Charles.
-Falamos depois. Charles, ao voltar para a área, tinha tentado meter


o cavalo a galope, mas este transformara-se num trote rápido. A
chegada brilhante que planeara falhou, mas não foi menos

calorosamente recebido. Vulcano agarrou as rédeas do cavalo e
começou a levá-lo consigo.

-Espera aí, deixa-me ver essa pata. Espera -ordenou o velho, antes
de se voltar para o seu convidado e apertar-lhe a mão. -Olha quem
ele é, o filho do major Woodford, vejam bem! Entra, entra. Um
Hammond, sem dúvida, todo ele um Hammond, excepto os olhos,
claro.
-Os meus olhos, os meus olhos não são direitos. -Charles encolheu
os ombros, apologeticamente.
-Isso não é nada -disse Maxwe11. -Pior que os olhos é estares tão
magro. Cresceste depressa de mais, acredita, e tens fornicado de
mais, pelo que eu conheço do major. E não tens bebido uísque
suficiente, pelo que conheço da prima Beatriz.
-A mãe pertence à liga da Temperança -explicou o rapaz.
-Arranja-se isso em Falconhurst. Coma carne preparada pela
Lucrécia Bórgia e com muito uísque do bom, mandamos-te para
casa que nem te reconhecem.
Quando os três brancos entraram na sala, Meg apareceu a correr da
casa de jantar com três toddies fumegantes na bandeja.
-Este é pró patrão, siô, este é o maiô -disse ele, parando em frente
de Hammond e tirando um copo da bandeja.
Hammond aceitou a bebida, mas avisou o rapaz:
-0 maior é sempre para o teu patrão. Ele passa sempre à frente, não
eu.
-Tu é o meu patrão, siô. Eu é o teu nêgo, por favô, patrão.
-Eu sei que és o meu negro, mas o patrão velho está primeiro. És o
meu negro, é certo, Quero que me laves depois do jantar. Espero
que não te tenhas esquecido como é.
Com a excitação, a precipitação, a mordedura da censura, o prazer
antecipado do contacto íntimo com a carne do patrão, Meg enfiou
um dedo do pé numa cadeira de balanço e caiu de joelhos, deixando
cair a bandeja, entornando dois toddies quentes sobre Alph, que


estava no chão, atordoado, e quebrando um dos copos. Rompeu em
lágrimas de mortificação e frustração, e não conseguiu levantar-se.

Hammond ergueu-se, de um salto, assustado e levantou o pretinho.
-Estás ferido? Onde te magoaste? -perguntou. -Só entornaste um
pouco de uísque. Não te rales -disse, para confortar o escravo. -É o
resultado de andares a correr. Aprende a andar devagar, com um ar
orgulhoso, se queres ser negro de casa. Agora apanha aquela
bandeja e vê se vais arranjar mais toddies, sem os deixar cair.
Meg enxugou as lágrimas, esfregou o dedo magoado, e perguntou a
Maxwe11.
-Tenho que arranjá outro pró Alph? Ele tá quase bêbedo já.
-Não faz mal, não faz mal. Arranja-lhe outro.
-Disse-me que nunca desse uísque aos negros -protestou
Hammond.
-Não faz bem aos negros.
-Isto é remédio para o reumatismo do rapaz. Não quero que ele
fique aleijado. Tenho andado a dar-lhe toddies, desde que tu te foste
embora. Não serve para mais nada, a não ser para lhe passar o
reumatismo. Não é vivo como o teu.
-Bêbedo, não tem muitas possibilidades. Como tem andado o Mem,
desde que o castiguei?
-Espertou um bocado. Está bom, mas o teu Meg não o deixa fazer
nada. Espanta toda a gente ver corno o miúdo faz tudo sem lhe
mandarem. Tomou conta de mim como se eu fosse um bebé. Fez-me
tudo, excepto limpar-me o rabo.
-Talvez o queira para si. Eu não estou especialmente interessado
nele. É esperto, mas pode ficar com ele -disse Hammond, com uma
vaga esperança de que a sua oferta fosse recusada.
-Não, não; ele é teu. Fica com ele.
-0 primo Charies gostava de ter o Jasão para o seu serviço. 0 Jasão é
teu. 0 Charles tem que to pedir.


-Aquele macho efeminado que o senhor Wilson me mandou?
Chama-se Jasão? Acho que o Charles pode ficar com ele. Não serve
para mais nada. Começou por ser fêmea, penso eu, e mudou de
ideias antes de a mãe o parir. Não sei o que o velho senhor Wilson
esperava, ou o que quis ele fazer.
-Eu posso ensiná-lo se puder ficar com ele-disse Charles. -É manso
e perfeitinho, acho eu.
-Perfeito, se tivesse mamas -troçou Maxwell. -Não vale mais do
que um capado.
-Nada de o vergastar, Charies -avisou Hammond. -Percebeu? Só
se eu ou o pai dissermos. Claro, se quiser dar-lhe um murro nos
queixos ou umas palmadas no rabo com a mão, não posso evitá-lo,
mas nada de vergastadas como fez com a fêmea em Crowfoot.

Quando Mem apareceu com a sineta para o jantar, Meg correu para
a porta da sala de jantar e abriu-a. Estava a postos para puxar a
cadeira de Hammond, desdobrar lhe o guardanapo, servir-lhe a
comida, agitar o leque de penas de pavão. Estava em toda a parte e
fazia tudo, um minúsculo Crighton, fixado apenas na devoção ao
seu amo. 0 que quer que fizesse pelas outras pessoas, era apenas
para agradar a Hammond. Teria cortado a garganta ao velho
Maxwell tão prontamente como lhe trazia um toddy, se imaginasse
que Hammond aprovaria tal acto.
Meg era, efectivamente, o filho da sua mãe. Dominava pela
humildade. A posição a que aspirava era unicamente a estima de
Hammond.
-A Lucrécia Bórgia terá dado de comer àqueles negros novos? disse
MaxwelI, pensando em voz alta. -Meintion, manda cá vir a
Lucrécia Bórgia.
Meg já tinha ido à cozinha e voltado, trazendo a mãe à frente, antes
que Mem tivesse acabado de servir o café, pousado a cafeteira e
chegado à porta.


-Aqui tá a mãe. Aqui tá Lucrecia Bórgia-anunciou o rapaz, como se
a enorme mulher não dominasse a sala corri a sua presença.
-Deste de comer àqueles negros que o patrão Hammond trouxe?


perguntou Maxwe11.
-Comeram já -respondeu ela -, mas não dei àquele grandão tudo o
que ele quê. Tá roto. Não se pode enchê ele.
-Dá-lhes comida de brancos, tanta quanto eles puderem comer. Ao
grande também. Esse é especial. Dá-lhe tudo o que conseguires
enfiar para dentro dele. Ouviste? -Hammond exigiu a confirmação
da cozinheira.
-Tá a ouvir.
-E quanto àquele mandingo, fá-lo engolir uma dúzia de ovos crus,
oito ou dez; mexe-os bem e obriga-o a bebê-los depois de ter comido
quanto puder -acrescentou Maxweli.
-0 man ... qual é esse?
-0 grande, o mais escuro, Fá-lo engolir os ovos.
-Eu enfia-lhe os ovos pla boca abaixo, mêmo qu'ele fique engasgado
-prometeu Lucrécia Bórgía. -Donde vem aqueles nêgo? Proque não
fala eles como deve sê? Eu nem percebe o que eles diz.
-Eles aprendem. Eles aprendem -disse Maxwe11. -Trata-os bem.
Aquele mandingo é para Lucy e Pérola Grande. Vai ser o lutador do
patrão Ham.
-An, an! -Lucrécia Bórgia expressou a sua desaprovação. -Eu tive a
olhá pra ele. É um macho bem bonito.
-Não precisas dele agora. Talvez para a próxima. Meg estava por
trás da mesa, metendo mais comida no prato do patrão.
-Acabando o jantar -observou Maxwell -quero ver aqueles negros.
-Mando-os entrar para aqui, o grande também? -perguntou
Hammond.
-0 velho senhor Wilson não os mandou entrar? Falconhurst não é
melhor que Coign.



-Mas a Ellen, pai. Ela é bonita. Não quero que a veja suja, cansada e
mordida pelas pulgas.
-Se a achas bonita, filho, é mesmo bonita. És tu que vais gozar na
cama com ela. Eu só quero ver os ossos dela, ver se é perfeita.


-É mesmo perfeita. já vai ver.
-0 Jasão também -disse Charles.
-Aquele mandingo é que é o tipo de negros de que eu gosto. Fizeste
bem em trazê-lo, Ham. Tens que começar a ensiná-lo a lutar. Vê se
ele tem coragem, se tem bases.
-Tenho de o deixar descansar primeiro. Está cansado de transportar


o Jasão às costas todo o caminho.
-Bem, manda-os chamar -disse MaxwelI, empurrando a cadeira. Vou
beber um toddy e observá-los. Quatro toddies, Meg. Um para o
teu irmão.
Os negros novos, embora lhes tivessem dado de comer, tinham sido
ignorados e aguardavam no pátio. Medes adormecera, com a cabeça
entre as mãos, no meio à sombra da nissa. Hammond foi ele próprio
buscá-los, coxeando através do pátio, e acordou o mandingo,
sacudindo-o com o pé.
-E melhor despirem-se aqui -disse-lhes. -Não quero essas roupas
sujas dentro de casa. Têm que vestir roupas novas, depois de se
lavarem.
Hammond encaminhou-os para a sala, onde o seu pai e o primo
seguravam os seus toddies, aguardando que arrefecessem. 0
principal interesse de Maxwell era o mandingo, e chamou-o
primeiro, deixando Ellen e Jasão encostados à parede, embaraçados
não com a sua nudez mas com os seus esforços para se orientarem
na sua nova casa. Medes sentia-se inquieto, sob a tensão do exame,
mudando rapidamente o peso de um pé para o outro, agitando os
braços, esticando e descontraindo os músculos, ansioso por exibir a


sua simetria e a sua força, de que estava perfeitamente cônscio. Não
dava provas de fadiga.
-Acho que vai ser um bom lutador. Hem, primo Warren? comentou
Charles.
Maxwell bebeu um golo de toddy, e fez estalar os lábios, como
preliminar para a sua opinião.
-Dois mil e setecentos, dizes tu? Mas que se passa com o velhote?
Este negro, um mandingo, vale três mil e quinhentos, talvez quatro
mil, qualquer dia, no mercado de Nova Orleães. Nunca vi um
macho melhor.
Hammond suspirou, aliviado. Sabia o valor da sua compra, mas
receava o veredicto do pai.
-Mandingo puro? Tens a certeza? -perguntou Maxwe11. -Não
quero misturas.
Digo-lhe que é irmão da Pérola Grande, filho do velho Xerxes e da
Lucy.
Maxwell acenou afirmativamente.
-Bem, chama a Pérola Grande. Podemos experimentar acasalá-los, e
ver o que dá.
-Pai, aquele macho está esgotado. Hoje não presta.
-Eu não estou cansado -protestou o mandingo. -Estou pronto.
-Se eu digo que estás cansado, estás cansado. Não discutas -disse
Hammond, obrigando-o a calar-se. -Além disso, pai -continuou, esqueci-
me de te dizer que ele talvez não possa procriar.
-Não pode? Porque é que não pode? Para que é que o trouxeste,
então?
-0 velho senhor Wilson diz que ele é tão grande, que rasga as
fêmeas. Diz que podemos devolvê-lo se o não pudermos usar, mas
eu quero ficar com ele, para os combates.
A ideia provocou uma gargalhada do velho.
-A Pérola Grande? -riu-se. -Um bocado de coirato de presunto. 0
velho Wilson nunca ouviu falar de coirato de presunto? Nunca
precisou dele, penso eu, nestes quarenta anos.



Mandou embora o mandingo e Hammond deu instruções ao rapaz
para pedir sabão a Lucrécia Bórgia e ir tomar banho ao rio.
Ellen e Jasão avançaram juntos, mas Maxwell observou-os
superficialmente e sem entusiasmo.
-Muito macia e muito bonita -elogiou ele. -Bastante traseiro, para a
idade. As vitelas também não são magras. Boa leiteira, também vai
ser. Destas têm geralmente bons bebés fêmea; mas não prestam para
ter rapazes, sã o muito finas e demasiado claras. Para ter machos,
deve-se usar urna mestiça ou mulata. Esta já só tem um oitavo de
sangue negro, talvez menos, mais branca ainda. Quanto custou?
-Mil e quinhentos dólares. Não me importava que custasse cinco
mil, é minha e eu quero-a para mim.
-Porque estás a desculpar-te, filho? Compraste-a, não compraste? É
especial, está certo. Não se pode negar. Vale bem o dinheiro,
especialmente se era virgem quando a compraste.
-Ainda é virgem -confessou Ham, corando.
-Onde estiveste tu? julgava que a tinhas comprado para ti. Não vale
a pena pagar mil e quinhentos dólares por uma fêmea para a vender
outra vez. É arriscado, pode morrer ou ser violada, antes de ir para

o mercado.
-Comprei-a para mim e vou ficar com ela ... sempre. Gosto dela.
julgo que a amo, como se costuma dizer. É a única fêmea que eu
quero; a única que hei-de querer sempre; não é, Ellen?
Um tom avermelhado invadiu a cara da rapariga e espalhou-se
pelos seios. Sorriu para o patrão. Embora se tivesse conservado
indiferente ao exame que sofrera, às discussões sobre o seu valor,
sobre a sua virgindade, a menção da palavra " amor" por parte do
patrão tocou a sua modéstia e fez correr com mais força o sangue
das suas veias.
-Que vai dizer disso a tua mulher, a prima Blanche? -perguntou o
pai.
-Claro, ela conta que andes com as negras, mas não vai gostar que
ames uma delas.

-Não importa o que a Blanche gosta ou não. Vai chorar e amuar,
faça o Hammond o que fizer. Ela é veneno, dígo-lhe eu; a Blanche é
veneno.
A denúncia de Charles era enfática.
-Não tenho culpa. Não tinha conhecido a Ellen quando pedi a
Blanche
em casamento -confessou Hammond. -Além disso, a Ellen é negra.
Nenhuma branca se rala com uma negra.
-Talvez não -admitiu Maxwell, com reserva. Voltou-se para Jasão e
sacudiu a cabaça. -0 velho Wilson quis livrar-se deste. Sabe que não
vale nada. E sabe que eu não posso vender um presente.
-0 senhor Wilson está a ficar velho. Prepara-se para morrer.
Escolheu este rapaz de propósito. Quer que tome conta dele.
-Que tem o Jasão de mal? -quis saber Charles. -Que há de errado
nele?
-Bom, é lustroso e de pele fina como aquela rapariga. Metade de
uma coisa e metade de outra; é isso que está errado. Na verdade é
mais fêmea que macho, excepto entre as pernas, e aí não vale muito.
Não vai precisar de coirato de presunto.
-Eu não podia recusar um prescrito. Hammond aceitou a censura.
-Podias trazê-lo acorrer. Trouxeste às costas do mandingo, a cansálo,
e ainda por cima de saias. Ficam-lhe bem. É melhor continuar a
usá-las. Jasão estremeceu e baixou a cabeça, ao ouvir as palavras de
desprezo do velho.
-Eu gosto dele. É um bom negro -insistiu Charles.
-Desde que fique longe de mim, podes ficar com ele. Acho que o
podes usar na cama, até -troçou o velho.
Charles empalideceu, perante a observação, mas ignorou as
implicações. Jasão, sentindo que já não era preciso, retirou-se para o
pé da cadeira de Charles e acocorou-se ao lado dela, e Charles
passou a mão pelo cabelo do rapaz.



Meg tinha andado de um lado para o outro, atrás das cadeiras,
durante a última parte do colóquio, como se tivesse alguma coisa
para dizer. Finalmente Hammond olhou para ele.
-Por favô, siô, patrão, siô -anunciou ele. -A banheira tá pronta
quando quiser.
-Mas eu quero a lareira acesa. Está frio para tomar banho sem lume.
-Tá acesa. A água tá quente. Os fato tão pronta. E o nêgo tá à espera
enumerou Meg.
-0 negro pode esperar -disse Hammond. -Meg, se não deixas de
andar à minha volta, arranco-te a pele. É o que eu te faço.
-Sim, siô, patrão, siô -Meg recebeu a ameaça, sorrindo. Sabia que o
castigo não era a recompensa para quem trabalhava, em
Falconhurst. -Quê que eu traga a palmatória e aquela mistura de
esfregá?
-Não, meu palerma, não. Anda, Ellen. Quero que laves a Ellen
depois de me lavares.
Hammond dirigiu-se para as escadas, com Meg a correr à frente
dele, e a rapariga atrás.
0 jovem escravo despiu o patrão em silêncio, juntou mais água
quente à que havia na banheira redonda, e amparou Hammond
cuidadosamente, enquanto se metia na banheira. Demorou-se, para
seu próprio prazer, a lavar a carne cor-de-rosa do patrão, com os
seus pêlos louros, amolecidos pela água. 0 banho anterior tinha-o
feito aprender. Quando chegou ao ponto de banhar o pé da perna
rígida, levou a ousadia ao ponto de se inclinar e encostar a face ao
tornozelo, mas recebeu pela carícia um coice que o fez cambalear.
Aceitou a censura, acabou a sua tarefa, ajudou Hammond a pôr-se
de pé e esfregou-o vigorosamente com a toalha até estar
completamente seco.
Hammond sentia-se refrescado. A sua carne ficara encarniçada
depois de Meg a esfregar, e soube-lhe bem a roupa limpa em
contacto com a pele. Submeteu-se a que o rapaz lhe enfiasse todo o


vestuário, com excepção do casaco. Sentou-se na cama ao lado de
Ellen, que observara o banho com silencioso interesse.
Agora lava-a a ela -disse Hammond, ao rapaz. Quando Ellen se
levantou da cama, Hammond estendeu a mão e deu-lhe uma
palmada terna na coxa, o que fez Meg estremecer de inveja pela
posição dela em relação aos favores de Hammond. Meg sentia-se
dividido entre a sua rivalidade sem esperanças com a rapariga e o
seu dever para com o patrão. Agarrou no braço de Ellen e
empurrou-a sem grande gentileza para dentro da banheira,
salpicando a carpeta. Para nenhum dos três era mais incongruente
que o escravo banhasse a fêmea do patrão, do que se tivesse sido
mandado dar banho ao seu cavalo ou ao seu cão. A posição de Ellen
como concubina do patrão devia, e de facto fê-lo, abafar qualquer
concupiscência que pudesse atingir Meg, cuja paixão não era desejo,
mas sim ciúme. Começou a esfregar o corpo da rapariga com o
esfregão de banho, com um entusiasmo fundamentado na
determinação de acabar um trabalho desagradável tão depressa
quanto era possível, de modo a deixá-la limpa, e ela não se ressentiu
com a rudeza com que ele a tratava.

Quando Meg acabou de secar Ellen, Hammond disse-lhe que fosse
ter com Lucrécia Bórgia e lhe pedisse um vestido para a rapariga,
mas não de trapos remendados, como os das outras.
-E depois -acrescentou-, bem podes lavar-te nessa banheira que já
está pronta, se quiseres.
Hammond recordava-se de que, no seu banho anterior, o rapaz
tinha pedido licença para tomar banho na mesma água.
Os olhos de Meg reviraram-se com desprezo.
-Eu não quê tomá banho n'água dela, patrão, siô. Só quê a tua. Não
era desobediência declarada, apenas a rejeição da sugestão do
patrão, mas irritou o branco. Pegou em Meg, mesmo vestido, e
mergulhou-o na água suja, depois levantou-o por um pé e
mergulhou-o de cabeça.


-Não discutas de quem é a água; quando eu digo para te lavares,
lavas-te. Ouviste bem?
-Sim, siô, patrão -respondeu Meg sombriamente. -Eu não queria...
-Pára com isso. És um negro preguiçoso, como teu pai. Agora vai
buscar o tal vestido, volta aqui e lava-te... bem.
Meg partiu, a escorrer. A acção violenta de Hammond tinha-o
acalmado. Passou a mão sobre o corpo de Ellen, sentada ao seu lado
na cama, parou para apertar uma mordidela de pulga numa perna
dela, beijou-lhe a nuca e acariciou-lhe os seios.
-É aqui que vamos dormir, todas as noites. Vem para cá logo que
possas, depois da ceia. Estou cansado daquela viagem. Quero-te
cedinho -dísse-lhe ele, antes de descer.
-Que é feito de Charles? -perguntou o pai quando Hammond
entrou na sala.
-Anda por aí, penso eu. Talvez esteja a dormir ou a treinar aquele
preto. Estou satisfeito por nos livrarmos dele e podermos falar.
-Então a irmã dele, a miss Blanche? Vais casar mesmo com ela?
Estás decidido?
-Acho que sim. 0 pai quer, não quer? Não posso voltar atrás agora,
a menos que o pai não mande aquele dinheiro para o major.
-Mando-o, se tu queres, mas parece que estás a comprar. 0 Charles
pode levá-lo quando regressar. Devia ter imaginado que o
Woodford te pediria dinheiro; é mesmo dele. Nunca mais vimos o
dinheiro.
-Eu sei -admitiu o filho.
-A miss Blanche vai ser uma boa mulher para ti. Tem sangue
Hammond. É simpática? E é bonita?
-A Blanche é perfeita. Tem cabelos louros e é branca. Claro, está
sempre toda tapada, deve ter vergonha. Ainda não tinha visto a
Ellen, nessa altura, sabe?
-A Ellen é apenas uma negra -disse o velho superficialmente mas
sem desprezo. -É muito jeitosa e bem feita, mas não é branca. Não
podes casar com ela e ter um filho, pelo menos um filho branco.



-Claro que não. Vou casar-me. Mas fico com a Ellen, tenha a
Blanche ou não tenha a Blanche -afirmou Hammond e o pai baixou
a cabeça, aquiescendo.
-Se eu fosse a ti, conservava o Meg longe do Tombigbce. Este outro
está sempre aqui comigo. É melhor conservares cá o teu aconselhou
calmamente o pai.
-Intrusos? É cedo para aparecerem. E não há mal nisso.
-Pior. Ladrões de negros. Não tenho a certeza ainda, mas parece-
me. Ladrões de negros, atrás dos gêmeos.
Não convencido, mas prudente, Hammond perguntou:
-0 que o faz pensar isso?
-Bem, talvez não seja nada, mas o Willís Hall, sabes quem é, aquele
pregador que correram de Benson por tentar roubar negros. Bem,
esse Hall veio aqui no sábado, montado num belo alazão, depois de
tu teres partido na sexta-feira, e disse que queria comprar negros.
Pensando que eu não o conhecia, disse que se chamava Mason, mas
era o Hall. Queria comprar os gêmeos, sabe tudo sobre eles. Calculo
que fosse o Brownlee quem lhe disse.
-Brownlec?
-Sim, o Brownlee está metido nisto. Eu nem sequer lhos mostrei.
Disse-lhe que estavam ambos com epizootia, embora este estivesse
aqui mesmo a dormir, bêbedo, aos meus pés, e Hall o visse
perfeitamente.
-0 Brownlee está mesmo decidido a ter os gêmeos, parece.
-Tem um comprador à espera em Nova Orleães, um francês rico,
disse Hall -explicou o velho. -Mas eu não quero negócios com o
Brownlee, nem com o Hall.
-Hall -disse Hammond. -Sabe quem é o Hall? Trabalhou há muito
tempo para o senhor Wilson. Foi capataz da Plantação Coign até ser
atacado pela religião e sentir vocação para pregar. 0 senhor Wílson
gostava dele, era um bom capataz.



-0 velho Wilson gosta de toda a gente. Admira-me que o Hall não
roubasse os negros de Coign, embora ainda não tivesse começado a
pregar, nessa altura.
-Na realidade, o Hall é pai da Ellen e daquele Jasão. -Hammond
sentiu que era temeridade dizê-lo.
0 quê? É verdade. Disse o velho Wilson.
-Essa é boa! Talvez queira roubá-los. Pode ficar como macho, que
não me raio nada.
-Não gosta de Jasão? Há-de fazer-se um bom criado para casa.
-Está bem onde está, a servir aquele vesgo do Woodford. Mas não
podemos ficar com o vesgo toda a vida só para ele o servir. Então o
Hall é pai dele? Logo vi que havia qualquer coisa errada com o
rapaz.
-Também é pai da Ellen -acrescentou Hammond, com ciúmes.
-Isso não a prejudica, para aquilo para que tu a queres.
-Pai, acho que tem motivos para estar aborrecido comigo por gastar
tanto dinheiro com a Ellen. Não precisávamos dela. Mas eu quero
tê-la, eu quero-a.
Hammond começou a chorar, devido ao seu esforço para fazer o pai
compreender a necessidade que tinha da rapariga. Contava com a
censura do velho por ter feito uma compra que não beneficiava a
economia da plantação e portanto estava fora da sua competência.
-Então, então, filho. Não chores. A rapariga está bem, é bonita, e foi
barata. Serve para procriar, quando estiveres farto dela e Tense
estiver madura.
-Não vou fartar-me dela. Não desejo a Tense ou qualquer outra afirmou
Ham.
-0 outro preço é que foi muito alto.
-0 mandingo? 0 pai disse ...
-0 mandingo não, a outra ... a rapariga do Woodford, a irmã do
vesgo.
-Mas, pai. Queria que eu ...



-Te casasses com uma branca. Claro que sim, mas não que a
comprasses, a ela e à família toda.
-Pode não mandar o dinheiro -sugeriu Hammond quase
ansiosamente.
-Mandamos o dinheiro. Não é pelo dinheiro. Charles entrou na sala
e interrompeu o colóquio. Atirou-se para uma cadeira, anunciando:
-Gosto disto. Não há rezas nem ordens. 0 primo Warren e o
Hammond tratam-me como um adulto. E não tenho cá a Blanche, a
chorar e a exigir coisas.
-Vais-te embora muito em breve. Não tens tempo para gostares de
Falconhurst -avisou Maxwe11.
-0 Charles e eu vamos a Benson no sábado ver uns combates, ver
como se portam os lutadores e que tipo de negros há para apostar disse
Hammond ao pai.
-E levamos o Medes, para o mostrar -acrescentou Charles com
entusiasmo.
-0 Medes fica em casa, escondido -disse Hammond.
-Quando estiveres em Benson, é melhor comprares uma garrafa de
banha de cobra do doutor Mullbach para esfregar o mandingo sugeriu
Maxwe11. -É esplêndido.
-0 Medes não está doente, não precisa de remédios.
-É melhor trazeres. Cheira mal, más precisas de treiná-lo. Faz com
que ele fique ágil e flexível, se esfregares nas articulações. A gente
do circo usa a banha de cobra do doutor MuIlbach.
-Banha de cobra do doutor MuIlbach, diz o pai -repetiu Hammond
para gravar o nome na memória.
-E amanhã é melhor desenterrarmos aquele pote, que está por
debaixo da árvore grande3 e tirar o dinheiro para o Wilson planeou
o velho. Podes
levá-lo a Benson ao banqueiro Meyer, para que o mande. Não
vale a pena adiar.
-Acha que podemos confiar no Meyer para o mandar?


-Não se pode confiar muito nem em bancos nem em banqueiros.
Mas ele manda-o. 0 Meyer é honesto, na medida em que os
banqueiros o são. É mais seguro ter o dinheiro num pote enterrado.
Mas como havemos de mandá-lo ao Wilson? -Maxwell não deixava
de ter dúvidas.
-E para o maior Woodford? -perguntou Ham.
-Pode-se contar e pôr de parte. Não precisamos de banqueiro para


o mandar. Charles vai-se depressa embora e pode levá-lo. Não
podes, Charles?
-Encantado por o servir -disse Charles formalmente.
-Servír-me? Servir o teu pai. Havia uma inflexão de ironia na voz
de Maxweli.
-Tenciono começar a treinar o Medes amanhã de manhã. Começo a
trabalhar com ele gradualmente.
Ham notara a animosidade do pai e introduziu um novo assunto na
conversa.
-Têm que começar a fornicar corri as raparigas. Estão a perder
tempo. Têm que parir no Outono -disse o pai.
-Não quero tirar forças ao mandíngo, usando-o para procriar objectou
Hammond.
-Não vai enfraquecê-lo. Uma hora ou duas depois está tão bom
como antes. Faz-lhe bem. Compraste-o para isso, ou não?
-Para lutar e para isso, sim.
-Lutar não é tudo. É mais seguro procriar do que combater. Pelo
menos, desta maneira não o perdemos.
-Pode tratar disso no sábado, quando eu e o Charles formos a
Benson. Mas tenha cuidado com as fêmeas. E melhor dar-lhe a velha
Lucy primeiro.
0 Medes é muito grande.

Capitulo décimo sexto


Caía uma chuva fininha, no dia seguinte, mas apesar disso,
Hammond começou a preparar Medes. Pô-lo a transportar lenha
cortada de um lado da casa para o outro, não porque fizesse
qualquer diferença o sítio onde a lenha ficasse, mas para pôr em
acção os músculos do mandingo. 0 negro atacou a tarefa com
energia, e, apesar do peso e do incómodo, devido ao tamanho dos
pedaços de lenha, transportou-os facilmente, mais facilmente do
que Hammond desejaria. Os seus músculos já estavam fortes e a sua
força era prodigiosa.
Excepto para satisfazer a crença de Hammond de que Medes
precisava de preparação, o seu corpo não necessitava de qualquer
exercício. Contudo, apenas dispunha de força; teria que aprender a
usá-la contra o seu antagonista. Hammond compreendeu que a sua
tarefa era preparar a habilidade do negro, mas observou com
orgulho o retesamento e descontracção alternados da carne, sob a
roupa de Medes, e chamou o pai para o observar.
-Não é nada, o que ele está a fazer-escarneceu o velho. -Vais
semear para a semana e há, falta de mulas. Atrela aquele macho a
um arado e usa-o em vez de uma mula. Isso endureceu-o.
-Acho que sim, mas não quero um negro a chicotear o rapaz respondeu
Ham.
-Põe a Pérola Grande atrás dele a guiar o arado e não lhe dês
chicote. Charles emergiu da casa, observou Medes durante algum
tempo e opinou:
-Aquele negro não precisa de preparação. Pode bem lutar. Vamos
levá-lo amanhã.
Hammond olhou para Charles, com ar trocista, e não lhe respondeu.
Pólo e outro escravo, de nome Pompeu, estavam a cavar
tranquilamente e sem pressas na base de uma grande árvore de
chicória, à procura do pote do ouro. Ham, de vez em quando,


observava-os e dizia-lhes que se apressassem, terminando a
admoestação com uma ameaçava.
-Eu sei que o enterrei. Deve estar quase. Talvez a um pé ou pé e
meio do sítio onde estão. Estão muito próximos da árvore -calculou
Maxwell.
-É isto, patrão, siô? -perguntou Pólo, do seu lugar, no fundo do
buraco, entregando a Pompeu uma panela de ferro, coberta de terra.
-É muito pesada, siô. Quase não pode com ela.
-E isso -disse Hammond. -Limpa essa terra e leva-a para casa. Deixa

o buraco aberto para se meter outra vez.
A meio caminho de casa, transportando o pesado objecto, as mãos
de Pólo escorregaram no visco, e deixou cair a panela. Caiu quase
de pé, mas a tampa saltou, fazendo salpicar a água que se infiltrara,
e espalhando meia dúzia de moedas amarelas. 0 acidente valeu a
Pólo uma descompostura e um pontapé de Hammond, mas não
houve problemas. As moedas foram recuperadas e a panela foi
inclinada, 'para escoar o resto da água, e Medes rodeou-a com os
braços e transportou-a facilmente para a sala, colocando-a, segundo
instruções de Ham, no centro da sala, no chão,
Lucrécia Bórgia tinha pouca noção do valor do dinheiro e Meg
absolutamente nenhuma, mas vieram para a sala observar a
cerimônia da sua contagem. Maxwell sentou-se na sua cadeira e
ficou a ver Hammond ajeitar-se no chão, com uma perna por baixo
dele e a perna rígida esticada. Víu-o encher as mãos de moedas e
deixá-las escoar por entre os dedos, para caírem de novo na panela.
Charles sentara-se numa cadeira baixa, à parte, e olhava espantado
para o dinheiro, com a imaginação a trabalhar.

Hammond começou a contar e a empilhar dinheiro. Empilhou cinco
moedas de vinte dólares, mais outras cinco, ao lado de mais dez, até
chegar à soma que desejava. As moedas eram todas de vinte
dólares. Não havia maneira de perfazer exactamente os dois mil e


setecentos e cinquenta dólares, pelo que teve de acrescentar dez
dólares à importância, e empurrou o monte para o lado, entornando
as pilhas.
-Aí tens, Medes. Isso és tu. É quanto tu custas -explicou
Hammond. -Achas que vales tanto?
0 mandingo respondeu com uma risada de embaraço.
-Não siô, patrão, siô -disse ele. -Tanto não. Não fazia ideia
nenhuma de quanto era. Ham fez três pilhas de quinhentos dólares
cada e pô-las de lado,
-Isto é a Ellen -disse ele.
-Onde estou eu, patrão, siô? -perguntou Meg, inclinando-se para
olhar para dentro da panela.
-Tu? Tu não estás em parte nenhuma. Não vales nada -respondeu
Hammond, com seriedade trocista. -Não se compram negros como
tu. Criam-se.
Voltou à panela, tirando, às mãos cheias, moedas que acrescentou
ao monte para contar, no chão. Desse monte, retirou cinco pilhas de
moedas de vinte e cinco dólares cada e pô-las de parte.
-Isto -disse ele, olhando para o pai para obter a sua aprovação -é
para o maior Woodford.
-Isso é a Blanche -disse o pai secamente.
-Veneno -acrescentou Charles. Hammond voltou a colocar as
moedas por contar dentro da panela e colocou a tampa.
-A panela está a ficar mais leve -observou Maxweli, abanando a
cabeça. -Tinha cerca de dezanove mil dólares, se bem me lembro,
dentro dessa panela. Assim baixa para -hesitou, contando pelos
dedos -, para cerca de doze mil. Vamos enchê-la até vinte e cinco
mil com uns extras para ficar certo e enterramo-la de vez no
próximo Outono, quando venderes o gado em Nova Orleães, tal
como as outras três que estão enterradas.
-Uma delas fica vazia, se construirmos uma casa, como pensa disse
Hammond.


-A construção está a subir. Devia ter feito a casa há mais tempo,
quando a tua mãe estava ainda viva; era mais barato nessa altura.
Maxwell ficou como olhar perdido na distância durante uns
momentos, i-nas voltou logo à realidade.
-Não estamos ainda atrapalhados, seja como for; temos que ir
economizando. Põe outra vez a panela no mesmo sítio, ilho, e
manda os negros pisar bem a terra e alisá-la.
Pegou numa das pilhas de moedas destinadas a Woodford, passou-
as de uma mão para a outra, mas não as contou.


Capitulo décimo sétimo

-Não senhor, não temos anéis de diamante -explicou o homem
pequeno, calvo, de rosto comprido, retirando a lente de joalheiro do
olho.
-A gente de Benson não compra disso. Custam caro, os diamantes
verdadeiros são caros.
Hammond ficou confuso.
-Estou a dizer-lhe. Posso mandar vir o anel, para ver... de Orleães.
Tenho-c, dentro de uma semana, senhor Maxwe11.
-Então? -perguntou Ham.
-De que tamanho o quer?
0 homenzinho inclinou-se sobre o balcão tosco.
-Não sei. Suficientemente grande para o dedo de uma senhora
branca.
-Encostou o polegar ao dedo mínimo. -Deste tamanho, penso eu.
0 joalheiro abanou a cabeça.
-Isso é muito grande, três ou quatro carates, sai muito caro.
-Quanto?



-Não poso dizer ao certo, mas aí uns trezentos dólares, mais ou
menos, penso eu; uma pedra bonita e clara sem muito carbono.
Hammond ficou assustado com o preço.
-Bom, talvez sirva uma mais pequena, que valha aí uns duzentos
dólares. -Era o dobro do que ele pensara gastar. -mas quero um
diamante sólido.
-Então vou encomendar, senhor MaxwelI, sujeito, evidentemente, à
sua aceitação quando o vir. A volta de duzentos, não é?
-Isso mesmo, senhor Foreman; arranje-mo. Eu depois digo. A
pequena sineta da porta tilintou quando Hammond e Charles
saíram da relojoaria, com as suas pequenas montras cheias de
bugigangas manchadas.
-Muito caro -disse Hammond, apertando os ombros com as mãos.
-E não vale a pena -disse Charles. Para ela, não vale. já tinham
estado com Meyer e tinham-lhe dado o dinheiro para entregar a
Wilson.
-Isto já está tratado, podemos ir à taberna -disse Hammond. -Acho
que um uísque não me caía mal agora, e calculo que comecem a
aparecer aqueles senhores com os seus lutadores.
Por entre as fendas do estreito passeio de madeira que ladeava a rua
apareciam, aqui e além, pequenas folhas de relva. Entre duas áleas
cheias de ervas daninhas erguia-se um edifício virado a um lado,
com uma falsa fachada destinada a simular um segundo andar. As
janelas estavam tão sujas que nada se podia ver através delas, e a
entrada recuada estava coberta de poeira. Hammond parou e deu a
volta à maçaneta mas a porta não se abriu.

Um homem congestionado que Hammond não reconheceu
atravessou a rua. _ Estão à procura do Redfield? -perguntou. -Não
vem cá desde que se casou. Casou com aquela viúva e com os
negros todos dela. Já não há médico. Querem alguma coisa?
-Nada de especial, -respondeu Ham. -Muito obrigado.


-Redfield talvez vá à taberna logo -informou o estranho. Geralmente
vem ver os combates, ao sábado.
Um vadio que estava sentado numa cadeira, à sombra, por baixo do
toldo de madeira da taberna, ergueu-se e seguiu Hammond e
Charies quando estes entraram na longa sala. 0 empregado do bar,
que estava sentado fora do balcão a falar com Sam Holden, cliente
habitual do estabelecimento, ergueu-se e foi para trás do balcão,
quando viu chegar homens com dinheiro para comprar bebidas.
Holden, que Hammond conhecia de nome, e o vadio, aproximaram-
se do balcão timidamente e encostaram-se a ele, na esperança de um
convite, a que Hammond não faltou.

0 dono do bar chamava-se Pérola Remick, e não sabia que fazer
quanto ao seu nome, além de neutralizar a sua efeminidade através
de uma agressividade jovial e da veemência da sua linguagem. Era
um homem pesado, de faces vermelhas, de mãos grandes e rudes,
cabelo cortado muito curto e voz de estentor.
-0 que desejam, meus senhores? -perguntou ele.
-Uísque -disseram Hammond e Charles em uníssono, e os dois
outros homens acenaram, concordando.
Hammond estava de costas para a porta quando sentiu uma
pancada nos ombros e, voltando-se, deparou com Lewis Gasaway,
vigoroso, radiante e expansivo.
-Viva, Lew. Toma uma bebida -saudou Hammond. -Viva Lije. 0
Lije bebe?
-Acho que não lhe faz mal e a velhota não há-de descobrir. É difícil
afastar o uísque de um Gasaway -respondeu o irmão mais velho.
Lewis apenas tinha vinte e três anos e Elijah, que se mantinha
afastado do grupo, tinha quinze. A sua timidez era agravada não só
pela sua juventude, mas pela consciência do acrie que lhe cobria o
rosto e da penugem por rapar que crescia entre as pústulas. Com
um sorriso envergonhado, pegou no copo de uísque que o irmão lhe
estendia e que constituía não só uma prova da sua inclusão no


círculo dos adultos, como também um refresco, após a sua longa
cavalgada.
Depois de apresentar Charles aos estranhos, Hammond perguntoulhes:
-Não trouxeram um negro? Deixaram de entrar em combates?
-Sementeira -explicou Lewis laconicamente. Elijah, que a bebida
tornara mais ousado, conseguiu dizer:
-0 Lew tentou fazer escapar o Cudjo, mas o pai chamou-o e foi o
diabo. Não foi, Lew?
-0 velhote é todo religioso, não gosta de lutas, amenos que eu ganhe
e leve para casa um bom pretinho.
-Nenhum deles se importa, se ganharem -declarou Pérola.
-Onde está o teu lutador? -perguntou Lewis a Hammond. -Andas
sempre a dizer que vais arranjar um. 0 teu velho não quer? Eli?
Tentava livrar-se da implicação de que dependia da vontade do pai.
-Já tenho um -anunciou Hammond.
-Onde está ele? Porque não o traz? -perguntou Pérola, com
interesse.
-Tenho que o treinar um bocado. Ainda não está preparado -disse
Hammond.
-Um grande macho mandingo. É isso, não é, Ham? Mandingo? -
Charles não estava muito seguro da nomenclatura e não fazia ideia
do que era um mandingo. -Aposto que era capaz de matar
qualquer dos machos contra os quais oprimo Ham o mandasse
lutar, sem parar. E mau, digo-lhes, é mesmo mau.


-É forte, lá isso é, espero que saiba lutar. Ainda não seio que há
dentro dele. É um bocado desajeitado.


A avaliação de Hammond não era só motivada pela modéstia; não
queria desencorajar os combates fáceis que a inexperiência do seu
lutador poderia levar os antagonistas a preparar.



-Ameace-o de que o queima, senão lutar -sugeriu Holden. -Um
ferro em brasa obriga todos a lutar.
-Talvez -disse Hammond, afastando a ideia. Os homens e os
rapazes separavam-se em pequenos grupos; os homens adquiriram
bebidas para si próprios e pagavam-nas uns aos outros, os rapazes
mais jovens, a menos que estivessem acompanhados por um mais
velho, afastavam-se do balcão e a sua sobriedade resultava tanto da
repugnância pelo gosto do uísque como da falta de dinheiro para o
comprar. A maior parte dos rapazes tinha moedas de cinco
cêntimos, de um décimo de dólar ou de vinte e cinco cêntimos para
apostar nos combates, e outros vinham apenas como espectadores.
Pérola tolerava os jovens, como clientes potenciais quando fossem
mais velhos, mas não os deixava usurpar espaço, melhor ocupado
pelos actuais clientes.

-Se querem ver os negros a lutar, seus, garotos, saiam do caminho
destes senhores que querem comprar bebidas -disse Pérola aos
jovens.
-E parem de lutar e ponham-se quietos. Daqui a pouco alguma
aleija-e os pregadores e aqueles tipos da Temperança dizem que fui
eu. Ouviram?
Os rapazes afastaram-s e ficaram quietos durante alguns minutos,
mas não tinham medo de Pérola.
0 Dr. Redfielf entrou vagarosamente com o novo aprumo que a
prosperidade lhe conferira. Viu Hammond entre a multidão junto
do balcão, puxou-o para fora e insistiu em oferecer-lhe uma bebida.
-Bem, bem, bem, agora somos vizinhos, quase -disse ele.
-Quase -concordou Hammond sem entusiasmo. Não via Redfield
desde o seu casamento e não sabia se devia falar dele ou não. Não
encontrava termos para felicitar o homem, cujo casamento, segundo
ele próprio confessava, apenas se destinara a adquirir as
propriedades e os escravos da parteira. Redfield não foi tão discreto.
-Não o vejo desde que consegui aquilo. A viúva aceitou-me.


-Assim ouvi dizer -disse Hammond.
-Não me felicita?
-Claro, claro -disse Hammond, ainda incapaz de compreender se
devia ou não fazê-lo. -Tome uma bebida.
-Quase nunca venho a Benson agora, excepto aos sábados, para ver
os combates. Tenho os meus próprios negros para tratar, agora. É
uma grande responsabilidade, urna data de negros -declarou
Redfield.
Redfield voltou-se para Hammond:
-já fornicou com aquela grande fêmea mandinga, filho -perguntou
em voz alta.
Depois contou a história da sua chamada a Falconhurst para tratar
Pérola Grande, tendo chegado à conclusão de que ela apenas sofria
de paixão pelo seu jovem patrão. Não omitiu qualquer detalhe do
exame feito à rapariga e desatou a rir ao descrever a precipitada
retirada dela da cabana, após o diagnóstico.
-Que fizeste tu, Ham? -perguntou Gasaway. -Queres que eu vá lá
ajudar, ou mande o Lije? 0 Lije não se importa com o cheiro.
Importas-te?
0 acrie de Lije desapareceu sob o tom avermelhado que lhe cobriu o
rosto e ele baixou a cabeça para o esconder.
Hammond enfrentou o embaraço com uma explicação:
-Temos um macho grande para acasalar com ela. já está calma declarou
concretamente, embora sem verdade.
Ficou satisfeito por a conversa se afastar dele devido à persistência
de Lew Gasaway em auxiliar Elijah.
No meio da confusão das conversas, chegou Alonzo Kyle, trazendo
dois negros que se colocaram junto da parede. Ky1e era um homem
pesado, baixo, corado, com pouco menos de quarenta anos, e estava
quase sem fôlego, com medo de chegar tarde.
-Ainda não há combates? Onde estão os negros? -perguntou ele. Não
há ninguém para lutar? Os meus estão prontos.


Houve um murmúrio de explicações sobre os motivos por que mais
ninguém trouxera lutadores.
-0 velho Zarolho -disse Lew Gasaway, observando o escravo maior
de Ky1e. -Que queres tu, que outro negro lhe arranque o olho que
falta?
-0 Doçuras quer lutar. Eu nem queria. Ele suplicou-me que o
trouxesse, não foi Doçuras?
-Sim, siô, patrão; sim, siô -respondeu o preto com entusiasmo. -Dá
uísque a mim e eu mata aquele nêgo, qualqué nêgo. Eu gosta de
lutá, lutá é tão bom com um olho só, como com dois ôlho.
Charies avançou e apalpou o Doçuras, e depois chamou Hammond
à parte.
-Deixe-me ir a Falconhurst buscar Medes. Aquele negro não pode
lutar. 0 Medes não precisa de preparaçã o para lixar aquele.

-Não -disse Hammond.
-Por favor -suplicou Charles. --E se não se fizer isso, não haverá
combates. -Era patético na sua juvenil ansiedade. -Porque não?
-Olha para o pretinho que ele traz para apostar-disse Hammond
com desprezo. -Pequeno, magrizelas, com joelhos salientes, barriga
para fora. 0 meu pai ria-se de mim, se eu ganhasse aquele negro e o
levasse para casa. Nem gastava comida para o criar.
Era evidente que não haveria combates. Embora se consumisse
muito uísque, Pérola sabia que a multidão se reunira especialmente
para ver combates e apenas acidentalmente para beber, e já previa
sábados futuros em que os clientes, desapontados por aquele
sábado, não viriam.
-São aqueles malditos pregadores que os impedem de vir -declarou
Pérola. -Os senhores começam a perder interesse pelos combates,
precisamente quando eu gastei bom dinheiro a construir aquela
maldita cerca em volta do pátio, para que as senhoras e os
pregadores não pudessem ver o que se estava a passar.


-Então, então, então, Pérola, não te rales, não te rales -disse o velho
Waddington, que a bebedeira tornava conversador, para consolar o
taberneiro. -Os negros estão a fazer sementeiras, esta semana. Na
próxima semana, toda a gente traz um negro, toda a gente. Hás-de
ver.
-Se acabam os combates, o sangue dos negros torna-se, como se diz,
degenerado. É preciso que eles lutem, para se manter a raça de
lutadores, como os cavalos de corrida -raciocinou Pérola.
-É certo -ecoou Ky1e. -Tens razão. Se não os fazemos lutar, para os
pôr à prova, começam a procriar só machos enfezados e os negros
acabam. Hão-de ver.

A maioria dos jovens tinha-se ido embora e os homens começavam
a partir.
-Só mais uma bebida para todos, e depois levo os meus negros para
casa -disse Alonzo Kyle, em desespero, atirando uma moeda de
ouro para o balcão.

Já passava muito da hora da ceia quando os rapazes regressaram a
Falconhurst. Meg esperava no alpendre, e tentou sem êxito impedir-
se de começar aos saltos quando viu Hammond. Sabia que era
pouco digno.

Os rapazes desmontaram e entregaram os cavalos a Vulcano, para
que os levasse para o estábulo.
-Patrão, siô, patrão, siô, a ceia tá pronta! Tá à espera -gritou Meg
histericamente, na sua alegria pelo regresso do patrão.
Se não tivesse passado tão perto de Meg ao atravessar o alpendre
para entrar em casa, Hammond teria ignorado toda aquela
excitação; mas não precisava de se desviar do caminho para pregar
uma bofetada na cara do jovem escravo, com a mão aberta.


-Pára com isso -disse sem rancor. Hammond encontrou o pai
sentado em frente da lareira, com um toddy na mão, os pés nus
sobre a barriga de Alph, deitado em frente da sua cadeira.
-Filho, o meu reumatismo está a apoquentar-me outra vez. Resolvi
passá~lo para aquele; explicou o pai, enquanto o filho se dirigia
para ele. Porque vens tão tarde? A ceia está a arrefecer.
-Tive de ir comprar aquela banha de cobra -disse Ham, à laia &
explicação. -Dois frascos, um pareceu-me pouco. É uma coisa
potente; explica tudo por fora.
-Ganhaste ou perdeste, nos combates? 0 Charles encheu a barriga
de sangue?
-Não houve combates, nem um -suspirou Charles.
-Afinal a barriga daquele negro não está a absorver muito o meu
reumatismo. Dá-me o teu braço, Merrinon. -O inváIido fazia
concessões às dores que o atormentavam. 0 seu negro conduziu-o
com gentileza e sentou-o cuidadosamente à mesa.
-Se calhar estava com muitas dores para acasalar a Pérola Grande
com Medes hoje -arriscou Hammond.
-Não fui pessoalmente, não -respondeu o pai. -Mas disse à
Lucrécia Bórgia. Acho que ela os acasalou. Não me disse nada
ainda.
-Quê a minha mãe, patrão, siô? Qué Lucrécia Bórgia? -Meg
desejava saber mais pormenores sobre o assunto, e Ham deu-lhe
ordem para a ir buscar.
A cozinheira chegou, muito conscienciosamente, ajustando o
vestido, com Meg atrás dela, todo ouvidos.
-Este nêgo diz que tu quê vê eu -declarou ela, e ficou à espera.
Sabia perfeitamente porque a tinham chamado.
-Que tal a cobrição da Pérola Grande -inquiriu Hammond. -Ela
aceitou-o?
Lucrécia Bórgia sorriu largamente e riu baixo.
-Ele cobriu bem aquela nêga, sim, siô, patrão, siô.
-Não houve problemas, então?



-Não, siô, não teve problema, depois de eu mostrá aquele nêgo
grande como era, só que tive que batê naquela nêga maluca, pra tá
quieta.
-0 Medes não magoou a Pérola Grande? -Hammond sentia-se
aliviado.
Bórgia disse com desdém:
-Mas ela quase arruinô ele Hammond pôs-se de pé.
-0 quê? E tu deixaste?
-Só mordeu e arranhô, siô. Não foi nada. Aquela fêmea é muito
poderosa, acredita.
-0 Medes é muito potente, não é?
-Parece um burro! -Lucrécia Bórgia enrijou o braço e fechou o
punho.
-Só de vê ele, fiquei toda excitada. Acha que eu pode usá ele, por
favô, patrão, siô, patrão, siô?
-Tu não precisas de macho, Lucrécia Bórgia, agora. Mem ainda é
bom, não és, Merririon? -perguntou o velho, olhando para o seu
criado.
-0 Mem tá preguiçoso desde que tu castigô ele, siô -argumentou a
mulher. -Aquele negrinho na minha barriga não dá pontapé, nem
mexe. Medes talvez desse força a ele, por favô, siô.
-Estou a poupar o Medes para lutar; não quero roubar-lhe forças disse
Hammond, pondo ponto final na questão.
Lucrécia Bórgia reconheceu a sua derrota.
-Sim, siô, patrão, siô -e voltou-se para sair.
-Continuas a alimentar bem o Medes, Lucrécia Bórgia? Ovos crus,
etc.? -perguntou Hammond. -Muita carne.
-Engordar um negro torna-o preguiçoso. Os magros lutam melhor.
Não se lhes dá de comer e esfregam-se com uísque; é isso que eles
fazem todos em Centervílie -declarou Charies.
-0 meu há-de lutar gordo. Mais nada. E a banha de cobra é melhor
que uísque. Diz ali na garrafa.



-Tenho estado a treinar o Jasão -continuou Charles em tom de
posse.
-Talvez lhe pudesse dar uma fêmea, não muito grande.
-Treina Jasão como quiseres. Mas ele não vai lutar. Hammond
empurrou a cadeira e ergueu-se. -Sente-se melhor, pai?
-Doem-me as mãos. Talvez fosse melhor pôr as mãos encostadas ao
negro, em vez dos pés. -Empurrou Mem para o lado e caminhou
lentamente até à lareira. -Talvez um toddy.
Charies começou a caminhar à volta da sala e parou em frente da
lareira, estendendo as mãos para ela, embora não estivessem frias.
-Estás a engordar, filho -disse o mais velho dos Maxwe11. -já tens
boas cores.
Assim parecia, à luz da lareira. Charles apalpou-se.
-E as borbulhas estão a secar -gabou-se. -Gostava era de pôr o meu
olho direito.


-Deixa lá isso. A comida de Falconhurst não vai curar isso. No
entanto, qualquer dia estás bonito, pelo caminho que levas.
-Não fico como o meu irmão Dick e como o primo Hammond.
-Bem, não. Mas vamos mandar-te para Crowfoot dentro de uma
semana, e nem a tua mãe te há-de reconhecer.
Chartes endireitou-se.
-Eu gosto mais de cá estar -disse. -Não me apetece ir embora.
Quero ver o negro de Ham a lutar.
-Claro, claro; não há pressa-disse Maxwell -,mas o teu pai deve
estar ansioso, posso garantír-te.
-0 pai sabe onde eu estou -mentiu Charles.
0 velho tinha perdído um pouco da sua antipatia pelo jovem
insensível.
-Estás muito mais forte do que quando chegaste, acho que devias
ter uma fêmea esta noite; que achas Ham?
-Todo aquele uísque que bebeu esta noite deve dar-lhe potência calculou
Ham. -Acho que sim.



-Arranja uma gorducha e jeitosa e manda o Meg ir buscá-la. A
Lucrécia Bórgia pode lavá-la e levá-la para cima.
Charles corou e abanou a cabeça.
-Não é preciso -disse.
-Esperares muito tempo não te faz bem. Começas a perder peso
outra vez -insistiu o velho.
0 rapaz sentiu-se corar e recuou para a sombra, longe da lareira.
-já me desabituei, penso eu -explicou.
-Temos tão boas como a Katy, mas não a podes vergastar como
fizeste com a tua -disse Ham.
-Não é isso -disse o rapaz, -Mas não quero nenhuma.
-Não lhe faz mal passar sem ela, se não quer -disse Hamniond,
confuso e incrédulo.
-Mas o que vaio major Woodford pensar de Falconhurst? -inquiriu


o proprietário.
-0 pai não sabe -disse Charles, encerrando o assunto. Deixou-se
ficar sentado, durante um pouco mais, e engoliu um toddy que não
lhe apetecia. Após um intervalo decente e aborrecido, ordenou a
Meg: -Vai-me buscar o Jasão, que eu vou para cima. Andar a cavalo
cansou-me.
Quando o ranger das escadas indicou que Charles não podia já
ouvi-los, o pai perguntou:
-Que pensas disto?
-Parece que está aborrecido por não haver combates em Benson. As
lutas excitam-no. Não presta sem elas.
-Jasão diz que o patrão Charles é um bom patrão. Leva ele prá
cama e tudo -interrompeu Meg.
-Não interessa a ninguém o que Jasão diz -respondeu Hammond. Tu,
Meg, levas um castigo como o do Mertirion, se te metes nos
assuntos dos brancos. Não se pode tratar bem um negro.
-Dá-se-lhes a mão e eles tomam logo o pé -disse o pai. -Os negros
tomam logo o pé.


Tinha ficado decidido que os pretos começariam a semear e tinham-
se discutido as áreas que caberiam a cada um deles. As mulas e os
bois tinham vindo das pastagens, tinham-se limpo os arados da
ferrugem, as relhas tinham sido afiadas. Uma inquieta ansiedade de
começar o trabalho levava Hammond a cavalgar pela plantação.

Mandara selar e trazer Eclipse e ia montar quando foi interrompido
por Lucy que estava à espera que ele saísse de casa. Viu Pérola
Grande à espreita, na esquina da cabana, antes de a mãe se lhe
dirigir.
-Patrão, siô, por favô, siô, patrão Ham -começou ela, olhando para

o chão e incapaz de prosseguir.
Hammond percebeu que se tratava de uma petição e a mulher tinha
dúvidas de que ele lhe concedesse o que ia pedir.
-Que há Lucy? Que queres? -perguntou, sem trair a sua
impaciência.
-Patrão, siô, Pérola Grande quê casá -disse Lucy rapidamente.
-Casar? Já sabes como é. Uma fêmea casada, farta-se de chorar se
vendemos o marido dela, e até se o castigamos. Pérola Grande está
muito bem assim. 0 patrão velho quer a Pérola Grande para o
Medes. E para ti também.
Hammond meteu o pé no estribo.
-É o que Pérola Grande quê. Ela quê ficá co macho grande. Pode?
Não é casá. Só ficá com ele. Ela chama a isso casá. Diz às outras que
tá casada.
Pérola Grande não podia esperar mais tempo pelo veredicto.
Incapaz de ouvir toda a conversa do local onde se escondia,
atravessou a correr o espaço aberto entre as cabanas e a casa e
colocou-se atrás da mãe.
-A Pérola Grande vai esgotar o Medes, roubar-lhe as forças para
lutar -objectou Ham.
-Não, siô. Não, siô, por favô patrão -suplicou Pérola Grande.



-Além disso eu também o quero para a Lucy, talvez para outras, se
não nascer de ti um filho forte; e se eu quiser vendê-lo, vendo-o,
sem ti.
-Sim, siô, sim, siô. Pérola Grande admitia a derrota.
-Além disso, se o teu filho sair enfezado, temos que experimentar
outro rapaz contigo, para a próxima.
-Eu vai tê um filho bom e forte para ti patrão. Eu vai ganhá
dinheiro pra ti. Sim, siô.
-Então o Medes não te magoou, não te rasgou? -perguntou
Hammond, para confirmar o testemunho de Lucrécía Bórgia.
-Não, siô. 0 Medes é grande, é monstruoso, mas não rebentou eu
como tu. Não, siô.


Pérola Grande riu-se, ao recordar a honra que o patrão lhe
concedera. Hammond tinha visto Medes e concluiu que a rapariga
estava apenas a lisonjear um branco. Contudo ficou satisfeito com a
comparação favorável e adiou a sua resposta negativa final ao
pedido da mulher.
-Veremos sobre esse casamento -disse, e montou, afastando-se.
Conhecendo, desde a infância, cada palmo de Falconhurst, a
excursão de Hammond era desnecessária para prestar qualquer
contribuição ao seu plano de sementeiras. Apenas serviu para
aliviar a sua inquietação e a sua necessidade de fazer algo. 0 seu
corpo jovem precisava de movimento.


Ao voltar do seu passeio, encontrou o pai e Charles discutindo, para
passar o tempo, as capacidades de luta dos negros escuros e claros.
-Mas isso não depende da cor, seja como for -declarou Maxwell
mas sim da tribo. Os Angolanos não tem bases, ficam parados, nem
tentam. Agora se tivermos um cromantino, esse é rápido e pronto a
lutar; mas é difícil de manejar, capaz de se voltar, e é preciso matálo.
0 melhor é o mandingo, se conseguir enfurecê-lo, mas os



mandíngos são difíceis de enfurecer. São mansos como cães, só
querem é festas.
-0 que eu digo -opinou Charles -é que os mais claros são melhores.
0 sangue humano torna um negro mais esperto.
-Mais brando, mais brando, torna-o mais brando. A esperteza
desaparece toda. Não há negro que consiga ser esperto.


Hammond esperou pela resolução daquela discussão inútil e,
finalmente, interrompeu-a:
-A propósito de mandingo, a Lucy e a Pérola Grande querem
juntar-se com Medes.
-Que lhes disseste? -perguntou o pai, e Hammond contou-lhe o que
se passara.
-Pelo menos sabias o que Medes faz à noite -assentiu Maxwe11.
-Ele dorme de noite. É o mais dorminhoco da plantação -contrapôs
Hammond. -Penso que não anda por aí.


-Tu não vais vendê-lo.
-Não, e quero que ele lute. Talvez queira dar Pérola Grande a outro
macho, para a próxima, se este bebé nascer pequeno de mais ou
idiota, por causa do parentesco deles.
-Nessa altura mudas. A própria rapariga há-de querer livrar-se
dele. Quando vais aprender, faz o que quiseres com os negros e eles
obedecem-te? És brando de mais para eles. Claro, os Mandingos são
diferentes; é preciso enganar os Mandingos para que se sintam
felizes.
-As duas fêmeas grandes vão esgotar o sêmen do rapaz. Não é
bom, para lutar.
0 pai troçou:
-Dá às duas, e não sucede isso. Nenhuma delas vai deixar a outra
tê-lo.
-Então acha que ...



-Claro que sim. Além disso, elas podem aplicar-lhe a banha de
cobra por ti. Aquela mistura tem de ser bem massageada, nas juntas
e nos pontos principais. Não basta aplicar. É preciso esfregar se
queres que ele fique flexível e lustroso corno um verme.
-Bem, é corno diz -concordou Ham. -Acabado o jantar, vou mandar
despir o Medes e dizer às duas fêmeas que o untem bem com a
banha de cobra.
Maxwell abriu e fechou a mão e olhou para ela; depois esfregou o
joelho.
-0 reumatismo piora sempre depois do jantar. Vou contigo até à
cabana para ver a massagem e mostrar-te como se deve aplicar.
Terminado o jantar. Maxwell bebeu outro toddy e deu um a Alph. 0
dia estava tão quente que havia pouca necessidade de lareira, pelo
que as brasas em fogo lento pouco mais eram do que o símbolo de
um sacrifício aos lares.
Hammond foi buscar à parte de cima da lareira uma das garrafas da
banha de cobra do Dr. Mulibach, agitou-a violentamente e
observou-a à luz. Sentou-se e inclínou-se para a frente, com os
cotovelos sobre os joelhos, para soletrar as indicações do rótulo.

Banha de cobra do doutor MuIlbach -leu ele. -0 linimento por
excelência para aumentar a potência da musculatura e a
flexibilidade das articulações. Aplicado copiosamente nos orgãos
masculinos da gestação, assegura o máximo endurecimento, facilita
a penetração e torna o acto mais ditoso. A banha de cobra do Dr.
MuIlbach é um elixir obtido de poções oleaginosas de diversos
géneros de ofídeos, com o aditamento de dispendiosas gomas e
bálsamos das mais longínquas zonas do universo conhecido.
Composta a partir de uma fórmula secreta transmitida ao Dr.
Mullbach através de inúmeras gerações dos seus esculápicos
antepassdos, já era apreciada pelos ginastas venturosos da antiga
Hellas e pelos gladiadores romanos, sintetizada a partir de
ingredientes idênticos aos que hoje são utilizados pelos seus


fabricantes. Muitos reis e monarcas se tornaram potentes pelo seu
uso. A banha de cobra do Dr. Mullbach é utilizada diariamente pelo
Sultão da Turquia e é por ele recomendada a todos os paxás com
um serralho numeroso. Nenhum moderno acrobata, contorcionista
ou pugilista executaria os seus feitos espectaculares sem este
maravilhoso adjuvante. Para obter os extraordinários resultados de
que é capaz a banha de cobra do Dr. MuIlbach, deve ser aplicada à
vontade, com o máximo de fricção e manipulação das articulações.
Deve ser massageada nos músculos com grande força e bem
espalhada. Não aceite substitutos. Use apenas a Banha de Cobra do
Dr. MuIlbach.


Fabricada e distribuída apenas por Companhia da Banha de Cobra
do Dr, MuIlbach Rampart Street Nova Orleães, Luísiana, E. U. A.
Hammond leu alto, na medida em que era capaz de ler certas
palavras; pouco se esforçou para compreender o seu significado.
Contudo, não ficou menos impressionado com as palavras.
-Penso que o Redfield deve saber o que quer dizer toda esta
linguagem de médicos. Mas o produto deve ser bom. An, an@
Bom? É excelente -declarou o pai. É o que diz aqui no rótulo: o 1-in-
i-m-e-n-t-o por excelência -confirmou Ham. -Rapaz, vai-me
buscar aquele saca-rolhas da tua mãe.


Meg trouxe o saca-rolhas e ficou a ver o patrão abrir o frasco
mágico. A rolha saiu mais facilmente do que era de esperar e
algumas gotas salpicaram a carpeta. Ham levou a garrafa ao nariz,
cheirou o conteúdo, e enrugou o rosto, após o que voltou a colocar a
rolha e afastou a garrafa.
-E muito forte -disse, abanando a cabeça.
0 pai pegou no frasco, retirou a rolha, cheirou e acenou
afirmativamente



-Cheira pior do que doninhas. Abanou a cabeça e entregou outra
vez ao filho o frasco. Charles, por sua vez, cheirou também a banha
de cobra. 0 seu cornentário foi:
-Cheira a merda de negro velho. Não esfregava isso no Jasão nem
que o fizesse forte como o White Fink.
-Chama o Medes e diz-lhe que espere por baixo da nissa. Diz que
fui eu que mandei -ordenou Hammond a Meg.
0 pai levantou-se e chamou Merrmon que não aparecia. Maxwell
insultou-o in absentia e chamou Lucrécia Bórgia, sempre pronta,
para ajeitar a manta azul sobre os seus ombros e ajudá-lo a
atravessar o largo até à cabana de Lucy. Lucrécia Bórgia colocou o
braço musculoso em volta das suas costas, regulou o passo pelo dele
e deixou-o levar o tempo que quisesse.
Medes levantou-se e esfregou os olhos.
-Precisa de mim, patrão, siô? -perguntou.
-Despe essa roupa. Tira-a e deixa-a aqui por baixo da nissa. Vou
esfregar-te banha de cobra e pôr-te todo flexível -explicou
Hammond.


Charles passou a mão pelo fianco de Medes e expressou a sua
admiração:
-Este macho mata aquele Doçuras do senhor Ky1e. Um murro no
estômago, só um murro no estômago e o Doçuras cai morto.
-Eu esfrega, depois de tu pôr a cobra nele, patrão, siô -disse Meg
como eu fez c'o Mem?
-Eu esfrego-te e dou-te a cobra, se não voltas para casa e não te
calas. Ninguém te disse para vires -ralhou Hammond e o rapaz
obedeceu, relutantemente, olhando para trás enquanto saía.
0 grupo deparou com Pérola Grande que saía da cabana,
balançando um balde na cabeça, a caminho do poço.
-Larga isso e vem cá esfregar o teu macho; teu e da tua mãe, quero
eu dizer -ordenou Hammond. -Onde está a Lucy?



Encontraram Lucy ajoelhada junto de um alguidar dentro do qual
se encontrava um choroso Baltasar, que estava a ser lavado sem
muita gentileza. _ Meu magrizelas, não tem mais carne do que uma
narceja! Se o patrão vende tu, tem sorte se recebê o pão que gastou a
dar comida pra ti.
-Quanto ao novo rapaz -interrompeu Hammond. -0 meu pai diz
que está bem tu e a Pérola Grande viverem com ele, mas não quer
que as duas dêem cabo dele.
-Eu sabia que tu achava bem, patrão, siô. Eu sabia. Eu disse à
Pérola Grande hoje de manhã, siô. Obrigada, siô , obrigada. Não,
siô, eu não dá cabo dele -prometeu Lucy e olhou para Medes. -An,
an -exclamou.
-Nem deixes a Pérola Grande -avisou Hammond, olhando para a
vigorosa rapariga.
-Não, siô, patrão -disse ela.
-Ele é para vocês -confirmou o velho. -Mas agora têm que o
massagear todos os dias.
-Aqui mesmo, à frente de toda agente? Baltasar, sai daí! Qual de
nós é?
-perguntou Lucy, interpretando mal a ordem.
-Estendam-no na cama, de barriga para cima -disse Maxwe11. -Tu
esfregas o tronco, a Pérola Grande as pernas. 0 patrãoHam despeja o
óleo.

Medes compreendeu o que queriam dele. Reclinou-se sobre a cama,
de braços levantados e pernas estendidas. Hammond voltou o
frasco e deixou escorrer um fio de óleo sobre a carne glabra,
começando pelo peito e continuando pela barriga e pelas pernas.
-Vamos, comecem a massageá-lo -ordenou. As mandingas
começaram a espalhar o óleo sobre o corpo. Quanto mais o
espalhavam, pior era o cheiro que deitava.
-Assim não. É preciso fazê-lo trabalhar, mexer as juntas -explicou o
velho. -Ele não se parte, não se desfaz aos bocados, não é nenhuma


boneca de loiça. Dêem-lhe palmadas, torçam-no e massagem-no
com força.

As mulheres renovaram os seus esforços, mas restringiram a sua
força. Para elas, Medes era, efectivamente, um grande boneco que
não queriam destruir. Não se negaram a esforços, mas as suas
palmadas eram mais carícias do que massagens.
-Para trás -disse MaxwelI, cuspindo o seu tabaco para o chão. -
Lucrécia Bórgia, mostra-lhes como é.
Lucrécia Bórgia avançou.
-Saiam daqui -disse ela, afastando as mandingas para o lado.
Levantou à saia para poder ajoelhar sobre a cama, inclinou-se e
esfregou as mãos sobre o ventre dele, para absorver o óleo. Não
apanhando bastante, estendeu as palmas para Hammond, que as
encheu do frasco. Esfregou uma na outra e começou a trabalhar
conscienciosamente. Esfregou e massageou, esmurrou, torceu, sem
remorso nem piedade, mas o negro não emitiu qualquer som.

Desdenhando pedir-lhe que se voltasse, meteu os braços sob o
corpo do rapaz e virou-o, como se voltasse uma panqueca, pegou no
frasco, despejou o óleo pela espinha e pelas nádegas, voltou a untar
as mãos, respirou fundo e recomeçou. Não esqueceu uma só
polegada de pele. Afastou mesmo os cabelos por baixo dos braços,
para melhor atingir a pele. Deitou mais óleo sobre os pés, esticando
e torcendo cada dedo por si.
-Senta-te nas costas dele e segura ele por baixo -ordenou Lucrécia
Bórgia a Pérola Grande. ~ Vou esticar os membro dele.
A rapariga fez o que lhe mandavam, sem compreender.
-Segura ele por baixo; não deixa ele mexê -avisou Lucrécia Bórgia,
erguendo a coxa em direcção à cabeça. Medes emitiu um grunhido
de dor.
-Não te serve de nada gritá -avisou a mulher -só faz eu dobrá
mais. – E agarrou na outra perna.


Meg apareceu à porta e Hammond ralhou-lhe:
-Eu disse para ires para casa. Que queres tu?
-Por f avô, siô, patrão, chegou o doutô Redfield. Quê qu'eu traga
ele?
-Claro, claro, trá-lo aqui -disse Hammond, dirigindo-se à porta
para ver Redfleld, que acompanhava o negro. -Venha, venha recebeu
o recém-vindo estendendo-lhe a mão direita.
-Que fedor é este? -inquiriu o veterinário. -Mataram um gambá?
-Banha de cobra -disse Maxweli. -Estamos a massagear o novo
macho do Ham. Fico satisfeito por ter vindo.
-Eu queria ver aquele lutador que o Ham se gabou de ter no sábado
passado.
-Aí está ele -proclamou Hammond, orgulhoso.
-Está doente? Ainda bem que eu vim. Hammond fungou, com
desprezo.
-Não. Estamos só a untá-lo. Chega por agora, Lucrécia Bórgia.
Deixa-o levantar-se.


Pérola Grande desmontou do lombo de Medes e ele pôs-se de pé.
-Leva-o lá para fora para o doutor Redfield o observar. Está muita
gente aqui dentro e cheira mal -sugeriu Maxwell.
-Como te sentes? -perguntou Hammond, solícito, a Medes. Cansado?
-Não, siô, patrão -respondeu Medes, esticando o pescoço, flectindo
os braços e enrijecendo as coxas. -Sinto-me extra-bem, mas aquela
Lucrécía Bórgia é mesmo forte. Não tem piedade nenhuma.
No exterior, Ham avisou o doutor Redfield:
É melhor não lhe tocar. Está todo besuntado de óleo malcheiroso.
0 doutor não precisa de tocar nos negros para ver como eles são.
Com a nossa idade, não é preciso mexer muito para ver -disse
Maxwell.
Recífield olhou para o rapaz.
-Não pode estar quieto? -perguntou.



-É vivo e inquieto, como um alazão -disse Ham, como desculpa. Está
quieto, Medes.
Recífield baixou-se e apanhou um grande ramo que caíra da árvore,
quebrou-o no joelho e atirou ao ar a parte maior.
-Apanha -ordenou, e Medes apanhou-a. Redfield acenou com a
cabeça, aprovativamente, e esfregou a barba com a mão.
-Acha que aqueles rapazes de Benson vão ser tão parvos que façam
lutar os trabalhadores deles, a que chamam lutadores, com um
negro corno este, meio-cavalo, meio macho?
-Eles adoram ver lutar os negros -disse Ham.
-0 melhor macho que temos tido em Falconhurst-declarou
MaxwelI, com fingida modéstia.
-0 melhor que eu já vi, em qualquer parte -exclamou Redfleld com
entusiasmo.
-Mas será capaz de lutar? É manso como um gatinho -pensou Ham
em voz alta. -Será capaz de lutar?
-Se me disser para lutar, patrão, siô... -interrompeu Medes, o que
irritou Hammond.
Contudo, absteve-se de o repreender.
0 Maxwell mais velho, que tinha caminhado sem ajuda,
compreendeu, de súbito, que se sentia fatigado, ou que devia sentir-
se. Ajeitou a manta sobre os ombros, e disse:
Preciso de um toddy. Entre a venha beber uísque junto da lareira.
Vai à cozinha e bebe os teus ovos -ordenou Hammond a Medes. Os
ovos põem-te a brilhar. Depois podes vir buscar a roupa à
árvore. Por hoje estás tratado, mas não te esqueças que amanhã, de
manhã cedo, vou pôr-te a ti e à Pérola Grande a semear. já não ficas
na casa das reuniões. Dormes na cabana e faz o que a Lucy te
mandar; não o que diz a Pérola Grande, só o que a Lucy disser.
Ficas para elas, mas não as deixes cansar-te.
Medes observou a expressão de Hammond e expressou a sua
satisfação.
-Este óleo torna-me vigoroso -disse ele, flectindo os braços.



-A Lucy vai pôr-to todos os dias -prometeu Hammond, do extremo
do alpendre. Redfield e Maxwell tinham entrado em casa e Charles
esperava por Ham à porta.
-Levamo-lo a lutar no sábado? -perguntou-lhe, ansioso.
-Talvez, se estiver pronto -disse Ham, fugindo ao assunto.
-Aquele mandingo, como lhe chama,ouvi já falar muito dele, mas
não tenho a certeza do nome) deve procria@ filhos de primeira reflectiu
Redfleld, tirando um copo de uísque da bandeja de Meg. Se
eu arranjar uma fêmea, uma das da viúva, gostava de a acasalar
com ele.
Maxwell bebeu um golo do seu copo.
-0 negro é do Ham; tem que pedir-lhe -disse ele. -0 Ham deu-lhe
aquelas duas grandes. Claro, elas estão primeiro. Depois delas,
talvez.
-0 pai sabe que o senhor, doutor Redfield, pode usar qualquer dos
nossos machos, quando quiser.
Hammond que ouvira a conversa, exagerou a sua generosidade.
Sabia a influência que a opinião profissional de Redfield tinha na
taberna; a organização de muitos combates dependia da sua
aprovação, e decidira vitórias em dúvida.
-Claro, eu ando a preparar o Medes para os sábados, mas pode ser
em qualquer altura que queira.
Suspeitando da oferta, Redfield inquiriu:
-Quanto é que isso vai custar-me?
-Sabe que eu não regateio um macho a um amigo, doutor Redfield;
não os deixo andar por aí, mas qualquer amigo os pode utilizar
numa fêmea só -disse MaxwelI, confirmando a política do filho. Agrada
ao macho, tanto como à fêmea, e eu gosto de os ver alegres.
-0 velho senhor Wilson diz que não se deve cruzar um mandingo
com outra raça -avisou Hammond. -Podem sair negros maus.
-Merda! -declarou o velho com desprezo. -Os negros mestiços não
são piores que os outros. Basta observá-los. Os que têm sangue
humano são os piores de todos.



-Nenhum deles é mau antes de crescer o suficiente para se tornar
atrevido, e eu sei o que se faz aos maus, nessa altura -ameaçou o
veterinário. Não era necessário qualquer elucidação e nem mesmo
Maxwell opôs qualquer objecção.
Redfield levantou-se e ajeitou o chapéu que não tinha tirado, e o seu
hospedeiro, querendo atrasar-lhe a partida, propôs mais um toddy.
-Bem, só mais um toddy, senhor Warren -suspirou Redfield. -A
viúva não há-de notar. Faz muita sede, estar casado com uma viúva.

Capitulo décimo oitavo

A meio da semana Hammond começou a sentir-se preocupado com

o combate do sábado seguinte. Conseguiria arranjar par para o seu
formidável negro? Haveria alguém, depois de o ver que lançasse o
seu negro contra ele? E, se conseguisse arranjar combate, Medes
ganharia? 0 proprietário hesitava sobre se devia acabar com o treino
para não esgotar as forças do negro, ou se devia dar-lhe
prosseguimento.
Na quarta-feira de manhã o Maxwell mais velho estava sentado no
alpendre, ao sol, para supervisar Medes que corria, saltava e fazia
exercícios com pesos. 0 branco estava impaciente e obrigava o rapaz
a aumentar os seus esforços com urna torrente de obscenidades,
sarcasmos, ameaças e imprecações. Medes não podia saber que
eram expressos sem verdadeiro rancor, mas não deixou de notar
que, quando Hammond passava a cavalo, o que sucedia de vez em
quando, o pai se calava. Medes tentava obedecer às ordens do
velho, acompanhadas pela sua linguagem característica, mas


esforçava-se mais por satisfazer as sugestões racionais e sem
maldade que Ham lhe fazia para melhorar o seu treino.

Na quarta-feira à tarde reuniram-se nuvens no céu e caiu tanta
chuva que foi preciso recolher os semeadores. Choveu toda a noite
e, na quinta-feira, o terreno ainda estava demasiado encharcado
para se semear. Durante toda a manhã continuou a cair uma
chuvinha miúda e morna, que não dava sinais de querer parar,
Hammond estava enervado, ansioso por continuar a semear e dar
continuidade aos exercícios de Medes. Enquanto bebia toddies que
não lhe apeteciam, aumentavam as suas dúvidas em relação a
Medes; a luta próxima deixou de ser, para ele, urna simples
tentativa de ganhar uma aposta, e tomou o aspecto de um triunfo
ou uma derrota pessoal. As afirmações que fizera sobre o seu
lutador tinham sido deliberadamente modestas, mas não conseguira
calar Charies quando este o gabava na taberna, pressentia que seria
escarnecido pelos outros se Medes não se mostrasse melhor do que

o escravo contra o qual o fariam lutar, e especialmente, se ele não
fizesse uma exibição digna de crédito da sua força e habilidade. A
simples perda do escravo jovem que iria apostar assumia menores
proporções do que o desabar da sua reputação como proprietário de
gado humano.
Se não fosse a urgência em mandar Charies de regresso a Crowfoot
com o anel para Blanche e o dinheiro para o pai dela e o
desapontamento que o rapaz sentiria se não visse o mandingo lutar
pelo menos uma vez antes de partir, Hammond sentir-se-ia tentado
a conservar Medes em casa no sábado seguinte e proporcionar-lhe
pelo menos mais uma semana de treinos antes de o pôr a lutar.
Charles não incomodava os MaxwelI, andava calado e agradável,
mas era imprescindível mandá-lo para casa.


Medes seria capaz de lutar? Não tinha sido feito qualquer teste da
sua capacidade de luta ou da sua coragem., Hammond corou,
perante a hipótese de Medes fugir e não lutar. Decidiu fazer um
ensaio preliminar.


Nenhum dos outros escravos podia ser considerado antagonista
razoável para Medes. Vulcano era quase tão grande como ele, mas
Hammond considerava-o cobarde. Serviria para contraste. MaxwelI,
já meio embriagado, deu o seu acordo à proposta do filho, e Charles
ficou excitadíssimo.
Meg recebeu ordens para convocar os gladiadores para junto da
casa.
-Traz também aquele fracalhote, aquele ovo de peru, de olhos
deslavados e cabelo encarnado, que está no celeiro, quando vieres.
-0 Trides? -perguntou Meg.
-Esse mesmo. 0 que tem a caparinha enferrujada -disse ainda
Hammond para identificar o rapaz. Posso usá-lo para apostar, não
acha, pai? Sabe qual é..


-Vai transformar-se num bom trabalhador quando parar de crescer
e começar a alargar. Acho que é pena apostá-lo.
-Mas é tão feio que quase sinto vómitos quando o vejo. Parece que
tem a cara coberta de bosta e os olhos parecem de espuma verde.
-Sai ao pai, um irlandês enorme que era capataz em Anson.
Comprei-o num lote de cinco ou seis, num saldo em Anson, quando
ele morreu. E são e vigoroso.
-Eu disse ao Lew Gasaway que ia levar um preto bom e são. Não há
mais nenhum.
-É só para apostar, não vai perdê-lo, porque o Medes ganha interrompeu
Charles, com confiança.
Hammond espreitou pela janela. Os escravos aproxiniavam-se, com
Meg à frente, e ele dirígiu-se para a porta.



-Acho que não vou precisar da manta -disse MaxwelI, olhando
indeciso para a manta azul, e declarando, ao mesmo tempo, que
queria ver a experiência. -Onde está o meu negro; onde está Mem? perguntou.


Charles chamou Mem, que ajudou o patrão a atravessar o hall e a
sair para o varadim. Ficou bem junto da parede, para evitar a chuva,
e observou os dois negros que se despiam e colocavam as roupas
sob a nissa, para as proteger da morrinha. Vulcano era um mulato
maciço e lustroso, e, se não fosse a sua letargia inata, podia fazer um
par razoável com Medes.
-Não deixa ele magoá eu, patrão, siô. Eu não fez nada, siô. Eu tá
com medo -suplicou Vulcano, avaliando o seu oponente. -Ele é
muito grande. Hammond não lhe prestou atenção.
-Quero que lutes corri esse rapaz. Bate-lhe, tanto quanto possas,
mas não o mates -disse a Medes. -Não lhe mordas nem lhe
arranques os olhos. Espera por sábado para fazeres isso. Mas vê se
és capaz de lhe dar uma sova boa.

Meg e Atrides ficaram de pé na extremidade do alpendre; Lucrécía
Bórgia veio da cozinha; Ellen e Jasão observavam de uma janela do
andar superior; e Pérola Grande espreitava da esquina da sua
cabana.
0 espaço para lutar não tinha demarcação, era apenas uma simples
área aberta no terreno enlameado por baixo da nissa. Vulcano
estava de pé, com os braços pendentes, paralisado de medo,
demasiado aterrorizado para fugir. Medes avançou para ele,
batendo-lhe no peito, acima do coração e engalfinhou-se com ele.
Vulcano choramingou e levantou os braços para arrancar o lutador
de cima de si, mas havia pouco esforço na sua resistência. Medes,
com o punho fechado golpeou Vulcano no rosto, abaixo do olho
direito, fazendo-o uivar de dor, mas principalmente de medo.


Vulcano deu um golpe ao acaso e atingiu Medes na virilha. Medes
gemeu e caiu na lama escorregadia, com os músculos faciais
contraídos pela dor. Fez um esforço para se levantar, mas estava
apenas sobre um joelho quando começou a vomitar.
Maxwell troçou:
-Parece-me que o Vulcano salvou o Trides.
-Vai fazer lutar o mais claro no sábado, não vai, primo Hammond?
Leva o vencedor a lutar? -perguntou Charles, que não queria
perder a sua luta. -Ele é melhor, vê-se logo.


Vulcano estava mais espantado com o seu triunfo do que qualquer
dos observadores, mas este foi de pouca dura. Medes ergueu-se,
afastou o patrão que se inclinava, solícito, sobre ele, e, apesar da
dor, correu para Vulcano, abraçou-o e começou a lutar com ele. A
larga base deVulcano não o salvou. Perdeu o equilíbrio e caiu na
lama, e Medes caiu por cima dele. Renovado o seu terror, conseguiu
inverter as posições, mas apenas por um minuto, e ambos
continuaram a rolar, envolvidos.


Finalmente, tendo a dor de Medes sido superada pela fúria,
conseguiu, devido à sua força superior, prender os ombros de
Vulcano ao chão, avançou os joelhos para os apoiar na barriga do
outro, alternando o seu impacto com violentos murros na cara de
Vulcano. Vulcano, embora ainda não inconsciente, deixou de
resistir; ficou deitado de costas e gemia, aceitando os golpes que o
mandingo fazia chover sobre o seu corpo e a sua cabeça. Fez alguns
esforços para lhe dar pontapés, mas em vão.


Hammond gritava a Medes para desistir, sem que este o ouvisse. Os
seus pontapés passavam despercebidos. Agarrou no ombro de
Medes, mas recebeu um golpe não directo, por reflexo, na cara. As
suas ordens foram ignoradas, a sua força de nada servia. Foi
impossível determinar quando Vulcano perdeu a consciência, pois



Medes continuou o ataque muito tempo depois de o adversário ter
deixado de dar sinais de vida. Finalmente a exaustão forçou-o a
desistir. Levantou-se lentamente, com a boca contraída de nojo e
ódio. Esfregou as mãos com desprezo e, com o pé descalço, deu um
pontapé no corpo nu, coberto de lama, que concluiu ser um
cadáver.
-Eu disse-te para não o magoares. Porque não me ouviste? Mataste

o melhor macho do meu pai -disse Hammond, convencido de que
Vulcano estava morto. -Enfornava-te, se não tivesse que levar-te a
um combate no sábado.
Charles respirou fundo pela primeira vez desde que o combate
começara e, aproximando-se de Medes, deu-lhe uma palmada no
flanco, com uma admiração que chegava ao afecto.
-Eu aposto em ti no sábado -disse.
-Aquele Vulcano podia valer mil e quinhentos ou mil e oitocentos disse
o velho, voltando-se para a porta.
Lucrécia Bórgia, apontando para o rapaz morto, perguntou em tom
prático:
-Que quê que eu faça com ele, patrão, siô? Só Atrides observava o
espectáculo com uma indiferença completa. A sua imaginação não
era suficientemente grande para abranger o triunfo, a dor ou a
morte. Tinham-no chamado, viera; aguardava.
Vulcano inspirou e expirou ar, audivelmente. Hammond viu o seu
peito erguer-se e dava um passo para ele, quando Vulcano se sentou
subitamente. Apoiou-se no braço esquerdo, passou a mão direita
pela cara, e lutou para se erguer. Medes avançou para ele, como que
para reiniciar o ataque, e Vulcano gritou:
-Não deixe ele, patrão, siô salve eu? Hammond pronunciou uma
única palavra de aviso em voz baixa mas severa:
-Mede -disse ele.
-Eu gosto de lutar, patrão -disse Medes. -Eu desfaço já outro, se
quiser. Deixe-me lutar com o Pólo, por favô, siô.


-Chega -disse Hammond, aliviado. -Leva o Vulcano ao rio e
lavem-se ambos da lama. Não lutas mais corri ele, ouviste? Depois
volta para a Lucy te olear antes que comeces a ficar rígido.
Voltou-se para entrar em casa.
-Patrão, que quê que eu faz com o Trides? -perguntou Meg.
-Quero que tenhas juízo. É isso o que eu quero. Na sua excitação e
satisfação, Hammond esquecera-se do rapaz das sardas. Voltou-se
para Lucrécia Bórgia.
-Dá-lhe de jantar. Depois despe-o e lava-o bem. 0 Merririon que lhe
rape aquela carapinha encarniçada. Talvez não fique tão cor de
pulga, e põe-lhe calças compridas. Quero-o bem arranjado para
sábado.
-Sim, siô, patrão, siô -concordou Lucrécía Bórgia, agarrando o
rapaz rudemente pelos ombros. Tê-lo-ia afogado, recheado e assado
para a ceia com a mesma vontade se Hammond lhe dissesse para o
fazer.
Hammond já não tinha dúvidas de que Medes fosse capaz de se
enfurecer. Ele iria lutar talvez não habilmente, mas, pelo menos,
com uma vontade que o seu actual dono e o antigo tinham posto em
dúvida.
De trás do seu toddy pré-prandial, o mais velho dos Maxwell
acenou com a cabeça.
-É um macho vigoroso -disse aprovativamente. -Só lhe falta ser
salgado.
-0 que é isso, primo Warren? Salgado?
-Para que é que ele precisa de ser salgado? -perguntou Hammond.
-Tem a pele fina. Tem uma pele de bebé. Aqueles machos rasgam-
no todo. É preciso encoirar-lhe a pele, endurecê-la.
-Como é isso? -perguntaram os jovens simultaneamente, um pouco
perturbados pela crítica ao seu campeão.
-É metê-lo em salmoura. Mergulhá-lo em salmoura quente. Tragam
aquele panelão de água quente, façam-lhe um fogo por baixo e
metam-lhe sal até fazer flutuar um ovo. Aquece-se, não a escaldar,


mete-se o macho lá dentro e deixa-se ensopar durante duas, três
horas, ou mais. Depois tira-se para fora e deixa-se secar o sal em
cima dele. É excelente para peles finas. Fica logo duro.
-Não o enfraquece? -sugeriu Hammond.
-Por uns dias, sim -admitiu o velho. -Não digo agora, antes de
sábado. Digo uma ou duas semanas antes de o quereres usar.
-Na segunda-feira -planeou Hammond.
-Os romanos antigos sabiam disso -disse Maxwell para reforçar a
receita. -Salgavam sempre os seus lutadores.


Capitulo décimo nono

Os brancos detiveram os cavalos e os negros as suas mulas em
frente da taberna de Pérola, e Hammond espreitou pela porta para
observar o ajuntamento, que já era razoável, apesar de ser cedo. 0
tempo estava a aclarar mas ainda havia nuvens no céu, que
intermitentemente cobriam o Sol. Não se podia plantar e os
plantadores estavam, portanto, livres para ir a Benson fazer
compras, visitas, tomar um copo e ver os combates.

Hammond tinha de ir ao joalheiro ver o anel e, com receio de que
algum patife interferisse com o seu lutador, levou o seu séquito com
ele, deixando Medes e Atrides à porta, enquanto ele e Charles


entravam. A sineta da porta tilintou e o relojoeiro pôs de parte a sua
lente e levantou-se da sua bancada.


0 anel tinha chegado. Era uma pedra amarela, sem lustro, cortada
em roseta, de cerca de dois carates, colocada numa sóbria armação,
em solitário.
0 relojoeiro retirou-o do seu estojo e colocou-o em cima do balcão,
com um orgulho que escondia as suas dúvidas interiores.
Hammond pegou naquela ninharia, olhou-a, e levou-a até à porta
envidraçada, para a inspeccionar melhor.
-É só isto? -perguntou. Nem ele próprio sabia o que esperava ver,
mas, pelo menos, imaginava qualquer coisa mais atraente e
espectacular do que aquilo.
-É bem bonito -adiantou o vendedor.
-Bonito de mais para ela -disse Charles com impaciência. -Pague e
vamos para a taberna. Os combates vão começar.
-Quanto custa? -perguntou Hammond.
0 joalheiro respondeu:
-Duzentos e trinta e cinco dólares, e eu não ganho muito com ele,
garanto-lhe, foi preciso trazê-to e tudo.
-É uma data de dinheiro -disse Hammond, suspirando e pegando
numa longa bolsa de couro de que extraiu e contou lentamente
algumas moedas de ouro. -Tem a certeza de que é um diamante
puro e sólido?
-Garanto-lhe -afirmou o vendedor.
-É isso que ela quer -disse Ham, com satisfação. -Vou pôr a caixinha
aqui entre o dinheiro para ficar segura.
-Penso que volta para casa na próxima semana. Tem que levar este
anel à Blanche e aquele dinheiro para o seu pai -anunciou
Hammond, enquanto avançavam ao longo do passeio de madeira,
em direcção à taberna de Pérola.
-Não me obrigue a ir já-pediu Charles. -Gosto mais de si e do primo
Warren que do meu pai e da minha mãe, e quanto a Blanche...



-Não devia dizer isso. Pode voltar, mais tarde, depois de o seu pai
receber aquele dinheiro,
-Blanche já cá estará nessa altura. Ela é veneno. Hammond não
respondeu.
-Quando eu chegar a casa, o pai vai atar-me e chicotear-me, como
se eu fosse um negro -disse Charles, pensando em voz alta. -Eu já
sou muito crescido para castigos, não acha, primo Ham? Não acha?
-Porque há-de o seu pai castígá-lo? -perguntou Hammond
distraidamente, a pensar na taberna.
-Por fugir de casa-confessou o rapaz. -Ele não me deu licença para

o seguir. Pedi-lhe e ele disse-me que não.
-Mentiu-me. Eu vi logo que estava a mentir, quando mo disse-
acusou Hammond.
-Então procedeu tão mal como eu, levando-me consigo e sabendo
que o meu pai não me deixava.
-Vai já para casa, parte na segunda-feira. Não pode ficar mais
tempo, depois de eu saber.
-Vou ser castigado. De certeza -lamentou-se o rapaz. -Vai-me
mandar para o castigo.
-Merece-o, mesmo já sendo crescido.
-Tal como um negro. Eu não sou um negro, e ele não pode bater-
me. Não vou permitir-lho.


Chegaram à taberna, agora cheia de homens e rapazes que se
acotevelavam; os negros estavam encostados à parede, os brancos
adultos junto do balcão, por trás do qual Pérola servia as bebidas
habitualmente e Holden, recrutado para o serviço, o ajudava
desajeitadamente. Hammond colocou Medes e Atrides no final da
fila de escravos e disse-lhes que esperassem, avisando Medes para
tomar conta do rapaz.



já havia sete lutadores, incluindo o zarolho Doçuras de Kyle, seis
rapazes adolescentes para as apostas e uma única rapariga clara, de
onze ou doze anos, não muito bonita, mas de rosto cheio e
gorducha. Hammond reconheceu o lutador de Lew Gasaway,
Cudjo, um mulato escuro, alto, bem feito, a quem faltava a parte
superior de uma orelha, e calculou que Gasaway se encontrasse
algures entre a multidão. Escondendo-se por trás de Cudjo, estava
um rapazito de nariz chato e lábios salientes que Hammond
presumiu ser o Estrela, que Lew propusera, no sábado anterior,
apostar contra o lutador de Maxwe11. Hammond agarrou Estrela
por um ombro e puxou-o para a frente, sem resistência. Estrela
revirou os olhos, interrogativamente, para Cudjo, para quem a
taberna e aqueles rudes exames eram já história velha.


Hammond passou a mão apreciadoramente sobre o rapaz. Estrela
era pequeno mas forte, de membros direitos e bem cheio de carne.
Hamniond calculou que fosse um haúça, possivelmente com sangue
ubângui. As suas feições achatadas e escuras agradavam mais a
Hanimond que a pele rosada e cheia de sardas de Atrides, com os
seus nojentos olhos cinzentos.
Charles colocou-se por trás de Hammond e disse--Não se pode ter
a certeza antes de os despirmos.
-Lew Gasaway garante que ele é bom. Não é preciso despi-lo -disse
Hammond.
Elijah Gasaway, que se aproximava, ouviu o comentário.
-É são, pois. E o melhor da plantação. Eu dispo-o. Sequer observálo.
Não vale a pena. É bom, e espero que o Lew goste do meu. Onde
está o Lew?
-Está além, a beber. Vou buscá-lo. Não foi necessário. Lewis viu o
amigo e separou-se dos companheiros.
-Trouxeste o teu rapaz? -perguntou aproximando-se.
-Ele aí está -disse Hammond, a ontando para Medes.



-Ali, an! -murmurou Lewis. -Tmesmo forte. Passou a mão sobre
Medes, mais por admiração que para apreciação.
-Não sei se vou querer que o Cudjo lute contra ele.
-Tem bom aspecto, mas será capaz de lutar? Nunca o puz a lutar
contra outro -disse Ham, em ar de dúvida.
Charies fungou para expressar a sua confiança.
-Olha lá, Caujo, achas que és capaz de lixar este rapaz? Queres
desancá-lo? -disse Gasaway, voltando-se para o seu escravo.
Cudjo fez cara de mau.
-Eu mata ele, patrão, se o patrão dissé. Eu mata ele -repetiu.
-Mas o rapaz que tu apostas não tem bom aspecto. É muito feio objectou
Lewis. -Que tem o cabelo dele? Escaldaram-lhe a cabeça?
-Foi rapado. Não está doente. É tão bom como o teu taco -declarou
Hammond. -Não o queres para dormir contigo, pois não? É melhor
pôres o teu Cudio a lutar com aquele mulato do major Watson, para
ganhares aquela fêmea gorda -troçou.
-0 Watson sabe bem que não lhe convém fazer lutar o negro dele
com o Cudjo -riu Gasaway. -0 Cudjo vai matar o teu.


-Arrisco-me -disse Hammond, estabelecendo o combate e
estendendo-lhe a mão.
-É melhor dizer ao Pérola -surgiu Gasaway -e tomarmos uma
bebida.


Os outros proprietários estavam a combinar os seus combates
examinando os escravos dos seus adversários e selando os negócios
com uísque. Os espectadores circulavam e faziam pequenas apostas,
que confiavam a Pérola, e iam pagando bebidas uns aos outros. Os
brancos mais pequenos gritavam, lutavam uns com os outro, e
faziam tanto barulho, que Pérola, depois de os mandar calar uma
dúzia de vezes, saiu de trás do balcão e perseguiu para fora da sala
apinhada os mais ruidosos, com excepção dos que estavam
acompanhados por pais ou irmãos mais velhos e bons clientes.



-Saíam daí, saíam desta casa. Não estou para suportar este maldito
barulho-gritou ele, agarrando dois rapazes pelos ombros e
empurrando-os para a porta. -já não há um raio de um espaço para
os senhores se mexerem!
-Eu sou filho do senhor Alcorn -explicou um dos rapazes. -Quero
ficar com o meu pai.
-Pronto, está bem, vai ter com ele e cala-te! -avisou Pérola. Os
rapazes mais novos faziam apostas de dez, vinte e cinco cêntimos e
de meio dólar entre eles, enquanto os combates continuavam a ser
combinados, mas Pérola recusava-se a aceitar o dinheiro desses
pequenos apostadores, visto que, pela sua parte, não consumiam
bebidas. Contra o conselho de Redfield, Charles apostou dez
dólares no rapaz que Asa Gore tinha escolhido para adversário do
Doçuras de Kyle, e dez dólares e vinte e cinco em Medes, contra
Cudio. Hammond não fez apostas em dinheiro, pois interessava-lhe
mais a exibição de Medes do que os ganhos ou perdas.


Elijah Gasaway sentiu que lhe puxavam pelo casaco e, voltando-se,
viu um rapaz mais novo que não conhecia. 0 outro perguntou-lhe
confidencialmente.
-Conheces aquele negro magrizelas e com sardas que vão apostar?
Ele não é perfeito.
-Não é perfeito, mas porquê? -retorquiu Elijah.
-Tem três tomates? -disse o rapaz.
-Como sabes?
-Apalpei-o e senti. Em voz baixa, Lije deu a informação a Lewis que
chamou Hammond, junto ao balcão.
-0 Lije diz que aquele teu rapaz claro não é perfeito. Tem três
tomates. Sabes isso?
-Como é que o Lije sabe? Nem sequer o despiu -respondeu
Hammond. -Não há macho nenhum que tenha três tomates.



-Aquele tem. Eu apalpei-os -declarou o jovem desconhecido.
Hammond recusou-se a acreditar e chamou Atrides, que despiu as
calças.
-Raios, é que tem mesmo! -disse ele, espantado. -Como é que eu
nunca notei? Mando-te outro, se tu ganhares.
-Deixem-me ver -disse Redfield, avançando às cotoveladas através
da multidão que se reunira em torno do escravo. -Garanto que
nunca vi nada assim.
-Estou aborrecido com isto -disse Hammond, desculpando-se.
-Não é imperfeição -participou o veterinário. -É um extra. Vi isto
uma vez num burro, do velho RandalI, mas nunca tinha visto num
negro.


Os homens, meio embriagados, competiam para apalpar os orgãos
genitais do jovem escravo, de longas pernas. 0 garoto começou a
chorar, mas ninguém reparou. 0 jovem que tinha feito a sensacional
descoberta procurou obter crédito por ela, mas ninguém lhe deu
importância.


Redfield puxou Hammond para um lado e disse-lhe:
-Aquele feijão verde de três tomates vale mil dólares, talvez mil e
quinhentos em Nova Orleães, neste momento, antes de crescer.
Obrigue o Gasaway a levar outro, no caso de o seu negro perder.
-Não vale quinhentos -disse Hammond -, com um tomate ou com
uma dúzia deles.
Redfield fungou e explicou-lhe:
-Aqueles cavalheiros de Nova 0rleães gostam de curiosidades que
possam andar a mostrar e não contam o dinheiro. Os monstros dãolhes
sorte, junto às mesas onde jogam o poquer e o blackjack. Um
rapazito com três tomates, os jogadores apostam até rebentar.


A excitação em volta da anormalidade do rapaz diminuiu e o patrão
mandou-o puxar as calças para cima. Aparte o seu embaraço por ter



apresentado o escravo como perfeito, o que era duvidoso,
Hammond estava mais interessado nos resultados do primeiro
combate profissional de Medes.

Chegaram mais três cavalheiros com os seus lutadores e
combinaram-se quatro combates, ficando um dos proprietários
desapontado por não ter arranjado adversário para o seu rapaz. As
apostas estavam feitas e os cavalheiros tinham bebido todo o uísque
que desejavam: Pérola encaminhou-os para o pátio das traseiras e
convocou o primeiro combate, que se travaria entre Doçuras e um
preto grande e musculoso, de face côncava, pertencente a Gore, e
que se chamava Moisés. Quatro ou cinco homens e dois ou três
rapazes permaneceram na sala, enquanto os proprietários despiam
os seus lutadores e lhes davam instruções.

Holden conservou-se ao balcão e cada proprietário comprou um
púcaro de uísque para o seu lutador; mas, como apenas havia um
púcaro para negros, cada lutador tinha que esperar que o outro
bebesse. Doçuras pediu um segundo púcaro e Ky1e ofereceu-lho.
Saindo de trás do balcão, Holden deu uma palmada no lombo de
Doçuras e disse:
-Não sei. Era um bom macho antes de perder o olho, e continuo a
apostar nele.
-Vê bem com o outro. Não lhe faz mal nenhum -concordou o
proprietário.
-Já sabes, Moísés, o que eu te disse, se não lutares bem -avisou Asa
Gore ao seu lutador. -Se perdes este combate, faço-te o que já te
disse. Não me importa que não possas lutar mais. Não te esqueças.
-Sim, siô, patrão. 0 patrão não ia... -e o escravo achou melhor não
dizer o que pensava.
Kyle, por seu turno, prometeu mais do que ameaçou Doçuras.
-Se ganhares este combate, Doçuras, compro-te todo o uísque que
possas emborcar. Ouviste? E amanhã dou-te um passe para ires à


Plantação Roselawn visitar o teu filho e fornicar outra vez com a tua
mulher. Talvez eu ta compre, ou um dos teus filhos; o juiz Bascorrib
não pede muito dinheiro. Que tal?
-Eu vai desancá aquele nêgo, patrão, siô. Vai mêrno. Nós leva os
negrinho pra casa -garantiu Doçuras,


Pérola desocupou um espaço no pátio quando os dois amos, com os
seus negros nus, assomaram à porta, seguidos das pessoas que
tinham ficado para trás para ver despir os rapazes. Holden seguiu-
os finalmente e ficou à porta, pois era necessário que um branco
tornasse conta dos negros restantes.


A multidão impaciente e ansiosa concentrou-se em volta da área
que formava um rinque mal definido, em cujos extremos opostos os
lutadores tomaram lugar, cada um deles escoltado pelo dono.
Pérola ficou no centro do ringue, com um braço levantado.
-Agora todos para trás, por favor, meus senhores, e conservem o
ringue aberto para dar espaço àqueles malandros para LUTAR!


Dramaticamente, Pérola baixou o braço, na altura da última palavra
e desvíou-se para o lado. 05 proprietários empurraram os seus
negros um na direcção do outro, e retiraram-se.


Os rapazes avançaram cautelosamente, murmurando insultos. Era
evidente que cada um deles tinha medo do outro e perseguiam-se
alternadamente em volta do ringue, sem atacar. 0 combate prometia
ser fraco e a multidão estava desgostosa e aborrecida.


Doçuras tinha dado um passo atrás e pisado os espectadores, um
dos quais, irritado pela indignidade de ser atingido por um negro, o
empurrou com força considerável para o ringue e contra Moisés,
que rodeou o pescoço de Doçuras e caíram ambos, ficando Doçuras
de costas no chão. Mas não por muito tempo. Doçuras, sem



qualquer golpe, apenas com uma poderosa torção, trocou as
posições e ficou por cima. Então pôde levantar os braços para
ganhar balanço e desferir um murro na nuca de Moisés que lhe
arrancou a pele dos nós dos dedos. Os braços de Moisés estavam
presos entre os dois corpos. Os de Doçuras estavam livres e ele fazia
chover golpes, à vontade, nos queixos e na cara do outro. 0 sangue
espirrou do nariz de Moisés e a face começou a inchar por baixo do
olho direito.

Moísés conseguiu soltar os braços e ambos ficaram quietos,
apertados num abraço. Moisés conseguia forçar Doçuras e ficar de
costas ou de lado, mas nada mais podia fazer. Conseguiu entrelaçar
as pernas com as do adversário. A intensidade da luta não se
revelava em acção e os espectadores não se apercebiam dela.

Os lutadores exaustos pararam um pouco, por mútuo
consentimento, e separaram-se para respirar fundo, voltando de
novo à luta. Caíram e rolaram novamente, diversas vezes, um sobre
o outro. A luta durava já havia trinta e cinco minutos e ninguém
conseguia perceber como e com que fim os lutadores manobravam.
Moisés tinha metido na boca o dedo grande de Doçuras e mordia-o,
enquanto Doçuras rangia os dentes com dores, mas conseguiu
estender o braço por entre as pernas de Moisés e torcer-lhe o
escroto. A boca de Moisés abriu-se, num grito de agonia, e o dedo
de Doçuras ficou livre. Moisés gritou uma, duas, três vezes, cada
vez mais alto, mas Doçuras continuava a torcer, cada vez mais, até
que Moisés se calou e o seu tormento o mergulhou na inconsciência.
Doçuras não largou até os proprietários entraram no ringue e Gore
conceder a vitória a Ky1e.
-Raio do macaco negro! -murmurou Charles para Hammond. -Eu
não conseguia desancar aquele macho zarolho.
-Conseguia, se tivesse um chicote -disse o rapaz das pernas
compridas, levantando-se.


A multidão ficou silenciosa por momentos e depois caiu num
murmúrio de comentários excitados quando todos se dirigiram ao
bar, onde os proprietários do vencedor e do vencido pagaram, cada
um deles, uma rodada a todos os presentes. Ky1e manteve a sua
promessa de uma enorme caneca de uísque para Doçuras, que
coxeava, enquanto Gore, proferindo insultos, assinava uma nota da
venda do pequeno escravo que perdera.
-0 próximo combate -anunciou Pérola -vai ser entre o senhor
Gasaway e o senhor Hammond Maxwe11. 0 senhor Ham trouxe um
macho novo que ninguém ainda viu lutar, e esta luta vai ser muito
interessante.

A multidão moveu-se pela terceira vez, dirigindo-se ao pátio. Elijah
Gasaway movia-se inutilmente por trás de Lewis que estava a
despir Cudjo, e, da mesma maneira, igualmente inútil, Charles
oferecia o seu apoio moral

* Hammond que via Medes despir-se. Holden conservou-se atrás do
balcão,a servir a caneca de uísque com que os proprietários
fortaleciam a coragem dos lutadores.
Cudjo, que se despira primeiro, pegou na caneca que Lewís
recebera de Holden e despejou-a em dois golos, limpando os lábios
com as costas da mão.
-Que tipo de negro é aquele? -perguntou Lewis. -Tem um cheiro
terrível; parece que está podre. Porque não o lavas?
Hammond riu-se, enquanto pegava na caneca que Holden voltara a
encher.
-Não é o rapaz. É a banha de cobra com que ele se esfregou. Medes
provou o uísque, que o fez tossir.
-Tenho de beber isto, patrão, siô? -perguntou ele -Vai pôr-me
doente.
Dá cá -disse Hammond. É melhor fazê-lo emborcar -avisou
Charles. -Um negro não luta se não estiver bêbedo.

Hammond pousou a caneca no balcão, para que o seu conteúdo não
se desperdiçasse, Gasaway, pegou nela e deu uma segunda dose a
Cudjo.
Mais para garantir a Atrides que não tinha sido abandonado do que
por se preocupar com elas, Hammond atirou as roupas de Medes,
com um pontapé, para o rapaz e avisou-o:
-Toma conta disso. Fica quieto até voltarmos. Holden. apoiou os
cotovelos no balcão e observou Medes criticamente:
-Esse negro parece maior sem roupa do que vestido. Tem músculos
por toda a parte.
-Já vais ver como o Cudjo dá cabo dele-respondeu Lewis. -0 Cudjo
arranca-lhe os músculos a murro.


Redfield ficou junto da porta para ajudar Hammond, se fosse
preciso, mas sem dar a ideia de qualquer associação. Quando viu
que os negros estavam prontos e os proprietários os escoltavam
para o pátio, juntou-se à multidão em volta da arena.


Hammond entrou primeiro, com Medes, seguido de Charles. Lewis
e Elijah, com Cudjo ficaram dez passos atrás deles, pois não se
podia contar que Cudio não atacasse o adversário antes de se
anunciar o início do combate. Hammond deu a volta à multidão e,
com a mão no ombro de Medes, entrou no ringue pela extremidade
mais afastada, enquanto Lewis e Cudjo abriram caminho entre os
espectadores e entraram na arena do lado mais próximo da porta.


Pérola andava à volta do ringue, pedindo aos espectadores que
recuassem e dessem espaço aos lutadores, eles obedeciam quando
Pérola passava, mas voltavam a avançar logo. A área era ampla,
mas Pérola utilizava aquele meio para afirmar a sua propriedade e
autoridade. Dirigiu-se ao centro, levantou o braço e proclamou:



-Todos sabem que o nome deste grande malandro que pertence ao
senhor Gasaway é Cudjo. 0 outro, o do senhor MaxwelI, como se
chama ele, Maxwell?
-Ganimedes -respondeu Harrimond, e, quando todos se riram,
acrescentou: -Pode encurtar para Medes.
-0 outro -repetiu Pérola. -É o Medes, do senhor Maxwe11. Vamos
à luta.
Hammond recuou e juntou-se a Charles, num dos extremos. Medes
olhou em volta, como que desorientado, retesou-se, mas não fez
qualquer movimento. Cudio, encorajado pela insegurança de
Medes, avançou agressivamente, com uma mão à frente, para se
proteger, e a outra atrás, com o punho fechado. Medes esperou. 0
primeiro golpe de Cudjo atingiu-o no ventre e Medes aguentou-o;
mas, antes de Cudio poder afastar o braço, Medes agarrara-o pela
cintura. Fez girar o rapaz e prendeu-lhe o outro braço, apertando
ambos atrás de Cudjo que ficou impotente para o atacar. Cudjo
tentou fazer Medes cair, com o pé, mas Medes levantou-lhe mais os
braços, fazendo-o inclinar o corpo para a frente e forçando-o a pôr-
se nas pontas dos pés, para evitar a dor. Cudjo não podia escapar-se
nem resistir. Ninguém tinha um relógio, mas pareceu a todos que o
combate durara vinte segundos. Além da tentativa de Cudjo para
abater Medes com um murro no estômago, não fora desferido
qualquer outro golpe e nenhum dos dois estava ferido.
-Que quer que eu faça com ele, patrão? -perguntou Medes,
forçando Cudio a avançar para Hammond, nas pontas dos pés.
-Aguenta-o até o senhor Gasaway desistir -disse Hammond,
prudentemente; e perguntou, para o outro lado do ringue: -Que
queres fazer Law.
-Só quero que não deixes o teu negro matá-lo -retorquiu Gasaway,
rindo-se, embaraçado com a derrota, e avançando para libertar o
seu negro das mãos de Medes.
-Que raio de combate -disse Alcorn. Charies bateu na perna e
dobrou-se ao meio a rir.


-Não é muito justo, não me parece -disse Hammond, magnânimo. Ponham-
nos lá para lutarem outra vez, se quiserem.
Redfield não quis ouvi-lo.
-Foi uma luta leal e bem ganha -declarou. -0 melhor ganhou.
Pérola embora a curta luta vendesse pouco uísque, anteviu a
dificuldade de resolver as apostas, no caso de nova luta com
resultado contrário.
-Não, não -disse ele. -0 senhor Maxwell ganhou. Também antevia
uma nova luta com os mesmos negros, noutro sábado. Havia
algumas disputas entre os espectadores desapontados, e alguns
homens que tinham perdido ficaram descontentes, mas a opinião
geral era que a vitória de Medes fora limpa e decisiva. Gasaway,
como bom desportista, não teve outra alternativa além de a aceitar.
Teve um gesto de amabilidade ao oferecer a sua rodada de bebidas
e perdoou mesmo a má actuação de Cudjo.


Cudio chorava, enquanto se vestia, e o patrão trouxe-lhe uma
caneca de uísque e garantiu-lhe:
-Está tudo bem, excepto perdermos o Estrela; mas não faz mal,
ganhamo-lo para a próxima vez. Não chores. Hás-de ter outra
oportunidade de lutar com ele.


Cudio enxugou as lágrimas com a fralda da camisa e recuperou-se
gradualmente da sua humilhação.


Após a luta, Hammond não voltou ao bar, começando a preparar as
suas coisas para partir. Os dois Gasaway juntaram-se a ele,
amavelmente, e Lewis, na medida em que podia, explicou quem era


o seu novo amo ao desorientado Estrela, avisando-o de que devia
obedecer-lhe.
Elijah acompanhou Charles até à porta e viu Medes montar a mula
cinzenta, com Estrela à frente e Atrides atrás. Hammond ouviu falar


em segunda-feira, num colóquio segredado entre Charles e Elijah e
começou a pensar o que estariam eles a combinar para aquele dia.
Contudo não se preocupou muito, pois estava decidido a mandar
Charles para casa, não só para lhe servir de mensageiro, mas
também para o castigar por mentir quanto à permissão do pai para
ir a Falconhurst.

Enquanto se afastavam, a cavalo, Charles revia, com júbilo, os
acontecimentos da tarde. Os seus ganhos eram pequenos mas
felicitava-se por ter ganho. A vitória de Medes sobre Cudjo era, na
realidade, a vitória de Hammond sobre Lewis Gasaway, e a sua
sobre Elijah, por quem sentia forte rivalidade e afecto. Quando se
aproximaram de Falconhurst, Charles confessou que tinha
convidado Elijab para ir com ele fazer uma visita a Crowfoot, cuja
aceitação dependia de Elijah obter permissão para fazer a viagem.
-0 pai não me castiga -projectou Charies -se eu levar uma visita.
Não é assim tão cruel.
-0 seu pai não o castiga se lhe levar aquele dinheiro -declarou
Ham. Suspeitava das intenções de Elijah de fugir de casa, e, se
tivesse sabido antes da viagem, teria avisado o irmão mais velho.
Decidiu não interferir.
Encontraram o Maxwell mais velho enervado. Tentara andar de um
lado para o outro, mas as dores nas articulações impediam-lhe a
actividade, e mandara Merririon levar a sua cadeira de balanço para

o pé da janela, para poder observar o regresso do seu filho. Tentava
disfarçar a apreensão, e viu os rapazes e os negros desmontarem,
sem se mover da sua cadeira. Quando viu o terceiro negro descer da
mula, compreendeu que Medes tinha ganho a luta. Menos
preocupado com o valor do troféu do que com o triunfo do filho e
especialmente com o seu regresso são e salvo, resignou-se a beber o
seu toddy e despejara o último golo quando Hammond entrou na
sala. Os sábados na taberna, ele bem o sabia, eram agitados e

podiam ser perigosos; Charles pouco ajudaria se Hammond se
envolvesse numa briga.
-Trouxemos-lhe outro negro, um machozinho bem jeitoso, anunciou
Hammond beijando o velho, que lhe agarrava a mão
ciosamente.
-Eu sabia que aquele mandingo ia lutar com energia. Não lhe
arrancaram nada, nem o feriram?
Hammond descreveu a facilidade com que Medes tinha ganho, mas
admitiu as suas dúvidas quanto ao valor do mandingo. A vitória
tinha sido demasiado fácil e rápida. A luta não servira de teste para
a força e para o espírito de luta do rapaz.
-Nunca estás satisfeito. Querias trazer o teu negro para casa dentro
de uma banheira? -disse o velho, a rir. -Traz lá o negro do velho
Gasaway, quero ver que tal é.
-É apenas um negro, mas é são. É escuro e cheira pior que uma
doninha. È melhor esperar até amanhã para o ver lá fora.
-já cheiro negros há tanto tempo que o cheiro deles é perfume para

o meu nariz. Trá-lo aqui e vamos beber um toddy antes da ceia.
-Não me apetece uísque. Venho da taberna. Penso que o primo
Charles também não queira.
Charles disse que queria uma bebida e Hammond foi à porta
chamar Medes a quem tinha dado instruções para dar de comer e
cama aos rapazes, e ordenou-lhe que os trouxesse para casa. Meg
trouxera os toddies, demasiado quentes para se poderem beber, ao
mesmo tempo os rapazes chegavam, através da cozinha e da sala de
jantar.
-Meg, ajuda a despi-lo -ordenou Hammond. Meg revirou os olhos,
para protestar, mas obedeceu. Não gostava de tocar em pretos sujos.
-Cheira mal -murmurou entre os dentes. Estrela baixou a cabeça e
recuou. Hammond pôs a mão no ombro do rapaz envergonhado e
fê-lo avançar até à cadeira do pai.
-Não quero mexer-lhe. Só quero olhar para o negro -protestou
Maxwell, bebendo um golo do seu toddy. -Da Guiné, parece.

-Parece-me haúça, em parte -sugeriu Ham.
-Talvez mistura. Seja como for, não tem sangue humano -declarou


o pai. -De primeira. Não pensava que o Gasaway os alimentasse tão
bem. Deve ter treze anos, talvez, penso eu.
-Lewis disse doze -informou Hammond, que ainda não tinha visto
o rapaz nu. -E nem uma marca de chicote nem uma borbulha.
-0 Gasaway não usa muito o chicote. Diga-se em abono dele, não
usa o chicote e dá-lhes de comer, ao que parece.
-Aqui dá co chicote? -disse a criança, ganhando coragem.
-Dou com o chicote nos negros que não dizem "patrão" -avisou
Hammond.
-Patrão, siô -corrigiu-se o rapaz.
-Não há problema se fores bom; mas penduro-te, se fores mau disse
Hammond, respondendo à pergunta dele. -Diz à tua mãe que
lhe dê bastante comer, tudo o que ele quiser, e dorme com o Trides disse
ele a Meg.
-E este? Não preciso de o ver. já o conheço -disse MaxwelI,
olhando para Atrides.
-Mas nunca o apalpou -riu-se Hammond, baixando as calças de
Atrides. -Parece que lhe escapou uma coisa.
0 rapaz tinha começado a sentir orgulho na sua anormalidade, de
que nunca tinha tido consciência. Era a única coisa com que podia
chamar a atenção sobre ele, e, depois de se habituar a ouvir piadas
sobre o assunto, cujo conteúdo não compreendia, começara a gostar
do espanto que causava entre os apostadores.
-juro que nunca vi coisa parecida. Três! -e o pai olhou para
Hammond, como se esperasse uma explicação para o fenômeno. Vi-
os só com um ou sem nenhum, mas com três nunca tinha visto.
-0 doutor Redfield diz que ele vale bom dinheiro em Nova Orleães.
-Não lhe fazem mal nenhum, os três, mas também não o ajudam
muito. Dois sempre me bastaram -gabou-se Maxwell.
-0 doutor Redfield diz que dá sorte e que os jogadores pagavam
bem por ele.

-Já é sorte se pagarem o que ele vale -disse MaxwelI, erguendo-se
ao ouvir a sineta para a ceia e esvaziando o copo. -Dá-lhe bastante
de comer e prepara-o para vender, com os outros, mas tem cuidado
com os jogadores. Não são de fiar.

Capitulo vigésimo

Na segunda-feira o solo já estava seco e podia-se semear, e
Hammond estava a cavalo logo de manhã cedo, vigiando os
semeadores, um a um. Tinha ordenado a Medes e Pérola Grande
que transportassem o caldeirão de escaldar porcos do lugar onde se
encontrava, por trás do celeiro, para mais perto da casa, para que o
pai pudesse vigiar a operação de salgar Medes, após o que lhes
mandou cavar um buraco por baixo, para fazer uma fogueira e
aquecer a água com que o caldeirão devia ser enchido. Voltou mais
tarde e viu que a água estava a ferver, ordenou que apagassem a
fogueira e juntassem água fria à quente, para reduzir a temperatura,
após o que lhe adicionou tanto sal quanto conseguiu dissolver.

Tinha intenção de seguir a fórmula do pai para endurecer a pele de
Medes, mas conhecia a propensão de Maxwell para fazer com
perfeição tudo aquilo em que se metia e não confiava nele com o
receio que escaldasse o escravo. Contudo, deu ordens para
aquecerem água na cozinha, para que Pérola Grande a pudesse ir
juntando à solução do caldeirão, evitando que arrefecesse. Era um
enorme caldeirão de ferro com três pés e sem alça.


Merimon levou a cadeira de balanço de Maxwell para o alpendre,
envolveu-lhe os ombros com a manta azul e Meg trouxe-lhe um
toddy. Alph sentou-se na extremidade do alpendre, sem nada para
fazer. Maxwell habituara-se a ter o rapazito junto dele a servi-lo,
mas raramente lhe dava uma ordem ou lhe dirigia uma palavra. Era
uma espécie de sombra silenciosa.

Quando tudo estava pronto, Hammond ordenou a Medes que se
despisse e entrasse para o caldeirão, explicando-lhe resumidamente
a finalidade da operação. Subia vapor no ar frio, e Medes
mergulhou o braço na salmoura.
-Está quente, patrão, siô -objectou. Hammond meteu a mão no
caldeirão e disse:
-Arrefece num instante. já não está muito quente.
-Tem de estar quente para o endurecer -avisou MaxwelI, da sua
cadeira.
0 escravo respirou fundo, duvidoso, levantou a perna, mergulhou-a
na salmoura e retirou-a.
-Não posso aguentar. Queima, patrão, siô.
-Entra no caldeirão, sou eu quem manda, e enfia-te nele até ao
pescoço
-disse Hammond peremptoriamente.
Medes entrou no caldeirão, esfregou as nádegas e, muito
gradualmente, mergulhou na água.
-Vê-se que estava a precisar disso-, disse Maxwe11. -Não aguenta
uma salmoura um pouco quente.
Medes dobrava-se para poder mergulhar totalmente até apenas a
cabeça e o topo dos joelhos ficarem fora da solução.
-Está muito quente -queixou-se ele. -Ouanto tempo tenho de ficar
aqui dentro?
-Até eu voltar e te dizer que podes sair -respondeu Hammond. -A
Pérola Grande que mantenha a água quente -disse ele ao pai, e
afastou-se a cavalo.


Maxwell passou pelo sono, na sua cadeira, acordando
ocasionalmente e observando o escravo no banho. Nada mais tinha
para fazer.
-É a altura do primo Charles começar a preparar-se para partir hoje
-disse Hammond, ao regressar das suas rondas. -já tem o cavalo
selado, à espera.
Desmontou e entrou em casa; quando voltou, trazia Charles com
ele.
-Tenho de ir hoje? -perguntou Charles. -Não sei se conheço o
caminho. Não posso esperar e ir com o primo Hammond? Só falta
um mês.
-Quero que o seu pai receba o dinheiro e não me posso esquecer do
anel para a prima Blanche -disse Hammond. -Além disso, o seu pai
não sabe onde está. Prepare-se.
Não valia a pena discutir. Charles voltou a casa e subiu ao quarto,
mas regressou em breve, pronto para a viagem. Um rapaz trouxe o
seu cavalo e Maxwell levantou-se e foi vê-lo, a coxear, para verificar
se a perna estava completamente curada. Charles apertou a mão aos
seus anfitriões, em silêncio e, depois de ele ter montado, Hammond
entregou-lhe um saco de pano, cheio de moedas de oiro.
-Tome bem conta disso -avisou Hammond. -Tem lá dentro o anel
para a Blanche, mesmo por cima do dinheiro.
-Vou levá-lo junto ao corpo -prometeu Charies. Afastou-se,
relutantemente, voltando-se de vez em quando, para olhar para
trás.
Hammond viu a temperatura do banho de Medes e prescreveu que
se lhe juntasse água quente. Depois voltou para os campos.

Quando Charies saiu da álea para entrar na estrada, viu uma
carruagem de duas rodas, de capota descida, puxada por um cavalo
alazão cor de canela, entrar, por sua vez, na álea que levava a
Falconhurst. A carruagem era conduzida por uni negro enorme, e o
passageiro era um homem mirrado que levantou cerimoniosamente


o seu chapéu alto para agradecer a Charies ter desviado o cavalo
para permitir que o veículo passasse. Não conhecendo o delicado
personagem, Charles sentiu-se repelido por algo nele que o obrigou
a apressar o passo, mas dirigiu-se para a esquerda, para Benson, em
vez de voltar para a direita, em direcção a Crowfoot.
A chegada da carruagem acordou Maxwell do seu sono. Teve que
olhar duas vezes antes de reconhecer o gnomo que lentamente
descia dela. A sua hospitaleira saudação foi bastante cordial, mas
não havia entusiasmo na sua voz.
-Olha quem ele é -disse, erguendo-se -, o Gideon Gasaway@ Entre,
entre.
-Não se incomode, Warren -disse o homenzinho. -Sei que esta
doente.
-Não estou lá muito bem -admitiu Maxwe11.
-Que tem o seu negro? Está a castigá-lo?
-Não, não, estou a salgá-lo, para lhe endurecer a pele. Ele é bom.
Entre em casa.
Antes de chegarem à sala, Gasaway já tinha abordado o assunto que
ali o levara.
-Não gosto de lhe dizer isto, Warren, mas acho que é o meu dever
começou ele.
-Sente-se, sente-se -insistiu o dono da casa. -Dizia que ...
-0 facto é que o seu rapaz anda pela taberna de Benson, a jogar e
metido em combates de negros. Achei que devia saber.
-Agradeço-lhe imenso, senhor -respondeu Maxwell com ironia, Estou
muitíssimo grato. Só que o Hammond não anda em Benson,
anda nos campos a semear, com as mulas e os negros, tentando
fazer uma boa sementeira.
-Não digo hoje. Refiro-me a sábado. Esteve lá no sábado. Gasaway
mudou o tempo do verbo.
-Oh, no sábado. Isso é diferente. Sim, ouvi dizer isso. Até trouxe
para casa uni macho muito jeitoso que ganhou ao Lewis.



-Eu sei que o Lewis e o Elíjah estavam metidos nisso. Tenho
vergonha por eles, que foram educados de maneira cristã. Não
estou a desculpá-los. Mas aquele negro, o Estrela, é o negro da
minha mulher, o favorito dela. Não é pertença do Lewis para
vender ou jogar. Passei por aqui para o levar. Sabia que o senhor
compreenderia.
Maxwell acenou, mostrando a sua compreensão e Gasaway ficou
mais feliz.
Meg apareceu, trazendo toddies que não haviam sido pedidos.
Gasaway declinou a sua bebida, mostrando certo desdém:
-Eu nunca toco em álcool, nunca.
-Reumatismo -disse MaxwelI, -Tenho que beber toddies por causa
do meu reumatismo. Não me dava um minuto de sossego.
-Isso é diferente, evidentemente. E um remédio, mas vale mais
sofrer.
-Penso que já bebeu tanto que já nem precisa de mais.
-Não, desde que fui salvo, isto é, desde que fui salvo pela segunda
vez, nem uma gota. Continuo salvo. Quando me sinto tentado,
penso em Jesus, e o demónio da bebida foge de mim.
-Põe isso aí, Meg. Eu bebo os dois. Este negro tenta-me bem -disse
MaxwelI, e Meg tapou a mão com a boca para sufocar um risinho
embaraçado, por o patrão ter falado dele.
-Aquele Estrela -disse Gasaway -, venho buscá-lo ...
-Sim compreendo. Foi roubado.
-Bem, não exactamente. Mas o Lewis trouxe-o sem a minha
permissão. É o negro da minha mulher.
-Assim me disse, assim me disse -postulou Maxwe11. -Mas o meu
Hammond não é tolo. Tem uma nota de venda, com a assinatura do
seu rapaz.
-0 Lewis não tinha o direito de o fazer.
-Assim parece, assim parece. Claro, se o negro é seu, senhor
Gasaway, não me oponho a que o leve. De modo nenhum. Mas que
idade tem o Lewis? Vinte e um, não é?



-Vinte e dois ou vinte e três, mais ou menos.
-Mas é responsável. Então acho que ele é um ladrão de negros e o
Ham devia ir falar com o xerife.
Não, não, não quero isso, evidentemente. É coisa de rapazes e eu sei
que não fica com o meu negro, sabendo o que sente a senhora
Gasaway.
-É assunto do Ham. 0 negro é dele. Tem que falar com ele, quando
chegar. -Maxwell pôs o assunto de parte. -Ele devolve-lhe o negro,
mas não a nota de venda. Essa vai para tribunal.
-julguei que seria generoso, por ter um rapaz também, Warren.
-0 meu rapaz não rouba negros.
0 velhote tirou do bolso um pequeno lenço de linho com que
enxugou uma lágrima.
-Juro-lhe, Warren, que não sei o que hei-de fazer -disse. -A terra
da minha plantação esgotada, os meus negros todos velhos e já sem
procriar, três mulheres mortas e enterradas, a quarta doente, os
meus rapazes preguiçosos e vadios. Não sei que fazer. Só desejo que

o Senhor me leve antes de a minha casa e os meus criados irem a
leilão. Agora, ainda por cima, ficou com o meu melhor negro.
Um branco a choramingar, Maxwell sentiu-se enojado. Ficou
embaraçado, sem saber que responder.
-Suponho que o senhor está a experimentar-me, como fez a Job continuou
Gasaway. -Mas não amaldiçoo o dia em que nasci. juro
que não. Sou cristão e digo: -Seja feita a Sua vontade.
-Não falo das suas mulheres e dos seus filhos. Isso não me ficaria
bem -mas Maxwell implicava o pior. -Quanto à sua terra, semeou-a
para fazer algodão e vendeu esse algodão, não vendeu?
-Julgo que a maior parte se foi na enxurrada, tudo se foi.
-E devia ter vendido os negros antes de envelhecerem e não
poderem procriar nem trabalhar. Depois dos vinte e cinco anos um
negro vai valendo menos cada dia que passa. Eu vendo os meus, na


maior parte, com excepção dos procriadores -extra, antes dos vinte
anos.
-Isso divide as famílias. Não gosto de dividir as famílias-
respondeu Gasaway.
-Famílias. Os negros não têm famílias. Eu desmamo os pequenos
cedo, separo-os das mães e mando-os dormir no celeiro. Quando
chega a altura de os vender, os mais velhos não se ralam; mal se
lembram qual era o deles.
-E os maridos e as mulheres?
-Não há maridos nem mulheres em Falconhurst -troçou Maxwe11.
-Eu distribu-os para procriação quando quero, mas, quando vendo

o macho, dou a fêmea a outro. Há sempre muitos jovens por aqui. E
nunca vendo um bebé antes de ser desmamado. Isso todas as
fêmeas querem, um macho para fornicar e um bebé para lhe sugar
as mamas.
-Não é cristão -protestou Gasaway. -Eu quero cristianizar os meus
criados. Por isso Deus no-los deu, para os cristianizarmos e
salvarmos as suas almas.
-Almas de negros -disse MaxwelI, com sarcasmo. -Acha que eles
têm alma?
-Claro que têm almas. Que julga o senhor?
-Vai voar lá para cima, com as asinhas a bater e de harpa na mão,
por entre uma data de anjos negros malcheirosos? Eu não. Eu não
vou, nem canto em coros com eles.
-Bem, suponho que haja uma área do céu separada para eles, a
menos que eles sirvam os brancos. Não sei, talvez se tornem
brancos, quando morrerem e subirem aos céus.
-Nem Deus consegue fazer um branco de um preto. Nem Ele pode blasfemou
Maxwe11.
-Deus pode, se quiser -protestou Gasaway. -Ele pode fazê-lo. A lei
sabe que muitos brancos o tentam.
-Que quer dizer?

-Montando as suas fêmeas e fazendo crianças mulatas. Eu nunca o
fiz, pelo menos depois de ser totalmente adulto. E não deixo os
meus rapazes fazerem-no. Os meus negros são todos totalmente
pretos 'tribos mistas, é claro) mas não têm uma gota de sangue
branco. Não quero fêmeas claras a tentar os meus rapazes.
-Protege as brancas, e salva-as de se submeterem -disse MaxwelI, a
justificar a prática.
-É uma das coisas de que os tais abolicionistas do Norte nos
acusam, dos bastardos mestiços. Disso não podem acusar-me. Nem
disso, nem de separar famílias. É o pior que eles têm contra a nossa
instituição.
-Enquanto forem minha propriedade, monto-as e vendo-as quando
quiser, mato-os e como-os, até, se me apetecer. Os abolicionistas são
uma data de excêntricos e de tarados, ninguém liga ao que eles
dizem.
-Aquele Geriton, Garrison, como é que ele se chama? Está a mexer
as coisas com muita esperteza. já viu o que ele escreve?
-É melhor que ninguém me mostre -disse Maxwell. -Libertador
mais vale que vá libertar os que trabalham no Norte.
-Ele agarrou-se a esta inovação dos combates de negros, e, o que é
pior, das apostas, e vai fazer barulho.

-já havia combates em Nova Orleães e noutros sítios desde que o
velho Hickory correu com os Ingleses, e mesmo antes, já desde
Roma, e em Roma eram seres humanos brancos -declarou Maxwell.
-Mas em Nova Orleães é às escondidas, não onde as senhoras e os
pregadores não possam ver, como em Benson. Ainda há-de haver
quem escreva àquele Garrison, e depois...
-E ainda há alguém que fica coberto de alcatrão montado numa
cerca. Nenhum branco o fazia e nenhum negro pode.
Gasaway ergueu-se e pegou no seu chapéu alto.
-Fique para jantar. Está quase pronto, jantamos logo que o Ham
chegar -insistiu Maxwel].


-Não, não. Tenho de ir andando para casa. Para vir mais depressa,
não fiz as orações da família, hoje. Tenho de ir para casa e pôr-me
de joelhos. 0 ter negligenciado as minhas orações endureceu o seu
coração contra mim, em relação àquele macho. Eu sei.
-Eu nem sabia que não tinha rezado. Como podia ser isso? perguntou
Maxwell ingenuamente. Levantou-se para acompanhar o
seu convidado até ao varandim.
-Perdi urna manhã para lhe vir falar do seu rapaz e do meu macho
e o senhor nem ligou importância.
Eu já sabia -disse Maxwell, irritado pela ligação dos dois assuntos.
Bem, cumpri o meu dever -disse o convidado à saída, em tom
duvidoso. -Não levou a mal?
-Claro, claro -foi a resposta ambígua de Maxwell.
-Venha visitar-me, venha visitar-me. Quando lhe apetecer. Parece
que se esqueceu do caminho para a Plantação Long Grove.
-0 meu reumatismo prende-me aqui -foi a desculpa de Maxwe11.
Os dois homens apertaram as mãos. Gasaway subiu para a
carruagem e Maxwell regressou à sua sala para beber um toddy, de
que bem precisava.


Hammond tinha voltado a casa, como era seu hábito, de hora a
hora, aproximadamente, e tinha reconhecido a carruagem.
Interrogando Pérola Grande, soube que o visitante era um velho e
concluiu de quem se tratava e o que lá ia fazer. Esquivou-se à
situação, pensando que o pai saberia enfrentá-Ia melhor do que ele.
Dava-se bem com Lewis, tinha por ele um sincero afecto embora
pouco respeito; mas pelo velho hipócrita pai de Lewis não tinha
respeito algum. Riu-se consigo próprio, à ideia da suposta fuga de
Elijah corri Charles e pensou se ele realmente teria ido. Deviam já
estar a caminho naquela altura.


Olhou para a porta da casa com uma sensação de culpa por se
esquivar às suas obrigações de hospitalidade para com o hóspede



do pai. Quando voltou de novo para os campos, olhou por cima do
ombro, na esperança de que Gasaway não chegasse a saber que ele
viera a casa e tivera conhecimento da sua presença.

Os semeadores estavam a trabalhar bem e exigiam pouca
supervisão, mas Hammond demorou-se até ao meio-dia, e viu-os
desatrelar e dar de comer às mulas e aos bois. Sentiu-se tentado a
partilhar da sua refeição, que Lucrécia Bórgia tinha enviado, mas
compreendeu que o facto de comer com eles iria embaraçar os
escravos, embora lhes agradasse. Gostava de comer de vez em
quando a comida inferior que era fornecida aos escravos -pão de
milho, carne gorda e leite -mas teria de ir a casa depois para
tranqüilizar o pai por não ter aparecido para jantar, e decidiu que,
uma vez que tinha de enfrentar Gasaway, tanto fazia ser antes como
depois do jantar. Ouando chegou, já atrasado, à vista da casa,
sentiu-se aliviado por notar que a carruagem partira. Pérola Grande
dava de comer a Medes, ainda metido no caldeirão.

A sineta para o jantar já tinha tocado e pai e filho foram
imediatamente para a mesa. Havia uma invasão de moscas e Alph
conservava-se muito ocupado com o leque de penas de pavão,
enquanto Meg se dividia entre verificar se o patrão era
adequadamente servido e impedir que os insectos se instalassem na
comida.
Maxwell riu-se, satisfeito, ao relatar a sua conversa corri Gasaway e
a aflição deste por Lewis ser acusado de roubo.
-Não gostava de acusar o Lew de ladrão de negros, ainda por cima
de um da sua própria plantação -disse Hammond, tentando
defender o amigo.
-Não gostava de o levar ao xerife, nem de o pôr em cima de uma
cerca nem nada desse gênero.
-Claro que não -concordou o pai. -Mas agradou-me muito irritar
aquele filho da puta hipócrita, a tentar fugir a pagar a sua aposta.


-A apoga de Lewis.
-Bem. E o mesmo, julgas que se tu perdesses aquele negro às pintas,
eu andava por aí a tentar recuperá-lo?
-Mas o pai tem o seu orgulho -e o filho proclamava o seu próprio
orgulho ao afirmá-lo.
-Nunca toca em álcool, mas bebe todos os dias uma grande garrafa
de Revigorador Mazda. Aquilo não passa de uísque amargo.
-E mais caro.
-Claro, mas a senhora Gasaway julga que é remédio. E não monta
fêmeas claras. -Maxwell riu-se ironicamente. -A primeira mulher
dele tratava-lhes da saúde. Chicoteava e matava à fome as fêmeas
claras e os bastardos do Gideon, até que ele teve que as vender e
arranjar outras, pretas. Mas o Lewis, nunca teve nenhuma.
-Tem de ir às cabanas para as ter -disse Hammond.
-E vai tudo para leilão, faço ideia@ 0 velho Gideon tem mais
dinheiro enterrado em Long Grove do que as suas árvores têm
folhas. Nada é dele honestamente; pertence aos dois filhos da
segunda mulher, foi ela quem levou o dinheiro para Long Grove.
-Ele não sabe que o Lije vai com o primo Charles, acho eu.
-Porquê -disse-lhe?
-Sim, que o Lije ia com o Charles.
-Fazem um bom par, os dois, com as caras cheias de sarna -disse
Maxwell, afastando a cadeira da mesa.


Lucrécia Bórgia plantou-se na entrada da cozinha para a sala de
jantar.
-Patrão, siô, eu tem de informa que aquele nêguinho do patrão
Charles não velo comê janta,
-Jasão? -perguntou Hammond.
-Sim, siô. Esse mêrno. Que faz eu?
-Não faças nada -disse Hammond. -Há-de aparecer para a ceia.
-Talvez esteja a chorar pelo patrão -concluiu o velho. -Era louco
pelo Charles, mas não veio vê-lo partir.



-Talvez espreitasse de cima. Se calhar está a chorar lá em cima.
-Charles tratava-o bem, parece que gostava dele.
-Eu avisei-o para o tratar bem e não o vergastar.
-Ele vergastava Jasão todas as noites -interveio Meg. Hammond
olhou severamente para o escravo, para o repreender pela
interrupção; depois perguntou?
-Como sabes? Meg ficou confuso pela tácita proibição de falar,
seguida de uma pergunta.
-Diz Jasão -respondeu, encolhendo os ombros. -Ele gosta.
-Conversa de negros.
0 velho regressou à sala sem a ajuda de Meintion que caminhava
atenciosamente ao seu lado, e o filho foi com ele.
Embora Jasão também não aparecesse à hora da cela, Lucrécia
Bórgia não relatou a sua ausência, uma vez que o patrão mostrara
tão pouco interesse ao meio-dia. Contudo, quando viu que ele não
aparecia para o pequeno-almoço, pensou que era melhor falar
novamente no assunto.
-Acha que o Charles levou o macho com ele? -perguntou
Hammond ao pai. -É suficientemente louco para isso.
-Tu viste-o partir. Claro que não levou.
-Talvez tenha mandado Jasão à frente para o ir apanhar. Ele não é
de confiança.
-Confiaste-lhe dois mil e quinhentos dólares em ouro. julgo que lhe
podes confiar um negrinho.
-É diferente. 0 Charles era louco pelo Jasão.
-Não me importo muito, tirando o facto de que o macho era uma
oferta -disse o pai. -Nunca será nada de jeito.
-Se o Charles o levou, eu trago-o quando for a Crowfoot, no mês
que vem. Não o deve ter feito por mal.
-Devia ter pedido, de qualquer modo.
-Claro. Claro. Eu deixava-o ficar lá, até eu voltar.
-Talvez tenhas razão. Deve ser lá que ele está.



-Espero que sim, se não aparecer -disse Hammond, pondo o
assunto de parte.

Capitulo vigésimo primeiro

A semana passou, a arada estava a terminar, e os carripos prontos
para plantar. No sábado, Hammond pegou em Medes e Estrela e
voltou a Benson onde recebeu no correio, além do Comércio de
Nova Orleães, um envelope dirigido ao senhor Warren C. Maxwell,
de C. Wertheimer, de Mobile, contendo as notas de venda de
Medes, Ellen e Jasão, assinadas por Wilson, e quitações das
hipotecas assinadas por Wertheimer. Não havia qualquer carta e os
documentos estavam todos passados em nome do seu pai.
Hammond, conhecendo a integridade de Wilson, não se tinha
preocupado até então, com o seu direito aos escravos que pagara e
que tinha em seu poder. Tais transferências eram supérfluas em
transacções entre cavalheiros, mas foi com uma admiração ainda
maior pelo senhor Wilson, que Hammond guardou os documentos
no bolso do casaco.

Na taberna, havia a habitual excitação em relação aos combates,
bebia-se como habitualmente, combinavam-se os combates e
faziam-se apostas. Os homens eram quase todos os mesmos. Ky1e lá
estava, com Doçuras, que ele propôs opor a Medes, mas o negro que
ele queria apostar contra Estrela era quebrado e não interessava a
Hammond. Na realidade apenas havia dois pretos que Hammond
gostaria de levar para casa, um deles já estava apostado, e outro,
mais novo que Estrela, com cerca de dez anos, mas musculoso, vivo


e alegre. Hammond puxou a criança para o centro da sala e
examinou-a.

A quem pertences? Quem é o teu patrão? -perguntou. É aquele que
vem ali -respondeu o rapaz, apontando para um homem de cerca
de sessenta anos, que se aproximava, a reboque de Redfield. 0 rapaz
não era envergonhado e gostava de cooperar, feliz pela atenção que

o branco lhe estava a dar, ansioso por tirar partido da sua força e do
seu aspecto. Saltou para exibir a sua agilidade, sem lho pedirem, e
meteu os dedos na boca para mostrar os dentes. Notava-se que a
avaliação não era novidade para ele e lhe dava certo prazer.
-já calculava que se interessasse por esse -disse Redfield. -0 senhor
Hodkins vem de passagem, com o seu lutador e este negrinho, mas
calculo que não queira opor o seu mandingo contra o lutador dele. É
demasiado vigoroso.
-0 meu também é vigoroso -gabou-se Hammond. -Faz-se a luta, se o
senhor Hodkins quiser.
-Ainda não o viu -disse Redfleld.
7-Armand, anda cá e mostra-te -chamou Hodkins, passando a mão
pela barba grisalha. -Despe-te.
0 grande negro avançou, relutante, e começou a despir-se
lentamente, tão lentamente que o patrão agarrou na camisa e lha
arrancou, esbofeteando-o violentamente.
-Por favô, siô, patrão -disse o 'negro. Era uma formalidade, porque
ele não tinha medo, e ficou impassível, sem se mover. 0 negro era
maciço, de cor castanha-escura, de raça indefinida, com alguma
mistura de sangue branco; era impossível determinar quanto.
Hammond avaliou a sua altura em pouco menos de dezanove
palmos e a sua idade em menos de trinta anos. As suas coxas e as
barrigas das pernas eram pesadas e musculosas e os bíceps
pareciam frouxos e começava a ter barriga.

Hammond não se incomodou em apreciar o homem
cuidadosamente e não o apalpou. Esta disposto a fazer Medes lutar
com qualquer um, não com confiança total, mas como uma sensação
de que, se ele não conseguisse opor-se a qualquer antagonista, mais
valia não o fazer lutar. Redfleld, para bem de Hammond, estava
mais circunspecto. Dirigiu-se ao negro, como se fosse comprá-lo,
apalpando-o e dando-lhe palmadas. Depois, captando o olhar de
Hammond, fez-lhe sinal que aprovava o combate.
-Cicatrizes de chicotadas -notou ele, esfregando verticalmente as
costas do negro, como para apagá-las.
-Não sei onde as arranjou -disse Hodkins. -já as tinha quando o
comprei. Nunca lhe rasguei sequer a pele com o chicote. E essa
marca no lombo, parece que alguém tentou gravar um R, e esse
bocado de orelha a menos, já ele tinha também. Não sei nada disso.
-Nada disso o arruinou -observou Recífield. -Ensinou-lhe o que
vale um bom patrão.
-Arrisco-me -declarou Hammond a quem as mutilações não
interessavam. -Arrisco o combate, se o senhor Hodklns está
interessado.
-Ainda não vi os seus negros -declarou Hodkins. Hammond
chamou Estrela primeiro e mandou-o despir-se, e depois Medes.
0 estranho passou as mãos sobre Estrela, observou-lhe os dentes e
mandou-o embora com uma palmada no rabo, que fez sorrir o
rapaz.
-Que idade tem? -perguntou.
-Não sei ao certo. -Hammond olhou para os outros homens. -0 Lew
Gasaway ainda não chegou. Ele sabe.
-Garante que é perfeito? -perguntou Hodkins.
-É perfeito -disse Redfield. -Veia por si mesmo.
-Os negros de Falconhurst são todos perfeitos. 0 Maxwell não quer
doutros -disse um espectador para Alcorn.
Hoclkins voltou a sua atenção para Medes, que avançou, nu, para
inspecção. 0 velho coçou a barba e concedeu, duvidoso, a sua


aceitação para o combate. 0 grupo dirigiu-se ao bar, onde
Hammond ofereceu bebidas a Hodkins e RecIfield, para selar o
negócio, convidando Ky1e a juntar-se-lhes, e não conseguindo
evitar convidar Alcorn que se imiscuíra no grupo.
-Donde vem, senhor Hodklns? Qual é a sua terra? -perguntou
Redfield.
0 bom em da barba acenou vagamente coma mão na direcção do
oeste.
-De toda a parte. Natchez, julgo eu. Principalmente Natchez. Nasci
no Termessee.
Hammond não sentia qualquer curiosidade e Redfield achou
melhor não prosseguir o inquérito. De qualquer modo, Pérola
chamava para o primeiro combate e os espectadores dirigiam-se
para a arena, pela porta das traseiras. Dois negros bem
emparelhados, um alto, cor de bronze, o outro baixo, musculoso e
preto, lutaram e esmurraram-se um ao outro, sem grande
habilidade, em volta do ringue. Não havia falta de vontade de lutar
em nenhum deles, mas os golpes eram dados ao acaso ou sem força,
e os espectadores ficaram apáticos.
0 negro baixo e forte aplicou um murro no queixo do outro que o
atirou ao chão, mas conseguiu levantar-se antes de o baixo ter
tempo de cair por cima dele. Notava-se contudo, que estava a ficar
cansado. Mexeu-se, tentando aplicar uma rasteira ao mais escuro,
mas não o conseguiu e levou outro murro nos queixos, perdeu o
equilíbrio e foi ao chão. 0 negro mais baixo atirou-se para cima dele
e os dois esmurraram-se e lutaram no chão. 0 preto cor de bronze,
exausto, acabou por deixar de lutar, deixou-se apenas ficar
estendido, protegendo-se o melhor que podia, com os braços, dos
golpes que o outro disferia. Parecia impossível fazê-lo desmaiar,
mas era tão evidente que estava derrotado, que Hoke Stevens, seu
proprietário, disse a Pérola que acabasse com o combate.


A audiência dirigiu-se ao bar, sem mostrar muito entusiasmo, e
emborcou os copos que o proprietário vitorioso pagou a todos. 0
combate não tinha chegado a ser espectacular, e, excepto para os
que tinham feito apostas, os brancos estavam mais interessados nas
bebidas que no resultado da luta.

Hammond olhava de vez em quando para a porta, para ver se os
Gasaway chegavam, ou Lewls, pelo menos, mas nenhum deles
apareceu. Calculou que o pai os tivesse proibido de lá ir ou que
Elijah tivesse partido com Charles para Crowfoot.

Pérola pagou as apostas que lhe tinham sido confiadas, e demorou o
segundo combate, que se travaria entre Medes e Armand, até ter
vendido todo o uísque que a multidão estava disposta a comprar.
Medes tinha-se vestido de novo e Hammond sentia-se grato por
Redfleld o ter tranquilizado, enquanto viam o mandingo despir-se.
-0 preto do velhote não tem formas; é só massa-segredou o
veterinário. -Eu apalpei-o.
-Mas é um lutador antigo; já tem cicatrizes-argumentou
Hammond.
-As cicatrizes não são de lutar; são de castigos. Nenhum dos
proprietários ofereceu uísque aos seus lutadores. Houve poucas
apostas, pois o preto grande parecia bem emparelhado. A multidão
dirigiu-se, apática, para o pátio e colocou-se em volta da arena.
Alguns avançaram para inspeccionar os lutadores despidos e
oferecer conselhos aos proprietários.

Hammond saiu primeiro, colocou Medes na parte do ringue mais
afastada da porta e esperou. Não existiam regras, além das ordens
de Pérola. Armand apareceu, com Hodkins e agarrá-lo pelo
cotovelo, dando-lhe conselhos e avísando-o para se acautelar. A
ordem final de Pérola, os proprietários tiraram as mãos dos ombros
dos seus lutadores e recuaram, para as linhas laterais.


Medes não se acautelou e recebeu um murro no estômago, pela sua
ousadia. Não o abalou mas ensinou-lhe prudência e recuou,
procurando vantagem. Lançou outro murro com a esquerda,
estendeu o braço e aplicou uma direita no nariz de Armand, 0
sangue espirrou, mas nenhum dos lutadores estava muito ferido.
Armand recuou, limpou com a mão o sangue que lhe corria do
nariz e, inesperadamente catapultou-se contra o adversário,
agarrando-o pela cintura e por um ombro. Medes caiu corri
Armand por cima dele. Os dois ficaram parados, numa luta rígida.
Medes conseguiu libertar o braço direito e aplicou um violento
golpe no sobrolho de Armand, mas foi impossível determinar se a
cabeça de Armand se afastou devido ao murro ou se foi empurrada
pelo impacto. Apanhou Medes no queixo com um longo punho,
mas havia pouca força no soco. A luta no chão era lenta,
aparentemente delíberada, mas era, na realidade, a luta de dois
corpos grandes, incapazes de se mover com a agilidade superior
dos homens mais pequenos.

Os olhos dos espectadores estavam postos na luta que retinha toda
a sua atenção. Apenas Ky1e viu Hodkins levar a mão ao coração e
ouviu-o gritar, antes de cair no chão, dando uns estranhos pontapés,
como se estivesse a dançar no ar, e ficar morto, de costas, com os
olhos abertos e revirados.
-Este homem está a morrer. Está a morrer, digo-lhes eu -gritou
Ky1e.
-Parem essa luta.
A multidão desinteressou-se do combate e reuniu-se, confusa e
curiosa, em volta do homem já morto. Os dois negros continuaram a
sua luta sem qualquer audiência. Se algum deles se apercebeu de
que não estavam a ser vistos, não deu sinais disso.
-Tragam uísque, raios os partam? -gritou Kyle, histericamente.


-Abram-lhe o colarinho. Afastem-se para o deixar respirar ordenou
Gore.
-Quem é ele? -perguntou um terceiro.
-É dono do negro grande que está a lutar.
-Qual deles? Pérola correu para o bar e, na sua confusão, pegou na
caneca dos pretos e encheu-a com uísque que transbordou e se foi
entornando enquanto ele o levava lá para fora. Agachou-se junto do
corpo que Ky1e agarrou pela cintura e ambos tentaram forçá-lo a
engolir o uísque.
Redfield abriu caminho através da multidão e olhou para o homem,
imperturbável. Ajoelhou-se, levantou um dos braços de Hodkins e
deixou-o cair, pôs-lhe a mão na têmpora, meteu a mão por baixo da
camisa e não conseguiu detectar qualquer movimento do coração.
-Não vale a pena; não podem fazer nada; está morto -proclamou,
erguendo-se. -Podem levá-lo para dentro.
Pérola lembrou-se dos negros que lutavam, e que continuavam a
esmurrar-se e a rolar pelo chão, como se nada tivesse acontecido.
Hammond estava num dos extremos, com a atenção dividida.
Viu Pérola entrar no ringue e ouviu-o gritar para os lutadores.
-Parem. 0 combate acabou. Chega de luta. Tentou separar os
lutadores que não o ouviram, mas recuou, com medo de levar
algum murro, e, em vez disso, começou a dar-lhes pontapés,
apanhando Medes no rabo,
-Deixe-os continuar -implorou Hammond. -0 meu negro está a
ganhar. Não pare a luta.
-0 seu negro já ganhou, agora. Damos-lhe a vitória.
-Não é definitivo. Eu quero uma vitória final -argumentou
Hammond. -Não desejava uma vitória indecisa.
-Ganha o seu macho -disse Pérola, e, olhando para a multidão que
seguia o morto que estavam a levar para dentro, acrescentou: -Não
está ninguém a ver, de qualquer modo. 0 seu macho ganha. Tire o
malandrim dali, que eu trato do outro.



Hammond gritou a Medes que desistisse, mas ele continuou a
aparar o ataque de Armand. Hammond agarrou-o pelo ombro e
Alcorn que se atrasara, atrás da multidão, veio ajudar Pérola a
controlar o escravo de Hodkins.
-Este é o melhor. Deixe-os acabar que ele ganha -afirmou Alcorn.
-0 senhor Maxwell já ganhou -declarou Pérola.
-É um empate. Ainda não acabou. Pus o meu dinheiro neste macho
e vi tudo -insistiu Alcorn. -Não vou perder assim o meu dinheiro.
Harrirriond duvidava que Alcorn tivesse apostado, mas achou
preferível acalmá-lo. Tirou do bolso uma moeda de ouro e meteu-a
na mão do outro que a guardou sem uma palavra e parou de
protestar.
Ambos os negros estavam marcados e Armand coberto de sangue,
mas nenhum deles estava gravemente ferido. Medes obedeceu de
boa vontade ao patrão mas, quanto ao seu adversário, foram
necessários insultos e ameaças para o impedir de voltar a atacá-lo e
continuar a luta. A sua honra estava em jogo e Armand, levado para

o canto da taberna, pôs-se a resmungar e começou a chorar.
Ninguém sabia o que fazer com o corpo de Hodkins. Ninguém
sabia quem ele era, donde vinha ou para onde ia. Os seus negros, ou
não sabiam, ou tinham medo de responder. Armand, ao que
parecia, tinha sido seu escravo durante um ou dois anos, já tinha
lutado por conta dele outras vezes, mas não conseguia dizer onde
nem quantas vezes. Disse que o seu antigo dono era o "patrão
Daniel ", mas não sabia se Daniel era o primeiro nome ou um
apelido. 0 rapazinho claro tinha sido comprado poucas semanas
antes em Forks-of-the-Road, perto de Natchez, ao que se
depreendia, de entre um grupo levado de Kentucky para o mercado
de Nova Orleães. Isso era compreensível, visto que o rapaz era
muito novo para ser vendido separadamente, segundo a lei da
Luisiana, embora toda a gente soubesse que era fácil fugir a essa lei.


Exploraram-se os bolsos do morto e encontraram-lhe um saco de
couro com trezentos e sessenta dólares em ouro e sete dólares e
alguns cêntimos de prata. Entre as moedas, dentro do saco, havia
um bocado de papel muito dobrado em que estava escrito " 11 de
Fevereiro de 18 32, $225,00: por $225 em ouro, ao contado, vendo a

C. Miller um rapaz mulato chamado Kittie que garanto ser são de
corpo e de espírito, um escravo para toda a vida. 'assinado) F. C.
Elton. Pelo menos a assinatura parecia ser F. C. Elton, embora não
se pudesse ter a certeza. 0 rapazinho admitiu chamar-se Kittíe ou
Kit.
No bolso interior do casaco havia uma carta escrita a lápis, sem
envelope, que dizia:

Querido amigo, pego na pena para lhe dizer-te nós estamos bem

menos o bebé que tem uma constipação e istá muito doente. 0
Simon já voltou mas aínda não o vi tem algum dinbeiro se tiver
algum mande-me por-favor purque eu preciso a fêmea coxa teve
um filho no mês paçado pur hoje nada mais com amor. assinado
Cary

Nem Kit nem Armand sabiam quem pudesse ser Cary. Os restantes
combates combinados para aquela tarde foram adiados para o
sábado seguinte; mas o morto e as suas posses também constituíram
um bom estímulo para o consumo de uísque.

Ficou decidido que Pérola se ocuparia do enterro de Hodkins,
pagando-o com o dinheiro do saco e ficaria com o restante até ser
reclamado. Kit ficaria para Hammond como troféu do combate,
assim como a nota de venda de Elton a Miller, pelo seu valor.
Ninguém sabia se Hodkins e Miller seriam a mesma pessoa. 0
acordo da multidão quanto à justiça dessa decisão dissipou


qualquer nuvem quanto à vitória de Hammond. Ficou decidido que
Redfield levaria Armand para trabalhar pela comida durante um
período razoável, até se descobrir um herdeiro, embora, no caso de
não se descobrir nenhum, o escravo ficasse para Pérola. Era mais
fácil do que recorrer a formalidades legais, que seriam tão justas
como aquelas.

Quanto à liquidação das novas apostas feitas junto de Pérola, este
devolveu o seu dinheiro e pagou aos vencedores com o ouro de
Hodkins. A luta não tinha acabado e ninguém se podia queixar do
sistema. Todos ficaram satisfeitos.
Logo que pôde, Hammond pagou uma rodada final e preparou-se
para regressar a casa, embora a tarde ainda só estivesse a meio.
Sentia-se grato pelo apoio moral de Redfield e, ao reunir os seus três
criados, perguntou a Recífield quando queria levar a sua fêmea a
Medes, que, para ele, estava à disposição em qualquer altura.
-Pode ser amanhã, se lá estiver. Eu sei que não trabalham ao
sábado. Hammond montou o seu garanhão e disse a Medes que
montasse Kit atrás dele. Medes e Estrela seguiram na mula cinzenta.

Warren Maxwell surpreendido pelo regresso antecipado do filho,
ficou tão satisfeito por o ver como se ele voltasse de unia longa
viagem.

-0 Medes trouxe-lhe outro negrinho -disse Ham, excitado, ao
saudar o velho, a quem preocupava mais que Ham se trouxesse a si
próprio.
-Vens cedo. Vens são e escorreito? Imediatamente lamentou ter dito
"escorreito", porque o fez pensar, e imaginou que Ham também
pensaria, no joelho rígido. Depois de o tranquilizarem, mandou que
lhe trouxessem o novo escravo, para ser inspeccionado.
Kit chegou, foi despido e examinado superficialmente, sendo
aprovado mais entusiasticamente do que Ham previa.


-Muito vivo -concordou o velho. -Bem alimentado e treinado, é
bom para negro de casa. Porque não o entregamos à Lucrécia Bórgia
para lhe ensinar boas maneiras?
-A casa já está cheia deles -objectou Hammond.
-Os rapazes claros treinados para trabalhos caseiros vendem-se
melhor. E um bom mercado -argumentou o pai. -Este é muito
frágil para o campo. Domesticado, dá mais dinheiro e pode-se
vender mais novo. A Lucrécia Bórgia que o mantenha fora do nosso
caminho.
-Depois de domesticados, não os vendemos, não conseguimos
separar-nos deles.
-Vender? Vende-se qualquer um. Vende-se o Memnon, vendem-se
os gémeos, vende-se a Lucrécia Bórgia, se nos pagarem bem.
Quantas vezes já te disse que isto é uma quinta de criação de
negros?
-Não se refere a Ellen? Ou mesmo a Dite? Eu não podia vendê-las.
-Não, enquanto as quiseres, ou até o teu filho nascer à Dite.
Ficamos com esse se for são e gostarmos dele.
Hammond concordou, duvidoso, com o plano para Kit e mandou
Meg ir buscar a mãe.
Hammond sentou-se para relatar os acontecimentos da tarde. Falou
de Hodkins e da sua morte súbita.
-Hodkins? Conheço-o. É esse o nome dele. Um homem grande, com
suíças? É ele -disse Maxwell. -Costumava passar por aqui, a
comprar, a vender e a fazer trocas. Era honesto e decente mas nunca
queria pagar o que se pedia. Queria os negros por dez cêntimos.
Queria que lhe vendesse trabalhadores de primeira por quinhentos
dólares, e deixou de vir cá.
-Estranho, o Redfield não o conhecia. Geralmente conhece toda a
gente.
-Foi antes de o doutor se fixar por cá. 0 aumento dos preços
assustou-0, penso eu, e por isso passou a fazer combates. É verdade;
vinha de Termessee. Tinha-me esquecido do Hodkins.


-Mas, e aquele Miller no papel?
-Não quer dizer nada. Talvez às vezes desse o nome de <Miller@>,
por qualquer motivo. Não te rales; tens direito ao Kit. 0 doutor e a
Pérola apoiam-te. De qualquer modo, o melhor é mudar-lhe o nome
e ensinar-lhe que a Lucrécia Bórgia é a mãe dele.
Hamniond foi até à cabana para ver se Medes tinha sido
devidamente lavado, mas safado com a banha de cobra e metido na
cama. Não sabia ao certo até que ponto ele tinha sido magoado, e,
além disso, queria-o totalmente recuperado para o dia seguinte,
para o caso de Redfield lá ir como previra.


Não gostava especialmente de Redfield mas conhecia o efeito subtil
da conversa do veterinário e desejava continuar a ter a sua amizade
para que ele o apoiasse na taberna. Se não fosse ele e Pérola, a luta
daquele dia podia ser considerada um empate e todas as apostas
canceladas. Sabia que o médico, sem um cêntimo antes de casar com
a viúva, se impressionava com as possessões dos Maxwell e
especialmente com os criados dos Maxwe11. Redfield tinha olho
para bons animais e apreciava a astúcia de Maxwell na maneira de
os negociar. Agora que tomara posse dos negros de Johnson,
tencionava extirpar os velhos, acumular os jovens e vigorosos e
imitar, em menor escala, a economia feliz dos Maxwell.


Na manhã seguinte, Safo estava com dores de parto. Lucrécia
Bórgia anunciou-o ao pequeno-almoço. Hammond acabou
apressadamente a refeição e foi até à cabana onde Dido se ocupava
do nascimento. A mulher estava na cama, lutando e gemendo, com


o rosto distorcido pela dor prolongada, que começara à meia-noite.
Dido tinha feito tudo o que sabia e Hammond sentou-se ao lado da
cama e segurou a mão da mulher que estava impedida, pela
presença do patrão, de manifestar a sua agonia, que o dono julgou
ter diminuído.
Enquanto esperava, chegou o pai pelo braço de Merrinon. Nas

têmporas de Safo havia gotas de suor e pelo seu rosto passavam
ondas de angústia, mas mantinha-se em silêncio.
-Ela não se esta a esforçar. Tem que se esforçar -declarou o velho. Levanta-
te, filho, e deixa-a lutar.
-Nunca teve problemas com os outros -disse Hammond, erguendo-
se.
0 sorriso do pai acalmou a sua ansiedade.
-Não te aflijas, Ham -disse. -Talvez ele tenha a má ideia de querer
sair de rabo. Os negros maus saem assim, mas são vigorosos e fáceis
de criar.
-Mas ela tem dores; ela está mal -protestou o filho. -Não se pode
fazer nada?
-Vai à cozinha -disse Maxwell a Merrinori. -Diz à Lucrécia Bórgia
que faça um caldo de aveia com pimenta forte e trá-lo cá. Acho que
nunca fez nada, mas vale a pena tentar. E o Meg que prepare um
toddy. Queres um, filho?
Hammond disse que não queria.
0 rapaz olhou relutantemente para trás, ao sair e, quando ia a
atravessar o espaço entre as cabanas, encontrou Lucrécia Bórgia que
indicava ao Dr. Redfield o local onde os podia encontrar.
-Foi bom ter aparecido -disse com renovada confiança. -Esta fêmea
parece estar entupida. Talvez o doutor pudesse ...

Lucrécia Bórgia parou junto da cabana, com as mãos cruzadas sobre

o ventre, por baixo do avental limpo.
-An, an -disse, abanando a cabeça. Redfield despiu a sobrecasaca e
entregou-a a Meninon antes de meter mãos à obra. Afastou as
cobertas e examinou a mulher.
-Precisa de ser voltado-foi o seu veredicto. -Está quase a sair; vem
de rabo para fora. Se eu conseguisse voltá-lo, agora. Não sou tão
bom nisto como a viúva. Talvez tenha que lhe arranjar uma negra.
Falava mais para si próprio que para o dono da casa. Hammond
espreitava alternadamente a parturiente ou passeava, coxeando,

sobre o chão de terra. Redfield suava abundantemente, enquanto
lutava com a criança entalada, com as mãos sujas, e ninguém falava.
Finalmente ele voltou a criança e disse a Safo:
-Está bom. Só mais um esforço e ele sai. Só mais um e está cá fora.
Está quase pronto.
A mulher esforçou-se, fracamente, mas Recífield conseguiu agarrar
uma perna da criança. Suspirou, aliviado.
-Já temos uma coisa para puxar. Devagar agora, para não partirmos


o bebé ao meio. Mais um esforço, podes fazê-lo! Aí vem ele.
-Macho ou fêmea? -perguntou Maxwell.
-Fêmea -murmurou Hammond, desgostoso.
-Tinha que ser -observou o pai. -Um macho não suportava um
tratamento daqueles. Além disso, as fêmeas vivem, se as
conseguirmos fazer nascer; e vendem-se e vimo-nos livres delas
ainda novas 'amadurecem depressa), especialmente as claras. Essa é
clara?
-Quase branca -disse o doutor. -Penso que seja do Ham.
-Fica um pouco mais escura -predisse MaxwelI, levantando-se
e apalpando o bebé. -É do Vulcano, penso eu.
-Dê-lhe óleo e deixe-a estar deitada, dois ou três dias, a menos que
precise dela -disse Redfield, apontando Safo. -Está muito fraca.
-Trata dela, Dido. Tens os outros dois filhos dela na tua casa? perguntou
Maxwell.
-Sim, siô, patrão. já são grandes pra comê bem e chupá presunto,
ambos os dois.
Dido levantou a criança até ao seio indiferente de Safo, a que ela se
agarrou avidamente.
-Acho que está tudo feito. Vamos beber um toddy -disse MaxwelI,
voltando-se para sair. -São quase horas de jantar. Foi uma sorte ter
vindo.
Hammond meteu um dólar de prata na mão de Safo.
-E um vestido novo -prometeu-lhe. -Um vestido novo logo que te
levantes. Não me deixes esquecer.

As pálpebras de Safo agitaram-se, mostrando a sua gratidão, mas
não falou.
Hammond apressou-se, na medida em que o joelho lho permitia,
para se juntar aos brancos e apanhou-os no alpendre.
-Trouxe aquela fêmea para o Medes? -perguntou a Redfield.
-Era isso que eu vinha dizer-lhe. Entreguei-a ao Armand, na noite
passada.
Hammond ficou surpreendido com o golpe.
-Acha que ele é melhor? Melhor'que o nosso>
-Não -respondeu Redfield, sem convicção. -Não. 0 vosso é
provavelmente o melhor. Mas acalma o rapaz do Hodklns e fá-lo
ficar. Impede-o de fugir. Ele tem espírito de fugitivo. Lembre-se
daquele RI marcado na garupa dele.
-0 Medes nunca o venceu propriamente, se não fosse o doutor e o
Pérola ...
-Vencia-o, dentro de meia hora. Para quê cansar os machos se
ninguém estava a ver?
-Quero que o meu negro tenho uma vitória definitiva, para que
ninguém tenha dúvidas. ,Hammond lutava, para encontrar as
palavras adequadas.
-Tem tudo e não lhe basta-observou Redfield, aceitando um toddy
da bandeja de Meg. -Repare em mim; nunca tive nada, e casar-me
com uma dúzia de negros velhos e cansados e com uma plantação
de quarta categoria, fez-me sentir um senhor. Repare em si; tem esta
plantação, sempre a teve, os melhores negros à sua volta, e rala-se
porque o seu negro não mata os negros dos outros só de olhar para
eles. 0 senhor é um cavalheiro mesmo, já nasceu assim. Deve ser
terrível viver para sê-lo. Até se preocupa se os miúdos que nascem
não forem machos de primeira.
-É o sangue dos Hammond-afirmou Maxwe11. -0 velho
Theophilus Hammond tinha sempre a melhor terra, os melhores
cavalos, o melhor uísque, os melhores negros, e as melhores
mulheres, e nada disso bastava para o acalmar.


-Parece que o sangue dos Maxwell não conta -disse Redfield,
sorvendo a bebida.
0 velho negou a implicação.
-Não sou orgulhoso, nunca fui orgulhoso, nem o meu pai, antes de
mim, o era. Sei que os meus negros são perfeitos e de primeira. São
os que eu conservo porque são os únicos que vale a pena alimentar,
os que não têm de ficar um mês na prisão de Nova Orleães, à espera
que apareça uma pessoa que os queira comprar.
A conversa derivou para outros temas; o médico relatou, à mesa do
jantar, a sua versão sobre a história de FIodkins.
Hammond, contudo, não esquecia a acusação de orgulho excessivo.
Ocorreu-lhe de novo, à tardinha, enquanto Meg lhe dava banho, e
ele estava sentado na banheira com a perna rírida estendida.
Pensou: um aleijado, como ele, tinha direito a ter orgulho?
Procuraria ele uma perfeição por delegação, ao fixar-se nos escravos
sem defeitos? Quanto à posição, um branco aleijado podia ser um
cavalheiro se tivesse, ou tivesse tido, propriedades. Além disso,
tinha o sangue -três gerações de antepassados plantadores. Ser
cavalheiro era seu direito por nascimento, e podia evitá-lo tanto
como o rapaz que lhe enxugava as pernas poderia adquiri-lo, ou
como Redfield poderia consegui-lo.


Não era coisa para tornar um homem orgulhoso. Um cavalheiro
deve viver para a sua herança, aceitar as suas exigências e
imunidades, mas o homem orgulhoso de ser um cavalheiro era
menos do que um cavalheiro, tal como aquele que aspirava a sê-lo,
por isso mesmo, falhava no seu desejo. Talvez a sua perna aleijada,
curvando-lhe o orgulho, salvasse a sua possibilidade de ser um
cavalheiro. Talvez fosse essa a sua finalidade, purificá-lo.


Pouco podia esperar de Ellen, mas Hammond apelou para ela,
nessa noite:



-Estou a abrir muito as asas, amorzinho? -perguntou-lhe quando
ela se encontrava nos seus braços. -0 Dr. Redfield diz que eu estou a
ficar muito orgulhoso, por comprar um macho como Medes que
vence todos os outros, e uma fêmea como tu, mais clara e mais
bonita do que as que qualquer outro cavalheiro tem. Eu não quero
ser pomposo e arrogante. Achas que eu sou arrogante, perante os
brancos?
-0 senhor doutor não sabe como é um cavalheiro. Eu sei que ele é
branco, e não é um cavalheiro, pelo menos não como o patrão é um
cavalheiro ou o velho patrão Wilson é um cavalheiro.
-Eu não falo do doutor Redfield; falo de mim. Achas que ter
Falconhurst, e bons cavalos, e bons negros, me torna orgulhoso?
-Mas tu és melhor, patrão, siô -insistiu a rapariga.
-Achas que o facto de me casar com uma branca jovem e bonita me
tornará pior? Mais orgulhoso ainda? De tal modo que nenhum
branco me quererá falar?
Os olhos de Ellen encheram-se de lágrimas e Hammond ouviu-a
soluçar, na escuridão.
-Porque estás a chorar? Eu não te fiz nada -disse ele.
-Não posso evitar, não posso evitar, patrão, por favor, siô. 0 patrão
vai casar e eu nada serei para si, nada.
Sentiu-a levantar a mão e passá-la pelos olhos, para enxugar as
lágrimas.
-Não compreendes? -perguntou Hammond. -Tenho de o fazer,
tenho mesmo de o fazer. Prometi. Além disso, não haverá qualquer
diferença para nós, As brancas não gostam de fornicar; não são
como as fêmeas; detestam-no; só se submetem para terem filhos.
Fico contigo na mesma.
-Mas vai gostar dela, mais do que de mim. Patrão, siô, oli, patrão!
-Ela vai ser minha mulher, não compreendes? -argumentou o
rapaz. -Tenho de gostar dela, como de uma branca. Mas continuo a
gostar de ti, como a minha fêmea. Ninguém jamais tomará o teu
lugar, branca ou preta. Hás-de ser sempre minha.


-Ela vai estar primeiro.
-Claro. Tem de estar. É branca -admitiu ele. -Não deves começar a
pensar que, lá porque vens para a minha cama, és mais do que uma
negra. És bonita, limpa e simpática, e eu gosto de ti, mas não és
branca, não podes dar um filho, um filho branco.
Ellen sabia que o que ele dizia era verdade. Não o rebateu.
-Não penses que eu te vou dar a qualquer macho para procriação e
arranjar outra fêmea. És minha, fica tranqüila; e não quero outra.
Agora estende-te e vamos dormir. Tenho que plantar logo de
manhã.


No sábado seguinte tinham que realizar-se os combates combinados
para a semana anterior e que a morte de Hodkins interrompera, e
Hammond não se surpreendeu por não conseguir adversário para
Medes. Nem teria ido a Benson nessa tarde se não tivesse de ir ao
alfaiate para encomendar fatos para o casamento. As mangas e as
calças do elegante fato castanho que comprara em Nova Orleães
dezoito meses antes estavam já curtas e o casaco estava apertado no
peito. Não esperava uma tal obra-prima do fato cor de ameixa que
escolhera em Benson, mas estava demasiado ocupado para ir a
Nova Orleães ou mesmo a Mobile só para comprar fatos.
Tinha ficado decidido que Meg fosse com Hammond para
Crowfoot, como seu criado pessoal e estavam a ser provados em
Estreia, dando desconto à altura ligeiramente superior de Meg, fatos
para ele-um casaco azul com botões de latão, calções até ao joelho e
sapatos de fivela. Maxwell argumentara que Merrírion deveria
acompanhar Hammond na viagem, mas o filho preferiu o negro
mais pequeno. Só precisava de um criado para o ajudar a tirar as
botas, e, se não fosse o costume, que exigia que um cavalheiro
levasse um para tal expedição, sentir-se-ia tentado a dispensar
qualquer servidor.



Lewls Gasaway apareceu, mais magro e pálido. Tinha ouvido falar
da morte de Hodkins e estava desolado por ter perdido a excitação,
mas tinha tido papeira e tínha-a pegado a Elíjah e a todos os
escravos da Plantação Long Grove.
-A papeira deitou-me abaixo e depois passou para o Lije confessou
a Hammond confidencialmente. -Penso que não haverá
mais Gasaway. Acabei com eles.
Encolheu os ombros e riu-se, embaraçado.
-Acho que até tens sorte-foi a resposta bem pensada de Hammond.
-Se não podes fazer nada, escusas de ter que casar com uma branca.
-Oli, posso fazer qualquer coisa, continuo a poder; mas não serve
de nada, não dá geração. Tenho semente, mas está morta -disse
Lewis, negando a impotência.
-É isso o que eu quero dizer-disse Ham, pondo a mão sobre o
ombro do amigo. -Não tens a maçada de te casar com uma branca.
-Acho que não servia de nada.
-0 Lije está doente, não foi com o primo Charles para casa dele?
-Raios, não. 0 velho apanhou-o a tentar fugir com um cavalo e uma
fêmea de primeira. Por isso Lije apanhou a papeira. Se tivesse
fugido, não a tinha apanhado.
-Que fazia ele com a fêmea? 0 pai de Charles tem montes delas em
Crowfoot.
-Queria vendê-la em Nova Orleães, penso eu. 0 velho resolveu isso.
Além de estar doente, o Lije fica sem cavalo e não pode ir a parte
alguma.
Nem sequer pode vir a Benson ver as lutas, quando se curar.
-Então ele não ia com o Charles? 0 Charles dirigia-se para
Briarfield. Lewis encolheu os ombros e perguntou:
-Como hei-de saber para onde ia. 0 Lije estava sempre a falar em ir
para Nova Orleães. Maluco. Nem sabia para que lado fica Nova
Orleães.
-Porque não trouxeste o Cudio? -perguntou Hammond.



-Para que servia, sem um macho para apostar? De qualquer modo,
não o punha a lutar com aquele teu grande malandro. 0 teu é
demasiado vigoroso para ele.
-julgava que querias a desforra? -disse Hammond, acarinhando
mentalmente a concessão de Gasaway quanto à presa de Medes.


Hammond voltou para casa com os seus negros, confiado na
invencibilidade do seu lutador. Na semana seguinte também não
conseguiu arranjar um adversário para Medes. A própria recusa dos
outros proprietários de pôr em os seus escravos a lutar contra o
dele, aumentava a sua crença de que o seu rapaz era o melhor, pelo
menos na área de Benson. 0 seu propósito ostensivo de ganhar
negrinhos era, efectivamente, secundário, em relação ao seu desejo
de ser conhecido como o possuidor do melhor lutador do distrito. já
não havia dúvidas de que as duas vitórias de Medes tinham sido
justa e decisivamente ganhas. Mesmo que Medes não voltasse a
lutar -e Hammond desesperava de encontrar adversário para ele -,
contudo continuaria a ser, mesmo na decrepitude, o maior lutador
do seu tempo e do local, uma peça para exibição de que não
exigiriam demonstrações.

Porém Maio aproximava-se. Hammond tinha de acabar de plantar e
deixar a plantação em ordem, antes de ir buscar a noiva. Embora
não permitisse a Medes que interrompesse o treino e Lucy o
esfregasse todas as noites com a banha de cobra, Hammond não fez
mais excursões ao sábado à taberna de Pérola. Os combates foram
relegados para a periferia dos seus interesses.

0 quarto de sua mãe, fechado desde a morte dela, foi reaberto e
novamente mobilado para passar a ser o aposento da noiva. 0
colchão de penas foi revolvido, o vestuário da antiga dona foi
retirado do roupeiro a que Maxwell chamava a "despensa", a


carpeta foi levantada e batida, tudo ficou preparado para receber
Blanche.
-Acho que devemos dar a Tense à miss Blanche para criada dela. É
suficientern ente crescida, não achas, e é limpa e virgem -propôs
MaxwelI, no seu entusiasmo. -Isso é importante. Não quero uma
fêmea impura a servir a tua mulher.
-Não precisa de se preocupar com isso. 0 maior Woodford vai
certamente dar à Blanche uma negrinha, quando ela se casar. É o
habitual, não é?
Maxwell disse com desprezo:
-Não vejo aquele velho a dar nada a ninguém. Não tem nenhuma
para dar. Estão todas hipotecadas e nem as pode vender.
-E aquele dinheiro que o Charles lhe levou? Pode pagar alguns
escravos. Não seria próprio não lhe dar uma criada a que ela esteja
habituada.
-É melhor pensarmos na Tense, a menos que a queiras para ti. Não
te podes meter corri a criada da tua mulher.
-Não, enquanto tiver a Ellen, não me interesse outra -disse o filho.
-Estás a interessar-te de mais por essa Ellen do que é decente,
parece-me-avisou o velho. -Serve-te para fornicares. Tens que ter
uma fêmea, é claro. Mas não te esqueças de que é apenas urna
fêmea.
-Ainda não tinha comprado a Ellen quando me comprometi com a
Blanche. Se eu tivesse ido a Crowfoot pelo caminho deTheCoign,
creio que nunca o teria feito. Além disso, quer um neto, não quer.
Maxwell admitiu que sim.
-Não te podes esquecer de levar Meirmon ao ferreiro antes de
partires. Não quero um macho vigoroso e sem anilha numa casa
onde há uma senhora branca. ,-Tenho andado a adiar. Mem tem
medo das queimaduras. Da última vez, o ferreiro deixou cair solda
sobre ele. Ficou corri medo.
-Que disparate! 0 ferreiro não vai queímá-lo, nem magoá-lo. Não
precisa de lhe fazer um buraco desta vez; já o tem.


Era evidente para ambos os homens que a presença de uma branca
exigia certas alterações nos costumes da plantação. Maxwell recuou
aos tempos em que a mãe de Hammond estava viva e ao decoro que
ali reinava. Em retrospectiva, não lhe pareceu oneroso; Blanche não
podia ser mais exigente.
-E melhor ir buscar aquelas duas mulas à pastagem e atrelá-las e
olear os arreios -avisou Hammond.
-Vais levar a carruagem? É melhor andar um bocado com as éguas
aparelhadas. Andaram todo o Inverno a pastar.
Hammond sentia-se conspícuo e pouco à vontade, ao deslocar-se a
Benson de carro, para levar os fatos que encomendara. Um rapaz
sem companhia feminina parecia-lhe ficar mal dentro de tal veículo.
Contudo as éguas adaptaram-se facilmente ao arreio; avançavam
em uníssono e sem mais caprichos do que os que seriam de esperar
de animais que haviam estado tanto tempo em pastagem.

E as roupas que mandara fazer eram desconfortáveis mas serviam
para o fim em vista. 0 sapateiro da aldeia procurara fazer botas tão
pequenas quanto podia para os pés de Ham e, embora o
incomodassem, as botas eram jeitosas, mesmo elegantes. As calças
apertavam as nádegas de Hammond, mas pareciam fortemente
cosidas e ele podia sentar-se sem perigo de se descoserem. 0 casaco,
com a sua camisa vistosa, era tão grande quanto as calças eram
apertadas. Daí a dez anos, ao transformar-se num homem maduro,
talvez Hammond enchesse aqueles ombros largos: o alfaiate tinha
pensado na imaturidade do jovem ao tirar as medidas. 0 excessivo
comprimento das mangas escondia os folhos dos punhos da camisa.
Quando Hammond endireitou o fato e o vestiu para o pai o
inspeccionar, o velho ficou menos impressionado com os méritos do
fato do que com a dignidade com que Ham avançava pela sala,
escondendo o seu coxear o melhor que podia.


-Fica-te muito bem -foi o veredicto. -A rapariga tem sorte, penso
eu.
Chamaram Meg para experimentar o fato, de que nada sabia.
-É melhor mandá-lo lavar primeiro -sugeriu Maxwe11.
-É só ver o tamanho, não vão sujar-se-declarou Maxwe11. -Despete
-ordenou ao rapaz, que estava encantado.
Não se preocupando com as meias, que faziam parte do conjunto,
mandou o rapaz enfiar as pernas nuas nos calções, ajustou-lhe o
casaco, e, sentado no chão, Meg enfiou os sapatos nos pés nus, eram
os seus primeiros sapatos e ele apreciava a melhoria de posição que
resultaria do seu uso.
-Agora és mesmo negro de casa. Tens que te portar bem. Não
podes andar por aí a correr ou a arrastar os pés. Nada de pele nua.
Tens que manter este conjunto inteiro -explicou Hammond.
Noblesse oblige. Era preciso respeitar as regras.
-Eu continua a ser o teu nêgo, só teu?
-Vou levar-te comigo para Crowfoot, não vou? Que mais queres?
Achas que és capaz de te portares bem?


Dois dias mais tarde, o patrão e o pequeno hornelI, Mho partiam
para a sua viagem. Pólo tinha trazido o carro de manhã cedo e
esperava pacientemente, segurando os cavalos. Meg, magnífico no
seu casaco com botões de latão, de meias e sapatos, estava sentado,
direito como uma vara, no lugar do condutor, uma hora antes de
Hammond estar pronto para partir.
Havia muita coisa a fazer. Só vestir e ajeitar os fatos já dava um
trabalhão. Uma ida final à cabana de Safo e outra à do mandingo,
levaram algum tempo.
-Vimos no dia dez, no dia onze é mais certo. Acha que consegue
ficar sozinho e dirigir os trabalhadores? Não há nada para eles
fazerem; mas é nessas alturas que fazem asneiras. Claro, na Lucrécia
Bórgia pode-se confiar



-disse Hammond, expressando as suas dúvidas, ao deixar o pai
encarregado da plantação.
-Eu já mandava em negros antes de tu vires ao mundo, ou de cá
estar a Lucrécia Bórgia. Ainda não me esqueci de como é -garantiu
Maxwell ao filho. Depois, receando não valorizar a ajuda do jovem,
acrescentou: Claro, era mais novo nessa altura, sem este
reumatismo.
-Eu volto cedo e começamos a cortar árvores antes de aparecerem
as ervas danínhas.
-Vai-te embora, agora, e não te rales. Lembra-te do que te disse
sobre as brancas. Tens que ir devagar e nã o a assustar. Não são
corno as fêmeas.
-Ninhuma branca vai fugi de um cavalheiro bonito como patrão
Ham -interveio Lucrécia Bórgia. -An, an! Tá mêrno bonito com esse
fato novo.
Estava no alpendre, ao lado de Ellen, que viera despedir-se.
Harrimond beijou ambas e ignorou Alph e Meirmon que serviam o
pai. Os olhos de Ellen encheram-se de lágrimas mas não soluçou.
Ele beijou o pai e apertou-o contra ele.
-Tem Juízo, nêgo, e faz o que o teu patrão mandá, tudo o que ele
mandá -avisou a mãe de Meg. -E tem cuidado c'os fato novos.
-Não levo chicote de negros, mas posso bem desancá-lo com este
dos cavalos -disse Hammond, subindo para o carro e empurrando
Meg para o outro assento.
-Muito bem, patrão -aplaudiu Lucrécia Bórgia, solenemente. Espero
que dê cabo dele, patrão, siô. É a maneira de dobrá um nêgo.
Tudo estava verde em Maio e o sol aquecia bem. As estradas cheias
de sulcos atrasavam o carro, que se retorcia sobre as molas, mas não
havia pressa. 0 casamento estava marcado para o dia oito, e
Hammond tinha contado com quatro dias para a viagem, que podia
fazer em três, ou em dois se apressasse. As éguas eram fogosas e
Hammond teve que as refrear, não por causa delas, mas para
endireitar o carro.


0 dia foi aquecendo, e Hammond despiu o casaco, dobrou-o e
colocou-o no banco de trás. Mais tarde, mandou Meg descalçar-lhe
as botas que começavam a tornar-se desconfortáveis. Passaram por
plantações e quintas, atravessaram riachos, passaram por
aldeamentos, alguns dos quais aspiravam a ser cidade. Encontraram
ocasionalmente cavalheiros que o cumprimentavam e alguns deles
paravam para falar sobre o estado do tempo e perguntar para onde
iam. Passaram pela diligência do correio, puxada por dois cavalos,
que levava dois passageiros brancos e, relegado para o mais
afastado dos assentos, um negro alto e muito escuro, possivelmente
propriedade de um dos brancos. Acampado junto da estrada havia
um grupo de brancos, uma família constituída por três homens,
duas mulheres e diversas crianças, além de uma parelha de bois,
duas mulas e dois cavalos, com acessórios caseiros, vindos da
Geórgia a caminho do Arkansas, para arranjarem nova casa. Ao fim
da tarde, antes de chegarem a uma dúzia de casas que constituía a
cidade a que chamavam Fairfax, encontraram dois cavaleiros, de
barba, que escoltavam um grupo de escravos a pé, com grilhetas,
nenhum dos quais era suficientemente robusto para merecer sequer
uma rápida avaliação de Hammond.

A casa de Fairfax parecia prometedora e talvez estivessem ainda
muito longe de outro aldeamento onde pudessem passar a noite.
Hammond parou os cavalos e desceu do carro. Antes de entrar no
hotel, vestiu o casaco e sentou-se nos degraus, para que o criado lhe
calçasse as botas.
-Sim, acho que posso arranjar-lhe ceia, para si e para o seu macho acedeu
o dono do hotel, da cadeira onde se reclinava, com as costas
inclinadas até tocar na parede da sala vazia que servia de vestíbulo.
Quanto a dormir, no entanto, têm que ficar com outro senhor. Está
bem?
Hammond aceitou a condição que não era inesperada,


-É um rapaz muito simpático, que vai para os mesmos lados.
Parece limpo. -Assim lhe descreveu o dono do hotel o seu
companheiro de quarto.
-0 negócio está bom. Dois cavalheiros no número um; e agora
outros dois no número dois. Espero que não venham mais, pelo
menos para dormir. Detesto recusar um quarto a um cavalheiro.
Suponho que queira ração para a sua parelha e sítio para as éguas
dormirem. Tenho um estábulo lá atrás. Tenho tudo, estábulo e tudo.
-Eu levo-as -sugeriu Hammond.
-Não se preocupe. Não é necessário. 0 moço de estrebaria leva-as disse
ele, batendo na parede com os nós dos dedos.
Uma rapariga mestiça meteu a cabeça pela porta e disse, com ar
mimado:
-Sim, siô.
-0 Papa que leve o carro deste cavalheiro lá para trás -ordenou o
homem, voltando a recostar-se na cadeira.
Hammond esperou que o escravo aparecesse e, quando ele
finalmente chegou, saiu para lhe dar as suas instruções.
-Eu sabe, eu sabe. Não é preciso dizê, siô -protestou o negro de
meia idade, que tinha apenas um braço. -Mas não tem aveia. Só
milho. 0 patrão não compra aveia.
-Ele desperdiça-a-disse o proprietário, que seguira Ham até à
porta.
-Dá-lhes sempre comida e palha de mais. 0 Papa é louco por
cavalos. Não precisa de preocupar-se com as suas éguas.
-Eu dá comê a elas. Eu dá mimo a elas-disse o Papa esfregando a
cara afectuosamente contra o focinho de uma égua.
-Quer o seu macho na estrebaria ou quer levá-lo para o quarto?
Mais vinte e cinco cêntimos e um cobertor no quarto. Também fica
bem no estábulo. 0 Papa toma conta dele e não o deixa fugir.
-Eu quero-o no quarto -declarou Hammond.
-Na cama não. Não há espaço. E além disso não consinto.



-Fica no chão -disse o dono de Meg. -Está habituado. A ceia era
melhor do que Hammond previra -galinha cozida e puré de maçã,
papas de milho e salada, biscoitos quentes, leite e café. Os quatro
hóspedes brancos sentavam-se à longa mesa do hotel, servidos pela
fêmea clara. Meg comeu algures, nas traseiras do estabelecimento.

Os dois hóspedes mais velhos sentaram-se um ao lado do outro
após a primeira saudação e nada mais disseram. 0 rapaz de
bochechas pesadas e face redonda, mais ou menos da idade de
Hammond, poderia ter sido loquaz se não fosse a sua preocupação
em atafulhar a boca de comida. Inclinava-se sobre a mesa, onde
apoiava os cotovelos, acumulava a comida no boca e bebia leite para
a engolir. De cada vez que bebia, ficava com os lábios molhados,
deixando um aro em volta da boca.
-Para que lados vai? -perguntou a Hammond, entra duas dentadas.
-Para a Plantação Crowfoot, no caminho de Briarfield.
-É para leste, não é? Hammond aquiesceu.
-Também vou para leste, amanhã. Volto para casa. Vivo a cerca de
quarenta milhas; trinta, quarenta, é mais do que quarenta.
Podíamos seguir juntos. Que diz? É muito solitário, para se ir
sozinho.
-Eu parto cedo -disse Hammond sem entusiasmo. -Tem que se
mexer.

-Ao nascer do Sol, se quiser. Dormimos Juntos, levantamo-nos ao
mesmo tempo e partimos Juntos. Amanhã à noite quer dormir em
minha casa? Será bem recebido. Não tenha dúvidas -convidou
afavelmente o rapaz -Não é muito fino, mas é melhor que isto.
É muito amável da sua parte, mas quero ver até onde chegamos.
Porque vai lá? Vive em Crowfoot? Onde tem estado? Vivo perto de
Benson -explicou Hammond. -Vou a Crowfoot para me casar. Pelo
menos conto corri isso.
-Casar?


0 jovem mostrou-se consternado.
-No próximo domingo.
-Casar! Casar!, eu não me casava, nem que fosse com um anjo!
-Porquê? Não tenciona casar-se nunca? -perguntou Hammond,
incrédulo.


0 rapaz com cara de lua cheia encheu a boca de comida e leite e
encolheu os ombros. Enquanto engolia, sorriu e acrescentou:
-Medo, penso eu; medo. 0 meu velho casou-se coma minha mãe; já
vi coisas de mais. Ela a mandar nele, a bater-lhe, até ele morrer.
Morreu disso; atirou-se a um poço e afogou-se. Fiquei livre dele, de
qualquer modo, mas a velha ainda vive e está ali para as curvas.
-A minha esposa, a senhora com quem vou casar-me não é desse
género. É tímida e dedicada.
-Como é o seu nome? Temos de ficar a conhecer-nos. Vamos
dormir juntos.
-Chamo-me Maxwell, sou filho de senhor Maxwell da Plantação
Falconhurst -identificou-se Hammond.
-0 meu nome é Church, Mad Church. Chame-me Mad1. Vamos ser
amigos.
Hammond não se mostrou muito ansioso, mas não rejeitou a oferta.
-Trouxe a égua de raça, do meu pai, Luar chama-se ela, ao cavalo
de raça do capitão Taylor, chamado Gastador ou Esplendor, ou
coisa parecida, mas seja como for é filho do Zeno, que foi
importado, mas não os vi, não posso suportar ver coisas daquelas.
-Ver que coisas?
-Vê-los acasalar, os cavalos. -As suas faces redondas ficaram
coradas.
-Não sei o que os leva àquilo. Não acho decente.
-Como quer que nasçam potros, se eles não o fizerem? -perguntou
Hammond. -E pensei que disse que o seu pai tinha morrido.
-Morreu, mas a Luar não. Deu-lhe o nome de Luar antes de se atirar
ao poço, e a minha mãe diz que temos que fazer o que ele pediu e



levá-la a um cavalo. -Mad levantou os cotovelos da mesa,
equilibrou-se nas pernas de trás da cadeira, resmungou e olhou com
pena para a comida que não conseguia consumir. -Quer ver a Luar?
É bonita.
-De manhã -declinou Hammond, corri indiferença. Mad foi aos
estábulos, passando pela cozinha e Hammond voltou ao hall de
entrada distendeu-se e sentou-se à espera da hora de ir para a cama.


0 dono do hotel apareceu e comentou:
-Fala como um idiota! Come como um idiota, também. Mas isso
não me importa. Há bastante comida. Gosto de os ver encherem-se.
Só espero uma coisa; espero que ele não o mantenha acordado, com
a conversa dele.


-Não mantém, não, da maneira como eu me sinto.
-Parece muito moralista, não olhou para os cavalos, como ele diz
prosseguiu o dono do hotel. -Não herdou aquilo do pai. Eu
conheci-o. 0 velho Was Church, conheci-o.


Hammond grunhiu o seu acordo e, tanto para evitar a conversa,
como para observar o tempo, resolveu ir passear lá para fora, ao
anoitecer. Madison Church apareceu, vindo das traseiras, com uma
mão sobre o ombro de Meg, guiando-o.
-Este pequenito é seu? -perguntou, não esperando pela resposta. É
muito esperto, manso e engraçado. Os botões dourados pôem-no
muito elegante.
Meg tirou da boca uma substância amarela-clara e disse:
Ele deu isto a mim, patrão, siô. 0 siô diz pra eu comê isto. É apenas
um rebuçado de limão. Não lhe faz mal. Quer um? Hammond
declinou a oferta; Madison meteu a mão no pequeno saco de papel
que guardava no bolso e tirou dois rebuçados de limão, metendo
um na boca e outro na boca de Meg.
-Trago sempre disto -explicou ele.



-Não lhe dê mais -avisou Hammond. -Faz-lhe dores de barriga;
não está habituado.

0 Sol tinha-se posto e a Lua, três quartos cheia, tinha aparecido.
Uma rã coaxou à distância. 0 perfume das flores silvestres e da terra
recentemente revolvida que enchia o ar abafado, era penetrado, de
vez em quando, por um ligeiro odor de gambá, demasiado
longínquo e pouco frequente para se tornar desagradável. Os dois
hóspedes mais velhos tinham desaparecido, talvez tivessem ido
para a cama.
-Vou entrar -decidiu Ham. -Quando se deitar, pode empurrar-me
para o lado.
-Que fico eu a fazer a pé? Vou deitar-me -disse Mad. Hammond,
depois de acender uma vela, examinou a cama e apalpou o colchão.
Era de penas e os cobertores pareciam limpos. Não tinha lençóis. 0
cobertor cuidadosamente dobrado, no chão, escondia os buracos.

Hammond despiu o casaco e dobrou-o cuidadosamente, despiu as
calças apertadas e colocou-as sobre a mesma cadeira. Sentou-se na
cama e estendeu as pernas para que o seu negro lhe tirasse as botas
e as meias, depois inclinou-se para que o rapaz lhe despisse a
camisa e a camisola. Baixou as ceroulas e sentou-se outra vez para
que o rapaz lhas tirasse.
-Agora despe-te -disse a Meg, esfregando o corpo com as mãos. Para
não amachucares as tuas roupas. Não te deixo dormir com
elas. Já cheiram mal, com este tempo. Meg não usava roupas
interiores e em breve estava nu, corno o patrão. Mad começou a
despir-se e Ham ordenou a Meg que o ajudasse a descalçar as botas.
-Não vou tirar tudo -disse Mad. -Não quero que me veja todo nu.
Não tenho pêlos tão bonitos como os seus para me cobrir. Não se
importa?
-Não tire mesmo nada, se não quiser. Eu não consigo dormir, se
não me despir todo.


Madison, de camisa e ceroulas, pegou na vela e, segurando Meg
pelos ombros, examinou-o criticamente.
-Juro que este macho é bem macio e bonito -disse ele, baixando e
levantando a luz. -É melhor sem roupa, apesar dos botões
dourados, do que com ela. An, An.
-Nem uma marca, nem uma borbulha -proclamou Ham, metendo-
se entre os cobertores. -Negro, embrulha-te e deita-te ao lado da
cama. Nã o faças muito barulho.
-A cama é larga. Deixe-o dormir aqui. 0 chão é terrivelmente duro observou
Mad. -Pode dormir entre os dois, ou até ao meu lado.
-Cheira mal. Deixe-o em paz -murmurou Ham. Mal deu por Mad,
cuidadosamente para não o incomodar, apagar a vela e enfiar-se na
cama. Dormiu profundamente, agitando os braços de vez em
quando e flectindo as pernas, esquecendo-se do seu companheiro.

0 Sol tinha aflorado o horizonte quando Hammond acordou e
começou a pensar onde se encontrava. Estava só na cama, estendido
e ocupava o espaço todo. Madison Church tinha saído. Hammond
saltou da cama e agarrou as calças, procurando o saco de cabedal: o
seu dinheiro estava intacto. Dando a volta às altas costas da cama
para acordar Meg, viu Mad adormecido, no chão, com o escravo nos
braços, ambos embrulhados na mesma manta suja. Tinham as caras
encostadas, sobre uma almofada que Mad levara com ele, ao deixar
a cama.

Com o pé descalço, Ham deu um pontapé a Meg para o acordar e
ordenou-lhe que se levantasse. Os esforços do rapaz para se libertar
da manta bem enrolada, acordaram o branco que se sentou, direito,
e esfregou os olhos com os punhos, como uma criança pequena. 0
nojo que Hammond sentiu perante aquele espectáculo não o levou a
pedir urna explicação, embora fosse severo para com o escravo
sonolento que o ajudava a vestir, e chegou a dar-lhe uma bofetada
por a camisola ter ficado de lado, e pontapés quando ele lutava com


uma das botas. Era prorrogativa de um branco, supunha Ham,
dormir onde lhe apetecesse, no chão com um escravo, se quisesse,
mas Ham sentia-se confuso com a escolha de Madison.
-0 senhor dá tanto aos braços e ressona tão alto que eu não
conseguia dormir. A certa altura quase correu comigo da cama a
pontapés. Achei melhor ir para o chão, para junto do rapaz esforçou-
se Mad por explicar.
-Eu devia estar ferrado no sono. Porque não me acordou?
-Foi o que eu fiz, mas não serviu de nada. Voltava a adormecer e a
fazer o mesmo. Não teve importância. Peguei numa almofada e
tinha o negro para me aquecer.
-Mas o chão é duro e o rapaz cheira mal. Notei que ele cheirava
mal, ontem à noite, depois da viagem e de suar tanto, mas não
podia fazer nada. Hoje faço-o nadar e lavar-se, se encontrar um
ribeiro.
Entretanto Meg vestira-se e ajeitava uma meia que o patrão notou
estar torta. Sem lho ordenarem, ajoelhou-se aos pés de Mad para lhe
calçar as meias e as botas.
-Isto é que eu gostava de ter, um negrinho para me ajudar a vestir.
Como o senhor. Tratava-c, bem, se tivesse um, assim clarinho como
este.

Hammond desceu, através da cozinha que estava ligada
directamente ao edifício principal do hotel, deixando lá Meg, para
tomar o pequeno-almoço, e foi ao estábulo, mandar atrelar a
parelha. Quando voltou, encontrou Mad sozinho à mesa do
pequeno-almoço, comendo sofregamente. Hammond sentou-se em
frente dele.
-Não sabe de alguém que tenha um negrinho como o seu que
queira trocar? -perguntou Mad, com a boca cheia de comida.
-0 meu pai tem um, que eu ganhei num combate de negros, não
como este, um pouco mais novo. Talvez o trocasse, se recebesse
bastante.


-Dou em troca a égua de raça do meu pai, se a mamã me deixar.
Tenho que perguntar-lhe. Só quero chegar aos vinte e um anos ...
-0 meu pai não o trocava por um cavalo, de qualquer modo.
-Foi coberta pelo garanhão do capitão Taylor, filho de Zeno. -Não
obtendo resposta, Mad acrescentou: -talvez trocasse por uma negra,
aquela fêmea clara de que lhe falei. Gostava que a mamã a trocasse;
para se ver livre dela. Perguntamos-lhe, hem?
-Eu não posso parar. Vou para Briarfield. As ofertas para comprar
ou trocar escravos eram tão vulgares e geralmente tão inúteis que
aborreciam Hammond. Estava cansado da conversa incessante de
Mad. _ Não vai parar? -exclamou Mad, incrédulo. -A mamã vai
ficar aborrecida, e eu também. Por favor, pare. Diga que vai lá.
-Vou casar-me, já lhe disse, no próximo domingo.
-Hoje é sexta-feira ainda. Tem tempo, tem muito tempo. Pare para
ver a minha mãe e os meus negros, a tal fêmea clara. Vamos
perguntar-lhe se podemos trocá-la. A mamã não lhe mostra a idiota.
É melhor não lhe perguntar por ela, a minha irmã idiota, chamada
Clara.
Acabado o almoço, Mad insistiu em pagar a conta do hotel de
Hammond juntamente com a sua.
-Eu tenho dinheiro -disse ele. -É o meu companheiro de cama e o
meu companheiro de viagem. Eu pago.
Ficou ofendido com a recusa de Hammond, mas isso não bastou
para o conservar calado.
0 moço maneta da estrebaria tinha cuidado excelentemente dos
cavalos que tinham comido bem e sido escovados até brilhar. 0
escravo beijou o nariz de Luar enquanto a segurava para Madison
montar. A brilhante égua baia era pequena e delicada, corri um
pescoço comprido que terminava numa alta crina -era, de facto,
uma égua de raça, e o dono pertencia-lhe, fazia parte dela. Uma vez
montado, perdia a frouxidão e sentava-se erecto na sela, e as suas
mãos assumiam uma delicada autoridade sobre a boca da égua.


Hammond trepou para o seu lugar no carro e disse a Meg que se
sentasse do seu lado direito, avisando-o para ir direito e endireitar o
casaco. Madison seguia ao lado do carro, ficando para trás quando a
estrada era muito estreita ou muito sulcada.
-Porque não pára em minha casa? -gritou Mad.
-Vou casar-me, já lhe disse.
-Mas é só sexta-feira -repetiu Mad, sem obter resposta. -Não gosta
de mim, pois não? Não sei porquê. Eu gosto de si, gosto até muito
de si.
-Eu gosto de si -declarou Hammond. -Que fiz eu para pensar isso?
-Foi por causa do que fiz com o seu macho?
-Que é que fez?
-Dormi com ele, e abracei-me a ele. Meg, sem voltar a cabeça,
revirou os olhos para o patrão.
-Hum -resmungou Hammond. -julga que isso me importa? Se
quer dormir no chão, numa manta esfarrapada, com um preto que
cheira mal, pode fazê-lo,
-Então vai parar. Hammond não respondeu, Madison ficou para
trás do carro, que atravessava um terreno baixo, escassamente
arborizado, com uma estrada onde apenas cabia um veículo. Era
cortada por um ribeiro estreito, fácil de atravessar.


-Bom local para fazer nadar o seu negro, como disse -sugeriu
Madison para lhe tirar o cheiro.
Há um ribeiro maior, mais adiante -disse Ham. -É melhor. Não é
do lado onde eu vivo. Eu quero vê-lo a nadar, sem roupas -explicou
Mad.
-Não há nada para ver. É apenas um negro nu que não sabe nadar
muito bem.
Madison frustrado nos seus desejos, começou a chorar. Tentou
esconder as primeiras lágrimas que corriam pelo rosto largo, mas
não conseguiu esconder os soluços mimados que se lhes seguiram.



-Está zangado com o Mad -soluçou ele, falando na terceira pessoa.
-Não deixa o Mad fazer nada. 0 Mad gosta de si. 0 Mad quer ser seu
amigo.
Hammond refreou a parelha e desceu do carro, meio irritado com a
conduta infantil do outro, meio desejoso de satisfazer o seu
companheiro.
-Sai -ordenou a Meg -sai daí e despe-te, e mostra àquele cavalheiro

o que sabes nadar. Talvez ele se queira despir também e tirar o mau
cheiro que apanhou de ti.
Madison não fez caso da implicação, mas desmontou, atou Luar a
uma árvore, e limpou as lágrimas que tinham parado de correr. Os
soluços eram secos agora, e menos frequentes.
-Não quero despir-me, porque podia rir-se de mim. Não vai ver-me
despido -declarou.
-Não ponhas o casaco azul no chão. Dobra-o bem e coloca-o no
carro, e despacha-te. -Hammond estava impaciente com Meg que
se despia.
Agora, atira-te à água e esfrega-te bem, cabeça e tudo, e entre as
pernas, vê se tiras esse cheiro.
Meg avançou pela ribeira clara, que corria rápida, e Mad sentou-se
na margem, a observá-lo. ,
-Tá fria, tá muito fria, patrão, siô -disse Meg, apertando os braços
contra o corpo e tremendo. -Tem que ir, patrão, siô ?
-Faz o que te disse -Hammond reforçou as suas ordens. -Deita-te.
Deita-te e esfrega-te com força. Não sentes o frio.
-Eu vai-se afogá, patrão, siô. Eu vai-se afogá, de certeza.
-Faz o que eu te disse. A água, na parte mais funda, dá-te pelo rabo.
Não consegues afogar-te. Dá aos braços.
-Não o obrigue. Não quero que ele se afogue -suplicou Mad. -É
bonito de mais.
-Primeiro queria que ele se lavasse. Agora não quer, mas ele vai
lavar-se, de qualquer modo.

Meg acocorara-se na água e atirava-a por cima dos ombros com a
mão.
-Deita-te na água. Deita-te e esfrega-te bem ou levas -disse
Hammond, quebrando uma longa vara flexível que crescia como
um rebento por trás de uma árvore de chicória. -Isto vai aquecer-te.
Voltas para casa, com as pernas sem pele.
Meg mergulhou na água e começou a esfregar-se.
-Não vai fazer isso, não vai chicoteá-lo. Por favor, não faça isso,
senhor Maxwell -suplicou Med.
-Vou, se ele não obedecer -afirmou Ham, de pé, junto da margem,
com a vara na mão. -Mergulha a cabeça, vê-se bem lá em baixo.
Esfrega a carapinha e lava bem as orelhas. Quero-as bem limpas.
Devia ter trazido sabão.
-Tenho sabão em casa. A minha mãe faz sabão -interveio Mad,
tendo desaparecido o seu receio de que Meg se afogasse ou fosse
chicoteado.
-Não me serve de nada agora -respondeu Hammond. Observaram
os esforços do rapaz para se limpar e, finalmente, o amo deu-lhe
permissão para sair, em relação ao que, olhando para a vara, Meg se
sentia tão relutante como se sentira em entrar para a água Conrudo,
era o escravo do seu patrão e tinha que aceitar o que ele lhe
impunha. Começou a caminhar para fora da água, tirando com as
mãos a água do corpo. Mad puxou o rapaz para ele e ajudou-o, com
as suas mãos maiores, a secar as pernas e o corpo.
-Deixe-o rolar pela relva -disse Hammond. -Rola-te bem e seca-te e
depois volta a vestir-te.
Madison levantou-se para ver o negrinho rolar por entre as ervas.
Quando Meg vestiu as calças, Madison desatou Luar, montou e
esperou por eles, mas sem impaciência.


Depois do ribeiro, pouco mais de uma hora separava o grupo da
quinta dos Church, sem cercas e sem marcos. Madison exagerara a
sua distância de Fairfax, pois estava mais perto de vinte e cinco



milhas do que de quarenta e o Sol ainda não atingira o zénite
quando chegaram.
-Esta é a minha quinta, a de minha mãe; vivo aqui -proclamou
Madison.
-Muito boa. Algodão e tudo -disse Hammond.
-E já está a crescer -acrescentou Mad. -Além há trigo. Também já
está a crescer.
Um pequeno pomar de macieiras deformadas, em filas tortas,
estendia-se até à estrada e, por trás dele erguia-se, livre e
desprotegida, à vista dos passantes pouco frequentes, uma galáxia
de pequenos edifícios sem sombras, casas, celeiro, cabanas e
telheiros. 0 celeiro, rodeado por um recinto relvado e cercado, onde
pastavam uma vaca, duas mulas e diversos porcos, era o maior de
todos. A casa principal, de um só andar, feita de ripas não pintadas,
incluía um alpendre, átrios cobertos e alguns aditamentos que
pareciam ter sido acrescentados à medida que se tornavam
necessários ou que os meios o permitiam. Duas cabanas de toros,
possivelmente para os escravos, estavam situadas um pouco longe
de casa, e havia ainda um forno, com chaminé, uma manjedoura, e
um pequeno edifício com um pórtico gradeado, que Hammond
concluiu ser a latrina.

Uma mulher branca, descalça, mexia com urna pá um caldeirão
pendurado sobre o fogo, no pátio da frente da casa, e uma rapariga
cor de açafrão, na varanda, ergueu-se lentamente e baixou o batedor
de manteiga. Dois bebés, negros, brincavam e rolavam-se no chão
com um cão igualmente preto, demasiado gordo.
Harrimond não virou para a passagem que não era mais do que um
caminho cheio de ervas, e Madison disse:
-Onde vai? Eu vivo aqui, aqui mesmo.
0 cão gordo deixou os seus companheiros de brincadeira e avançou
agitando a cauda preguiçosamente.
-Bem, espero que voltemos a encontrar-nos -disse Hammond.


-Venha comigo. Tem de vir. Tem de vir -disse Mad, como que
aterrorizado.
-Tenho de ir andando para Briarfíeld.
-Tem de jantar, não tem? E a altura-contrapôs Mad. -E tem devera
mamã e o potro da Luar e os negros. E a mama tem de o ver, a si e
ao seu negro; quero que ela veja o gênero que eu quero.
Hammond, receando mais lágrimas, voltou para a quinta. A
mulher, de mãos nas ancas, observava o carro que se aproximava e
voltou-se, para falar com a rapariga, que deixou a batedeira e
desapareceu dentro da casa.
-Luke, oh Luke, anda cá para levares os cavalos para o celeiro gritou
ela. -Desmontem, desmontem e sentem-se até o jantar estar
pronto -disse ela, acolhendo o convidado.
-Este é o meu amigo, mamã, o melhor que eu tenho tido, mamã. É o
senhor MaxwelI, ou coisa parecida; e este é o negrinho dele, mamã.
É o género que eu quero que me compre, mama -explicou Mad,
histerícamente.
-Meu Deus, não esperava que viesse gente -explicou a
mulherzinha, prendendo uma madeixa solta, no carrapito, e
enxugando a palma da mão no vestido, antes de a estender. -Peçolhe
desculpa pelo meu aspecto. Estava a derreter gordura; acho que
é bom dia para isso.
-0 seu filho é que insistiu para eu parar. Eu queria continuar -disse
Hammond, para explicar,a sua aparição.
-Oh, eu não queria dizer isso. É bem-vindo; claro que é bem-vindo.
Estou muito contente por ter vindo. Só quero dizer que não tenho
tudo arranjado. Custa-me que me veja assim.
Luke, um negro forte, cor de ébano, de meia-idade, sofrendo de
estrabismo, apareceu e tomou conta da parelha e de Luar.
Ela tá coberta? -pergunto ao seu jovem patrão. É o que diz o capitão
Taylor, eu não vi -respondeu Mad. Entre, entre, deve estar cansado
depois de toda esta viagem -disse a senhora Church, sem fazer


ideia da distância que Hammond tinha percorrido. -Mas tem de
ficar a conversar com o Mad enquanto eu trato de tudo.
-Mas, mamã -protestou o filho, empurrando Meg para a frente,
com a mão sobre o ombro da criança. -Tem de ver o negrinho do
senhor Maxwe11. Não é amoroso? Corri botões dourados e tudo.
Mamã, mamã, olhe para ele. É o gênero que eu gostava de ter, é
mesmo assim.
-Bem podes calar-te com isso. Sabes que não posso comprar-te um
negrinho. Se comprar um negro, compro um grande que possa usar
na Eminaline. Está a perder-se -protestou a senhora Church, irias
parou para perguntar: -Quanto quer por este? Calculo que seja
caro.
-Este não está à venda mamã. Não está à venda. Eu ofereci a Luar e
a Emirialine juntos, mas o senhor Maxwell não troca -explicou
Mad.
-Oli! -A Senhora Church compreendeu. -Detesto não dar ao Mad
tudo o que ele quer e vê-lo chorar, já basta não ter pai. Mas se não
está para venda ...
Olhou para si própria, voltou-se e entrou em casa. Mad não
mostrou disposição para chorar, mas voltou-se para os dois bebés,
com os quais o cã o brincava de novo. _ Estes dois -disse ele,
levantando a mais pequena das crianças, totalmente nua, e
estendendo-a para que Hammond a observasse. -É gordinho, não
é? A Jerim e está a desmamá-lo.


Mad meteu à força um rebuçado de limão na boca do bebé.
Hammond começava a sentir fome e, como não se falava em jantar,
sugeriu:
-É melhor eu ir andando para Briarficid.
-Meu Deus -disse a senhor Church, emergindo da casa. -Vai ficar e
comer connosco. Não faz sentido ir-se embora à hora do jantar.
Nem quero ouvir.



Usava um longo vestido, limpo, cheio de goma, de algodão
vermelho e tinha-se calçado. 0 seu cabelo louro tinha sido penteado
de novo e preso no alto da cabeça. Um longo alfinete de 'peito, do
qual caíra apenas uma pequena camada de ouro, a revelar a sua
base de latão, enfeitava a parte da frente do vestido. A rápida
mudança transformara a mulher desmazelada numa senhora de
razoável beleza e ela sabia-o. Sorriu, de maneira coquete,
escondendo as mãos avermelhadas nas dobras da saia.
-Não quero incomodá-la, minha senhora. Só parei porque o seu
filho não me deixou continuar.
-Eu ficaria aborrecida, terrivelmente aborrecida, se não o tivesse
feito
-respondeu ela, baixando os olhos. -Fico muito satisfeita por gostar
do meu Madison. A maior parte das pessoas não gosta. Ele não faz
nada por m al.
Hammond não viu necessidade de negar. Porém, o potro de um ano
que Luke conduzia para a casa era outra coisa. Ali havia graça,
beleza, força, espírito, aristocracia.
Mad abriu os braços e gritou:
-Queridinho, vem cá! -e o potro ergueu as orelhas, relinchou e
escoicinhou.
De pernas compridas, como todos os potros jovens, tinha os joelhos
ossudos, e a sua manta de Inverno que o cobria parcialmente, estava
remendada e roída pelas traças; mas, na formação dos quartos, na
curta distância do pelvis até à cernelha na medida da cilha, no
comprimento do pescoço esguio, e na postura das espáduas,
Hammond viu um conjunto de potência e velocidade. Andou à
volta do potro, aproximou-se cuidadosamente dele e percorreu com
a mão uma pata da frente. 0 cão gordo ressentiu-se da interferência
de um estranho na propriedade da família e rosnou um aviso, que
fez Mad repreendê-lo suavemente e dizer-lhe que se deitasse. 0 cão
apenas olhou para ele e agitou a cauda.


-Não há dúvida que é um bonito cavalo. Gostava dever como se
move. Luke, sem ordens, levou o potro a cinquenta i ardas de
distância e fê-lo regressar, após o que Madison subiu para a garupa
nua e, guiando-o com a crina, galopou ao acaso pelo pátio.
Deslizando para o chão, abraçou o pescoço do potro e beijou-o nas
espáduas.
-A mamã diz que esta estrela na testa há-de cintilar. Acha que sim?
-Vai diminuir de tamanho -opinou Hammond. -Mas não faz
diferença. Tem os ossos.
-Mas estas meias brancas ficam? Não as vai perder?
-Essas ficam; mas isso que interessa? Claro que gostamos que eles
sejam bonitos, mas não é a cor que faz um cavalo. São os ossos que
interessam, e ossos tem ele.
-Leva-o para o celeiro, Luke. Não o leves para a pastagem outra
vez. Põe-o no celeiro. Ouviste? -ordenou Mad ao escravo.
Luke olhou para o patrão e entortou os olhos três vezes.
-Põe no celeiro, patrão, siô.
-0 Mad é tal e qual o Wash Church -declarou a mulher. -Louco por
cavalos. Toda a vida desejou ter um puro-sangue e quando teve
aquela égua, atirou-se ao poço. Oh, bem; não tem importância, acho
eu; agora ela é do Mad e ele encanta-se tanto com ela como o pai.
Encaminhou-se para casa, com eles atrás. A porta abria
directamente para a sala, através da qual o grupo passou para a
pequena casa de jantar. Tinham disposto a louça ordinária para
quatro pessoas, em volta da mesa redonda que tinha um rodízio
partido, o que a fazia oscilar.

-Não há muito -desculpou-se a senhora Church. -Sente-se. Devia
ter sido avisada da sua vinda. Nem sequer estava certa de que o
Mad vinha. Tem de desculpar.

A mesa estava carregada de comida, presunto e ovos, galinha frita,
batatas cozidas, batata-doce, vegetais cozidos, pão de milho, i arros


de leite, geleias, doces e picles. Mad sentou-se entre a mãe e
Hammond e começou imediatamente a empanturrar-se, enquanto a
mulher, na sua ansiedade por que Hammond se servisse e comesse

o que devia, mal conseguia comer.
-Não come quase nada -disse a senhora Church a Hammond. Lamento
que não haja melhor.
-Há muito, minha senhora; muito e do melhor que tenho comido -o
convidado dizia literalmente a verdade.
-Tem de desculpar o meu Mad por comer tanto. Agora tem muito
bom apetite. Costumava ser um passarinho a comer. Nunca comia o
suficiente, só para se aguentar. Está a parecer-se com o pai; Wash
Church era bom a comer. Gostava de boa comida.
-Eu disse-lhe que aqui se comia melhor do que em Fairfax. -Mad
fez uma pausa para falar. -Não acha? -perguntou a Hammond que
confirmou a sua opinião.
-Quando lhe mostrámos os negros, o Mad não lhe mostrou a fêmea
dele. Dá uma volta, Etrimaline, e deixa o senhor ver-te -ordenou a
senhora Church. -0 Mad não gosta dela, mas eu acho-a muito
jeitosa; não acha, senhor Maxwell? Não sei donde veio, é a única
clara que a Jermie teve. Penso que fosse o Wash Church, mas nunca
o culpei, nunca na vida.
-E um tipo de fêmea muito útil -comentou Hammond, mas não
especificou para quê.
-Tive três filhos idiotas, além do Mad, e parei. Dois deles
morreram, mas tive-os. Tenho uma viva, no quarto com a avó. Mas
não quis mais filhos e não tive mais. Por isso não podia censurar o
Wash Church por qualquer coisa que ele fizesse. Penso que é por
isso que esta é clara e as outras são todas pretas. E também não
culpava o Mad por isso. já é suficientemente crescido e não lhe faria
mal, se ele a pudesse suportar, mas não pode.
-Talvez o Luke -sugeriu Hammond.

-A Jenny diz que o Luke anda a falhar. Além disso, é o pai dela, diz
que é, pelo menos. Se cá ficasse esta noite... -delicadamente a
senhora Church não terminou a frase.
-Não, senhora! Não, senhora! Mamã@ -objectou Mad. Ele vai
dormir comigo na cama, ele e o pretinho. 0 macho é limpo. Lavámolo.
-Eu não posso ficar, Mad. Vim só cá comer para que não chorasse.
Não compreende? Não posso.
-Gosta muito do queridinho, não gosta? -perguntou Mad.
-É o potro mais bonito que eu já vi. -A aprovação de Hammond
não era fingida. -já lhe disse que gosto dele.
-Então oiça. Posso, mamã, posso? Dou-lhe o Queridinho se ficar,
dou-lhe o Queridinho. Posso, Mamã?
-Que diria o teu pai? 0 seu potro puro-sangue? -A senhora Church
hesitou e olhou para o filho. -Está bem, está bem, não chores. Não
chores, Mad -suplicou ela. -Ele é teu. Faz como quiseres.
-Não, senhora. Agradeço na mesma. Tenho de ir-me embora e
agradecia-lhe que mandasse vir a minha parelha. Agradeço imenso,
minha senhora, este óptimo jantar.


Hammond levantou-se da mesa, decidido a livrar-se o mais
depressa possível, da estranha paixão do seu anfitrião. Pairava
sobre aquele local uma aura de indefinivel pecado que o fazia
sentir-se pouco à vontade e ansioso por partir.
-Não pode ír-se embora ainda -argumentou Mad. -Tem de esperar
que o seu macho coma. Ele tem fome.
-Penso que ele já comeu. Agradeço-lhe por lhe arranjar comida.
Hammond resignou-se a esperar. Mad mandou vir Meg da porta,
onde ele esparava, impaciente, fê-lo passar pela sala, onde
Hammond aguardava, para a casa de jantar, onde o sentou no lugar
donde ele próprio se levantara. Amontoou comida das diversas
travessas para o seu prato sujo e disse:
-Come bastante.



-Sim, siô, patrão, siô -respondeu Meg, embaraçado por comer na
casa de jantar de um branco. Sentou-se, muito rígido e erecto, na
cadeira que era demasiado baixa para ele, e tentou manipular o
garfo como vira o patrão fazer.
-Preferia que viesse para aqui e parasse de servir esse negro -disse
Ham, pouco à vontade. -Um branco; não é próprio.
-Gosto de ver aquilo comer -respondeu Mad. Meg era um
brinquedo animado para Mad, que era suficientemente branco no
seu esquema de vida para recear qualquer rebaixamento da sua
posição por se dedicar ao seu capricho de servir o rapaz à mesa. 0
emprego do pronome demonstrativo revelava que diferenciava o
escravo de um homem.
0 estômago de Meg já não aguentava mais comida e por isso parou
de comer, mas não sabia se podia sair da mesa.
Hammond estava de pé, andando de um lado para o outro, e o
carro estava à espera. Agradeceu à dona da casa e despediu-se dela
enquanto saía. Meg trepou para o assento do carro.
Mad agarrou na mão do seu convidado e envolveu-lhe o corpo com

o braço esquerdo. Formaram-se lágrimas nos seus olhos. Quando
Hammond conseguiu libertar-se do seu abraço e tomou o seu lugar
no carro. Mad desatou a soluçar.
-Nunca mais volto a vê-lo -choramingou ele. -Ele é meu amigo e
vai-se embora, vai-se embora. Vai buscar o Queridinho. Quero que
ele fique com o Queridinho para se lembrar de mim. Vou dar-lho,
mesmo que ele não queira ficar a dormir cá. Luke, disse-te que
fosses buscar o Queridinho.
Hammond não esperou. Não valia a pena dizer que não ao jovem. 0
rosto de Mad estava convulsionado e as lágrimas corriam-lhe pelo
rosto em caudal, à medida que o seu melhor amigo se afastava, sem
levar o seu presente. Hammond ouviu os vãos esforços da mãe para
consolar o filho.
-Patrão, siô -perguntou Meg -, purque tá o siô a chorá?


-Não tens nada com isso -respondeu o patrão. -É assim mesmo,
Endireita esse casaco e senta-te como deve ser, e pára de olhar para
trás.

Capitulo vigésimo segundo

Hammond chegou a Briarfield ao fim da tarde. Podia ter adiado a
sua saída por mais um dia, mas a ocasião para a viagem era tão
adequada que não lamentava a perda de tempo. Poderia ter ficado
em Fairfax onde o hotel e a comida eram melhores do que os que
iria encontrar em Briarfield. Ainda havia luz suficiente para
continuar a sua viagem até Crowfoot, mas, de certo modo, sentia-se
relutante em chegar ao seu destino.

Não conhecia ninguém em Briarfield, exceptuando o seu contacto,
na infância, com Dick Woodford e evitava encontrar-se com ele para
não ser obrigado a desistir do seu quarto no hotel para dormir com

o seu futuro cunhado. Desejava ter uma cama só para si e, sendo o
único hóspede da Casa Maddox, conseguiu ter uma.
0 estábulo ficava do outro lado da rua, em frente do hotel, e
pertencia a outro dono. Hammond foi até lá, para instalar os
cavalos. 0 negro alto e magro que estava encarregado do estábulo
era tão lânguido e preguiçoso que Hammond resolveu ficar ao pé
dele para ver se os cavalos eram devidamente alimentados e tinham
uma boa cama para passar a noite.


-Onde está o teu patrão? -perguntou Hammond. -Parece-me
estranho, deixarem um malandro indolente como tu a tomar conta
dos cavalos de um cavalheiro.
-Eu tá alugado-explicou o escravo. -Tu conhece eu, siô. Eu é nêgo
do major Woodford de Crowfoot. Ele aluga eu ao patrão Jackson
que tem este estábulo, siô. Eu viu o siô em Crowfoot, faz tempo.
-Hei-de dizer ao maior Woodford que não prestas para nada. Estás
a precisar de chicote. É o que precisas, se não te apressas com essa
aveia.
-Não5 siô; não siô, patrão. Não diz isso ao patrão Jackson. Eu traz
aveia. 0 que o siô dizê ao patrão majó não faz nada. Ele não vai fazê
nada. Eu tá hipotecado, parece.
-Então conheces o senhor Dick Woodford. Onde é que eu posso
encontrá-lo?
-Eu não sabe bem, siô, onde tá patrão Dick. Eu viu ele outro dia.
Talvez reja em Crowfoot.
-Ele fica em Briarfield -disse Hammond.
-Talvez fique, talvez não -disse o negro, encolhendo os ombros. -0
patrão Charles não tá em casa; ele fugiu.
-Já voltou, agora.
0 negro, não ousando contradizer um branco, encolheu de novo os
ombros.
-Aquele nêgo com botão d'ouro é teu, siô? -perguntou ele. -Não é
muito grande. Porque tu não troca ele por um grande? Um como
eu? Tu anda sempre dum lado pró outro; eu gosta de andá dum
lado pró outro.
Ah, meu filho da mãe preguiçoso! Se fosses meu, dava-te de comer
aos meus porcos. Vê se tens juízo!
-Sim, siô; sim, siô! -0 negro riu-se -alto com a ideia, que não lhe era
permitido levar a mal. -0 siô dorme no hotel? Eu tem uma mulhé ...

-Preta e malcheirosa, calculo eu.


-Não siô, patrão. Eu lava bem ela. Quê que eu traga ela? Custa só
um dólar.
-Não vale a pena -disse Hammond, declinando tal prazer.
-Cinquenta cêntimos, siô?
-Nem por vinte e cinco -disse Hammond, com desdém. -Mete
mais palha nessas camas, o dobro do que lá puseste.
-0 dinheiro não é para mim. 0 dinheiro é pró patrão majó. Há
muitos ,cavalheiro que usa ela.
-Quero essa parelha limpa e pronta logo de manhã, ao nascer do
Sol. Ouviste? -disse Hamniond ao rapaz, regressando ao hotel.
Levou Meg à cozinha, onde a cozinheira gorda e preta ficou
desolada pela recusa do rapaz, que estava empaturrado com a
comida dos Church, em comer o que ela lhe oferecia.
-Tu é esperto! -informou a cozinheira, quando o patrão de Meg se
foi embora. -Tu é muito esperto! Onde é que teu patrão foi buscá
tu?
-0 meu patrão fez eu à miss Lucrécia Bórgia. Ela é minha mãe declarou
Meg orgulhosamente. -Eu é o nêgo do patrão, sempre
nêgo dele.
-É mêrno? Ele trata tu bem, parece. Veste tu bem, com botão
dourado e tudo.
-Mas às vezes pendura eu e dá c'o chicote. Quase todas as semana;
e depois de desancá eu bem, esfrega eu com pimenta e arde muito.
Tá e doê agora, as minhas costa e o meu rabo -mentiu Meg, para se
gabar, juntando mentira após mentira, para tornar a história
melhor.
-Proque é que teu patrão desanca tu assim? Parece um siô muito
bondoso. Tu é mau e faz as coisas mal?
As perguntas da gorda cozinheira envolviam simultaneamente
compaixão e reprovação.
-Eu anda atrás de Ellen. Por isso o patrão bate tanto a eu. Ellen é a
fêmea clara do patrão. Ela dorme cum ele, mêrno na cama dele.



-Tu anda atrás dela? Tu não tem tamanho prá andá atrás duma
pulga. Meg duvidava que a cozinheira acreditasse totalmente na
sua história.
-Além disso -acrescentou, para embelezar -, eu rouba o uísque do
patrão e bebe ele. Eu fica mêrno bêbado. Pra curá meu reumatismo.
-Tu tem reumatismo? Ai, isso é mau -disse com pena a cozinheira,
meio crédula. -E é tão pequeno?
-Oh, eu passa ele, passa ele a um nêgo pequeno que o patrão deu a
eu pra passá. E ao outro dói, não é a mim. Eu só bebe os toddy.
A cozinheira fez estalar os lábios, cheia de pena e abanou a cabeça.
-E eu mente. Mente muita ao patrão. Foi por isso que ele pendurou
eu da outra vez. É por isso que eu tem cicatrizes p'1o corpo todo.
Mas geralmente o patrão não percebe que eu mente. 0 patrão é
palerma.
-Não deves falá assim do teu patrão. Ele ouve tu. E depois ...
-Não faz mal. 0 patrão não faz nada agora. Vai vendê eu, vai vendê
eu, logo que volte pró casa, depois de a gente se casá.
-Depois de tu te casá? Coin'é isso?
-Nós vai casá. É por isso que ele leva eu. Utima sinhora branca.
Quando voltá, vai vendê eu ao patrão Mad. Ele é pió. Tá sempre a
baté nos nêgo. Todas as manhãs ao pequeno-almoço, patrão Mad
chicoteia eles, até havê sangue por to'dá parte. Parte os ossos deles e
tudo. E faz eles passá fome, quase não dá comé p'ra eles. E faz eles
trabalhá!


Lágrimas de medo e de autocompaixão corríam pelas suas faces e
molharam-lhe a manga e todo o seu corpo estremecia de terror.
-0 patrão Mad diz que vai dobrá eu nem que parta eu todo aos
bocado. Diz ele. Diz que vai dá a eu uma dose de chicote todas as
manhã até eu tá curado. Eu vai fugi. É isso que vai fazê. Eu vai fugi
pr'áqui. Não é muito longe. Tu escondes eu e dás comê p'ra eu até
patrão Mad não podê apanhá eu? Eu foge mêrno -'áqui.



-Ai isso não, sió! Não precisa fugir pr'áqui! -A prudência substituira
a compaixão nos sentimentos da cozinheira. -Se os brancos bate a ti,
eles tem razão pra batê. Os branco sabe o que faz. Tu és deles. Eles
faz o que quizê. Não siô. Eu não concorda. Mêrno que o teu novo
patrão dá cabo ti, tu não foge pr'áqui. 0 meu rabo tá inteiro e eu
quero conservá ele inteiro. An, an.
Não, siô!


Hammond, tendo comido a sua ceia, abriu a porta para chamar o
seu escravo.
-Estiveste a chorar. Dói-te alguma coisa? -perguntou ele, levando o
rapaz à sua frente, com a mão sobre o ombro dele.
-Ela bateu a mim. Aquela nêga bateu a mim. Eu não fez nada alegou
Meg, estendendo os lábios para a frente.
-Calculo que ela tenha tido motivos. Não te incomodes a desculpar-
te
-disse o patrão, pondo de parte a acusação. -Ela deu-te de comer,
não deu? Isso basta.
0 rapaz admitiu que tinha comido. Não tendo nada que fazer,
Hammond pôs-se a passear pelo caminho arborizado, sob a
cobertura das árvores, olhando para a direita e para a esquerda.
Nada mais viu, além de urna rapariga negra que levava à pastagem
uma vaca, seguida do seu vitelo.
0 dono do hotel tinha puxado uma cadeira para o passeio e sentou-
se no topo das costas com as pernas estendidas.
-Mande o seu rapaz ir buscar uma cadeira e ponha-se à vontade. É
ainda muito cedo para ir para a cama -disse ele. -Belo tempo.
-Bem bom. Está a aquecer -concordou Hammond. Hesitou e depois
mandou Meg ir buscar uma cadeira para ele. Sentou-se e disse ao
rapaz que lhe tirasse as botas, que começavam a magoar-lhe os pés.
Feito isto, Meg sentou-se na ponta do passeio.
-Donde vem? -perguntou o dono do hotel.
-Dos lados de Benson. Da plantação do meu pai.



-Plantador, hem? Logo vi que era um cavalheiro, com um carro,
unia boa parelha, um negro todo enfeitado, e tudo o resto. E tem
outros penso eu.
Hammond admitiu ter outros escravos.
-Algodão?
-Todo plantado -disse Hammond.
-Tem chovido bastante. Aqui estão atrasadas as plantações.
-Talvez conheça o Richard Woodford. Está a estudar leis. já era
suficientemente tarde para Hammond perguntar por ele.
-Refere-se ao Dick? 0 filho do major Woodford? Bem, andava a
estudar, julgo eu. já aqui não está.
-Não está?
-Partiu. Deu-lhe para pregar, ao que ouvi dizer. Tornou-se
religioso. É muito extravagante. Penso que são os que fazem
melhores pregadores. Tem boa figura e é bastante esperto, mas não
tem juízo nenhum. 0 irmão mais novo fugiu. Não se sabe para onde
foi. Foi duro para o velho.
-0 Charles já voltou -informou Hammond. -Esteve em minha casa, a
fazer-me uma visita.
-Não ouvi dizer isso -disse o homem do hotel. -Eu oiço quase tudo


o que se passa, mas não ouvi dizer isso. Não ouvi dizer.
-Voltou há cerca de um mês, mais ou menos. julgo que o pai o
tenha bem preso, depois de ter fugido.
-0 meu irmão, que mora a cerca de três milhas, tem um ou talvez
mesmo dois de que gostava de se ver livre. Não quer comprar? disse
o dono do hotel, mudando de assunto.
-0 quê?
-Negros. Pensei que soubesse o que eu queria dizer.
-Tenho a casa cheia deles -disse Hammond.
-Não está interessado, hem? Os do meu irmão são muito bons.
Mestiços novos. Grandes e perfeitos.
-Não trago dinheiro nenhum comigo -disse Hammond.

-Isso não tem importância, penso eu, se vai casar-se com uma
Woodford, não é que o crédito dos Woodford seja bom, mas é o
nome da família.
0 Sime ficaria com a sua nota de compra, por três ou seis meses. 0
senhor é um cavalheiro, nota-se logo.
-É a última coisa que eu quero, mais negros -declarou Hammond,
sem convicção, tanto para o interlocutor como para si próprio. Mestiços?
E perfeitos?
-E baratos. Sime quer ver-se livre deles, mas não os quer vender a
um negreiro. Os negreiros estão sempre a passar e a querer
comprar-lhos. 0 Sime não vende. São dele, mesmo dele, feitos por
ele próprio, e quer vê-los numa boa casa, quer saber para onde vão.
-Não posso comprá-los -suspirou Hammond. -Acho que não. No
próximo Outono, depois da colheita do algodão, hei-de vir vê-los.

Os escravos para venda eram, na sua maioria, um grupo
lamentável, e, só vendo o que lhes era oferecido é que os Maxwell
poderiam recrutar um aditamento ocasional à criadagem de
Falconhurst.
-Pague depois da colheita. Está certo. 0 Sime não precisa do
dinheiro. Só precisa de se ver livre dos machos. A mulher dele, a
nova mulher dele, não os pode suportar por serem dele. Mata-os à
fome e obriga-o a castigá-los e está sempre a queixar-se deles, a
arranjar sarilhos a todo o momento. É muito boa para os pretos, mas
não para estes. Ameaça deixá-lo se ele não os vender.
-Que tamanho têm eles? -Hammond não podia conter o seu
interesse.
-Não é que eu os queira.
-Oli, um deles já é crescido, tem quinze ou dezasseis anos, grande,
com dezassete palmos, mais ou menos. 0 outro é o segundo da
fêmea dele, tem cerca de catorze anos, aproximadamente. E tem
pele de branco, excepto quanto aos olhos. Tem olhos pretos. E o
Sime também tem olhos pretos. Mal se pode distinguir de um


branco, a não ser pelas unhas e pelas raízes do cabelo. Não saiu
nada negro.
-Os brancos fogem e nunca mais os conseguimos apanhar objectou
Ham. -Claro, os nossos nunca fogem.
-0 negócio está parado, se não comprava-os, para ajudar o Sime a
resolver o problema dele. Claro, ele prefere que estes se vão mesmo
embora, que saiam da região, pelo menos é o que a mulher quer.
Não sei o que fazia com eles. Vendia-os outra vez, acho eu, se me
pagassem bem.
-Eu não ando a comprar negros, tanto mais que vou casar-me. Não
ia levar uma senhora para casa, dentro de um carro cheio de negros
estranhos.
-Esses, ninguém diz que são negros, a não ser que a gente diga, tão
humanos parecem. Era melhor ir vê-los. De manhã, mando o rapaz
do Jackson, ali ao estábulo, buscar o Sime. Não há problemas, o
rapaz pouco mais tem de fazer depois de dar de comer às éguas, e o
Jackson não se importa de que o utilize.

Também já eram horas de deitar para o dono do hotel, mas
continuou sentado, à espera do escravo que estava atrasado no seu
regresso ao estábulo onde dormia. Quando ele chegou, descendo
relaxadamente a rua, o homem do hotel chamou-o e endireitou-se
na cadeira.
-Sabes onde mora o senhor Sime Maddox?
0 negro agitou o braço no sentido do sul e respondeu:
-Sim, siô. Vive além, naqueles sítio. Vai-se andando, vai-se
andando, té virá pra este lado, patrão, siô. Pode ir perguntando p'1o
caminho.
-Eu não vou. Tu é que vais -explicou o branco. -Quero que lá vás
ao nascer do Sol; mais tarde não. Diz ao senhor Sime que venha cá
depressa e traga os dois machos brancos que tem para vender.
Percebeste? Que traga os dois machos brancos e largue tudo o que
estiver a fazer.


0 negro coçou a cabeça.
-0 siô quê a parelha de manhã cedo. Não pode ir ...
-já te disse que fosses logo de madrugada e não atreles a parelha
sem eu te dizer. Deixa os cavalos em paz. Percebeste?


Hammond acordou cedo e ficou aborrecido com o atraso do
pequeno-almoço, que o dono do hotel mandara retardar. Ficou
ainda mais irritado por a sua parelha não estar pronta e por não
conseguir encontrar o moço da estrebaria.
0 dono do hotel aceitou as queixas do hóspede e explicou:
-Deve estar a chegar a todo o momento. Apronta os seus cavalos
rapidamente, assim que chegar. Foi, por ordem minha, buscar o
meu irmão e dizer-lhe que trouxesse aqueles mestiços para o senhor
os ver.
-já lhe disse que não vou comprar negros -protestou Hammond. Para
que o mandou lá? 0 que eu quero é a parelha pronta.
-Só queria que os visse. Talvez conheça alguém... -disse Maddox,
em tom persuasivo. -Não pensei que os comprasse; mas pode vêlos,
não pode?
Deixou-se cair numa cadeira, complacentemente, enquanto
Hammond coxeava até à porta, olhava para a estrada e voltava a
esperar.
-Não há outro rapaz, não há mais ninguém que possa atrelar o
carro?
-perguntou Hammond, após o que lhe pareceu uma espera
demasiado longa. 0 Sol já estava completamente acima do
horizonte. -Não se preocupe a dar-lhes de comer. Dou-lhes comida
quando lá chegar.
-Ele vem ali -anunciou Meg. -Vem um siô a cavalo, patrão, siô.
-Deve ser o tal branco. 0 negro vem mais devagar atrás,
naturalmente. Hammond não se dirigia a ninguém em especial, mas
foi-se dirigindo para a porta.



Mas o cavaleiro que Meg vira era o escravo, com dois outros
montados atrás, no cavalo estrábico que trotou para o estábulo. Dois
garotos esfarrapados e desorientados deslizaram para o chão e,
depois de o negro ter atado o cavalo a um poste, seguiram-no pela
estrada até ao hotel, mesmo pegados a ele.
-Eu disse-te que queria a minha parelha pronta logo de madrugada
-disse Hammond, indo ao encontro do escravo. -Eu próprio te vou
desancar. Deixa lá a comida. Atrela os cavalos.
-Sim, siô; sim, siô-confirmou o negro, cheio de confiança. -0 patrão
Eph, siô, mandou eu. Patrão Eph diz pra eu ir. Eu trata dos cavalo,
siô, é pra já, sim siô. Não é como eu diz, patrão Eph?
-Onde está o senhor Sime? Eu disse-te para o ires chamar interrompeu
o dono do hotel.
-Sim, siô, eu disse a ele, sim, siô patrão. 0 patrão Sime tava todo a
tremê. Tá muito doente, parece. Mandou estes dois macho. Diz pró
siô vendê eles, siô -explicou o negro alto. -A Sinhora Sime diz pró
siô vendê eles. Ela diz que mata eles si eles volta, mata eles. E tava a
falá verdade; mata mêmo. Ela diz pra vendê eles, vendê mêmo eles.
E tava a falá verdade.

Os dois rapazes estavam indiferentes à ameaça. Deixaram-se ficar
sobre as ervas para lá da estrada, deslumbrados pelo cenário não
habitual, o mais novo agarrando-se o mais que podia às calças do
mais velho. A brancura dos seus rostos não se notava através do
tom queimado do sol e da sujidade. A semelhança das suas feições e
dos seus olhos, tão negros que nem pareciam ter pupilas,
proclamavam o seu parentesco. _ Aí os tem, tal como eu lhe disse,
perfeitos, uns mestiços bem jeitosos. Que tal os acha? Ouviu o que
disse a mulher do Sime? Para eu os vender -disse o dono do hotel.

Hammond saiu da estrada e passou a mão superficialmente sobre
os rapazes, abriu-lhes as bocas e observou-lhes os dentes.


-Escanzelados -foi a sua opinião, Pressentia uma pechincha.
-Não lhes davam de comer, creio eu. Aquela mulher, Sime fez
asneira. Podem engordar. São bastante robustos.
-Quanto é que ele pede, sabe? Ham estava suficientemente
interessado para inquirir, mas sem mostrar entusiasmo.
-0 maior deve custar uns setecentos -calculou o vendedor. -0 outro
uns quatrocentos e cinquenta ou quinhentos. -Depois, notando a
falta de interesse de Hammond, acrescentou: -Mil pelos dois."Paga
mil e leva os dois. 0 Sime vai ficar aborrecido, mas pode ficar com
eles.
-Porque estás aí parado -perguntou Hammond ao moço da
estrebaria. -Prepara a minha parelha. E melhor dares-lhe de comer
primeiro, já se está a fazer tarde.
0 negro acusou a recepção da ordem corri um "slim siô; sim sio", e
afastou-se preguiçosamente, olhando por cima do ombro para os
negociantes.
-Deviam valer isso, sem dúvida; mas quanto dá? Ouviu o que disse
a mulher do Sime. Não tenho coragem para os mandar de volta.
-Não estou a oferecer nada, mas, por quinhentos pelos dois, já
podia vê-los, só vê-los, repare. Não os quero, na realidade -propôs
Hammond, com aparente indiferença.
-Olhe, setecentos e cinquenta pelo par, e são de graça. Qualquer
negreiro dava mais por eles.
-Então venda-os a um negreiro. julgava que o seu irmão não queria
negócio com eles.
-E não quer; mas eu não me importo. Sou eu que estou a vendê-los.
São filhos dele, não são meus.
-Aquele negro do major Woodford é um preguiçoso. Todos os
trabalhadores dele serão assim? Não admira que ele não medre.
Maddox notou a impaciência de Hammond para com o moço e
sentiu que podia estragar-lhe o negócio, tal como Hammond
pretendia que ele pensasse.


-Vamos dividir a meias. Seiscentos e vinte e cinco? A meio caminho
entre quinhentos e setecentos e cinquenta -propôs Maddox. -Dois
mestiços por seiscentos e vinte e cinco, é quase roubá-los.
-Por esse preço não, não quero. De qualquer modo eu nem quero os
negros. Talvez os venha ver quando chegar o Outono e o senhor os
tiver engordado. Agora não.
-Se a mulher do Sime não começar a dar-lhes de comer, não vivem
até ao Outono -disse Maddox, concordando que os rapazes
estavam mal nutridos. -Bem, se não oferece mais, coloca-me num
beco sem saída. -
Maddox suspirou. -Acho que vou aceitar a sua oferta.
-Eu não fiz oferta, só disse que os ia observar. Se os achar espertos e
perfeitos, talvez dê os quinhentos. Hammond estava concentrado
no seu negócio, mais interessado em conseguir uma pechincha do
que em casar-se no dia seguinte.
-Diz àquele negro que me traga um chicote dos cavalos -ordenou
Maddox a Meg. -Eu já os esperto.
-Por favô, siô, patrão. Eu tá esperto. Não dá co chicote. Que quê sió
que eu faz? -disse o rapaz mais velho, falando pela primeira vez.
-Não é preciso chicote -apoiou Hammond. -Não quero vê-los mexer
à chicotada. Qualquer negro fica esperto quando está a ser
chicoteado. Quero vê-los ao natural.
Já tinha decidido comprar os mestiços, se não lhes encontrasse
qualquer defeito. A sua única preocupação era encontrar um
pretexto para tirar mais cinquenta dólares ao preço, o que lhe
parecia duvidoso.
-Quê que eu corra e salta? -perguntou o mais velho dos rapazes,
encorajado pela moderação do branco, e demonstrando que já tinha
sido observado antes.
-Quero que fiques quieto -respondeu o comprador. Deu um
pontapé numa pedra da estrada, e, apanhando-a no ar, atirou-a com
toda a força. -Agora vai buscar.


0 rapaz desatou a correr e recuperou a pedra, com agilidade.
-Salta -ordenou Hammond e o rapaz saltou, desajeitadamente, por
três vezes.
-Agora o outro -disse Hammond, atirando a pedra de novo.
0 rapaz mais pequeno avançou a correr, aumentando de vez em
quando a velocidade, para mostrar do que era capaz; mas, na sua
pressa e ansiedade de ultrapassar o irmão, caiu e feriu-se num
joelho. Devido à ferida, foi obrigado a regressar a coxear, esperando
um castigo que não recebeu.
Em vez disso, Hammond inclinou-se e examinou-lhe o joelho.
-Não é nada -opinou. -Agora salta. Salta o mais que puderes.
0 rapaz esforçou-se por saltar, mas a ferida não lhe permitia que
fizesse muito.
-Ele sabe saltar, salta bem. Está só a fingir -disse Maddox receando
que a venda tivesse falhado. -Diz àquele negro que me traga o
chicote.
-Não vale apena. Ele estava a tentar-disse Hammond, desculpando

o rapaz. -Eu também tenho uma perna aleijada. Vamos lá para
dentro ou para o celeiro. Quero despi-los e ver se estão quebrados,
ou coisa parecida.
Maddox conduzíu-os ao hotel e, no escritório, deu ordens aos
rapazes para se despirem. 0 mais velho puxou as calças e tirou-as
com um pontapé e depois despiu a camisa. Uma vez despido,
arrancou as roupas ao irmão. A pele dos sítios que andavam
cobertos era branca, com a brancura do marfim que os seus olhos
negros preconizavam, mas nada tinham de africano. A cor dos
troncos e das coxas fazia um forte contraste com os rostos, os
pescoços e a parte de baixo das pernas queimados pelo sol.
-São feios, não são? Têm o ventre,inchado e brilhante, como as
lagartas. Não é saudável -disse Hammond estremecendo. -E estão
magríssimos, parecem gafanhotos. E estou a ver aqui uma coisa nas
costas. Este rapaz foi chicoteado, ao que parece -disse Hammond,
esfregando as marcas verticais que atravessavam as costas do rapaz,

num esforço fútil para as apagar. As feridas eram superficiais e a
pele não tinha sido rasgada.
-Não quero negros com marcas de chicote. Os nossos em
Falconhurst estão limpos. Que fizeste tu, rapaz? Porque foste
chicoteado?
0 rapaz olhou para ele, num silêncio assustado, e Hammond repetiu
a pergunta, abanando a criança pelos ombros. 0 rapaz abriu a boca
corno se fosse falar e desatou a chorar.
0 mais velho tentou responder à pergunta:
-Foi por roubá, roubá pão. A Miss diz que ele comia de mais e fez o
patrão Sime chicoteá ele.
-Quem te perguntou? -disse Hammond, fazendo-o calar. -Fala
quando te mandarem. Vistam-se outra vez, essa roupa não passa de
farrapos, os dois. Têm nomes?
-Sim, siô, patrão -respondeu o rapaz, o mais sucintamente possível.
-Então?
-Eu chama-se Ás, siô, patrão. Ele chama-se Trunfo.
-Podiam ser piores -disse Hammond.
-Calculei que os quisesse, depois de os ver -disse Maddox,
tentando fechar o negócio. -0 rapaz cura-se da ferida, uma a duas
semanas, já ri e se nota.
-Diz que fica com a minha nota até eu chegar a casa e lhe mandar o
dinheiro? Só tenho comigo sessenta dólares em ouro que possa
dispensar.
Hammond contou o seu dinheiro e o vendedor aceitou as suas
condições.
-Tenho que os deixar aqui até voltar, já casado. Não posso ir casar-
me num carro cheio de pretos.
-Mas tenho que lhe debitar a despesa -especificou o estalajadeiro. Deste
tamanho comem bem e ainda por cima estes andam
esfomeados. Não é pelo Sime; ele dava-lhes de comer. É a mulher
dele.



-Tem que me garantir que fica com eles. Eles são novos e podem
fugir.
0 senhor fica responsável.
-Eu agrilho-os à cama. Não fogem e dou-lhes bastante de comer prometeu
o dono do hotel.
-E lava-os? Não há aí ninguém que os possa lavar? Estão nojentos. 0
rapaz do estábulo ainda os punha piores. Aquela fêmea da cozinha.
Não pode lavá-los?
-Custa-lhe dez cêntimos. Dez cêntimos cada um -especificou
Maddox. Abriu a porta e chamou: -Marta, Marta!
-Faça os seus papéis, senhor -pediu Hammond.
-Não percebo nada de fazer papéis. Importa-se de os fazer? Eu
assino.
0 advogado Rogers; pode fazê-los, por meio dólar, se o senhor não
sabe.
-Eu sei, bastante bem, até -disse Hammond. -Não escrevo lá muito
bem, mas lê-se.
Quando Marta apareceu à porta, Maddox designou-lhe a sua tarefa.
-Lava estes dois rapazes -disse ele. -Lava-os bem. Trata um de
cada vez. Chama o Fred, se precisares de os agarrar. Nunca foram
lavados, desconfio.
-Eu lava eles bem. Temas carapinha comprida; precisa cortásugeriu
a mulher.
-Não é carapinha, é cabelo; cabelo como o dos brancos. Penso que
este cavalheiro deseja que o conservem, desde que esteja limpo.
-Deixe-o ficar -ordenou Ham -, mas lave-o bem. Tem sabão?
-Tem sabonete e água quente, ficam limpo e sem cheirá durante um
mês inteiro.
Marta agarrou Ás pelo pescoço e empurrou-o à sua frente; quanto a
Trunfo, estendeu o braço e levou-o agarrado pelo ombro.
-E queima os trapos deles. Vou comprar-lhes roupa nova -gritoulhe
Hammond.



-Com botões dourado e tudo? -perguntou Marta, que não teve
resposta.
-Arranje-me coisas para escrever e vamos a ver se eu faço os tais
papéis, enquanto ela os lava -sugeriu Hammond. -Podemos
despachar isto.

Hammond chamou Fred e ordenou-lhe que desatrelasse as éguas e
lhes desse de comer. Voltaria a pedir os cavalos quando os quisesse.
0 negro murmurou um "sim, siô", de má vontade, pelo trabalho
desperdiçado.
0 patrão descobriu os dois escravos ainda na cozinha a comer de um
tacho comum. Estavam sentados um em frente do outro, no chão, ao
pé da lareira, com as pernas abertas e os joelhos dobrados, com o
tacho entre ambos, as mãos cheias de comida, que introduziam na
boca tão rapidamente quanto conseguiam engoli-Ia cada um deles
receando que o outro ficasse com toda a comida. Pareciam dois
cachorros esfomeados, a meio do crescimento, que lançavam
olhares em volta mas estavam demasiado absorvidos para rosnar.

Marta estava de pé, com as mãos na cintura, observando-os com
satisfação. Voltou a encher o tacho quando os rapazes o esvaziaram,
com batatas-doces, carne gorda e pão de centeio.
-Por favô, patrão, deixe eles -disse ela, olhando para Hammond. Eles
inda não tinha comido hoje. Eles tá cum fome.
Hanimond observou a glutonice dos rapazes.
-Não dês cabo deles -avisou. A mulher riu-se.
-Tá a enchê eles, patrão, tá a enchê eles, diz eu. 0 siô dá comida boa
aos nêgo; eu vê por aquele negrinho.
-Mas também o desanco. Tem o rabo às tiras. Hammond inclinou-
se para a frente, para examinar a pele de Á s, para ver se estava bem
limpa. 0 rapaz levantou os braços para proteger a batata-doce que
tinha numa mão e a carne que tinha na outra, enquanto o patrão lhe
apalpava as costas e o ventre, e lhe levantava a perna, forçando o


escravo a deitar-se, para ter a certeza que a marca por cima do
tornozelo era do sole não de sujidade. 0 rapaz, afastando o cabelo
dos olhos como pulso dobrado, olhou ressentido para o irmão, que
continuava a comer.
-Eu disse-te que lhe cortassem as unhas dos pés -disse Ham a
Marta.
-Eu vai já cortá, patrão, siô. Eu vai já -garantiu ela. -Parece garra
de abutre.
-Bom, veste-lhes essas roupas limpas depois de comerem -disse
Ham à mulher. -Tens de enrolar as mangas e as calças do mais
pequeno e que apertar as calças em cima para não lhe caírem. E dá
qualquer coisa ao Meg, se essa pastilha de hortelã-pimenta não lhe
fez mal. Não consigo impedir as pessoas de lhe darem porcarias,
como essa.

Foi para a casa de jantar, ao encontro de Maddox que estava a
acabar o seu jantar, que consistia em presunto com molho de carne,
batatas-doces e biscoitos, leite, manteiga, geleia, picles e café.

Marta estava mais interessada em dar de comer aos escravos do que
em servir os patrões, mas não negligenciou o serviço. No final da
refeição, disse a Hammond:
-já arranjou as unha deles, siô. Tão curtinha pra não apanhá lixo e
terra. Tavam bem sujos, siô; passei eles por três água, ambos os
dois. Tão a cheirá bem agora. 1 ao a cheirá bem agora. Não cheira
mal nem um bocadinho.
-Os mestiços não cheiram tão mal como os outros negros, de
qualquer modo -disse Maddox. -Aqui a Marta, se não se lava
durante uma semana ou duas, tem um cheiro que é de cair para o
lado.
-Eu lava-se, patrão, siô. Eu lava sempre -protestou a preta.
-Passas-te por água, queres tu dizer -disse o patrão.


-Os fato novos deles tão muito bons -disse Marta, servindo uma
terceira chávena de café a Hammond e colocando ao seu alcance o
melado. -As mangas e as calça tão grandes pró mais pequeno, mas
na barriga não tá, e inda fica mais apertado depois dele comê.
-Estão a inchar, hem? -pensou Hammond em voz alta. -Têm
vermes. Os vermes fazem-nos ficar com a barriga inchada depois de
se encherem. Têm razão para estarem escanzelados. Espero que não
comecem com ataques antes de eu chegar a casa e tratá-los.
-Não admira. 0 Sime dá-lhes nata deleite, muita nata. É barato.
Toda agente sabe que o leite faz vermes -disse Maddox. -Devia ter
cuidado para os purgar dos vermes; mas também o Sime está
sempre doente... -disse ele, desculpando o irmão.

Hammond tinha intenção de partir para Crowfoot logo a seguir ao
jantar mas pensou que seria interessante ir até à taberna durante
meia hora para ver os combates e o tipo de negros, que lutavam. Na
realidade, talvez encontrasse Charles Woodford e poderiam seguir
juntos para Crowfoot. Colocou Meg no carro e avisou-o de que
devia manter-se direito, sem se mexer, e aguardar o seu regresso.
Ordenou a Fred que voltasse a atrelar a parelha.
-Vai mêrno, desta vez, siô? -perguntou, na dúvida, o alto negro.
Não obteve resposta.
Na taberna, Hammond encontrou urna reunião apática de pouco
mais de urna dúzia de homens de que faziam parte os habituais
vadios, em número de dois, dois ou três jovens, além de diversos
escravos para combater e para apostar. Um bar, sem espelho
ocupava um dos lados da sala, cujo maior espaço estava preenchido
com uma área cercada de cerca de quinze pés quadrados, com
tábuas à volta até uma altura de quatro tábuas de pé, com os pregos
frouxos, de modo a poderem ser levantadas e retiradas quando
necessário. Era naquela arena que se realizavam os combates, que a
opinião pública forçara a retirar do pátio aberto nas traseiras.


Os homens afastaram-se para deixar passar o estrangeiro coxo, de
fato cor de ameixa, de que sentiram um suspeitoso receio, primeiro
por ser um estranho, e segundo por calcularem que se tratava de
um cavalheiro. Ele aproximou-se do balcão estreito, olhou em volta
à procura de alguém conhecido que pudesse beber corri ele, e pediu
uísque, convidando o empregado do bar, à falta de melhor
companhia, para beber com ele. A sua reputação parecia tê-lo
precedido.
-Está hospedado no Maddox, não está? -perguntou o empregado e
Hammond admitiu a acusação. -0 Eph vendeu-lhe aqueles mestiços
do Sime? -Hammond bebeu o uísque de uma só vez, acenando
afirmativamente. -Espero que não tenha pago muito. Andam a
querer vendê-los há imenso tempo.
Hammond começou a duvidar do seu negócio.
-Que é que eles têm de mal? -perguntou.
0 empregado do bar mostrou desprezo.
-Mestiços -basta isso. Ninguém compra mestiços. São frágeis. As
fêmeas, pelo contrário, se eles fossem fêmeas. Além disso, o Sime
não lhes dava de comer.
A coragem de Hammond voltou. Os gostos quanto a cor variavam,
e os rapazes podiam engordar. Eram apenas esqueletos, mas eram
esqueletos perfeitos. Podia-se ver a sua figura e eram os ossos que
contavam, como o pai sempre lhe ensinara.
-Pensei que o Charles Woodford estivesse por aqui. Ainda vem?
perguntou.
-0 Charlie? -repetiu o empregado do bar. -0 Charlie fugiu. Foi atrás
de um vadio qualquer que veio namorar a irmã. Disse que era
primo, ou coisa parecida. Claro, o major correu com ele. E o Charlie
foi atrás dele. É mesmo dele; quanto pior um tipo é, mais o Charlie
gosta dele.
-Oh, o Charlie já voltou, há muito tempo -protestou Ham, a quem a
conversa desagradava, mas não deixava de o divertir.


0 empregado abanou a cabeça, duvidoso.
-Se calhar o major tem o rapaz preso por fugir daquela maneira. 0
Dick, também nunca mais o vi. 0 Dick fez-se pregador da liga da
temperança. Concordo que é preciso que haja alguns; pregadores,
claro.
Bateu com uma garrafa no balcão, para chamar a atenção e gritou,
com um pretenso rasgo de amabilidade:
-Venham cá, venham cá, todos, juntem-se aqui. A primeira é por
conta da casa. -Voltou-se para Hammond e troçou, em voz baixa: Veja
como eles vêm.
A bebida soltou as línguas e os cordões das bolsas. Três homens
pagaram rodadas e Hammond sentiu-se forçado a pagar por sua
vez. 0 seu dinheiro derreteu o gelo e os homens dirigiram-se-lhe
com uma espécie de deferência tímida, não o considerando já como
um estranho inescrutável.
Num dos extremos do bar, um homem acotovelou o seu vizinho,
murmurando:
-Rico! Seja ele quem for, tem dinheiro. Vê todo aquele ouro, quando
ele abre a bolsa?
Outro homem, de meia idade, que pagara a segunda rodada, pediu
desculpa a Hammond pelos negros que ia ver combater, que eram,
efectivamente, um lote heterogéneo de trabalhadores do campo,
dispensados para combater. Pretos e castanhos, altos e baixos,
gordos e magros, saudáveis e doentes, Hammond não viu nenhum
que qualquer dos negros de Falconhurst não pudesse vencer, para
não falar no mandingo. A explicação do homem foi que os mais
altos expoentes do exercício pugilístico não tinham podido trazer os
seus negros por uma razão ou por outra. Um deles tinha uma égua
prestes a parir; outro tinha a mulher doente; um terceiro estava ele
próprio doente; um quarto tinha sido convocado para ir a tribunal e
partira para Montgornery; um quinto, talvez ainda aparecesse mas
sem o seu negro que tinha sido mordido num pé por uma cobra
cascavel e cuja recuperação era duvidosa. A sua morte seria um


duro golpe para o desporto e uma perda considerável para o seu
proprietário.
-Eu disse ao Mac que devia tê-lo vendido -gabou-se um homem
corado, com barba de uma semana. -Eu tinha razão, tinha razão,
quando o negreiro lhe ofereceu dinheiro por ele, eu disse-lhe.
Agora, olhe para ele mordido pela cobra e quase a morrer.
-Dá azar não se aproveitar o que é oferecido, sempre eu disse acrescentou
um vizinho.
-Pouca sorte -disse o empregado do bar, abanando a cabeça. -Eu
andava a pensar em fazer lutar o macho do Mac outra vez com
aquele macho grande do Hodkins. Havia de ser bonito. 0 macho do
Hodkins nunca foi vencido, nem o Mac nunca perdeu.
Hammond apurou o ouvido.
-0 meu venceu o de Hodkins em Benson. -gabou-se sem qualquer
discrição e lamentou logo tê-lo feito.
-Deve ter sido há pouco tempo -disse o homem do balcão. -Não
quero desmenti-lo, senhor. Em Benson? É daí que conhece o Charlie
Woodfort? Benson? É onde vive aquele tipo atrás do qual ele foi.
-0 velho Hodkins deve estar a vir-disse um exuberante desportista.
-
É um cavalheiro de categoria. Nada mais faz, além de andar a fazer
combates com o seu negro. Ganha sempre.
-Pode fazer isso. É rico -interrompeu uma voz. A riqueza implicava
dinheiro que chegasse para o sustento de seis meses mais ou menos,
conforme o avaliador.
Sim, o Hodkins deve estar a aparecer por cá -confirmou o homem
do balcão. -Vem sempre, por esta altura. Vem cobrar os juros,
tentar cobrá-los.
-Juros sobre quê?
-Do maior. Hodkins detém a hipoteca sobre Crowfoot e tudo o que
eles lá têm e sobre os negros, pelo menos o que resta deles -confioulhe
o homem do balcão.



-0 major nunca pode pagar. Não tem com que pagar. Se tivesse,
comprava um gigante ou coisa parecida -disse rindo, o homem que
pedira desculpa pelos lutadores. 0 maior limita-se a aumentar o juro
e o Hodkins aceita. Agora ele tem de pagar vinte por cento.
Prometeu pagar.
-julgava que era o banco. 0 major ...
-0 maior é cheio de...
-0 banco não suportava uma dívida daquelas. 0 banco já lhe tinha
tirado tudo há muito tempo.
-0 Hodkins não ousa tirar-lhe tudo. Nunca o fez. É melhor ir
ficando com a dívida.


A informação que Hammond recolhera deixou-o um pouco mais
aliviado quanto à situação financeira de Woodford. Com Hodkins
morto e ninguém consciente do facto, com excepção do círculo de
Pérola, Crowfoot nã o corria um perigo imediato de execução da
hipoteca. Hammond teve vontade de morder a língua depois de ter
dito que conhecia Hodkins, mas a delicadeza da resposta do
empregado do balcão, a sua recusa em disputar a afirmação de
Hammond, eram uma garantia de que não o tinha acreditado.


Talvez Hodkins tivesse herdeiros, que poderiam eventualmente vir
a saber da sua morte e insistir com Woodford pelo pagamento da
sua dívida, mas havia também a probabilidade de não haver
herdeiros, de não se encontrar nem um, de os documentos de
hipoteca estarem escondidos ou terem-se perdido, ou de as notas
nunca chegarem a ser apresentadas para pagamento. 0 mais
provável era que a morte de Hodkins tivesse deixado Woodford na
livre posse da sua propriedade. Contudo as hipotecas invalidavam
os direitos do maior, pois poderiam impedir o velho de vender ou
hipotecar novamente a sua casa.
Hammond não vira um único escravo que gostasse de possuir. Os
combates não era suficientemente interessantes para o tentar a



apostar neles. Somente o uísque puro e branco o retinha e bebeu
mais do que tencionava, mais do que desejaria. Não se interessou
absolutamente nada pelo melhoramento da raça dos lutadores, mas
estava suficientemente bêbedo para se divertir com o fiasco.

Voltou ao balcão para uma bebida final, pois as anteriores
estimulavam-lhe o desejo de mais uma. já era muito tarde para ir
para Crowfoot. Duvidava que conseguisse lá chegar antes da ceia e
não queria chegar naquele estado. No dia seguinte de manhã ainda
ia a tempo. Receava a reunião com todos os convidados de
Woodford que lá estariam reunidos. Além disso, sentia sono.

Dirigiu-se ao estábulo, ordenou a Fred que desatrelasse e
alimentasse a parelha e lhe arranjasse cama, sem se incomodar com

o desagrado patente mas silencioso do preguiçoso escravo. Meg
tinha-se conservado sentado no carro, mas nem sempre direito. Não
ousara exibir a nervosa impaciência que sentira, e que não
desaparecera totalmente quando viu o patrão chegar. A sua
circunspecção especial não lhe serviu de nada, pois Hammond,
embriagado, era menos truculento do que habitualmente. Levou o
rapaz para o hotel e encomendou a ceia para ele e para os mestiços.
Para si próprio, não quis ceia; só desejava dormir.
-Houve muitos combates? -perguntou-lhe o dono do hotel, quando
o viu entrar.
Hammond fez um gesto de desprezo.
-Eu tinha ido, mas com o Sime a morrer ...
-Não perdeu nada -disse Hammond -excepto uma dor de cabeça
pela manhã.
-Devia comer -insistiu o proprietário do hotel. Hammond abanou a
cabeça.
-Quero ir para o quarto, logo que os meus rapazes acabem de
comer.

-Não há ninguém no outro quarto. Aos sábados nunca há negócio.
0 melhor é eu pôr os negros a ferros lá. Vão mantê-lo acordado com

o barulho das correntes, toda a noite.
-Não lhes ponha ferros. Deixe-os ficar soltos no meu quarto. Têm a
barriga cheia, vão dormir.
-Acho que -concordou Maddox -eles sabem onde está a comida.
Não vão fugir de onde podem comer bem para voltar para a mulher
do Sime.
Sem se despirem, os mestiços deitaram-se no chão, aos pés da cama
de Hammond, utilizando como manta uma carpeta de trapos já
gasta. Meg despiu-se para evitar amachucar o fato e embrulhou-se
numa colcha. Hammond estava cheio de sono por causa do uísque e
por isso esqueceu-se da habitual cerimônia da oração nocturna. A
sensação de náusea que o invadiu mal se deixou cair pesadamente
na cama não o impediu de adormecer.
Meg ouviu o patrão resmungar enquanto ressonava. Assustou-se,
mas não ousou acordar o branco e, em breve, habituando-se àquilo,
adormeceu também.
Capitulo vigésimo terceiro

Hammond acordou por volta das duas e meia com a sensação de
que algo estava errado; não sabia o quê; sentiu dificuldade em
orientar-se. Ergueu-se sobre o cotovelo, antes de descobrir onde se
encontrava. Viu Meg, deitado de barriga para baixo, dormindo
placidamente e ouviu a sua respiração firme e regular. Mas a porta
do quarto estava aberta; pensava tê-la fechado, mas não tinha a
certeza absoluta. Talvez fosse isso que estava errado.


Deslizou da cama para ir fechar a porta e, vendo a carpeta enrolada,
lembrou-se pela primeira vez dos seus novos escravos. Tinham
partido. Tinham-lhe fugido. Ficou confuso com essa descoberta.
Depois írritou-se, tanto com o seu próprio descuido como com os
escravos. Se ele não se tivesse embebedado, aquilo não teria
sucedido.


Enfiou à pressa as calças, sem ceroulas. Descalço, dirigiu-se ao
vestíbulo, batendo com o dedo do pé contra a soleira da porta. Não
sabia ao certo qual das portas correspondia ao quarto de Maddox,
mas, como não havia outros hóspedes, bateu em ambas.
-Eles fugiram -berrou. -Fugiram, os mestiços, raios os partam,
fugiram.
-Espere um momento -ouviu Maddox dizer. -Só um minuto. -
Maddox apareceu à porta, de camisa e ceroulas e perguntou -Que
está a dizer?
-Os rapazes fugiram, desapareceram.
0 homem esfregou os olhos e bocejou.
-Eu sabia -disse. -Eu sabia, disse-lhe que os prendesse. Depois,
sem se aborrecer por ter sido acordado, começou a rir, com maligna
satisfação.
-0 senhor disse foi que eles sabiam onde estava a comida. Disse que
eles não precisavam de ficar presos.
-Foi só para concordar. Eles são seus; tenho a sua nota de compra.
Era o senhor que decidia.
-Não estou a tentar fugir ao pagamento. Quero-os. Calcula para que
lado é que eles foram? Há alguém que tenha bons cães?
-Os cães não servem de nada. Os rapazes tomaram banho ainda
ontem. Além disso, são quase brancos e não largam cheiro.
Maddox continuou a rir do ar desconcertado do seu hóspede.
-Aquela carpeta em que eles dormiram deve servir para dar a
cheirar aos cães.



-Provavelmente não estiveram lá mais de dez minutos -objectou
Maddox. -Os mestiços são espertos. Não se pode confiar mais neles
que num branco.
-Que achaque eu posso fazer? -perguntou Hammond, desesperado.
Vista-se.
-Penso que eles tenham voltado para a casa do Sime. Dê-lhes tempo
a lá chegar -disse Maddox complacentemente. -Eu vou lá, logo de
manhã. Trago-lhos. Volte para a cama. Nada pode fazer até ser dia.


-Mas eu não posso esperar. Vou casar-me amanhã.
-Pois vá casar-se. Case-se. Eu tenho-os aqui à sua espera quando
voltar. Isto é, se eles estiverem em casa do Sime.


Hammond aceitou o conselho de Maddox e voltou para a cama.
Meg nem acordou. Conrudo, Hammond nã o conseguiu voltar a
adormecer. Deixou-se ficar deitado, censurando-se a si próprio pela
sua falta de cuidado, por ter bebido tanto, por confiar em escravos
dos quais nada sabia, por não os ter posto a ferros. Imaginava a
gargalhada de troça do pai quando lhe contasse o incidente, troça
que seria mais desapiedada que os ralhos. Não receava que o pai o
acusasse, mas o seu riso, feria-o mais. Harrimond começou a pensar
se lhe seria possível desenterrar o panclão e pagar a nota de dívida
sem o velho saber. Ele nunca precisaria de chegar a saber. Era uma
quebra de confiança, mas o filho sentia-se tentado.


Quando apareceram os primeiros raios de luz a oriente, levantou-se,
sacudiu Meg para o acordar, e vestiu-se. Fez o mínimo de barulho
que lhe era possível, dirigiu-se em bicos dos pés à cozinha, para
beber um copo de água e viu a gorda Marta estendida em frente da
lareira a dormir no chão.


Saiu para a manhã fresca e silenciosa, caminhou meia milha,
impacientemente, para cá e para lá, depois dirigiu-se ao estábulo



para ver as éguas que não lhe deram qualquer importância. Viu
fumo a sair da chaminé da cozinha e compreendeu que Marta já
estava a pé e finalmente preparava os pequenos-almoços. Fred
desceu do sotão do celeiro e Maddox apareceu à porta do hotel.
-A que horas vai? -saudou Hammond.
-A casado Sime? Oh, quando estiver pronto para ir. Não há pressas.
Se o Sime morrer, não saberá que eu lá estive e se os rapazes lá
estiverem, esperam lá até eu chegar.


Hammond nada via a preparar excepto confiar o suspensório
esquerdo do homem, mas compreendia que não conseguia apressálo.
Gritou a Fred que queria a parelha atrelada e ainda ouviu parte
do seu resmungo " sempre a atrelá e a desatrelá mas nunca vai".
Sabia que, apesar do protesto do escravo, a ordem seria cumprida.
Maddox chamou-o para o pequeno-almoço e compreendeu que
Meg já estava na cozinha.
Quando saía da casa de jantar, avisou Maddox:
-Quando os apanhar, é melhor prendê-los. Não corra o risco, como
eu fiz.
-Os rapazes? -perguntou Maddox, antes de responder. -Eu
guardo-os quando os apanhar, e se os apanhar. Mas não vou
castigá-los por si. Não quero que diga que eu lhes fiz cicatrizes. Só
os guardo aqui para si.
-0 castigo pode esperar até eu chegar a casa.
-Se não é feito logo, eles esquecem-se do motivo por que estão a
apanhar. É preciso apanhá-los em flagrante. É essa a altura para os
castigar. Mas tem que ser o senhor a fazê-lo, não eu.
-Eu lembro-lhes o que fizeram. Não são como os pretos vulgares;
são mestiços. Quanto lhe devo?
Maddox sugeriu que o pagamento da conta do hotel fosse adiado
até o hóspede regressar, mas Hammond insistiu em pagar
imediatamente.



Capitulo vigésimo quarto


Quando Hammond pegou nas rédeas, apeteceu-lhe satisfazer o
impulso das éguas de voltar para casa, em vez de se dirigir a
Crowfoot. Compartilhou o impulso, mas a resolução estava tornada
e puxou as rédeas, fazendo-as avançar.

Desagradava-lhe deixar para trás a tarefa inacabada de recuperar os
escravos fugitivos. Preferia nunca os ter visto, nunca ter parado em
Briarfield. Receava aquilo que o esperava -o casamento, cuja
perspectiva o teria irritado menos se tivesse podido evitar as
festividades que a ele se ligavam. Crowfoot estaria cheia de
convidados que lhe eram estranhos, entre os quais se sentiria pouco
à vontade. Era próprio do major Woodford tirar o máximo partido
do casamento de sua filha. Teria que suportar ficar de pé, à espera,
para pronunciar os votos em frente de toda aquela gente, o jantar
depois disso, e todos os gracejos habituais, teria que se esforçar por
se comportar como um cavalheiro, ele que não estava bem certo de

o ser. Tudo isto assustava Hammond. Refugiando-se no ensino de
boas maneiras a outrém, avisou o seu criado de que deveria actuar
como devia ser: manter o casaco direito e as calças abotoadas, comer
o que lhe ofereciam e não pedir mais, não meter o dedo no nariz,
não se descuidar, e não contar mentiras embaraçosas.
Os pensamentos de Hammond estavam noutro assunto, na quinta
de Simon Maddox e em Briarfield, e até mesmo em Falconhurst, e
avançavam à frente para Crowfoot, enquanto guiava o carro na
manhã vibrante e quente. Não lhe dava qualquer prazer a
luxuriante paisagem verde, as terras plantadas, as ninhadas de
codornizes que fugiam à sua aproximação, os cantos da cotovia nos
bosques, o falcão que parecia um ponto na abóbada cor de turquesa,
a cascavel que deslizava pela estrada, fazendo recuar os cavalos.


Quando chegou ao ponto em que, a caminho da igreja com Blanche,
tinham encontrado Charles que voltava da cidade, recordou-se da
truculência do rapaz e de como Blanche o tinha enfrentado com a
ameaça de revelar algo aos pais que sabia dele. Fosse qual fosse o
pecado, a ameaça tinha dado um resultado maravilhoso. Por muito
imaturo, impulsivo e instável que Charles fosse, Hammond, tinha
conseguido não desgostar dele e sentia vontade de voltar a vê-lo,
apesar da infantil animosidade de Charles pela irmã, que talvez não
passasse de ciúmes.
Pouco faltava para o meio dia quando a carruagem chegou a
Crowfoot.
-Põe-te direito agora, estamos a chegar. Quero que te portes bem avisou
o branco, quando voltaram para a álea que levava até à casa.
-Eu porta bem, patrão, siô -respondeu o rapazinho com decisão.
Hammond ficou aliviado e um pouco espantado por ver tão pouco
movimento. Possivelmente, pensou, o maior decidiu não fazer um
festival do casamento da filha. Um escravo esfarrapado acorreu
para tomar conta da parelha e, antes de Hammond chegar à porta,
apareceu, vindo de urna porta lateral, o velho criado, para o receber.
-Onde está o teu patrão? Onde está o major Woodford? -perguntou
Hammond.
-Foi à igreja, patrão, siô. Os branco foi todo ao culto -respondeu o
escravo. -Mas eu conhece o siô. É aquele siô branco que cá veio faz
tempo. Eu conhece. Vem, siô, faz favô, siô.
Abriu a porta da frente.
-Eu espero aqui -disse Hammond, sentando-se num extremo do
varandim. -Penso que não irão demorar muito, agora, por causa do
casamento.
-Vão todos jantá à Plantação Sterling, todos menos patrão Dick. Ele
vem esta tarde aqui, siô, pra mergulhá na ribeira os nêgo que inda
nã foi baptizado. Ele vem -disse o negro, arrastando uma grande
cadeira que trouxera de dentro de casa.


-Mas o casamento... -insistiu Hammond.
-Não sabe nada disso, patrão -disse o negro. -0 patrão nunca falou
disso, siô.
Hamniond pensou que tivesse confundido a data marcada. Subiu e
sentou-se na cadeira, durante algum tempo, enquanto Meg
continuava sentado no chão, mas depois Hammond levantou-se e
começou a passear impacientemente, de um lado pra o outro,
olhando para a entrada, de dez em dez passos. Tinha consciência
dos olhares dos negros, nas cabanas, mas não se preocupou com
eles.
0 escravo voltou para perguntar:
-Posso trazê qualquer coisa pra comê, patrão, siô, enquanto tá a
esperá?
Hamniond apenas queria que o esclarecessem.
-Eu espero -disse.
-Quando volta patrão Charles, siô? Foi co siô que ele fugiu, não foi,
siô? -perguntou o negro, sem qualquer dúvida.
-Ele já voltou. 0 Charles já voltou há algumas semanas -afirmou o
branco. -Não voltou? -perguntou, pensando melhor.
-Não, siô, patrão, siô; não, siô. Patrão Charles nunca mais voltou.
Ah!, aí estava a razão da falta de preparativos para o casamento!
Sem dinheiro, não havia noiva! Que sucedera a Charles? Que lhe
teria acontecido? E ao Jasão? Charies tinha fugido com o dinheiro
dos Maxwell, o anel dos Maxwell, e o escravo dos Maxweli. Não era
um ladrão, mas pior ainda, era um ladrão de escravos, e não havia
nada mais baixo que isso.
Hammond, longe de ficar perturbado, sentiu-se até um tanto
satisfeito por se ver livre do seu compromisso. Seria embaraçoso,
contudo, explicar que o casamento não se tinha efectuado. Era um
rapaz ingénuo e, na altura, corou,ao pensar como se explicaria. Não
tinha um desejo ardente de se casar, mas preferia ir ao altar do que
ser corrido, posto de parte. Teria que casar-se para gerar um
herdeiro, mas já não duvidava que encontrasse uma mulher


adequada. Agora já lhe era fácil pedi-Ias em casamento, e o pior que
lhe podia acontecer era mandarem-no passear. Confiava em que lhe
seria fácil arranjar uma mulher, sem ter que pagar dois mil e
quinhentos dólares.

Que parvo tinha sido em confiar tanto dinheiro ao filho do major
Woodford! E que parvo estava a ser em esperar ali. Se partisse
agora, seria ele que a punha de parte, em vez de ser corrido ou
pensar que o fora. Tinha decidido pedir de novo os cavalos, quando
surgiu um cavaleiro ao fundo da álea.

Dick desmontou e entregou as rédeas ao mesmo negro que se
ocupara da parelha de Hammond. Todo vestido de negro, tinha
uma bela figura; se não fosse o ar louco, fanático, irresponsável e
embriagado dos seus olhos azuis-pálidos, poderia ter sido mesmo
belo. Mas não era o álcool que o embriagava. Hammond
encaminhou-se para ele.
-0 senhor! 0 senhor é o tal Maxwell! -Foi a saudação de Dick. -É
aquele que se comprometeu a casar com a minha irmã! Que faz
aqui? Se eu não fosse um pregador e o senhor um aleijado,
arrancava-lhe os dois olhos; cortava-lhe as tripas e obrigava-o a
comê-las, na ponta de uma faca! Que faz em Crowfoot?
-Que faço eu em Crowfoot? -disse Hammond, dominando-se. -Vim
casar com miss Blanche, tal como disse. Foi este o dia que ela
marcou.

-Depois de influenciar o irmão dela a fugir consigo? E de não
mandar o dinheiro como tinha dito que mandava? julga que ela se
casa com um filho da puta como você?
-Eu mandei-lhe esse maldito dinheiro. Mandei-lho pelo ladrão de
negros do seu irmão!
Hammond começava a irritar-se.
-Não pragueje! Não pragueje! Sou um pregador, bem vê! Não
pragueje! -disse Dick, refugiando-se na sua vocação.


-Então também não pragueje --avisou Hammond. -Aquele
negro disse-me agora que Charles nunca voltou, nunca trouxe o
dinheiro ao major Woodford.
-E confiou-lhe o dinheiro? Confiou no Charles? -Dick estava
incrédulo. -Não se pode confiar cinquenta cêntimos àquele
malandro. Não credito que o tenha mandado.
-Há cinco ou seis semanas, que ele partiu. Levou um dos meus
negros com ele, um negro do meu pai, e dois mil e quinhentos
dólares em ouro.
-Ouro! Um negro! -Dick sentou-se no degrau do varandim e
começou a rir. -Não se pode confiar a Charlie um dólar quanto
mais um negro. 0 Charlie fugiu, talvez esteja no Texas, neste
momento. Onde quer que o Charlie esteja, o dinheiro já está gasto e

o negro vendido.
0 seu riso tomou a intensidade histérica que havia nos olhos de
Dick. Mas era contagioso e Hammond começou a rir-se com ele,
embora sem tais espasmos de hilariedade. Era ele a vítima daquela
díspensiosa piada e divertir-se com ela era a melhor maneira de
suavizar o choque.
-Mas para que é que o levou consigo? -perguntou Dick, enxugando
os olhos com a mão. -Teve o que merecia, por o entusiasmar a ir
consigo.
-Entusiasmar? 0 Charles apanhou-me no caminho e disse-me que o
pai tinha dado licença para ir; jurou-me que tinha -e Hammond
contou-lhe a história de como fora apanhado no caminho e
acompanhado pelo jovem Woodford.
-E acreditou nele? Acreditou em Charlie, naquilo que ele dizia, no
que ele lhe jurava? Devia ter voltado as frases ao contrário. 0
Charies nunca disse a verdade, na sua vida.
-Em Falconhurst portou-se muito bem, era de confiança.
-Estava a preparar-se. A preparar-se para fazer mal. Mas eu
acredito em si. Acho que está a falar verdade. Quanto a si e a
Blanche, temos que esperar que o pai regresse. -Dick levantou-se.

Vamos comer. 0 jantar está pronto. Talvez não haja muito, com a
família fora. Mas venha.

Enquanto atravessavam a sala, em direcção à casa de jantar, Dick
avaliou alto o seu convidado. _ 0 senhor é bom e parece-me honesto.
Não me importo que seja aleijado. Tem dinheiro e todos aqueles
negros. Vou gostar de si, seja o que for que os outros digam.
-A minha mãe era uma Hammond -acrescentou o convidado, a seu
favor.
-Também a do Charlie, e a minha -contrapôs Dick. Depois do
jantar, Dick pediu-lhe que o desculpasse.
-0 meu pai tem andado a ensinar os negros -explicou. -Ainda
nunca baptizei, até agora, mas hoje tem de ser, há duas ou três
fêmeas e um macho que ainda não foram salvos. 0 pai tem andado a
adiar. Não quer molhar as calças. Acho melhor passar pelo sono, ou
qualquer coisa do gênero. Eu despacho-me. Não leva muito tempo.
0 brilho fanático, a marca do seu evangelismo, reaparecera nos
olhos de Dick, enquanto se afastava.

Dormir era a última coisa que Hammond queria. Andou de um lado
para o outro dentro da casa, passeou na varanda, passeou pela álea.
Não sabia quanto tempo duraria a incerteza. Estava habituado a
fazer planos e a levá-los por diante. Preferia ter ido com Dick ao
culto religioso dos negros e esteve tentado a segui-lo, mas pensou
melhor e decidiu não o fazer. Era preferível esperar. Podia suportar
ser recusado pela noiva, mas tinha que resolver aquele assunto de
uma vez por todas.

Pensou quanto Blanche lhe tinha já custado, dois mil e quinhentos
dólares, o anel e as duas viagens a Crowfoot. Claro, a primeira
viagem tinha incluído a visita a The Coign, e a compra de Medes e
de Ellen, que não lamentava. Se ao menos lá tivesse ido primeiro,
antes de pôr os pés em Crowfoot! Mas, por muito cara que Ellen lhe


fosse, não era sua mulher. Isso estava fora de causa. Não sentia
obrigações nem remorsos perante ela; nada fizera de mal, No fundo,
precisava de uma mulher, para lhe dar um herdeiro; se não fosse
Blanche, seria outra.

Incluiu mesmo nas despesas, por causa de Blanche, os mestiços de
Maddox que comprara e perdera. A culpa era dela, raciocinou, pois,
se não tivesse ido a Crowfoot, nunca os teria Visto nem comprado.
Pensar nos mestiços, por muito doloroso que fosse, afastava-lhe do
espírito o fiasco mais grave do seu casamento. Pensou se Eph
Maddox teria conseguido descobrir os rapazes são e salvos na
quinta de Sime e se eles estariam à sua espera no hotel de Briarfield.
A menos que eles tivessem voltado para casa de Sime,
compreendeu que talvez nunca mais chegasse a encontrá-los; eram
brancos, ou podiam passar por brancos, se andassem decentemente
vestidos. Podiam muito bem dirigir-se para o Norte e conseguir a
liberdade, se soubessem o que era a liberdade. Decidiu contar toda a
história ao pai e suportar a sua troça. Talvez a pena que o velho
sentiria pelo ínsucesso do seu casamento aliviasse o seu sarcasmo
quanto aos escravos, Mas não troçaria também da história do
sacairiento? 0 riso era o bálsamo do pai contra o azar, mas
Hammond sabia que ele não sentiria amargura. Mostrar-se
divertido, era a sua maneira de demonstrar simpatia.
-Molhei-os bem, molhei-os bem -gritou Dick, triunfante,
regressando do baptismos. -Foi fácil. Sou capaz de o fazer. Só
aquela fêmea magríta é que me escorregou das mãos e por pouco
não se afogava.
-Está todo encharcado. Olhe para as suas calças. É melhor vestir
roupa seca -sugeriu Hammond, interrompendo o seu solilóquio.
-Peguei neles e mergulhei-os -disse Dick. -Elas secam. Do que eu
preciso é de um uísque. Só como remédio! Sou abstêmio,
evidentemente. Mas é levar as coisas longe de mais, nem sequer o


usar como remédio, impede-nos de apanhar qualquer coisa. Não é
abstémio, pois não? Quer uma bebida?
Dirigiu-se para a estufa, onde o major guardava o seu uísque.
Hammond estava efectivamente a precisar de uma bebida e seguiu


o seu anfitrião com um sentimento que se aproximava da gratidão.
A primeira bebida criou-lhe sede para a outra, e a segunda para a
terceira. A tarde já estava a chegar ao fim, mas Hammond sentia-se
indiferente quanto à chegada tardia dos WoodIord. Encontrara o
esquecimento.
0 som de cascos de cavalos na álca quebrou o encanto em que a
bebida os mergulhara:
-A quem pertences tu? E ouviu Meg responder delicadamente:
-Eu é o nêgo do patrão Ham Maxweli, patrão, por favô, siô.
-Entra e vai para o teu quarto e não voltes sem eu te mandar. Ouviu
o maior baixar a voz, que mesmo assim continuava bastante alta, e
murmurar para dentro da corneta acústica da mulher:
-0 Hammond Maxwell. Como Beatriz não o compreendesse, ele
repetiu duas vezes, lenta e silabicamente, como para lhe permitir ler
pelos lábios:
-Hammond! Hammond Maxwell! A mulher respondeu com um
influxo sobressaltado:
-Ob, Dick e Hammond emergiram da estufa a tempo de ver Beatriz,
toda de castanho, serenamente, sem um olhar para a direita ou para
a esquerda, entrar em casa pela porta da frente. Blanche, com o
mesmo vestido de lã fina com que Hammond a vira pela primeira
vez, seguiu a mãe, mas assumiu um ar de dignidade, de cabeça
erguida, e um andar trágico que declarava a sua resolução de não
olhar para trás.
0 major manteve-se à espera que o rapaz se aproximasse. 0 carro
rodou para o estábulo.
-Pai, este é o senhor Maxwell -disse Dick, apresentando o seu
convidado como se o pai o não conhecesse.



-julgas que não conheço essa doninha? -perguntou o maior,
esticando-se para ficar mais alto. -Devia tê-lo conhecido melhor.
Atirar a minha pobre filha para a desgraça! Que quer daqui agora?
-Ele mandou! Ele mandou o dinheiro! -apressou-seDick a dizer,
para acalmar o pai.
-Então porque é que ele não chegou?
0 major não acreditava na afirmação do filho.
-Mandou-o pelo Charles! Ah! ah! ah! Mandou-o pelo Charles! Dick
batia com os pés, acompanhando o ritmo das gargalhadas, perante a
inconcebível estupidez de se confiar qualquer coisa ao seu irmão.
-Foi para isso que ele convenceu o Charles a ir com ele, para poder
dizer que mandou o dinheiro e ele não o trouxe. É muito esperto.
Não tem o dinheiro nem nunca o teve. Nunca tencionou mandá-lo.
Hammond ainda não falara. Então disse, simplesmente e sem
mostrar rancor:
-Se não acredita em mim, não acredita que mandei o dinheiro, não
acredita que mandei o anel à miss Blanche, não acredita que o
Charles me roubou um negro quando partiu, não aceita a minha
palavra de cavalheiro, só me resta pedir-lhe que mande trazer os
meus cavalos. Vim para me casar com a miss Blanche, como ela
tinha dito; hoje é dia oito de Maio. Podia ter-me poupado a viagem,
era o menos que podia fazer, senhor. Quer ter a bondade de mandar
buscar os meus cavalos?
Sentia-se orgulhoso de si próprio, pelo discurso que fizera.
-Eu nunca disse isso; nunca disse que não acreditava na sua
palavra. Espere um momento -disse o major, como que
embainhando a espada. Talvez
possamos entender-nos. Talvez as coisas se componham.
Digo-lhe uma coisa: se mandar aquele dinheiro, isto é, se prometer
mandá-lo outra vez, talvez possa casar com a minha filha. Talvez o
tenha mandado; não digo que não tenha. Mas tem que mostrar boa
fé e mandá-lo outra vez.



-Queria os meus cavalos, se faz favor, senhor. Não vou comprar a
sua filha pela segunda vez. Se o seu filho roubou o meu dinheiro e o
meu negro, agüentamos as nossas perdas, mas não peço ao meu pai
nem mais um dólar para si, nem sequer cinquenta cêntimos. Nem
miss Blanche tem culpa, nem eu. Caso-me com ela, mas não a
compro.


0 major Woodford hesitou. Os pretendentes à mão da sua filha eram
bastante raros, e não havia mais nenhum à mão. Aquele homem,
entrando na família, melhoraria o seu crédito, e mais tarde não
podia deixar de o ajudar a sair das suas complicações financeiras.
Tinha o direito de estragar as possibilidades de Blanche e talvez as
suas próprias, só por orgulho?


Decidiu que não tinha. Além disso pensou em Charles. Maxwell não
iria mandar prender o seu cunhado por roubar um negro, o mais
vergonhoso dos crimes. Se Charies fosse apanhado, o roubo seria
ignorado ou considerado como um simples engano. 0 major não
abandonaria o seu filho.


Todas estas coisas passaram rapidamente pelo seu espírito, não
como pensamentos sucessivos, mas como um único bloco.
-Estou disposto afazer o sacrifício, se a mãe de Blanche concordar.
Ela é uma Hammond, bem sabe. É orgulhosa. Mas, por outro lado,
não quero que a minha filha fique doente por amor, como tem
andado.
-Vamos, vamos -apressou Dick. -Está tudo bem. Não se rale. A
mamã faz o que o meu pai manda. Sempre fez.
Empurrou Hammond para a sala Império. Segurando a porta,
perguntou:
-Quer que eu mande entrar o seu negro, ou mando-o para as
cabanas?



-Está habituado a casa -respondeu Hammond, sentando-se
cuidadosamente no sofá de damasco.
Meg entrou, e, por ordem do patrão, sentou-se no chão. Escolheu
um local perto dos pés de Hammond, que se inclinou e endireitou
uma das meias do rapaz.
-Essa liga é grande demais, -observou, ajustando a meia. -Tens
deter cuidado.

0 pretendente ouvia o pai da rapariga discutir o casamento com a
mãe surda, na sala do lado. Dick estava junto deles, mas pouco
tinha a dizer; estava de acordo com o casamento, mas achava
conveniente não mostrar demasiado entusiasmo. 0 maior bem
tentava baixar a voz, mas os seus murmúrios, para serem
suficientemente altos para penetrar na corneta acústica de Beatriz,
tornavam-se audíveis para Hammond. Este esforçava-se por não
ouvir, mas, se não apanhava uma frase da primeira vez que era
pronunciada, não podia evitar ouvi-Ia quando era dita pela segunda
vez, como sucedia na maior parte das vezes. 0 maior já tinha
tomado a sua resolução, e a consulta à mulher era simples
formalidade para se desculpar por não ter imposto e extraído
condições mais severas, esforçando-se, na sua capitulação, por
salvar a honra.

Garantiu a Beatríz que Hammond negara ter levado Charies com
ele e que Charles tinha afirmado ter licença do pai para o seguir.
Contou-lhe da partida de Charles de Falconhurst com o dinheiro
dos Maxwell e o anel de Blanche.
-Isso é mentira -disse Beatriz com indignação. -Ele não está a dizer
a verdade. 0 Charles trazia o dinheiro. 0 meu filho trazia-o. Ele
nunca o mandou. Eu não criei o Charles para ser um ladrão.
-Mas é -contrapôs o maior -, é um ladrão de negros. Levou um dos
machos de Warren.


Teve que repetir esta declaração três vezes antes de conseguir que a
mulher o ouvisse; a sua dificuldade em perceber era mais relutância
em acreditar na história do que incapacidade de compreender as
palavras. ,2uando a acusação penetrou na sua consciência, Beatriz
ficou ofegante.
Depois deu um grito agudo e deixou-se cair para trás, na cadeira.
-Ele está morto! 0 Charles está morto -murmurou, com a sua voz
vazia, -Aquele negro matou-o e roubou-lhe o dinheiro. 0 meu filho!
Meu pobre filho! Está morto!
-Não está nada morto! Tu sabes que ele não está morto! -0 major
colocou a mão sobre o braço da mulher, para dar maior ênfase à
afirmação e para a consolar. -Nada disso. 0 Charles anda por aí a
gastar o meu dinheiro. Hás-de vê-lo aparecer por aí a cavalo, um dia
destes.

Assumiu um tom tão alegre quanto conseguia e reforçou-o com
urna careta que se assemelhava a um sorriso, embora a sua
segurança não fosse muito confiante. Na realidade, se não fosse pela
mulher, sentir-se-ia indiferente com a sorte do filho, embora não
com o destino dos dois mil e quinhentos dólares.
-Ele está morto. Digo-te que está morto. Eu sei; eu sinto-o protestou
Beatriz, fazendo rolar a cabeça para trás e para diante. -0
meu filho está morto.
E começou a chorar. Dick afastou o pai para o lado, a fim de poder
falar pela corneta.
-E não foi salvo! -geirou. -0 Charles nunca se voltou para Jesus! Eu
sabia que isso sucederia. E se está morto, está a arder no inferno,
neste momento, a arder! 0 demónio pôs Charies na sua grelha, e está
a espetá-lo com a forquilha e há chamas em volta dele. Nunca se
salvou.
-Não! Não! Não! -gritou a mãe. -Eu rezo por ele; eu tenho rezado
por ele todos os dias e todas as noites. Talvez ele esteja salvo. Talvez


quando o negro o atacou ele tenha visto Jesus e se tenha agarrado a
Ele. Jesus é bondoso; Ele salva o meu rapaz se puder.
Caiu de joelhos e inclinou a cabeça, em silenciosa oração.
0 major pegou na corneta que caíra, e colocou-a junto ao ouvido de
Beatriz:
-E o casamento? Que queres fazer quanto a isso? -vociferou.
-Faz o que quiseres! Faz o que, de qualquer modo, já tinhas
resolvido fazer! ~ A mãe desolada olhou-o com irritação por
interromper a sua oração. -Afastaste o Charles; agora mandas a
Blanche embora. Vende-Ia como se fosse uma negra. Vá, vende-a, se
é isso o que tu queres.
-Eu não estou a vendê-la. Ele mandou aquele dinheiro e o Charies
roubou-o. já não manda mais.
Woodford segurava a corneta junto ao ouvido da mulher, mas,
embora falasse alto, não falou directamente para o aparelho. Não
sabia se Beatriz o ouvira e pouco se importava.
Ela recusava-se a afastar-se dos seus esforços para salvar o filho
assassinado do fogo do inferno entregava ao pai a responsabilidade
de dispor da filha. 0 marido colocou a corneta sobre a cadeira e
olhou para Dick.
Dick acenou afirmativamente.
-Trate disso -disse ele, em voz baixa para não interromper
novamente a oração. -Acho que é o melhor. Ele é rico. Além disso,
não há mais ninguém que a queira. Não tarda que ela fique uma
solteirona, e depois?
0 major Woodford preparou-se, esticou o pescoço, ajeitou o casaco,
e assumiu o seu ar mais pomposo. Dirigiu-se então à sala do lado,
onde Hammond esperava.
-A mãe de Blanche e eu estivemos a falar do assunto -anunciou. Discutimos
o caso e decidimos. Decidimos deixar que o amor siga o
seu curso. Não nos podemos opor a ele. E se quer a minha filha e a
Blanche o quiser, assim será.



Hammond pôs-se de pé. Tinha ouvido toda a conversa.
-Eu sabia que o senhor e a prima Beatriz não haviam de obrigar-me
a fazer toda esta viajem para nada -disse ele, apertando a mão que

o major lhe estendia.
-É melhor ires buscar o pregador -disse o major, voltando-se para
Dick. -Vai ter com o Jories e trá-lo cá o mais depressa que puderes.
-Não há pressas -sugeriu Ham. -Podemos esperar até amanhã.
-Adiar um casamento depois de estar marcado? -disse o maior,
horrorizado. -Dá azar; não quero essa culpa. Tem de ser hoje ou
nunca mais. Sente-se um pouco e deixe-se estar tranquilo, que eu
vou lá acima buscá-la.
Não estava ameaçada a perda da paz de Hammond. 0 major subiu
as escadas e Dick desapareceu, atravessando a sala contígua e a
cozinha. Pouco depois pela janela viu passar o cavalo de Dick, a
trote, que se transformou em galope logo que chegou à estrada.
Hammond pôs-se à espera. Nada mais havia a fazer. Começou a
sentir-se pouco à vontade, à medida que o tempo passava e pensou
se a rapariga se mostraria recalcitrante. A altivez com que ela
deixara a carruagem e entrara em casa podia ser real. Meg revirou
os olhos, solenemente, para o patrão. Pressentia certa gravidade na
situação, que não compreendia. Era inimaginável para ele que
alguém, fosse qual fosse a sua cor, tentasse atravessar-se à vontade
do seu patrão, mas não ousava falar nem fazer perguntas.
Finalmente, incapaz de aguentar por mais tempo a sua incerteza,
levantou-se e, com um ar tímido, segredou ao ouvido de
Hammond.
-Sim, se precisas. Mete-te por trás daquelas chicórias, mas não sujes
o fato, e depois volta -disse Hammond, concedendo-lhe permissão.
A palidez do rosto de Blanche fora sublinhada por uma camada de
pó de arroz, observou Hammond, enquanto ela descia as escadas,
seguida pelo pai. Hammond concluiu que ela tentara disfarçar os
efeitos das lágrimas, mas não sabia se ela chorara por lhe terem
proibido que casasse com ele ou por lhe ordenarem que o fizesse

agora. Continuava a usar o vestido de lã fina, que, aos olhos do
noivo, sublinhava a beleza que ela possuía. Não poderia ter
escolhido um fato que mais o encantasse. Hammond não sabia que
era o melhor do seu limitado guarda-roupa, e pensava que era a
mulher e não o vestido que o fazia achá-la bonita.

Ela estava trémula e austera quando ele se levantou para ir ao seu
encontro. Parou no fundo das escadas e ele avançou e tomou-a nos
braços. Ela nem resistiu nem retribuiu o beijo que ele lhe deu, mas
olhou para ele com um sorriso resignado e triste.
A conversação era restrita.
-Julgava que não viesses -forçou-se ela a dizer.
-Sabias que eu vinha, eu disse-te que vinha quando tu marcaste.
-Disseste que me mandavas um anel -acusou ela.
-E mandeí-o. Entreguei-o ao Charles para to trazer.
-Ao Charles! -disse ela, num tom de desprezo, para fazer ver a
Hammond a estupidez de ter confiado no seu irmão.
-Talvez ele esteja morto. Talvez o matassem no caminho. -
Hammond tentava justificar a sua confiança no rapaz. -Como a tua
mãe disse.
-Devia estar, mas não está -disse Woodford. Blanche sentou-se no
sofá.
-Não tenho vestido -desculpou-se ela, lançando um olhar ferido
para o pai. -0 papá pensava que tu não vinhas e não mo comprou.
-Eu estava à espera que o dinheiro chegasse -repisou o velho,
-Eu não vou casar-me com um vestido -declarou Hammond, sem
se aperceber de quanto o vestido de lã fina o encantara. -Podemos
comprar vestidos, todos os que tu desejares, todos os que precisares
-disse, modificando a frase.
A visão dos vestidos ilimitados entusiasmou a rapariga. Sorriu, com
um ar distante, e imaginou-se coberta de sedas e rendas e jóias, num
salão nobre, rodeada de admiradores que lhe beijavam a mão, que já
não estaria vermelha e áspera, com as unhas partidas e roídas.


Conservar-se-ia sempre fiel ao seu esposo e amante, desprezando os
corações que ia desfazendo. Todos os vestidos que desejasse!
0 som da sineta para a ceia fê-la regressar a Crowfoot e à realidade.
Meg que regressara rapidamente, conforme lhe tinha sido
ordenado, foi enviado à cozinha, para comer. 0 major foi procurar
Beatriz que desaparecera silenciosamente, após a sua oração. Voltou
desanimado, pedindo desculpa pela mulher. Desolada pelo
assassinato de Charles, ela retirara-se com o seu desgosto e não
desejava cear, segundo ele dizia, embora todos compreendessem
que ela estava tão ressentida pelo consentimento do ma-rido ao
casamento de Blanche quanto triste pela suposta morte do seu filho.
Foram cear os três. Hammond e Blanche sentaram-se um de cada
lado do anfitrião; a cadeira vazia em frente dele parecia urna
acusação. As velas, não totalmente necessárias, bruxeleavam no
anoitecer. A conversa tinha um ar de tentativa, de tensão, e
evitavam-se todos os assuntos que estivessem mais próximos
daquilo que eles estavam a pensar. Com pausas entre os assuntos,
que Blanche tentava preencher com olhares envergonhados mas
namoradeiros para o rapaz sentado na sua frente, a conversa passou
da saúde do pai de Hammond para o preço do algodão, as
hipóteses das colheitas, o tempo passado, presente e futuro, os
negros de Falconhurst, e a subida de preços dos negros.
-Comprei dois ontem, dois mestiços muito espertos. Mas fugiram e
não sei se conseguirão apanhá-los.
E Hammond contou a história da fuga dos dois rapazes.
-Eu não vou com eles no carro -declarou Blanche com indignação. julgava
que vinhas a Briarfield buscar-lhe, e vens comprar negros.
Pois leva os negros. Eu não vou.
-Não vai conseguir reavê-los -disse o pai, desdenhoso. -Sime
Maddox? Os negros foram para casa. 0 Sime vai escondê-los e dizer
que nunca os viu. Vende-os a outro e nunca chegará a saber.
-Eu não me importo. Se ele leva negros, eu não vou -repetiu
Blanche.


0 pai deu-lhe umas palmadinhas na mão.
-Então, então -disse, para acalmar a sua ira. -Se ele os descobrir, o
que não vai suceder, não te fará mal nenhum ir com eles. Ham
mandou-os lavar, não mandou? E não vai deixar-te ficar só com
eles, nem por um minuto.
-Bem -disse ela, à experiência.
-Ele é o teu marido, vai sê-lo. Tens que fazer tudo o que ele disser,
tudo -avisou o pai.
-Ela vai fazê-lo -disse Hammond, com confiança. Não tendo
absolutamente mais nada para fazer, foram-se demorando à mesa,
mesmo depois de a fome estar satisfeita. já estava escuro e a Lua
não aparecera. A luz cor de açafrão das velas projectava sombras
contra a parede.
0 som dos cascos de um único cavalo na álca interrompeu a
discussão sem saída, e, na altura em que Dick chamava um rapaz e
lhe entregava o cavalo, o major já descia as escadas.
Onde está o Jones? -inquiriu o major enquanto Dick entrava. Sime
Maddox está a morrer -explicou o mensageiro. Deixa-o morrer, mas
onde está Jones?
0 irmão Ben foi a casa do senhor Maddox para o preparar, para
enfrentar o Criador -disse Dick.
-Soube alguma coisa dos meus mestiços? -interrompeu Hammond.
Foram para casa?
-Eu não fui lá. Sabia que ele não abandonava um moribundo para
vir.
-Raios me... -o maior interrompeu-se pela presença da filha. Porque
calculaste que ele não vinha? Não vai receber nem um
cêntimo do Sime, e o Hammond dar-lhe-ia dois, três, talvez cinco
dólares. És um palerma, Dick, és um palerma chapado. E agora que
vamos fazer?
Voltou-se e subiu a escada para relatar a Beatriz o insucesso de Díck
e culpá-la pela estupidez do filho.


-Não tenho culpa, não podia trazê-lo -disse Dick, tentando
absolver-se e deixando-se cair numa cadeira.
-Com certeza -reconheceu Hammond. Blanche desatou a chorar.
-Claro que pode, vale tanto como qualquer outro -ressoou a voz do
major, lá de cima, cheia de nova esperança. -Tinha-me esquecido. E
se tu viesses para baixo, e ele o fizesse? E podias dar-lhe a tua
benção. Bem, é isso que vamos fazer.
Blanche enxugou as lágrimas e ergueu os olhos para o pai que
descia ostensivamente as escadas. Hammond resignava-se a tudo o
que pudesse vir a suceder e Dick receava a acusação do pai quanto à
sua inutilidade.
-Dick -anunciou o maior, dando uma palmada no ombro do filho. -
Dick. 0 Dick é um pregador. Ele pode fazê-lo, tão bem como
qualquer outro. Ele é santificado; é um pregador? Porque não
pensámos nisso? Porque mandámos buscar o Jones?
-Pai! Não! -objectou o filho, perante a solução do pai. -Eu não
posso! Estou só a começar. Não posso casar brancos, nunca o fiz.
-Podes, podes -protestou o pai. -Não é diferente casar pretos ou
brancos, só não se usa a glesta. Podes fazê-l& 0 Hammond dá-te
dinheiro, tal como daria ao Jones.
-Acha que é legal? -perguntou Hammond, com cepticismo.
-Tão legal como o Jones -opinou o major. -0 Dick é um pregador,
não é? Não interessa que não tenha pregado ainda para brancos. Vai
fazê-lo. Ele diz as palavras e eu escrevo-as na Bíblia, e ambos se
casam, e depressa.
-Eu não sei as palavras -protestou Dick.
-Não interessa o que disseres. É só gente da casa? Além disso, a tua
mãe quer que sejas tu. Se tu os casares, a tua mãe vem cá abaixo ver.
Acedeu a fazê-lo, se for o Dick a casá-los. Não vais estragar tudo. Só
tens que perguntar-lhes e dizer-lhes. É fácil.
1 A figura castanha de Beatriz descia as escadas. 0 sangue
desaparecera do seu rosto solene, deixando-a ainda mais pálida do


que antes. Aproximou-se do marido sem falar, estendendo para ele

o aparelho auditivo.
-Levanta-te, Ham; levanta-te, Blanche. Coloquem-se em frente da
janela -disse o major, preparando a cerimónia. -Tu, mãe, ficas aqui
ao lado de Blanche, para poderes ouvir melhor -disse ele, para
dentro da corneta.
Meg, ignorado por todos, ergueu-se também. Não estava certo de
que esperavam dele e quase desejava que o mandassem sentar de
novo no chão.
-Não sei. Acho melhor ajoelharmo-nos, primeiro -improvisou Dick.
Quando todos estavam firmemente ajoelhados, Dick ofereceu a
Deus a sua oração, desapaixonadamente. Sentia-se tão pouco
seguro, que duvidava que as suas palavras chegassem ao Trono.
-Bom Deus-rezou ele-, estamos aqui todos juntos para unir,
perante Ti, estes dois brancos, nos laços do matrimónio, no santo
matrimónio -repetia-se, inseguro do que devia dizer. -Pedimos-Te
que abençoes a sua união com uma longa vida e alegria, e que se
confortem um ao outro na velhice, Pedimos-Te que lhes concedas a
Tua benção e que eles criem filhos que cresçam para Te louvar.
Rezamos para que eles tenham filhos e sejam rapazes. Oh, Deus,
porque o Hammond deseja ter um rapaz para o ajudar a dirigir a
plantação do seu pai e para a receber das suas mãos quando morrer.
Oh, Deus! A minha irmã Blanche é teimosa. Oh, Deus, Tu sabes
como são as pessoas teimosas. Oh, Deus, tira-lhe esse defeito do seu
coração, meu Deus; livra-a da camada de teimosia que ela tem
dentro do coração. Faz com que ela o entregue ao seu esposo, meu
Deus, para que faça o que ele quer e obedeça às suas ordens. Oh,
Meu Deus, como é seu dever. Abençoa este serviço religioso, oh,
Deus, e torna-o legal; torna-o legal e faz com que constitua um
compromisso para ambos. E abençoa o Teu servo e o seu ministério
e as suas pregações e livra-medas tentações da carne, para que eu
possa servir-Te. E abençoa o meu pai e a minha mãe aqui presentes.
Faz chover sobre eles todas as bençãos, assim corno sobre o Charles,

se ele estiver vivo. Se estiver morto, salva-o do fogo do inferno e
aceita-o na Tua divina Graça. E abençoa este negrinho do
Hammond e todos os negros dele, e todos os negros do meu pai.
Oh, Deus, para que sejam libertados da servidão quando morrerem.
Penso que é tudo, por agora, Oh, Deus. Não me recordo de mais
nada. Faz aquilo que Te peço. Oh, Deus, em nome de Jesus. Amen.
-Amen -disse Beatriz, acenando com a cabeça aprovativamente,
enquanto se levantava. -Eu sabia que tu eras capaz. Só que te
esqueceste do primo Warren. Fiquei satisfeita por abençoares o teu
irmão, onde quer que ele esteja.
0 major procurou o olhar da mulher e levou um dedo aos lábios,
para a fazer calar.
-Bem, estão prontos? -perguntou Dick. -Hammond, aceitas esta
senhora, de nome Blanche, para tua esposa legal, para o melhor e
para o pior, na doença e na saúde, no bem e no mal, para a amar e a
proteger até à morte ou a distância os separar?
-Sim, senhor -disse Hammond, assentindo com a cabeça.
-E tu, por teu lado, Blanche, aceitas o Hammond, aqui presente,
para teu esposo legal, para o melhor e para o pior, na saúde e na
doença, no bem ou no mal?, para o amar e lhe obedeceres sem
protestar, até à morte ou a distância os separar?
-Aceito-o -prometeu Blanche, firmemente.
-Então é tudo -afirmou Dick. -Vou declarar-vos marido e mulher,
e que Deus tenha piedade das vossas almas, amen!
Dick apertou o braço do noivo e, cuidadosamente, relutantemente,
beijou a noiva. A mãe chorou enquanto abraçava o embaraçado
casal e o pai deu-lhes a sua benção, radiante.
-Não vai beijá-la? -perguntou Dick a Hammond.
-Ele está incomodado e está toda a gente a olhar. Espera até ficarem
sós -disse o major, desculpando a omissão. Agarrou um braço de
Hammond com uma mão e um braço de Dick com a outra, levando-
os para fora, em direcção à estufa.



Dick -protestou:
-Não está certo. Eu sou um pregador. Sou abstêmio.
-Esta tarde também eras abstêmio, não eras? -perguntou o major. Um
copo de uísque para festejar o casamento da tua irmã não te vai
mandar para o inferno. Além disso -acrescentou, dando uma
cotovelada nas costelas do genro -, o Hammond vai precisar disto.
Hammond precisava mesmo.
-É melhor deixá-las juntas um bocado. A mãe vai explicar à tua
mulher o que vai ser o casamento, que filhos da mãe os homens são.
Sem ser subtil, o homem também não foi directo, apesar de lascivo,
nas suas alusões à consumação do casamento. Contudo, a ocasião
proporcionava liberdade à sua gulodice, e o uísque soltou-lhe a
língua. Vítima dos melindres da mulher, se não mesmo da sua
frigidez, o major Woodford, entre homens, estava pronto a afirmar
os direitos maritais do homem, que já não procurava fazer valer.
Dick, com as suas inibíções religiosas, não foi menos ofensivo que o
seu pai. A libidinosidade da sua imaginação estava espartilhada por
uma severa moralidade que a sua vocação lhe impunha.
-Nenhum branco toca numa mulher branca a menos que queira um
filho -declarou ele.
-E que vai ele fazer? Tu e as tuas pregações! -escarneceu o pai. Julgas
que eu te queria a ti, ou ao Charles, ou uma rapariga? Falas
como a tua mãe.
-Não está certo, obrigar uma senhora a submeter-se ao nosso
desejo. Não era isto que São Paulo queria. Para isso é que servem as
negras. Pode-se ter uma fêmea, não é?
-Há homens que não têm fêmea, ou ela é demasiado negra, ou
qualquer outra coisa. Que dizes a isso?
-A maior parte dos cavalheiros têm-nas, uma ou duas pelo menos.
Hammond declarou-se suavemente do lado da moralidade, que não
podia ser concedida aos que não possuíam escravos.


-Além disso, há alei. Alei dá direitos ao homem. A senhora nada
pode fazer. -0 major ria ao empunhar o seu argumento. -Estão
casados, não estão?
-Para crescerem e se multiplicarem, estão. Sim, senhor -admitiu
Dick.
-Mas não para se divertirem. Isso é pecado!
-0 meu único pecado é o uísque-disse o major, despejando o quarto
copo, -Sirva-se. Acho melhor entrarmos, antes que a minha mulher
diga à tua que não te deixe entrar na cama.

Os homens tinham-se demorado tanto tempo na estufa, que as
mulheres tinham subido. Meg adormecera no chão e Hammond
teve que o abanar para acordá-lo. o major escoltou o seu novo genro
até à porta do quarto de Blanche e foi para o quarto ao lado, onde se
ouvia Beatriz ainda a movimentar-se incansavelmente.

Blanche estava recostada na sua enorme cama, pudicamente
envolvida numa pesada camisa de noite abotoada até ao pescoço.
Harrimond imaginou, sem ver, a brancura, o cor-de-rosa-mármore
do corpo louro da sua mulher, e a ideia do contacto com ele enojou-

o. Ele próprio era ligeiramente mais arruivado, mas estava tão
habituado à vista de peles mais escuras que o simples facto de olhar
para a parte glabra do seu próprio ventre o fazia sentir-se enojado,
como se estivesse leproso ou sujo. Casara-se com Blanche pela sua
pureza racial, de que o seu cabelo louro era garantia, mas sentia-se
grato pela camisa de noite abotoada que poupava aos seus olhos a
necessidade de ver toda a extensão de pele nacarada, e grato pelos
seus escrúpulos de branca que deixavam uma tão grande parte da
pele feminina à imaginação do homem.
Era evidente que a jovem tinha estado a chorar, o que o marido
fingiu não ver. Meg, meio adormecido, descalçou as botas do patrão
e tirou-lhe as meias, ajudando-o a despir as roupas exteriores. Não


conseguiu compreender por que motivo o branco conservava as
roupas interiores vestidas, mas não fez perguntas.
-Não há coberta para ti. Vais dormir vestido; mas vê se dormes
direito e não amarrotes a roupa -avisou Hammond, empurrando-o
para a porta. -E levas com o chicote se te apanho a espreitar pelo
buraco da fechadura. Vais ver se não te penduro?
Meg estendeu-se, demasiado cansado, demasiado ensonado para
sentir curiosidade. De resto, porque havia de sentir curiosidade?
Mais tarde Meg foi acordado pelo patrão, que tropeçou no seu
corpo. Hammond saíra do quarto, de casaco vestido, meias e botas
na mão, e dissera ao rapaz meio adormecido que o acompanhasse.
Desceram a escada e o patrão puxou uma cadeira em que se sentou,
enquanto o escravo o calçava. 0 patrão permaneceu ali sentado, com
um ar preocupado e confuso. Finalmente levantou-se e pôs-se a
andar de um lado para o outro da sala, dirigiu-se à porta e começou
a passear ao longo da álea. 0 negrinho, sem saber porquê, sentia-se
tão preocupado como o patrão, que ele pressentia estar
extremamente perturbado.

Hammond dirigira-se aos estábulos e decidira atrelar os seus
próprios cavalos sem incomodar os escravos, e partir, quando a
porta lateral se abriu e Dick apareceu, perguntando-lhe se era ele
que ali estava e o que se passava.
-Não consigo dormir e levantei-me -foi a explicação que
Hammond lhe deu. -Estava incomodado, ali, sem dormir.
-Foi aquela Blanche-adivinhou Dick. -Volte lá e diga-lhe que está
casada, está casada e tem que cumprir o seu dever. Quer que eu vá
consigo ou chame o pai?
-Não, não é isso. Não consigo dormir. A prima Blanche está a
dormir profundamente. Volte para a cama -disse Hammond, com
voz suave.


A sua decisão de fugir quebrara-se. Andou a vaguear todo o resto
daquela noite agonizante. Meg sentou-se num degrau do varandim
e adormeceu.

Começou o movimento. jovens negros atravessavam a zona em
aberto, para ir ao poço. Fumo azul começou a sair das chaminés das
cabanas. Katy saiu do quarto de Dick e dirigiu-se para casa.
Começara o dia na plantação. Hammond receava a chegada dos
Woodford, com as suas perguntas silenciosas e a sua curiosidade
obscena. Sentia-se grato pela surdez de Beatriz. Perguntaria Blanche
por que motivo ele saíra da sua cama, ou preocupar-se-ia com isso?
Hammond ergueu o olhar e viu o major à porta, radioso e alegre. 0
velho limitou os seus comentários à beleza do dia e uma pergunta
insinuosa sobre o estado de saúde de Ham e como dormira.
Hammond ignorou a insinuação e admitiu que não dormira bem e
se tinha levantado cedo, mas não disse a que horas,
-Como está a Blanche? -sugeriu o pai. -Ela virá para baixo a tempo
do pequeno-almoço?
-Penso que sim -disse Hammond.
-Fiquei muito aborrecido por não se fazer um casamento de
categoria, mas escrevi-o na Bíblia de Beatriz. Ficará gravado. Devia
ter arranjado urna fêmea para ela, era o mínimo que podia fazer.
Parece mal. Não sei o que o Warren vai pensar.
-Ele e eu já escolhemos uma das nossas para o serviço dela. Não
esperávamos nada. _ Sabe como é. Os trabalhadores estão
hipotecados. Não me posso separar deles. Claro, se quiseres ficar
com a hipoteca e pagá-la, é contigo. Fica com todos, com todos os
que eu tenho -disse o major com uma cortesia que sabia seria
recusada. -0 raio daquele Charlie!
Fosse qual fosse o aspecto de alegria, real ou fingida que os outros
trouxeram para a mesa do pequeno-almoço, a austeridade de
maneiras de Beatriz anulou-o. A sua relutância em separar-se da
sua filha era agravada pela convicção de que o casamento, no


mínimo, era para a mulher um desgosto somente ultrapassado pelo
celibato. Assim tinha sido o seu. Toda a noite estivera a imaginar o
corpo puro de Blanche à mercê da bestialidade masculina e chorara
por ela. 0 seu horror ao casamento como instituição envolvia um
ressentimento pelo homem com quem a filha casara. Sentira-se
imediatamente impelida a implorar-lhe que restringisse o seu
apetite, que, sendo ele homem, ela sabia ser grande, mas foi
impedida de o fazer por um decoro feminino que proíbe a alusão a
tal tema. Nem se atrevia a sugerir a Blanche que pedisse clemência
ao marido.

0 rosto solene de Blanche não era, corno a mãe imaginava, inspirado
pelo ardor de Hammond, mas antes pela sua falta dele, que o levara
a abandonar o leito após pouco mais de uma hora junto dela. Os
seus sonhos de êxtase matrimonial não incluíam tal veleidade.

A parelha estava à espera, atrelada ao carro, quando o pequeno-
almoço terminou, mas a partida por que Hammond se sentia
impaciente, foi atrasada pelos preparativos de Blanche. Beatriz
intercalou as suas sugestões reservadas, as suas perguntas veladas,
os seus avisos, conselhos e informações, com a arrumação do
limitado guarda-roupa da filha dentro de um espaçoso saco de
carpeta, que constituia a sua única bagagem. A surdez de Beatriz
tornou a maior parte das respostas de Blanche desnecessárias, uma
vez que não conseguia ouvi-Ias. Blanche acusou a recepção dos
avisos da mãe com acenos de cabeça e movimentos dos lábios,
alguns dos quais Beatriz conseguiu interpretar. Raramente, a
rapariga interrompia o seu trabalho e ia até ao pé da cama, onde a
mãe estava sentada, para falar para dentro da corneta. Embora a
mãe lamentasse a separação, a rapariga não sentia escrúpulos de
deixar a sua casa, pois a partida era para ela uma aventura divertida
com um marido rico e uma promessa de luxo.


Eram quase dez horas quando Blanche ficou pronta para partir. Os
homens tinham passado o tempo a conversar e em visitas à estufa,
embora Dick, com um ataque de virtude, recusasse acompanhar o
pai e o cunhado nas suas libações.

Blanche desceu as escadas, vestindo mais uma vez o vestido de lã
fina, seguida por um criado com a mala de carpeta; esta foi colocada
no assento de trás do carro. Beatriz, num esforço para atrasar a
separação, sugeriu que se fizessem orações em família, mas
Hammond declarou que não podia esperar e Blanche estava tão
interessada em sujeitar-se a elas como o marido.
-Senta-te no assento detrás e toma conta daquela mala-disse o amo
a Meg. -Senta-te e não te ponhas a fazer barulho, pois vais viajar
com a tua ama.
-Não se esquece de nada? -perguntou Dick corri timidez. Ao ver
Hammond erguer as sobrancelhas, interrogativamente, Dick
acrescentou: -Por fazer o casamento. Não vai pagar? Claro, não
precisa de o fazer; não lhe estou a pedir nada.
Hammond mergulhou a mão no bolso para tirar o saco do dinheiro.
-Claro que me esqueci-disse, tirando as moedas. -Ainda bem que
me lembrou.
Não conseguindo encontrar as moedas de cinco dólares, que
considerava ser o pagamento adequado para a cerimônia, entregou-
lhe uma de dez dólares.
-É de mais, é de mais -protestou o pregador que, no entanto se
apressou a metê-la no bolso.
-Fique com ela, fique com ela. Acho que podemos pagar isso. De
resto, fica tudo em família, agora.
A declaração de Hammond deu ao major uma esperança do acesso
de qualquer Woodford às reservas dos Maxwell.
Dick retirou a moeda do bolso e, depois de a polir nas calças,
estendeu-a sobre a palma da mão em direcção à mãe.


-0 primeiro dinheiro ganho a pregar! -disse, com orgulho. -Vou
guardá-lo para semente.
Com relutância mútua, Beatriz e Hammond trocaram um beijo.
-Deus te abençoe! -disse ela. -Sê bom para ela, primo Hammond, e
não sejas demasiado exigente.
Envolveu a filha nos braços e nunca mais parava de beijá-la,
enquanto Hammond apertava a mão ao pai e ao pregador. Dick deu
a Blanche um respeitoso beijo na face, e o pai, depois de lhe dar um
beijo na testa, puxou ostensivamente de um lenço sujo e enxugou os
olhos em que não se viam lágrimas. Não havia qualquer fingimento
no paroxismo de soluços sem lágrimas que atacou Beatriz, quando
Harrimond levou a mulher para o carro. A mãe não lamentava o
casamento, mas a separação da sua filha mais nova causava-lhe
uma emoção que ela nem sabia se era tristeza ou satisfação.
Hammond trepou para o assento do condutor e desenrolou as
rédeas do chicote. 0 moço de estrebaria negro afastou-se das cabeças
dos cavalos e estes começaram a trotar. Enquanto seguiam pela álea
que levava à estrada, Blanche nunca olhou para trás. Não tinha
vontade de prolongar o encarceramento paternal.


Os cavalos pressentiram que seguiam para casa e Hammond,
ansioso por notícias dos escravos fugitivos, deu-lhes largas. 0 bom
tempo tinha secado as estradas e reduzira de tal modo os sulcos que
a carruagem não saltava nem estremecia muito.


-Tu não dizes nada. Não estás satisfeito? -perguntou a rapariga.
-Satisfeito? -perguntou-lhe o marido, preocupado.
-Satisfeito por estarmos casados, satisfeito por partirmos? elucidou
ela.


Hammond não respondeu. Quando Blanche estendeu os braços e
lhe envolveu o pescoço, afastou-a e olhou para o assento das



traseiras para a avisar da presença do escravo, que poderia notar a
sua falta de decoro.
-Sou tua mulher, não sou? -disse Blanche, defendendo o seu
comportamento.
-Penso que sim -admitiu Hammond, relutando em continuar a
conversa.
-Porque te levantaste na noite passada? Não dormiste -disse ela,
voltando ao assunto.
É sempre assim, não consigo dormir, quando me ponho a pensar. A
pensar? Em que estavas tu a pensar? És tão estranho. Estava a
pensar, a perguntar a mim mesmo que homem te teve primeiro.
Não acreditas, com certeza, que eu não conheço uma virgem.
-Eu era virgem -declarou a rapariga.
-já foste -disse o marido, sucintamente. -Mas não eras, na noite
passada.
Blanche começou a chorar, mas o marido ficou indiferente às suas
lágrimas. Voltou-se e olhou para o rapaz que ia atrás, avisando-o de
que devia tomar conta da mala de carpeta. Na realidade, estava
menos preocupado com o saco do que com o facto de Meg
compreender a conversa que se travava no assento da frente. 0
rapaz bem tinha aguçado o ouvido para a escutar, percebia que
havia desacordo, mas não conseguira compreender o que se
passava. Meg voltou a recostar-se no assento, com um ar de
inocência. Fosse qual fosse o motivo da discussão, sabia que a razão
estava do lado do patrão.
-Hammond Maxwell, estás a acusar-me de uma coisa que eu nunca
fiz. Nunca fiz, nunca fiz, nunca -repetia Blanche. -Que outra
refutação poderia opor à acusação?
-Não me venhas com essas -disse Hammond, duvidando da
negativa dela. -Pensas que eu não conheço uma virgem quando a
vejo, quando durmo com urna e tenho relações com ela?
-Não! Não! Não! -gritou ela, recomeçando a chorar.


-Não serve de nada eu afirmar uma coisa e tu responderes que não,
mas eu sei. Não podes negar.
Blanche soltou um longo suspiro.
-Vale mais dizeres-me quem foi. Talvez eu mate esse filho da puta,
talvez lhe pregue um tiro como a uma doninha ou outro animal
semelhante É melhor dizeres-me.
-Já te disse que não houve ninguém. Eu estava pura, até dormir
contigo.
-Eu? Eu tenho licença para o fazer; casei-me contigo. Mas se eu
tivesse sabido disso antes de ontem à noite, não o fazia, não me
casava contigo.
-Hammond, Hammond, como podes pensar uma coisa dessas?
Como podes tu?
Inclinou-se para ele e pôs-lhe os braços em voltado pescoço,
procurou a boca dele com a sua, mas ele voltou o rosto para evitar o
seu beijo. Compreendeu que não estava convencido.
A certa altura estivera tentada a revelar-lhe a verdade, mas mordera
a língua. Se ele soubesse, talvez lhe perdoasse, tão pequeno fora o
seu pecado e feito havia tanto tempo. Por isso ela odiava Charles e
Charles a odiava, era esse o facto que mantinha suspenso sobre a
cabeça do irmão, ameaçando contá-lo. Ela pouco mais tinha que
treze anos e Charles era dois anos mais velho. Tinha estado a
brincar às casinhas, ela era a mãe e ele o pai, e a sua filha era uma
boneca. Na altura tinha-lhe parecido bastante inocente, embora
ambos soubessem que tal acto era proibido. Charles, na sua
brincadeira, tinha insistido nos seus direitos de marido, enquanto
que ela imitava a frigidez de sua mãe, embora não pudesse disfarçar

o prazer que sentira na sua violação. Ocorrera havia tanto tempo.
Como poderia o marido saber e acusá-la? Se Charles ali estivesse, se
alguém soubesse onde ele estava, ela poderia ter contado a
Hammond aquilo que guardara durante tantos anos de seus pais.
Hammond mataria Charles e ficaria satisfeito? Desembaraçar-se-ia
do problema.

Mas não lhe disse coisa alguma, e foi inflexível, categórica, quase
convincente, na sua negação. Corno é que Hammond podia saber
que ela não era virgem? 0 que o fizera suspeitar? Ela nem imagina a
sua educação com Sukey, Afrodite, Pérola Grande, Ellen, e todas as
outras mulheres que haviam partilhado a sua cama, em diversas
alturas.

Deixou-se ficar, a tremer, cheia de medo de que o marido a
rejeitasse, a mandasse embora, a devolvesse a Crowfoot. Nenhum
outro homem a quereria agora, depois de saber do seu casamento
com MaxwelI, que nã o podia ser ocultado. A sua virgindade, a jóia
mais preciosa de uma jovem em idade de casar, seria dada como
perdida. 0 facto de Hammond não voltar para trás, convenceu-a de
que ele tinha dúvidas, de que estava convicto até, se não mesmo
seguro, das afirmações dela.

Mas Hammond não tinha dúvidas, tinha mesmo certezas. A
conversa terminara, mas os pensamentos continuavam a girar. 0
dueto dos passos das éguas sobre a terra da estrada formava uma
estranha melopéia. A recuperação dos escravos deixará de
interessar ao seu proprietário. 0 seu espírito era unicamente
torturado pela degradação da mulher. Os cavalos deixavam-se
conduzir por si próprios, em frente, em direcção a casa. Hammond
não os fez voltar para Crowfoot. Não havia regresso.
Finalmente, ele disse:
-Sim, estamos casados, penso eu. Nada há que possamos fazer,
agora. Estamos casados -repetiu. -Temos que tirar o melhor partido
disso.

Blanche sentiu a anomalia da sua posição, mas ficou aliviada por o
marido a aceitar. Suspirou. -Mas não devemos falar disto ao meu
pai. Ele nunca deverá saber que tu não estavas pura. Quebrava-lhe

o coração, quebrava-lho em dois, saber que Falconhurst pertenceria

ao filho de uma... -Procurou o termo, mas não descobriu nenhum
que fosse aplicável. -Como tu -disse, concluindo a frase.
0 seu erro de infância, meio esquecido, parecera a Blanche um
simples pecadilho, mas sabia agora que o não fora. 0 marido
aceitava-a como algo já usado, manchado, sem gosto, em segunda-
mão.
Ela não imaginara a continência prematura do homem com quem
viesse a casai. Esse conceito tê-la-ia assustado, ou mesmo revoltado.
Conhecia os costumes do irmão com as fêmeas, e suspeitava dos do
seu pai. A satisfação dos seus desejos era uma prorrogativa
masculina a que não se podia atribuir culpas. Mas porquê restringir
as capacidades da mulher? Porquê a ficção de que não existiam?
Que era uma virgem? Como é que um homem sabia?

Viu-se a si própria como sempre suspeita, incapaz de opor objecções
ao que quer que o marido fizesse. Não previra tal desenlace para o
acidente, o acidente trivial que ocorrera anos antes, tal como não
imaginara que ele pudesse ser a causa de o marido sair da cama e
andar a passear pela estrada ao luar. Mas, ao menos, ele não a tinha
rejeitado, não a tinha desprezado. Continuava a avançar, levando-a
em direcção a Briarfield, para Falconhurst.
-Gostava de saber se aquele Maddox apanhou os mestiços -disse
Hammond, mudando de assunto. -Estamos a chegar a Briarfield.
Penso que tenhas fome e te apeteça jantar. -Não obtendo resposta,
falou afavelmente para Meg, voltando-se para trás: -Estás com
fome, rapaz? Aguenta-te; pouco falta para a velha Marta te dar uma
caçarola cheia de comida.
Blanche, por ressentimento, desejou que os escravos não tivessem
sido apanhados. Não se encontrava em posição de protestar quanto
a levarem-nos no carro -não estava em posição de objectar a coisa
alguma que o marido decidisse fazer, a partir dali.
Os cascos dos cavalos ressoaram sobre a ponte de madeira que
atravessava o ribeiro enlameado e entraram em Bríarfield. Junto da


Casa Maddox, Hammond desceu e ajudou Blanche a descer, antes
de levar os cavalos para o estábulo e dar instruções a Fred para os
alimentar. Eph Maddox já estava à espera à porta, quando
Hammond voltou a atravessar a estrada, seguido do seu negro, e se
juntou à noiva.
-Veio tarde, mas eu sabia que viria. Guardei o jantar -disse
Maddox, saudando-os.
-Apanhou os negros? Conseguiu agarrá-los? -perguntou
Hammond, mais interessado no seu investimento do que na
comida.
Maddox fez sinal com os ombros para o seguir e abriu a porta do
quarto.
-Encurralei-os bem. Hoje de manhã cedo estavam a espreitar duma
meda de feno do Sime. 0 mais pequeno fugiu, mas, quando viu que
eu tinha apanhado o maior pelo pescoço, veio ter comigo e deixou-
me apanhá-lo.

Os cativos estavam de joelhos, acorrentados a um poste da cama. 0
mais pequeno agarrou-se ao irmão mais velho, e recuaram até onde
as correntes lho permitiam; nas suas pupilas brilhou um medo
verde, o medo dos animais encurralados, que fez contraste com o
negro das suas pupilas. Os seus fatos eram tão resistentes quanto o
vendedor reclamara serem, visto que ainda estavam inteiros, mas a
sua cor castanha estava suja e manchada.

As roupas pendiam das suas pernas e braços compridos como se
estivessem vestidas em espantalhos e faziam-nos parecer ainda
mais magros do que antes. A carne visível, os pés, as mãos, e a cara,
estavam tão sujos como antes de Marta lhes ter dado banho, e o seu
cabelo liso estava de novo todo emaranhado e cheio de palhas.
Uns restos de comida dentro de urna caçarola de ferro oblonga e
enferrujada, que estava no chão, provavam que os rapazes tinham
sido alimentados.


-A mulher do Sime queria escondê-los até o senhor se ir embora e
vendê-los outra vez. Mas eu pus os pés à parede e trouxe-os. Não
me quero meter em roubos de negros -afirmou Maddox, com uma
conscienciosa probidade. -Não se esqueça deque a nota que lhe dei é
para me pagar a mim e não à mulher do Sime.
Harrimond sabia bem a quem tinha de pagar. Avançou, agarrou no
braço de As e ordenou-lhe:
-Levanta-te. Trunfo levantou-se ao mesmo tempo que o irmão.
Ambos tremiam e olhavam furtivamente para aquele homem severo
que controlava os seus destinos. Sabiam qual seria o seu destino
imediato. Era inútil tentar fugir-lhe.
-É melhor comer primeiro, antes que a comida fique fria -sugeriu
Maddox. -Guardei-os para si. Não lhes toquei, só dei uns pontapés
no mais pequeno. Calculei que quisesse castigá-los o senhor mesmo.
-Estou muito satisfeito por ver estes patifes -disse Harrimond,
suspirando de alegria. -Detestava contar ao meu pai que tinha
comprado dois pretos e os tinha deixado fugir, logo os dois.

0 interesse de Blanche pelos escravos recuperados era negativo, pelo
que esperou no escritório, enquanto Hammond os foi ver. Sentía-se
satisfeita por ele se absorver no assunto, pois assim afastava a
atenção de outro assunto menos agradável. Ele veio ter com ela e
entraram juntos na casa de jantar.
-An! An! -murmurou Marta, trazendo comida da cozinha. -Que
sinhora bonita! Casou cum ela, patrão, siô? An! An! É mêrno bonita.
Foi um lindo ajuntamento.
Hammond apreendeu o espírito das felicitações da preta e
agradeceu-lhe.
A rapariga esta enervada e comeu pouco, mas notou que o apetite
de Hammond não fora prejudicado. Meg comeu na cozinha.
Quando Harrimond lhe pediu uma nota das suas despesas, Maddox
revirou os olhos, para fazer os cálculos.


-Cerca de, cerca de um dólar e vinte e cinco -disse ele. -Isto é, por
tudo, na verdade deveria ser um e cinquenta, da maneira porque os
mestiços comeram. Além disso, fui ao Sime, mas ia lá de qualquer
modo, e não lhe levo nada por os trazer. Mas não os deixe fugir
outra vez, senão ...
Hammond pagou sem protestar. Maddox seguiu-o até ao quarto
onde os escravos estavam acorrentados e soltou a corrente da cama.
-Gostava de lhe comprar um par destes ferros para o grande. 0
pequeno não foge. Com esse posso eu.
-Leve-os e mande-mos outra vez. Não lhe vale a pena comprá-los.
Tem muitos em casa, penso eu.
-Tem a certeza de que não vai precisar deles?
-Para quê? Não tenciono pôr grilhetas à Marta. -Maddox riu-se
com a ideia. -Só os tenho para pessoas que possam aqui ficar com
escravos. Mas mande-mos, logo que puder. Guarde a chave no
bolso das calças.

Hammond tirou as grilhetas dos tornozelos de Trunfo e avisou-o
para não fugir. Empurrou Ás, impedido de dar grandes passos
pelas suas grilhetas, e levou-c, lentamente até à estrada, prendendo-

o à parte de trás da carruagem. Trunfo seguiu-os, agarrado à manga
do irmão mais velho. Havia poucas probabilidades de ele fugir
sozinho, mas Hammond tomou a precaução de o colocar no meio
do assento, entre Ás e Meg, que se sentou o mais longe possível
para evitar a contaminação e cujo interesse por aquelas bagagens se
caracterizava por uma nítida determinação de os ignorar. Blanche
olhou com desprezo para os mestiços, quando o marido a ajudou a
subir, mas reteve, sensatamente, qualquer comentário sobre eles.
Levantara-se uma ligeira brisa e uma camada de nuvens, pouco
mais do que uma névoa, ofuscou o brilho do Sol. Hammond
levantou os olhos para observar o tempo, antes de subir para o
lugar de condutor.


-Talvez chova -prognosticou. -Mas não deve ser antes de amanhã.
Talvez consigamos chegar a casa primeiro.


A comida e a bebida tinham refrescado as éguas que partiram com
determinação. Também elas pareciam sentir a mudança do tempo
que as impelia a voltar para casa, para se abrigarem. Para conduzi-
Ias, bastava restringi-Ias um pouco, para que o carro não balouçasse
e saltasse nos sulcos e altos da estrada pouco utilizada.


Blanche pensou se o silêncio de Hammond seria dirigido ao seu
pecado. Contudo, o pensamento dele estava noutro lado.
-Acho que vamos pararem casa de miss Church -disse ele,
finalmente.
-Miss Church? Quem é? -perguntou Blanche.
-A miss Church? É uma senhora, uma senhora viúva, que tem uma
quintarola em Fairfax.
-Porquê? Porque é que paramos? julguei que estivesses ansioso por
chegar, por chegar a casa.
Hammond reprimiu o riso, perante o seu plano.
-Ela tem um filho, a miss Church, que tem grande desejo de ter um
negro, um negrinho esperto. Como eu sei que ela tem dinheiro,
penso que lhe interesse comprar um dos negros que levo aqui. Se
tivesse pensado nisto, tinha-os mandado lavar e pentear outra vez,
em Briarfield.
-Tu e os teus negócios de negros! -disse Blanche, com desprezo,
simultaneamente aliviada e desapontada por os pensamentos dele
se não reportarem a ela.
0 zéfiro brando que aumentara de força e a névoa que encobria o Sol
prenunciavam uma chuva fina que em breve começou a cair. 0
vento arrastava pequenas gotas que entravam no carro do lado de
Blanche. Formaram uma espécie de orvalho sobre o vestido dela e
depois ensoparam-no, mais do lado esquerdo que do direito. A



chuva afligiu-a, mais por medo de que o vestido se estragasse do
que pela sua saúde, e ficou bastante satisfeita quando voltaram para
a quinta dos Church, e se livraram do mau tempo.
Madison, que regressava a casa, vindo do estábulo, parou, ao
reconhecer a equipagem, e depois galopou ao encontro deles.
-0 meu amigo, o meu amigo! -gritou ele. -0 senhor Maxwell!
Mamã, venha cá depressa! 0 senhor Maxwell voltou!
Meteu o braço dentro do carro, na sua exuberância, para agarrar no
braço de Hammond e bater-lhe no ombro. Agarrou depois nas
rédeas dos cavalos e correu, à frente da parelha.
Quando chegaram junto da casa, a senhora Church, com uma das
mãos enfiadas numas ceroulas de Mad que estava a remendar, saíra
para o varandim.
-Meu Deus, é mesmo ele! -exclamou com entusiasmo. -0 Mad está
todo contente, e todos nós ficamos, por o ver. E esta é a sua mulher?
Que bonita, que simpática, que inocente! Entrem! Saiam desse mau
tempo.
-Esta é a senhora Maxwell. Ela é que vai ser a minha mulher -disse
Hammond, apresentando Blanche, sem fazer caso das observações
da outra mulher.
-Ora esta! Entrem e saiam da chuva! Gostava tanto que o Mad
fosse... arranjasse uma mulher bonita e pura, como a sua. -A
senhora Church abanou a cabeça, com desespero. -Tens tu que
desatrelar a parelha do senhor MaxwelI, Mad. Nunca há negros
quando precisamos deles, nunca cá estão.
-Não é preciso. Não posso ficar -disse Hammond.
-Não pode? -perguntou Mad, com surpresa e desolação na voz. Com
esta chuva? Pode ficar aqui tão bem como em Faírfax. 0 efeito
é o mesmo.
Hammond estava certo de ser assim acolhido.
-Veremos, se o tempo não levantar -disse, em meio prometimento.


-Vejo que ainda tem o negrinho dos botões de ouro -disse Mad,
estendendo os braços para ajudar Meg a descer do carro. -Mas
quem são estes rapazes brancos? Venham.
-Não são brancos; são mestiços -corrigiu o dono. -Acabo de os
comprar.
-Mestiços? Os mestiços são caros.
-Pensei em si e lembrei-me de que queria um rapaz de pele clara e
esperto.
-Pensou em mim? -perguntou Mad, acreditando na lisonja.
Ninguém jamais fizera coisa alguma a pensar especificamente em
Mad.
-Pode ficar com eles, com aquele que quiser.
-Ele está acorrentado! -anunciou Mad, como se fizesse uma
descoberta. -Não gosto disto. Porque é que o acorrentou?
-Eu sou aleijado, compreende. Se ele tentar fugir, não consigo
apanhá-lo.
-Oh! -exclamou Mad, cheio de comiseração por Ás. -Ele não vai
fugir de si. Abra-lhe as grilhetas e traga-o para casa connosco.
-Ele está bem onde está -disse Hammond. -Deixe-o ficar no carro.
-0 pequeno não foge, pois não? Esse pode ir.
-Se quer que ele vá. Não está lavado.
-Quanto quer por eles? -perguntou Mad, ansiosamente. Depois,
com desespero, disse: -A mamã não me compra nada.
-Setecentos e cinquenta pelo grande, por ser para si; e quinhentos
pelo pequeno, parece-me bem -disse Hammond, à experiência. Uma
vez que são mestiços.
-São perfeitos?
-Dispa-os, se quer ver. Estão magritos, não lhes davam de comer,
mas são perfeitos, com excepção de algumas marcas de chicote nas
costas do mais pequeno, são chicotadas que hão-de desaparecer.


Hammond baixou as calças de Trunfo e tirou-lhe a camisa, expondo
os ombros com cicatrizes.



-Quem fez isso a uma coisa bonita como esta? -perguntou Mad,
com retórica simpatia. -Não foi o senhor, pois não?
-Ele já as tinhas. Estão a secar. E o vendedor esfregou a palma da
mão sobre a superfície marcada, num esforço inútil para apagar as
cicatrizes.
Mad passou a mão pelo cabelo de Trunfo e afastou-lhe do rosto.
-Eu preferia, o pequeno -escolheu, melancolicamente. -Mas a
mamã não quer. Não serve para nada. Ela não o quer; vai ver, não o
quer.
-Não quero insistir; só estava a pensar em si.
-Se ao menos ele tivesse botões dourados, como o seu.
-Bom, podem trocar de roupa, se o seu puder vestir a deste. Meg,
despe-te.
0 rapaz olhou fixamente para o patrão, sugou o lábio inferior e tirou


o casaco. Formaram-se lágrimas nos seus olhos, enquanto despia as
calças. Interpretava a privação do seu uniforme como um
afastamento do seu cargo e da sua posição como criado particular
do patrão. Tentou conservar os sapatos e as longas meias brancas já
sujas, mas recebeu ordem de os tirar também.
A troca de roupas transformou Trunfo num Triunfo. Era maior do
que Meg, especialmente mais comprido de braços e pernas, e
parecia rebentar dentro do casaco de botões de latão. As meias
enrugavam-se nas pernas magras, embora tivesse lutado para enfiar
o seu grande pé nos sapatos de Meg. Os fatos que Triunfo despira
caíam ainda pior em Meg do que no outro rapaz; só os suspensórios
impediam as calças de cair.
Mad não viu qualquer incongruência no modo como as roupas de
Triunfo lhe assentavam e ficou indiferente em relação às de Meg.
Estava mais preocupado com os botões do que com a carne por
baixo deles. Deixando Ás agrilhoado ao degrau do carro, Mad
agarrou na mão de Triunfo e correu, aos saltos, para casa.


Hammond seguiu-o, mais devagar, debaixo de chuva, com Meg que
lutava para conservar a roupa vestida.
-0 senhor Maxwell trouxe-me um pretinho, mamã! -disse Mad,
entrando de rompante na sala onde a senhora Church tentava
estabelecer conversa com Blanche. -Que pensa disto? 0 senhor
Maxwell lembrou-se de mim. Viu este negro e pensou que eu
gostava de tê-lo. Não foi, senhor Maxwell? -disse, pedindo a
confirmação de Hammond, que entrava.
-Não sabia se gostaria dele. Só pensei -respondeu Hammond mais
timidamente do que quando falava do assunto só com Mad.
A senhora Church observou o escravo superficialmente.
-Não é suficientemente grande -objectou ela. -Eu quero e hei-de
arranjá-lo, um suficientemente grande para se ocupar de Erarnaline.
-Tenho um maior, mas é mais alto -disse Hammond. Suficientemente
grande para se ocupar dela.
-Não, não, não, mamã, não -amuou Mad. -Eu quero este. Chamei-
lhe Triunfo; não é senhor Maxwell? 0 outro não tem botões
dourados, nem nada. Eu quero este.
-0 meu pai, que vive em Kentucky -explicou a senhora Church,
sem fazer caso do filho -cria mulas. -Quando ele morrer, o
Madison poderá ter todos os negrinhos que deseja. 0 meu pai nunca
me perdoou que fugisse com o Wash Church, ainda não sabe que o
Wash se atirou ao poço. Mad sabe muito bem que não pode
comprar mais negros antes de o avô morrer.
-Bem, não faz mal -disse Hammond, desculpando-se. -Eu sabia que

o Mad desejava um rapaz de pele clara.
-E deseja mesmo. Não sei para quê.
-Mamã, mamã -choramingou Mad. -A mamã tem dinheiro, eu sei
que tem dinheiro. 0 senhor Maxwell só pede quinhentos dólares.
Tem esse dinheiro para gastar.
-0 pouco que temos tem de durar até o avô morrer, e tu ficares com
a plantação dele, as mulas e os negros. Mad não compreende que
tem de esperar. Nunca visita o avô.

-Mas eu quero este, mamã. Olhe: botões dourados e tudo. Eu vou
chorar, mamã; eu vou chorar.
-Não chores; não chores, Mad, não chores -suplicou a mãe,
aterrorizada.
-Vou chorar -continuou Madison com ameaças.
As lágrimas eram a artilharia pesada de Mad. Conhecia o seu efeito
sobre a mãe. Não estava certo de conseguir fazê-las sair, mas
contorceu o rosto. Ainda de joelhos, afastou-se com ar mimado, do
regaço da mãe, e abraçou-se a Triunfo pelas ancas, enterrando o
rosto no casaco do rapaz. Após três ou quatro soluços esforçados, as
lágrimas brotaram dos seus olhos. Continuou a esconder o rosto, até
estar certo de ter os olhos vermelhos. Levantou a cabeça e espremeu
mais lágrimas, deixando-as escorrer pelas bochechas gordas.
Levantou-se e, olhando acusadoramente para a mulher desanimada
declarou:
-Nunca há-de ter nada de mim. 0 meu papá saltou para o poço por
sua causa.
Não era uma ameaça aberta, contudo o jovem esplenetico saiu pela
porta fora e fechou-a com força. Os seus passos rápidos no chão do
varandim dirigiram-se para o pátio onde ficava o poço em que o seu
pai se afogara.
A senhora Church começou a gritar, impotente.
-Não o deixem, não o deixem! Salvem-no! -gritou ela. -0 meu
filho, o meu filho!
Era inútil para Hammond, como seu joelho rígido, tentar apanhar
Mad. Talvez, pensou ele, o pudesse salvar depois de se atirar ao
poço, e começou a segui-lo. Antes de chegar à porta, a senhora
Church já o ultrapassara, perseguindo o filho.
-Volta, Mad; volta, Mad! Não faças isso, Mad! -gritava ela. -Eu
compro-to. Vou comprar-to. Vou sim, Mad. Não saltes. Mad; não
saltes. Volta e eu compro-to. Tudo, tudo, tudo o que tu quiseres.
Madison parou e voltou-se.


-Não volto antes de o fazer. Diz que compra, mas quando eu voltar,
já não compra -disse ele friamente.
-Eu compro Mad. Compro-to já. Vou buscar o dinheiro e podes
comprá-lo. Volta.


Madison voltou lentamente para trás, com um sorriso impertinente
no rosto coberto de lágrimas. A mãe esperou no varandim até ele
chegar ao seu alcance. Depois puxou-o para ela e beijou-o três
vezes, o que ele lhe permitiu que fizesse, sem mostrar qualquer
emoção.
-Eu nunca disse que ia saltar. Só disse que o meu pai saltou. -0
rapaz riu com sarcasmo. -Mas a mãe prometeu e tem que cumprir,
senão salto mesmo; digo-lhe que salto.
-Eu cumpro. Eu cumpro. Vou só buscar o dinheiro. Não saltes,
Mad, não penses nunca em saltar. A tua mãe faz tudo o que puder.
Não te lembres de saltar.
0 rosto da senhora Church perdera toda a cor e as suas mãos
tremiam quando entrou no quarto onde estavam a avó e a idiota,
para ir buscar o seu dinheiro, que conservava dentro de um cesto de
costura de abrir ao meio, escondido por baixo da cama da idiota. 0
cesto curvava-se com o peso das moedas, quando o levou para a
sala; puxou a sua cadeira usada, e esvaziou o conteúdo do cesto,
uma mistura de trapos, moedas de ouro e prata de diversos tipos, e
notas, em masso e amarrotadas, para dentro do regaço.
-Quinhentos dólares -diz o senhor, não é? -Olhou para Hammond. Não
acha que poderia baixar um pouco o preço? Eu sei que os
mestiços são caros...
-Foi o que eu disse ao Madison, quinhentos. Hammond sentia-se
tentado a baixar o preço.
-Não o explores, mamã. Eu quero um preto de quinhentos dólares.
Não quero um preto barato -interrompeu Mad.
A senhora Church respirou fundo e olhou para o monte, no seu
regaço.



-Acho que tenho isso. Suspirou e começou a endireitar o dinheiro,
escolhendo as moedas e contando-as.
-Não confio naquela gente dos bancos. Estão sempre a falir quando
queremos receber o nosso dinheiro.
-0 meu pai também não confia neles -concordou Hammond. A
mulher ergueu o olhar da sua tarefa e perguntou.
-Aquele negro é perfeito? Garante-mo?
-E perfeito! já o vi despido -insistiu Mad, ansioso por consumar o
negócio.
-Excepto algumas marcas de chicote que estão a sarar -especificou
Hammond, meticulosamente. -E não garanto que ele não fuja. Não
garanto.
Nada disse, sobre a fuga de Briarfield.
-0 Mad não percebe-disse a mãe. -Não saberia dizer se é um macho
ou uma fêmea.
-É um macho. Eu não quero uma fêmea, não as suporto -protestou
Mad.
-Há aqui mais do que eu suponha, mais do que sabia -disse
pensativamente a senhora Church, endireitando uma pilha de notas
no joelho. -Aqui tem. Quinhentos dólares. É muito dinheiro só por
um, que nem cresceu.
Mad tirou a pilha das mãos da mãe e deu-a a Hammond.
-É melhor contá-lo. Não sou muito boa para essas coisas -disse a
senhora Church, arrecadando o resto do dinheiro dentro do cesto. Tenho
que me agarrar ao que resta. Só espero que dure até o m eu
pai morrer. Penso que tudo correrá bem e arranjemos bom algodão
este ano.
Hammond contou o dinheiro por duas vezes e descobriu que ela lhe
pagara quinze dólares a mais, que devolveu.
-Ainda bem que estava a mais, ficava muito aborrecida se estivesse
a menos. -A senhora Church aceitou o excedente e meteu-o debaixo
dos trapos no cesto, que colocou ao lado da sua cadeira. -Nunca


soube contar bem e o Madison também não. Sal a mim, nisso. 0
Wash Church nunca se enganava,
Triunfo estava de pé, mudo, no meio da sala, apercebendo-se só
muito vagamente da transferência de propriedade.
-Posso dar-lhe de comer, mamã? Posso? Só um bocado de pão com
melaço? -perguntou Madison. -Isto tem fome.
-Não o podes deixar sossegado? Podes esperar até todos comermos
a ,ceia. Não o ponhas já doente, enchendo-o de comida -aconselhou
a mãe. Mad meteu a mão nas algibeiras e encontrou três rebuçados
de limão sujos que enfiou à força na boca do escravo, para acalmar a
sua imaginária fome. Triunfo nunca provara rebuçados. Concluiu
que fosse um remédio até se dissolver agradavelmente na sua
língua. Lançou então um sorriso pálido e furtivo ao seu novo
patrão, por este sinal de favor.
-Posso lavá-lo, mamã? Está todo sujo -disse Madison, passando a
mão sobre a carne do rosto e do pescoço do rapaz.
A senhora Church fungou.
-Com esta chuva toda? Queres que ele fique tísico? Quando o
tempo estiver bom, podes mandar o Luke lavá-lo.

Chegou a hora da ceia e, depois de todos os brancos, incluindo a
avó, descalça, terem comido, Mad fez sentar Meg e Tríunfo à mesa e
encheu-lhes os pratos de comida, ordenando à amuada Emirialine
que trouxesse café e leite para os ajudar a engolir a comida. Triunfo,
que não conhecia garfo e faca, comeu com as mãos, excepto quando
Madison, que andava por trás deles, espetou uma morcela num
garfo e a colocou na boca do surpreendido rapaz. Meg conservou os
olhos postos na mesa e tentou não ver os cuidados impróprios do
patrão para com o seu escravo. Desprezava um homem branco que
se rebaixava àquele ponto.
Continuava a chover quando Madison chamou Lulce ao varandim
para se assegurar de que ele dera de comer aos cavalos, incluindo os
de Hammond.


-Que vai fazê àquele rapaz branco que tá preso no carro? perguntou
Lulce. -Devia trazê ele pra dentro.
Hammond ouvira a pergunta do interior da casa. Coxeou até à
porta e gritou:
-Atirem-lhe qualquer coisa para comer! Pão ou coisa parecida e
deixem-no estar. Não se rale com ele. Não pode ficar solto.
-Ele tá a chorá -adiantou Luke. -Quê o outro.
-Eu faço-o chorar, quando chegara casa-ameaçou Hammond. -Faz


o que eu te disse, mas dá-lhe de comer.
A senhora Church entregou ao casal de noivos a sua cama que
ficava no quarto de Mad, e dormiu numa cama de rodas que tinha
debaixo da cama de quatro colunas da idiota, à volta do qual puxou
os cortinados, quando Blanche e Hammond passaram pelo quarto a
caminho da sua cama. Avisou Madison de que devia despir-se no
escuro e só depois de Blanche estar na cama. Meg foi forçado a
dormir no chão da sala longe da porta do quarto do seu amo.
Triunfo, contra a vontade de Mad, que o queria na sua cama, foi
mandado para a cozinha, para dormir com a rapariga clara com a
qual, apesar de muito novo, talvez viesse a acasalar, segundo a
senhora Church pensava. Se não agora, pelo menos em breve. Tinha
visto Eminaline a olhar para o rapaz e sabia que, pelo menos pela
parte dela, não seria difícil.
Enquanto estava deitada na sua cama de rodas, a senhora Church
pensou se não teria sido mais sensato, em vez de comprar um rapaz
para o Mad, dispender uma soma maior de dinheiro e comprar o
irmão mais velho de que ouvira Mad e Hammond falarem ao jantar,
mas que apenas vira quando a carruagem passara junto da porta em
direcção ao celeiro. Isso poupar-lhe-ia definitivamente a
necessidade de alugar ou pedir emprestado um macho para a núbil
Eminaline. Contudo, Madison tinha-se decidido pelo rapaz mais
pequeno e agora seria impossível alterar a sua escolha.

Madison era mimado e pouco razoável, sabia-o bem. Ela própria o
estragara, mas não o lamentava. Se ao menos pudesse continuar a
satisfazer sempre o seu único filho e a dar-lhe tudo o que ele
desejasse para se conservar feliz! Ele era tão grande como o senhor
MaxwelI, tinha a mesma idade ou estava muito perto, contudo
Hammond era um homem e Mad continuava a ser uma criança.
Mad nunca gostara do seu pai, mas se Wash Church fosse vivo,
talvez Mad tivesse crescido. Não culpava o rapaz; na realidade,
agarrara-se à sua infância e prolongara-a.


Lamentava a necessidade de deitar aquele casal de noivos no
mesmo quarto de Madison; mas que outra coisa poderia fazer? A
sua intimidade pouco poderia ser perturbada pelo rapaz na cama
oposta, que dormiria, sem tomar conhecimento do que se passava.
A porta abriu-se e Madíson, com a roupa interior, apareceu.
-Mad -disse a mãe. -Tens alguma coisa?
-Eles estão a fazer aquilo, mamã. Estão a fazer aquilo! Não quero
ficar lá -murmurou o rapaz.
-Vai para a cama. Não os escutes. Não olhes. Não te fazem mal.
-Sinto-me enjoado -disse ele.
-Bem, então veste-te. Ainda te matas.
-Vou para a cozinha para o pé do lume, dormir com o Triunfo,
depois de vomitar. Porque é que eles têm de fazer aquilo?
-São casados -explicou a mãe. -Que é que esperavas. Madison
passou sobre Meg que estava ao lado da porta sem o acordar, e
encaminhou-se para a casa de jantar, daí passando à cozinha. 0 seu
desejo de vomitar desaparecera. Emnialine estava estendida
sozinha. Triunfo desaparecera. As achas da lareira iluminavam a
casa.
Com o pé descalço, Mad acordou a rapariga.
-Onde está o Triunfo? -perguntou, assustado. -Onde foi ele? Porque


o deixaste ir?

A rapariga abriu os olhos e tentou focá-los no patrão que teve de
repetir as perguntas.
-Não sabe, não, patrão, siô -respondeu a rapariga, mais
preocupada em coçar-se do que em saber onde estaria Triunfo. -Eu
não viu ele. Eu não fez nada.
-Fugiu. Foi isso. Fugiu. Não gostou de mim -murmurou o rapaz,
começando a chorar.
-A siôa pôs o rapaz aqui e disse a ele para se deitá com eu pra ficá
quente, mas ele não ficô. Ele saiu pela porta ali, eu esperá, mas ele
não voltô explicou a rapariga.
Mad convocou o seu espírito de decisão e limpou as lágrimas.
Descalço, sem se vestir, correu para o estábulo. Não havia um
minuto a perder. Se o fugitivo seguisse pela estrada, Luar
apanhava-o. Madison nem se importou com o tempo. Não tinha
outra alternativa além de perseguir o escravo. Provavelmente ele
seguira na direcção de Briarfield, donde tinha vindo. Mad ia a
correr quando chegou ao estábulo silencioso. Entrou aos tropeções
na divisão onde guardava os arreios e levantou a sela até ao ombro.

Quando saía, viu o carro de Hammond e, vagamente, na
obscuridade, divisou duas figuras entrelaçadas, no assento de trás.
Urna delas era Triunfo que viera dormir com o seu irmão.
Encantado por descobrir o seu escravo, Mad deixou cair a sela.
Entrou no carro, abraçou-se ao rapaz profundamente adormecido e
transferiu a cabeça dele do ombro do irmão para o seu ombro. A
forma flácida não acordou e até se ajeitou contra o seu dono, sem se
aperceber da mudança de posição. Mad, na sua satisfação por
encontrar Triunfo, adormeceu. Assim encontrou Luke o seu patrão,
ao amanhecer, quando chegou para dar de comer ao gado.

Mad mandou Luke a casa buscar as suas roupas para poder voltar e
enfrentar os seus convidados decentemente vestido. A mãe tinha-se
levantado cedo e estava na cozinha, dando ordens a Eminalme para


que apressasse a preparação do pequeno-almoço. 0 presunto chiava
ao lume. Hammond apareceu, vestido e impaciente por partir cedo,
esperando chegar a casa ao anoitecer ou pouco depois. Só Blanche
se demorou a vestir-se, mas também acabou por aparecer,
queixando-se da continuidade da chuva através da qual lhe custava
a prosseguir viagem.

A senhora Church insistiu para que ficassem até a tempo melhorar,
mas Madison apesar de admirar muito Hammond ressentia-se da
presença da sua mulher e ficou satisfeito com o seu amigo pela
decisão de partir. Além de se ver livre de Blanche, desejava ficar só
para se gozar bem de Triunfo, que ficaria livre de quaisquer laços,
quer ao seu anterior dono quer ao seu irmão mais velho.

Mais por dever do que por esperar que ele o fizesse, Hammond
convidou o seu hospedeiro a visitá-lo em Falconhurst. Quando
subiu para o assento do condutor, olhou para trás e viu Meg
sentado, com ar impertigado e autoconsciente, tão afastado de As
quanto lhe era possível chegar-se para o canto oposto.

A senhora Church recuou para o varandim e tirou o avental da
cabeça, acenando com ele. Mad estava de pé , à chuva, com um
braço em volta do ombro de Triunfo, como para o impedir de seguir

o veículo. Luke soltou a brida por que segurava a égua do lado de
fora. Quando o carro atingiu a estrada exterior, apenas Ás olhou
para trás e acenou.

Capitulo vigésimo quinto


Depois de Fairfax, o Sol espreitou, numa tentativa, através das
nuvens fugitivas. A chuva fina parara de cair. Por causa da chuva,
as estradas estavam em piores condições e dificultavam o avanço da
parelha, apesar da sua ânsia de chegar a casa que anulava a fadiga.
A meio da tarde, as nuvens tinham-se afastado para ocidente, no
horizonte, o Sol apareceu por completo, e a paisagem lavada
brilhou através do vapor que dela se erguia.

Havia poucos viajantes nas estradas. A parelha alcançou pedestres
que passavam ocasionalmente, na maioria negros que paravam para
olhar e acenar, e encontrou cavaleiros, pouco frequentes, por vezes
seguindo a par, que os saudavam gravemente e faziam comentários
sobre o tempo. A certa altura passaram por uma caravana de
ciganos, acampados à beira da estrada, com dois vagões, uma
carroça, três mulheres de roupas desbotadas que outrora tinham
sido de cores berrantes, ocupadas a cozinhar junto de uma fogueira,
meia dúzia de homens desocupados e outras tantas crianças nuas,
acenando e gritando desarticuladamente enquanto corriam atrás do
carro. Amarrados de ambos os lados da estrada havia cavalos e
mulas de pescoço curto e esparvonados, e uma égua cinzenta que se
tornava notada entre eles por ser perfeita e de excelente aspecto.
Hammond chicoteou a parelha, ao passar pelo acampamento, para
proteger Blanche do espectáculo dos rapazes nus.

Apenas o ruídos dos cascos dos cavalos quebrava o silêncio
monótono. Blanche pensava nos vestidos que ia comprar.
Hammond viu um campo plantado em que começavam a nascer
ervas daninhas e começou a pensar se os seus rapazes estariam a
cortar algodão na sua ausência. Não conseguia contar com o pai
para pôr os negros a trabalhar. Teria Lucy esfregado Medes todas as


noites com a banha de cobra, como lhe mandara? Era a altura de
Pérola Grande estar grávida já, se o rapaz prestasse para alguma
coisa; e Lucy também, naturalmente. Possivelmente Medes era
estéril, como Pólo, que era grande e cheio de vitalidade, mas não
conseguia procriar. Se Medes fosse estéril, como havia de arranjar
um macho, se o pai insistia em manter pura a raça mandinga? Lucy
tinha tido filhos de diversos machos, e a influência dos
acasalamentos anteriores poderia influenciar o sangue mandingo
daquilo que ela viesse a produzir por obra de Medes; mas o filho de
Pérola Grande seria indubitavelmente puro, uma vez que ela não
tivera outras relações sexuais, excepto com ele. Quase se esquecera
daquele sábado à tarde em que a desfiorara. Poderia isso, pensou
ele, atenuar o sangue mandingo do filho que ela tivesse de Medes? 0
seu pai insistira para que o fizesse e só dele seria a culpa se o bebé
de Pérola Grande (isto é, se ela tivesse algum) trouxesse
semelhanças com o seu filho. Sorriu ao imaginar a satisfação do pai
se o filho de Pérola Grande fosse parecido com ele; para o velho isso
seria melhor do que um mandingo puro, apesar da conhecida
maldade que resulta da mistura de sangue mandingo com o de
outras raças.

Lembrou-se de Ellen e do seu desgosto pelo seu casamento. Como
Blanche aceitaria a situação, não sabia ele, mas tencionava continuar
as relações com ela sem as tornar ostensivas, evidentemente.
Blanche suspeitaria, sem dúvida, mas decerto lhe ficaria grata por a
poupar aos seus desejos lúbricos.

Naturalmente, as brancas sentiam repulsa pela intimidade física,
embora Blanche lhe tivesse parecido bastante complacente, na noite
do casamento. As fêmeas eram diferentes; gratas pela honra que o
branco lhes dava, retribuíam a paixão sem vergonha ou reserva.


0 Sol pôs-se claro, mas havia nuvens a oriente que obscureciam a
Lua que se erguia, apenas a quatro dias de ser cheia. Continuaram a
avançar dentro da escuridão e das sombras. Os cavalos reconheciam
a proximidade da casa e Hammond deu-lhes rédeas. Cansadas,
tendo viajado desde o pequeno-almoço sem comer, tornou-se
necessário um pulso firme para as deter quando voltaram à álea que
levava a casa.
-Falconhurst -murmurou Hammond, reverentemente, como se se
aproximasse de um santuário.
-Tudo isto? -perguntou Blanche, quando o carro parou e ela pôde
olhar para a casa.
-É isto! -declarou Hammond. Apareceu um rapaz, vindo das
sombras e acendeu-se uma vela na cozinha. Brilhou luz também no
quarto de Maxwell.
-0 Vulcano que tome contados cavalos -disse Hammond ao rapaz. Têm
fome.
Lucrécia Bórgia apareceu, a bambolear-se, no varandim.
-Oh, siô, patrão, siô -abraçou Hammond com afecto. -E esta é a
nova sinhora? Que linda! -e colocou o outro braço sobre Blanche,
que se libertou. -Desde que a mãe do patrão morrê eu tava a desejá
tê outra sinhora, e agora já tem uma -continuou Lucrécia Bórgia.
Meg escapou-se do carro e abraçou-se às ancas da mãe, reclamando
a sua atenção.
-Onde tão os teu fato bonito? -perguntou ela. -Tu sujou eles, não
foi? Não pode ficá limpo.
-0 patrão vendeu eles com um nêgo -tentou Meg explicar.
-Arranjam-se outros fatos -disse Hammond, tranquilizando o
rapaz, e pondo-lhe um braço sobre o ombro. -0 Meg portou-se bem.
Foi o meu criado permanente.
0 Maxwell mais velho auxiliado por Memnon, com a manta azul em
volta dos ombros, apareceu à porta da frente. "Ham", foi tudo o que
disse, quando o filho correu a beijá-lo. E limpou uma lágrima.


-Esta é a miss Blanche. É a tua filha, agora, pai. Que tal a achas?disse
Hammond, apresentando a mulher, uma figura branca, na
escuridão.
0 velho puxou a rapariga para ele e beijou-a na testa.
-Vou gostar dela como tu, e como ela gosta de ti. Bem-vinda,
minha querida, a Falconhurst. Não é uma grande casa, não é tão
fina corno Crowfoot, mas é muito confortável. Sentimo-nos bem.
-Onde vais construir a nova casa? -perguntou Blanche.
-Na colina, acho eu -disse Hammond, apontando -, se a
construirmos.
-Entra, entra, estás em tua casa. Eu tinha ficado a pé, se soubesse
que vinham esta noite -disse o velho.
-Vai como pai-disse Hammond à mulher. -Eu espero que o Vulcano
trate das éguas.
Logo que a porta se fechou, voltou-se para Lucrécia Bórgia.
-Como está a Ellen? -perguntou. -Onde está ela?
-Ellen, pobrezinha, tem tado sempre a chorá desde que patrão
partiu, siô. Ela dorme com eu na cozinha, siô. Não quê saí de lá.
Hammond riu, sem convicção.
-Achas que faz diferença com a Ellen, estando eu casado?
-Não, siô, eu acha que não -concordou Lucrécia Bórgia, com certa
dúvida.
-Diz à Ellen que não chore. Ela é a minha fêmea, e vai sê-lo, sempre.
Diz-lhe isso. Diz-lhe que eu a vou ver logo de manhã. Ela sabia que
eu tinha de casar, visto que o meu pai queria um neto.
-Eu sabe, patrão, siô. Eu diz a ela o que tu diz. Não serve de nada,
mas eu diz a ela.
Vulcano emergiu da escuridão e saudou o patrão, cujo regresso
significava mais trabalho, embora, ao desejar-lhe as boas-vindas, o
negro não se lembrasse disso.
-As éguas não comem desde a manhã, e estão cansadas. Dá-lhes
bastante de comer, farelo e aveia, e arranja-lhes uma boa cama.
Estão cansadas -foram as instruções que Hammond deu ao rapaz.



-Que faz eu com siô branco acorrentado atrás? -perguntou
Vulcano.
-Não é branco. Quase me tinha esquecido dele. Solta-o do carro.
Aqui tens a chave. Mas deixa-lhe as grilhetas nas pernas. Gosta de
fugir. Diz à Lucrécia Bórgia que lhe dê de comer e lhe arranje cama.
Durante algum tempo, comida de brancos -avisou -, porque ele está
muito magro.
-Eu dá comê a ele -disse Lucrécia Bórgia. -E deixa as grilheta,
patrão, siô? -perguntou, erguendo o olhar.
-Gosta de fugir-repetiu Hammond. -Há ceia? Não comemos. Podes
arranjar qualquer coisa, Lucrécia Bórgia?
-Pode, sim, patrão, siô, é só um minuto. Não tem problema,
nenhum. Senta só e deixa este negrinho teu arranjá um toddy
enquanto tu espera. 0 patrão velho vai querê um, pelo certa. Tá
outra vez corri muita dô. Aquele Alph não presta. Não faz nada pra
rirá as dô ó patrão.
Lucrécia Bórgia abriu a porta da frente para o seu jovem patrão
passar e voltou em direcção à cozinha.
-0 Medes e os outros estão bem? Todos os negros estão bem? perguntou
Hammond, detendo-a.
-Eu pensa que tu vai deitá Medes no estábulo. Pérola Grande já não
precisa dele; nem Lucy.
-Estão cheias? -perguntou Ham, com satisfação.
-A Lucy diz que tá-confimou Lucrécia Bórgia, mas acrescentou para
que o seu próprio estado não fosse esquecido: -E eu acha que eu vai
tê gêmeos outra vez. Dois dele. Eu sente como da outra vez.
-Acho que ainda não se pode avaliar -disse Hammond, entrando
em casa.
Mal Hammond se sentara, Meg apareceu com uma bandeja com
toddies fumegantes -três.
-Para quem é o outro? -perguntou o patrão.
0 rapaz ergueu o olhar, com medo de ter ofendido.



É prá patroa, siô. Tá bem? -perguntou ele, sugando o lábio inferior.
As senhoras nunca bebem uísque. Não sabias isso? Uísque? Dentro
de casa? -perguntou Blanche, espantada. -Eu sou pela temperança.
Não vai haver uísque, onde eu comer.
-Remédio -explicou o velho, acalmando-a. -É só remédio. 0 meu
reumatismo.
-Nesse caso... -acedeu Blanche.
-E o Hammond está cansado. E tu também estás. É melhor beberes
um toddy, para a tua dor de cabeça, se tens alguma. É mau, eu sei;
mas faz muito bem.
-Não conseguiria, Não se deve beber. Nem suporto o cheiro protestou
Blanche.
É remédio -insistiu Maxwe11. Dói-me a cabeça horrivelmente, de
vira baloiçar naquele carro -disse Blanche, estendendo a mão para o
copo. Cheirou a bebida, fez uma careta, e provou-a.
-Bebe-a toda, tão quente quanto possas aguentar -insistiu o velho.
A rapariga bebeu outro golo.
-Parece-me que me faz bem à cabeça -acedeu. -Mas sabe
horrivelmente.
-Isso é verdade -concordou o pai, bebendo o seu. Hammond
descreveu a viagem ao pai, contou-lhe do casamento, falou-lhe da
saúde do major e da prima Beatriz, da dificuldade em encontrar um
pregador, e do oficio de Dick. Contou-lhe que Charles não voltara a
casa, mas nada lhe disse sobre a ausência de Woodford quando
chegara nem das suas ameaças de não consentir no casamento. Não
sabia ao certo se seria conveniente que o pai tomasse conhecimento
das partes desagradáveis, e adiou a narração para uma altura em
que Blanche não estivesse presente, pelo menos.


Contou-lhe a experiência com os mestiços. Quando chegou à altura
da fuga, o velho interrompeu-o.
-Eu tinha-te dito, se lá estivesses. Mestiços? Têm sangue humano.
Não se pode confiar neles. Não te rales. Tens de aprender. Manda



lhe o dinheiro. Nunca mais os apanhas. Quando um mestiço foge,
nunca mais se apanha.
-Mas eu apanhei-os; o Maddox, aliás, é que os apanhou.
-Raios te partam! Trouxeste-os contigo?
-Só o maior. Vendi o pequeno pelo mesmo valor que dei ao
Maddox por ambos. 0 nosso não nos custou nada.
0 rosto do pai brilhou com orgulho pela astúcia do filho.
-É perfeito e forte? -perguntou. -Os mestiços não têm rabo,
geralmente.
-Tem boa estrutura, mas é só ossos. Precisa de comer. Acho que
vou ter de o pendurar, por ter fugido.
-Tíra-lhe as correntes das pernas, amanhã de manhã e encarrega
um dos nossos de o vigiar. Engorda-o um bocado, antes de lhe
bateres. Deixa-o ficar à espera do castigo, com medo. Ao que parece,
as sovas não curam um escravo fugitivo.
-Odeio castigá-los -suspirou Ham.
-já nasceste para vender negros, filho -declarou o pai,
aprovativamente.
-Foi o que eu disse -observou Blanche. -E logo após o nosso
casamento.
-Não há nada de mal em negociar de ocasião, se se for honesto.
Ninguém gosta que lho digam, mas todos negoceiam, desde que
façam bom dinheiro.


Memnon tocou a sineta para a ceia e foi ajudar o patrão, que
recusou o seu braço. Maxwell ergueu-se da sua cadeira, e apenas em
parte por necessitar do seu apoio, pôs os braços em volta das
cinturas de Ham e Blanche e conduziu-os à casa de jantar. Tomou
lugar à cabeceira da mesa, embora nada comesse, pois já tinha
ceado antes de ir para a cama.


Mertirion serviu a sua patroa, que tentava impressionar o sogro
com a sua finura. Brincou elegantemente com o guardanapo,



estendeu o dedo mínimo, e teve o cuidado de pousar a faca e o
garfo, quando não estava a utilizá-los, sobre o pão ao lado do prato.
Embora protestando que não tinha fome, comeu com grande
apetite.
A meio da refeição, Hammond mandou Meg ir buscar Lucrécia
Bórgia que apareceu e se plantou confiadamente na passagem para
a cozinha.
-A Tense, está pronta?
-Sim, siô, patrão, siô; a Tense tá toda lavada, como o patrão diz, e
pronta para servir míss Blanche.
0 patrão sugeriu que era melhor a rapariga vir e Lucrécia Bórgia foi
buscá-la.
Esta é aquela que te disse que o pai e eu escolhemos para ti, para te
servir e para fazeres dela o que quiseres -explicou Hammond a
Blanche. -Vai ser mesmo tua.
Lucrécia Bórgia voltou, trazendo-a, com urna mão sobre o ombro, e
a rapariga vinha de cabeça baixa, com um ar de timidez. 0 seu
vestido simples, que lhe chegava até aos tornozelos nus, estava
limpo, e Lucrécia Bórgia pregara sobre ele um laço branco. As suas
pequenas feições eram expressivas. Era toda pequena, elegante,
quase frágil. Só essa fragilidade e os seios, que começavam a inchar,
a salvavam de parecer um rapaz.


Hammond estendeu a mão para a rapariga, num convite:
-Anda cá Tense. Ninguém te vai fazer mal. A rapariga, sem medo
do patrão, avançou.
-Não, do outro lado da mesa -disse ele. -Esta é a tua nova patroa,
como já te tinha dito. Faz-lhe uma vénia, como deve ser. Vais ser
dela e trabalhar para ela, vais fazer tudo o que ela te disser, tudo o
que ela te mandar. Percebeste?
Hortense foi até ao outro lado da mesa, conforme lhe mandavam, e
fez algo que se destinava a ser uma vénia, mas conservou-se fora do
alcance da patroa.



Hammond levantou os olhos para o rosto da sua mulher, para ver
se o presente lhe tinha dado prazer.
-Que tal a achas? -perguntou.
-Aquilo? -perguntou Blanche. -Pensas que eu vou suportar aquilo?
É a tua fêmea, vê-se bem.
-Não fales assim. Não em frente do pai. -0 rosto de Hammond
corou, enquanto falava. -Não é. Nunca lhe toquei.
-Então porque é que ela foi logo para o teu lado da mesa? Não tem
medo de ti, como tem de mim. Não precisas de me dizer, eu sei.
Uma fêmea bonita como esta, e tu nunca lhe tocaste? Vê-se pela
maneira como ela revira os olhos para ti.
Hammond empurrou o prato e encolheu os ombros. Meg olhou
para a mãe e sugou o lábio. Queria ajudar o patrão, que via ser
acusado, embora não compreendesse de quê.
Lucrécia Bórgia deu um passo atrás, como se tencionasse voltar
para a cozinha. Depois, incapaz de deixar o patrão em dificuldades,
avançou para Tense.
-Não sinhora, miss Blanche, patroa -protestou ela. -Tense tá pura
ainda. -Levantou as saias da rapariga. -A sinhora pode vê.
-Não! Não! Lucrécia Bórgia! -gritou Hammond. -A miss Blanche é
uma senhora; nada sabe desse gênero de coisas,
-Bom, de qualqué modo, Tense tá virgem. 0 patrão não tomou ela,
nem sequé olhou para ela, ainda -murmurou Lucrécia Bórgia,
apesar da censura. -A Dido tava a guardá ela pró patrão, quando
patrão quisesse.
Hammond fez sinal a Lucrécia Bórgia, com a cabeça, para que se
retirasse. Maxwell limpou a garganta, e esfregou uma mão com a
outra, para aliviar a dor, que subitamente piorara. 0 rosto corado de
Blanche inundou-se de lágrimas; lamentava ter levantado o assunto.
Hammond cruzou os braços e afastou a cadeira da mesa, esperando
que a mulher parasse de chorar.
Finalmente as lágrimas acabaram e ele disse:



-Se não gostas desta, podes escolher qualquer outra. Vai às cabanas
e faz a tua escolha. -Fez reservas mentais quanto a Ellen e Dite. -
EstaTense, no entanto, é a melhor que temos, perfeita e esperta, bem
educada e pura, nunca lhe tocaram. Não é assim, pai?
-Eu não sei-disse o velho, abanando a cabeça. -Que importância
tem isso? Às senhoras, isso não interessa.
-Esta serve -resignou-se Blanche; mas não conseguiu impedir-se de
acrescentar, com despeito: -Penso que já as tiveste todas.
Erguendo-se da mesa Hammond olhou para o pai, que estava
ocupado a massagear as mãos, e depois olhou de soslaio para a
mulher.
-Não ias decerto pensar que eu era virgem? -perguntou, com ar
casual.
-Mais um toddy, só mais um, antes de subirmos -sugeriu Maxweli,
embaraçado com a discussão. -Faz-lhes bem a ambos. Devem estar
exaustos, de carro todo o dia, logo após o casamento. 0 teu rapaz
que os prepare, Ham. Ele gosta disso e prepara-os melhor do que o
Mem.
Meirmon que levava o seu amo da casa de jantar para o ajudar a
sentar-se numa cadeira baixa, sabia porque motivo os toddies de
Meg eram preferidos aos seus e resolveu usar mais uísque nos
próximos que lhe pedissem. A água quente estava ao lume e Meg
preparou os toddies rapidamente, como um perito. A dor de cabeça
de Blanche tinha voltado e ela bebeu o toddy medicinal com menor
relutância do que bebera o primeiro.
A discussão terminara. Blanche perguntava a si própria porque a
começara. Apenas a delicadeza e a beleza de Hortense tinham
suscitado os seus ciúmes. Não tinha provas da acusação que fizera,
mas sabia que uma tal fêmea não teria escapado por muito tempo a
Dick, a Charles e provavelmente mesmo ao seu pai, em Crowfoot.
Esvaziou o seu copo. A dor de cabeça desaparecera, mas sentia-se
ligeiramente tonta, quando Hammond se ergueu para a conduzir ao
quarto que fora de sua mãe. Segurou-a pelo cotovelo, para a apoiar,


enquanto subiam as escadas. Lucrécia Bórgia levara o saco de
Blanche para o seu quarto, acendera as velas e dera as últimas
instruções a Tense, que esperava, cheia de medo de errar para
começar a servir a sua nova senhora.
-Prepara-te e deita-te -disse Hammond. -Eu já volto.
-Onde vais? -perguntou a mulher, surpreendida.
-Lá abaixo para falar um pouco mais como meu pai. Vai-te
despindo. Eu volto já. A Tense que te ajude.
Ao chegar ao fim das escadas, Hammond voltou em direcção à
cozinha, onde sabia que encontraria Ellen. Tremia de ansiedade por
voltar a vê-Ia. Ás, com as suas grilhetas, dormia em frente da
lareira. Meg estava à mesa, a comer o que Hammond deixara no
prato; Ellen estava a limpar os pratos que a Lucrécia Bórgia lavara.

Ellen ergueu os olhos e viu o amo à porta, estendendo os braços
para ela.
0 prato que estava a enxugar escorregou-lhe das mãos e estilhaçou-
se no chão de tijolo, e As estremeceu, no seu sono, enquanto a
rapariga corria, em êxtase, ao encontro dos braços que a chamavam.
Hammond abraçou-a e beijou a sua boca ansiosa.
Os olhos da rapariga encheram-se de lágrimas, onde se misturavam

o medo, a dúvida e a alegria. Enterrou o rosto no casaco dele e
começou a soluçar. 0 rapaz continuava a apertá-la, sem nada dizer.
Finalmente, ergueu-lhe a cabeça e beijou-lhe as pálpebras molhadas
pelas lágrimas.
Ficou longo tempo com ela nos braços, sorrindo-lhe. Meg continuou
a comer, lançando uma ocasional olhadela furtiva para os dois
amantes. Com o seu pequeno escravo ou com a mãe dele, o patrão
não se sentia coibido. Meg poderia ter olhado à vontade que não
seria repreendido. Ham confiava na lealdade de ambos, sabendo
que o consideravam incapaz de fazer mal.
Ficou assim durante minutos, abraçado à rapariga sem que nenhum
deles falasse. Finalmente afastou-a, olhou-a nos olhos e disse:

-Amanhã! Libertou-se dela e partiu. Sentia-se refrescado, limpo,
triunfante, quando voltou à sala, onde o pai bebia um toddy final, e
este insistiu com ele para que também bebesse um. Hamniond não
sentia necessidade da bebida.
-Aquela miss Blanche parecia nervosa, esta noite. Está cansada. Tu
não estás habituado a mulheres brancas. Não ligues quando ela
começar a armar-se -aconselhou MaxwelI, procurando minimizar a
importância da explosão de Blanche. -Ela é uma Hammond, muito
nervosa. Há-de fazer-se uma boa mulher, e há-de habituar-se às
coisas.
-Sim. Há-de ficar bem, acho eu.
-Claro, uma Hammond é orgulhosa. Hammond grunhiu o seu
acordo.
-Achas que já lhe terás feito um filho? Isso põe as mulheres
esquisitas.
0 rapaz negou, com conhecimento. Sorriu, perante a impetuosidade
do seu pai. Notou que o velho tentava tirar nabos da púcara.
Ham. ergueu-se para se ir deitar, e o velho fez sinal a Meirmon para
que o ajudasse a levantar. No cimo das escadas, Meg aguardava,
para ajudar o amo a descalçar as botas. Hammond beijou o pai e
entrou no quarto de Blanche.
-Que estiveste a fazer? 0 que te demorou? -queixou-se ela.
-Estive a conversar com o meu pai.
-Então ele não está zangado, com o que disse ao jantar?
-Ele diz que tu estás estafada. Meg estava de joelhos e descalçava as
botas do patrão e despia-lhe as meias. Hammond tirou o casaco e a
camisa e sentou-se para que Meg lhe puxasse as calças. Ficou de
roupa interior.
-Onde vai dormir esta fêmea? -perguntou Blanche.
-Pode ficar estendida no chão -sugeriu o marido. -Aos pés da
cama.
-Aqui não. No quarto não -protestou Blanche. -Ela que fique no
hall, deitada à porta.


-Mas e o Meg? Ele dorme sempre no hall, junto da minha porta.
Não podem ficar os dois juntos. -Hammond hesitava; depois
acrescentou: -Aos pés da cama fica muito bem. Esta noite não
vamos fazer nada. Estou cansado. Não ia incomodar-te logo à
chegada, para não falar do que o meu pai pensaria.

Capitulo vigésimo sexto

Hammond estivera cinco dias fora de casa. Era ali que estava o seu
coração -naquelas cabanas, armazéns e celeiros, nos campos de
algodão e nas reservas de madeira e nas pastagens. Levantou-se
muito cedo, afastou os cortinados e olhou para a sua preciosa terra,
antes de abrir a porta e de sacudir Meg, com um pé descalço, para
que ele acordasse e o ajudasse a calçar as botas. De botas e roupa
interior, seguido pelo seu criado, atravessou o hall até ao seu quarto
onde deixara os fatos velhos que usava na plantação. 0 fato cor de
ameixa ficaria de parte para ocasiões especiais. Desceu as escadas, a
coxear, e, sem esperar pelo pequeno-almoço, saiu em direcção aos
campos de algodão. Pouco mudara na sua ausência. Começavam a
aparecer pequenas ervas entre as filas plantadas que viriam a ser
algodão, mas, à distância, viu o seu grupo de trabalhadores que
lentamente manejava as sacholas. Depois do pequeno-almoço
montado no Eclipse, iria até junto deles, para inspeccionar o
trabalho. Um controlo prematuro das ervas daninhas evitava a
necessidade de cortar ervas grandes. 0 mal estava em que os negros,
mais por falta de cuidado que por deliberação, segundo Hammond
cria, cortavam frequentemente a planta do algodão, em conjunto
com as ervas, apesar de ele estar sempre a recomendar-lhes


cuidado. Não acreditava que eles previssem que, quanto mais
plantas destruíssem, menos algodão teriam de colher. De qualquer
modo, as plantas teriam que ser desbastadas, mas sistematicamente
e não devido a sacholadas descuidadas. já contara, nesse ano, com
as sementes que apodreceriam e não germinariam, mas, no
conjunto, a plantação parecia-lhe melhor do que no ano anterior, em
que fora necessário replantar a intervalos. Talvez as sementes
brancas do tipo Petit Guli que ele persuadira o pai a comprar, para
substituir o algodão de Termessee, com as suas sementes negras,
que anteriormente se usava em Falconhurst, brotassem com
menores perdas.

Voltando para casa, Hammond deu uma volta pelas cabanas. Viu
Tigre, o primeiro filho que gerara, agora com quatro anos de idade,
e inclinou-se, estendendo os braços para o escravozinho mimado.
Sukey, a mãe da criança, saiu da cabana, com uma criança mais
pequena e mais escura sobre a anca.

-Eles tão a dizê prái que tu foi embora e se casou, patrão, siô, c'uma
sinhora branca? -Sukey pronunciou a afirmação como uma
interrogação e esperou pela resposta. -Ari, an! -murmurou ela. -Eu
desejava muita alegria para ti; deseja mêrno. -Suspirou. Ainda
gozava da posição de ter dado à luz um filho do seu jovem patrão.

Hammond agradeceu-lhe e passou à cabana de Lucy, para
confirmar o que Lucrécia Bórgia lhe dissera. 0 cheiro da banha de
cobra chegou-lhe às narinas, antes de chegar à porta. Encontrou
Medes, regalado, estendido na cama, todo nu, enquanto Lucy o
massageava. Pérola Grande estava por trás @dela, segurando no
frasco. Quando o amo abriu aporta, ainda ouviu Medes resmungar:
-Não tens força, mulher? Esfrega o meu ombro com força. Ouviste?
Com força. E torce-o bem.


0 seu tom era simultaneamente mimado e imperioso.
-A Lucy sabe como deve massagear. Deixa-a fazer isso. -disse
Hammond, repreendendo o jovem mandingo. -Tu não dás ordens.
Levanta-te.
-Aqueles Medes! -queixou-se Pérola Grande. -Tá sempre a dizê:
faz isto, faz aquilo. Pense que ele fez tudo; não quê dá parte a
ninguém.
-Parte de quê? -interrogou Hammond.
-Parte de fazê aquele bebé que tá dentro d'eu; mãe diz qu'eu tem.
-Pérola Grande, fecha a boca. Se patrão quizé sabê ele pergunta ralhou
Lucy, com ciúmes por a filha revelar as notícias de que tanto
se orgulhava e que considerava sua prorrogativa contar. -Pérola
Grande tá cheia, patrão, siô; tá mêrno cheia, e eu também.
-Tens a certeza?
-De certeza! A velha Lucy num s'íngana.
-Isso significa um vestido novo -prometeu Hammond.
-Encarnado? -perguntou Pérola Grande.
-Encarnado, se quiseres. -Medes tem qualquer coisa a ver com o
assunto, mas não é caso para se armar em gente grande -disse
Hammond, incapaz de disfarçar a satisfação que ainda sentia pela
informação que Lucrécia Bórgia já lhe dera. -Se ele continua,
ponho-lhe uma anilha e mando-o para o estábulo. Não quero que se
arme em mandão, pelo menos em Lucy.
-Não, siô, patrão, por favor, siô -objectaram os três escravos em
coro, pois as mulheres estavam tão desejosas de reter o seu homem
como ele estava de ficar na cabana delas.
Hammond estava atrasado para o pequeno-almoço. Encontrou o pai
e a mulher, de toddies na mão, à espera, na sala.
-Que é isso? -perguntou, olhando para a bebida de Blanche. Julgava
que eras abstêmias.
-E sou, mas ainda me dói a cabeça e o teu pai pensou que...
-Não lhe faz mal. Está muito fraca e tem dores de cabeça. É remédio
-disse MaxwelI, tentando acalmar o desagrado do filho.



Hammond olhou desconfiadamente para a mulher que levava o
copo à boca, bebia um golo, à experiência, e o baixava de novo. Com
que género de mulher se casara? Não lhe parecia ume senhora!
-Está tudo bem? já foste ver? -perguntou o pai.
-Acho que sim -disse Hammond, sem convicção. 0 mandingo está
armado em gente grande, a responder torto à Lucy, e sem querer
trabalhar.
-Dá-lhe uma sova. Desanca-o -prescreveu Maxwe11.
-Ao Medes? Dou-lhe óleo de castor. já é bastante mau. Hammond
susteve a notícia da gravidez das duas fêmeas por lhe parecer
indelicada para os ouvidos da mulher.
-Filho, não dês muita importância àquele mandingo. Ele é grande e
vigoroso, sim. Mas não é Deus. E teu; não és tu que és dele. Se ele
precisa de umas palmatoadas, dá-lhas. Vê o bem que fizeram ao
Meirmon; transformaram -no num macho novo. É preciso aprender,
quanto aos negros. São macacos. A única coisa de que têm medo é
do chicote.
-0 Medes não está a precisar de chicote, pai. Arruinava-lhe o
orgulho. Era o mesmo que matar o Medes.
-Esse macho é o teu animal de estimação. É isso que ele é, o teu
animal de estimação. Deixa-o pôr-te as patas em cima, se queres disse
o velho engolindo o resto do seu toddy e espreitando para
dentro do copo, para ver se lá ficara algum líquido. Apetecia-lhe
outro, mas absteve-se de o pedir, para que Blanche não incorresse
na ira do marido por beber outro com ele.
-Medes! -Blanche repetiu o nome sotto voce, como se receasse que
ele lhe fugisse da memória. -Quem é esse Medes? -inquiriu, em voz
alta.
-E o lutador do Ham, um mandingo -exclamou Maxwe11. -0 Ham
não te disse? Não fala de outra coisa, pouco falta para andar com o
rapaz ao colo, envolto em algodão em rama.
Inocentemente, o velho não se apercebia de que estava a dizer algo
que não devia.


-Lutador? Eu disse-te que não podias ter um lutador. Eu disse-te
que não casava contigo, se tivesses um lutador! -gritou Blanche,
excitada.
0 sorriso de Hammond estava cheio de sarcasmo.
-Que queres que faça corri ele? Fervê-lo para fazer gordura de
sabão?
-Podes vendê-lo, penso eu.
-Pois eu penso que não.
-Eu tenho direito a falar!
-Sobre a Tense, tens direitos. Sobre o resto, não tens. Eu é que dirijo
esta plantação. Tu, se calhar, preferias que eu plantasse flores, em
vez de algodão.
-0 Ham está a guardá-lo para exibição. Nunca o leva a lutar concluiu
Maxwell.
-Hei-de o levar, hei-de o levar, se houver alguém que queira lutar
com ele.
Hammond rejeitou a reconciliação. Não tencionava tolerar qualquer
interferência feminina na economia da plantação.
Só prestava atenção, ou pelo menos tomava-as em consideração, às
indicações do pai, apresentadas sempre como sugestões e baseadas
na experiência. Mesmo a essas se sobrepunha, se necessário.
-Patrão, siô, eu pode tocá a sineta agora, por favô, siô? -perguntou
Merririon, aproveitando uma pausa da conversa. Acreditava que os
patrões morreriam de fome se a sua sineta se quebrasse.
-já é altura -disse MaxwelI, grato pela interrupção. Tentou
levantar-se, sem esperar pelo escravo, e Hammond atravessou a
sala para o ajudar.
-Tu e os teus negros! -disse Blanche, suspirando, ao sentar-se à
mesa.
-Nunca falas de mais nada?
-Negros e algodão. Que mais há para falar? -perguntou o marido,
surpreendido. -São nossos; temos de olhar por eles.



-0 meu papá não ...
-E faliu! -disse Hammond, interrompendo-lhe a frase. A rapariga
sentia-se presa numa armadilha. Aquele rapaz grave, severo,
satisfeito consigo próprio, nada romântico, que ela mal conhecia, era


o seu marido. Era urna fuga à possibilidade de vir a ficar solteirona,
que mesmo aos dezasseis anos aterrorizava Blanche. A casa era feia,
monótona, sombria, nem sequer tão boa como Crowfoot, não era o
que ela imaginara. Nada havia que a atraísse. 0 velho, que ela
achava simpático era apenas o eco do filho. Decidiu aproveitar
aquilo que pudesse.
-E os vestidos? -perguntou. -Quando vamos buscá-los?
-Arranjam-se-prometeu-lhe Hammond de novo. -Não posso ir hoje.
Talvez amanhã, ou no dia seguinte; no sábado, de certeza. Há uma
modista em Benson, não há, pai?
-Vestidos?
-0 meu papá não me comprou nenhuns, aquele dinheiro não
chegou lá -explicou Blanche.
Lembra-me para comprar pano encarnado para a Pérola Grande e
Lucy. Eu disse-lhes que o comprava -disse Ham.
-Lhes... -0 velho olhou para o filho, que acenou afirmativamente
com a cabeça. -Mandingos -disse ele, com satisfação.
Escravos de novo! A conversa voltava sempre aos negros. Quando
se levantaram da mesa, Maxwell cambaleou e permitiu que Mem o
conduzisse à sala. Blanche hesitou uns momentos e seguiu-o.
Hammond demorou-se um pouco. Blanche viu-o colocar a mão no
ombro de Meg.
-Diz à miss Ellen -ordenou Hamniond ao rapaz, em voz baixa -que
se lave bem e espere lá em cima. Diz-lhe que eu vou lá.
0 rapaz assentiu, gravemente.
-Não te esqueças. Se te esqueces, ficas com o rabo em sangue.
-Tamém quê eu, patrão, siô?
-Sim. Vou precisar de ti para me tirares as botas. Podes vir.

-Meirmon vai tê de prepará os toddy pró patrão velho e prá patroa,
inquanto eu tá lá.
-A tua patroa não precisa de mais toddies -decretou o amo. Meg
não compreendeu a severidade das suas palavras. Quando Ham
entrou na sala, Blanche perguntou, em tom de suspeita:
-Que estavas a dizer àquele negro?
-Estava a metê-lo na ordem -mentiu ele, pegando no chapéu e no
seu chicote simbólico.
Deu um beijo superficial ao pai e outro pouco mais ardoroso à
mulher.
-Ele está sempre a trabalhar? -perguntou Blanche, indo até à janela
para ver partir o marido, não sabia para onde.


-Mais ou menos -disse o pai. -Alguém tem de dirigir isto e eu já
não posso. Claro, o Ham faz mais do que é preciso. Mas já se nota, já
se nota que ele é melhor do que eu a dirigir. Uma erva daninha no
algodão ou urna borbulha num negro poem-no doido.


Em vez de mandar vir o cavalo, Hammond foi a coxear até ao
estábulo e selou Eclipse por suas próprias mãos. 0 garanhão, sem
exercício na ausência do dono, estava indócil, o que proporcionou
ao rapaz um maior estímulo, no esforço para fazer obedecer o
animal, entre os seus joelhos. Cavalgou pela álea fora até à estrada
aberta, sem qualquer propósito além de domar a sua montada.
Quando regressou e se dirigiu para o grupo que trabalhava no
campo do algodão, o cavalo suava e estava obediente de novo.
Conduziu Eclipse cuidadosamente por entre as filas de plantas,
sobre o solo macio, de modo que o cavalo não pisasse as plantas.


Enquanto atravessava o campo, observou os negros que cortavam
as ervas lenta, regular e metodicamente. Ao aproximar-se deles,
ouviu as suas vozes, mas não as palavras e, quando se aproximou,
eles ficaram em silêncio. Foi essa a única concessão à sua presença.



Deixou-se ficar montado e pôs-se a observar o trabalho, que
avançava bastante bem. Não havia qualquer chefe, nem outro
capataz além dele. Ocasionalmente, um dos trabalhadores usurpava
a autoridade, para criticar ou dar ordens aos outros, mas raramente
lhe davam importância.

Hammond passou uma vez mais, a cavalo, por entre o grupo de
trabalhadores espalhados e, depois, levou Eclipse para o estábulo.
Sem lhe tirar a sela, conduziu o cavalo para a baia. Depois avançou
a coxear para casa, entrou pela cozinha e subiu as escadas. Meg
estava sentado no último degrau, ao cimo, com os cotovelos
apoiados nos joelhos e o rosto entre as mãos, à espera. Hammond
pôs um dedo sobre os lábios, para que ele se conservasse em
silêncio.

Da sala, Maxwell ouviu os passos desiguais e o ranger dos degraus,
tirou uma conclusão mas nada disse à nora, que estava sentada na
sua frente. Nos seus pensamentos, regressou ao tempo em que os
seus próprios desejos eram insaciáveis.

Hammond parou no fundo das escadas para ir abrir e fechar a porta
da entrada, antes de penetrar na sala. Enquanto abraçava a mulher,

o pai cuspiu o tabaco, à espera do beijo rápido que sabia que o filho
lhe iria dar. Meg trouxe três toddies, e Blanche ergueu o olhar para
o esposo, para ver se ele desaprovava, antes de levantar o seu
tabuleiro. Ele não protestou.
-0 corte das ervas vai muito bem. Lento, mas não há pressa -disse
Hammond ao pai. -Aquelas Petit Guli estão a crescer bem; não
apodrecem como as de Termessee.
-Dão troncos mais pequenos -objectou o velho.
-Mas dão mais, e alargam mais, também.
-Talvez -concordou MaxwelI, que tinha muito pouco interesse em
produzir algodão.

-Não precisam de ser vigiados -disse Ham, voltando aos
trabalhadores. -Podemos ir amanhã, a Benson mandar o dinheiro
do Ás e parar com os juros, que nos estão a prejudicar.
-E comprar os meus vestidos? -interrompeu Blanche.
-Também pode ser -concordou o marido.
-Ainda não vi o teu mestiço -queixou-se o velho. -Importas-te de
mo mostrar?
0 Vulcano é que tem as chaves das grilhetas. Não pode despir as
calças até o Vulcano voltar à tardinha, É magrito, mas tem bons
ossos, há-de ver.
Blanche estremeceu.
-Aquele rapaz tem feitiço. Faz feitiços. Sentia quando ele olhava
para mim, mesmo por trás de mim.
-Não fales como os negros -troçou o marido. -Não há feitiços.
-E mesmo que os houvesse @?os negros afirmam que sim), não
atingiam os brancos -disse Maxwell, tentando salvar a crença da
rapariga e anular o seu medo. -Não quero que comecem por aqui a
fazer feitiços que agitem os negros.
A sineta de Merrinon convocou a família para o jantar.


Capitulo vigésimo sétimo

Os tipos e padrões dos tecidos existentes em Benson eram limitados,
tal como a aspiração da modista pobre, cujo pai, rico, ao morrer,
duas décadas antes, se descobrira estar arruinado. Miss Forsythe
preocupava-se mais em desculpar-se pela necessidade de ganhar o
seu magro sustento pela agulha do que com a costura propriamente
dita. Apesar das dificuldades impostas pelas circunstâncias, miss


Forsythe insistia em que a considerassem uma senhora. Apresentou
a Blanche um exemplar do Livro das Senbores do Verão do ano
anterior, que ela consultou, para escolher os três vestidos a que
Hammond a forçara a limitar-se, com a promessa de lhe trazer de
Nova Orleães, no Outono, um vestido elegante e uma capa.

Mas a compra dos tecidos e a escolha dos modelos não bastavam.
Blanche foi alegremente forçada a voltar várias vezes a Benson, para
comprar forros e botões, enfeites e acessórios para os vestidos e para
consultar a costureirinha e submeter-se às suas opiniões. Para
Blanche, foi uma festa de agradável ansiedade e antecipação. Duas
vezes por semana, Hammond era obrigado a adiar o trabalho da
plantação e levar a mulher à cidade, o que fazia sem se queixar. 0
corte lento das ervas continuava a fazer-se na sua ausência, quase
tão bem como quando ele lã estava. De facto, quando Lucrécia
Bórgia conseguia roubar algum tempo às suas tarefas e ia até aos
campos por uma ou duas horas, os negros trabalhavam mais
depressa para a delegada do patrão, que para o próprio patrão. Ele
ficava frequentemente surpreendido ao ver a quantidade de
trabalho que havia sido feito na sua ausência.

Aos sábados à tarde, deixava Blanche na casinha de miss Forsythe,
enquanto ia à taberna de Pérola para ver as lutas e encontrar-se com
os seus amigos. Deixara de levar Medes consigo, não só por causa
da presença de Blanche, mas pela inutilidade de o levar. Os outros
proprietários não queriam pôr (@s seus negros a lutar contra Medes,
e os moleques raquíticos e imperfeitos que serviam de material para
apostas eram de um género com o qual os Maxwell não gastariam
dinheiro em comida. Ao comprar Medes, Hammond ultrapassara as
marcas previstas.

Contudo, toda a gente falava de Medes, lhe perguntava pela sua
saúde pelos seus treinos, sugeriam-lhe combates para ele, mas


sempre com os escravos de outros proprietários. Hammond
abstinha-se de se gabar do seu rapaz, mas o facto de Medes ser
tantas vezes mencionado fazia inchar o seu ego; e Pérola e Redficid,
especialmente Redfleld, estavam sempre a trazer Medes para a
conversa, ao balcão. 0 orgulho da sua propriedade bastava a
Hammond.
-Agora está a procriar. Não está em condições de lutar -explicava
Hammond. -É um esforço grande para ele.
A caminho de casa Hammond escutava com pouca atenção o relato
entusiástico que a mulher lhe fazia da sua visita a miss Forsythe e os
seus prognósticos sobre a beleza dos vestidos que ela lhe estava a
fazer. Eram o seu único interesse. Casada com Hammond, Blanche
nunca teria de suportar a decadência de miss Forsythe e a sua
descida ao inverno económico. Imaginava um paralelo entre o pai
de miss Forsythe e o seu próprio pai e sentia que escapara à queda.
Na realidade, a pena que expressava pela pobreza da costureira era.
apenas satisfação por não ter de vir a suportá-la, Tremia só de
pensar nisso.

Entre as suas excursões à modista, nada havia para Blanche fazer.
Dentro da casa, tudo era feito por ela, e lá fora nada havia que lhe
interessasse. Além disso, receava os efeitos do sol sobre o seu rosto,
cuja brancura sempre se esforçara por conservar. Tendo receio, a
princípio, do mais velho dos MaxwelI, acabara por gostar dele. Era
generoso, sincero e não fazia críticas. Ela era uma branca, uma
Hammond, a mulher de Hammond. Ele não pedia mais. As suas
dores de cabeça tornaram-se mais frequentes e mais dolorosas. 0
sogro ficava indiferente perante a quantidade de toddies que ela
consumia, até a aconselhava a bebê-los. Hammond nã o
desaprovava o remédio, mas também não sabia qual a quantidade
que ela consumia. Estava fora de casa, na maior parte do tempo, a
supervisar o corte das ervas do algodão, tratando dos seus escravos,
dando ordens e conselhos nas cabanas, treinando o seu mandingo.


Maxwell contava-lhe as suas reminiscências, falava-lhe da sua
mulher, de ela ser uma Hammond, recontava-lhe a infância do filho
e o acidente que o aleijara. Após o quinto relato, Blanche deixou de
ouvir o que ele dizia, mas por falta de companhia, continuou a
sentar-se junto dele, agitando um leque já usado de folhas de
palmeira, e bebendo o seu toddy.

Ainda sentia menos interesse pelas conversas entre o marido e o
pai, sobre as colheitas e as ervas daninhas e os porcos e os escravos,
do que pela tagarelice do velho sobre o passado. Parecia-lhe que
Hammond estava obcecado pela plantação. Cada vez que ele
entrava em casa, era para relatar os pormenores dos projectos que
tinha em mão, o descuido de qualquer trabalhador, algum corte
numa mão ou algum dedo do pé decepado de qualquer criança.
Tais pormenores sobre os escravos não despertavam o mínimo
interesse em Blanche, e pouco mais interessavam ao pai, excepto na
medida em que constituíam reflexos da actividade do filho. A
preocupação do velho reportava-se unicamente ao facto de os
escravos jovens comerem com apetite e engordarem. 0 algodão
apenas servia para os conservar moderamente ocupados. Nunca
mandara construir um cabrestante ou uma prensa, mandando
sempre a colheita para Benson, para ser tratada. Parecia-lhe melhor
dedicar todo o terreno a cereais que os negros pudessem consumir
do que ao algodão para venda; preferia vender o produto vivo das
suas plantações. Mas Hammond divertia-se a produzir algodão, e o
pai não desejava interferir nos seus planos.

Blanche estava lá aborrecida e mesmo enjoada de ouvir os eternos
louvores do sogro ao filho, estivesse ele presente ou ausente. Se ao
menos Hammond fizesse qualquer coisa errada, se ao menos ele se
enganasse, se ao menos o pai o censurasse ou expressasse-certa
desaprovação na ausência do filho! 0 único defeito que o pai lhe


encontrava era o de trabalhar de mais e, da maneira por que ele o
descrevia, o defeito transformava-se numa virtude.
-Se não deixas de andar por aí sempre a trabalhar, a andar a cavalo
e a ralares-te, acabas por ficar com reumatismo antes de o rapaz ter
idade suficiente para se ocupar disto -avisava ele.
-Qual rapaz? -perguntou Ham.
-Então, o teu rapaz, o que a Blanche te vai dar! Blanche corou. Era
um aviso a Hammond. Ele negligenciara os seus deveres conjugais
que não eram totalmente agradáveis, devido à palidez da carne
branca e macia da mulher, que não era forçado a ver, mas que
imaginava sob a pesada camisa de dormir. 0 seu próprio cheiro,
embora não tão forte, irritava-o mais do que o das negras. 0 cheiro
do suor fresco dos negros, se fosse moderado, não era desagradável,
mas aquele eflúvio louro implicava corrupção.
Blanche sabia já de Ellen. Hortense, sem maldade, tinha deixado
escapar a informação, ao responder às perguntas da sua senhora
com uma candura inocente que não se destinava a ser traição. Tense
fora criada na convicção de que os escravos estavam aos dispor dos
amos, pelo que nã o via nada de mal nas relações de Hammond com
Ellen, além do facto de elas terem impedido a sua própria elevação
aos seus favores, aos quais lhe haviam ensinado a aspirar. Hortense
pouco podia revelar, mas a patroa calculou tudo o resto. Blanche
espremeu o velho Maxwell o mais subtilmente de que foi capaz,
mas as suas respostas foram sempre vagas.
-Talvez -admitiu ele. -Não sei -e não sabia. -Ham faz bem em
proceder assim, para poupar uma branca.
Blanche não desejava ser poupada, embora não ousasse dizê-lo. A
sexualidade deveria constituir motivo de repulsa para uma esposa
casta, e ela submetia-se aos abraços do marido sem os poder gozar;
com resignação, se não sob protesto. Compreendia a protecção que
uma concubina negra oferecia a uma esposa.
-Não, sinhora, num sabe nada, mêrno nada -foi tudo o que Blanche
conseguiu arrancar de Lucrécia Bórgia, que se plantou na sua frente,


de pernas bem abertas e pés solidamente fixados no chão, decidida
a não trair o seu jovem patrão.
Blanche, apesar de procurar bem, não conseguiu reunir as provas
que desejava. Sentia-se confusa. Não se teria ressentido do facto de

o marido andar com diversas fêmeas, mas saber que ele se
interessava por uma só, despertava a sua ira. Comparou a beleza de
Ellen com a sua, em detrimento da escrava; e que perversidade de
gosto poderia levar um homem a preferir urna preta a uma branca?
Para a branca, não havia tonalidades intermédias -preto ou branco.
Nem sequer acreditava que se tratasse de preferência, mas de uma
simples concessão à frigidez da branca, que não podia admitir por
não a sentir. A sua mãe, pudica corno convinha a uma
Hammond, tinha-a avisado, com muitos rodeios, de que a
fidelidade de um homem não era de conta da mulher e esta deveria
submeter-se às atenções do marido ou ao seu desinteresse com toda
a equanimidade que fosse capaz de apresentar. Mas ela achava que
o desinteresse chegara cedo demais!
Blanche não podia, por diversos motivos, apresentar a sua queixa
directamente ao marido, acusá-lo do seu interesse pela fêmea. Não
tinha provas directas; apenas sabia aquilo que Tense revelara
inocente e inadvertidamente. Ele admitiria o pecado venial, mas
diria que se destinava à sua própria protecção. E como encontraria
ela palavras para a acusação, que constituía um assunto demasiado
delicado para ser expresso por uma senhora? Uma senhora não só
não tinha paixões, como não tomava conhecimento delas nos
homens e nos seus criados. Blanche era uma senhora; bastava olhar
para a cor da sua pele.
Além disso, o que era ainda pior, a acusação levá-lo-ia a
recriminações. Hammond, na noite do casamento, descobrira que
ela não estava virgem, assunto que ela se esforçava por esquecer,
mas sabia que, apesar de nã o ter voltado a falar dele, o marido não


o esquecera. Irritá-lo, só servia para o fazer recordar-se da sua
própria culpa. Não ousava fazê-lo.
Embora Hammond não revelasse abertamente as suas relações com
Ellen, pouco se esforçava por as esconder. Mais tarde ou mais cedo
Blanche viria a saber. Era algo que podia imaginar, de que tinha a
certeza. Mas não tinham todos os homens, todos os plantadores,
pelo menos, uma fêmea favorita, ou mesmo duas? Oh, havia alguns,
de que ele sabia, que fingiam urna espécie de castidade, mas ele
duvidava da sua longa resistência. Claro, havia velhos e homens
impotentes, cujas abstenções eram forçadas. 0 seu pai, embora não
cronologicamente idoso, estava incapacitado de o fazer pelo seu
reumatismo; mas Hammond não duvidava do anterior interesse do
seu pai pelas relações com as negras. Não havia motivos para
duvidar, pois não havia negação. 0 interesse de Hammond pela sua
escrava era uma coisa natural e normal. Porque havia ele de ser
diferente?
A única consolação que Blanche tinha eram os seus bonitos
vestidos. Quanto a esses, Hammond mantivera a sua palavra. E
haveria mais, um fornecimento que não mais acabaria. Quando
Hammond, num sábado à tardinha, trouxe para casa os três
vestidos, Blanche não conseguiu cear nem permitiu a Tense que o
fizesse. Um após outro, com a ajuda de Tense, enfeitou-se com eles e
desceu a escada para os mostrar aos MaxwelI, cuja admiração era
superficial e sem grande entusiasmo. A satisfação deles não residia
nos vestidos propriamente ditos, mas no prazer que
proporcionavam à rapariga. Não sabiam que um dos factores desse
prazer era a atracção que ela pensava que os vestidos exerciam
sobre o marido. Deveria estar irresistível. Fazia o contraste entre ela
própria, com os seus vestidos elegantes, e Ellen, com os seus
vestidos baratos. Ela mostraria àquela rameira negra qual era a mais
bonita.


Ao ir para a cama nessa noite, concluiu que os vestidos tinham
triunfado, quando Hammond mandou Tense para a cozinha, para
poder ficar só com a mulher. Na realidade, o triunfo não era dos
vestidos, mas do prazer que Blanche sentira por os ter, do seu
encanto e da sua alegria e animação, que o tinham conquistado.

Depois disso, Blanche usou constantemente os seus vestidos novos,
mudando-os três vezes por dia só para se ir sentar em frente do
sogro, a beber os seus toddies. A sua alegria em breve definhou,
porém, especialmente porque não podia ir a parte alguma para os
mostrar e ninguém vinha a Falconhurst. Além disso, estavam
apertados. Cada vez mais se deixava ficar no quarto, onde podia
alargar o corpete do vestido, vestindo-se apenas para descer para as
refeições.

Mas faltava-lhe a conversa com Maxwell e os seus toddies. À
medida que o tempo aquecia, os vestidos tornavam-se mais
desconfortáveis, e Blanche mandou Dido fazer-lhe algumas batas de
algodão azul, simples invólucros para a sua figura e que, se fossem
brancas, poderiam passar por camisas de dormir. Hammond não
aprovava inteiramente que ela usasse tais roupas na presença do
pai, mas Blanche fez-lhe ver que usava roupas interiores por baixo
das batas, e sapatos e meias. Estava totalmente vestida,. mas sentia-
se confortável. Nada havia para ele protestar. Contudo, ele não
gostava das batas de algodão, não lhe agradava que a mulher se
vestisse como uma escrava. Podia aparecer alguém. Nesse caso,
disse Blanche, ela iria para o seu quarto e vestir-se-ia antes que os
visitantes a pudessem ver.

À medida que o Verão ia avançando, a rapariga ia tirando mais
roupas interiores, deixando no quarto uma peça, num dia, outro no
outro. Apesar do calor, continuava a beber os toddies quentes, por
causa das suas persistentes dores de cabeça, confiando na brisa do


seu leque para se manter fresca. Certo dia desceu sem sapatos,
queixando-se de que o calor lhe fizera inchar os pés. Hammond
olhou para os seus pés descalços, mas, em face do motivo, conteve
as suas censuras. No dia seguinte, ela apareceu com os pés
totalmente nus. Não eram nada bonitos. Na realidade estavam
inchados, com a pele pálida esticada. As articulações tinham calos
incipientes, os dedos estavam curvados pelo uso prolongado de
sapatos demasiado pequenos. 0 comprimento excessivo dos dedos
grandes dos pés, era agravado pelo aspecto das longas unhas mal
cortadas e sujas.

Blanche, descalça, com uma simples bata de algodão, o cabelo louro
por pentear, caído, as faces avermelhadas pelo calor e os olhos
turvos do uísque, pouco se assemelhava à rapariga de vestido de lã
estampado com que Hammond se casara alguns meses antes. Mas
era branca; e ele estava casado com ela.

Cada vez aproveitava com mais frequência a desculpado calor do
Verão para se ausentar do quarto da mulher. Na sua própria cama
não era forçada a usar roupa interior e, estando sozinha, Blanche
podia desabotoar a gola da sua camisa de noite.

Numa dessas noites, em fins de junho, Ellen estava deitada na cama
do seu amo. Fazia demasiado calor para se amarem, demasiado
calor até para dormir, e eles encontravam-se separados, a rapariga
apoiada sobre um cotovelo, agitando o leque sobre o corpo
reclinado do homem.

-Já chega-observou Hammond. -já me sinto fresco, agora. Estende-
te e vê se dormes. Não preciso que me abanes como se eu pudesse
derreter-me. Não sou de manteiga, ou coisa parecida.
A rapariga limitou-se a inclinar-se, para lhe beijar o ombro nu, e


continuou a abaná-lo.
-0 meu patrão tem calor e sabe que eu gosto de fazer isto.
-Não há necessidade -disse ele, espreguiçando-se regaladamente e
erguendo os braços para neles anichar a cabeça, e poder aproveitar
melhor a brisa do leque. -Isto faz-me lembrar o tempo em que eu
era pequeno; a minha mãe mandava a Lucrécia Bórgia sentar-se
junto da minha cama e abanar-me, para eu dormir, nas noites
quentes, por vezes durante toda a noite -recordou ele. -A Lucrécia
Bórgia deixava-me dormir nu, como agora estou, embora a minha
mãe quisesse que eu dormisse de camisa.
-Já têm a Lucrécia Bórgia há muito tempo.
-Antes de eu nascer; antes de o meu pai casar com a minha mãe.
Não sei onde o meu pai a arranjou; talvez ela fosse gerada aqui
mesmo em Falconhurst. já está a ficar velha, deve ter uns trinta e
cinco. Ainda procria bem, está cheia outra vez. Começa a ficar mais
gorda. já notei esta manhã.
-Ela diz que eu estou -anunciou a rapariga.
-Estás o quê?
-Cheia. Hamniond sentou na cama.
-Quando? Quando é que a Lucrécia Bórgia disse isso@
-Ontem. -Ellen falava em tom casual. -Eu não percebo nada disso.
Ela diz que me faltou um período.
-Isso não quer dizer nada. É conversa de negra. Deita-te -ordenou
Hammond, passando a mão apreciativamente pelo abdômen da
rapariga. -Os seios doem-te? Notas alguma coisa?
-Sinto comichões neles, e doem um bocadinho, não muito. E
parece-me que cresceram um bocado.
-Talvez a Lucrécia Bórgia saiba. Ela costuma perceber dessas coisas.
-Está zangado? -perguntou Ellen, em tom contrito.
-Zangado?
-Zangado comigo? Eu não pude evitar, foi o patrão que o fez.
Hammond riu silenciosamente. Passou o braço por baixo do corpo
de Ellen, puxou-a para si e beijou-a na boca.



-Aí tens como eu estou zangado -declarou ele. -Eu quero que isso
suceda.
-Mas depois já não me quer mais -e a rapariga começou a chorar. Vai
dar-me a um dos trabalhadores, mas não a um preto, não a um
preto!
Estava demasiado escuro no quarto para Ellen poder ver o sorriso
que se espalhou pelo rosto de Ham.
-Ellen, querida, eu não te dou a ninguém. Tu és minha, minha. Tu e
eu vamos ter uma data de filhos, um grupo deles, um em cada ano.
-E a Sukey e as outras?
-Era diferente. Estavam à mão. Eu não ia pagar ao velho Wilson mil
e quinhentos dólares para te ter comigo só três ou quatro meses.
Não, senhora. Tens um filho meu dentro de ti, não te venderia por
quinze mil.
-Acha que eu estou ...
-Se te faltou o período e te incha o peito, talvez a Lucrécia Bórgia
tenha razão. Pelo menos se não tem, acaba por ter. Da maneira
como nos portamos, não há-de levar muito tempo.
-Será um rapazinho?
-Acho que sim. Costumo fazer rapazes. Até agora só fiz machos.
Até hoje não nasceu nem uma rapariga nem nenhum aleijado.
-Acha que a miss Blanche vai ter um macho, quero eu dizer, um
menino?
-Se chegar a ter algum. Não tenho andado a proceder bem com ela,
está muito calor, e com aquela roupa toda... Mas tenho que o fazer.
-A Lucrécia Bórgia diz que a miss Blanche, que ela anda a vomitar
todas as manhãs e temos pés inchados; Lucrécia Bórgia acha que é
um sinal.
-Lucrécia Bórgia acha multa coisa. Sabe tudo antes de suceder.
Tenho que a impedir de se meter no que nã o lhe diz respeito.
-Não quer que a miss Blanche tenha um filho? A inflecção de Ellen
transformou a sua especulação numa pergunta. Hammond negou
rapidamente que fosse o caso.



-Claro que quero e o meu pai também. Claro que quero. Mas a
Lucrécia Bórgia que se deixe estar quieta. Que tem ela que a Blanche
vomite? Que tem ela que os pés lhe inchem? Que tem ela que a
barriga lhe aumente de tamanho, o que ainda não sucedeu? A
Lucrécia Bórgia não tem nada com isso.

0 tempo pusera-o irritável. Ellen aceitou o seu ar rabujento,
satisfeita por ser Lucrécia Bórgia e não ela o alvo da sua irritação.
Ficou em silêncio, mas continuou a agitar o leque sobre o corpo nu,
muito tempo depois de ele lhe ter voltado as costas e adormecido.
Não havia lua e o quarto estava tão escuro que ela apenas conseguia
distinguir um vago contorno do homem, para cujo corpo olhava
com adoração. Com a súbita contracção de um músculo da sua
perna rígida, Hammond mexeu-se no sono, e Ellen acariciou-lhe um
ombro, para o sossegar.

Quanto a ela própria, Ellen esperava que Lucrécia Bórgia não se
tivesse enganado, uma vez que Hammond não se importava de que
ela tivesse um filho. Nasceria antes do filho da patroa? Podia bem
nascer, calculava ela; o patrão tinha-lhe concedido os seus favores
durante meses, antes de se casar com miss Blanche. Uma onda de
violento ódio ciumento pela esposa dele invadiu a rapariga, uma
onda de paixão culpada que não podia controlar. Sabia bem que era
ela a intrusa, a açambarcadora. 0 patrão viria ter com ela por a
preferir, ou apenas para aliviar a mulher da obrigação de se lhe
submeter? Porque não gostariam as brancas de fazer amor? Onde
estaria a diferença entre brancas e pretas? Ela pensava em si própria
como preta, e gostava da sua cor; não trocaria o êxtase que sentia
com as carícias do seu amo pela casta frigidez duma esposa.
Pensava odiar mais Blanche pela sua frigidez, do que pela ocasional
ausência dela. Para que queria um homem uma mulher que apenas

o tolerava?

Seria custoso, Ellen sabia-o, mas acreditava que estaria disposta a
prescindir dos abraços de Hamniond, se ele obtivesse a mesma
satisfação no leito de Blanche. Nas noites que Hammond passava
com Blanche, Ellen agitava-se na cama, chorando lágrimas de
agonia, mas não punha em questão o direito que a mulher tinha
sobre ele, semelhante ao seu dever de o receber. Eram ciúmes,
admitia para si própria, mas não ódio. Mas agora odiava-a, agora
desejava a Blanche desastres, doenças, aborto, morte. Matá-la,
significaria afastar o seu amante branco e impediria os seus
propósitos. Se pudesse envenená-la secretamente! Não podia haver
rivalidade -a outra era branca. 0 assassínio era a única solução.

Ellen sentia-se aterrorizada corri a ideia de que Harrimond pudesse
adivinhar as suas fantasias. Dormiria profundamente? Se acordasse
agora, poderia adivinhar o que ela estava a pensar? Quanto mais
tentava abafar os maus pensamentos, mais eles se introduziam na
sua mente. Não conseguiu dormir e, quando Hammond acordou, à
luz fraca do falso amanhecer, sentiu o fresco ainda antes de se voltar
para a rapariga, que estava reclinada sobre o cotovelo, agitando
pacientemente o leque para tornar o seu sono confortável.
Ralhou-lhe por ela não ter dormido, mas não deixou de notar a
dedicação que a impelira à vigília. A mulher aceitou a sua censura
como um louvor e realmente assim era.

Capitulo vigésimo oitavo


Blanche estava sentada ao lado do Maxwell mais velho,
balouçando-se na cadeira e abanando-se com urna mão, enquanto


com a outra ia levando o seu toddy à boca, quando Hammond
chegou para o pequeno-almoço. Os dois estavam sempre juntos e
era impossível ao filho conversar a sós com o pai. Isso raramente
tinha importância, visto que eles pouco tinham a discutir em
segredo. Contudo, nesse dia Hammond estava ansioso por revelar
notícias que se destinavam apenas aos ouvidos do pai. Novamente
ao meio-dia, quando Hammond regressou dos campos de algodão,
encontrou a mulher com o pai. Demorou-se, depois do jantar, na
esperança de que ela se retirasse.

Ao fim da tarde, Hammond estivera a nadar no rio para se refrescar
do suor do dia abrasador. Depois voltara ao campo e passara a
cavalo entre os trabalhadores que estavam tão exaustos como ele
estivera antes de nadar, e mandou-os embora com o Sol ainda alto
no céu. Foi mais a sua impaciência por voltar para casa que a
consideração pelos negros que o levou a parar o trabalho antes de o
Sol se pôr.

Novamente encontrou a mulher com o pai. Deixou-se cair na sua
cadeira, mas não quis um toddy. Maxwell despejou o que estava a
beber e chamou Meirmon para o levar para fora. Hammond seguiu-

o e esperou que o pai e o escravo saíssem da latrina.
-Vai-te embora -disse ao negro. -Eu levo-o de volta. Esperou até
que o negro se afastasse o suficiente para não os poder ouvir e
revelou o seu segredo:
-A Blanche está grávida! -disse.
0 pai não revelou qualquer emoção, apenas perguntou:
-Foi ela que disse?
-Foi a Ellen que disse. -Perante o olhar de espanto do pai pela sua
fonte de informação, o filho elucidou: -Ellen diz que a Lucrécia
Bórgia lhe disse. A Blanche tem andado a vomitar.

-Julgo que a Blanche nunca o diria. E uma Harrimond, recatada.
Como a tua mãe: só soube que tu estavas para nascer dois meses
antes, e mesmo assim custou-lhe a dizer-me. Só percebi por a ver
tão gorda.
-A Ellen também -acrescentou Ham.
-A Ellen o quê?
Também está grávida. Pensa que está, pelo menos. Então está. As
negras sabem e têm liberdade para falar disso. -
Maxwell parou, a meio do caminho, e riu-se alto: -Logo duas! Logo
duas! Tu és potente como aquele mandingo. Tenho orgulho de ti,
meu filho, mesmo muito orgulho!
0 filho também se sentia orgulhoso da sua proeza. Fez um esforço
consciencioso para controlar o andar, de modo a não coxear quando

o pai recomeçou a caminhar, para regressar a casa.
-Claro -disse o velho, modificando o tom de orgulho -tens que ter
cuidado. Não quero que te excedas. Dois bastam, para um Verão.
-Tenho aspecto de me aproximar duma tísica galopante? -
Hammond olhou para baixo, para o seu próprio corpo vigoroso,
como resposta à sua pergunta. -Além disso, está a esquecer-se da
Dite -acrescentou.
-Isso foi no Inverno, passado. Vi-a há uma semana. já está a encher
bem. Quando fica ela desocupada, outra vez?
-Agosto, Setembro, penso eu.
-E uma sorte, não é, que a Blanche e a Ellen dêem à luz ao mesmo
tempo?
Hammond esperou, em silêncio, por urna elucidação.
-Podemos entregar o bebé da Ellen à Pérola Grande ou a qualquer
outra, e ela pode dar o peito ao bebé da Blanche -prosseguiu
Maxwe11. -É sempre bom ter uma fêmea com leite fresco pronta
para a criança.
0 "não" do filho foi categórico. Parou e disse:

-Se Ellen tiver um filho, fica com ele. Ela própria o amamentará.
Mesmo que a Blanche tenha de amamentar ela própria o que tiver.
A Ellen vai ...
-Então! Então! -disse o velho, tentando enternecer o filho: -Alguma
fêmea há-de ter leite. Nenhuma branca vai estragar o peito a dar de
mamar ao seu filho; tu sabes isso. Há-de se arranjar outra.
-A Ellen não! Vai precisar do leite para o filho dela.
-Estás muito interessado nessa fêmea, não estás, Ham? -Não havia
censura na voz do pai. -Penso que é por o filho dela ser teu. Está
certo. Não estou a dizer que ...
Como se aproximavam da casa, ficaram os dois em silêncio e,
quando entraram, viram Blanche retirar-se da janela, pela qual
compreenderam que ela estivera a espiá-los. Um certo embaraço
dominou o trio.
Incapaz de conter a sua curiosidade, Blanche perguntou, finalmente:
-De que estavam a falar? De alguma coisa, com certeza!
-Estava a dizer ao meu pai que temos de preparar o lote de
escravos para venda neste Outono, é tempo de começarmos a
engordá-los -respondeu Hammond brandamente.
-É verdade. Temos de começar a escolhê-los e a aprontá-los.
Blanche não compreendeu, pela maneira como Maxwell se agarrou
ao assunto, que não fora esse o tema da conversa no exterior.
-Eu também vou! Vou, não vou? Nunca estive em Nova Orleães. Eu
também vou! -declarou ela, com um entusiasmo temperado pela
dúvida.
0 velho esperou que o filho respondesse. Se ela estivesse grávida
naquela altura, no Outono a gravidez estaria tão adiantada que a
impediria de fazer a viagem, que, de qualquer maneira, era
nitidamente impraticável.
-Com negr